Avieiros Breve História de um Romance



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Alves Redol



Avieiros



Breve História de um Romance

Quando, há trinta anos, vi entrar aquele homem na taberna do cais de Vila Franca, onde passava a manhã de domingo com o dono, o meu amigo António Vitorino, o Toninho, carpinteiro com senhoria, dos que não se encontram agora por aí nesta falperra de prego e racha, fiquei interessado pelo estranho personagem que, sendo do trato do rio, pouco tinha de comum com os varinos da rua onde passei a maior parte da minha meninice. A estes conhecia‑os bem.

Tive‑os como companheiros na escola da Marouca, acompanhei‑os no preparo e na venda de moinhos de papel, brinquei com eles às toiradas. Suámos juntos, as estopinhas, no jogo da bola de trapo no Campo da Feira e na Avenida, aprendi com as mulheres todo o seu linguarejar de malandreiras, fui com os filhos de muitas tomar banho à Areiazinha, namorisquei a Rosa, meu par predilecto nos bailaricos do Celeiro, e ensinei os filhos dalguns deles, mais tarde, quando me dei a leccionar crianças numa escola nocturna, encerrada pelo zelo torvo das autoridades concelhias, muito receosas com o mal que eu e o António Cascais podíamos fazer à garotada.

Trocava assim o que aprendi com os pais nas pescas do Tejo e nas viagens pelo rio, cuja paixão ganhei nesse tempo, embora mais tarde pudesse interpretar noutro jeito o meu amor pelo Tejo. Mas lá iremos.

O homem entrou na taberna e fez‑me espécie. Mal abalou com o garrafão que viera encher de vinho, perguntei ao meu amigo de quem se tratava.

Com o esquadro da sua inteligência minuciosa, revelou‑me aquela gente que vivia em barcos, pescando ou vendendo melões e melancias, segundo as épocas. Nómadas do rio, como os ciganos na terra, tinham vindo da Praia da Vieira e faziam vida à parte: chamavam‑lhes avieiros.

Nunca ouvira falar de semelhante gente.

A minha curiosidade alongou‑se e soube então que o Tarrinca os encontrava durante a safra do sável, que lhes transportava o pescado até à Ribeira de Lisboa e que não me seria fácil merecer‑lhes a convivência.

Este romance nasceu, portanto, numa manhã soalheira no cais de Vila Franca. Já lá vai uma trintena.

Durante quatro anos persegui‑os como pude, sempre com a ajuda do impetuoso Jerónimo Tarrinca, que me levou à Toureira, uma das poucas aldeias de avieiros, criadas à margem do Tejo e do mundo, e onde semeei, pouco a pouco, amizades e até devoções. Mas tão escassas horas de convívio não bastavam para saber quando precisava acerca deles. Até que um dia consegui a promessa de viver numa barraca da Palhota, lá mais acima, perto de Valada do Ribatejo, em casa de Manuel Lobo.

Escritor de domingo, já autor, então, de três livros publicados, fui à cata do meu poiso para férias próximas, marcadas para a época do sável. Falei aos meus anfitriões. Tudo ficou aprazado, com a condição de eu levar mulher comigo; doutra forma a aldeia não me poderia receber. Assim fiz. E por ali andei com eles, pescando à noite com as artes mais pequenas, ou partilhando o trabalho dos lances nas companhas do sável entre queixas dos mais velhos ainda lembrados dos tempos em que o Tejo era um jardim de peixe. Tornei‑me expedito no largar da rede‑varina e acabei por ser solicitado a começar os lances em várias companhas ‑ dava sorte, ‑ diziam.

Quando chegou o dia de regressar à “cadeira eléctrica” de empregado de escritório, deram‑me alegria grande. Por decisão do conselho dos anciãos da Palhota, ficava convidado a apadrinhar o primeiro casamento que houvesse na aldeia.

Queriam que eu pertencesse à família deles, assim me falaram.

Emocionei‑me. Sou homem de emoções simples.

Não me arrependo de ter procurado esta experiência, como tantas outras que tornei carne viva dos meus livros embora o engenho de escritor pouco me bastasse ainda para interpretar e recriar o que a realidade lhe oferecia, elevando‑a ao nível da significação. O escritor não é ser passivo ante o mundo que o cerca. Apaixona‑se sempre. A diferença entre um escritor e um aprendiz, ou um medíocre é que naquele nunca a paixão se faz retórica. Recusa padrões, fórmulas, os caminhos fáceis do naturalismo mesmo que surjam, como agora, sob disfarces de vanguarda.

Escolhe, representa, desencadeia a percepção e a imaginação do leitor: entrega‑lhe um instrumento, um estímulo, para penetrar na realidade e interpretá‑la também por sua vez. Para que cada leitor, outro homem biológico e social, sensitivo e diferenciado, recrie a seu modo por vias algumas vezes insuspeitadas, a nova realidade que o escritor teceu. Todos eles, individual e colectivamente, participam na criação constante de um corpo vivo, projectado em milhentas imagens que se focam e desfocam ao sabor de quem lê e reimagina, segundo o todo que os habita. Também sob a coacção do grupo social, familiar ou político de que participam; segundo também o momento, o exacto momento psicológico em que o escritor cria e o público lê ou medita. Mas voltemos à minha experiência espontânea, logo depois premeditada. Muitos chamavam recolha, talvez impropriamente, a esta busca de contacto humano; outros apoucaram o processo, impropriamente também. Na verdade, quando se recolhem os materiais da vida; vivem‑se. Ou inventam‑se. Mas escolhem‑se as vivências ou as invenções quando um escritor sabe para que vive. E como lhe importa viver.

Quando cheguei à Palhota, não entrou nessa aldeia ribeirinha um observador curioso de pitoresco ou de bizarria. Nem eu próprio suspeitava de tudo o que me levava até ali: que era, afinal, e ainda é, o que me transcende, porque nunca se me recusa. Mas importa sublinhar e encarecer que tal convívio me enriqueceu: alarguei na aldeia avieira uma parte da minha paixão pelo Tejo, nascida em menino, quando o descobri pela mão do meu avô Venâncio. A outra, a maior, a de sangue, só algum tempo depois a conheci. Quando o conselho de anciãos da Palhota incumbiu Manuel Lobo e Manuel Guerra de me falarem do seu desejo de nos tornarmos família, mal sabíamos todos que já o éramos em parte inteira.

Sempre a minha avó paterna, a Sra. Ana da Guia, me pareceu estranha entre as camponesas que viviam nos ermos do Casal do Sobreiro, perto de Tomar. Miúda, negra de cor e de roupa, moira de trabalho, exaltada nas devoções como nos agravos, gostava‑se de pé descalço e vestia blusas e saias de corte diferente do das outras mulheres. Rezava dia e noite; tinha sempre uma reza para cada acontecimento: tempestade, pão amassado no alguidar e coberto pela manta, animal doente, neto a definhar‑se, leira semeada ou figos a crestar ao sol, tudo lhe pedia prece.

Vivia entre Deus e o Diabo num purgatório de dúvidas. Se amuava com o meu avô João Redol, todo campino naquelas terras de pinheiros e vinha, e de figueiras, embiocava‑se, ficava largos dias sem lhe dar fala. Reservada, quase seca, brilhavam‑lhe nos olhos vivões a ternura que a todos oferecia, como a força corajosa com que naquele ermo deu ao mundo onze filhos, vendo morrer cinco e agenciando com o seu homem o pão para todos eles.

O casal viera da Golegã em andanças de trabalho, quando o meu avô passara a feitor da quinta que uma senhora goleganense tinha nos Pegões, junto ao aqueduto filipino da cidade do Nabão, depois de longos anos viver no trato de cavalos e toiros em seu ofício de maioral.

Exactamente na Golegã, descobri novos vínculos de família.

Certa noite, ao serão, acolhido ao calor amoroso dos meus primos, falou‑se da minha avó. Escrevia, então, o meu romance Fanga ‑ escrevia‑o em casa de fangueiros. E aí, pela primeira vez, disse do mistério que deixara em mim a recordação de Ana da Guia. Não tardou a revelação: Ana da Guia nascera de pescadores do Tejo, era avieira, andara no trato de barcos e redes, vendera peixe pelas portas; acabara por se meter ao trabalho do campo quando o pai lhe morreu e o barco ficou sem homem na Praia da Vieira, os Guias fazem parte da aristocracia marinheira e descalça da terra. São meus parentes. Falei acerca deles com o Loureiro Botas e o António Vitorino; falei dos Guias com o Martins Correia, escultor, filho de Maria da Guia, prima da minha avó.

Ainda lhe parece estranho, Luísa da Costa, o meu amor pelo Tejo!
Entre a constância e a mudança, entre o necessário e o possível, regresso ao convívio avieiro. Regresso a um tema que me apaixonou, percorrendo, de novo, caminhos que ainda são os meus e não enjeito, Essa apetência lúcida de participar numa epopeia que faria voltar da Índia, assistir correndo D. Sebastião, o povo que andava ignorado de si, consentira‑se têmo‑la de todos os Cabrais da história portuguesa. Avieiros é uma pegada nesse caminho.

Esta variação sobre o mesmo tema de 1940, para que cheguei a admitir titulo diferente, resultou de uma longa batalha, longa e exaltada e amorosa, entre um homem‑escritor e o seu passado‑futuro. Dela nasceu esta versão. Outra e a mesma, outra e a mesma como eu, ambos remoçados pela nova convivência de três anos em que fomos íntima companha. Em que duvidámos e nos quisemos, dormindo no mesmo travesseiro, apetecendo as mesmas insónias, rasgando‑nos com as mesmas palavras, tão frementes e insubmissas como poldros deslumbrados em plena liberdade de sol.

E tão fiéis que ao homem não sobeja fidelidade para outrem, enquanto ao romancista apetecerão novas brigas de amor criativo, na ânsia de deixar testemunhos do que viveu e descobriu e desejou.

Avieiros é romance lírico, de um lirismo doloroso e concreto. Documento e sonho vazados na matriz irregular de uma consciência, há nele um gosto fundo, autêntico e viril, de semear na companhia do povo um país para homens livres. Mas um lirismo rigoroso, digamos, sem romantismos fáceis, um pouco como os versos líricos que também moram nas tábuas de logaritmos ou nos foguetões interplanetários.

Se confessar que este romance me aterrorizou, depois de me deslumbrar, digo a verdade inteira.

O tema realmente novo, a descoberta, a busca de concretização da prosa poética que desejava atingir para o estilo épico da epopeia ou gesta popular, logo o alvoroço do acolhimento dispensado pelo público, meteram‑me depois no labirinto da dúvida. Terrível labirinto de miragens, de sombras e de luz. Entretanto, a Academia acenava‑me com o Prémio Ricardo Malheiros, para depois mo negar, embora Joaquim Manso, académico, me mandasse entrevistar por Artur Portela, antecipando‑se no seu jornal à notícia ambígua do galardão engasgado.

Nesse ano, o prémio tardou; entravam no parto muitos empatas com razões extra-literárias. Um júri é uma das formas conhecidas, e das mais prestigiadas, para se cometerem injustiças. O daquele prémio, ao que parece, exigiu novo júri, que segredou recado por alta personalidade académica, justificando que passaria eu a ser o mais jovem premiado com o “Ricardo Malheiros”. Havia, portanto, muito tempo para mo distribuírem. valha a verdade que assim fizeram. Só lá voltei com Horizonte Cerrado, e logo se apressaram em emendar a mão. Mas vivi um drama verdadeiro com este romance.

Não me compadecia em repisar histórias no almofariz da mediocridade, conhecia o perigo das vozes alheias que ainda me dominavam, estava longe de estabelecer o equilíbrio entre a paixão e a lucidez. entre o coração quente, em fogo, e o raciocínio quase matemático, empreendedor e terso. O domínio da efabulação, a chave da vida inteira de cada personagem, o tom justo, mesmo quando exaltado, a simplicidade da palavra. A palavra‑pele que cobre cada passo de um fecundo emaranhado de sugestões inquietas e inquietantes. a palavra‑pele que só ela pode viver ali, exactamente ali, como a das minhas mãos ou a das tuas, que enfeixa músculos e tecidos, sangue, vida.

Confesso que ganhei medo ao papel branco. Medo autêntico. Com tantos fantasmas à minha beira, atormentei‑me. Longos meses. As primeiras páginas de Fanga, o romance que se lhe seguiu, queimaram‑me os nervos.

Foi bem longa a tortura. Mas andei com a sorte pela minha banda, ao ser visitado por angústia tão funda. Aprendi com ela a porfiar no trabalho e a compreender que as palavras se forjam em nós, e com o tempo, e com a dor, e com a alegria, que não são as mesmas em cada poeta ou romancista, onde perdem ou ganham ressonâncias, que deveremos contê‑las ou soltá‑las ao sabor da invenção, e logo da análise, sem que o contexto esmaeça ou se canse na jornada. Na longa jornada do confronto.

Sei o que ainda não atingi de tudo o que me parece necessário. E passaram trinta anos.

Nesta variação sobre um tema de 1940 estabeleci um compromisso. Mantenho o tom da primeira edição, mas sirvo‑o com outra ferramenta afeiçoada à gesta popular. Gostaria de a ler aos mesmos que ouviram da minha boca a primeira versão, para que me dissessem se errei. Mas é tarde. A vida separou alguns; a morte levou outros tantos. Neste momento recordo Joaquim Soeiro Pereira Gomes e Carlos de Oliveira.

E tenho de acrescentar Jerónimo Tarrinca, a quem ainda e também dedico o livro. A sua morte pertence à história deste romance e de todos nós. Incapaz de fazer frente à concorrência da camionagem que lhe tomava os fretes ao barco, o meu amigo resolveu adquirir um motor para o tornar mais rápido. Empenhou‑se ao comprá‑lo, nasceu‑lhe uma esperança, mas a máquina era débil para o peso da lancha e as exigências das viagens. Sem dinheiro para a substituição, Jerónimo Tarrinca começou a empreender no seu novo falhanço. E um dia, mesmo à vista do Tejo, onde o bote balouçava sem préstimo, saltou para a frente de um comboio rápido. Cara a cara, sem baixar os olhos.




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