As famílias de Elcana e Eli



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Encontro26.05.2017
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As famílias de Elcana e Eli

1 Samuel 1-4


O nosso texto-base, que corresponde aos quatro primeiros capítulos do primeiro livro de Samuel, fala a respeito de dois líderes espirituais, Eli e Samuel, e a cena se passa no principal santuário israelita do período dos juízes, Shiloh, que foi destruído pelos filisteus no ano 1050 AC.

Elcana e Ana, os pais de Samuel, eram um casal temente a Deus, que ia regularmente ao culto em Shiloh. Nesse local ficava o santuário de Israel, estabelecido por Josué, e destruído pelos filisteus pouco antes do reinado de Davi, que então determinou a construção do Templo na cidade de Jerusalém, que ele conquistou e que não pertencia a nenhuma tribo (dai o nome de Cidade de Davi). Mas Ana não era feliz, não apenas por ser estéril, o que para uma esposa daquele tempo era uma desgraça, mas também pelo comportamento da outra esposa de Elcana, chamada Penina, que tinha ciúmes da evidente preferência de Elcana por Ana, e tirava vantagem do fato de ela mesma não ser estéril. Como sabemos, a poligamia era tolerada naquela época (Deut. 21:15-17), mas nem por isso deixava de causar problemas às famílias.

Aqui é interessante observar que Sara era estéril até Isaac nascer, bem como Rebeca, até os gêmeos Esaú e Jacó nascerem. Isabel também era estéril, até João Batista nascer. Todas tiveram a mesma atitude ante sua esterilidade: procuraram a Deus. Assim ficou claro para essas mães que Isaac, Jacó, Samuel e João Batista eram os frutos de muitos anos de oração, e todos foram criados, embora, é claro, de maneiras muito diferentes, para algum serviço especial a Deus. Parece que Deus cuidou para que a influência de uma mãe não fosse entrave para a carreira de seu filho. Só como uma especulação, pode ser que intuitivamente uma mãe antecipe que uma vida dedicada ao trabalho de Deus pode ser muito sofrida, e poderia procurar poupar seu filho desse sofrimento. Mesmo com o Senhor isso pode ter acontecido (cf. Mc 3:31 a 34).

De qualquer forma, Ana procurou o Senhor intensamente, tão intensamente que Eli, o sacerdote do santuário de Shiloh, achou que ela estava bêbada. Mas a intervenção de Eli foi ao final benéfica, pois diminuiu a ansiedade de Ana, deu-lhe segurança de que o Senhor ouviria suas orações e logo em seguida ela engravidou, dando a luz a Samuel. A síntese desse nascimento miraculoso pode ser resumida nas frases dos vv.20 e 28, “eu pedi ao Senhor... eu dedico ao Senhor”. Samuel foi dedicado a Deus conforme o voto de nazireu, que é descrito em Números 6. Provavelmente ele teria um bom lar para viver, com alguma harmonia, apesar da bigamia de Elcana. Os vv.21-23 mostram isso. Mas o voto de nazireu culminou com Ana levando o menino para ser criado no santuário em Shiloh.

Tudo indica que a religiosidade do casal era sadia. Um estudioso da matéria, ALLPORT, citado por Francisco Lotufo Neto em sua tese de livre-docência apresentada ao Depto. de Psiquiatria da FMUSP, diz que a religião saudável leva primeiro a um sentimento de absoluta dependência, como Ana demonstrou, e também à consciência do mistério, do intangível, possibilitando lidar com o imponderável; leva a segurança de pertencer ao grupo de Deus, ao medo sadio, que é o temor do Senhor, bem como ao amor e a maravilhar-se com as coisas de Deus; produz alegria, e leva a uma busca por significado, sendo que tudo isso, de acordo com FROMM leva a auto-realização.

Parte dessas características parece que eram compartilhadas por Eli. ALLPORT, conforme citado por Lotufo, classifica a religiosidade como intrínseca ou extrínseca. Ela é intrínseca quando atribui significado a vida de uma pessoa, ou seja, a pessoa vive pautada por sua crença religiosa, e Eli vivia assim, e é extrínseca quando a religião é apenas um meio para se atingir determinado fim, ou seja, a pessoa usa religião para atingir seus objetivos não religiosos.

Elcana e Ana viviam uma religião intrínsica, pois a Bíblia mostra que a vida deles era compreendida , tinha o seu significado através da religião. É interessante ressaltar alguns estudos contemporâneos, citados por Lotufo, que observam que casais com vida religiosa relatam um maior nível de felicidade quando comparados com não religiosos (TAVRIS), e que a freqüência a serviços religiosos é o fator que melhor prediz a estabilidade conjugal (GLENN). Isso vale da mesma forma para Eli, pois nada mostra que ele não vivenciava sua religião. Mas o mesmo não pode ser dito de seus filhos, Hofni e Finéias.

A religiosidade deles era extrínseca. Eles não davam a mínima importância à religião, a não ser para tirar vantagem individual, para saciar seus apetites pessoais. Eles viviam uma religião do conforto e da convenção social.

Só para fixarmos o conceito, basta lembrar que a pessoa motivada pela religião extrínseca usa sua religião, enquanto que a que é motivada intrinsecamente, a vive. Elcana, Ana e Eli eram motivados por uma religião intrínseca, e Hofni e Finéias por uma extrínseca.

Como então um pai, como Eli, com a religiosidade correta, que foi um bom sacerdote, além de ter sido um bom tutor para Samuel, pode ter dois filhos tão descompromissados com a ética e a religião?

Eli desenvolvia um ritual religioso adequado, dirigindo o serviço e a prática do culto em Shiloh; ele desenvolvia uma vivência religiosa boa, tinha uma ideologia correta, pois era sacerdote do Deus verdadeiro; ele tinha conhecimento intelectual adequado, pois era letrado e conhecia as doutrinas e os textos sagrados, mas os efeitos de tudo isso na sua família foram insatisfatórios. Talvez por ver muito sofrimento, pode ser que ele tenha atuado como um pai condescendente, contrariando a máxima que é melhor ser mais duro e orientar bem a criança, e deixar para lidar com as frustrações depois, do que não frustrá-la em um primeiro momento e tentar corrigir os eventuais desvios mais tarde. Pode ser também que os encargos do sacerdócio, a demanda por sua atenção da parte de terceiros, e as obrigações administrativas decorrentes desse sacerdócio tenham tomado seu tempo e prejudicado a educação de seus filhos. De qualquer forma, o verso 2:29 deixa claro que a falha de Eli foi a omissão. Já dizia o padre Antônio Vieira que “a omissão é o pecado que se faz não fazendo”.

Mesmo hoje nos vemos o quanto é difícil a vida familiar em confronto com a atividade pastoral. “Existe na língua inglesa uma expressão “miss kids”, significando tanto ‘filhos de missionário” como “crianças perdidas”.



Frente a essa situação, aonde a ação humana não parecia possível, o Senhor agiu. Essa ação atingiu aos filhos de Eli, a Eli e a toda família, que perdeu o sacerdócio. A afirmação do v. 2:35, “levantarei para mim um sacerdote fiel, que agirá de acordo com meu coração e com o meu pensamento”, só atingiu seu cumprimento pleno em Jesus, que de maneira completamente diferente da dos filhos de Eli, sacrificou-se pelo povo.

Se olharmos a frente veremos que a ação de Deus não foi mera retribuição. Foi misericórdia para com o povo. Foi para melhorar o sacerdócio, que estava corrompido pelo pecado, o que, em última análise, como vimos, só foi possível de resolver-se em Jesus. Na seqüência, o santuário em Shiloh foi destruído, para mais adiante Davi deixar as condições para Salomão edificar o Templo em Jerusalém, que na “plenitude dos tempos”, foi finalmente eliminado, por não ser necessário, pela atuação do Senhor Jesus Cristo.



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