As Redes Sociais Digitais: Um mundo em transformação



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As Redes Sociais Digitais: Um mundo em transformação



As Redes Sociais Digitais: Um mundo em transformação
Carlos Henrique Medeiros de Souza

Universidade Estadual do Norte Fluminense- UENF

E-mail: chmsouza@uenf.br

Carla Cardoso

Mestrado em Cognição e Linguagem- UENF

E-mail: carlacardos@gmail.com

Resumo:

Este trabalho propõe uma reflexão sobre a evolução do conceito de Rede Social e o surgimento de novos sujeitos caracterizados como sujeitos pertencentes as redes sociais digitais. Emerge dentro desta perspectiva a denominação de sujeitos Nativos e Imigrantes, relacionando-os com o tempo e o espaço de utilização de tais redes sociais digitais.

Este artigo visa ainda refletir sobre o ritmo acelerado em que se vive na sociedade contemporânea, caracterizada por mudanças cada vez mais velozes, onde a única constante parece ser a busca incessante pela informação instantânea e dos relacionamentos interpessoais.
Palavras Chave: Redes Sociais; Nativos e Imigrantes Digitais; Novas Tecnologias.

Abstract
This article proposes a reflection on the evolution of the concept of Social Networking and the emergence of new subjects from subjects characterized as social networks. The designation of Natives and Immigrants subjects emerges from this perspective, linking them with time and space of usage of such social networks. It also aims to reflect on the accelerated rythm in which we live in modern society, characterized by changes ever faster, in which the only constant seems to be the unceasing quest for instant information and interpersonal relationships.


Keywords: Social Networking, Digital Natives and Immigrants, New Technologies.

Introdução

O conceito de redes é abordado por diversos estudiosos em variadas vertentes. Segundo Pierre Musso (2004), a idéia de rede existe na mitologia através do imaginário da tecelagem e do labirinto. Na Antiguidade, Hipócrates, em sua Medicina, a associa à metáfora do organismo em que “[...] todas as veias se comunicam e se escoam de umas para as outras; com efeito, umas entram em contato com elas mesmas, outras estão em comunicação pelas vênulas, que partem das veias e que nutrem as carnes”. (MUSSO, 2004, pp. 17-18).

A palavra designa, portanto, ainda segundo o mesmo autor, redes de caça ou pesca e tecidos, uma malhagem têxtil envolvendo o corpo. “Fios entrelaçados para os tecidos, os cordéis ou cestas, as malhas ou tecidos, estão em torno do corpo”. (MUSSO, 2004, p. 18).

Na virada do século XVIII para o XIX, há uma “ruptura” no conceito, com sua saída do corpo. “A rede não é mais apenas observada sobre ou dentro do corpo humano, ela pode ser construída”. (MUSSO, 2004, p. 20). Ela se torna autônoma, artificial, ao invés de natural, pode ser construída, visto que “se torna objeto pensado em sua relação com o espaço. Ela se exterioriza como artefato técnico sobre o território para encerrar o grande corpo do Estado-Nação ou do planeta”. (MUSSO, 2004, p. 20).

Assim como essa trama, esse emaranhado que dá forma à malhagem, observa-se que a forma organizacional da sociedade se perpetua desta maneira, em torno das redes sociais. Ou, como defende o sociólogo alemão Georg Simmel, é feita de agregações, separações, coletividade e individualidade, sucessivas e simultâneas.

Essa dinâmica social é descrita pelo sociólogo em seu ensaio A ponte e a porta, de 1909, por meio da metáfora da ponte e da porta. A ponte, para o pesquisador, provê a realidade visível da distância em relação ao outro, instaurando o desejo de perpetuar o elo de ligação com este. Esta seria a imagem do desejo dessa ligação, dessa agregação, que é próprio da vida em sociedade.

A porta, segundo Simmel (1909), seria aquela que separa, que mantém a interioridade, a individualidade, que não quer contato profundo com o outro, que fecha o homem em si mesmo, evitando a socialização. Entretanto, ela seria essa socialização que mantém essas distâncias que compõem o indivíduo. Para o sociólogo, a vida social se estabelece neste ciclo de passagens sucessivas, com indivíduos que se agregam e que se isolam da ponte à porta e vice-versa. A metáfora de Simmel, criada no início do século passado, caracteriza, de forma clara, a vida contemporânea em sociedade.

Michel Maffesoli (1998), inspirado em Simmel, colabora para o entendimento deste método de agregação social dos indivíduos com sua metáfora de tribos, a rede das redes, em que “redes” também são as pessoas.


[...] as coisas, as pessoas, as representações se propagam por um mecanismo de proximidade. Assim, é por contaminações sucessivas que se cria aquilo que é chamado de realidade social. Através de uma seqüência de cruzamentos e de entrecruzamentos múltiplos se constitui em uma rede das redes. Os diversos elementos limitam-se entre si, formando, assim, uma estrutura complexa. Entretanto, a oportunidade, o acaso, o presente representam nela uma parte não negligenciável. E isso dá ao nosso tempo o aspecto incerto e estocástico que conhecemos bem. O que não impede, por pouco que se saiba ver, que nela esteja agindo uma organicidade sólida que sirva de base às novas formas de [...] socialidade. (MAFFESOLI, 1998, pp.205-206).

Essas adesões sociais, essas passagens sucessivas dos indivíduos, são cruzamentos múltiplos que constituem a estrutura das redes. Maffesoli (1998) continua interpretando a lógica das redes ressaltando que, em uma sociedade complexa, cada um vive uma série de experiências que não tem sentido, senão dentro do contexto global. O indivíduo participa de:


[...] uma multiplicidade de tribos, às quais se situam uma com relação às outras. Assim, cada pessoa poderá viver sua pluralidade intrínseca, ordenando suas diferentes “máscaras” de maneira mais ou menos conflitual, e ajustando-se com as outras “máscaras” que a circundam. Eis aí, como podemos explicar, de alguma forma, a morfologia da rede. Trata-se de uma construção que, como certas pinturas, valorizam todos os seus elementos, sejam eles os mais minúsculos ou os mais insignificantes. (MAFFESOLI, 1998, p.207).
As conceituações sobre sociabilidade em grupos, redes, apresentadas por Simmel e Maffesoli são os prenúncios do que se entende, na atualidade, por Rede Social, uma estrutura social composta por pessoas e organizações que estão conectados por relações e compartilham valores e objetivos comuns, um termo que sugere fluxo, movimento, apontando os padrões das relações que incorporam os conceitos utilizados tradicionalmente pela sociedade.

Maffesoli ainda ressalta uma característica marcante nessa sociabilidade, ao afirmar que dentro de um grupo particular, inúmeros de seus membros participam de múltiplas tribos que se retroalimentam. Esse entrelaçamento é “[...] uma característica morfológica da agregação social de que nos ocupamos”. (MAFFESOLI, 1998, p.205)

Rede Social é uma expressão cunhada do pesquisador J. A. Barnes, apresentada pela primeira vez em uma comunicação em 1953 e publicada em 1954. Foi empregada para descrever como noções de igualdade de classes eram utilizadas e de que forma indivíduos usavam laços pessoais de parentesco e amizade em Bremnes, uma comunidade da Noruega. O autor se inspirou nas idéias de Radcliffe-Brown (1940) que já falava sobre estrutura social como uma rede de relações. (BARNES, 1987, pp. 160-161-164).

Portanto, Barnes introduz a idéia de redes sociais ao perceber a rede social como uma rede na qual todos os membros da sociedade ou parte da sociedade estão imersos. Como membro de uma rede, o indivíduo é percebido como uma pluralidade de relações. Para Barnes, Elizabeth Bott teria sido uma das primeiras antropólogas a usar a idéia de rede enquanto uma ferramenta de análise dos relacionamentos entre pessoas, seus elos pessoais e entre as organizações do contexto em que se inserem. Na metáfora de Radcliffe (1940), a rede social envolve todos os membros da sociedade, que existem independentemente de qualquer investigador. (BARNES, 1972, p.161).

Há diversas abordagens sobre Redes nas mais variadas áreas de conhecimento e, portanto, não se resumem às que são apontadas nesta pesquisa. Entretanto, entende-se que as versões selecionadas e apresentadas aqui colaboram para o entendimento do conceito no aspecto que interessa à pesquisa.

Estudiosos explicam que a noção de redes e redes sociais surge na Antropologia. A primeira aproximação remontaria a Claude Lévi-Strauss com a análise etnográfica das estruturas elementares de parentesco em As estruturas elementares de parentesco (1949)1.


Características da Sociedade em Rede
Para a pesquisadora Raquel Recuero (2009), rede social é definida como um conjunto de dois elementos: atores (pessoas, instituições, ou grupos, os nós das redes) e suas conexões (interações ou laços sociais). (RECUERO, 2009, p. 24).

O estudo das redes, como lembra a autora, não é fruto da contemporaneidade, e vem sendo desenvolvido desde o início do século. Recuero sugere estudos de Leonard Euler, pesquisador que utilizou, pela primeira vez, a metáfora de rede, ao publicar, em 1736, um artigo sobre o enigma das Pontes de Königsberg, famoso problema matemático que deu origem à teoria dos grafos, ramo da matemática que estuda as relações entre os objetos de um determinado conjunto.



A cidade de Königsberg (território da Prússia até 1945, atual Kaliningrado, na Rússia) é cortada pelo Rio Prególia, onde há duas grandes ilhas que, juntas, formam um complexo que na época continha sete pontes. Discutia-se nas ruas da cidade a possibilidade de atravessar todas as pontes sem repetir nenhuma. Euler provou que não existia caminho que possibilitasse tais restrições, transformando os caminhos em retas e suas intersecções em pontos (nós, partes), criando possivelmente o primeiro grafo da história. (RECUERO, 2009, p.19). Eis a primeira tentativa de se representar as redes:


Fig.1: Grafo das Pontes de Königsberg Fig.2: Representação de redes sociais


E
Fig. 3 – Exemplo de Rizoma

ssa representação muito se assemelha à idéia de rizoma proposta por Deleuze e Guattari (1995). Os autores afirmam que o rizoma tem formas “[...] muito diversas, desde sua extensão superficial ramificada em todos os sentidos até suas concreções em bulbos e tubérculos [...] qualquer ponto de um rizoma pode ser conectado a qualquer outro”. (DELEUZE E GUATTARI, 1995, p.15).

Nota-se que o conceito de rizoma registrado por Deleuze e Guattari assemelha-se à idéia de hipertexto apontada por Lévy, que será analisada na próxima parte desta pesquisa.

Segundo Deleuze e Guattari (1995), a principal característica do rizoma é conectar pontos:

[...] um rizoma é feito de platôs [...] que se comunicam uns com os outros através de microfendas, como num cérebro. Chamamos de “platô” toda multiplicidade conectável com outras hastes subterrâneas superficiais de maneira a formar e estender um rizoma [...]. Cada platô pode ser lido em qualquer posição e posto em relação com qualquer outro. (DELEUZE E GUATTARI, 1995, pp.32-33).


Mílton Santos (1996) também contribui para este estudo ao articular algumas abordagens. Santos correlaciona a não homogeneidade dos espaços a não homogeneidade das redes, lembrando que: “[...] num mesmo subespaço, há uma superposição de redes, que inclui redes principais e redes afluentes ou tributárias, constelações de pontos e traçados de linhas". (SANTOS, 1996, p.214).

Segundo o pesquisador, as redes são virtuais, mas também atuais2, são técnicas, mas também sociais, portanto são por vezes estáveis, mas também dinâmicas. Elas incluem em si mesmas um movimento social de dinâmicas ao mesmo tempo locais e globais, o que indicaria uma tensão entre forças de globalização e de localização. O autor ressalta ainda que as redes integram e desintegram, destroem velhos recortes espaciais e criam outros. (SANTOS, 1996, p.222).

Essas observações dialogam com o trabalho apresentado pela pesquisadora Regina Maria Marteleto (2001), ao ressaltar que, entre as diversas significações que “rede” vem adquirindo, destaca-se: sistema de nodos e elos; uma estrutura sem fronteiras; uma comunidade não geográfica; um sistema de apoio ou um sistema físico que se pareça com uma árvore ou uma rede.

Para a autora, o conceito de redes é tributário de um conflito permanente entre diferentes correntes nas ciências sociais, que criam os pares dicotômicos: indivíduo/sociedade; ator/estrutura; abordagens subjetivistas/objetivistas; enfoques micro ou macro da realidade social, colocando cada qual a ênfase analítica em uma das partes. Por exemplo, a antropologia estrutural entende as redes como descritivas, servindo para identificar o caráter perene das organizações e dos comportamentos sociais. Já a linha do individualismo metodológico desconstrói essa concepção, privilegiando o ponto de vista do agente que produz sentido, e as relações sociais na formação do seu agir.

O estudo das redes coloca assim em evidência o fato de que os indivíduos, dotados de recursos e capacidades propositivas, organizam suas ações nos próprios espaços políticos em função de socializações e mobilizações suscitadas pelo próprio desenvolvimento das redes.
Mesmo nascendo em uma esfera informal de relações sociais, os efeitos das redes podem ser percebidos fora de seu espaço, nas interações com o Estado, a sociedade ou outras instituições representativas. Decisões micro são influenciadas pelo macro, tendo a rede como intermediária. (MARTELETO, 2001).
Na análise de redes, para se estudar como os comportamentos ou as opiniões dos indivíduos dependem das estruturas nas quais eles se inserem, a unidade de análise não são os atributos individuais (classe, sexo, idade, gênero), mas o conjunto de relações que os indivíduos estabelecem através das suas interações uns com os outros. A estrutura é apreendida concretamente como uma rede de relações e de limitações que pesa sobre as escolhas, as orientações, os comportamentos, as opiniões dos indivíduos.

A análise de redes não constitui um fim em si mesmo. Ela é o meio para realizar uma análise estrutural cujo objetivo é mostrar em que a forma da rede é explicativa dos fenômenos analisados.


O objetivo é demonstrar que a análise de uma díade (interação entre duas pessoas) só tem sentido em relação ao conjunto das outras díades da rede, porque a sua posição estrutural tem necessariamente um efeito sobre sua forma, seu conteúdo e sua função. Portanto, a função de uma relação depende da posição estrutural dos elos, e o mesmo ocorre com o status e o papel de um ator. Uma rede não se reduz a uma simples soma de relações, e a sua forma exerce uma influência sobre cada relação, (Degenne & Forse, 1994: 7-12). (MARTELETO, 2001).
Ainda segundo a mesma autora, as redes nas ciências sociais são compostas de indivíduos, grupos ou organizações, e sua dinâmica está voltada para a perpetuação, a consolidação e o desenvolvimento das atividades dos seus membros:

Nos espaços informais, as redes são iniciadas a partir da tomada de consciência de uma comunidade de interesses e/ou de valores entre seus participantes. Entre as motivações mais significativas para o desenvolvimento das redes estão os assuntos que relacionam os níveis de organização social-global, nacional, regional, estadual, local, comunitário. Independentemente das questões que se busca resolver, muitas vezes a participação em redes sociais envolve direitos, responsabilidades e vários níveis de tomada de decisões. (MARTELETO, 2001).


Estudar a informação através das redes sociais significa considerar as relações de poder que advêm de uma organização não-hierárquica e espontânea e procurar entender até que ponto a dinâmica do conhecimento e da informação interfere nesse processo. “Em qualquer rede social, alguns elos mantêm relações mais estreitas ou mais íntimas. É o que se denomina cliques, que Emyrbayer define como "grupo de atores no qual cada um está direta e fortemente ligado a todos os outros" (1994:1449)”. (MARTELETO, 2001).

O pesquisador Manuel Castells (1999) define “redes sociais” como conjunto de nós interconectados, como estruturas abertas que são capazes de “expandir de forma ilimitada, integrando novos nós desde que consigam comunicar-se dentro da rede, ou seja, desde que compartilhem os mesmos códigos de comunicação. (CASTELLS, 1999, p.498).

Nas relações sociais mantidas nessa estrutura organizacional, há uma tendência dos indivíduos em reagruparem-se em torno de:
[...] identidades primárias: religiosas, étnicas, territoriais, nacionais. [...] Enquanto isso, as redes globais de intercâmbios instrumentais, conectam e desconectam indivíduos grupos, regiões e até países, de acordo com sua pertinência na realização dos objetivos processados na rede, em um fluxo contínuo de decisões estratégicas. (CASTELLS, 1999, p.23).
Para Castells (1999), ao longo do processo histórico, as redes têm constituído uma grande vantagem e um grande problema por oposição a outras formas de organização social. Por um lado, são as formas de organização mais flexíveis e adaptáveis, seguindo de um modo muito eficiente o caminho evolutivo dos esquemas sociais humanos. Por outro lado, muitas vezes não conseguiram maximizar e coordenar os recursos necessários para um trabalho ou projeto que fosse para além de um determinado tamanho e complexidade de organização necessária para a concretização de uma tarefa:
Assim, em termos históricos, as redes eram algo do domínio da vida privada, enquanto o mundo da produção, do poder e da guerra estava ocupado por organizações grandes e verticais, como os estados, as igrejas, os exércitos e as empresas que conseguiam dominar vastos pólos de recursos com um objectivo definido por uma autoridade central. (CASTELLS E CARDOSO, 2005, pp.17-18).
Os mesmos autores ressaltam que, na verdade, a sociedade em rede manifesta-se de diversas formas, conforme a cultura, as instituições e a trajetória histórica de cada sociedade, tal como a sociedade industrial englobou realidades tão diferentes como os EUA e a União Soviética, a Inglaterra e o Japão, que partilhavam algumas características fundamentais que permitiam a sua definição, dentro do industrialismo, como uma forma distintiva de organização humana não determinada pelas tecnologias industriais, mas impensável sem elas.

Além disso, Castells e Cardoso (2005) ainda apontam que a comunicação em rede transcende fronteiras, a sociedade em rede é global, é baseada em redes globais. Então, a sua lógica chega a países de todo o planeta e difunde-se através do poder integrado nas redes globais de capital, bens, serviços, comunicação, informação, ciência e tecnologia. O que é chamado globalização é outra maneira de se referir à sociedade em rede, ainda que de forma mais descritiva e menos analítica do que o conceito de sociedade em rede implica. Porém, como as redes são seletivas de acordo com os seus programas específicos, e porque conseguem, simultaneamente, comunicar e não comunicar, a sociedade em rede difunde-se por todo o mundo, mas não inclui todas as pessoas. De fato, neste início de século, ela exclui a maior parte da humanidade, embora toda a humanidade seja afetada pela sua lógica, e pelas relações de poder que interagem nas redes globais da organização social.



Os sujeitos Nativos e Imigrantes Digitais
Em 2001, o educador nova-iorquino Marc Prensky, especialista em tecnologia e educação, publicou seu mais famoso artigo “Digital natives, digital immigrants3, onde apresentava os termos “Nativos Digitais e Imigrantes Digitais” e imprimiu uma nova separação entre duas gerações com diferenças culturais: a geração dos Imigrantes Digitais, formada pelos indivíduos que nasceram antes da potencialização das NTIC´s e da Internet, em uma época em que a pesquisa era feita em bibliotecas, enciclopédias, e não em sites de busca como o Google e a segunda, os Nativos Digitais, formada pelos que não conseguem imaginar o mundo sem ela, que quando vieram ao mundo, tecnologias como o computador, celular e Internet já faziam parte da realidade global.

Em seu artigo, Prensky (2001) explica que os alunos desta época, desde o período maternal até a faculdade, representam as primeiras gerações que cresceram com as NTIC´s, cresceram cercados e usando computadores, vídeo games, tocadores de música digitais, câmeras de vídeo, telefones celulares, e todos os outros brinquedos e ferramentas disponíveis nesta era tecnológica e digital.

Segundo aponta o escritor, em seu país natal, em média, um aluno graduado passou menos de 5.000 horas de sua vida lendo, mas acima de 10.000 horas jogando vídeo games, e 20.000 horas assistindo à TV. Os jogos de computadores, e-mail, a Internet, os telefones celulares e as mensagens instantâneas são partes integrais de suas vidas. E, desta forma, conclui que, “[...] como resultado deste ambiente onipresente e o grande volume de interação com a tecnologia, os alunos de hoje pensam e processam as informações bem diferentes das gerações anteriores”. (PRENSKY, 2001, p.1). Estes são, portanto, “falantes nativos” da linguagem digital dos computadores, vídeo games e internet.

Os indivíduos de gerações anteriores a essa, ganham o nome de Imigrantes por aprenderem, como todos imigrantes, alguns mais do que os outros, a se adaptarem ao ambiente. No entanto, eles sempre mantêm, em certo grau, seu “sotaque”, que é sua ligação com o passado, foram “socializados” de forma diferente dos mais jovens e estão em um processo de aprendizagem de uma nova linguagem. “E uma língua aprendida posteriormente na vida, os cientistas nos dizem, vai para uma parte diferente do cérebro”. (PRENSKY, 2001, p.2).

Para compreender melhor a diferença entre nativos e imigrantes digitais, é válido apresentar o exemplo de Prensky (2001): imagine uma pessoa que nasce e cresce em um país onde passa a maior parte da sua vida, até precisar migrar para outro país, outra cultura, língua e costumes. Essa pessoa, imigrante, não passa a ser nativo do país em questão, seja pelo sotaque ou outra característica cultural. Entretanto, para os nativos do país, a língua, a cultura, as pessoas são naturais. Entende-se, portanto, que dessa mesma forma o processo se desenvolve no mundo digital.

Marc Prensky destaca que o Imigrante Digital se adapta ao ambiente em que está inserido e como seus cérebros recebem as informações:

O “sotaque do imigrante digital” pode ser percebido de diversos modos, como o acesso à internet para a obtenção de informações, ou a leitura de uma manual para um programa ao invés de assumir que o programa nos ensinará como utilizá-lo. Atualmente, os mais velhos foram “socializados” de forma diferente das suas crianças, e estão em um processo de aprendizagem de uma nova linguagem. (PRENSKY, 2001, p.2).
No entanto, o mesmo autor oferece centenas de exemplos de sotaque de imigrante digital, tais quais a necessidade de se imprimir um documento escrito no computador para editá-lo, ao invés de editá-lo na tela, imprimir um e-mail ou trazer pessoas pessoalmente ao escritório para que vejam um site interessante, ao invés de enviá-los a URL. (PRENSKY, 2001, p.2).

O porquê dessa divisão de gerações pode ser compreendido com a seguinte explicação de Marc Prensky (2001):


Os Nativos Digitais estão acostumados a receber informações muito rapidamente. Eles gostam de processar mais de uma coisa por vez e realizar múltiplas tarefas. Eles preferem os seus gráficos antes do texto ao invés do oposto. Eles preferem acesso aleatório (como hipertexto). Eles trabalham melhor quando ligados a uma rede de contatos. Eles têm sucesso com gratificações instantâneas e recompensas freqüentes. Eles preferem jogos a trabalho “sério”. (PRENSKY, 2001, p.3).
Entretanto, continua o autor, os Imigrantes Digitais tipicamente têm pouca apreciação por estas novas habilidades que os Nativos adquiriram e aperfeiçoaram através de anos de interação e prática. “Estas habilidades são quase totalmente estrangeiras aos Imigrantes, que aprenderam – e escolhem ensinar – vagarosamente, passo-a-passo, uma coisa de cada vez, individualmente, e acima de tudo, seriamente”. (PRENSKY, 2001, p.3).

Em entrevista concedida à Camila Guimarães, publicada na Revista Época de 08 de julho de 20104, Prensky afirma que a sociedade caminha para a era do Homo sapiens digital ou a era do indivíduo com sabedoria digital. Segundo define o educador, “para compreender o mundo será preciso usar ferramentas digitais para articular o que a mente humana faz bem com o que as máquinas fazem melhor. Nesse futuro, a diferença de idade e as diferenças entre nativos e imigrantes certamente serão menos relevantes”, acredita.

Essa afirmativa é enfatizada pelo autor (2001) em Digital Natives, Digital Immigrants II - Do They Really Think Differently?, segunda parte do seu famoso artigo, quando explica que as crianças de hoje estão sendo socializadas de uma maneira que é muito diferente de seus pais. O autor sugere que os cérebros dos Nativos Digitais são fisicamente diferentes, como resultado no estímulo digital que receberam em seu desenvolvimento, baseado nas últimas descobertas da neurobiologia, afetando a maneira como as pessoas pensam. (PRENSKY, 2001, p.7). 

O pesquisador acrescenta ainda que o vídeo game, desde quando se popularizou, na década de 70, tornou-se a via de programação dos cérebros para a velocidade, interatividade e outros fatores nos jogos. Assim como os cérebros foram programados para acomodar a televisão, e os cérebros-homem-letrado foram reprogramados para lidar com a invenção da linguagem escrita e da leitura (quando o cérebro teve que ser treinado para lidar com as coisas de uma forma muito linear). (PRENSKY, 2001, p.9).

Portanto, continua o autor, quando se descobriu (mais ou menos) como treinar os cérebros para a leitura, eles foram treinados novamente pela TV. E agora, as mudanças acontecem novamente. Crianças criadas com o computador "pensam diferente do resto de nós”. Eles desenvolvem um espírito de hipertexto. Temos então uma nova geração com uma grande mistura de diferentes habilidades cognitivas do que seus antecessores, esses são os nativos digitais. (PRENSKY, 2001, p.9).
REFERÊNCIAS
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DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.
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__________. O que é o virtual?. São Paulo. Editora 34, 7 ª impressão, 2005. 


MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos: o declínio do individualismo na sociedade de massa. Coleção Ensaio & Teoria. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2ª Edição, 1998.
MARTELETO, Regina Maria. Análise de redes sociais – aplicação nos estudos de transferência da informação. Ci. Inf. v.30 n.1 Brasília jan./abr. 2001.
MUSSO, Pierre. A Filosofia da Rede in PARENTE, André (org). Tramas da Rede: novas dimensões filosóficas, estéticas e políticas da comunicação. Editora Sulina, 1ª Edição, 2004.
PRENSKY, Marc. Nativos Digitais, Imigrantes Digitais. De On the Horizon (NCB University Press, Vol. 9 No. 5, Outubro 2001). Tradução do artigo "Digital natives, digital immigrants", cedida por Roberta de Moraes Jesus de Souza: professora, tradutora e mestranda em educação pela UCG.
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SOUZA, Carlos Henrique Medeiros Comunicação, Educação e Novas Tecnologias. Ed. FAFIC. Rio de Janeiro; 2003.

1 Texto original: Simone de Beauvoir. 1949. “Les Structures Élémentaires de la Parenté, par Claude Lévi-Strauss”. Les Temps Modernes 7(49): 943-9 (October). Tradução: Marcos P. D. Lanna (UFSCar) e Aline Fonseca Iubel (PPGAS/UFPR).

2 Pierre Lévy (2005) registra que o virtual nada mais é do que a atualização do real.

3 Fonte: artigo disponível em http://api.ning.com/files/EbPsZU1BsEN0i*42tYn-d650YRCrr tIi8XBkX3j8*2s_/ Texto_1_Nativos_Digitais_Imigrantes_Digitais.pdf. Acesso em 11.11.2010.

4 Disponível em: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI153918-15224,00-MARC+PRENSKY+O+ALUNO +VIROU+O+ESPECIALISTA.html. Acesso em 11.11.2010.





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