Breves Considerações sobre a Edda Poética e a



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Breves Considerações sobre a Edda Poética e a Edda em Prosa
PALAMIN, Flávio Guadagnucci
Resumo:Esta trabalho tem como objetivo apresentar e analisar as características das duas mais importantes fontes de estudo da mitologia escandinava da Era Viking (séculos IX ao XI) a Edda em Prosa e a Edda Poética, bem como os referenciais utilizados para se trabalhar com a Edda Poética. Chamamos de ‘Era Viking’ o período entre os séculos IX e XI, no qual se deu a se deu a expansão do território viking e o conhecimento de sua existência à outras culturas. Formados por variadas tribos vindas principalmente da Escandinávia, os vikings tinham em comum suas crenças religiosas e seu modo de vida. A Edda Poética é um conjunto de poemas de temáticas mitológicas e heróicas, compilada em, aproximadamente, 1270 d.C. a qual apresenta, entretanto, marcas evidentes das antigas tradições orais presentes durante a Era Viking. A Edda em Prosa, de autoria de Snorri Sturluson é dividida em três partes, na primeira, Gylfaginning, é contada a viagem do rei Gylfi à Asgard, a morada dos deuses, onde, por meio de um dialogo entre Gylfi e os deuses nórdicos, Sturluson nos apresenta um apanhado de informações sobre o surgimento do mundo e dos deuses. A segunda parte, Skáldskaparmál, “Dicção Poética”, é apresentado sob a forma de diálogo sobre a arte poética entre o habilidoso mago Ægir (que como o rei Gylfi parte para Asgard) e o deus Bragi. Um dos objetivos de Skáldskaparmál é apresentar os sinônimos e metáforas (heiti e kenningar) característicos da arte poética. Tratamos também, da cristianização da Escandinávia e da colonização da Islândia. Neste caso, devido às características da Edda Poética, assim como a Edda em Prosa e outras fontes do período, não se deve optar por dois lados opostos, onde, ou se trabalha com as fontes negligenciando a presença do cristianismo, ou as considera apenas como representações de uma sociedade cristã posterior. Acreditamos que se deva trabalhar com essas fontes da maneira proposta tanto por Sorensen quanto Eliade, em que se considerem as inserções cristãs, presentes em alguns mitos, como recursos literários que não influenciam na essência dos mitos. Afinal, “a visão corrente é que a poesia eddica, aliada aos mais antigos versos da poesia escáldica do século IX, proporcionam a melhor ‘pista’ sobre o pensamento religioso dos antigos escandinavos”(DRONKE, 1992, apud BOULHOSA, 2004, p.5).Tanto no caso da Edda Poética quanto no de diversas outras fontes escritas referentes à religiosidade dos povos da Era Viking a maior parte dos poemas usados em suas composições tem origem em uma tradição oral. Apresentaremos as considerações de Marcel Detienne sobre a questão da oralidade no caso grego, trazendo-as ao caso nórdico. Mostraremos também a proposta metodológica que vem sendo aplica com sucesso por pesquisadores como Ciro Flamarion Cardoso e Johnni Langer, pautadas na metodologia semiótica de Todorov.

Palavras-chave: Edda Poética, Edda em Prosa, Mitologia Escandinava, Era Viking.

EDDA POÉTICA
No que se refere à Edda Poética, algumas características devem ser apresentadas de partida. Formada pelo manuscrito Codex Regius nº2365, o qual conta com 29 poemas, à Edda Poética como conhecemos hoje foram acrescentados 4 poemas. Todos os poemas são de autoria anônima, escritos entre os séculos X e XII. Entretanto, a ambientação desses poemas remontam aos séculos IX e X, período em que a Islândia enfrentava um proto-letramento, um período de tradição oral, em que os poemas e, por conseguinte, as tradições míticas, não eram escritas, ocasionando certas alterações, ocorridas nas apresentações de escaldo para escaldo, até sua conservação em manuscritos. Desse modo, podemos considerar que a fonte “apresenta, porém, marcas evidentes de vários estratos de formas mais antigas das tradições veiculadas” (CARDOSO, 2005, p.33).

Devemos considerar que a Edda Poética


foi compilada no período inicial da cristianização e da adoção do latim na Escandinávia, pelo que as variações narrativas da cultura oral ainda sobreviviam – dentro do que Paul Zumthor classifica de oralidade mista, isto é, a tradição oral influenciada pela existência da escritura. (LANGER, p.54)
Em outras palavras, não foi de uma hora para outra que a tradição oral deixou de existir e em seu lugar só houvesse a escrita, pelo contrario, ambas coexistiram. Desse modo com a chegada da do cristianismo mesmo antes da adoção da escrita, podemos ver sua influencia em ambas as tradições. Entretanto, passagens que apresentam qualquer forma cristã não podem ser tidas somente como um avanço da religião, mas também como, simplesmente, um sinal de que ela estava presente. Explicando melhor, assim como afirma Berg(Apud LANGER, 2006, p.49), existem diferenças entre a linguagem poética (que seria um discurso individualizado) e a linguagem mítica (que seria produto de uma coletividade) nas fontes eddicas. Desse modo, as relações existentes com o cristianismo nos poemas eddicos, podem exprimir somente um novo recurso artístico ao poeta, e não uma mudança na forma da religiosidade desse povo. O que ocorria era que na era Viking, em particular, o cristianismo era certamente uma fonte de inspiração para os poetas, que eram os guardiões dos mitos nórdicos (SORENSEN, apud LANGER, 2006, p.60). Nesse caso, há de se considerar o que foi dito por Eliade, que apesar de reinterpretadas, não significa, evidentemente, que essas Grandes Mitologias tenham perdido sua “substancia mítica” e que não passem de “literatura”. (ELIADE, 1992, p.10)

Devido às características da Edda Poética, assim como a Edda em Prosa e outras fontes do período, não devemos optar por dois lados opostos, onde, ou se trabalha com as fontes negligenciando a presença do cristianismo, ou as considera apenas como representações de uma sociedade cristã posterior.

Nossa escolha é a de trabalhar com essas fontes da maneira proposta tanto por Sorensen quanto Eliade, em que consideramos as inserções cristãs, presentes em alguns mitos, como recursos literários que não influenciam na essência dos mitos. Afinal, “a visão corrente é que a poesia eddica, aliada aos mais antigos versos da poesia escáldica do século IX, proporcionam a melhor ‘pista’ sobre o pensamento religioso dos antigos escandinavos”(DRONKE, 1992, apud BOULHOSA, 2004, p.5)

Chamamos de ‘Era Viking’ o período entre os séculos IX e XI, no qual se deu a se deu a expansão do território viking e o conhecimento de sua existência à outras culturas. Formados por variadas tribos vindas principalmente da Escandinávia, os vikings tinham em comum suas crenças religiosas e seu modo de vida. Considerando-os “orgulhosos, aventureiros, ansiosos pela glória, desejosos de se sobressaírem em batalhas e com certo desprezo pela morte” (BRONSTED, 2004, p.23), podemos compreender o motivo pelo qual “a violência e as batalhas estavam sempre presentes na vida dos homens do período pagão no norte da Europa.” (DAVIDSON, 2004, p.39) e, consequentemente, o porquê de seus mitos valorizarem os ideais de vida do guerreiro.

Ao analisarmos as formas como são representados os dois principais deuses da mitologia viking, Odin e Thor, nossas afirmações ganham maior embasamento: dentre os deuses do panteão nórdico, Odin é o supremo: uma figura magnífica, dominadora, demoníaca e sádica. Em sua busca por sabedoria Odin enforca-se, perfura seu corpo com sua lança e sacrifica um de seus olhos. É o deus da guerra e dos guerreiros mortos. Em seu palácio Valhall é representado sentado em seu trono Hlidskialf, de onde pode observar os nove mundos, acompanhado de sua hoste de guerreiros mortos com seus dois lobos sentados a seus pés. Possui também dois corvos, Hugin e Munin (seus nomes significam, respectivamente, pensamento e memória) que voavam durante o dia pelos nove mundos e à noite voltavam trazendo as informações coletadas à Odin. É dono do cavalo de oito patas Sleipnir, com o qual cavalga por entre os céus, montanhas e florestas.

Além de ser o deus mais cultuado pelos escandinavos,


De todos os deuses, Thor é o herói mais característico do tempestuoso mundo dos vikings. Barbudo, franco, indomável, cheio de vigor e energia, ele põe toda sua confiança em seu braço forte e suas armas simples. Ele caminha a passos largos pelo reino dos deuses, um símbolo apropriado para o homem de ação. (DAVIDSON, 2004, p.61).
Thor é o deus que melhor representa o ideal do guerreiro viking, sempre em busca de aventuras e batalhas; é geralmente representado como o matador de gigantes, o protetor de Asgard (a morada dos deuses) e do mundo dos homens.

Mesmo se considerarmos o homem camponês, este também esta inserido nesta sociedade violenta, sujeito aos mesmos perigos e, portanto, aceita os mesmos preceitos destinados aos guerreiros, assim como o provérbio apresentado em um dos poemas da Edda Poética, “Um homem não deve se afastar uma polegada se duas armas quando nos campos, pois ele nunca sabe quando precisara de sua lança” (BRONSTEED, 2004, p. 230). Desse modo, “A literatura heróica é baseada em uma sociedade inquieta, acostumada à violência e à brevidade da vida.” (DAVIDSON, 2004, p. 59).



COLONIZAÇÃO DA ISLANSIA E A CRISTIANIZAÇÃO DA ESCANDINAVIA
No Livro das Colonizações, Landnámabók, escrito no século XII, encontramos duas versões de como se deu a descoberta da Islândia: ou teria sido descoberta pelo viking norueguês chamado Naddoður, ou pelo sueco Garðarr Svavarsson, que teria se perdido numa tempestade. Entretanto, ambas as versões concordam em dois aspectos: primeiro que o nome Islândia fora dado pelo norueguês Flóki Vilgerðarson, que teria tentado e falhado em habitar o país, onde perdera todo seu gado durante um rigoroso inverno (Islândia, Ísland, significa, literalmente, “Terra de Gelo”); segundo “que a descoberta da Islândia por noruegueses foi uma conseqüência da ânsia insaciável por viagens de aventura entre os povos escandinavos durante a Era dos Vikings” (OLIVEIRA, 2009, p.39-40). Apesar das adversidades da grande ilha, com costas recortadas, geleiras e vulcões, em 874 d.C. o primeiro colonizador norueguês permanente chegou à Islândia.

O período de colonização se deu entre 874 e 930 d.C e seus colonizadores, os “denominados landnámsmenn (i.e., ‘tomadores de terra’) pelas gerações posteriores, eram homens e mulheres que reivindicavam seus próprios interesses.” (OLIVEIRA, 2009, p.40). Segundo Oliveira, durante os aproximados 60 anos da colonização, entre 10.000 e 20.000 pessoas imigraram para a Islândia, levando consigo utensílios animais domésticos e mercadorias. Esses colonizadores levaram consigo, também, sua religião e seus deuses, como Odin, Thor, Freyr e Tyr.

Essa nossa pequena apresentação sobre a colonização da Islândia por escandinavos se deve (como se verá mais a frente) pelo fato de a grande maioria das fontes literárias sobre a religiosidade da Europa Setentrional, contos heróicos, ou mesmo da história política da própria Escandinávia, ser proveniente da Islândia.

Segundo Peter Brown, ainda no século IX os habitantes da Escandinávia se mantinham fiéis aos seus deuses, graças ao vigor e à sorte sobre-humanos que somente esses poderiam lhes dar para sobrepujar seus inimigos. “Era possível que Cristo, o deus franco, fosse aceite; mas teria que corresponder às expectativas dos guerreiros.” (BROWN, p.314). Não somente guerreiros, os vikings também foram grandes comerciantes, e fora, também, a partir desse comercio que a fé cristã foi se espalhando pela escandinava, como no exemplo de um “punho de uma espada franca encontrada na Suécia ornamentado com um verso dos Salmos: ‘Abençoado seja Deus, que preparou as minhas mão para a guerra e meus dedos para o combate’[Salmo 144:1]” (BROWN, p.314). A aceitação da arma, com tal inscrição, pode ser compreendida numa mesma tradição dos vikings com as runas, uma escrita diretamente ligada à magia e à religiosidade desse povo.

Ainda no tocante às maneiras que a fé cristã adentrou a Escandinávia, Peter Brown aponta ainda mais sobre o espírito guerreiro viking: “Mas um ‘viquingue’ era um rei empreendedor que se lançara pelo caminho da guerra, pela vik, à procura de saque e prestigio [...] Dentro em pouco, a Escandinávia viu-se inundada de riquezas cristãs, escravos cristãos e idéias cristãs.” (BROWN, p.315).

Ao ano 1000 d.C., com as nações escandinavas já cristãs, a Islândia se via sob a pressão da conversão dos lideres cristãos. Peter Brown (p.318) aponta que, devido à falta de chefes e à distancia que separavam os povoados da Islândia, “a lei era a única coisa que tinham em comum. A divisão entre pagãos e cristãos destruiria necessariamente o pouco consenso que existia nestas sociedades frágeis.” Desse modo, nesse mesmo ano, foi realizada a reunião da assembléia geral islandesa, onde, apesar das declarações de pagão e cristão de que não viveriam sob as mesmas leis, fora decidido que a fé cristã seria adotada na Islândiai (COSTA; BIRRO, p.23), entretanto, com algumas condições:


Então foi declarada a lei que toda a pessoa deveria ser cristã e aceitar o batismo, inclusive quem não fora batizado nesta terra. Mas, da antiga lei, o abandono de crianças e a ingestão de carne de cavalo deveriam ser mantidos. As pessoas teriam que fazer sacrifícios em segredo caso quisessem evitar o banimento por três anos, o que aconteceria caso fossem descobertas. Alguns anos depois, aquela prática pagã foi abandonada, assim como as demais [Íslendingabók, 7]. (COSTA; BIRRO, p.23).
A própria figura de Cristo fora representada de diferentes formas na literatura islandesa. Em uma delas, como inimigo, Cristo era oposto às divindades nórdicas. Nesse contexto, em sua maioria na literatura das sagas, Cristo, enquanto o rei dos céus, deveria “cumprir a antiga função que os deuses mantinham no mundo Viking: combater a fome e todo problema cotidiano, perpetuar a lei e a ordem, criar um referencial modelar tanto de comportamento quanto de ética, perpetuar o equilíbrio e a ordem do universo.” (LANGER, p. 188). Sendo o deus mais cultuado da Escandinávia, Thor era geralmente representado em duelo com Cristo, já que os clérigos argumentavam que os dois eram irreconciliáveis e, desse modo, não era possível acreditar em ambos. (OLIVEIRA, 2009, p.24). Ao vencer Thor, fica representado um “demonstrativo tanto da superioridade do cristianismo quanto de uma necessidade de substituir uma forma religiosa por outra que atendesse os anseios sociais e simbólicos das comunidades” (LANGER, 2006, p.189). Em outra forma de representação, Cristo aparece como adotado e reconhecido: “Ele acabou encarnando os antigos ideais tão valorizados pelos Vikings: um homem reputado por seu comportamento heróico, digno de uma Saga.” (LANGER, 2006, p.189). Entretanto, foram levados cerca de 100 anos para que os rituais cristãos fossem totalmente incorporados pelos islandeses. (OLIVEIRA, 2009, p.30)
ORALIDADE, LETRAMENTO, RUNAS, ESCALDOS E AS SAGAS
Para termos uma melhor compreensão das Eddas devemos contextualizá-las na literatura da qual fazem parte. Sendo esta iniciada em uma tradição oral, a qual teve seu período de maior produção de narrativas, na Escandinávia, de 875 a 1100. A escrita latina só seria aderida em 1100 e no ano de 1150 tendo sido iniciado a produção de manuscritos (BELLOWS, 2004, p. xxi). Langer (2006) discute a questão dizendo que tal tradição oral fora propagada pelos escaldos (poetas escandinavos) a partir de repetições das narrativas, cantos e poemas apresentadas a platéias, onde tal repetição se daria mais pela utilização de formas e temas do que pela memorizaçãoii. Não devemos, contudo, considerar esse período de tradição oral como puro, livre da parcialidade do escaldo, onde tal seria tido como alguém analfabeto e ‘funcionando’ apenas com seu público, em uma suposta oposição ao posterior período da predominância da escrita latina, em que ele já seria altamente intelectualizado e racionalista.” (LANGER, 2006, p. 57). Tanto a tradição oral quanto a escrita estão sujeitas às influencias de seu contexto social.

Antes da adoção da escrita latina e durante esse período de tradição oral, houve uma outra forma de escrita na Europa Setentrional: as runas. Tal escrita fora inventada pelos germanos no século II d.C. e aderida no século VII d.C. pelos nórdicos, sofrendo nesse processo uma alteração de 24 caracteres iniciais, para 16 no chamado “Ultimo Futhark”. (BRONSTED, 2004, p.187). Essas runas estão diretamente ligadas à magia e à religiosidade desses povos. Sua origem religiosa encontra-se no mito em que o deus Odin enforca-se na arvore central do universo Yggdrasil e após nove dias enforcado e transpassado por sua lança descobre a escrita mágica das runas. Sobre a magia das runas, era comum guerreiros colocarem inscrições rúnicas em suas armas a fim de aumentar seus poderes, ou mesmo em pedras próximas à sepulturas a fim de beneficiar o morto. (BRONSTED, 2004, p. 186). “As runas podem ser usadas, e de fato eram usadas nas sagas, de várias maneiras: para guerra, para a sorte no amor, para prosperidade etc.” (OLIVEIRA, 2009, p.48). Entretanto, tal escrita deveria ser utilizada por aqueles que soubessem de suas propriedades mágicas para que as escrevessem:


Ninguém deve jamais entalhar runas, / A menos que seja capaz de lê-las bem, / Muitos foram os que se enganaram, / Com essas letras enigmáticas; / Sobre um osso de baleia / Dez letras secretas foram entalhadas, / E foram elas as causadoras / De sofrimento e tristeza dessa donzela.iii (EGILS SAGA, cap. LXXIII, apud OLIVEIRA, 2009, p.48)iv
Apesar dessa origem mitológica e mágica das runas, ao fim da era viking elas já começavam a ser usadas para outros motivos. Foram usadas para a preservação de literaturas de temáticas religiosas, mas apenas em pequenas referencias. Nesse período foram utilizadas em maior escala em pedras comemorativas, onde os textos rúnicos nos falam das personalidades lideres dos círculos aristocratas, fazendo referencias à reis e príncipes, chefes e nobres, sobre a vida viking, guerreiros e ocupações de paz (BRONSTED, 2004, 187-195).

Tanto a recitação das poesias quanto a confecção das pedras rúnicas eram feitas pelo escaldo:

Existem alguns poemas escáldicos preservados em escrita rúnica, no caso, em runestones da ilha de Öland, Báltico sueco (a exemplo de Karlevi, Öl) e mesmo algumas passagens édicas foram preservadas em inscrições na rocha [...]. Apesar da dificuldade de preservação de textos mais longos que o registro epigráfico e monumental, é possível que o período Viking tenha conhecido outros tipos de conservação dos poemas, como inscrições rúnicas em madeira - infelizmente não preservadas – facilitando a memorização. (LANGER, 2006, p.59)
Um dos principais gêneros literários da Europa Setentrional são as sagas. Tal produção se deu de maneira mais significativa na Islândia dos séculos XI a XIII, tendo sua produção oral ocorrido no período de 930 a 1050 e os registros escritos de 1190 a 1320 (OLIVEIRA, 2009, p.39). “A palavra saga em islandês antigo significava aproximadamente o mesmo que os gregos antigos queriam dizer com epos: uma narrativa, algo contado, uma história (“história”, em sentido amplo, é o significado da palavra hoje em islandês).” (MOOSBURGER, 2009, p.118).

Diferentemente da literatura escáldica, baseados na métrica poética (como veremos melhor mais a frente) “Os textos das sagas são contos épicos em prosa, freqüentemente com estrofes ou poemas inteiros em versos aliterados corporificados no texto, que narram aventuras e feitos heróicos de épocas remotas” (OLIVEIRA, 2009, p.39).



Dentre as diversas categorias de sagas, três merecem destaque: as Konungasögur (“Sagas dos Reis”), que, como o próprio nome diz, contam da vida dos reis escandinavos; as Fornaldarsögur (“Sagas Lendárias”), as quais tratam de temas lendários e mitológicos; e as Íslendingasögur (“Sagas dos Islandeses” ou “sagas de famílias”). Esta ultima é a categoria de maior destaque, contando com 40 sagas de nosso conhecimento. Sua temática vai desde a colonização da Islândia às aventuras vikings. (OLIVEIRA, 2009, p.41).
EDDA EM PROSA E SNORRI STURLUSON
Vimos um pouco sobre algumas das formas e temas presentes em algumas das formas literárias da Europa Setentrional. Veremos agora de que maneira esse assunto é tratado na Edda em Prosa. Em Gylfaginning, a primeira parte da Edda em Prosa, é contada a viagem do rei Gylfi à Asgard, a morada dos deuses, onde, por meio de um dialogo entre Gylfi e os deuses nórdicos, Sturluson nos apresenta um apanhado de informações sobre o surgimento do mundo e dos deuses. A segunda parte da Edda em Prosa, Skáldskaparmál, “Dicção Poética”, é apresentado sob a forma de diálogo sobre a arte poética entre o habilidoso mago Ægir (que como o rei Gylfi parte para Asgard) e o deus Bragi. Um dos objetivos de Skáldskaparmál é apresentar os sinônimos e metáforas (heiti e kenningar) característicos da arte poética:
Then said Ægir: "In how many ways are the terms of skaldship variously phrased, or how many are the essential elements of the skaldic art?" Then Bragi answered: "The elements into which all poesy is divided are two." Ægir asked: "What two?" Bragi said: "Metaphor and metre."v (PROSE EDDA, p.96)
O trecho acima continua com a explicação de como se deve utilizar-se da metáfora. A própria Edda em Prosa, em sua primeira parte proporcionaria o material necessário para a aplicação dessa regra. O escaldo deveria usar esses sinônimos e metáforas em sua poesia, desse modo, ao se referir à Odin, por exemplo, poderia chama-lo de “o senhor das forcas” ou “senhor da Lança” (devido ao mito citado anteriormente onde o deus se enforca transpassado por sua lança). Sturluson da continuidade citando diversos escaldos islandeses e noruegueses, mostrando de que maneira esses utilizam as metáforas e sinonimos. Finalmente, a ultima parte da Edda em Prosa, Háttatal, “Lista de Métricas”, “é composto de 102 estrofes, redigidas em cem métricas diferentes com o objetivo de exemplificar a grande variedade dos versos correntes. Essas estrofes são acompanhadas de comentários que evidenciam as características individuais de cada forma métrica.” (BOULHOSA, 2004, p.16). Apesar de haver diferenças entre a sistematização da linguagem poética encontrada em apresentada no início de Háttatal daquela encontrada em Skáldskaparmál, existe a hipótese de que essa diferença pode ser explicada nos vários anos que Snorri Sturluson teria levado para concluir sua obra (BOULHOSA, 2004, p.16).

“Snorri Sturluson foi, em todos os sentidos, um produto de seu tempo”vi. (BRODEUR, 2006, p.x). Político, historiador e poeta, Snorri nascera na influente família Sturlungar em meio a intrigas, traições e assassinatos, nos quais ele mesmo participara ativamente a fim de ser o homem mais poderoso da Islândia, abrindo mão de amigos e da família em busca de sua ambição. Especula-se que Snorri tenha planejado trair sua pátria em nome do rei Hákon da Noruega, mas sua falta de coragem em cometer tal ato tenha causado sua morte. Pois Snorri, que ora fora o favorito da corte, após quinze anos sem obter resultados caiu em suspeitas por parte do rei norueguês. Seu assassino Gizurr, confirmou ter agito por ordens diretas do rei. (BRODEUR, 2006, p.xi)

Sua outra obra pela qual também é reconhecido é a Heimskringla. O nome da obra foi usado pela primeira vez no século XVII, derivada das duas primeiras palavras de um dos manuscritos (heimsins Kringla – ‘o círculo do mundo’). A obra é uma coleção de contos sobre os reis noruegueses, começando pela lendária dinastia sueca dos Ynglings, passando por históricos dirigentes noruegueses como Harald Hairfair do século IX, até o reinado de Sverrir, cinco anos após o nascimento do autor. Para compor sua obra, Snorri utilizou-se de
"oral tradition; written genealogical records; old songs or narrative lays such as Thiodolf's Tale of the Ynglings and Eyvind's Haloga Tale; poems of court poets, i.e., historic songs, which people knew by heart all from the days of Hairfair down to Snorri's own time. 'And most store,' he says, 'we set by that which said in such songs as were sung before the chiefs themselves or the sons of them; and we hold all that true which is found in these songs concerning their wayfarings and their battles.' (MAGNUSSON, apud BRODEUR, 2006, p.xiii)vii
Heimskringla consiste em vários capítulos, sendo cada um deles sagas. O que vemos na primeira delas é uma racionalização de Snorri (provavelmente derivada de sua formação cristã) ao tratar do inicio da dinastia real norueguesa apontando Odin como um homem mortal e seus seguidores do Oriente, de Asgard, a sua principal cidade, como conquistadores da Escandinávia. A mesma racionalização ocorre no prólogo da Edda em Prosa, entretanto, nesse caso, os deuses nórdicos teriam vindo de Tróia. No caso do prólogo da Edda em Prosa, é importante salientar que não se tem certeza da autoria de Snorri nesta parte da obra.
REFERENCIAIS TEÓRICOS
A partir do século XIX encontramos vários pensadores que elevam os estudos das manifestações religiosas a um estatuto de ciência. Durkheim, (2000) propôs uma analise sociológica para compreender a religião do homem denominado “primitivo”, a partir dos conceitos de sistema totêmicos, sagrado e sacrifício a partir de algum baseado no estudo das manifestações encontradas na Austrália. Max Weber (1985), ao analisar o desenvolvimento do protestantismo, afirmou a importância do desencantamento do mundo, ou os aspectos da racionalização da religião. Pierre Bourdieu (2001), a partir do conceito de campo social, desenvolve o conceito de campo religioso, pressupondo a possibilidade de análise das instituições religiosas e seus representantes, denominados grupos de especialistas. Dessa forma, podemos analisar as religiões e suas manifestações a partir do embate pelo monopólio dos bens de salvação. Jung partindo de princípios psicológicos para compreender como o homem busca na religião respostas para seus problemas mais profundos (JUNG, 2000, p.17).

A partir da década de 80 do mesmo século a presença dessa temática se fortalece nos estudos históricos com a quarta geração da Escola dos Annales, a qual propõe uma História Cultural concebida e imbricada nas experiências concretas da vida, colada no social, bem como uma nova narrativa histórica, onde a descrição densa e a analise e interpretação se somem, em prol de um maior arcabouço de referencias a fim de uma maior compreensão do cotidiano, que é marcado pela política e tem o apoio da antropologia social, mas sem desconsiderar a história do cotidiano, as micro historias regionais, locais ou temáticas. Desse modo, graças à historiadores como, Certeau (1982) e Chartier (2002), foram abertas as portas para o estudo acadêmico sobre religiões na área de história.

Com base no conceito de representação coletiva de Roger Chartier, entendemos que estas se relacionam com o mundo social de três maneiras:
Primeiro, o trabalho de classificação e de recorte que produz as configurações intelectuais múltiplas pelas quais a realidade é contraditoriamente construída pelos diferentes grupos que compõem uma sociedade; em seguida, as práticas que visam a fazer reconhecer uma identidade social, a exibir uma maneira própria de estar no mundo, a significar simbolicamente um estatuto e uma posição; enfim, as formas institucionalizadas e objetivadas graças ás quais “representantes” (instâncias coletivas ou indivíduos singulares) marcam de modo visível e perpetuado a existência do grupo, da comunidade ou da classe. (CHARTIER, 2002, p.73).

Se observará que o conceito é indubitavelmente aplicável ao pensarmos a Edda Poética enquanto fruto de uma tradição oral.

Tanto no caso da Edda Poética quanto no de diversas outras fontes escritas referentes à religiosidade dos povos da Era Viking a maior parte dos poemas usados em suas composições tem origem em uma tradição oral. Marcel Detienne trabalha a questão da oralidade no caso grego, das quais algumas de suas considerações são pertinentes ao caso nórdico. Primeiramente, o poeta recita suas poesias à um grupo de pessoas, as quais devem ter um conhecimento prévio do conteúdo recitado para que haja a aceitação da poesia: “Para poder penetrar e tomar seu lugar na tradição oral, uma narrativa, uma história ou qualquer obra falada deve ser entendida, isto é, deve ser aceita pela comunidade ou pelo auditório a que se destina” ”(DETIENNE, 1992, p.82). E mais, “poetas a serviço de uma aristocracia guerreira não podem devolver a essa sociedade senão sua própria imagem reproduzida com acurada fidelidade”(DETIENNE, 1992, p.55). Sendo assim, a produção oral que não foi bem recebida está destinada ao “desaparecimento imediato, como se nunca tivesse sido pronunciada”(DETIENNE, 1992, p.82). Podemos concluir que as versões dos poemas que chegaram àqueles que detinham o conhecimento da escrita e, portanto, os registraram, não podem ser outros senão aqueles aceitos por uma sociedade que encontrava reproduzida suas crenças e modos de vida nesses poemas.

No que diz respeito à literatura, focando nas características de nossa fonte, duas problemáticas surgem, onde as teorias de dois autores mostram-se viáveis à saná-las. A primeira é a questão da transição de uma tradição oral para a escrita onde, como mostramos, as noções propostas por Detienne nos servirão de parâmetro para analisá-las. A segunda sendo de que modo pensar os poemas que compõem a Edda Poética uma vez que estes se encontram em uma nova tradição, a escrita, podendo esta ser, portanto, considerada como literatura. Para lidarmos com tal problemática nos apoiaremos nas idéias de Tzvetan Todorov, onde a consideramos como “um sistema de signos, um código, análogo aos outros sistemas significativos, tais como a língua articulada, as artes, as mitologias, as representações oníricas etc.” (TODOROV, 2008a, p.32)

Pode se utilizar da abordagem proposta por Mircea Eliade de tratar o mito como um relato que “só fala das realidades, do que aconteceu realmente, do que se manifestou plenamente”. (ELIADE, 1992, p.50). Mais precisamente, entendemos que “o mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que teve lugar no começo do Tempo”. (ELIADE, 1992, p.50). Desse modo o mito encontra-se na esfera do sagrado, agindo como modelo exemplar, ditando o modo de se viver na sociedade. Ainda mais, “os mitos são antes de mais nada manifestações da essência da alma”. (JUNG , 2000, p.17). Devemos compreender ainda que
Conhecer as situações assumidas pelo homem religioso, compreender seu universo espiritual é, em suma, fazer avançar o conhecimento geral do homem. É verdade que a maior parte das situações assumidas pelo homem religioso das sociedades primitivas e das civilizações arcaicas há muito tempo foram ultrapassadas pela História. Mas não desapareceram sem deixar vestígios: contribuíram para que nos tornássemos aquilo que somos hoje; fazem parte, portanto, da nossa própria história. (ELIADE, 1992, p.97)


METODOLOGIA DE PESQUISA PARA A EDDA POÉTICA
De acordo com Mircea Eliade (1992, p.11), existem duas orientações que, atualmente, os historiadores das religiões seguem: uns se interessam nas estruturas específicas dos fenômenos religiosos, esforçando-se para compreender a essência da religião, outros buscam decifrar e apresentar o contexto histórico desses fenômenos religiosos. Trabalhamos de acordo com a segunda orientação metodológica que Eliade propõe, buscando mostrar a representação da religião na realidade do povo da Europa Setentrional.

Outra proposta metodológica vem sendo aplica com sucesso por pesquisadores como Ciro Flamarion Cardoso e Johnni Langer, a qual podemos dividir em três etapas, sendo duas delas pautadas na metodologia de Todorov.

Inicialmente, “para descrever exaustivamente um poema, devemos colocar-nos sucessivamente em diferentes níveis – fônico, fonológico, métrico, entonacional, morfológico, sintático, léxico, simbólico... – e levar em conta suas relações de interdependência.” (TODOROV, 2008a, p.31). Em outras palavras, este método de analise para a Edda Poética
consiste na distinção necessária entre: os conteúdos veiculados pelos escritos; e as formas estruturadas − consideradas texto a texto − em que nos chegaram. Na prática, isto significa, metodologicamente, que, em paralelo à importância inegável da intertextualidade para o entendimento textual, não é menos essencial respeitar as características próprias de cada uma de nossas fontes primárias. (CARDOSO, 2005, p.35)
Tendo sido considerado os aspectos formais de cada poema, podemos passar para a análise do conteúdo. Para tanto seguiremos outra metodologia de Todorov - a qual se enquadra dentro da “metodologia semiótica desenvolvida pela narratologia para análise dos relatos” (CARDOSO,2005, p.39). Desse modo
Em se tratando da estrutura sintática do texto, há diversos modos de especificar formalmente a sintaxe narrativa, entre os quais o de Tzvetan Todorov, que utiliza a noção de seqüência narrativa. Para Todorov, uma seqüência narrativa comporta cinco partes: 1. situação inicial; 2. perturbação da situação inicial; 3. desequilíbrio ou crise; 4. intervenção na crise; 5. novo equilíbrio. Trata-se, então, de uma lógica que alterna situações e estados mais estáticos (situação inicial, desequilíbrio ou crise e novo equilíbrio final) com processos dinâmicos que modificam os dados precedentes (perturbação da situação inicial e intervenção na crise) (CARDOSO, 2005, p.39-40)
Em outras palavras, devemos
(...) relacionar texto e contexto: buscar os nexos entre as idéias contidas nos discursos, as formas pelas quais elas se exprimem e o conjunto das interpretações extratextuais que presidem a produção, a circulação e o consumo dos discursos. Em uma palavra, o historiador deve sempre, sem negligenciar a forma do discurso, relacioná-lo ao social. (CARDOSO ; VAINFAS, 1997, p.378)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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The Poetic Edda: The Heroic Poems. Introdução, tradução e notas de Henry Adams Bellows. Mineola, New York: Dover Publications, INC., 2007.

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TODOROV, Tzvetan. As Estruturas Narrativas. São Paulo: Perspectiva, 2008a



TODOROV, Tzvetan. Introdução à Literatura Fantástica. São Paulo: Perspectiva, 2008b


i “A arqueologia ajuda a comprovar o fato com a análise dos túmulos islandeses do período que demonstram um abandono abrupto do sepultamento nos moldes pagãos, e tornando-se comum o sepultamento cristão por volta do ano 1000” (COSTA, BIRRO, p.24).

ii“A maneira que os poetas encontrariam para perpetuar as narrativas seria essencialmente a utilização de fórmulas e temas, e não a memorização [...] Este modelo teórico também foi aplicado a outros contextos, como à Escandinávia Medieval, sempre procurando explicar a origem de fontes literárias enquanto narrativas criadas por formulações poéticas durante a oralidade. [...] A questão básica era tentar entender como a poesia seria transmitida antes da escrita, qual a sua audiência e quais eram as fórmulas para sua composição. Este pesquisador definiu alguns parâmetros para a poesia nórdica précristã, um pouco diferente da tradição literária germânica continental, que seria: uma poesia muito menos “relaxada”, repetitiva e convencional no estilo, com retórica mais sucinta e precisa, apresentando um didatismo muito mais epigramático, com tendência a uma fascinação semi-teatral na performance e com caráter fortemente dramático. O pesquisador também procurou distinguir a composição (em nórdico antigo: yrkja) da recitação (flytja, kveða), esta última tendendo ao improviso”. (LANGER, 2006, p.2-3)

iii


ivSkalat maðr rúnar rísta, / nema ráða vel kunni, / þat verðr mörgum manni, / es of myrkvan staf villisk; / sák á telgðu talkni / tíu launstafi ristna, / þat hefr lauka lindi / langs ofrtrega fengit. (EGILS SAGA, cap. LXXIII, apud OLIVEIRA, 2009, p.48)


v E assim disse Ægir: ‘Quantas são as maneiras em que a regra escáldica pode variar na escrita, ou quantos são os elementos essenciais da arte escáldica? Assim Bragi respondeu: 1Os elementos nos quais toda poesia é dividida são dois’ Ægir perguntou: ‘Quais dois?’ Bragi respondeu: ‘Metáfora e métrica” (nossa tradução).


vi Snorri Sturluson was in the fullest sense a product of his time. (BRODEUR, Arthur Gilchrist, 2006, p.x)


vii “tradição oral; registros genealógicos escritos; antigas canções ou narrativas como O Conto de Thiodolf da família Yngling e O Conto de Eyvind de Haloga; poemas de poetas da corte, ou seja, músicas históricas, que as pessoas sabiam de cor desde os dias de Hairfair até a própria época de Snorri. "e deve-se acrescentar", diz ele, "que nós acreditamos que aquilo dito em tais canções o é do modo como foram cantadas antes dos próprios chefes ou dos filhos deles; e acreditamos ser verdadeiro o que é dito nessas canções no que concerne seus modos de vida e suas batalhas.” (nossa tradução)




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