As migraçÕes dos fieis e a mobilidade das religiões um estudo sobre migrações internacionais e tradições religiosas



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Encontro28.05.2017
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AS MIGRAÇÕES DOS FIEIS E A MOBILIDADE DAS RELIGIÕES

Um estudo sobre migrações internacionais e tradições religiosas

Roberto Marinucci

No decorrer do século passado, raramente a dimensão religiosa entrou na pauta das pesquisas e dos debates relacionados com as migrações internacionais, a não ser em âmbitos pastorais e assistenciais. Pela influência da teoria da secularização, acreditava-se na privatização ou no eclipse do sagrado e, com isso, em sua irrelevância na análise dos fenômenos sociais das sociedades modernas. No entanto, nas últimas três décadas vários eventos comprovaram que a dimensão religiosa não sumiu da vida da humanidade e tampouco foi relegada ao foro íntimo das pessoas. Sua presença pública se manifesta tanto na ação das instituições religiosas, quanto na religiosidade que orienta a vida de pessoas que possuem uma cosmovisão religiosa.

Neste contexto de “retorno do sagrado”, ganhou relevância também o debate sobre a relação entre migrações internacionais e dimensão religiosa. No interior das religiões, em geral, esse debate tem um foco substancialmente pastoral e missionário, visando analisar o impacto das migrações na vida das comunidades, em busca de pistas de ação para o atendimento dos afiliados que emigram, bem como para a acolhida e, eventualmente, a conversão de novos membros.

No âmbito da sociologia da religião, por outro lado, o debate verte sobre duas grandes temáticas: as formas em que as migrações interferem e modificam a religiosidade dos migrantes e a estruturação sócio-pastoral das religiões e, por outro lado, as formas em que as religiões e a religiosidade dos migrantes incidem nas dinâmicas migratórias. O pressuposto teórico que fundamenta as reflexões é que as religiões são influenciadas e, ao mesmo tempo, influenciam o contexto sócio-cultural em que atuam. Em outros termos, o fato religioso pode ser, dependendo das situações, causa ou reflexo, locomotiva ou vagão.

Este artigo visa aprofundar esse debate a partir de um foco institucional: o objetivo é examinar (1) como as tradições religiosas incidem na configuração das migrações internacionais e, ao mesmo tempo, (2) como os deslocamentos populacionais, com todas suas consequências, contribuem na redefinição identitária das denominações. Em outras palavras, nosso interesse, antes que na religiosidade individual do migrante, está na religião enquanto sistema institucional de crenças, ritos, estruturas, normas e preceitos.

No que diz respeito à primeira questão (1), tradicionalmente as religiosas desenvolvem um duplo papel em relação às migrações: por um lado, elas acompanham os próprios afiliados que emigram, visando preservar a fé e oferecer serviços religiosos; por outro, as religiões, com freqüência, desenvolvem um importante papel de acolhida e amparo para qualquer migrante. Em outros termos, as denominações religiosas costumam oferecer serviços religiosos e sócio-assistencias. Elas são fonte de sentido - sobretudo quando o migrante é obrigado a rever seu projeto migratório, repensar seus objetivos, redimensionar suas expectativas - e, ao mesmo tempo, são fonte de solidariedade e proteção diante da vulnerabilidade inerente às dinâmicas migratórias.

No entanto, na atualidade, a ação das instituições religiosas não se reduz a estes dois âmbitos. Elas agem e orientam numerosos migrantes com cosmovisão religiosa em diferentes etapas da jornada migratória, como a decisão de migrar, a escolha do país e da cidade de destino, a travessia, a acolhida na terra de chegada, o processo de integração, a estruturação de campos transnacionais, a acolhida e integração dos retornados, a distribuição das remessas, a transmissão de valores religiosos e culturais (WARNER, 2000).

Quanto à segunda questão (2), as migrações, em primeiro lugar, estão diversificando o campo religioso de numerosos países. Muitos monopólios religiosos foram quebrados. Esta situação tem duas consequências: as religiões são obrigadas a lidar com a presença de outras fontes de capital simbólico, o que pode gerar diálogo, mas também conflitos; os governos de vários países são levados a repensar a complexa relação entre Estado e religião(ões), levando em conta as exigências e reivindicações de minorias religiosas.

Além da diversificação do campo religioso, a emigração ou a imigração de afiliados tende a produzir importantes transformações na estruturação e na prática das tradições religiosas. Em outros termos, qualquer denominação é chamada a conciliar o inevitável processo de adaptação à terra de chegada, que implica sempre alguma negociação identitária, e a necessidade de fidelidade à própria tradição (YANG, EBAUGH, 2001).

Enfim, ao analisar o nexo entre denominações religiosas e migrações internacionais, o artigo visa mostrar como o estudo da dimensão religiosa se torna um fator essencial para a correta compreensão das dinâmicas migratórias contemporâneas e, ao mesmo tempo, como o conhecimento das migrações internacionais auxilia na intelecção das mudanças identitárias que ocorrem, hoje, nas religiões. O artigo fundamenta-se em pesquisas bibliográficas, tendo um foco internacional, com prioridade pelo mundo ocidental e pelas religiões abrâmicas.


Bibliografia básica

AMBROSINI, Maurizio. Gli immigrati e la religione: fattore d’integrazione o alterità irriducibile? In: Idem. Un’altra globalizzazione. Bologna: Il Mulino, 2008

YANG, Fenggang, EBAUGH, Helen Rose. Transformations in New Immigrant Religions and Their Global Implications. American Sociological Review, v. 66, 2001, p. 269-288

HIRSCHMAN, Charles. The Role of religion in the Origins and adaptation of Immigrants Groups in the United States. IMR, v. 38, n. 3 Fall 2004, p. 1206-1233.



PRENCIPE, Lorenzo. A religião dos migrantes: entre os retrocessos segregacionistas e as possibilidades de nova coesão social. Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura - Ano VIII, n. 37.

WARNER, R. Stephen. Religion and New (Post-1965) Immigrants: Some Principles Drawn from Field Research. American Studies, v. 41, n. 2/3, 2000, p. 267-286.



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