As histórias de Michel Foucault 1



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As histórias de Michel Foucault1




Fernando F. Nicolazzi

Escrever sobre as histórias praticadas por Michel Foucault é adentrar num espaço incerto, por muitos percorrido e das mais diversas formas. A enorme variedade de pesquisas sobre o pensador francês deixa clara a dificuldade inerente a um estudo de seu pensamento. A quantidade de textos escritos por Foucault, bem como a diversidade (livros, entrevistas, debates, lectures, aulas, etc.), não permite ao seu estudioso uma fácil sistematização da sua obra – mesmo este simples termo só pode ser escrito com muita suspeita. O caminho que é comumente seguido é o da periodização dos escritos coincidindo com um tema em comum. Assim, classifica-se a obra da maneira costumeira: na década de 60, textos arqueológicos que têm por tema o saber; textos genealógicos nos anos 70, tematizando o poder; e, por fim, nos anos derradeiros de sua vida, textos arqueogenealógicos preocupados com a questão do sujeito2.

Outra forma de sistematização é levar ao pé da letra algumas colocações de Foucault, feitas em entrevistas do fim dos anos 70 e início dos 80, na tentativa de resumir o seu projeto intelectual. Segundo elas, todos os seus estudos têm como ponto de convergência uma preocupação com a verdade e, por conseguinte, com o sujeito: a desubjetivação do louco, o assujeitamento nas prisões e a constituição do sujeito na Grécia Antiga. Nesse sentido, o estudo sobre o pensamento do filósofo de Poitiers teria que entender a forma como o tema do sujeito foi por ele tratado em seus muitos e diferentes escritos, seja na relação com o saber, seja com o poder, ou ainda com a própria verdade3.

Alguns estudos, entretanto, sem romper decisivamente com alguma destas posições, oferecem alternativas interessantes e extremamente profícuas à imaginação. Dois deles editados no Brasil podem ser aqui destacados. Em primeiro lugar, o livro Foucault, a filosofia e a literatura, do filósofo Roberto Machado. Neste estudo, estabelece certas balizas temporais localizadas, essencialmente, na primeira metade da década de 1960. Em tal período, além dos famosos livros sobre a loucura, o nascimento da medicina moderna e das ciências humanas, Foucault escreveu continuamente sobre uma de suas grandes paixões: a literatura. Machado, então, discorre não simplesmente sobre a aproximação da filosofia e da literatura na obra de Foucault, mas sobre a forma filosófica de crítica literária praticada por ele4, a qual permitiu, depois de Nietzsche, Bataille e Blanchot, elaborar a noção de literatura da transgressão.

O segundo estudioso que merece destaque é o também filósofo Francisco Ortega. Neste caso, o primeiro livro de uma trilogia anunciada é referência fundamental para a compreensão das dimensões da obra de Foucault. Em Amizade e estética da existência em Foucault, Ortega parte de um importante deslocamento teórico do projeto foucaultiano ocorrido após a publicação do primeiro volume da história da sexualidade, em 1976, que levou o pensador francês a um estudo aprofundado dos clássicos gregos. A tônica do livro de Ortega está fundamentalmente centrada na idéia da amizade como prática política, como relação de si para consigo e para com o outro, segundo preceitos éticos, tema que vem ocupando parte das discussões filosóficas da atualidade, com Blanchot e Derrida, por exemplos.

O que importa salientar com estes dois trabalhos é a possibilidade de, no imenso universo foucaultiano, escapar à divisão meramente cronológica ou puramente temática da obra de Foucault. Pode-se facilmente recorrer a um estudo que permita acompanhar as transformações históricas de um pensamento, perceber suas idas e vindas, compreender suas esquivas e sua constante de interesses; um estudo que localize quebras naquela cronologia tão linear, e multiplicidade de questões, dentro daqueles temas tão consolidados. Antes de cometer certos anacronismos, expor as diferenças de posicionamentos; mais do que interpretar o pensamento segundo uma consciência determinada, em seu lento progresso intelectual, ou como um projeto único e fechado, estudar a linguagem deste pensamento encarado como uma obra fragmentária, aberta, num constante deslocamento teórico.

Roberto Machado estabelece um recorte bastante preciso dentro de balizas cronológicas usuais e procura compreender o sentido dado por Foucault à literatura; realiza um estudo que verticaliza a arqueologia do saber, encontrando, nesta preocupação com discursos da ciência, uma linguagem literária. Francisco Ortega explicita, horizontalmente, uma mutação do pensamento para, então, perceber uma dimensão muito maior de certos temas pontuais e tratados de forma um tanto indireta por Michel Foucault. Assim, é seguindo a inspiração deste duplo modo de trabalho que o presente texto é escrito.

Para tanto, os estudos de caráter historiográfico ou de teoria da história feitos por Foucault serão contemplados; estudos bastante peculiares que tratam de maneira singular temas históricos. São, de certa forma, uma apropriação da historiografia por parte de Michel Foucault: não são transformações dos métodos utilizados pelos historiadores, embora mantenham com eles um constante diálogo; são, antes de uma metodologia, posicionamentos teóricos diante da prática historiográfica, da pesquisa e escrita de histórias. Dentro daqueles recortes já estabelecidos, a pretensão é perceber suas modificações internas e, em seguida, aquelas que levaram a um novo posicionamento. Em virtude disto, serão utilizados não apenas os textos principais de cada momento, mas também aqueles ditos e escritos à parte (entrevistas ou artigos de jornais, por exemplos) os quais, ainda que um pouco marginais, elucidam pontos de difícil compreensão.



Arqueologia

Encarados como acontecimentos discursivos, os textos foucaultianos que assumem um posicionamento arqueológico possuem uma cronologia específica: de 1961, data de publicação da tese História da Loucura e onde aparece pela primeira vez o termo arqueologia (“arqueologia da alienação”), até o livro A arqueologia do saber (1969), em que o tema é tratado de forma mais intensa e um tanto explicativa. Dentro deste período, há ainda, de 1966, a obra mais conhecida de Michel Foucault, As palavras e as coisas, que tem por subtítulo Uma arqueologia das ciências humanas.

Para tentar compreender o sentido geral dado à arqueologia por Foucault, faz-se necessária uma análise fragmentária, considerando passo a passo o direcionamento desta noção em escritos convergentes mas que guardam algumas diferenças entre si. Em outras palavras, o que será realizado é uma descrição deste posicionamento teórico levando em consideração o seu deslocar no tempo, o que significa, não tanto uma evolução ou aperfeiçoamento do conceito, mas uma permanente autocrítica em busca de um lugar adequado para se pensar arqueologicamente.



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