Atlântida-as novas provas



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MARTIN EBON
ATLÂNTIDA

As Novas Provas

Tradução de MÁRCIO PUGLIESI


 

EDITORA PENSAMENTO

São Paulo

Título do original:

ATLANTIS: THE NEW EVIDENCE 

Copyright © 1977 by Martin Ebon 

AGRADECIMENTOS
O autor reconhece, agradecido, a cooperação, conselho e orientação recebidos de pessoas e organizações, para a preparação deste volume. Dentre estes, principalmente: William R. Akins, Dra. Maxine Asher, Michael Ballantine, Cha-riklia E. Baltazzi, Brett Bolton, Wanda Sue Childress, Anne E. Cusack, Pa-nayotis Martakis, Dr. James W. Mavor, Jr., Dr. William Niederland, Egerton Sykes e Dr. David D. Zink. Dentre as organizações e agências que proporcionaram ajuda para a pesquisa deste livro estão a Association for Research and Enlightenment, Escritório Nacional Grego de Turismo, Ancient Mediterranean Research Organization, Institutos Arqueológicos Germânicos em Atenas e Roma, Ministério Grego de Cultura e Ciência e a Sociedade Arqueológica de Atenas. O autor, tão-somente, é responsável pelos fatos e conclusões apresentados nas páginas seguintes.

SUMÁRIO
Capítulo 1 — NO TOPO DO VULCÃO

Capítulo 2 — OS ECOS DE PLATÃO

Capítulo 3 — IMPACTO NO EGITO

Capítulo 4 — NO CENTRO DO CENTRO

Capítulo 5 — JACQUES COUSTEAU EM BUSCA DA ATLÂNTIDA

Capítulo 6 — A VERSÃO DE DONNELLY

Capítulo 7 — O QUE ATINGIU A ATLANTIDA

Capítulo 8 — O GRANDE MISTÉRIO DE SCHLIEMANN

Capítulo 9 — A ATLÂNTIDA TERIA SIDO DESTRUÍDA POR UM GRANDE METEORO?

Capítulo 10 — DA ATLÂNTIDA AO HAVAÍ

Capítulo 11 — PARALELOS VULCÂNICOS

Capítulo 12 — "ACREDITAMOS QUE ISTO FOI A ATLÂNTIDA!"

Capítulo 13 — POR QUE "ATLANTIDA"?

Capítulo 14 — AS "LEITURAS" SOBRE A ATLÂNTIDA DE EDGARD GAYCE

Capítulo 15 — A "GEOMETRIA SAGRADA" DE BIMINI

Capítulo 16 — O PARAÍSO DO PASSADO E DO FUTURO

Capítulo 17 — ONDE ESTA A VERDADEIRA ATLÂNTIDA?

APÊNDICE — SOBRE A LENDA DA ATLÂNTIDA

BIBLIOGRAFIA

Capítulo 1

NO TOPO DO VULCÃO


Sob este mar jaz o segredo da legendária ilha-continente da Atlântida. Escrevo estas palavras nas bordas do vulcão que forma a ilha de Santorini, cercada pelas águas do Mar Egeu, no Mediterrâneo oriental. Olhando por sobre as rochas que separam a rodovia superior dos íngremes rochedos vulcânicos, vejo lá embaixo a baía, que é, de fato, por sua vez, um vulcão cheio de água, profundo e obscuro. E no meio desta baía de Santorini, guardada agora pela neblina da manhãzinha, duas ameaçadoras ilhas vulcânicas que, com o passar do tempo geológico, se ergueram apenas bem recentemente do mar. Fumaça sulfurosa ainda emana delas, pois não são pacíficas; são um elo direto entre a vasta força dilaceradora dentro da terra, e todos nós, que vivemos precariamente na casca deste planeta.

Tememos os vulcões, e estamos certos. Nossa memória curta pode nos isolar dos perigos potenciais que estão abaixo de nossos pés, mas apenas enquanto escolhemos ignorar a candente e borbuIhante realidade, logo abaixo. Uma vez passei uma noite nas bordas de um vulcão extinto, o Monte Quintamani, na ilha de Bali. Um hotel para doze pessoas havia sido construído ali. O vulcão havia muito estava apaziguado; as memórias do último desastre, na década de 20, haviam desvanecido, e dormi sem sonhos maus. Mas o Santorini é diferente: o passado turbulento, que abrange pelo menos 3.500 anos de convulsões violentas, está sempre ao nosso lado. A série de erupções em Santorini (também conhecida como Thera) foi tão severa que agora parece certo que causou a destruição de avançada civilização, que o antigo filósofo-poeta grego, Platão, chamou Atlântida.

Exatamente quando e em que seqüência temporal esta lendária Atlântida foi destruída, é de pouca importância, se olharmos para a baía aparentemente sem fundo, a "caldeira", parcialmente cercada pelas ilhas menores que formam este grupo. É realidade forte, tristonha e sombria — em vivido contraste com as brilhantes e alegres pinturas murais que os arqueólogos encontraram sob a poeira vulcânica que cobre esta ilha.

Desde que Platão falou da Atlântida, muita especulação sobre a vida e localização da ilha, ou continente, tem cruzado nosso caminho. Os atlantes seriam capazes dos feitos tecnológicos que rivalizariam ou excederiam os nossos? Somos — ou alguns de nós são — antigos residentes reencarnados da Atlântida? Houve aviso suficiente antes da Atlântida ser engolfada, para permitir a seus habitantes escapar e levar suas artes e ciências a outras partes do mundo, do Egito às Américas? E a Atlântida, como seu nome implica, situava-se no Oceano Atlântico?

Tentaremos responder a estas perguntas mais tarde. Agora, no topo deste vulcão, defrontamo-nos com a realidade, não com a lenda, não com pensamentos imaginosos ou combinações engenhosas de fatos dispersos que poderiam sugerir uma ou outra resposta ao enigma da Atlântida. A nova evidência que emergiu, e que promete dar as mais definitivas réplicas às questões sobre a Atlântida, está bem aqui, dentro da caldeira à nossa frente e no sítio arqueológico de Acrotiri, em Santoríni mesmo.

Estas bordas rochosas da ilha-vulcão são por si mesmas evidência concreta. Uma olhada para elas, e vemos variadas camadas de vermelho, cinza, negro, marrom e preto; explosões mesmo das entranhas da Terra causaram esta palheta de cores. Cinzas, escórias, lavas e, principalmente, pedra-pomes acumularam-se umas sobre as outras. Vê-se-as primeiro do barco, ao chegar-se a uma das duas pequenas enseadas — Thera, também conhecida como Fira, e Atínios. Destaca-se claramente um nível diferenciando-se acima do outro, cada um representando um longo período da história vulcânica da ilha.

Ao passo que a caldeira é muito profunda para permitir a ancoragem de embarcações, pequenos aparelhos visitam os elementos concretos e visíveis do violento passado do grupo de ilhas: a Palea Caimeni ("Ilha Queimada Velha"), e Néa Caimeni ("Ilha Queimada Nova"), aboletadas dentro da baía. Uma viagem a Néa Caimeni, que apareceu na caldeira no começo do século XVIII, leva-nos à Baía de Petrulion, desta ilha. É uma ladeira inclinada, até o pico da ilha; não há sombras, e a subida é quente e exaustiva.

Sendo árdua, a subida oferece inúmeras razões de parar e olhar a paisagem. Lava e cinza vulcânica são aqui e ali misturadas com pequenas manchas de vegetação que, com a persistente ousadia da natureza, irrompem pelas encostas áridas. Aqui também, há camadas que sugerem o crescimento intermitente da ilhota desde que emergiu do mar, em 1707; ravinas, cortes na superfície, e recortes no chão são uma evidência geológica do crescimento.

Quando atingimos o pico de Néa Caimeni, não há mais dúvida de que é a própria borda do vulcão. Olhamos direto para sua cratera, Rei Jorge I. Fumos de enxofre, escapando aleatoriamente, relembram-nos que aqui temos um vislumbre da Terra em sua essência mais inquieta. Para qualquer um, é uma visão assombrosa, que não requer recordação da história destrutiva do Santorini; a sensação de drama violento, passado e futuro, é onipresente.

Mas como a existência do vulcão de Santorini une a moderna ciência com a antiga Atlântida?

Mostra concretamente que, em tempos pré-históricos, este vulcão, dentro do Mar Egeu, experimentou uma explosão para a qual não há paralelo, na extensão de sua violência e danos potenciais, muito além de seus horizontes. Há evidências suplementares, a partir de escavações que principiaram em 1967 em Santorini mesmo, na vila de Acrotirí. Estas escavações demonstraram que a ilha era parte ativa e culturalmente avançada da civilização minóica, da qual o palácio de Cnossos — em Creta, ao sul daqui — é o exemplo mais amplamente conhecido.

Sob a direção do professor Spiridion Marinatos, que morreu num acidente no local da escavação, em 1973, Acrotirí tem fornecido obras de arte, ferramentas, edifícios e outros elementos da civilização que colocam seu papel cultural firmemente dentro da vida minóica. Marinatos adiantou a hipótese de que a explosão do Santorini causou tamanha inundação nas costas cretenses que segmentos inteiros de seu litoral foram destruídos; ao mesmo tempo, o vulcão deve ter cuspido cinzas e pomes sobre Creta em tal quantidade e densidade, de modo a enterrar a civilização minóica, inclusive o palácio* de Cnossos, e expulsar seus habitantes.

Exatamente qual a cronologia destes cataclismas, ou se Santorini (Thera) era a Atlântida de que falava Platão, ninguém pode dizer com certeza. Arqueólogos, geólogos, vulcanólogos, e uma nova geração de cientistas — arqueólogos submarinos, podem trazer diferentes fatos para sustentar diferentes visões. Mesmo a ciência de datação dos artigos encontrados em escavações é ainda relativamente jovem, e os especialistas polemizam sobre seus tópicos, nas publicações especializadas. O assunto torna-se ainda mais complicado quando se encontram restos de civilizações que foram submersas pelo mar por séculos, ou milênios; água, areia e marés tornam a datação extremamente difícil, e a erosão submarina comporta-se diversamente da que se dá em terra emersa.

Se a vasta erupção do Santorini, cerca de 1.500 a.C. está no cerne da idéia da Atlântida, que dizer de relatos dos restos da Atlântida em outros lugares? Afinal, algumas autoridades sustentam que a Atlântida era um continente no Oceano Atlântico, sendo ilhas assim como os Açores, meros remanescentes dele. E também, muito recentemente, expedições submarinas perto de Bimini, no Caribe, apontaram para uma civilização submergida; evidências associadas com a Atlântida foram relatadas nas costas da Espanha e Irlanda, no Mar do Norte, e ainda alhures.

Não precisamos desencorajar explorações atuais e futuras, sob os mares, quando presumimos que — presentemente — as novas evidências de Santorini são provavelmente os mais persuasivos dos dados ora disponíveis relacionados com os textos de Platão. O que torna esta evidência persuasiva é a própria natureza das escavações de Acrotiri; aqui podemos medir evidências de campo contra controvérsias acadêmicas e alegações coloridas, mas fracamente documentadas.

Andei pelas escavações de Acrotiri uma década depois de terem principiado. O que Marinatos e seus colegas desenterraram era uma cidade suficientemente acessível — isto é, não muito profundamente coberta por detritos vulcânicos — de modo que as ferramentas e técnicas modernas podem preservá-la consideravelmente. Ao passo que os afrescos delicadamente coloridos e traçados estão agora em exposição no Museu Arqueológico de Atenas, o sítio de Acrotiri é claramente visível como uma série de casas, ruas, centros artesanais e armazéns. Não há praticamente dúvida nenhuma de que o povo que viveu aqui por volta de 1.500 a.C. foi inicialmente expulso de suas habitações por uma perturbação que pode ter sido um forte terremoto; depois, a explosão vulcânica cobriu o povoado com detritos.

A controvérsia sobre a Atlântida deve ser considerada à luz da moderna arqueologia, seus feitos e limitações. Três nomes agora se destacam, nomes que são marcos na estrada que nos leva de volta à antiga Grécia. Um é Heinrich Schliemann, de quem falaremos num capítulo posterior, que descobriu Tróia e Micenas; o outro, é Sir  Arthur Evans, que desenterrou e reconstruiu o palácio de Cnossos, em Creta, e cunhou o termo "civilização minóica"; o terceiro, é Marinatos, que primeiro chamou a atenção à presença de pedra-pomes na cidade cretense de Amnissos — que ele atribuiu a emanações vulcânicas do Santorini. Spiridion Marinatos publicou os resultados deste trabalho arqueológico de detetive no trabalho "Sobre a Lenda da Atlântida", no jornal especializado Creta Chronica, em 1950; o texto completo de seu trabalho é um apêndice deste livro. A Segunda Guerra Mundial interrompera seu trabalho. Marinatos e seus colegas engajaram-se em outras escavações durante o período imediatamente após a guerra. Mas uma vez começando escavar em Acrotiri, obtiveram resultados depressa, e em grande número.

Pode-se andar por um museu e ficar logo entediado com vaso após vaso, estatueta após estatueta, estátua após estátua. A virtude de se observar uma escavação assim como Acrotiri está na qualidade intrínseca de seu traçado: aqui, de fato, foi onde um povo viveu sua vida cotidiana, há uns 3.500 anos; os produtos de sua imaginação e habilidade estão claramente visíveis. Pondo o trabalho dos artistas da Creta minóica lado a lado com os de Acrotiri, a unidade de estilo torna-se óbvia na delicadeza de imagens de flores, mulheres, animais — macacos azuis lançando-se de ramo para ramo, por exemplo — bem como nos assuntos e materiais usados.

Marinatos, relatando a estação de escavações de 1969, afirmou que era altamente improvável que uma erupção tal como a do Santorini tivesse deixado Creta intocada. — É impossível — escreveu ele —, ignorar a potência catastrófica das tsunamis — ondas fortíssimas e destruidoras que teriam atingido o litoral cretense. Acrescentava:

— É impossível, portanto, imaginar que Creta e outros lugares no Egeu oriental escaparam a danos terríveis pelas tsunamis, por volta de 1.500 a.C. — Isto, claro, sugere que a busca da Atlântida de Platão não termina em Creta, nem em Santorini, nem em nenhum outro lugar. Abre avenidas totalmente novas ao cientista ativo e imaginativo.

O mágico nome "Atlântida" proporciona ímpeto poderoso a novas aventuras no passado humano. Quando o explorador marinho francês, Jacques Cousteau, trouxe seu barco Calypso ao Mar Egeu, ele não só explorou a área em torno a Santorini e Creta, mas fez uma pesquisa subaquática particular de uma ilhota, Dia, ao norte de Creta e na direção de Santorini. Sem dúvida, um amplo público pode depreender dos filmes de Cousteau que a pesquisa de civilizações perdidas deveria estender-se a outras áreas sob o mar. Particularmente os platôs que se estendem do continente e ilhas pelas águas do Egeu e em outros locais, poderiam fornecer material valioso que poderia ser superposto às novas evidências ora sendo descobertas.

Tudo isto, ou pelo menos muito disto, poderia não ter acontecido, sem as palavras de Platão sobre a Atlântida afundada. Como suas descrições foram preservadas, foram-nos dados um termo e uma imagem que significam muito mais que qualquer artefato trazido à luz por uma pá ou pela haste de um mergulhador; Platão nos deu uma visão do que uma vez fomos, e poderíamos ser, mais uma vez.


Capítulo 2

OS ECOS DE PLATÃO


"Antes de Platão: silêncio; depois, ecos." É assim que Hans Schindler Bellamy sumariou o papel do antigo poeta-filósofo ateniense em seu livro O Mito da Atlântida. Schindler é representante da crença acadêmica de que nenhuma fonte verificável concernente à Atlântida precedeu Platão. Ele escreve: "Um total de cerca de cem referências à Atlântida é encontrado na literatura clássica pós-platônica, mas não acrescenta novos aspectos ou facetas ao mito do grande filósofo”.

A Atlântida começou com Platão, e nós que buscamos provas de sua existência e ponderamos sobre seu destino e significado, somos seus herdeiros. Mas quem, realmente, foi este homem cuja face conhecemos apenas de esculturas que podem ou não ser réplicas fiéis de sua aparência? Qual era o mundo em que ele viveu, que proporcionou um cenário à sua vida e obra, que o alimentou, mas que o repeliu, e que o fez ansiar e escrever sobre uma sociedade utópica que seria radicalmente diferente da anárquica Atenas que ele conhecia demasiado bem. Bem à parte da descrição platônica da Atlântida, há uma fascinação dentro do homem com sociedades contrastantes com o padrão de vida que via à sua volta. Era um período em que as idéias democráticas tinham sido derrubadas, por excessos. O quarto século antes do nascimento de Cristo, não só na velha Atenas, mas em muitas outras cidades-estado e comunidades no Mediterrâneo oriental, era um século em que o caos e a tirania estavam engajados numa das lutas cíclicas que têm sido parte da existência registrada da humanidade — naquela época, antes e depois.

As idéias políticas que Platão expressa em sua obra máxima, a República, foram freqüentemente descritas como utópicas. Este termo sugere que Platão visava ao estado ideal; se bem que, olhando para trás, a forma de governo de Platão contivesse elementos de uma impiedade intolerável para nossa visão contemporânea. A Atlântida que ele figurava era uma realidade diferente, ou uma visão diferente — muito embora se possa ver a República e a Atlântida como lados contrastantes da mesma moeda filosófico-política. Mas, acima de tudo, devemos ver Platão e suas visões como produtos de seu tempo e lugar. E quais eram precisamente?

A dracma havia caído de novo, o exército que havia sido enviado à Sicília tinha sido derrotado, o excesso de democracia desregrada expunha agora seus erros, e o governo estava caindo. Estes não eram assuntos, entretanto, que pareciam preocupar alguém além das classes patrícias; assim como os escravos para o homem medíocre que andava pelas ruas da Atenas do século quinto, estes eram assuntos sobre os quais não tinham controle.

Descrever as ruas da antiga Atenas seria catalogar todas as condições humanas dentro da sociedade ateniense. Aqui, você encontraria mendigos maltrapilhos agachados no pó, mercadores cantando suas melodias, escravos fazendo algo para seus senhores, trabalhadores esperando serem contratados para o dia, o escriba oferecendo-se-lhe para escrever cartas, o estrangeiro procurando uma cama para passar a noite, comerciantes e lojistas discutindo preços — e, talvez, a despeito da confusão e do movimento, alguém poderia ter observado Platão andando, e suavemente debatendo com algum de seus jovens discípulos, bem como seu mestre, Sócrates, havia feito muitos anos antes.

Esses grupos irrequietos produziriam, inevitavelmente, um lixo, inimaginável. Platão deve ter sempre esperado com naturalidade a lama e os detritos nas ruas. A acumulação de potes quebrados, tijolos, e lixo das casas, combinados com a poeira, deviam formar um pântano a cada chuva. O mau cheiro no verão seria muito pouco menos desagradável. Para compreender as condições nas quais Platão viveu, devemos esquecer todas as nossas noções modernas de conforto e sanitarismo, e preparar-mo-nos para ficarmos impressionados quando um arqueólogo solenemente informa a descoberta de um esgoto primitivo.

Na República, o próprio Platão nos dá uma breve imagem da vida cotidiana sob a democracia restaurada: "Os cavalos e jumentos têm um modo de acompanhar todos os direitos e dignidades dos homens livres; e arremeterão contra qualquer um que encontrarem nas ruas, se não deixarem o caminho livre para eles; e tudo está sempre prestes a estourar de liberdade".

Platão (427-347 a.C.) foi um dos maiores escritores em prosa, e, quiçá, epigramatistas poéticos da literatura grega, bem como um dos mais influentes filósofos gregos. Ao passo que pode ser um exagero dizer que toda a filosofia ocidental "constitua apenas uma nota de rodapé a Platão", quase todos os principais temas da filosofia ocidental foram primeiro tratados por ele. A maioria de seus pensamentos foi expressa sob a forma de diálogos, sendo os primeiros vivazes e distintos por um uso quase ficcional da caracterização, mais memoravelmente a de Sócrates. Em suas últimas obras, seu estilo torna-se mais expositivo, uma mudança dramática que tende a confirmar sua identificação com Platon, o poeta cujo nascimento (429-347 a.C.) quase coincidiu com o de Platão, o filósofo, e que também foi discípulo de Sócrates. Se foram uma mesma pessoa, o Fedro e o Symposium podem nos oferecer o elo espiritual entre os epigramas amadorísticos e os livros filosóficos. Certamente, sendo contemporâneos e discípulos de Sócrates, os dois, se de fato não eram uma só pessoa, devem ter-se conhecido. Talvez uma outra confirmação de sua identidade possa ser achada na República, seu trabalho mais famoso, onde o estado ideal é apresentado, dando azo aos escritos sobre a Atlântida, e o problema da justiça social é examinado minuciosamente. É nesta obra que ocorre a condenação dos poetas, onde são excluídos da participação no governo, e mesmo da cidadania. Pode-se ver nestes escritos a opinião de um ancião que fora poeta em sua juventude, e sabia bem que tipos socialmente não-confiáveis e perturbadores são.

Ainda outras alegações pelo estado ditatorial são apresentadas por Platão na República e, em menor extensão, nos escritos da Atlântida, baseando-se na infelicidade na Grécia, após a derrota na Sicília, a posição da família de Platão na estrutura social, e as destruições da democracia desgovernada, que vira em sua juventude. Um aristocrata, ele e sua família, amigos e seguidores olhavam a constituição vigente com descontentamento suspeito. Seus escritos retinham o idealismo elevado da juventude, e seu refúgio numa Utopia política era indubitavelmente influenciado pelo desagrado que sentia em relação a uma democracia auto-indulgente.

Ainda outras influências em sua filosofia social e política seriam seus esforços poéticos (que sabemos que os fez, mesmo que não seja o Platão cujos poemas sobreviveram), sua atração por Crátilo, o filósofo heraclitiano, e depois por Sócrates.

Sócrates foi a mais profunda e duradoura influência na vida de Platão, mas devemos presumir que um jovem tão educado e faminto de saber estava também informado a respeito de outros filósofos, na era do declínio de Atenas. Devemos presumir, com Benjamin Jowett, que é improvável que Platão "não tivesse tentado informar-se até seu trigésimo aniversário sobre os feitos dos filósofos anteriores, que não tivesse aprendido nada de seu amigo Euclides sobre os eleáticos, nem de Símias e Cebes sobre Filolaus, que ele não tivesse perguntado nada a respeito das doutrinas continuamente trazidas à superfície pelas leituras públicas e disputas dos sofistas, e tenha deixado sem ler os escritos de Anaxágoras, tão facilmente disponíveis, em Atenas".

Durante o julgamento de seu mestre, Sócrates, Platão estava ausente, alegando doença. No "entretanto, muitos dos jovens discípulos aristocratas de Sócrates deram desculpas similares. É possível que Platão estivesse sendo cauteloso quanto a associar-se com seu mestre. Acusado pelos tiranos de Atenas de "corromper a juventude", Sócrates pode ter sido de fato, culpado, mas a "corrupção" teria sido antes homossexualismo do que filosofia. Após a morte de Sócrates, Platão e outros discípulos foram à cidade de Megara, para estudar com. Euclides. A tradição também quer que Platão tenha visitado o Egito, onde obteve seu conhecimento sobre a Atlântida, a Cirene, Magna Grécia e Sicília. Este exílio, ou viagem, consumiu uns 10 ou 12 anos, e parece claro que Platão estudou com os pitagóricos italianos, cujo conhecimento matemático ele dominava. Na Sicília, visitou a corte de Dionísio, o Velho, onde chegou a ofender, com sua fala direta. Por seu moralismo, foi entregue ao embaixador Pollis e posto à venda, no mercado de escravos. Foi devolvido a Atenas após ter sido resgatado por um filósofo cirenaico, Anniceris.

Após seu exílio de Atenas, Platão parece ter se estabelecido seriamente como professor pela primeira vez, seguindo o exemplo de Sócrates. De acordo com o testemunho de Aristóteles e outros de seus pupilos, Platão parece ter ensinado com uma combinação de discurso e diálogo, compartilhou uma vida comunal com seus alunos, e raramente aceitou pagamento, na forma de presentes. Seu desejo dominante parece não o de ter sido um estadista ele mesmo, mas formar estadistas, lançar ideais que regulariam as ações.

Com a morte de Dionísio, o Velho, seu filho convidou Platão para ir a Siracusa. Platão aceitou, esperando ganhar um rei em exercício para sua filosofia, mas o jovem logo se cansou da seriedade de Platão e teve ciúmes de suas amizades com outro estadista, Díon, a quem baniu. Platão retornou a Atenas, presumivelmente mais triste, mas também mais sábio.

Seus últimos anos foram bem descritos por seu mais famoso tradutor para o inglês, Benjamin Jowett: "Após alguns anos, com as renovadas solicitações do tirano e insistência dos amigos, decidiu-se por mais uma viagem à Sicília. Seu objetivo imediato era, sem dúvida, tentar uma reconciliação entre Díon e Dionísio; a isto teriam se associado, mais distantes, esperanças políticas; a empresa, porém, resultou tão desafortunada que Platão esteve mesmo em considerável perigo pela desconfiança do apaixonado príncipe, e só se evadiu pela intervenção dos pitagóricos, que estavam então encabeçando o estado tarentino. Se, após retornar, aprovou a hostil agressão de Díon para com Dionísio, não sabemos; mas de sua parte, tendo agora atingido seu septuagésimo ano, parece renunciar a todo envolvimento ativo com a política. A atividade de seu intelecto, no entanto, continuou, em meio à reverência de compatriotas e estrangeiros, inabalada até sua morte, que, após uma velhice feliz e pacífica, diz-se tê-lo levado durante uma boda.”

Com sua morte, o Crítias e daí o registro mais completo da Atlântida, foi deixado inacabado, acrescendo nossas dúvidas. Parece haver uma só referência à Atlântida anterior a Platão. Em seu comentário ao Timeu, de Platão, o filósofo Proclus diz que o historiador Marcellus escreveu, em sua agora perdida História da Etiópia, que "os habitantes de várias ilhas do Oceano Atlântico preservaram uma tradição de seus ancestrais da prodigiosamente grande ilha Atlântida, que era consagrada a Posseidon e dominou todas as ilhas do Atlântico por um longo período". Thomas Taylor, em sua tradução do Timeu, cita a seguinte referência de Marcellus à Atlântida: — "Pois relatam que em seu tempo haviam sete ilhas no Mar Atlântico, consagradas a Prosérpina; e além destas, haviam outras de imensa magnitude; uma das quais, consagrada a Plutão, outra a Amon, e outra, que é a metade destas, e tem mil estádios, a Netuno*. Todavia, Proclus nada diz quanto às fontes de Marcellus; pode-se presumir que as ilhas citadas sejam as Canárias e os Açores.



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