As vicissitudes do "Ensaio sobre o Dom"



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Em meados da década de 60, Raymond Firth já cita, em nota, o "valioso comentário de Lévi-Strauss" a respeito do trabalho de Mauss (1970[1967]: 24) e expressa, em outra nota (:25) seu acordo com a crítica ao uso do hau "como explicação da troca". Insiste, no entanto, retomando os argumentos de 29, de que a Mauss havia errado em sua interpretação do hau.

No final da década, Victor Karady edita pela Minuit três volumes contendo textos de Marcel Mauss. Na apresentação, cita a "Introdução" de Lévi-Strauss e o "Prefácio" de Gurvitch a Sociologie et Anthropologie (1968:III) e assinala que ambos haviam conferido aos trabalhos de Mauss uma significação que correspondia às suas respectivas preocupações, interessados que estavam em traçar e confirmar uma linha de filiação. Não explora, no entanto, o modo como isto foi feito, nem se detém na intepretação acerca dos supostos equívocos de Mauss.

Em 1970, Marshall Sahlins publica um artigo intitulado "L’Esprit du Don", em uma coletânea em homenagem a Lévi-Strauss (Pouillon e Maranda 1970). Ele inicia o texto, que haveria de ser ampliado e republicado mais tarde, com a seguinte afirmação "o conceito central do ‘Ensaio sobre o Dom’ é a idéia nativa maori do hau" (1974[1970]:149) e acrescenta algumas linhas mais à frente: "o hau maori é erigido numa explicação geral"(:150). O autor refere-se a Lévi-Strauss como um dos críticos da interpretação mausseana do hau (os outros dois sendo Firth e Johansen) e cita a passagem do "erro" (:153-4). Como não a comenta, pode-se supor que estivesse de acordo com a asserção de que Mauss se deixara mistificar pelo ponto de vista nativo21. No mesmo ano, escrevendo na Man, Michel Panoff distingue o ED como "um acontecimento maior na história da teoria antropológica" (1970:60) e cita como evidência a afirmação de Lévi-Strauss, da "Introdução" de 1950, de que ele teria sido um precursores do estruturalismo.

Dois anos mais tarde, a revista L’Arc edita um número dedicado a Mauss, contendo treze textos. O ED aí aparece "como sendo unanimemente considerado a obra-prima do autor" e o princípio oculto da reciprocidade, a regra de funcionamento das prestações totais (Dubar 1972:25). A "Introdução" de Lévi-Strauss já é dada como "clássica" (Condominas 1972:4). Dois dos trabalhos incluídos no volume correspondem a seminários feitos pelos autores em cursos, nos quais certamente o ED estava sendo discutido: é o caso do texto de Gasché para um seminário de J. Derrida na Ecole Normale Supérieure (1972:84) e do organizador do volume, Dennis Hollier, para o um curso de A. Green (Holler 1972:61).

Em livro publicado ainda em 1972, Pierre Bourdieu cita a "Introdução" de Lévi-Strauss para criticar sua teoria das trocas, notadamente as leis mecânicas que regeriam o ciclo de reciprocidade. Chamava ele então a atenção para o intervalo entre o dom e o contra-dom e a dimensão de incerteza que cerca as transações. Estes aspectos das trocas, que já haviam sido destacados por Malinowski e Mauss, ele haveria de explorar posteriormente para a elaboração de sua teoria da prática (Bourdieu 1980:167-189). Bourdieu menciona as reservas de Lévi-Strauss ao ED (1972:222), mas não as discute à luz do texto de Mauss. O que parecia lhe interessar era o debate com o então grande "nome" da antropologia francesa.

Em 1976, o ED seria invocado por Parkin como um dos referentes do conceito de troca. O texto, então, é associado ao princípio da reciprocidade, e a Mauss o autor atribui a percepção de um "sistema de troca cultural, envolvendo mulheres, bens, serviços e mensagens" (:163), numa evidente confusão entre o ED e os escritos de Lévi-Strauss. Refere-se ainda às críticas a Mauss feitas por Firth em 1929, as quais, por crer estarem amparadas em "trabalho de campo intenso" (:71), aceita sem reservas.

Em 1979, Cardoso de Oliveira, em apresentação à obra de Mauss, procura defender este autor das restrições que lhe faz Lévi-Strauss, avançando o argumento de que o ED não se limitaria à teoria maori para construir sua teoria do dom (1979:25). Não deixa no entanto de aceitar como dada a interpretação da "Introdução" de 1950, como se efetivamente Mauss tivesse usado a "teoria maori" para explicar a troca.

A partir da década de 80, o estruturalismo começou a perder um pouco de sua força, mas não a tese de que o ED continha uma explicação mística da troca. Com o tempo, a tese foi sendo enriquecida com as contribuições de Sahlins e com a recuperação das críticas de Firth de 1929, e cristalizou-se em uma espécie de crença coletiva. Tudo o que havia de arbitrário e conjuntural nas interpretaçõe se foi naturalizando. Operou-se, então, uma indissociação entre o texto de Mauss e o hau, os maoris, a reciprocidade e a teoria da troca. Assim, por exemplo, Tambiah refere-se à "formulação mística" (1993[1984]:340) do ED; Guidieri, à "noção de hau que domina o Ensaio"(1984:33); Weiner trata o ED como o texto teórico mais famoso e mais controvertido sobre reciprocidade e só o invoca para reanalisar dados maoris (1992:44-65); Godelier afirma que não pode deixar de endossar a crítica de Lévi-Strauss de que o hau, contrariamente ao que pensava Mauss, não pode ser tomado como a explicação da troca (1996:32).

Uma das mais notáveis manifestações da crença é aquela expressa por James Carrier, o mesmo que haveria de consagrá-la na enciclopédia citada acima. Assim, em um artigo sobre dons e mercadorias (1995:85-108), ele parte de uma crítica ao "modelo mausseano". Admite que o modelo não é de Mauss, mas o utiliza por ser mais prático (:86). O núcleo do modelo seria considerar que o Oriente é o lugar da economia do dom e o Ocidente o da economia da mercadoria. Em contraposição ao que denomina, com justeza, de essencialismos inerentes a estes modelos, avança a idéia de que a lógica da mercadoria também funciona no Oriente e a do dom, no Ocidente. Oferece, então, como evidências inúmeros exemplos de pesquisas feitas na Europa, nos Estados Unidos e na Nova Guiné. Se não estivesse tão imbuído da crença, teria consultado o próprio ED e percebido que Mauss já apontava nesta direção tanto na abertura do texto, quando se refere à permanência da moral do dom em "nossas" sociedades, quanto na segunda conclusão, quando assinala que o que prevalece entre os trobriandeses é um híbrido, e chama a atenção para a necessidade de complexificação de noções. Sem se dar conta, Carrier explora, de uma maneira bastante sugestiva, indicações contidas no texto do Année Sociologique.

 

O que se dizer para ser ouvido



No decorrer da análise dei maior destaque a Lévi-Strauss porque foi a partir de seus escritos que se produziu a inflexão na leitura do ED. Seria equivocado, no entanto, atribuí-la à sua intervenção a respeito das trocas. É preciso distinguir o sentido da ação de Lévi-Strauss ao apontar "erros" de Mauss, que atendia a interesses e ambições pessoais, e os efeitos dela decorrentes. O fato de que sua interpretação do ED tenha servido de base à constituição da crença foi o resultado de um processo cujo princípio de explicação não reside na intenção de Lévi-Strauss. É mais um exemplo dos chamados efeitos da ação não controlados pelo ator, de que falava Max Weber.

O prestígio de Lévi-Strauss certamente esteve na origem, como procurei assinalar, da adesão dos antropólogos às suas interpretações. Uma análise fina da dinâmica do processo de constituição de uma dóxa em relação ao ED demandaria um investimento empírico de grande porte, que escapa à ambição deste texto. Algumas hipóteses a respeito dos mecanismos que teriam contribuído para tanto podem, no entanto, ser indicadas. A difusão da interpretação lévi-strausseana foi obra de antropólogos que se sentiam concernidos com os assuntos da Polinésia e da Melanésia, da troca e da economia: eles certamente anteviram a possibilidade de se associarem simbolicamente ao grande "nome" da antropologia francesa, fazendo referência ao seu trabalho.

Inspirando-me na análise de Elias e Scotson (1994:89-105) sobre a intriga (gossip) em Winston Parva, poderia supor que a dóxa produziu-se a partir de um jogo análogo ao das intrigas de admiração (praise gossip) e as de acusação (blame gossip). Como chamam a atenção os dois autores, ambas são indissociáveis. A adesão à interpretação lévi-strausseana se enquadraria nas intrigas de admiração; a associação do ED a "aspectos místicos" e a explicações a partir do "ponto de vista nativo" nas de acusação. Uma supõe a outra e elas são visíveis nas referências obrigatórias. Um dos determinantes da intriga é o grau de competição pela audição e atenção dos colegas, o qual, por sua vez, depende das pressões competitivas, particularmente das pressões acerca das rivalidades estatutárias. A possibilidade de obter atenção e aprovação depende da capacidade do que faz a intriga de dizer algo ainda mais desfavorável ao objeto desta ou algo mais leal em termos de sinal de adesão ao grupo (:94-5). No caso em exame, a adesão à tese parece ter sido uma condição para se fazer ouvir ou, como o diria Randall Collins (1998:38-39) atrair a atenção e ser aceito como membro pleno de uma comunidade [de antropólogos].

Um dos efeitos deste tipo de competição, ainda segundo Elias e Scotson, são as distorções que dela decorrem. Nos últimos 30 anos, o ED foi sendo "maorizado", como se apenas da Polinésia ele tratasse. Tornou-se reconhecido como uma "obra-prima", mas marcado idelevelmente por um erro: o da mistificação pelo ponto de vista nativo. De um texto que visava levantar novos problemas e fazer sugestões de pesquisa passou a ser visto como uma teoria, e da reciprocidade, noção que sequer havia retido a atenção de Mauss naquele momento. De um trabalho sobre direito e economia, foi transformado em um estudo de economia. Tudo que nele havia referente ao direito, um tema central para Mauss e para os durkheimeanos, como ressalta Vogt (1983:179), foi sendo progressivamente relegado a segundo plano até ser completamente esquecido pelos antropólogos. Eles se enredaram em querelas sobre o hau e a explicação da troca, perdendo conseqüentemente a perspectiva de que na análise daquela noção do direito maori Mauss estava tão-simplesmente dando consistência etnográfica à questão da indissociação entre pessoas e coisas no direito primitivo, um tema já explorado por Max Weber, em sua sociologia do direito.

Embora a dóxa represente a visão hegemônica acerca ED, há evidências que indicam que antropólogos de diferentes tradições nacionais não a compartilham. Se nos reportarmos à antropologia social britânica, por exemplo, à exceção de Firth que contribuiu para a consolidação da crença, outras figuras expressivas não a consideraram. Edmund Leach, em seu livro sobre Lévi-Strauss, sequer inclui a "Introdução" na bibliografia do autor. Para tratar do que chama de "argumentos" do antropólogo francês sobre a troca, reporta-se ao estudo de 49, e os trata como se estivessem inscritos na mesma linha de pensamento de Mauss e dos funcionalistas britânicos, como Firth (Leach 1996[1970]:121). Em outro trabalho, dedicado ao estudo da dívida, menciona as contribuições de Radcliffe-Brown, Malinowski, Mauss e Lévi-Strauss, mas não se detém em nenhuma delas. Opta por expor sua própria teoria, segundo a qual a troca de presentes é o que o observador vê. Para aqueles que nela estão envolvidos, o que prevalece é o sentimento da dívida, as obrigações morais (1982:149-175). Evans-Pritchard, que conhecera Mauss pessoalmente e tinha por ele um grande apreço, distingue o ED como um dos principais trabalhos do amigo e destaca sua contribuição para a comparação sistemática da troca de presentes e sua função na articulação da ordem social. Estas suas observações estão inseridas na nota que escreveu sobre Mauss, incluída em livro póstumo (Evans-Pritchard 1981:191-2). Ainda Mary Douglas (1989), em sua introdução a uma tradução inglesa do ED, explora a dimensão interessada dos dons e sequer faz menção a aspectos místicos. Em trabalho sobre o dom, Jonathan Parry (1986) argumenta, contra Sahlins e Lévi-Strauss, que Mauss não oferece em seu trabalho uma explicação geral a partir de uma ideologia específica (maori), mas, sim, coloca em evidência a indissociabilidade entre pessoas e coisas, que estaria presente também nos direitos antigos (:457). A importância deste ponto do ED voltaria a ser destacada pelo mesmo autor em publicação mais recente (Parry e Bloch 1995[1989]:5,11). E fora da Inglaterra, haveria outros autores a mencionar, como por exemplo Ekeh (1974), Appadurai (1986) e L’Estoile (1996). Estes casos contrários, que não poderiam deixar de ser mencionados, abrem, no entanto, um outro leque de questões, dentre elas a das fronteiras das redes de "intrigas", que escapam aos objetivos deste trabalho.

O que busquei aqui foi identificar as condições sociointelectuais que concorreram para que as idéias contidas no ED fossem apropriadas e reinterpretadas numa determinada direção. Muitos dos aqui citados e que participaram deste processo contribuíram de forma decisiva para o avanço da teoria antropológica, e até mesmo para elucidação de aspectos do trabalho de Mauss. Não esteve em jogo demoli-los, nem negar-lhes o reconhecimento que gozam junto aos colegas. Esta não era a minha questão. Quis tão-somente, através da análise do que sucedeu com o texto de Mauss, colocar em evidência mecanismos sociais que operam no processo de construção de teorias no âmbito da antropologia, na conformação de representações acerca de textos e na sua consagração. Fiz um estudo de caso contendo indicações de método a serem testadas no exame de outros episódios da história da disciplina que, como este, estão a merecer uma apreciação mais distanciada e menos encantada.

 

Recebido em 20 de julho de 1999



 

 

Lygia Sigaud é Professora do PPGAS do Museu Nacional, UFRJ. Publicou trabalhos a partir de pesquisas realizadas na região das grandes plantações canavieiras de Pernambuco; em áreas de deslocamento forçado de populações em decorrência da construção de barragens; sobre usos sociais do direito; e sobre história social da antropologia, a partir do estudo do caso de Edmund Leach. Desenvolve atualmente pesquisas a respeito das condições sociais de possibilidade da autonomia intelectual e a acerca de transformações sociais em curso na mesma zona canavieira.



 

 

Notas



* Uma versão preliminar deste texto foi apresentada durante o Seminário Ciências Sociais, Estado e Sociedade, realizado no Museu Nacional em setembro de 1997. Agradeço os comentários então feitos por Benoît de L’Estoile, Alban Bensa, Federico Neiburg, Márcio Goldman, Carlos Fausto e Antonio Carlos de Souza Lima. As idéias que serão aqui desenvolvidas começaram, no entanto, a ser esboçadas por ocasião de curso oferecido no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, no segundo semestre de 1996, e, finalmente, amadurecidas em outro curso, no primeiro semestre de 1999. Estendo também aos alunos de ambos os cursos os meus agradecimentos: foi interagindo com eles que logrei avançar na construção de meu objeto.

1 Pude me beneficiar, para a elaboração deste texto, do volume expressivo de informações reunidas por Fournier em sua biografia de Mauss.

2 A pesquisa visava o exame das condições sociais nas quais eclodiam e eram regulados conflitos entre trabalhadores rurais e patrões na zona canavieira de Pernambuco (Sigaud 1994,1996a e 1999). Foi apoiada sucessivamente pela Fundação Ford, Finep e CNPq.

3 Coloquei entre aspas os pronomes "nossos" porque não me parece que a sociedade em que vivo faça parte do universo pensado por Mauss.

4 Em 1930, Mauss calculava que das dez a onze mil páginas dos quatorze volumes do Année Sociologique, havia escrito duas mil e quinhentas, e destaca outras setecentas de contribuições bibliográficas (Mauss 1979[1930]:142).

5 As resenhas eram, para o grupo reunido em torno de Durkheim, uma estratégia privilegiada de intervenção nos debates nas ciências sociais da época, como o destaca Karady (1983:87).

6 Nascido na Nova Zelândia e tendo lá se graduado em economia, Firth chega a Londres em 1924 para prosseguir os estudos na mesma disciplina. A antropologia era então para ele uma espécie de hobby. Acaba elaborando uma tese entre a economia e a antropologia (Parkin, 1988: 330-331) e se torna, em 1927, o primeiro doutor em antropologia social da Inglaterra.

7 Segundo seu biógrafo, Mauss teria apenas feito uma comunicação no Institut Français d’Anthropologie, em 1926, a respeito das "parentés à plaisanterie", fenômenos que se assemelhavam ao potlatch com suas rivalidades de generosidade (Fournier, 1994:525).

8 Os textos aparecem na bibliografia dos cursos, conforme foi possível constatar por meio da consulta aos anuários escolares (LSE, 1937-38, 1938-39; 1947-48).

9 Por ser de origem judaica, Mauss sofreu perseguição durante a ocupação nazista. Teve de afastar-se da Ecole Pratique e do Collège de France e sua casa foi tomada por oficiais alemães. Segundo Fournier, ao final da guerra encontrava-se alquebrado. Entrou, em seguida, em uma fase de silêncio e progressivo enfraquecimento físico (1994:721-67).

10 Sobre a reivindicação da herança mausseana, ver Karady (1968:I-VI) e Fournier (1994:760-66). É Karady quem chama a atenção para o fato de que a preocupação em reabilitar a Escola via Mauss teria funcionado como critério na seleção dos textos incluídos na coletânea. Assim, só foram escolhidos textos da "maturidade" de Mauss e deixados de lado outros mais conformes à ortodoxia durkheimeana, provavelmente para tornar o ensinamento da escola mais aceitável ao gosto da época (: V).

11,11a Tal projeto só viria a ser levado a cabo quase duas décadas depois, por Karady.

12 Não encontrei nos depoimentos autobiográficos de Lévi-Strauss, nem na biografia de Mauss (Fournier, 1994) evidências de uma relação estreita entre eles. Há apenas registros de cartas de Lévi-Strauss a Mauss, de recomendações de Mauss e de referências ao fato de que acompanhava o trabalho do jovem etnólogo, assim como de outros que se interessavam pela disciplina.

13 Na primeira edição não foi incluído o "Ensaio sobre as Variações Sazonais das Sociedades Esquimós. Estudo de Morfologia Social". Este texto só foi incorporado a partir da terceira edição de Sociologie et Anthropologie, de acordo com o desejo expresso por Gurvitch antes de sua morte (Mauss, 1991:VI). Ele não foi, por conseguinte, objeto dos comentários de Lévi-Strauss.

14 Foi também a partir de trabalho de campo feito no Brasil que Lévi-Strauss escreveu seus primeiros textos de cunho etnológico que haveriam de lhe valer o reconhecimento como um profissional da disciplina. Ver, a respeito, Peixoto (1998: 81-87).

15 Segundo Karady (1968:VI; nota 11a) "após a morte de Durkheim em 1917 sua cátedra de Ciência da Educação e Sociologia foi várias vezes transformada, a cátedra de Sociologia só tendo sido criada em 1932. Seus titulares foram, por ordem de sucessão: P. Fauconnet, M. Halbwachs, G. Davy [...]", isto é, pessoas diretamente ligadas a Durkheim e a Mauss.

16 Criado no século XVI, o Collège de France tornou-se uma instituição de consagração suprema como o assinala Charle (1986:403). No século XX, conquistar uma cátedra era a ambição daqueles que não desejavam assumir as tarefas pesadas do ensino universitário. Nos pós-guerra a concorrência se acirra, segundo este autor. Entende-se, assim, a dificuldade enfrentada por Lévi-Strauss.

17 Lévi-Strauss o afirma textualmente em entrevista concedida na década de 70. Cf. Clément e Grisoni (1971: 24).

18 Este episódio parece ajustar-se ao que chama a atenção Norbert Elias quando afirma que o conhecimento sofre algumas deformações decorrentes do fato de que se constitui também em um meio para que produtores mantenham e aumentem seu poder e seu status dentro e fora dos establishments científicos (1982:52-53).

19 O "nome", como o assinala Pierre Bourdieu (1984), é o bem mais precioso no mundo acadêmico.

20 Para a análise da trajetória de Leach que serve de base à comparação, ver Sigaud (1996a).

21 Sahlins havia passado dois anos em Paris, entre 1967 e 1969, período áureo do estruturalismo. Segundo interpretação de Kuper (1999:164), data de então sua ruptura com o evolucionismo marxista e sua conversão para uma espécie de determinismo cultural.

 

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