As estratégias coletivas dos/as agricultores/as familiares para acessar o mercado: estudo das cooperativas de leite do Sul de Santa Catarina – Brasil



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As estratégias coletivas dos/as agricultores/as familiares para acessar o mercado: estudo das cooperativas de leite do Sul de Santa Catarina – Brasil
Dimas de Oliveira Estevam – Brasil – Unesc

Fernanda Lidório Maria– Brasil – Unesc

Giovana Ilka Jacinto Salvaro– Brasil – Unesc
GT-05 Desarrollo rural, globalización y acción colectiva
Resumo

Com base em pesquisa em andamento no Sul de Santa Catarina, Brasil, o objetivo deste artigo é estudar as mudanças em curso na produção de leite na região Sul catarinense, destacando as estratégias coletivas dos agricultores familiares em pequenas cooperativas para aceder ao mercado. O mercado de leite está organizado em um modelo baseado na adoção de tecnologias, crescente produtividade, escala de produção e o uso de insumos externos a propriedade. Este modelo tem gerado problemas ambientais, sociais e econômicos, além da perda de autonomia e fragilização econômica de grande parte dos agricultores familiares. No que compreende o caminho metodológico, a pesquisa foi descritiva, documental e de campo. Os resultados apontam para melhorias nas negociações do preço do leite junto às agroindústrias, redução de custos e um processo de grande aprendizado coletivo.


Palavras-chave: cooperativismo; produção de leite; mercado.
1. Introdução
A produção de leite, no Brasil, vem crescendo acentuadamente desde a década de 1990. Durante este período, o país passou, em 2004, de importador a exportador do produto. Alterando, desta maneira, sua posição no mercado internacional, ainda que de forma instável e oscilante (Escher, 2011). Cabe observar que este crescimento substancial da produção leiteira ocorreu em regiões de predominância da agricultura familiar, tais como o Sudoeste e Oeste do Paraná, o Oeste de Santa Catarina e o Noroeste do Rio Grande do Sul, que juntos produzem 1/5 do leite brasileiro (Escher, 2013).

Esta mesorregião sulista ocupa o segundo lugar na produção nacional de leite, sendo maior do que toda a produção Uruguaia, perdendo apenas para o estado de Minas Gerais – principal produtor brasileiro. Além desta importância quantitativa da Região, o leite abrange quase a totalidade dos estabelecimentos da agricultura familiar deste vasto território, sendo uma atividade essencial na reprodução socioeconômica destas famílias (Sales Magalhães, 2014). De atividade predominantemente de subsistência, a produção leiteira, neste período, no Sul do Brasil, transformou-se em uma das principais atividades econômicas. Entretanto, reorientada para o mercado interno, com intensa transformação tecnológica e incorporação crescente de insumos externos, configurando um processo acelerado de mercantilização.

Estas mudanças tecnológicas têm demandado grandes desafios aos pequenos produtores de leite, sobretudo, no Estado de Santa Catarina, caracterizado pela agricultura familiar, que tem na produção leiteira uma de suas principais atividades. Ressalta-se que Santa Catarina já é o quinto produtor nacional, com a maior taxa de crescimento da última década, envolvendo a média de 8,2% ao ano. A região Oeste catarinense se destaca como a principal produtora e o Sul do estado, segunda em produção, com a maior média de crescimento da última década (11,2% ao ano) (Heiden, 2015).

Assim, como acontece no Oeste catarinense, na região Sul, para enfrentar os atuais desafios, os produtores de leite estão se organizando em pequenas cooperativas e associações. Estas estratégias de organização coletiva visam manter e ampliar o espaço em um mercado extremamente competitivo e internacionalizado. As mudanças incluem a adoção de novas tecnologias produtivas, organizacionais e institucionais para atender exigências de escala e qualidade cada vez mais restritivas.

Cabe ressaltar que as cooperativas de leite começaram a ser constituídas no Sul Catarinense a partir de 2005. Atualmente, em atividade, existem seis cooperativas e duas associações de produtores, totalizando 348 associados, produzindo e comercializando mensalmente em torno um milhão e meio litros de leite nas regiões da Amrec (Associação dos Municípios da Região Carbonífera) e Amesc (Associação dos Municípios da Região Sul Catarinense) (Representante da Epagri).

De modo geral, estas cooperativas representam um mecanismo para viabilizar a inserção mais equilibrada dos agricultores familiares ao mercado, na medida em que permitem melhorar as condições socioeconômicas e de competitividade junto às agroindústrias, facilitam a compra de insumos e, sobretudo, as condições de negociação da comercialização. Os associados são responsáveis pela produção e participam de todo processo da tomada de decisão na etapa de comercialização. As negociações coletivas de preços e padrões de qualidade estão sendo praticadas na região, demonstrando um indicativo do crescente empoderamento destas organizações (Mior, Ferrari, Marcondes & Reiter, 2014).

Contudo, segundo os autores supracitados, num primeiro momento poder-se-ia supor que estas cooperativas seriam apenas um tipo particular do modelo de cooperativismo tradicional ligado à cadeia de commodities. No entanto, uma diferença fundamental está na praticamente inexistência de patrimônio imobilizado em infraestrutura de processamento e armazenagem de leite. O único patrimônio constituído é o que viabiliza o transporte em algumas cooperativas. Não obstante os avanços observados, esta dinâmica protagonizada pelos produtores de leite, suas organizações e instituições de apoio, ainda, representa um processo de aprendizagem organizacional.

Com base em dados de uma pesquisa em andamento (PIBIC/UNESC/CNPq 2014 - 2015), o objetivo deste artigo é estudar as mudanças em curso na produção de leite na região sul de Santa Catarina, destacando a organização de agricultores em pequenas cooperativas e associações de produtores para aceder ao mercado.

No que compreende o caminho metodológico, a pesquisa é descritiva, documental e de campo. A pesquisa documental foi realizada em registros institucionais disponibilizados pelas cooperativas estudadas, pela Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina) Regional de Criciúma/SC, IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura). Na pesquisa de campo, foram realizadas entrevistas com cooperados, representante de cooperativa e representante da Epagri. Em uma abordagem analítica qualitativa, busca-se a apresentar as principais mudanças processadas em vista da constituição das cooperativas, assim como os desafios colocados à consolidação destas experiências frente às mudanças constantes no setor produtivo de leite.

Além desta parte introdutória, o artigo apresenta brevemente a trajetória de desenvolvimento recente do setor lácteo no Brasil, a inserção de pequenas cooperativas de leite em Santa Catarina e o desenvolvimento de pequenas cooperativas de leite no sul catarinense.


2. A trajetória de desenvolvimento recente do setor lácteo no Brasil
O leite, segundo a FAO (2015), é um dos alimentos mais consumidos no mundo. Calcula-se que mais de seis bilhões de pessoas consomem leite e seus derivados, sendo que a grande maioria vive nos países em desenvolvimento. O consumo per capita de leite tem aumentado significativamente desde a década de 1960. Com isso, a produção mundial cresceu mais de 60%, passou de 482 milhões de toneladas, em 1982, para 754 milhões de toneladas em 2012 (FAO, 2015).

Em 2013, a Índia era o maior produtor mundial de leite, com 18%, seguido pelos Estados Unidos (12%), China e Brasil com 5% respectivamente. Os países com maiores excedentes são a Nova Zelândia, EUA, Alemanha, França, Austrália e Irlanda.Com os maiores déficits são a China, Itália, Rússia, México, Argélia e Indonésia. Apesar disso, os países com maior consumo per capita são os desenvolvidos. Embora, os países em desenvolvimento tenham elevado o consumo devido ao aumento da renda, crescimento da população, e mudanças nas dietas, destacam-se países populosos como a China, Indonésia e Vietnã (FAO, 2015).



Em relação ao Brasil, o país ocupava a sexta posição mundial em produção, em 2008, com 28,9 bilhões de litros e, em 2013, passou a produzir 34,3 bilhões de litros anuais, passando para a quarta posição (IBGE, 2015). A previsão para o ano de 2015 é que o país produza 37,2 bilhões de litros (Epagri-Cepa, 2015). Como se observa, o Brasil vem gradativamente aumentando sua participação na produção mundial, como uma média anual de crescimento de 4,4% nos últimos dez anos. Ainda que, a produção brasileira seja destinada, quase em sua totalidade, ao consumo interno em expansão de 2,6% ao ano.
Tabela 1: Produção de leite no Brasil e principais estados produtores - 2013


Abrangência


Produção de 2013





(bilhões de litros)

Partic. %

Crescimento médio em 10 anos

Brasil

34,255

100

4,4

Minas Gerais

9,309

27,2

3,9

Rio Grande do Sul

4,508

13,2

6,9

Paraná

4,347

12,7

7,3

Goiás

3,776

11,0

4,1

Santa Catarina

2,918

8,5

8,2

São Paulo

1,675

4,9

-0,6

Bahia

1,162

3,4

3,9

Fonte: IBGE (2015).
A produção de leite no país, conforme a tabela 1 acima, concentra-se em sete estados da federação, que juntos produzem mais de 80% do leite. A Região Sul responde por quase 35% da produção. Santa Catarina é o quinto maior produtor nacional e representa 8,5% da produção, com a maior taxa de crescimento, na última década, de 8,2% ao ano. Os estados com os maiores déficit são Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia (Epagri-Cepa, 2015).

Cabe ressaltar a divisão da cadeia produtiva do leite em relação aos subprodutos. No Brasil, o leite fluído representa a maior parcela em termos de valor comercializado, mais de 50% dos produtos lácteos. É neste segmento que se centra a concorrência, principalmente, na busca por matéria-prima em grande escala e a baixo custo. Portanto, o mercado do leite fluído é caracterizado por forte concorrência, tanto no acesso à matéria-prima quanto na oferta do produto no mercado consumidor. Nas duas pontas da cadeia, o setor se mostra extremamente concorrido, apesar da crescente concentração deste mercado (Schubert & Niederle, 2011).

Em termos mundiais, segundo os autores supracitados, apesar da importância do setor privado, as cooperativas são as principais responsáveis no sistema agroindustrial do leite, ocupando grande parcela do mercado. Nos EUA e Holanda, a fatia de mercado ocupada pelas cooperativas chega a 83%, na Austrália, 80%, em países como Nova Zelândia, Dinamarca, Irlanda, Finlândia e Suécia, representam mais de 95% da produção. No Brasil, a participação das cooperativas é de 40%, que a partir da década de 1990, enfrentam dificuldades de competir em face da globalização e liberalização do mercado. Neste período, houve a expansão das multinacionais, desafiando as cooperativas brasileiras a se readequarem a um novo contexto competitivo, para o qual a maioria não estava preparada devido ao fechamento do mercado interno na década de 1980, com garantia de mercado ao produto nacional.

Na atualidade, o cooperativismo procura reverter a situação, montando diferentes arranjos institucionais e organizacionais. Como apresenta Chaddad (2007), na esfera internacional, as ações envolvem alianças com empresas de capital aberto, com o objetivo de expandir para outros países. Estas transformações incluem avanços tecnológicos, criação de formas de governança corporativa por meio da separação entre a propriedade e a gestão, profissionalização da gestão, centralização da estrutura produtiva com diminuição de custos de transporte e armazenamento, entre outras ações.

Estes são os desafios postos no cenário nacional e internacional para o mercado de leite, afeta tanto as grandes cooperativas, como toda a cadeia produtiva de leite. Diante deste contexto, cabe indagar como fica a viabilidade socioeconômica das cooperativas de leite de pequeno porte, sobretudo, as organizadas em pequeno número de produtores. A produção de leite em pequenas propriedades teria características socioeconômicas capazes de potencializar a construção de determinados caminhos alternativos. No próximo tópico, busca-se refletir sobre estas condicionantes e seus efeitos sobre a capacidade deste segmento se manter em um mercado cada vez mais especializado e competitivo.
3. A inserção das pequenas cooperativas de leite em Santa Catarina
Sobre os rumos da produção de leite no Brasil, para Schubert e Niederle (2011), aos que defendem seguir o caminho percorrido por outros países tradicionais, o país deveria ter um segmento de produtores altamente especializados, tecnificados e competitivos na produção. Contudo, os problemas advindos desta estratégia poderiam acarretar consequências imprevisíveis para reprodução socioeconômica desta categoria de agricultores, além de omitir a heterogeneidade da agricultura familiar no Brasil.

Se por um lado, ocorre a defesa de um modelo intensivo e exógeno, com a utilização acentuada de insumos industriais, visando o aumento da produtividade e escala de produção; por outro, conforme destaca Schneider e Niederle (2010), a aposta seria na produção de leite como uma alternativa de redução de custos monetários, acompanhada utilização de insumos reproduzidos na própria Unidade Familiar de Produção (UFP).

Todavia, segundo Sales Magalhães (2007), a grande maioria das análises do mercado de leite enfatiza, prioritariamente, o modelo tradicional, com o foco no processo de concentração da indústria, nas mudanças do padrão de produção e no comportamento do mercado consumidor. Destaca-se que a difusão de novas tecnologias possibilitou o aumento do consumo de leite, tornou possível a conservação do produto por períodos mais longos e facilitou o transporte a longa distâncias, transformando o produto em commodity. A partir disso, a dinâmica setorial passou a ser configurada exogenamente, pelas matrizes estrangeiras ou pelos demandantes do produto.

Dentro desta perspectiva de análise, coloca-se ênfase na importância dos fatores exógenos e das tendências macro que estariam sobre dimensionados, mas ao mesmo tempo sub dimensionadas às estratégias endógenas, principalmente, as relações entre as agroindustriais, os produtores e as organizações da agricultura familiar. Estes fatores endógenos têm contribuído para a produção de situações particulares e para a atribuição de certas características locais aos mercados de leite, determinadas por instituições próprias de cada região (Escher, 2014).

Neste sentido, segundo Waquil e Souza (2008), estes fatores endógenos contribuem para a viabilidade socioeconômica da cadeia produtiva do leite na agricultura familiar. Tendo características próprias, como a possibilidade reduzir riscos, por meio da diversificação, aumentar a produtividade da força de trabalho familiar, buscar novos nichos de mercado com maior valor agregado, reduzir custo de gestão, bem como o custo operacional do trabalho familiar, evitando desperdício e, finalmente, ampliar a qualidade do produto obtido sob os cuidados dos próprios interessados.

Deste modo, a diversificação da UFP garante ao agricultor mais estabilidade do ponto de vista social e econômico, além de possibilitar a oferta de alimentos produzidos e consumidos pela própria família. A diversidade de atividades e a combinação de diferentes formas dentro do estabelecimento familiar se traduzem em uma das características mais importantes para a viabilização da agricultura familiar. Além do mais, a não remuneração da força de trabalho empregada na propriedade, em virtude da autoexploração do trabalho familiar, diminui sensivelmente o custo de produção e possibilita uma ocupação eficiente do tempo ao longo do ano, na distribuição das tarefas (Ferrari, 2003).

Esta série de combinação de fatores, mencionada acima, traduz-se no baixo custo de produção do leite na agricultura familiar e, é uma das principais características que propiciam competitividade ao segmento. Aliado a formas de organizações coletivas, tem permitido a esta categoria de agricultores fazer frente aos grandes produtores especializados, os quais investem massiçamente na produção de leite com elevados custos de produção e igualmente são obrigados a comercializar o produto segundo as condições impostas pelo mercado (Schubert & Niederle, 2011).

O cooperativismo de pequeno porte, neste contexto, surge em várias regiões de Santa Catarina e em outros estados, como resposta às pressões do mercado. Segundo os autores acima, em Santa Catarina, nos últimos anos, estas organizações estão sendo criadas como alternativas coletivas frente ao novo padrão de concorrência no mercado lácteo. A criação de associações e cooperativas surge como uma alternativa ao modelo dominante na produção de leite.



4. O desenvolvimento das pequenas cooperativas de leite na região Sul catarinense
As cooperativas de leite da Região Sul de Santa Catarina começaram a ser constituídas a partir de 2005, embora o processo de mobilização tenha sido iniciado bem antes. Contudo, de acordo com informações da Epagri, formalmente, em atividade na Região, existem seis cooperativas e duas associações de produtores.

De modo geral, estas organizações representam um mecanismo para viabilizar a inserção mais justa dos agricultores familiares ao mercado (Wilkinson, 2008). Ao possibilitarem a melhoria das condições de negociações junto às agroindústrias. Por conseguinte, facilitam a compra de insumos e matéria-prima e a comercialização, o compartilhamento de estruturas, logística e/ou conhecimento, entre outras funções (Mior, Ferrari, Marcondes & Reiter, 2014).

Segundo os autores, estas cooperativas buscam a melhoria da qualidade da produção e, sobretudo, das condições de negociação no momento da comercialização. Entre as características destas organizações coletivas, pode-se destacar que o produto leite, ainda, constitui-se em uma matéria prima e não apresenta sinais claros de distinção no mercado como alimento de qualidade diferenciada. As cooperativas não processam o leite, pois não constituíram estruturas de processamento e agroindustrialização e nem terceirizaram este serviço. A organização da comercialização se dá coletivamente realizada pela associação ou cooperativa diretamente com agentes que processam o leite, sobretudo pequenos laticínios predominantes na região.

Cabe ressaltar que, em grande medida, o ingresso de muitos agricultores na atividade leiteira na Região foi devido à exclusão de outras atividades agropecuárias, como a produção de carnes, fumo e arroz, produtos que exigem especialização e investimento. Conforme Schubert e Niederle (2011), na produção de leite, tem-se a possibilidade de produzir a baixo custo, por meio da alimentação a base de pastagens naturais e/ou melhoradas, crescentemente difundidas entre as UFPs.

Além das dificuldades enfrentadas em outras atividades produtivas, segundo representante da Epagri, o impulsionamento da produção leiteira na Região Sul Catarinense foi resultado de um longo trabalho em parceria, a partir do início dos anos de 2000:
(...) a gente fez um grupo de pecuária, na época envolvia técnicos de todos os setores, das cooperativas, das prefeituras, da Epagri e do setor privado. A gente se reunia durante o ano várias vezes para se capacitar e para planejar as ações (...) foi isso que impulsionou, (...) porque nós não tínhamos quase nada de pastagem de inverno, nós implantamos o PRV [Pastoreio Racional Voisin] e aí se tinha pastagem em todas as estações do ano e a coisa foi crescendo (...).
Com o melhoramento do rebanho e a garantia do fluxo anual de pastagens para os animais, o leite “(...) passou de uma atividade marginal, para uma atividade principal na propriedade, os produtores se profissionalizaram (...)”. As mudanças foram possíveis, inicialmente, por não exigirem grandes investimentos nas propriedades, contudo:

(...) os sistemas de pastagens, assim como o piqueteamentos, o investimento (...) não era tão grande, mas houve o aporte do Microbacias 2, que financiava os produtores (...) os Pronafs e, agora, o SC Rural com recursos para investimentos é que está dando a grande diferença (...) com o programa Pró-leite, (...) aí nós conseguimos realmente colocar as instalações, botar resfriadores, (...). Também, um dos principais motivos foi baixar custos, porque aí aumenta a produção e diminui custos (...). (Representante da Epagri).


A implantação do PRV proporcionou duplo benefício para os produtores de leite da Região: por um lado, possibilitou a autonomia do produtor, ao diminuir a utilização de insumos externos a propriedade, consequentemente, reduziu os custos de produção; por outro, houve a diminuição e a penosidade do trabalho na propriedade. Segundo representante da Epagri, se antes o produtor tinha que “(...) cortar o trato e levar ao coxo, agora é tudo no pasto (...)”. O que contribui substancialmente para a diminuição do trabalho dos produtores.

A tecnologia do PRV foi assim introduzida na região:

(...) através da UFSC [Universidade Federal de Santa Catarina] a gente descobriu que (...) tinha um piqueteamento clássico que sempre tava necessitando de insumo e investimento e aí descobre um sistema que é autossustentável e cada vez melhora mais. (...) um produtor disse isso: "Se tivesse vindo uns 10 anos atrás, minha vida tinha sido outra". Porque realmente diminuiu muito o trabalho e aumenta o rendimento das pastagens. (Representante da Epagri).
Com estas transformações na produção leiteira na região, iniciou-se a organização coletiva dos produtores, por meio da criação de cooperativas e associações. A partir destas organizações, houve a necessidade de uma articulação regional, para organizar a comercialização do leite em conjunto, isso resultou na criação do Fórum:

Olha, a história eu nem lembro bem, porque a gente começou uma cooperativa com outra, trocando informações e ideias, se aproximando (...) eu acho que, com esse intercâmbio que começou a surgir (...): vamos nós, cooperativas, sentar para conversar de forma mais permanente. (Representante da Cooperativa).


Por fim, cabe destacar que estas relações são complexas e envolvem muita participação e discussão, cujos resultados são a aprendizagem coletiva, que se concretiza tanto no processo produtivo, como em novas formas de organização, gerando a capacidade de compreensão de como atuam e agem os mecanismos do mercado. Embora, a criação dessas cooperativas e do Fórum sejam resultados de conexões e alianças, também geram suas próprias contradições, por alterarem as “regras do jogo”, os esquemas culturais, sociais, econômicos e políticos. Por isso, são ambientes que oportunizam aprendizados e é nesse contexto em que emerge o Fórum, mas sua consolidação, além do tempo, vai depender de um ambiente socioeconômico e institucional favorável para se estabelecer e criar raízes.
Considerações finais
A produção do leite na região sul se mostra promissora, principalmente, por sua capacidade de adaptabilidade a novos desafios, fato ajuda a desconstruir o discurso fatalista dos anos noventa acerca da exclusão da agricultura familiar da produção leiteira. Ao contrário das previsões, os agricultores familiares vêm se firmando neste segmento e se adequando às exigências, investindo em tecnologias e se organizando em cooperativas e associações. O caso do Fórum do leite é emblemático e de grande importância, ao congregar diversas organizações em rede na Região. Trata-se de um processo de construção de legitimidade social, possibilitando horizontes de oportunidade para processos de mudanças ao construir conhecimentos, competências, habilidades e estratégias coletivamente articuladas entre os diversos atores e instituições.

Desta forma, constata-se que esses produtores estão reagindo de forma criativa para enfrentar a perda de autonomia e a fragilização econômica. Não obstante os avanços observados, verifica-se um processo de aprendizagem organizacional em um contexto caracterizado por mudanças significativas e por oportunidades de se inserção competitiva. A despeito da importância destas prósperas organizações coletivas e do Fórum na deflagração de um desenvolvimento da região, as mesmas permanecem quase “invisíveis” e, por isso, carecem de maior apoio e reconhecimento social para que possam se estabelecer e ter longevidade. Contudo, traços mais nítidos destas dinâmicas poderão ser mais bem qualificados com o acompanhamento destas experiências, o que será oportunizado no decorrer da conclusão desta pesquisa.



Referências
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