As Grandes Cidades e a Vida do Espírito



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Encontro10.09.2017
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Em As Grandes Cidades e a Vida do Espírito Georg Simmel mostra que a vida nas cidades pequenas se difere em vários aspectos da vida nas cidades grandes. Para começar, a primeira teria um ritmo mais lento e habitual e, por isso, correria mais uniformemente, sem presenciar grandes episódios ou mudanças. Além disso, os habitantes das cidades pequenas pautariam suas relações em sentimentos, sendo mais afetuosos uns com os outros. Finalmente, a esfera de vida numa cidade pequena seria igualmente reduzida a ponto, em alguns casos, de fechar-se sobre si mesma e consigo mesma. A vida nas grandes cidades, por outro lado, seria bem mais agitada e intensa. Pontualidade, contabilidade e exatidão tornam-se atributos indispensáveis aos moradores das cidades grandes, os quais acabam por desenvolver um estilo de vida mais intelectualista. Por fim, poder-se-ia dizer que, ao contrário da reduzida e fechada esfera de vida das cidades pequenas, a vida interior nas grandes cidades é mais abrangente, chegando a extrapolar seus limites físicos e, com isso, a espalhar-se sobre um território nacional ou internacional mais amplo.

A agitação da vida nas cidades grandes causa, segundo Simmel, uma intensificação da vida nervosa dos indivíduos que nela vivem. Cada vez que saem às ruas, esses indivíduos se deparam com situações inteiramente novas. Pessoas, comércios, prédios... Tudo muda e se apresenta de maneira diferente a cada olhar. Para que essa situação não se torne insuportável, os habitantes das grandes cidades desenvolvem estratégias de proteção a esse excesso de estímulos mentais. A saída consiste em manter uma certa indiferença frente a todas essas novidades e agitação. Daí o caráter blasé inerente aos que moram nas metrópoles. As relações que travam entre si são fortemente marcadas por um tom de reserva. É comum que, numa grande cidade, duas pessoas sejam vizinhas durante anos e sequer se conheçam. Por isso o morador da cidade pequena, acostumado com contatos mais intensos e calorosos, tende a achar o habitante da metrópole frio e sem ânimo.

Assim, embora os moradores das cidades grandes estejam sempre próximos fisicamente, uma enorme distância espiritual os separa. É o caso da multidão, situação em que, de acordo com Simmel, o indivíduo sente-se profundamente abandonado e só. Essa relação entre proximidade e distância, presente em todas as relações humanas segundo o pensamento simmeliano, é também abordada pelo autor em suas discussões sobre uma forma sociológica bastante particular: o estrangeiro. Este é uma pessoa fundamentalmente móvel que, durante sua passagem por um grupo, entra em contato com todos os membros do mesmo, mas não chega a se ligar a nenhum deles por qualquer tipo de laço. Nesse sentido, o estrangeiro está, ao mesmo tempo, próximo e distante dos indivíduos com os quais se relaciona. Daí decorre o fato do estrangeiro reunir tanto características que o inserem quanto atributos que o retiram e o confrontam a determinados grupos.

A economia monetária e a divisão social do trabalho são outros traços típicos das grandes cidades. O dinheiro, atrelado à economia monetária, despersonaliza todos os bens produzidos na medida em que os reduz ao seu valor de troca. Se nas relações econômicas primitivas produzia-se para um freguês que encomendava o produto, nas cidades grandes, onde vigora a economia monetária, produz-se para o mercado, ou seja, para um cliente desconhecido, desprovido de rosto ou personalidade. A divisão social do trabalho também está relacionada a esse processo de despersonalização. A série de especializações por ela desencadeada impede que os indivíduos expressem suas personalidades nas atividades que desempenham nas cidades grandes. Por isso, há cada vez mais objetividade no tratamento tanto das coisas quanto dos homens. A redução dos valores qualitativos a valores quantitativos, marcante em contextos de economia monetária e divisão social do trabalho, acentua ainda mais a já mencionada indiferença do indivíduo frente a tudo que o cerca.

É preciso ressaltar que Simmel não faz uma análise pessimista e carregada de juízos de valor da antipatia e da postura blasé dos habitantes das grandes cidades. É como se o autor tomasse essas características como condições para a realização da vida nesses ambientes. Para que viva numa metrópole, o indivíduo deve ser socializado segundo esses preceitos de indiferença e, por conseguinte, sustentar uma certa reserva em suas relações com os outros. Finalmente, outra idéia que merece destaque é a de que a cultura moderna caracteriza-se pela preponderância daquilo que se pode chamar de espírito objetivo sobre o espírito subjetivo. A objetividade, pontualidade e contabilidade, indispensáveis à vida nas cidades grandes, provam que o indivíduo perdeu significância diante de uma forte e complexa organização extra-individual. No entanto, ninguém assiste a tudo isso passivamente. Pelo contrário: o indivíduo revela-se ativo na medida em que tenta preservar a peculiaridade de sua existência frente às superioridades da sociedade, da herança histórica, da cultura exterior e da técnica da vida. Esse movimento de resistência por parte do indivíduo mostra que ele não é apenas moldado pela sociedade, mas também a molda.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MORAIS FO, Evaristo (org.) Simmel. São Paulo, Ática, 1983.



SIMMEL, Georg. As grandes cidades e a vida do espírito. Rio de Janeiro: Mana – estudos de antropologia social, vol. 11, nº 2, pp. 577-591, outubro de 2005 [1903].





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