Assim caminha a humanidade



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Claudete Gebara José Callegaro 22/08/2011

Assim caminha a humanidade




ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE

Claudete Gebara J. Callegaro
[...] O que se busca não é o tépido equilíbrio [...],

mas a arte da tensão profícua.

(GIANNETTI, 2005:12-13)1


Que pressa é essa que gera cada vez mais ansiedade e acelera as mudanças, que por sua vez geram mais pressa e mais ansiedade e...?

Pode-se afirmar que, comparativamente a muitas espécies vivas, a humana seja frágil, instável, ansiosa, em incessante busca de algo remoto, volátil, fugaz, variável. Em busca do quê? Talvez a tradução mais comum desse desejo impreciso seja felicidade, tenha ela a forma que for: um pão à mesa, um sorriso, um título de distinção, um super iate... Não há regras simples, nem explicações definitivas e completas sobre como ser feliz ou o que seja ser feliz.

Observando-se, grosso modo, a trajetória da humanidade na Terra, pode-se depreender que haja um sentido comum de evolução, com exceções que se restringem às margens da grande corrente. Esse sentido varia de etapa para etapa, atua sobre as histórias individuais e por elas é influenciado. É muitas vezes imposto pela necessidade de adaptação ao meio físico, impulsionando a tecnologia de exploração e aproveitamento dos recursos materiais, ou mesmo a criação de novos recursos por meio de técnicas de cultivo vegetal e animal. Outras vezes, o sentido se volta ao bem-estar pessoal, como uma pausa para a organização do lado não visível do ser humano, desenvolvendo-se por isso métodos de cultura do corpo e da mente, de viagem pelo desconhecido, de propagação do conhecimento.

Vemos ao longo da história, que a humanidade despontou em lugares bem diferentes. Mesmo que aparentemente sem inter-relação, vários desses centros caminharam no mesmo sentido de evolução, até que se encontraram. Encontros em geral são conflituosos, mas, quando as energias se concentram em pontos comuns aos vários grupos distintos, surge a oportunidade de se alcançar a harmonização das diferenças. É um momento apropriado para se definir um novo sentido comum.

Formas variadas de associação e governo decorrem desses episódios, possibilitando épocas de paz e felicidade... Mas qual Paz?

A minha alma tá armada e apontada para cara do sossego,

pois paz sem voz,

paz sem voz nao é paz é medo.

Às vezes eu falo com a vida, às vezes é ela quem diz

qual a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz.

As grades do condominio são pra trazer proteção,

mas também trazem a dúvida se não é você que tá nessa prisão.

Me abrace, e me de um beijo,

faça um filho comigo,

mas não me deixe sentar na poltrona num dia de domingo.

Procurando novas drogas de aluguel neste video coagido,

é pela paz que eu não quero seguir admitindo.

(Letra de A Minha Alma. Composição musical de Marcelo Yuka, cantada pela banda O Rappa)2
A des-construção dos modelos dominantes, a re-volução, embora pareça decorrer de conflito entre sentidos de desenvolvimento opostos, de fato é, apenas, ajuste dos pontos de tangência, levando à mudança de direção de todos os atores. Reflete-se num processo de aculturação mais agressivo pela velocidade com que se dá e por isso resulta em sofrimento. Será que, de fato, estamos caminhando ou isso tudo é cíclico, como na Roda da Fortuna, e nossa sensação de conforto ou sofrimento decorra apenas de nosso ponto de vista?


Ó Fortuna,
variável como a lua,
sempre cresces
ou minguas;
vida detestável,
hora frustra
ora satisfaz,
brincas com os nossos sentidos,
a miséria
o poder
fundem como gelo em ti.


Sorte (Destino) cruel e vã
tu
, roda que giras,
a tua natureza é perversa,
a tua felicidade vã,
sempre a dissipar-se
pela sombra
e em segredo


aproximas-te de mim,

apresento o meu dorso nu
ao jogo da tua
perversidade.


Sorte, senhora do bem-estar e da virtude,
estás agora contra mim;
afecções
e derrotas
estão sempre presentes.
Nesta hora
sem demora
pulsai as cordas;
pois que a sorte
esmaga o forte
chorai todos comigo.


(“Roda da Fortuna”, da cantata Carmina Burana de Carl Orff, 1937) 3

Será que se deixássemos a cargo do acaso nossos dramas seriam menores, pelo fato de as mudanças ocorrerem sem tanta pressa? Processos sempre mais aperfeiçoados de exploração e uso dos recursos naturais alimentam populações geometricamente crescentes; mudamos a natureza a nosso favor, buscando conforto e felicidade, mas com isso nos distanciamos do conjunto do mundo. Não aguardamos o tempo biológico necessário à incorporação das mudanças aos sistemas da natureza maior, como fazem os grupos ditos primitivos; não damos fôlego para que reações ecossistêmicas serenas aconteçam. Nosso conhecimento, porém, ainda está muito aquém do necessário para entender os ciclos naturais e outros processos que compõem o sistema maior.

A falta da visão do todo e o confinamento em ambientes protegidos dão falsa sensação de que o ser humano é dono do mundo. Centrados apenas em nossos próprios interesses, por muito tempo nos descuidamos de Gáia e desconsideramos os ramos humanos que não compartilham dessa mesma ansiedade doentia, até que começamos a perceber que o tempo do Homem não é o mesmo tempo da Terra.

Será essa pressa algo muito antigo agora exacerbado? Será o desespero para retornar ao Éden e fugir da dor e do medo; o desejo de gozar as delícias de Shangri-lá antes que acabe; a ambição de conquistar o tesouro no fim do arco-íris antes que outros o façam? Ou terá chegado a hora de despertarmos para nossa própria natureza?

Enfim, a Caixa de Pandora4 foi aberta, os males são universais e o bem relativo, a Roda continua a rodar e, qualquer que seja a razão da pressa, ela decorre de uma necessidade humana material ou imaterial, concreta ou imaginária. Isso nos motiva a levantar pela manhã com o desejo (secreto ou expresso na compra de um bilhete de loteria) de sintonizar nossa voz interior e a música das esferas. Talvez seja isso o que eternamente buscamos!


1 GIANNETTI, Eduardo. O valor do amanhã. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

2 http://o-rappa.letras.terra.com.br/letras/357763/.

3 Roda da Fortuna é uma imagem que representa bem a alternância entre forças sociais e naturais. Está presente em nossa memória parece que desde sempre, e se manifesta materialmente como figura de sorte - azar no globo giratório que centraliza as atenções em sorteios e bingos, e provavelmente de outras formas.

A Roda da Fortuna está muito bem representada em Carmina Burana. (Carmina = Canções; Burana = proveniente da região de Beuern, Baviera, Alemanha). São textos poéticos musicados do século XIII, coletados por clérigos vagantes junto à população de cidades e vilas da região que atendiam espiritualmente. Embora tenha sido registrado por religiosos, o conjunto da obra Carmina Burana trata de aspectos da vida comum, às vezes de maneira delicada e às vezes mundana, nossas fraquezas e desejos, tristezas e alegrias.

A coleção original de textos encontrava-se no Benediktbeuern, mosteiro beneditino, e restaura para nós todo um cosmo onde o Bem não existe sem o Mal, o sacro sem o profano e a fé sem maldições e dúvidas: a oscilação onde se encontra a grandeza da Humanidade. Esse humanismo medieval, também apresentado nos contos de fadas mais antigos (ainda sem o abrandamento dado por Disney), pode mesmo ser considerado bárbaro e cruel; possibilitou, no entanto, a sobrevivência ao sofrimento da guerra, ao mundo infestado pela praga, à injustiça, à instabilidade, na escuridão da ignorância de tudo que não fosse santificado pelo dogma.

Esses e outros textos foram reencontrados em 1803 e apresentados a Carl Orff (compositor alemão, 1895-1982) por volta de 1936; esse, percebendo a atualidade do tema, selecionou alguns para uma alegoria moderna. Carmina Burana, como obra de Carl Orff, foi apresentada pela primeira vez em 1937, Frankfurt, iniciando a trilogia intitulada Trionfi - Trittico Teatrale, que inclui Catulli Carmina (1943) e Trionfi dell'Afrodite (1952), levando à compreensão de que só o Desejo e o Amor podem capacitar o Homem a viver, lutar e crer. (Com base em vários textos colhidos na Internet desde 2004 até o presente.)



4 Segundo o mito grego, o titã Prometeu (“o que pensa antes de agir”) criou o Homem com argila e roubou a chama sagrada de Hélio (Deus Sol) para dar-lhe o sopro da vida, com o intuito de criar um ser que ajudaria a cuidar de sua mãe Gáia (Terra). Por essa ousadia, Zeus ordenou que Prometeu fosse preso e condenado a ficar acorrentado no alto de uma montanha, onde todos os dias uma águia gigante comparecia para lhe comer as vísceras, que por sua vez se regeneravam à noite; ficaria, pois, Prometeu fadado a sentir dores por toda eternidade. Antes, porém, de cumprir essa pena, Prometeu confiou a seu irmão, Epimeteu (“o que age antes de pensar”), uma caixa contendo todos os males que poderiam atormentar o homem, pedindo-lhe que não deixasse ninguém se aproximar dela.

Os homens começaram a desvastar a Terra e, a fim de castigá-los, os deuses reuniram-se e criaram a primeira mulher, batizada de Pandora (“a bem dotada”): Hefestos moldou sua forma em argila, Afrodite deu-lhe beleza, Apolo deu-lhe talento musical, Deméter ensinou-lhe a colheita, Atena deu-lhe habilidade manual, Poseidon deu-lhe um colar de pérolas e a certeza de não se afogar, e Zeus deu-lhe uma série de características pessoais.

Pandora fora incumbida de seduzir Epimeteu a abrir a caixa proibida. Naquela época, os deuses ainda não moravam no Olimpo, mas em cavernas. Epimeteu colocou duas gaiolas com gralhas no fundo da caverna e a caixa entre elas. Caso alguém se aproximasse, as gralhas fariam um barulho insuportável, alertando-o. Seduzindo-o, Pandora conseguiu convencê-lo a tirar as gralhas da caverna sob o pretexto de que tinha medo delas. Após se amarem, Epimeteu caiu em sono profundo e Pandora foi até a caixa e a abriu. Um vortéx de males, tais como mentira, doenças, inveja, velhice, guerra e morte, saiu da caixa de forma tão assustadora, que ela teve medo e fechou-a antes que saisse o último deles: o mal que acaba com a esperança.

(Esses mitos constam de várias publicações, com variações de interpretação e detalhes.)



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