As mulheres não são como os homens – independentes entre si



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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

CENTRO DE HUMANIDADES

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

MESTRADO EM HISTÓRIA SOCIAL

Francisca Clotilde e a Palavra em Ação (1884-1921)

Luciana Andrade de Almeida




UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

CENTRO DE HUMANIDADES

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

Francisca Clotilde e a Palavra em Ação (1884-1921)


Luciana Andrade de Almeida


Dissertação apresentada como exigência parcial para a obtenção do grau de mestre em História Social à Comissão Julgadora da Universidade Federal do Ceará, sob a orientação da Profª Drª Adelaide Maria Gonçalves Pereira

Fortaleza

Outubro de 2008


“Lecturis salutem”


Ficha Catalográfica elaborada por

Telma Regina Abreu Camboim – Bibliotecária – CRB-3/593

tregina@ufc.br

Biblioteca de Ciências Humanas – UFC

A448f Almeida, Luciana Andrade de.

Francisca Clotilde e a palavra em ação (1884-1921) / por Luciana Andrade de Almeida. – 2008.

261 f. : il ; 31 cm.

Cópia de computador (printout(s)).

Dissertação(Mestrado) – Universidade Federal do Ceará,Centro de Humanidades,Programa de Pós-Graduação em História, Fortaleza(CE),

27/10/2008.

Orientação: Profª. Drª. Adelaide Maria Gonçalves Pereira.

Inclui bibliografia.

1- CLOTILDE,FRANCISCA,1862-1935 – CRÍTICA E INTERPRETAÇÃO.

2- CLOTILDE,FRANCISCA,1862-1935 – LIVROS E LEITURA.3-ESCRITORAS BRASILEIRAS – CEARÁ – 1884-1921.4-MULHERES E LITERATURA – CEARÁ – 1884-1921.5-PERIÓDICOS BRASILEIROS – CEARÁ – 1884-1921.6- CEARÁ – CONDIÇÕES SOCIAIS – 1884-1921.7- CEARÁ – USOS E COSTUMES – 1884-1921.I- Pereira, Adelaide Maria Gonçalves, orientador.II-Universidade Federal do Ceará. Programa de Pós-Graduação em História. III- Título.
CDD(22ª ed.) 928.69

54/08
UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ



CENTRO DE HUMANIDADES

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA


Luciana Andrade de Almeida

Dissertação examinada, em 27 de outubro de 2008, em sua forma final, pela orientadora e membros da banca examinadora, composta pelos professores:

____________________________________________

Profª Drª Adelaide Maria Gonçalves Pereira – UFC

Orientadora

____________________________________________

Profª Drª Giselle Martins Venancio - UFMA

____________________________________________

Profª Drª Kênia Sousa Rios – UFC

____________________________________________

Prof. Dr. Eurípedes Antônio Funes – UFC

Suplente


Fortaleza

Outubro de 2008




À minha família

AGRADECIMENTOS
A escrita desta dissertação de mestrado não se constituiu em um trabalho solitário. Pelo contrário, representa o empenho ou colaboração de pessoas especiais. Agradeço à minha orientadora, Adelaide Gonçalves, por aceitar participar da realização deste trabalho, conduzido de forma dedicada e generosa.

A Rosângela Ponciano, bisneta de Francisca Clotilde, e sua família, pela gentileza ao disponibilizar informações e fontes fundamentais a este estudo.

A Kênia Sousa Rios e Ana Rita Fonteles, pelas valiosas sugestões de abordagens e proveitosas leituras. Sou grata à professora Giselle Venancio, que, de pronto, aceitou participar da banca examinadora.

Ao professor Francisco Régis Lopes, pela confiança em meu trabalho.

Ao professor Sânzio Azevedo, do Departamento de Literatura da UFC, pelos comentários e críticas que procurei incorporar a minhas reflexões.

A Ana Patrícia Pereira, Bruno Silva, Cecília, Elvis, Karoline Viana, Jacqueline Brandão, Larissa Almeida, pela amizade desmedida.

Aos meus colegas da Pós-Graduação, especialmente Ana Isabel Cortez, Ana Sara Cortez, Janote Pires, Kelly Cristina Benjamim, Lucélia Andrade, Viviane Prado e Paula Virgínia Batista, por compartilharem momentos desta pesqusa.

A Anamélia Mota, pelas indicações compartilhadas sobre Francisca Clotilde.

À bibliotecária Madalena Figueiredo, da Academia Cearense de Letras; a Elmadan Rocha e Gertrudes Costa, do setor de micro-filmagem da Biblioteca Pública Menezes Pimentel; aos bibliotecários do Instituto Histórico e Geográfico do Ceará; a Tarso, da Biblioteca Nacional, pela valiosa ajuda no itinerário de pesquisa.

Agradeço, ainda, às seguintes instituições: Academia Cearense de Letras, Arquivo Público do Estado do Ceará, Biblioteca Pública Menezes Pimentel, Instituto Histórico e Geográfico do Ceará, Núcleo de Documentação Cultural (Nudoc - UFC), e Univerdidade Federal do Ceará. Ao curso de Pós-Graduação em História Social da UFC, pelo imenso apoio. À Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), pela bolsa concedida que viabilizou o processo de realização da dissertação.

A Pablo Castelar, pelo carinho, companheirismo e valioso auxílio na construção deste texto.

Á minha família, pelo carinhoso apoio, sempre.



RESUMO
O pensamento da escritora cearense Francisca Clotilde (1862-1935) foi registrado em panfletos, almanaques, brochuras, revistas, jornais e nos livros que publicou, em mais de cinco décadas dedicadas ao ensino, às lutas sociais, às causas políticas e à literatura. Este estudo recolhe e analisa o repertório escrito da autora, exercitado em contos, crônicas, artigos, crítica literária, teatro, traduções, charadas, anúncios. O percurso do presente trabalho encontra diálogo com a ambiência literária, social e urbana da província em fins do século XIX e início do século XX, em uma época pautada por questões ligadas à abolição, ao civismo, à pedagogia, à religiosidade. Diante dessa variedade de experiências e temáticas presentes na prosa e no verso da escritora, optou-se por uma marcação temporal que abrange o período entre 1884 a 1921, quando sua contribuição à imprensa, objeto de estudo deste trabalho, se torna numerosa e efetiva, e passa a ser reconhecida por seus pares intelectuais.
Palavras-chave: Francisca Clotilde, história intelectual, história da leitura, Ceará.

ABSTRACT
The writer from Ceará Francisca Clotilde (1862-1935) wrote pamphlets, almanacs, magazines, newspapers and books, in over five decades in which she dedicated herself to teaching, social struggles, political issues and literature. This work analyzes the author's writings in stories, chronicles, essays, literary criticism, drama, translations, riddles and advertisements. Her trajectory is entwined with the literary, social and urban contexts of Fortaleza in the remaining years of the 19th Century and the early 20th Century, a period in which took place discussions linked to the abolition of the slave trade, patriotism, pedagogy and religiosity. In face of this variety of experiences and themes present in the prose and verse of the writer, the period between 1884 and 1921 was chosen for analysis, when her contribution to the press, this work's object of study, becomes large and effective, and becomes recognized by her intellectual peers.
Keywords: Francisca Clotilde, Intellectual History, History of Reading, Ceará.

SUMÁRIO
EXERCITANDO A ESCRITA ................................................................................... 11
CAPÍTULO I

LEITURAS NA PROVÍNCIA: CIRCULAÇÃO DE IMPRESSOS E IDÉIAS ................16


1. “A alma sonha e os versos estremecem”: ler e escrever para existir.................... 16

2. Campanha abolicionista e a fagulha da criação.................................................... 32

3. Entre normas e afetos no espaço escolar ............................................................ 47
Capitulo ii

Impressões femininas ..................................................................................... 73
1. Temas e autoria feminina no Club Literário .......................................................... 74

2. As várias escritas de almanaque ....................................................................... 102

3. “Falem contra a mulher cearense política; eu applaudo-a” ................................ 125
CAPitulo III

A Estrella: Páginas de encontro ............................................................ 150


1. “Um quê de criança e de mulher” ....................................................................... 152

2. Constelação de colaboradores .......................................................................... 176

2.1. Álbum de virtudes e modelos .......................................................................... 191

3. “Deus, Pátria e Dever”: um projeto pedagógico ................................................. 214


ITINERÁRIOS DE LEITURA E ESCRITA .............................................................. 239
FONTES E BIBLIOGRAFIA ................................................................................... 242
ÍNDICE DE TABELAS
Tabela 1 - Relação de estabelecimentos de ensino e matérias lecionadas ............ 50

Tabela 2 - Inventário da dramaturgia de autoria de Francisca Clotilde .................. 234


ÍNDICE DE FIGURAS
Figura 1 – Capas da primeira e segunda edições do romance A Divorciada .......... 63

Figura 2 – Capas das edições de 1911 e 1928 do Almanach das Senhoras



Brazil/Lisboa ............................................................................................................119

Figura 3 – Pelo Ceará, brochura com artigos políticos de Francisca Clotilde ........ 128

Figura 4 – A Estrella, edições de dezembro de 1908; novembro de 1913; outubro de 1915; novembro de 1916; dezembro de 1918; outubro-dezembro 1920 .............. 153

Figura 5 – Coluna Mensageiro da Estrella ............................................................. 157

Figura 6 – Album da Estrella .................................................................................. 158

Figura 7 –Rev. João Saraiva, Helena Brigido e Maria Costa Lima ........................ 181

Figura 8 – Amalinha Barretto e Amelia Gomes ...................................................... 184

Figura 9 – Emília de Freitas ................................................................................... 193

Figura 10 – Angelita Clotilde e Alzira Pacheco ...................................................... 194

Figura 11 – Maria Odilia Comarú ........................................................................... 195

Figura 12 – Odilia Rodrigues ...................................................................................196

Figura 13 – Isidora Furtado Muniz e Alice Pinheiro Dias Moura .............................199

Figura 14 – Lourdes Gurgel e Rosa Amelia Pontes ............................................... 199

Figura 15 – Dulce Dolores e Maria Amelia Pedrosa .............................................. 201

Figura 16 – Gilberta Galvão ................................................................................... 202

Figura 17 – Augusta Pinheiro da Silva ................................................................... 203

Figura 18 – Carmen e Osanira Virgínio .................................................................. 203

Figura 19 – Francisquinho Bayma e Maria José Nogueira .................................... 204

Figura 20 – Augusto de Castro ............................................................................... 205

Figura 21 – Abemos, Armando e Edelvith .............................................................. 206

Figura 22 – José Hugo Ramalho ............................................................................ 208

Figura 23 – Lyrial Osanira, Francisco e Mario Figueiredo ...................................... 208

Figura 24 – Maria Carmelia .................................................................................... 209

Figura 25 – Rodrigo Oswaldo Figueiredo ............................................................... 210

Figura 26 – Roland e Eugenio Frederico; e Lourdes, Carmen e Olguinha ............ 211

Figura 27 – Beni Carvalho ...................................................................................... 212

Figura 28 – Página de Saudade e retrato de José de Mendonça Nogueira .......... 213

Figura 29 – Francisca Clotilde, alunos e alunas do Externato Santa Clotilde, com o estandarte “Deus, Pátria e Dever” .......................................................................... 224

Figura 30 – Francisca Clotilde entre alunas e alunos ............................................ 229

EXERCITANDO A ESCRITA
As mulheres não são como os homens – independentes entre si. As nossas almas são elas umas das outras e essa corrente enorme, cheia de eletricidade, estremece quando um elo se parte. (...) enquanto houver na terra uma mulher sacrificada, as outras não têm direito de cruzar os braços indiferentes.
Maria Lacerda de Moura (1887 – 1945), jornalista e anarquista mineira

Para contar esta história, não recorri aos baús ou arcas de lembranças privadas, repletos daqueles “mil nadas” de que fala Michelle Perrot. Tampouco encontrei referências nos livros de história ou nas biografias de mulheres célebres. Francisca Clotilde (1862-1935) é mulher de sinuosos caminhos, recuperados aos poucos e não completamente desvendados.

O mais instigante é que os indícios legados por ela são quase todos públicos. Sinal de que era uma mulher que se apresentava no espaço urbano, na cidade que acolhe e segrega as mulheres. A essência de seu pensamento se deixou registrar em panfletos, almanaques, brochuras, revistas, jornais e nos livros que publicou, concretizando em mais de cinco décadas um largo programa de vária escrita. A imprensa era seu lugar, no Ceará que via mais de uma centena de jornais circulando e agremiações culturais e literárias que surgiam, em fins do século XIX.

Sigo pistas do itinerário de Francisca Clotilde há cinco anos, contados a partir de meu projeto de pesquisa de graduação em Comunicação Social, Jornalismo, na Universidade Federal do Ceará. Foi o professor Gilmar de Carvalho que me lançou o desafio de seguir os passos daquela mulher através de intrincados caminhos de palavras. A provocação gerou uma monografia e, posteriormente, um livro, editado pelo Museu do Ceará.

Mas eu ainda sentia a necessidade de ampliar a compreensão sobre aquela escritora, leitora, professora, polemista, jornalista, militante, mãe, esposa e mulher. Franciscas e Clotildes em uma só. Este registro de várias vozes que gera uma escrita plural e que também pode ser contraditória, ora feminista, ora defensora de uma mulher cultivada como uma flor – entre muros.

Foi na Pós-Graduação em História, na mesma instituição, que tive meu projeto acolhido. Era o momento, então, de aprofundar minhas leituras. A pesquisa de fontes foi exaustiva e curiosa – a cada dia de trabalho, entre arquivos públicos e acervos privados de Fortaleza, Aracati e Rio de Janeiro, deparava-me inesperadamente com um novo texto, um novo impresso. Da atuante escritora e seu legado, surgiam intrincadas e estimulantes conexões, que foram ampliando o rol de documentação historiográfica, caudaloso e variado.

Em uma vida inteira dedicada às letras e à propagação de uma missão pedagógica, Francisca Clotilde colaborou em grande número de periódicos. Em publicações de matriz operária, literária, abolicionista, republicana ou feminina, Clotilde não praticou um caminho usual no periodismo. Ampliou seu leque de atuação, dirigindo-se a distintos públicos no Cearense (1877-1884), Libertador (1881-1891), Revista Contemporânea (1884), A Quinzena (1887-8), A Evolução (1888-1889), Gazeta do Sertão (1893), Ceará Ilustrado (1894), Iracema (1895-1900), O Combate (1896), A República (1896-1901), A Fortaleza (1906), Folha do Commercio (1911), O Domingo, A Cidade e A Ordem.

Foi colaboradora contumaz do Almanach do Ceará (entre 1897 e 1919) e teve seus textos publicados no Almanach das Senhoras Brazil/Lisboa (1911). Figurou, ainda, nas folhas O Lyrio, de Recife (1902-1904); O Bathel, da Paraíba; Paladino, do Acre; A Família, de São Paulo (1881-1883) e Rio de Janeiro (1883-1897); e A Mensageira (1897-1900), também paulista. Cultivou, nestes espaços, a prosa, a poesia e a não-ficção, em contos, crônicas, artigos, crítica literária, teatro, traduções, charadas, anúncios.

Não obedeceu rigorosamente ao cânone – Clotilde se insurgiu discretamente contra a escola realista, em voga no último quartel do século XIX, e se afirmou romântica. Assim, pavimentou seu caminho próprio como escritora. Sua letra miúda, de professora, preenchia as pautas dos cadernos e assim surgiram os livros publicados: Coleção de Contos (1897), Noções de Aritmética (1889), A Divorciada (1902), os dramas Fabíola e Santa Clotilde (s/d) e Pelo Ceará (1911). Vai organizando seus escritos e, nas primeiras décadas do século XX, dá vida a um longevo projeto literário e educativo na imprensa cearense: a revista A Estrella, que circulou em vários lugares do Brasil e reuniu colaboradores e assinantes durante os quinze anos de sua existência (1906-1921).

A partir dessas publicações, organizei o corpus documental em grupos. Caminham, paralelos, os textos de teor abolicionista, os escritos de almanaque, os artigos políticos, os contos, a poesia, a escrita pedagógica, o romance. A análise das fontes gerou escolhas teóricas, em torno das quais transita a produção intelectual de Francisca Clotilde. O tema desta pesquisa articula campos de estudo como biografia, memória, história do livro e da leitura, das mulheres, da cidade, das idéias, da vida privada. Referências teóricas tomadas como fonte, não como complemento, por possuírem uma delicada sintonia com o tema deste estudo e apresentarem novas possibilidades de interpretação. Registre-se que o intenso rol de fontes e a bibliografia citada informam ao leitor meu itinerário como pesquisadora, ao longo da realização desta pesquisa.

Fontes e livros que me arrancaram da tranqüilizadora familiaridade do mundo, no sentido de provocarem uma reflexão incomum. Habituada a encontrar textos e referências a mulheres “às margens”, custei a perceber que estava diante de uma personagem diferente e desafiadora. Francisca Clotilde é uma mulher inserida nas discussões que dão substância ao século XIX. Questões vitais em seu tempo, como positivismo, pedagogia, prescrições de leitura, papéis femininos, oposição entre campo e cidade, abolição, república, combate à oligarquia. Esses e outros temas eram o leitmotiv de sua obra, além da natureza, do amor e dos estados d’alma.

Dada essa variedade de experiências sociais e literárias, elegi o título Francisca Clotilde e A Palavra em Ação, que abrange o período entre 1884 e 1921. Encontrei textos de sua autoria antes e após esta marcação temporal, na imprensa. No entanto, para este estudo, fixei o início de sua trajetória pública no ano em que sua contribuição à imprensa, objeto de estudo deste trabalho, se torna menos espaçada e mais efetiva. E o ano de 1921 se torna de relevo por assinalar o último projeto literário em que se envolveu, a revista A Estrella. Portanto, é o caso de selecionar os textos dando a conhecer suas várias formas de expressão. Trata-se de um complexo exercício de escolhas, refeito em cada etapa da pesquisa.

Tomando como referência esses marcos e os núcleos de escrita que estabeleci, organizo o presente trabalho da seguinte forma.

No primeiro capítulo, dou a conhecer, nas palavras de Robert Darnton, a “moldura material” que ambienta a existência de Francisca Clotilde, na Fortaleza finissecular. É na urbanidade e na modernidade em construção que a leitora Clotilde transita, no gabinete de leitura, nas livrarias, nos jornais, nos clubs literários, nas tertúlias. Constrói-se como leitora-escritora e escritora-leitora. Sua palavra está em ação, a serviço da causa abolicionista, nas folhas Libertador e Cearense. Nesse espaço letrado, conhece as amigas Ana Facó (1855-1926), Ana Nogueira Batista (1870-1965), Alba Valdez (1874-1962), Emilia Freitas (1855-1908), Henriqueta Galeno (1887-1864), Serafina Pontes (1850-1923) e outras, empenhadas em figurar na cena pública através da atuação social e da escrita. O intercâmbio intelectual se intensifica e o circulo de relações se amplia quando Clotilde se torna a primeira professora do sexo feminino da Escola Normal no Ceará, em 1884.

Além da luta a favor da libertação dos escravos, sua escrita se investe de uma missão educativa. A palavra em constante transformação é imbuída de uma dimensão pedagógica, que apregoa uma educação baseada em conteúdos normativos e na afetividade entre aluno e professor. Sua carreira não se trata, pois, de um “chamado da vocação”, conformando com uma das ocupações possíveis para uma mulher de seu tempo – sua escrita e sua profissão são um projeto da vida inteira. Ao escrever o romance A Divorciada, publicado em 1902, Francisca Clotilde propõe, aos 40 anos de idade, um entretenimento são e um enredo desafiador, que traz a temática da separação do casal para a literatura cearense.

No segundo capítulo, recuo um pouco no tempo, para o momento quando Clotilde lança as bases de seu pensamento. Acompanho seu itinerário na revista literária A Quinzena e no Club Literário, agremiação em que ingressou como sócia efetiva. Empréstimos de livros e conferencias faziam parte da rotina da agremiação. É neste círculo literário, predominantemente masculino, que Clotilde aborda o universo feminino, povoado de mães desiludidas, filhas esperançosas e noivos desregrados.

As trocas intelectuais se intensificam e o inventário de leituras se alarga. As travessias literárias se cruzam com os almanaques, que propagam seus textos pelo Ceará e por destinos além-mar. Mas não imagine o leitor que Francisca Clotilde, ficcionista, estava alheia aos acontecimentos da cidade. Em 1911, arvora-se no republicanismo e na exaltação da pátria, tomando partido no amplo movimento de oposição à oligarquia aciolina, lançando uma série de artigos favoráveis à candidatura de Franco Rabelo. Enfeixados em brochura, deram origem ao volume Pelo Ceará, sua escrita cáustica, à maneira de panfleto, contribui para o debate em torno da conjuntura. Clotilde então segue a senda que galvanizou no XIX, ensaiando a participação politica e reiterando os valores cívicos, religiosos e morais em seu texto. Além de conclamar as mulheres a incursionarem nesta seara masculina, integrando as frentes de luta.

O terceiro capítulo do trabalho conta como Francisca Clotilde assume a ação pedagógica de sua palavra, na revista A Estrella e no Externato Santa Clotilde, que inaugurou na cidade cearense de Aracati, para onde seguiu. A revista literária, que começou como um exercício em papel almaço, passou a ser conduzida ao lado da filha, Antonieta, que herdou o apreço à literatura e o prazer de escrever e ensinar. Durante quinze anos, as páginas impressas em bom papel registram uma estreita relação com a escola, os valores familiares, a religião, as leituras prescritas. Uma ampla rede de assinantes e colaboradores se estende por vários lugares do País, congregando homens e mulheres em um projeto que, ao mesmo tempo, incentivava o beletrismo entre a mocidade e referendava a literatura de talentosos escritores e escritoras. Revista de mãe e filha, que também se vinculava afetivamente a seus leitores, por meio de retratos, dedicatórias e gentilezas.

A força dessas muitas histórias se afirma através do itinerário desta corajosa escritora de idéias invulgares, obstinada em criar novos espaços e persuasiva em seus ensinamentos, materializados pela palavra. A ela, não devia existir prazer maior do que sentir seus textos percorridos pelo olhar arguto dos leitores e ter as páginas de seus escritos folheadas.



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