Avaliação da aprendizagem



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A AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM À LUZ

DAS PESQUISAS SOBRE O ESTADO DA ARTE (1980-2007)

Heloisa Poltronieri/ Adolfo Ignacio Calderón

Pontifícia Universidade Católica de Campinas

Programa de Pós-Graduação em Educação- SP/ CAPES

Eixo 1: Pesquisa em Pós-Graduação em Educação e Práticas Pedagógicas

Comunicação oral



RESUMO
O presente trabalho tem por objetivo contribuir com a compreensão da evolução da Avaliação da Aprendizagem, como campo do conhecimento, por meio da análise dos estudos existentes sobre o estado da arte focados na área da avaliação da aprendizagem da educação básica. A partir da análise e do diálogo comparativo entre três pesquisas estruturantes que focam um período de 28 anos, de 1980 a 2008 (SOUSA, 1994; BARRETO, PINTO, 2001; ULER, 2010), complementada com duas pesquisas que ressaltam especificidades da área (SOUSA, 2005; CANDAU, OSWALD, 1995), buscamos compreender quais são as principais contribuições e preocupações teóricas dos autores, bem como analisar as estratégias metodológicas adotadas. Por meio de uma linha do tempo, fica evidenciado que na década de 70 e 80 o paradigma tecnicista tinha grande força nas produções acadêmicas, evidenciando a visão positivista de avaliação. No decorrer da década de 80, observamos esforços no sentido de superar essa visão na direção de propostas mais formativas. Já na década de 90, a preocupação dos pesquisadores desloca-se das práticas avaliativas na escola para o esclarecimento quanto às questões sobre ideias, concepções, teorias e pressupostos da avaliação. No período de 2000 a 2008 é possível observar uma movimentação no que diz respeito à concepção de avaliação, que sinaliza para a hegemonia de uma abordagem emancipatória e participativa.
Palavras- chave: Estado da Arte, Avaliação da Aprendizagem, Pesquisa em Educação.
Introdução
Pesquisas apontam a área da avaliação da aprendizagem como um dos campos do conhecimento mais discutidos quando se trata de estudos sobre avaliação da educação no ensino básico no Brasil (BARRETO, PINTO, 2001).

Buscando contribuir com os esforços em compreender a evolução da Avaliação da Aprendizagem como campo do conhecimento, temos como principal objetivo, neste artigo, analisar os estudos existentes sobre o estado da arte focado na área da avaliação da aprendizagem da educação básica, objetivando compreender quais são as principais contribuições e preocupações teóricas dos autores, bem como analisar as estratégias metodológicas adotadas.

Este artigo configura-se a partir da análise e do diálogo comparativo entre três pesquisas estruturantes da compreensão da avaliação da aprendizagem, como campo de conhecimento, que focam um período de 28 anos, de 1980 a 2008 (SOUSA, 1994; BARRETO, PINTO, 2001; ULER, 2010), complementada com duas pesquisas que ressaltam especificidades da área (SOUSA, 2005; CANDAU, OSWALD, 1995).

Seguindo uma linha do tempo
No que diz respeito aos estudos sobre o estado da arte da avaliação da aprendizagem podemos perceber que tiveram início com a pesquisa pioneira realizada por Sousa (1994) em sua tese de doutoramento, intitulada “Avaliação da Aprendizagem: natureza e contribuições da pesquisa no Brasil no período 1980 a 1990”.

Com esta tese, Sousa inaugura uma linha de pesquisa dentro dos chamados estudos do Estado da Arte que, até o momento da finalização deste artigo, tem sido fortalecido com os estudos realizados por Barreto e Pinto (2001), Uler (2010), Candau e Oswald (1995).

Trata-se de pesquisas que, de uma forma ou de outra, apresentam como denominador comum, a preocupação com o estágio do conhecimento produzido na área da avaliação educacional, com foco na avaliação da aprendizagem. Como afirmam diversos autores (FERREIRA, 2002; THERRIEN, NÓBREGA-THERRIEN, 2004; ROMANOWSKI, ENS, 2006; CASTRO, WERLE, 2004), estes estudos possuem caráter bibliográfico e permitem organizar e sistematizar criticamente o saber produzido em determinado espaço temporal a respeito de uma área do conhecimento, buscando mapear a produção científica, definindo as temáticas trabalhadas, as abordagens dominantes, as principais tendências e seus impactos. Da mesma forma, permitem identificar lacunas, campos inexplorados e questões emergentes que podem ser discutidas em pesquisas futuras.

Analisando a produção científica dentro de uma linha de tempo, podemos verificar que os estudos realizados abrangem um período de produção científica que vai desde 1972 a 2007. Trata-se de estudos que tomam como referência de análise basicamente teses de doutorado (ULER, 2010), teses e artigos em periódicos (SOUSA, 1994; SOUSA, 2005), artigos em periódicos (BARRETO, PINTO, 2001; CANDAU, OSWALD, 1995). Uma leitura global tornar-se-ia difícil na medida em que a fonte da produção científica dos trabalhos em questão é bastante diferenciada. Contudo, não é impossível se respeitamos e esclarecemos as especificidades das fontes e tentamos identificar os pontos em comum e as diferenças apontadas pelos pesquisadores.



Superando a visão tecnicista (1980-1990)

Em sua tese de doutoramento, Sousa (1994) tem por objetivo, investigar a produção acadêmica acerca da avaliação da aprendizagem no período de 1980 a 1990 por meio da análise de teses de doutorado e dissertações de mestrado produzidas no país ao longo desses anos, bem como investigar o processo de elaboração e de divulgação do conhecimento produzido.

A autora buscou “apreender o movimento teórico”, ocorrido na década de 80, no campo da avaliação da aprendizagem, defendendo a hipótese de que, nesse período, esforços foram desenvolvidos no sentido de “redirecionar a concepção de avaliação dominante construído sob a influência da Ralph Tyler” (SOUSA, p. 137).

As dissertações de mestrado e teses de doutorado foram selecionadas a partir de consultas à Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped), ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e às bibliotecas da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), de Pós-Graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP) e da Fundação Carlos Chagas.

Desse levantamento foram identificadas quarenta pesquisas desenvolvidas em torno da temática avaliação da aprendizagem, sendo trinta e cinco dissertações de mestrado e cinco teses de doutoramento, produzidas em treze instituições do país durante a década de 80, porém em decorrência da dificuldade de acesso às mesmas a autora pode realizar a análise de trinta e sete.

Na pesquisa fica evidenciado que a avaliação da aprendizagem não se constituiu como uma temática privilegiada nas pesquisas desenvolvidas na pós-graduação, uma vez que corresponderam a 1,3% do total de pesquisas concluídas no período. A autora constata também que a produção do conhecimento sobre a temática ficou concentrada em quatro universidades, PUCSP, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUCRJ), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), responsáveis por 65% das pesquisas. Para a autora, essas Universidades se constituem como “espaços promissores para a consolidação da investigação nesta área temática” (SOUSA, 1994, p.168).

Segundo a autora, houve predominância de estudos sobre a avaliação da aprendizagem no 1º grau. Dentre os enfoques privilegiados pelos pesquisadores, a preocupação dominante foi quanto à caracterização e análise das práticas avaliativas na escola. A autora atribui esse fato ao movimento de valorização do conhecimento sobre o funcionamento interno da escola, o mesmo que vinha ocorrendo na década de 80 no âmbito da pesquisa educacional.

A autora revela que 50% das pesquisas realizadas adotaram como referencial teórico a concepção tecnicista de avaliação, já 40% delas dedicaram-se a problematizar essa concepção utilizando-se, principalmente, das teorias crítico-reprodutivistas. Porém, segundo a autora, essas pesquisas dedicaram-se mais a denunciar a avaliação como instrumento de legitimação de dado modelo social do que a exploração de elementos para sua transformação.

Para a autora, as pesquisas elaboradas no período trouxeram contribuições significativas para a análise sobre como a avaliação vem sendo vivenciada. Tais pesquisas revelaram uma tendência na construção de concepções que superassem a visão tecnicista, engendrando novas perspectivas que visassem a “construção de uma sociedade mais justa e igualitária” (SOUSA, 1994, p. 170).

Esta tendência é confirmada num outro estudo realizado por Sousa (2005) intitulado “40 anos de contribuição a avaliação educacional”, em que buscou analisar as publicações dos pesquisadores da Fundação Carlos Chagas acerca do tema avaliação educacional no período de 1972 a 2003. Nessa pesquisa, a autora ressalta que estudos que se dedicaram a realizar uma retrospectiva da produção em avaliação educacional no Brasil, apoiados na trajetória da pesquisa em educação, como Barreto e Pinto (2001) e Sousa (1994), apontam a produção dos anos 70 e inicio da década de 80 como respaldadas em pressupostos positivistas que tratam a avaliação como forma de controle do planejamento, sendo uma atividade técnica.

Nesse estudo a autora também destaca que essa visão tecnicista vai sendo superada na década de 80 quando se inicia um movimento de diferenciação de medida e avaliação.

Outro estudo sobre o estado da arte a respeito da avaliação na escola de 1º grau foi realizado, por Candau e Oswald (1995), tendo como título “Avaliação no Brasil: uma revisão bibliográfica”.

A pesquisa abarcou o período de 1980 a 1992 e, diferentemente de Sousa (1994), que se utiliza de teses e dissertações para realização do seu estudo, as autoras privilegiaram a análise dos artigos publicados em onze revistas nacionais. A pesquisa teve como foco a avaliação na escola de 1º grau, enfatizando a avaliação na ação pedagógica e buscou colaborar com a “construção de um conhecimento consistente que indique possibilidades e os limites das diferentes opções teórico-metodológicas no campo da avaliação” (CANDAU, OSWALD, 1995, p. 26).

A escolha daquele período teve por base duas razões. A primeira deve-se ao fato de que em 1980 realizou-se a I Conferência Brasileira de Educação, que, segundo as autoras, constituiu um marco para a “reconstrução educacional no país” no processo de “transição democrática”. A segunda por entender que, neste período, havia mudanças no tratamento das questões educacionais, nas quais os enfoques qualitativos vinham ganhando força.

Os periódicos analisados foram selecionados por se constituírem nas revistas mais expressivas na área e por representarem diferentes abordagens na análise das questões educacionais. São eles: Cadernos de Pesquisa, Caderno CEDES, Educação e Seleção, Educação e Sociedade, Em Aberto, Estudos em Avaliação Educacional, Fórum Educacional, Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Revista da ANDE, Revista de Educação AEC e Tecnologia Educacional.

Na investigação ficou evidenciado que as pesquisas analisadas se enquadravam em dois paradigmas: o quantitativo e o qualitativo. Segundo as autoras, as pesquisas de cunho qualitativo obtiveram menor percentual em relação às de cunho quantitativo, sendo 30% e 70% respectivamente. Esta distinção entre pesquisa quantitativa e qualitativa constitui-se num dado muito importante que não tinha sido abordado pelo trabalho de Sousa (1994).

Quanto ao enfoque privilegiado nas pesquisas, as autoras apontam que a maioria dos artigos discutiu questões relativas a aspectos conceituais, filosóficos e ideológicos da avaliação seguido daqueles que discutiram aspectos pedagógicos e técnicos. Podemos observar uma diferença em relação à pesquisa de Sousa (1994), cujos resultados apontaram que a preocupação dominante dos pesquisadores dos Programas de Pós-Graduação foi quanto à caracterização e análise das práticas avaliativas na escola.

Essa diferença pode ser explicada pelas especificidades do material utilizado para análise em cada uma das pesquisas. Barreto e Pinto se utilizam de artigos em periódicos e Sousa de teses de doutoramento e dissertações de mestrado. Segundo Calderón e Ferreira (2010), as temáticas abordadas em teses e dissertações são definidas a partir de interesses oriundos das inquietações intelectuais vivenciadas pelos pesquisadores na sua vida profissional e intelectual. Para os autores dificilmente, nessa fase de estudos, esses pesquisadores definirão suas temáticas a partir de áreas com maior prestígio no âmbito acadêmico-intelectual. Já os artigos publicados em periódicos, na sua maioria, são estudos realizados por pesquisadores que atuam diretamente no âmbito da produção científica e dessa forma são movidos por interesses diferentes como produtividade, temáticas ascendentes, áreas de maior prestígio, entre outros.

Assim como na pesquisa de Sousa (1994), as autoras destacam que a tendência pedagógica tecnicista está presente em grande quantidade de artigos (25,8%), porém a tendência dialética/ transformadora é a que apresentou maior frequencia (62,1%), o que confirma o movimento destacado por Sousa (1994) no sentido de tentativa de construção de novas teorias que superem a visão tecnicista.

Quanto à temática, as autoras destacaram que houve grande incidência de trabalhos que discutiram a seletividade e o desempenho escolar, o que evidencia a preocupação quanto ao fracasso escolar e o papel da avaliação como um dos mecanismos de exclusão social e cultural.

As autoras concluíram que existe uma lacuna no campo da pesquisa educacional referente à avaliação da ação pedagógica, evidenciando a falta de divulgação de trabalhos de qualidade que ficam “esquecidos na gaveta”. Esse fato também foi apontado por Sousa (1994), uma vez que a autora ressalta que a avaliação da aprendizagem não foi um campo explorado nesse período. Sousa também destaca a falta de divulgação de trabalhos relativos ao tema, destacando que os trabalhos sobre avaliação da aprendizagem, produzidos no âmbito das universidades, pouco tem sido divulgados. Nas entrevistas realizadas junto aos autores das teses e dissertações analisadas em seu estudo a autora em questão percebeu que foi reduzido o número de publicações originadas de suas investigações.
Ausência de estudos originais sobre a realidade brasileira (1990-1998)
Elba Barreto e Regina Pahim Pinto também se dedicam ao estudo do estado do conhecimento acerca da avaliação na educação básica (BARRETO, PINTO, 2001). As autoras realizaram uma pesquisa intitulada “Avaliação na Educação Básica (1990-1998)”, publicada na Série Estado do Conhecimento financiada pelo INEP.

As autoras tiveram por objetivo analisar as produções acadêmicas sobre avaliação na educação básica no período de 1990 a 1998, buscando contribuir para uma visão mais abrangente e elucidadora desse campo de estudo no Brasil.

Diferentemente de Sousa (1994) que pesquisou teses e dissertações de mestrado, a fonte escolhida pelas autoras para a coleta das produções foram os periódicos, uma vez que, segundo as mesmas, estes apresentam maior peso teórico da produção cientifica da área e constituem-se como veículo de circulação mais ágil entre pesquisadores, dirigentes e estudiosos do assunto.

Dentre os periódicos de maior expressão na área, nove foram selecionados, sendo eles: Cadernos de Pesquisa, Educação e Realidade, Educação & Sociedade, Em Aberto, Ensaio, Estudos em Avaliação Educacional, Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Revista da Faculdade de Educação da USP e Tecnologia Educacional. As autoras justificam que optaram por esses periódicos por conterem artigos que abordam expressamente a questão da avaliação na educação básica.

Foram encontrados na pesquisa um total de 218 artigos sobre avaliação no ensino básico nos periódicos selecionados, sendo que 43% estavam concentrados na Revista Estudos em Avaliação Educacional, 23% na Revista Ensaio e 12% em Cadernos de Pesquisa. Diante dessa constatação, fica evidenciada a relevância da Revista Estudos em Avaliação Educacional na área, bem como a importância da Fundação Carlos Chagas na contribuição ao tema, uma vez que Estudos em Avaliação Educacional e Cadernos de Pesquisa são publicações da referida Fundação.

A seleção dos artigos foi feita com base nos títulos, descritores e resumos. Após leitura do material foi possível estabelecer quatro categorias de análise: “Referenciais teóricos e metodológicos da Avaliação”, “Avaliação da escola e na escola”, “Avaliação de políticas educacionais”, “Avaliação de monitoramento”.

As autoras destacam que se procurou enquadrar os artigos em apenas uma categoria, apesar do fato de que alguns artigos poderiam ser enquadrados em mais de uma delas. As categorias que mais concentraram produções foram “Referenciais Teóricos e metodológicos da Avaliação” com 32% dos artigos e “Avaliação de Monitoramento”, responsável por 31% dos artigos. “Avaliação de Políticas Educacionais” concentrou 20% e “Avaliação da Escola e na Escola” 17% das produções.

Os anos de 1994, 1995 e 1996 são destacados como período de grande concentração de produções, perfazendo quase a metade do total de artigos selecionados durante os nove anos pesquisados.

Na categoria “Referenciais teóricos e metodológicos da avaliação” foram identificados 70 artigos, constituindo a categoria mais numerosa. As autoras ressaltam que esse fato indica que há na tradição brasileira uma preocupação evidente dos estudiosos com o esclarecimento dos significados da avaliação educacional no nosso contexto.

Na categoria “Avaliação da escola e na escola” estão concentrados os artigos que focalizam a avaliação da escola e as realizadas no âmbito da escola sob os mais diferentes ângulos. As subcategorias ficaram definidas como: análise das orientações e/ou propostas curriculares; análise de aspectos oficiais ou institucionais da avaliação e suas repercussões na prática escolar; avaliação de alunos com necessidades especiais; avaliação da aprendizagem na escola; avaliação da prática docente, concepções, representações e opiniões de diferentes atores sociais sobre avaliação.

Na categoria “avaliação de políticas educacionais” as autoras buscaram levar em conta apenas artigos que pudessem ser mais claramente categorizados como exame de agenda política e de propostas de governo ou como avaliações de programas educacionais. Desta forma as subcategorias ficaram assim classificadas: avaliação da agenda e das propostas de governo; avaliação de programas educacionais; e impacto dos estudos demográficos na análise das políticas da área.

Na categoria “Avaliação de monitoramento” (entendida como avaliação padronizada do rendimento escolar dos alunos, realizada no âmbito dos sistemas nacionais ou estaduais de avaliação do ensino básico) as autoras relatam que apenas cinco dos nove periódicos estudados publicaram artigos dentro dessa temática, sendo Estudos em Avaliação Educacional responsável por 82% dos 67 textos encontrados. Desta forma as autoras concluem que o pensamento sobre o tema não apresenta uma distribuição equitativa.

Na síntese das principais constatações as autoras ressaltam alguns pontos que ficaram evidenciados por meio da pesquisa. Um deles refere-se à “Avaliação de monitoramento” que não é tratado em diversos periódicos. As autoras destacam que há um número razoável de pesquisadores que vem tratando do tema há mais de dez anos, o que sugere que o campo de estudos está em processo de construção.

Outro ponto evidenciado pela pesquisa é o fato de haver muitos artigos com transcrições de ideias, experiências e reflexões do exterior revelando uma ausência de estudos originais sobre a realidade brasileira.

Um ponto a ser discutido refere-se também ao fato de que se constatou predominância de artigos a respeito de idéias, concepções, teorias e pressupostos da avaliação sobre aqueles relativos ao âmbito restrito da escola. Isso sugere que há preocupação dos estudiosos brasileiros com o esclarecimento dos significados da avaliação, mas indica a lacuna no que diz respeito aos trabalhos voltados para a realização de intervenções intencionais na escola

Nesse sentido, podemos observar uma alteração ao longo dos anos quanto às principais preocupações dos pesquisadores, uma vez que na pesquisa de Sousa (1994), focada no período de 1980 a 1990, os resultados apontaram que preocupação dominante dos pesquisadores dos Programas de Pós-Graduação foi com a caracterização e análise das práticas avaliativas na escola.

A temática “Avaliação de monitoramento” ficou em segundo quanto ao número de estudos produzidos, revelando sua expansão no país. Grande parte da discussão girou em torno do accountability, ou seja, da importância da informação e prestação de contas que o serviço público deve dar à população. Outros artigos voltaram suas discussões à questão desse tipo de avaliação como um instrumento importante para orientação de ações voltadas aos sistemas de ensino. As autoras destacam que, também nessa temática, foi possível observar a predominância do discurso oficial.

Para finalizar, as autoras consideraram importante registrar os impasses e desafios suscitados pela revisão da literatura sobre a avaliação da educação básica. Um deles refere-se à coexistência de discursos paralelos que não dialogam entre si: um, que se reporta a avaliação qualitativa do ensino e, outro, voltado para a avaliação de resultados. Outro desafio é a ausência de estudos que abordem as avaliações de monitoramento na perspectiva de análise das políticas públicas.


A construção de uma proposta emancipatória (2000- 2007)
Dando continuidade às pesquisas de estado da arte na área da Avaliação da aprendizagem, Arnilde Marta Uler em sua tese de doutoramento realiza o trabalho intitulado “Avaliação da aprendizagem: Um estudo sobre a produção acadêmica dos Programas de Pós-Graduação em Educação (PUCSP, USP, UNICAMP)”. Assim como Sousa (1994), Uler utilizou como fonte de pesquisa as teses e dissertações, buscando compreender a concepção de avaliação da aprendizagem veiculada pelos programas de Pós-Graduação em Educação em três universidades: PUCSP, USP e Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), no período de 2000 a 2007.

A autora justifica a escolha das três Universidades a partir da importância e relevância dessas universidades para o desenvolvimento do Estado de São Paulo, a contribuição das mesmas na produção do conhecimento sobre o tema e os intelectuais de referência nacional no campo da avaliação: Ana Maria Saul, Mere Abramowicz, Isabel Cappelletti e Clarilza Prado de Sousa na PUCSP; Sandra Zákia Lian Sousa e Celso dos S. Vasconcelos na USP; e Luiz Carlos Freitas e José Dias Sobrinho na UNICAMP. Já a escolha do período deve-se ao fato de considerar que, por ser uma nova década, possa ter havido avanços em relação à avaliação da aprendizagem.

Para a seleção das teses e dissertações utilizadas em sua pesquisa, a autora consultou as bibliotecas das Universidades em questão e também realizou um levantamento no banco de teses e dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

Para a pesquisa foram selecionados 37 estudos, entre teses de doutorado e dissertações de mestrado, sobre o tema avaliação da aprendizagem nas Universidades destacadas pela autora. Os dados coletados foram organizados a partir de estudos analíticos focados nos seguintes itens: identificação, objetivos, abrangência, metodologia e principais contribuições. Da mesma forma foram elaboradas categorias de análise, formuladas a partir da leitura das pesquisas: “Avaliação da Aprendizagem na Progressão Continuada e nos Ciclos”, “Avaliação da Aprendizagem de Políticas Públicas”, “Avaliação da Aprendizagem nas Práticas Escolares”.

Assim como na pesquisa de Sousa (1994), Uler aponta que a maioria das pesquisas realizadas foi voltada ao Ensino Fundamental, porém revelam preocupações com avaliação da aprendizagem no Ensino Médio.

Na categoria “Avaliação da Aprendizagem na Progressão continuada e nos ciclos” a autora destaca que, das dezessete pesquisas inclusas nessa categoria, dez destacam que não houve efetivação das mudanças propostas por essas reformas, sendo que ainda permanece nas escolas a concepção positivista de avaliação. Esse fato também é apresentado por Sousa (1994) em sua pesquisa, onde detectou que 50% dos estudos analisados possuíam uma concepção tecnicista de avaliação. Os outros sete trabalhos consideraram que o sistema é bom e que possui visão formativa de avaliação.

Na categoria “Avaliação da aprendizagem de políticas públicas”, cinco trabalhos foram realizados, destacarando o ENEM, o SAEB e o SARESP. A autora afirma que pelas pesquisas é possível concluir que “a regulação avaliativa vincula-se a projetos hegemônicos de sociedade” (ULER, 2010, p. 131). A respeito desse sistema de avaliação de larga escala, Barreto e Pinto (2001) destacam que os estudos sobre os sistemas de aferição encerram-se em si mesmos, não havendo esforço de articulação com estudos sobre escola e rendimento escolar.

Sobre a categoria “Avaliação da aprendizagem nas práticas escolares” a autora observou que, dos quinze trabalhos encontrados, dez apontam “uma caminhada em busca da avaliação formativa, emancipatória, participativa” (ULER, 2010, p. 132).

Um dado importante a ser destacado refere-se ao fato de que a PUCSP foi responsável por 51,4% dos trabalhos investigados nessa pesquisa. Este dado comprova a perspectiva de Sousa (1994, p. 168) de que esta Universidade constituía-se como “espaço promissor para o florescimento e consolidação da investigação nesta área temática”.

Uler (2010) destaca ainda que os autores das pesquisas investigadas utilizaram autores nacionais e estrangeiros, o que indica mudança, uma vez que Barreto e Pinto (2001) evidenciam que, em sua pesquisa, as utilizações de referenciais estrangeiros eram maioria o que revelava uma ausência de estudos originais da realidade brasileira.

O ponto mais relevante da pesquisa de Uler (2010) é a evidencia de que, em termos teóricos, há a predominância de um movimento de reflexão no campo da avaliação voltada à hipervalorização dos aspectos relativos à chamada avaliação emancipatória, como alternativa aos modelos tradicionais e tecnicistas, apesar de ainda serem encontrados resquícios do pensamento positivista. Esse fato indica, segundo a autora, que houve “pequeno avanço” em relação à prática de avaliação nas escolas observadas no espaço de tempo que separam sua pesquisa das pesquisas de Sousa (1994) e Barreto e Pinto (2001), uma vez que nessas investigações ficou evidenciada a concepção tecnicista de avaliação presente nos trabalhos pesquisados e a presença de referencias teóricos relativos à visão quantitativa de avaliação.

Conclusões

Por meio da linha do tempo, referente às pesquisas que tratam de uma forma ou de outra da avaliação da aprendizagem, podemos destacar alguns pontos da trajetória desse campo de estudos no país.

Fica evidenciada pelas pesquisas apresentadas, que na década de 70 e 80 o paradigma tecnicista tinha grande força nas produções acadêmicas, evidenciando a visão positivista de avaliação. No decorrer da década de 80, apesar do tecnicismo ainda exercer grande influência no campo da avaliação, observamos esforços no sentido de superar essa visão na direção de propostas mais formativas. É importante ressaltar que, nesse período, a grande preocupação dos pesquisadores era quanto à caracterização das práticas avaliativas na escola. Já na década de 90, a preocupação dos pesquisadores desloca-se das práticas avaliativas na escola para o esclarecimento quanto às questões sobre ideias, concepções, teorias e pressupostos da avaliação. Nesse período também são destacados a ausência de estudos brasileiros relativos à avaliação, sendo que a maioria dos referencias teóricos presentes nas produções acadêmicas é de autores estrangeiros. Podemos ver, porém, que essa questão é superada no período de 2000 a 2008, uma vez que em sua pesquisa, Uler (2010) ressalta que nos trabalhos investigados há referenciais teóricos nacionais e estrangeiros. Nesse período também é possível observar uma movimentação no que diz respeito à concepção de avaliação, que sinaliza para a hegemonia, no campo teórico, de uma abordagem emancipatória e participativa.

Referências

BARRETO, E.S. de S.; PINTO, R. P. (coordenadoras). Avaliação na Educação Básica (1990-1998). Brasília: MEC/Inep/Comped, 2001. CANDAU, V. M.; OSWALD, M.L.M.B. Avaliação no Brasil: uma revisão bibliográfica. Cad. Pesq., São Paulo, n.95, p. 25-36, 1995.


CASTRO, M.; WERLE, F. estado do conhecimento em Administração da Educação: uma análise dos artigos publicados em periódicos nacionais 1982- 2000. ENSAIO. Avaliação e políticas públicas em Educação. Rio de Janeiro, v.12, p.1045-1064, 2004.
FERREIRA, N.S.A. As pesquisas denominadas “estado da arte”. Educação e Sociedade, ano XXIII, n. 79, 2002.
ROMANOWSKY, J.; ENS, R. As pesquisas denominadas do tipo “estado da arte” em educação. Diálogo Educacional. Curitiba, v.6, n.19, p.37-50, 2006.
SOUSA, S.Z.L. Avaliação da Aprendizagem: Natureza e contribuições da pesquisa no Brasil no período de 1980 a 1990. Tese (Doutorado em educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.
______________. 40 anos de contribuição à Avaliação Educacional. Estudos em Avaliação Educacional, v. 16, n. 31, 2005.
THERRIEN, J., NÓBREGA-THERRIEN, S. Os trabalhos científicos e o estado da questão: reflexões teórico-metodológicas. Estudos em avaliação educacional, v.15, n.30, 2004.
URLER, A.M. Avaliação da aprendizagem: um estudo sobre a produção acadêmica dos programas de pós-graduação em educação. 2010. Tese (Doutorado em Educação-Curriculo) – Programa de Pós-Graduação em Educação (Currículo), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2010.



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