Auguste Comte nasceu em Montpellier, em 1798 e morreu em Paris, em 1857



Baixar 143,99 Kb.
Página1/4
Encontro18.08.2017
Tamanho143,99 Kb.
  1   2   3   4

Reflexões transdisciplinares na abordagem do Positivismo Gustavo Korte

Gustavo Korte

Reflexões transdisciplinares
na abordagem do pensamento de
Auguste Comte
no

Discurso
sobre o
Espírito Positivo


.


1. Introdução

Auguste Comte nasceu em Montpellier, em janeiro de 1798 e morreu em Paris, em 1857. Filósofo, é considerado o pai do positivismo1 e um dos fundadores da sociologia como campo específico de conhecimento.


Seu pai era tesoureiro da Receita Geral do Arauto. Sua mãe pertencia a uma família de médicos. Estes pequenos burgueses professavam opiniões católicas e monarquistas das quais seu filho libertar-se- ia muito cedo. Comte parece não ter conhecido a doçura das carícias maternais. A partir dos nove anos foi internado no liceu de Montpellier. Nenhuma influência feminina formatou sua alma jovem às expansões da ternura. Não nos espantemos pois se aqueles que o conheceram adolescente nos falam de sua natureza precocemente séria e de seu caráter difícil: a autoridade somente lhe foi revelada sob o aspecto de uma disciplina uniforme contra a qual revoltou-se todo o vigor original de sua personalidade2.
Aos quinze anos figura na lista dos candidatos à Escola Politécnica, cujo limite inferior de idade era dezesseis anos. Ministra, como professor suplente, um curso de matemáticas especiais aos seus antigos condiscípulos. Também alguns de seus antigos monitores assistem essas aulas.

Em 1816, Comte é expulso da escola Politécnica com alguns colegas de que fora porta-voz., porque entraram em atrito com um professor, ameaçando-o de, em conjunto, não mais freqüentarem suas aulas. Todos foram licenciados do curso. Fechavam-se as portas dos empregos públicos ao aluno insubordinado. Pelo menos havia adquirido uma forte cultura matemática.

Desde seu retorno de Paris, com a ajuda de sábios que ele conhece, tais como Poinsot,3 o geômetra, e Blainville4, o naturalista, consegue alunos para ministrar aulas, a partir das quais consegue o sustento. Graças a seu gênio difícil , orgulhoso e complicado, atraiu antipatias que o levaram, em 1844, a perder o lugar que ocupava como repetidor e examinador na Politécnica. Casou-se em 1825 com Caroline Massin, de quem separou-se em 1842, após dezessete anos de íntimos sofrimentos, segundo suas próprias palavras. Em 1845, conhece Clotilde, mulher abandonada muito moça pelo marido, que se torna sua violenta paixão. Ela morre m 1846, e deixa-o inteiramente consagrado ao seu trabalho. É a partir de então que Comte passa a Segunda parte de sua obra, dedicando-se aos escritos sobre política e religião.

Comte freqüentou assiduamente os escritos de Voltaire, J.J. Rousseau , Montesquieu e Condorcet. A este deve sua conduta de profunda atenção e respeito para com a História.

Rejeitou e combateu as idéias de Rousseau, a quem atribuía a origem de todas as utopias anárquicas do nosso século...5
Meus trabalhos são de suas espécies: científicos e políticos. ...(...)...Eu faria muito pouco caso dos trabalhos científicos se eu não pensasse perpetuamente em sua utilidade para a espécie ( humana); senão fosse o caso eu apreciaria mais decifrar logogrifos. Eu tenho uma soberana aversão pelos trabalhos científicos dos quais eu não percebo claramente a utilidade, seja direta seja as a que se reporta;...(...) eu reitero assim que, malgrado minha filantropia, eu aportaria muito menos ardor aos trabalhos políticos se eles não se propiciassem o uso da inteligência6 .
Comte escreveu o Curso de filosofia positiva, que deu substância à proposta do positivismo e deixou marcas em todo o pensamento contemporâneo. A experiência indica-nos que o sistema educacional brasileiro é profundamente enraizado nos mesmos pressupostos que servem ao positivismo. Também a evolução da economia industrial e da sociedade de consumo, ora estratificada em nosso país, encontra profundos vínculos com o racionalismo positivista.

O Discurso sobre o espírito positivo7 é um pequeno livro cuja edição original teve 125 páginas, sem qualquer nota de rodapé ou comentário fora do texto. Comte, nesse trabalho, assume postura nitidamente transdisciplinar. Para facilitar a leitura, todos os textos seguintes, grafados em itálico, procuram corresponder a uma tradução livre que fizemos do original francês, copiado numa edição de 1909, idêntica ao texto original, da Librairie Schleicher Frères, Paris.



Nas primeiras linhas, Comte justifica:
O conjunto de conhecimentos astronômicos, até agora considerado muito isoladamente, deverá ser aproveitado daqui por diante como um dos elementos indispensáveis para um novo sistema indivisível da filosofia geral, gradualmente preparado pelo concurso espontâneo de todos os grandes trabalhos científicos próprios dos últimos três séculos e que, finalmente, veio, na atualidade, atingir sua maturidade abstrata. Em virtude desta conexão, ainda pouco compreendida, a natureza e o destino deste Tratado não seriam suficientemente apreciados se este preâmbulo necessário não fosse consagrado a definir convenientemente o verdadeiro espírito fundamental desta filosofia, cuja instalação universal deve, no fundo, tornar-se o objetivo essencial de um tal ensinamento. Como ela se distingue principalmente por uma contínua preponderância, ao mesmo tempo lógica e científica, do ponto de vista histórico e social, eu devo de início, para caracterizá-la melhor, invocar sumariamente a grande lei que eu estabeleci, em meu Sistema de Filosofia Positiva, sobre a inteira evolução intelectual da Humanidade, lei à qual, em princípio, nossos estudos astronômicos recorrerão freqüentemente.
René Hubert8 afirma:
O método baconiano unido ao racionalismo cartesiano, escreve René Hubert, conquistou definitivamente o pensamento filosófico no decorrer das rudes batalhas travadas pelos Enciclopedistas - e pelos seus antecessores - durante o século XVIII, ao espírito religioso sob duas formas: o dogmatismo de autoridade e o misticismo sentimental. A fecundidade da doutrina comtista está toda na fusão destas duas tendências (...), na aplicação aos fatos descobertos pelos políticos, do método elaborado pelos físicos.
Cruz Costa9 salienta:
A inteligência, emancipada do império opressivo da metafísica que pretendia explicar o mundo por meio de entidades vagas , apenas reconhece, doravante, como regra fundamental ¨ que toda proposição que não é estritamente redutível à simples enunciação de um fato, particular ou geral, não pode oferecer sentido real e inteligível¨.
Comte assume sua preocupação política e escreve, já aos 22 anos, uma Sommaire Apréciation de l´Ensemble du passé Moderne (1820) em que diferencia a política teológica da política científica. Nesse trabalho o pensador francês afirma:

No passado, dois poderes se defrontavam: o poder espiritual representado pelo Papa e pela teologia e o poder temporal, representado pelo senhor feudal. Nos nossos dias, a ¨ capacidade industrialou das artes e ofícios é o que deve substituir o poder feudal ou militar. Na época em que a guerra era e devia ser considerada como o próprio meio da prosperidade das nações , era natural que a direção dos negócios temporais da sociedade estivesse nas mãos do poder militar e que a indústria, considerada como subalterna, apenas fosse tida como instrumento. Ao contrário, quando as sociedades, enfim, se convenceram pela experiência de que o único meio pelo qual las podem adquirir riqueza consiste na atividade pacífica, isto é, nos trabalhos industriais, a direção dos negócios temporais deve naturalmente passar para a capacidade industrial .
Após a Sommaire apréciation du Passé Moderne, Comte escreve o Plan des Travaux Scientifiques pour reorganiser la societé (1822), abandonando a posição crítica que até então sustentava, e assumindo uma postura orgânica, sistemática.

Segundo Cruz Costa:


A formulação da sua descoberta fundamental, a Lei dos Três Estados, irá conduzi-lo para novos caminhos. É preciso não esquecer todavia que, nesse momento, Augusto Comte estava a viver na atmosfera de ascensão do chamado partido ultra.A burguesia começara a sentir, nessa época, a falta de uma organização social que nção a submetesse ao arbítrio de um caudilho, sentia necessidade enfim, de uma organização que não a sujeitasse novamenyte ás aventuras do absolutismo. Era este o desejo da burguesia francesa da época e a esse desejo corrsponderia a filosofia política de Augusto Comte.
Nas palavras do próprio Comte no Plan des Travaux Scientifiques,p.47:
Um sistema social que se extingue, um novo sistema que chegou á maturidade e que tende a se constituir, tal é o caráter fundamental assinalado à época atual pela marcha da civilização. Segundo este estado de coisas, dois movimentos de natureza diferente agitam hoje a sociedade: um de desorganização e outro de organização. Pelo primeiro, considerado isoladamente, ela é impelida para uma profunda anarquia moral e política que parece ameaçá-la com uma próxima e inevitável dissolução. O segundo, mais conveniente à sua natureza, é aquele em que todos os meios de prosperidade deve receber o seu mais inteiro desenvolvimento e a sua aplicação mais direta. É da co-4s=xistência destas duas tend~encias opostas que resulta a grande crise sentida pelas nações civilizadas. É sob este duplo aspecto que ela deve ser considerada para poder ser compreendida.
Ao iniciar o volume IV do Curso de Filosofia Positiva,p.5/6, Comte afirma:
A ordem e o progresso que a antigüidade considerava como essencialmente inconciliáveis , constituem, cada vez mais, devido à natureza da civiklização moderna, duas condições igualmente imperiosas cuja íntima e indissolúvel combinação caracteriza, doravante, a dificuldade fundamental e o principal recurso de todo verdadeiro sistema político. Nenhuma ordem real pode estabelecer-se e, sobretudo durar, se não é plenamente compatível com o progresso; nenhum grande progresso poderá realizar-se efetivamente, se não atender finalmente para uma evidente consolidação da ordem.10
Comte sempre demonstrou grande simpatia pela Igreja Católica subordinada a Roma, mas julgava que a filosofia teológica e o poder temporal que a ela davam respaldo não poderiam possuir a solidez que só uma filosofia positivista pudesse lograr. Reconhecia que a esse poder eclesiástico a Europa Medieval devia uma organização regular e permanente que a manteve sob uma certa ordem voluntária. E lhes imprimiu , como resposta a determinadas circunstâncias que tinham implicações coletivas, força social suficiente para dar respaldo a sustentação de movimentos tais como as cruzadas.

A desordem crítica que resulta do século XVI destruiu, porém esse mundo medieval, supostamente harmônico e perfeito. Formaram-se novas potências nas mais diversas regiões européias, entre elas surgiram disputas que as devolviam à selvageria e à brutalidade das guerras interiores. Cruz Costa11 relata:


Os reis fizeram gravas em seus canhões a triste inscrição: ultima ratio regis. E o que se fez para substituir o antigo poder espiritual que mantinha a ordem medieval? Procurou-se, diz Comte, encontrar no equilíbrio europeu um substitutivo para esse poder, o que foi ridículo. E esse equilíbrio a Revolução destruiu.
Comte atribui assim à inexistência de um poder espiritual a indisciplina moral em que vive a sociedade que lhe é contemporãnea. Dessa ausência, nítida e fácil de ser constatada, emerge a divagação das inteligências, que nas coletividades não passíveis de individualização, ou seja, nas massas populares, faz impossível qualquer acordo eficaz e estável acerca das questões referentes à ordem e à justiça social.

E, para atuar nesse contexto, como já não se observa a existência de um poder espiritual suficientemente capacitado para o exercício de sua autoridade, impõe-se o reconhecimento da autoridade do poder organizacional dos cientistas. Esboçam-se os perfis do cientista político e do sociólogo.

A filosofia , sob o enfoque positiva, tem características próprias do pragmatismo, pois destina-se a dar suporte à moral, ou seja, às práticas que se consolidam nos costumes; às atividades políticas, que dizem respeito às relações entre o indivíduo e sua coletividade, nas diferentes órbitas em que esta se manifesta, ou seja, comunidade, cidade, estado, nação, etnia etc. e à religião, aqui entendida como todo o processo de relacionamento entre o ser humano e as formas mentais que possibilitam suas ligações com as divindades. Por força de sua vinculação ao cristianismo pregado pelo catolicismo romano, Comte tem em vista sobretudo a religião enquanto relacionada com a Igreja Romana.

Importa ressaltar o sentido transcendental implícito no positivismo, que fica nítido nas palavras de Cruz Costa12:


Aliás, já desde os tempos em que cursava a Politécnica, Comte compreendera a insuficiência de uma instrução científica limitada à primeira fase da positividade racional, que se estende apenas ao conjunto dos estados orgânicos. Sentirá ainda ¨ antes mesmo de haver deixado esse nobre estabelecimento revolucionário, a necessidade de aplicar as especulações vitais e sociais, a nova maneira de filosofar que tinha aplicado em relação a assuntos mais simples ¨ ...(...) A política deveria, pois, pressupor uma ciência social, assim como as diferenças técnicas supõem diferentes ciências, com objetivos precisos. A mesma convergência mental que determina a certeza e a unidade d pensamento científico, transportada para o domínio social, requer a existência de uma doutrina ou de um sistema de crenças que deve ser homogêneo e comum a todos os homens. Admitida esta doutrina, impunha0-se a instituição de um poder espiritual cuja função consistisse também em espalhar a doutrina e assegurar-lhe a permanência. Daí deriva a necessidade de uma igreja que, no caso, será uma igreja em que os sábios oficiarão como sacerdotes
Pode-se, a partir destas considerações, afirmar uma grande semelhança entre o platonismo e o positivismo, ratificado nas próprias palavras do filósofo francês:
O poder espiritual tem por destino próprio o governo da opinião, isto é, o estabelecimento e a manutenção dos princípios que devem presidir as diferentes relações sociais. Esta função geral se divide em tantas partes quantas são as classes distintas de relações, pois não há, por assim dizer, nenhum fato social no qual o poder espiritual não exerça uma certa influência quando ele é bem organizado.
Comte reconhece e mostra-se grato à influência da filosofia católica sobre suas idéias, embora qualifique-a de natureza evidentemente retrógrada..
Comte atribui à filosofia a tarefa de coordenar entre si todas as partes da existência humana, a fim de reduzi-las a uma verdadeira unidade. E, no pensamento positivista, esta é a incumbência não só da filosofia mas da política positivista. Aqui o filósofo e o político trabalham juntos, ligados por uma moral sistemática que constitui a aplicação da filosofia como guia da ação política.

Pierre Ducassé13 faz sobre este momento positivista a seguinte observação:



O primado da ação reforça a autoridade e a supremacia da ciência desinteressada, da ciência pura. Mas entre esta e a aplicação, há quase sempre um hiato para o entendimento humano: uma zona de impotência que assinala o fracasso da nossa razão, uma distância intransponível para as nossas deduções racionais. Impotência do nosso espírito adaptado ao simples e a que a complexidade fatiga muito depressa. O que admira é a engenhosidade com a qual a raça humana procura ultrapassar esse obstáculo teórico. Em todos os domínios os artifícios práticos são extraordinariamente fecundos; a própria origem das ciências não é inseparável do impulso das técnicas: em toda parte as necessidades da ação humana suscitam e fecundam o gênio inventivo.
E, finalizando esta introdução, atentemos à observação de Cruz Costa14:
Afim de que a coordenação positiva se processe integralmente é misrter, porém que não deixe de atender ao sentimento. Ainda uma vez é o sistema teológico um exemplo que serve para Augusto Comte. Referindo-se à fase teológica da história, diz Comte, que, apesar de sua evidente caducidade, ela conservará, ao menos em princípio, algumas pretensões legítimas à preponderância social enquanto a nova filosofia não a despojar também deste privilégio fundamental. A filosofia positiva não se consolidará, portanto, na opinião de Comte, enquanto não tiver a sua estruturação moral, cuja base se encontra na afetividade. Se a positividade parece pouco adequada ao sentimento, o que é natural em virtude de sua própria origem, estendida agora ao domínio do social, perde os vícios que lhe são próprios. A nova filosofia destina-se a ser mais moral que intelectual e fazer a vida afetiva o centro de sua sistematização, afim de ¨ representar exatamente os direitos respectivos do espírito e do coração na verdadeira economia da natureza humana , quer ela seja individual ou coletiva ¨.
2. A Lei dos Três Estados

Comte adota como verdade que todas e quaisquer especulações humanas são inevitavelmente subordinadas, tanto no indivíduo como na espécie humana, a passar por três estados teóricos diferentes. Assim, define como passagem obrigatória das formas de pensar, três estados do espírito humano (sic), a saber: Teológico, Metafísico e Positivista

O Estado Teológico manifesta-se pela predileção das formas de pensar que se dirigem à abordagem especialmente das questões insolúveis e radicalmente inacessíveis. No estado teológico o espírito (sic) do homem cultiva o misticismo e os mistérios, e também o que lhe parece mágico, sagrado e inexplicável. Procura, com avidez, entender e conhecer a origem de todas as coisas, as causas essenciais, sejam primeiras ou as últimas, como ocorrem os fenômenos que o sensibilizam e o conhecimento absoluto. Há um esforço do espírito para humanizar os fenômenos, abordando-os mediante a transposição de todas as regras indicadas pelos modelos formados ao longo da experiência humana. Recorre então às comparações, às assimilações, às metáforas e às analogias, apropriando-se de tais evocações por meio de manifestações intuitivas e imediatas em face de tudo que lhes diga respeito.



  1   2   3   4


©livred.info 2019
enviar mensagem

    Página principal