As vítimas-algozes joaquim Manuel de Macedo I simeãO, o crioulo I no interior e principalmente longe da vila, ou da freguesia e dos povoados há quase sempre uma venda perto da fazenda: é a parasita que se apega à árvore; pior que isso



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AS VÍTIMAS-ALGOZES

JOAQUIM MANUEL DE MACEDO
I SIMEÃO, O CRIOULO
No interior e principalmente longe da vila, ou da freguesia e dos povoados há quase sempre uma venda perto da fazenda: é a parasita que se apega à árvore; pior que isso, é a inimiga hipócrita que rende vassalagem à sua vítima.

A venda de que falo é uma taberna especialíssima que não poderia existir, manter-se, medrar em outras condições locais, e em outras condições do trabalho rural, e nem se confunde com a taberna regular que em toda parte se encontra, quanto mais com as casas de grande ou pequeno comércio, onde os lavradores ricos e pobres se provêem do que precisa a casa, quando não lhes é possível esperar pelas remessas dos seus consignatários ou fregueses.

Essa parasita das fazendas e estabelecimentos agrícolas das vizinhanças facilmente se pode conhecer por suas feições e modos característicos, se nos é lícito dizer assim: uma se parece com todas e não há hipótese em que alguma delas, por mais dissimulada que seja, chegue a perder o caráter da família. É uma pequena casa de taipa e coberta de telha, tendo às vezes na frente varanda aberta pelos três lados, também coberta de telha e com o teto sustido por esteios fortes, mas rudes e ainda mesmo tortos; as paredes nem sempre são caiadas, o chão não tem assoalho nem ladrilho; quando há varanda, abrem-se para ela uma porta e uma janela; dentro está a venda: entre a porta e a janela encostado à parede um banco de pau, defronte um balcão tosco e no bojo ou no espaço que se vê além, grotesca armação de tábuas contendo garrafas, botijas, latas de tabaco em pó, a um canto algumas voltas de fumo em rolo e uma ruim manta de carne-seca. Eis a venda.

Há muitas que nem chegam à opulência da que aí fica descrita; em todas porém aparece humilde no fundo do quase vazio bojo a porta baixa que comunica pelo corredor imundo com dois ou mais quartos escuros, onde se recolhem as pingues colheitas agrícolas do vendilhão que aliás não tem lavoura.

A venda é pouco freqüentada à luz do sol nos dias de serviço; nunca porém, ou raramente se acha solitária: ainda nesses mesmos dias de santo dever do trabalho, homens ociosos, vadios e turbulentos jogam ao balcão com um baralho de cartas machucadas, enegrecidas e como oleosas desde a manhã até o fim da tarde, e é milagre faltar algum incansável tocador de viola; mas apenas chega a noite, começa a concorrência e ferve o negócio.

Explorador das trevas protetoras dos vícios e do crime, o vendilhão baixo, ignóbil, sem consciência, paga com abuso duplo e escandaloso a garrafas de aguardente, a rolos de fumo, e a chorados vinténs o café, o açúcar e os cereais que os escravos furtam aos senhores; e cúmplice no furto efetuado pelos escravos, é ladrão por sua vez, roubando a estes nas medidas e no preço dos gêneros.

A venda não dorme: às horas mortas da noite vêm os quilombolas escravos fugidos e acoitados nas florestas, trazer o tributo de suas depredações nas roças vizinhas ou distantes ao vendilhão que apura nelas segunda colheita do que não semeou e que tem sempre de reserva para os quilombolas recursos de alimentação de que eles não podem prescindir, e também não raras vezes a pólvora e o chumbo para a resistência nos casos de ataque aos quilombos.

E o vendilhão é em regra a vigilância protetora do quilombola e o seu espião dissimulado que tem interesse em contrariar a polícia, ou as diligências dos senhores no encalço dos escravos fugidos.

Desprezível e nociva durante o dia, a venda é esquálida, medonha, criminosa e atroz durante a noite: os escravos, que aí então se reúnem, embebedam-se, espancam-se, tornando-se muitos incapazes de trabalhar na manhã seguinte; misturam as rixas e as pancadas com a conversação mais indecente sob o caráter e a vida de seus senhores, cuja reputação é ultrajada ao som de gargalhadas selvagens: inspirados pelo ódio, pelo horror, pelos sofrimentos inseparáveis da escravidão, se expandem em calúnias terríveis que às vezes chegam até a honra das esposas e das filhas dos senhores; atiçam a raiva que todos eles têm dos feitores, contando histórias lúgubres de castigos exagerados e de cruelíssimas vinganças, a cuja idéia se habituam; em sua credulidade estúpida e ilimitada esses desgraçados escutam boquiabertos a relação dos prodígios do feitiço, e se emprazam para as reuniões noturnas dos feiticeiros; e uns finalmente aprendem com outros mais sabidos a conhecer plantas maléficas, raízes venenosas que produzem a loucura ou dão a morte, e tudo isto e muito mais ainda envolta com a embriaguez, com a desordem, com o quadro da abjeção e do desavergonhamento já natural nas palavras, nas ações, nos gozos do escravo.

Aos domingos e nos dias santificados, a venda tem centuplicadas as suas glórias nefandas, aproveita a luz e as trevas, o dia e a noite, e por isso mesmo cada lavrador conta de menos na roça e demais na enfermaria alguns escravos na manhã do dia que se segue.

De ordinário, pelo menos muitas vezes, é nessas reuniões, é nesse foco de peste moral que se premeditam e planejam os crimes que ensangüentam e alvoroçam as fazendas. Na hipótese de uma insurreição de escravos, a venda nunca seria alheia ao tremendo acontecimento.

Todavia tolera-se a venda: o governo não pode ignorar, a polícia local sabe, os fazendeiros e lavradores conhecem e sentem que essa espelunca ignóbil é fonte de vícios e de crimes, manancial turvo e hediondo de profunda corrupção, constante ameaça à propriedade, patíbulo da reputação, e em certos casos forja de arma assassina; porque é e será sempre o ponto de aglomeração de escravos onde se conspire ou se inicie a conspiração; e ainda assim a venda subsiste e não há força capaz de aniquilá-la.

Porquê?...

É que se proibissem a venda, de que trato, se lhe fechassem a porta, se lhe destruíssem o teto, ela renasceria com outro nome, e, como quer que fosse, e, onde quer que fosse, havia de manter-se, embora dissimulada e abusivamente.

A lógica é implacável.

Não é possível que haja escravos sem todas as conseqüências escandalosas da escravidão: querer a úlcera sem o pus, o cancro sem a podridão é loucura ou capricho infantil.

Perigosa e repugnante por certo, e ainda assim não das mais formidáveis conseqüências da escravidão, a venda de que estou falando é inevitável; porque nasce da vida, das condições, e das exigências irresistíveis da situação dos escravos.

A venda é o espelho que retrata ao vivo o rosto e o espírito da escravidão.

Se não fosse, se não se chamasse venda, teria outro e mil nomes no patuá do escravo; seria uma casa no deserto, um sítio nas brenhas; estaria na gruta da floresta, em um antro tomado às feras, mas onde iria sempre o escravo, o quilombola, vender o furto, embriagar-se, ultrajar a honra do senhor e de sua família, a quem detesta, engolfar-se em vícios, ouvir conselhos envenenados, inflamar-se em ódio, e habituar-se à idéia do crime filho da vingança; porque o escravo, por melhor que seja tratado, é, em regra geral, pelo fato de ser escravo, sempre e natural e logicamente o primeiro e mais rancoroso inimigo de seu senhor.

O escravo precisa dar expansão à sua raiva, que ferve incessante, e esquecer por momentos ou horas as misérias e os tormentos insondáveis da escravidão; é na venda que ele se expande e esquece; aí o ódio fala licencioso e a aguardente afoga em vapores e no atordoamento a memória.

Entretanto, a venda é horrível; é o recinto da assembléia selvagem dos escravos, onde se eleva a tribuna malvada da lascívia feroz, da difamação nojenta e do crime sem suscetibilidade de remorso; ali a matrona veneranda, a esposa honesta, a donzela-anjo são julgadas e medidas pela bitola da moralidade dos escravos; o aleive é aplaudido e sancionado como verdade provada, e o aleive se lança com as formas esquálidas da selvatiqueza que fala com a eloqüência do rancor sublimizado pelo álcool; ali se acendem fúrias contra os feitores e os senhores: ali se rouba a fazenda e se fazem votos ferozes pela morte daqueles que se detestam, porque, é impossível negá-lo, são opressores.

E não há para suprimir a venda, essa venda fatal, que rouba, desmoraliza, corrompe, calunia e às vezes mata, senão um só, um único meio: é suprimir a escravidão.

Não há; porque a venda está intimamente presa, imprescindivelmente adunada à vida do escravo; sem ela, os suicídios dos escravos espantariam pelas suas proporções.

Onde houver fazendas, haverá por força a venda perversa, ameaçadora, infamíssima, como a tenho descrito e a conhecem todos, sem exceção, todos os lavradores.

Não há rei sem trono, não há família sem lar, nem aves sem ninho, nem fera sem antro; o trono, o lar, o ninho, o antro do escravo é, antes da senzala, a venda.

A venda, que vos parece apenas repugnante, corruptora, ladra e infame, é, ainda mais, formidável e atroz; mas em todos esses atributos digna, legítima filha da escravidão, que a gerou, criou, sustenta, impõe, e que há de mantê-la arraigada à sua existência.

É um mal absolutamente dependente, porém inseparável de outro mal; não é causa, é efeito; não é árvore, é fruto de árvore.

Se quiserdes suprimir a venda-inferno, haveis de suprimir primeiro a escravidão-demônio.


II
Era em uma dessas vendas sinistras como a que acabamos de descrever. O sítio era solitário; a estrada rompia pelo meio vasta floresta que cortava sinuosa, e, descendo declive suave, ia atravessar tênue corrente d'água alimentada por brejal vizinho e de novo se perdia, como embebendo-se no seio do bosque.

A venda mostrava-se triste à beira da estrada, que em sua frente se alargava cerca de seis ou oito braças; tinha ao lado direito o brejal a estender-se para trás, e ao esquerdo e pegada à casa uma rude tranqueira de pau, dando entrada para um terreiro imundo, que se adiantava pouco além da cozinha. Não havia criação no terreiro; apenas a ele se recolhiam à noite um porco, que chafurdava na lama, e um casal de patos, que grasnavam no brejo.

A venda se isolava na solidão, mas não longe de fazendas e sítios, que se anunciavam de madrugada pelo cantar dos galos, à tarde pelo mugir dos bois, à noite pelo latir dos cães.

Os cavaleiros e viandantes que passavam às vezes durante o dia, não se lembravam nunca de chegar-se ou parar àquela venda desprezível, onde em compensação faziam sempre estação demorada os escravos carreiros ou tropeiros que iam ou voltavam, conduzindo gêneros.

Entretanto, aquele teto miserável, albergue de vícios e torpezas, jamais se achava em abandono de fregueses.

Há poucos anos, em um dia calmoso do mês de fevereiro, viam-se às três horas da tarde nessa venda certas figuras, formando um quadro quase constantemente ali observado com insignificantes modificações até a hora do negro concurso noturno.

Para dentro do balcão estava um menino de doze anos, de pés no chão, vestido de calças e camisa que desde um mês não mudava, e cuja cor e qualidade do pano escapariam ao mais teimoso exame; era o caixeiro mandrião, e já perdido pela desmoralização, pela incontinência da palavra e pela convivência com os vadios e os escravos. À porta da venda via-se em pé a olhar a estrada um homem de meia-idade, cabeludo, amarelo, em mangas de camisa com o colarinho desabotoado, o peito à mostra, e calçando grandes tamancos: era o vendilhão.

Em uma extremidade do balcão sentava-se um homem avelhantado, tendo as pernas pendidas, os pés descalços, os vestidos remendados, um velho chapéu de palha na cabeça, e ao peito uma viola, em que tocava de contínuo as músicas rudes dos fados. Na outra extremidade do balcão quatro sujeitos moços quase todos, um ainda imberbe, todos quatro mais ou menos miseravelmente vestidos, jogavam o pacau, rixando a todo momento, e não se poupando acusações de furtos e de fraude no jogo.

Um último freguês enfim, figura sinistra, tendo olhos de tigre, boca, por assim dizer, sem lábios, e com imensa barba malcuidada, parecia dormir estendido em um banco de pau defronte do balcão.

De espaço em espaço a aguardente inspirava o tocador de viola e animava os jogadores.

Às quatro horas da tarde um cavalo, correndo à desfilada, veio estacar à porta da venda, pondo-se o cavaleiro de um salto no chão.

O cavaleiro era um crioulo escravo ainda muito jovem.

- Oh!... O grande Simeão!... - exclamou o vendilhão, abraçando o escravo.

- Uma pinga que estou com muita pressa - disse este, e correu para dentro da venda.

Simeão recebeu logo um copo cheio de aguardente, que bebeu de uma vez, atirando o resto à cara do menino, que o servira.
III
Simeão devia ter vinte anos: era um crioulo de raça pura africana, mas cujos caracteres físicos aliás favoravelmente modificados pelo clima e pela influência natural do país onde nascera, não tinham sido ainda afeiados pelos serviços rigorosos da escravidão, embora ele fosse escravo.

Havia em seus modos a expansão que só parece própria do homem livre: ele não tinha nem as mãos calejadas, nem os pés esparramados do negro trabalhador de enxada: era um escravo de cabelos penteados, vestido com asseio e certa faceirice, calçado, falando com os vícios de linguagem triviais no campo, mas sem a bruteza comum na gente da sua condição; até certo ponto, pois, aceito, apadrinhado, protegido e acariciado pela família livre, pelo amor dos senhores.

A história de Simeão tem mil histórias irmãs até aos vinte anos, que ele conta; há de, portanto, trazer à memória mil histórias, como a sua, cheia de desgostos e de ressentimentos de ingratidão, que aliás, sem o pensar, os benfeitores cimentam. A história que vai seguir-se depois dos vinte anos talvez lembre alguma infelizmente mais ou menos semelhante, e cujo horror é somente um dos frutos e dos horrores da escravidão.

Sementeira de venenosos espinhos, a escravidão não pode produzir flores inocentes.

A história de Simeão ainda não criminoso é simples: muitos dos leitores deste romance a encontrarão realizada, viva, eloqüentemente exposta no seio de seu lar doméstico.

Domingos Caetano teve de sua mulher muito e bem merecidamente amada uma filha que satisfizera os doces votos de ambos. Angélica, a nobre esposa e virtuosa mulher, não pôde ter a dita de amamentar o seu anjo, e confiou-o aos peitos de uma escrava que acabava de ser mãe como ela: a escrava que amamentara dois filhos, o próprio e o da senhora, morreu dois anos depois, e Angélica pagou-lhe a amamentação da sua querida Florinda, criando com amor maternal o crioulinho Simeão, colaço de sua filha.

A compaixão e o reconhecimento em breve se transformaram em verdadeira afeição: o crioulo era esperto e engraçado, começou fazendo rir, acabou fazendo-se amar. Simeão divertia, dava encanto às travessuras de Florinda: Domingos Caetano e Angélica o amaram em dobro por isso.

Até os oito anos de idade Simeão teve prato à mesa e leito no quarto de seus senhores, e não teve consciência de sua condição de escravo. Depois dos oito anos apenas foi privado da mesa e do quarto em comum; continuou, porém, a receber tratamento de filho adotivo, mas criado com amor desmazelado e imprudente, e cresceu enfim sem hábito de trabalho, abusando muitas vezes da fraqueza dos senhores, sem atingir a dignidade de homem livre, e sem reconhecer nem sentir a absoluta submissão do escravo.

Era o tipo mais perfeito do crioulo, cria estimada da família.
IV
Mais de uma vez parentes e amigos de Domingos Caetano e Angélica disseram a um ou outro, mostrando Simeão:

- Estão criando um inimigo: a regra não falha.

E Domingos respondia:

- Coitado! Ele é tão bom!

E Angélica dizia sorrindo-se:

É impossível que nos seja ingrato.

- Ainda não houve um que o não fosse! - tornavam-lhes debalde; porque os senhores de Simeão nem por essas já triviais advertências menos condescendentes e afetuosos se mostravam com o seu crioulo estimado.

Breve reflexão de passagem.

As apreensões da ingratidão e da inimizade desses escravos, crias prediletas aquecidas no seio da família, têm por certo o fundamento da mais triste experiência; mas a sanção da regra sem o estudo e reconhecimento da causa do mal tenderia a fazer apagar as santas inspirações da caridade, e a empedernir os corações de todos os senhores de escravos.

Fora absurdo pretender que a ingratidão às vezes até profundamente perversa dos crioulos amorosamente criados por seus senhores é neles inata ou condição natural da sua raça: a fonte do mal, que é mais negra do que a cor desses infelizes, é a escravidão, a consciência desse estado violenta e barbaramente imposto, estado lúgubre, revoltante, condição ignóbil, mãe do ódio, pústula encerradora de raiva, pantanal dos vícios mais torpes que degeneram, infeccionam, e tornam perverso o coração da vítima, o coração do escravo.

No amor dos senhores o crioulo estimado viu, sentiu, gozou os reflexos das flamas vivificantes, generosas, sagradas da liberdade: mas vem um dia em que ele se reconhece escravo, coisa e não homem, apesar da afeição, das condescendências, dos caridosos benefícios do senhor - amigo, da senhora - segunda mãe; vem a primeira hora sinistra em que ele, que até então vivera em sonhos e ilusões, desperta com a certeza horrível de que é um condenado daquém-berço; condenado sem crime; tendo alma e considerado simples matéria ambulante; coisa, animal, que se vende, como a casa, como o boi e como a besta; finalmente miserável e perpétuo desterrado em deserto sem horizonte, tendo vida e não vivendo para si, desejando sem esperanças, não possuindo de seu nem o pleno direito dos três amores mais santos: o de filho, o de esposo, e o de pai; máquina para cavar com a enxada, homem desnaturado, miséria respirante e movente que os próprios cães distinguem pela marca do desprezo social.

O crioulo escravo e estimado, por isso mesmo que tem mais aguçada a inteligência, e por isso mesmo que deram-lhe as mostras dos gozos e da superioridade, mas não lhe deram a condição e a educação próprias do homem livre, pesa melhor que os escravos brutais o preço e o encanto da verdadeira liberdade; no meio dos benefícios compreende que lhe falta um que vale mais do que todos os outros somados e multiplicados; feliz pelos favores que recebe, pelos dons da afeição de que é objeto, esbarra sempre diante da realidade da escravidão, que o abate, avilta e moralmente o aniquila: deseja e não tem, quer e não pode, sonha e não realiza o bem supremo da terra, escravo se reconhece e bebe o ódio, os maus costumes, o veneno, a perversidade da escravidão.

O crioulo escravo e estimado, em quem o amor e as condescendências do senhor animam e atiçam expansões naturais do amplo gozo da liberdade, mistura nos dias da reflexão mais sombria e triste a lembrança dos sabores do reflexo da liberdade com a ameaça e os negros horrores da escravidão; habituado à impunidade garantida pela afeição, ousa muito e abusa ainda mais; como predileto da família, e escravo, portanto infeccionado de todos os vícios e ferozes impulsos da madre-fera escravidão, insolente e malcriado, nem perfeitamente livre, nem absolutamente escravo, bom juiz odiento, pois que conhece as duas condições, e da melhor é bastardo, e da pior legítimo filho, o crioulo escravo e estimado de seu senhor, torna-se em breve tempo ingrato e muitas vezes leva a ingratidão a perversidade, porque é escravo.

Mas a sua ingratidão e a sua perversidade não se explicam pela natureza da raça, o que seria absurdo; explicam-se pela condição de escravo, que corrompe e perverte o homem.

O crioulo amorosamente criado pela família dos senhores seria talvez o seu melhor amigo, se não fosse escravo.

V
Ninguém poderia ter marcado, nem o próprio Simeão seria capaz de determinar o dia em que lhe toldara as alegrias do coração inocente a primeira gota de fel destilado pela consciência da sua escravidão. Havia para ele na casa de seus amorosos senhores um céu e um inferno: na sala o néctar da predileção e da amizade, na cozinha o veneno da inveja e o golfão dos vícios: na cozinha a negra má e impiedosa castigou-lhe as travessuras e exigências incômodas e apadrinhadas pelos senhores, repetindo-lhe mil vezes:

- Tu és escravo como eu.

E o negro enfezado e ruim perseguia o crioulinho estimado com a ameaça lúgubre de um futuro tormentoso:

- Brinca para aí, pobre coitado! Hás de ver como é bom o chicote, quando cresceres...

E pouco a pouco Simeão abalado, incessantemente influenciado pela inveja e pelas maldades da cozinha, deixou-se tomar de um constrangimento leve, mas invencível, que foi o primeiro sinal da triste suspeita do abismo que o separava dos senhores.

A cozinha foi sempre adiantando a sua obra: quando conseguiram convencer, compenetrar o crioulinho da baixeza, da miséria da sua condição, as escravas passaram a preparar nele o inimigo dos seus amantes protetores: ensinaram-no a espiar a senhora, a mentir-lhe, a atraiçoá-la, ouvindo-lhe as conversas com o senhor para contá-las na cozinha; desmoralizaram-no com as torpezas da linguagem mais indecente, com os quadros vivos de gozos esquálidos, com o exemplo freqüente do furto e da embriaguez, e com a lição insistente do ódio concentrado aos senhores.

E a sala ajudou sem o pensar, sem o querer, a obra da cozinha.

Domingos Caetano e Angélica não destinavam Simeão para trabalhador de enxada, e não o fizeram aprender ofício algum, nem lhe deram tarefa, e ocupação na fazenda: abandonando-o à quase completa ociosidade, tolerando seus abusos com fraqueza e cega condescendência, e, o que é pior, simulando às vezes exagerada severidade esquecida logo depois, ameaçando sem realizar jamais a ameaça do castigo, dando enfim ao crioulo facilidades para o passeio, não raramente dinheiro para suas despesas fúteis, amando-o como filho adotivo, e conservando-o escravo, sem o querer, sem o pensar, auxiliaram as depravações da cozinha que perverteram o vadio da fazenda.

E, maior imprudência ainda, ora Domingos, ora Angélica, cada qual por sua vez sorrindo ao pequeno Simeão, e falando aos amigos que, por favor e agrado a eles, o tratavam com prazenteiros modos, dizia sem cautela:

- Este não será de outro senhor.

E a promessa contida nas palavras referentes ao escravo ainda pequeno foi por muitas bocas traduzida com acerto ao escravo mais tarde jovem, por turvo juízo que encerrava esperança dependente de morte.

Diziam a Simeão:

- Feliz rapaz! Em seu testamento teu senhor te deixa forro.

E, por aborrecimento da escravidão, pelo anelo da liberdade completa, pelo encanto de chegar a ser dono de si próprio, Simeão escravo era já ingrato; porque não pensava mais que a morte de seu benfeitor fosse um sucesso lamentável.

A venda rematou a obra começada pela cozinha e auxiliada pela sala.

Não podendo ter parte nos banquetes, nas reuniões festivas, nos divertimentos da sociedade livre, vendo-os de longe, invejando-os, querendo arremedá-los, Simeão que pairava em uma condição média, mas artificial, inconseqüente e falsa entre as flores da liberdade que não podia colher de todo e os espinhos da escravidão que embora não dilacerassem, espicaçavam-lhe o coração, desceu da situação híbrida para o fundo do abismo: do fado da senzala da fazenda, passou depressa as aglomerações da venda, e convivendo ali com os escravos mais brutais e corruptos, e com os vadios, turbulentos e viciosos das vizinhanças entregou-se a todos os deboches, e se fez sócio ativo do jogo aladroado, da embriaguez ignóbil e da luxúria mais torpe.

Simeão foi desde então perfeito escravo.


VI
A necessidade da alimentação dos vícios torna o vadio ladrão.

Domingos Caetano e Angélica fatigaram-se de duvidar, e cederam à evidência, reconhecendo que Simeão lhes furtava dinheiro e objetos de valor; mas em vez de castigá-lo com severidade, fracos ainda, quiseram ver no crime apenas uma extravagância da mocidade, e limitaram-se a repreender com aspereza, e a impedir durante algumas semanas as saídas de Simeão.

A insuficiência do castigo serviu somente para irritar o crioulo que, ressentido da privação de seus prazeres, maldisse dos senhores na cozinha, recrudescendo-lhe a raiva com as zombarias e as provocações dos parceiros.



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