Avaliação da qualidade de vida pelo Questionário do Hospital Saint George na Doença Respiratória em portadores de doença pulmonar obstrutiva crônica: validação de uma nova versão para o Brasil



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DISCUSSÃO

A versão modificada do SGRQ, com perguntas a respeito da recordação de sintomas referentes a três meses ao invés de um ano (como na versão original previamente validada no Brasil),(5) e com respostas do tipo "concordo" e "não concordo" para facilitar a compreensão das perguntas de dupla negativa da versão original, apresentou propriedades semelhantes de mensuração da qualidade de vida na amostra estudada, composta de portadores de DPOC moderados e graves. As correlações dos domínios Sintomas, Atividade, Impacto e Total de sintomas são estatisticamente significativas e semelhantes aos valores de reprodutibilidade encontrados no estudo original de validação (que avaliou versões iguais em duas visitas).(5) Este resultado pode ser valorizado pelo fato de este estudo ter aplicado o mesmo método de recrutamento de pacientes e de análise do estudo original de validação do SGRQ para o Brasil. Entretanto, por ter sido realizado no mesmo centro, pode conferir alguma limitação no que se refere à aplicabilidade dos resultados e conclusões em outras populações. O tempo de aplicação das duas versões foi semelhante, o que evidencia indiretamente que a compreensão dos enunciados foi também semelhante. Este estudo pode implicar, portanto, uma mudança de opção da versão do SGRQ a ser escolhida, tanto no ambiente de pesquisa, quanto nos serviços de assistência que utilizam este questionário, já que a mensuração da qualidade de vida tem sido também utilizada fora do ambiente acadêmico.

A amostra de pacientes tinha boa cognição, conforme evidenciado pelos questionários do Minimental. Como eram pacientes referidos para um centro de atendimento terciário, tratavam-se de portadores de DPOC moderada e grave, e já com alteração da qualidade de vida, conforme evidenciado nos dados descritivos de função pulmonar e de qualidade de vida. Não foi possível avaliar isoladamente as correlações dos questionários aplicados a pacientes analfabetos, pois a amostra não tinha poder suficiente para este objetivo (apenas cinco pacientes). Este aspecto também já havia sido analisado nas validações prévias de questionários específicos para doença pulmonar obstrutiva no Brasil.(5,12)

Neste estudo evidenciou-se que as médias das pontuações dos domínios Total, Atividade e Impacto não foram estatisticamente significativas nas duas versões do SGRQ. Como um critério a ser utilizado é a mínima diferença clinicamente importante, que no SGRQ é de quatro pontos,(13) foi calculado o intervalo de confiança de 95% da diferença entre as médias de cada versão do SGRQ. O intervalo de confiança de 95% ultrapassou o limiar de diferença clínica nestes três domínios, revelando a alta variabilidade destes questionários. É importante salientar que nenhuma intervenção entre as duas avaliações foi realizada. Recomenda-se, portanto, a utilização dos estudos de validação para cálculo do número mínimo de amostra necessário no emprego desta medida de avaliação. Neste estudo, como as duas versões foram assumidas como diferentes, não se pode sugerir um número mínimo para detectar a diferença de quatro pontos. A modificação dos tipos de resposta de "sim" e "não" para "concordo" e "não concordo" não induziu modificações nas propriedades de mensuração da qualidade de vida.

Habitualmente, os critérios de estabilidade clínica para a DPOC envolvem espirometria e história clínica,(14) ambos avaliados neste estudo. Um período de um mês sem exacerbações foi planejado para se excluir possíveis interferências nas pontuações a serem avaliadas.(15) Atualmente, sabe-se que outras medidas, como a capacidade inspiratória, têm maior correlação com os sintomas da DPOC, principalmente a dispnéia, que é um dos principais determinantes da alteração da qualidade de vida.(16) Sabe-se que os sintomas da DPOC são os maiores determinantes da alteração da qualidade de vida e freqüentemente constituem o principal motivo para a procura do serviço de saúde, pois os portadores de DPOC leves são oligossintomáticos.(17)
Assumindo a presença de estabilidade clínica, entretanto, percebemos que houve uma variabilidade significativa no domínio Sintomas e o intervalo de confiança de 95% da diferença das médias de pontuações entre as duas versões esteve acima de quatro pontos percentuais, levando à conclusão de que os dois questionários avaliaram distintamente este aspecto da qualidade de vida. Como o tempo de recordação entre as duas versões variou de um ano para três meses, conclui-se que esta parte do questionário se modificou, realmente, do ponto de vista estatístico e clínico. Faz-se a recomendação, portanto, de que, a depender do objetivo de cada pesquisa, se faça a opção entre a recordação de três meses ou de um ano, o que for mais adequado para o pesquisador.

Conclui-se, portanto, que a versão do SGRQm possui propriedades semelhantes de mensuração da qualidade de vida em portadores de DPOC moderada e grave. Deve-se escolher, entretanto, qual o melhor tempo de recordação de sintomas a ser utilizado em cada pesquisa.














REFERÊNCIAS

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* Trabalho realizado no Centro de Reabilitação Pulmonar da Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP - São Paulo (SP) Brasil.


Estudo parcialmente subsidiado pela CAPES, CNPq e FAPESP
1. Doutor em Medicina pela Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP - São Paulo (SP) Brasil.
2. Mestre em Reabilitação pela Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP - São Paulo (SP) Brasil.
3. Vice-Diretor do Centro de Reabilitação Pulmonar da Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP - São Paulo (SP) Brasil.
4. Professor Adjunto-Doutor em Pneumologia da Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP - São Paulo (SP) Brasil.
Endereço para correspondência: Fernanda Warken Rosa. Rua Manoel Andrade, 201 apto. 401, Pituba - CEP 41810-815, Salvador, BA, Brasil. E-mail: aquilescamelier@yahoo.com.br
Recebido para publicação em 31/5/05. Aprovado, após revisão, em 6/8/05.

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