Aulas 11-12: fenomenologia do ethos: ethos e tradiçÃO 8º Período de Administração



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Aulas 11-12: FENOMENOLOGIA DO ETHOS: ETHOS E TRADIÇÃO

8º Período de Administração

VAZ, Henrique Cláudio de Lima. Antropologia filosófica. São Paulo: Loyola, 1991. v. 1 e 2

_________________________. Escritos de filosofia II. Ética e cultura. São Paulo: Loyola, 1988.



Esquema de quadro:

  1. O que é fenomenologia?

  2. O que são Physis e ethos?

  3. O que é tradição?

  4. A fenomenologia do ethos



  1. O que é fenomenologia?

  • Termo criado no séc. XVIII pelo filósofo Lambert (1728-1777), designando o estudo puramente descritivo do fenômeno tal qual se apresenta à experiência.

  • Este termo também foi empregado por Hegel em sua obra: Fenomenologia do espírito (1807) para designar o que denomina de “ciência da experiência da consciência”.

  • Ciência da experiência da consciência é o exame do processo dialético de constituição da consciência desde seu nível mais básico, o sensível, até as formas mais elaboradas da consciência de si, que levariam finalmente à apreensão do absoluto.

  • O fenômeno é aquilo que aparece à consciência, que se dá como seu objeto intencional.



  1. O que são Physis e ethos?

  • Physis e ethos são duas formas primeiras de manifestação do ser, ou da sua presença.

  • O ethos é a representação da physis na peculiaridade da práxis ou da ação humana e das estruturas histórico-sociais que dela resultam.

  • No ethos está presente a razão profunda da physis que se manifesta no finalismo do bem e, por outro lado, ele rompe a sucessão do mesmo que caracteriza a physis como domínio da necessidade, com o advento do diferente no espaço da liberdade aberto pela práxis.

  • O termo ethos é em uma primeira instância é a casa do homem. O homem habita sobre a terra acolhendo-se ao recesso seguro do ethos.

  • Ethos é um costume.

  • A metáfora da morada e do abrigo indica que, a partir do ethos, o espaço do mundo torna-se habitável para o homem.

  • O domínio da physis ou o reino da necessidade é rompido pela abertura do espaço humano do ethos no qual irão inscrever-se os costumes, os hábitos, as normas e os interditos, os valores e as ações.

  • O espaço do ethos enquanto espaço humano, não é dado ao homem, mas por ele construído ou incessantemente reconstruído.

  • Nunca a casa do ethos está pronta e acabada para o homem, e esse seu essencial inacabamento é o signo de uma presença a um tempo próxima e infinitamente distante, e que Platão designou como a presença exigente do Bem, que está além de todo ser ou para além do que se mostra acabado e completo.

  • É, pois, no espaço do ethos que o logos torna-se compreensão e expressão do ser do homem como exigência radical de dever-ser ou do bem.

  • A ética é o saber racional do logos.

  • Ethos também pode significar uma constância no agir que se contrapõe ao impulso do desejo.

  • O modo de agir do indivíduo, expressão da sua personalidade ética, deverá traduzir, finalmente, a articulação entre o ethos como caráter e o ethos como hábito/costume.



  1. O que é tradição?

  • Tradição significa: entrega ou transmissão de uma riqueza simbólica que as gerações se passam uma à outra.

  • A tradicionalidade ou o poder-ser transmitido é um constitutivo essencial do ethos e decorre entre o ethos como costume e o ethos como hábito singularizado na práxis ética.

  • A tradição é a relação que se estabelece entre a comunidade educadora e o indivíduo que é educado justamente para se elevar ao nível das exigências do universal ético ou do ethos da comunidade.

  • O ethos é a face da cultura que se volta para o horizonte do dever-ser ou do bem, encontrando terreno na tradição ética, o lugar privilegiado da sua manifestação.

  • A tradição se mostra, ordenadora do tempo segundo um processo de reiteração vivente de normas e valores que constitui a cadência própria da história do ethos.

  • A cultura é forma de vida e é como tal, essencialmente ética.



  1. A fenomenologia do ethos

  • O ethos refere-se a costumes informados por valores; o modo que se adota e se repete, que se consagra pelo tempo e se transforma em costume. Isto é muito importante, pois é a maneira como se forma a ética.

  • A relação entre tradição, ethos é ética dá-se e faz-se necessária, porque para haver ética é necessário que o homem tenha cultura, ou seja, tradição – a humanização do mundo; e, a partir desta humanização, gerar seus costumes (ethos), para assim, fazer juízos referentes à ação destes costumes (ética).

Texto base:

Parece-nos que a questão de maior relevo na atualidade é uma questão eminentemente ética. Ela apresenta-se como busca das razoes de viver, ou seja, como busca radical do sentido da existência humana. A questão ética, portanto, apresenta-se como a questão de todos nós. Desta forma, dos grandes temas da ética nenhuma inteligência pode esquivar-se.

Em Escritos de Filosofia, Henrique de Lima Vaz apresenta um pensamento que proclama a necessidade de uma reflexão sobre os fundamentos da ética da humanidade. Busca que vai contra a pura manipulação técnica da utilidade e da satisfação das necessidades. E que, em última instância, deixa ao agir humano apenas o vagar errante no espaço de ausência de leis do niilismo.

O pensamento de Lima Vaz possui a rara virtude de buscar compreender as partes no todo, isto é, de construir uma sistematização ética que leve em conta os vários momentos que compõem e estruturam as nossas relações com os outros no mundo. O seu pensamento é um sistemático onde todas as investigações encaixam-se perfeitamente como num grande quebra-cabeças.


  1. Desafios éticos presentes no horizonte da modernidade ou por que pensar a questão da inter-subjetividade ética?

Podemos perceber na civilização ocidental moderna, primeira que caminha em direção a uma universalidade, uma crise de sentido que se apresenta, numa de suas vertentes como uma crise ética. Essa crise estrutura-se no cerne mesmo da vida humana como a concebemos, atacando principalmente nossas razoes de viver e os fins capazes de dar sentido à vida humana. Por isso, a codificação racional de um ethos que se supõe vivido pela comunidade ou que esta se propõe viver, isto é, a ética, encontra grandes desafios para se fazer presente em vários níveis de nossa sociedade. Essa dificuldade vem, principalmente, de dois grandes desafios atuais, a saber, a problemática do niilismo e a de uma possível fundamentação ética universalmente válida, para uma civilização que se quer universal. A bem verdade encontramos hoje uma abundância de racionalidades circulando no espaço gravitacional da modernidade que, assim como entendemos, parecem não dar conta desta difícil tarefa de fundamentação.

Qualquer observar mais atento perceberá que em nossa sociedade existe uma verdadeira enxurrada de significados do termo ética. O grande mal disto é que, lançados no jargão da mídia, os indivíduos acabam por usar o tempo sem nenhum rigor, sendo que, muitas vezes, acabam subtraindo do termo ética seu verdadeiro significado, deixando-o ligado a algum tipo de sentimentalismo inócuo que, na realidade, acaba por não significar coisa alguma.

Assim nossa civilização mostra-se impotente para formular uma ética correspondente às suas práticas culturais e políticas e aos fins universais por ela proclamados. Isto, certamente, é efeito de uma civilização que se universaliza apenas por sua base material, deixando-nos órfãos para questões como: como superar a ameaça de uma sociedade sem ética? Como organizar o espaço político, espaço por excelência, de vivências das liberdades através das leis justas? Como construir comunidades ética que vivam na justiça e, conseqüentemente, sejam sociedades democráticas? Como fazer com que o vertiginoso crescimento da tecnociência possa ser colocado a favor do bem-comum e não apenas de uma minoria? Como não permitir que a categoria de útil torne-se a categoria primeira e exclusiva da prática social?

Enfrentar estes desafios e outro mais torna-se extremamente difícil atualmente. Provavelmente, uma das razoes desta dificuldade é o fato, muito estudado na atualidade, de que vivemos num niilismo ético ou ao menos num relativismo generalizado de valores. Conseqüentemente, o homem muitas vezes é visto como um indivíduo isolado, atomístico, marcado apenas pelos inúmeros interesses e impulsos que precisam ser satisfeitos. Ora, para satisfazer estes mesmos impulsos, nossa sociedade tende a legitimar-se utilitariamente. Assim, perde-se toda a dimensão ética da realização de uma vida mais justa. Já no campo político, parece-nos, contra este possível diagnóstico, cada vez mais a sociedade toma consciência de que a falta de quaisquer princípios éticos se traduz em corrupção generalizada que de ser, diligentemente, combatida. Portanto, o ser humano e sua liberdade, perdem a sua dignidade, a razão de ser e de viver, quando a ética deixa de ser o marco constitutivo de sua atividade e convivência com os outros no mundo.

Para Lima Vaz, o grande desafio ético a ser enfrentado pela humanidade é o desafio da filosofia encontrar atualmente c ompatibilidade entre as diferenças e criar uma moral universal. Esta questão, para Lima Vaz, só poderá ser verdadeiramente enfrentada por um pensamento que seja filosófico. Isto porque, o surgimento da filosofia, como nos ensina Hegel, é marcado por uma ruptura, por uma cisão interna de uma sociedade cujos valores e representações tornam-se questionáveis e que, por isso mesmo, não consegue mais viver a vida em sua imediatividade.

É importante ressaltarmos aqui que, para Lima Vaz, não é o ser humano um ser já pronto, ou seja, o ser humano experimenta sua própria realidade como tarefa a ser executada por ele mesmo, no mundo, com os outros. Desta forma, o ser humano está em luta constante pelo sentido. Assim, ele pode dar razão à sua vida, de ser constitucionalmente intersubjetivo, ou pode deixar de realizar-se, já que o homem tem a possibilidade de negar a alteridade do outro, reduzindo-o a coisa.



Portanto, todo o programa ético-filosófico de Lima Vaz é, propriamente, uma Paidéia, isto é, um programa de educação ética. A arquitetônica ética de Lima Vaz, ao se fazer um programa de educação ética, visa uma profunda transformação interior dos indivíduos. Transformação dos interesses particulares e contingentes em interesses racionais, onde, antes de nos obrigar ao que é correto fazer, a reflexão dos invariantes conceituais da ética nos indica (a partir de uma determinada ontologia do humano) o que é bom ser.



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