As contribuiçÕes de antônio lobo e domingos perdigão em relaçÃO Às práticas leitoras infantis do maranhão no início do século XX



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AS CONTRIBUIÇÕES DE ANTÔNIO LOBO E DOMINGOS PERDIGÃO EM RELAÇÃO ÀS PRÁTICAS LEITORAS INFANTIS DO MARANHÃO NO INÍCIO DO SÉCULO XX
Almicéia Larissa Diniz Borges (UFMA-NEDHEL)

mirandaloto@gmail.com

Luciana Nathalia Morais Furtado (UFMA-NEDHEL)

Lucianafurtado10@gmail.com

Palavras-chave: Maranhão. Leitura Infantil. Intelectuais.
1 INTRODUÇÃO
Tratar de uma educação que ainda estava atrelada aos princípios do passado e a uma mentalidade ainda parada, não seria fácil. A passagem do século XIX para o século XX foi mais uma mudança de nomenclatura, pois uma população que mal sabia o que estava ocorrendo, não tinha como aceitar esse novo contexto político. Para eles, a mudança de nome não representava nada além de uma nova nomenclatura, e como desconhecida, não podia influir na sua condição social.

Visando mudanças que pudessem melhorar a instrução pública maranhense, Antonio Lobo e Domingos Perdigão tentaram melhorar uma das instituições mais importantes para o saber: a Biblioteca Pública do Estado do Maranhão. Além desse fator, contribuíram incisivamente na formação da instrução de crianças. O primeiro, enquanto inspetor de instrução, colaborou na criação de salas femininas e infantis, e ampliou o acervo com obras voltadas para esse público. O segundo também incitou melhorias nessa mesma biblioteca, e ainda criou uma na sua cidade natal (Pinheiro). Além disso, lançou um livro que “revolucionou” o modo de lidar com a leitura na província, o qual possibilitou o conhecimento do acervo da biblioteca e o nível de leitura.

Essas e outras medidas adotadas por esses intelectuais serão abordadas neste artigo, assim como poderemos entender como estava estruturada a biblioteca mais importante da capital e como estava organizada a instrução pública da mesma.

Este trabalho terá por base dois momentos significativos: o primeiro é a pesquisa bibliográfica referente à biografia de Antonio Lobo e Domingos Perdigão; e o segundo é uma pesquisa documental sobre os atos e efeitos de ambos. A pesquisa documental, baseada em relatórios escritos por ambos, pode parecer pouca, mas são nelas que são encontradas informações importantes sobre o contexto no qual estava inserida essa biblioteca. Através dessas informações, será possível entender como o povo se relacionava com ela, tendo como base a lista de frequência, e principalmente as mudanças que ambos queriam proporcionar à instituição, devido ao seu valor para a sociedade e para a instrução pública.


2 ANTONIO LOBO (1870-1916)

Antônio Francisco Leal Lobo nasceu em São Luís, no dia 4 de julho de 1870. Professor, jornalista e escritor, destacou-se principalmente nesta última profissão, reunindo trabalhos como ensaísta, poeta, romancista e tradutor. Exerceu cargos como funcionário público, Oficial de Gabinete do Governo do Estado, da Biblioteca Pública Benedito Leite, do Liceu Maranhense e da Instrução Pública. Com um grupo de intelectuais, como Fran Paxeco, Ribeiro do Amaral, Barbosa de Godóis, Corrêa de Araújo, Astolfo Marques, Godofredo Viana, Clodoaldo de Freitas, Inácio Xavier de Carvalho, Domingos Barbosa, Alfredo de Assis e Armando Vieira da Silva, fundou, na noite de 10 de agosto de 1908, a Academia Maranhense de Letras, uma extensão da Oficina dos Novos e Renascença Literária (movimento cultural dissidente, encabeçado por Nascimento Moraes).

Nesse sentido, a oficina dos novos, fundada em 28 de julho de 1900, tinha uma estrutura similar à das academias de Letras, embora seus membros se denominassem Operários e fosse formada inicialmente por vinte cadeiras. Mais tarde, a oficina expandiu em número de sócios. Gaspar (2009, p.153) afirma que “a Oficina e a Academia sempre foram instituições distintas, embora perseguindo idêntico objetivo”. Tempos depois, a Oficina deixou de existir com alguns membros na formada Academia Maranhense de Letras.

As publicações desse intelectual contribuíram para a literatura maranhense, visto que, em Os Novos Atenienses, de 1909, podemos perceber o interesse do autor em recompor a história literária maranhense, na medida em que prenunciam os novos atenienses fazendo referência aos velhos atenienses, grupo do qual fizeram parte a “figura mítica de Atenas Brasileira” (GASPAR, 2009, p. 141). Há outras obras como a Carteira de um Neurastênico, romance publicado inicialmente sob a forma de folhetim, na Revista do Norte, em São Luís, sob o pseudônimo de Jayme Avelar, no ano de 1903; e a Biblioteca no Maranhão, um relatório sobre biblioteconomia (escrito inovador da época), (SANTOS 1982, p.96). Além disso, Antonio Lôbo traduziu folhetins para jornais e revistas da cidade.


2.1 Contribuições a educação
As contribuições de Antônio Lobo, em prol da educação maranhense, são desempenhadas em todos os cargos que participou, sempre com uma personalidade atuante, persuasiva e, às vezes, polêmica. Em relação à biblioteca pública, na qual estava à frente em meados do século XX, perceberam-se avanços significativos na instituição. Em seus relatórios, encontramos pedidos de esforços para beneficiar “O templo do saber”, termo utilizado para denominar a biblioteca.

Nesta perspectiva, com a chegada de Antônio Lobo na direção da Biblioteca (1898), observou-se um crescimento por meios dos projetos apresentados e do reconhecimento de uma instituição, que poderia ajudar no desenvolvimento da população local. O diretor atuava na democratização do saber no estado do Maranhão, incentivando homens e, principalmente, mulheres e crianças. Silva afirma que:

Durante o período em que atuou como diretor da Biblioteca do Maranhão, Antônio Lobo contribuiu para o desenvolvimento desta Instituição. Foi a partir de suas ideias que foram criadas estratégias para democratizá-la (projetos voltados aos interesses de homens, mulheres e crianças). Em mensagem encaminhada ao Governador do Maranhão Alfredo da Cunha Martins, em 12 de fev. de 1898, Antônio Lobo descreveu que a Biblioteca foi inaugurada e estava regularmente funcionando desde o dia 25 de janeiro de 1898. (SILVA, 2008, p. 34).

Desse modo, a preocupação de Antônio Lobo com a estruturação da biblioteca foi verificada em seus relatórios, onde ele afirma que: “meus deveres taes como os comprehendo e o interesse extremado que, como maranhense, tomo pelos destinos de uma instituição que constitui um dos mais poderosos elementos de cultura intellectual, base segura de toda civilização e de todo progresso” (Relatório, 1900, p.3). Deste modo, as representações sobre o diretor podem ser vistas como um grande incentivador da intelectualidade maranhense e que contribuiu para o desenvolvimento da instituição. Essas medidas podem ser constatadas com a criação de um grande acervo e de salas de leitura para mulheres e crianças, o que refletia diretamente na educação.

A propósito, as estratégias utilizadas por Lobo, para conseguir reforços, consistiam em fazer analogias com bibliotecas mais desenvolvidas das grandes cidades da Europa e também dos Estados Unidos. Com isso, ele conquistava respaldo para angariar benefícios à biblioteca maranhense. Outra estratégia utilizada foi a criação de conferências públicas no salão da biblioteca, com dias e horas previamente anunciados. Lobo (Relatório, 1900, p. 5) afirmava que:

Basta dizer-vos que são essas conferencias hoje usadas em grande escala em quase todas as bibliotecas publicas da Inglaterra e dos Estados Unidos e com um sucesso sempre crescente, porque ahi essas instituições constituem uma força ativa educadora que cada vez mais alarga o seu campo de ação, atraindo, auxiliando e guiando os leitores, afim de que retirem o melhor resultado possível da leitura dos livros que lhes fornecem. (...) esforçam-se nesses dois países, representantes da raça gloriosa e forte que será no futuro a diretriz suprema da civilização ocidental, por aproximar as bibliotecas das escolas, estabelecer entre elas laços que cada vez mais se estreitam, tornar a existência de uma inteiramente dependente da outra, e fazê-las finalmente agir como uma força só, poderosa e indivisível, em prol da grande causa da educação popular.

Em relação ­­às conferências pronunciadas por Lobo, pode-se afirmar que a defesa da educação popular, universitária, em especial a da mulher, era bem inovadora para o seu tempo (início do século XX). Gaspar afirma que, “se fosse possível compilar num livro todas as conferências pronunciadas por Antônio Lobo, a literatura maranhense ficaria ainda mais enriquecida” (GASPAR, 2009, p. 113).

É importante ressaltar que a ideia de ligação da biblioteca com a escola está implicitamente atrelada à criação das salas femininas, pois “para conseguirem a realização desse ideal, cumprindo assim um duplo dever, porque, como sabei educar a mulher é garantir a educação completa dos filhos, porque é dela que a criança recebe ao alvorecer da inteligência, as primeiras noções que lhe servirão de base para estudos” (Relatório, 1900, p.5). Ao inserir a mulher na sociedade como leitora, faz-se referência à educação dos seus filhos, que são incentivados. Por outro lado, a criação da sala de leitura para criança está explicitamente ligada à instrução primária maranhense. Segundo Silva (2008), “Lobo priorizou a criação de um acervo infantil, acreditando que através dessa iniciativa o Estado podia adquirir grandes vantagens, pois os jovens podiam se ocupar com a leitura e com outras atividades escolares” (Silva, 2008, p. 44), incentivando-os e inserindo-os num paralelo entre escola e biblioteca.

Nesse sentido, em 1904, a Biblioteca passou por um intenso processo de divulgação, fato comprovado no jornal “O federalista” (1904, p.4), com notícias que pediam a visita das pessoas e que destacavam a descrição do acervo. Essas notícias jornalísticas eram publicadas em todas as edições do mês de outubro, com o objetivo de incentivar a instituição e reconhecendo-a como um bem cultural necessário à população ludovicense.

O cenário da educação primária, no início da primeira república, compreendia reformas realizadas no currículo, que tinha um caráter mais exigente em relação ao que vigorava durante o período imperial. Para Saldanha (2008, p. 139), “em 1890, o decreto n. 21, que reorganizava o ensino público, determinava que o ensino primário deveria ser facultativo e estabelecia a criação de escolas primárias”. Castellanos (2007, p.93) corrobora ao ressaltar que, “em 1903, destaca-se a conversão das escolas estaduais em grupos escolares, existentes no perímetro da cidade de São Luís”. Portanto, as reformas ocorridas nas escolas estavam relacionadas às situações políticas, econômicas e sociais nas quais o Brasil estava inserido, e, até a segunda década do século XX, ocorreram várias transformações que podem ser vistas na afirmação da nova forma de estrutura brasileira. Em relação à biblioteca, essas mudanças escolares podem ser analisadas como um apoio das escolas primárias, onde os acervos criados tinham a finalidade de enriquecer a educação maranhense, após a criação da sala de leitura para crianças. Todos esses projetos trouxeram relevância para a formação intelectual dos estudantes na cidade de São Luís.

Nessa perspectiva, a biblioteca entra em declínio por conta da crise econômica que o Maranhão estava passando, em meados do século XX, e pela falta de estrutura física em que se encontrava, sem um prédio próprio. Apesar de estar enfrentando uma queda, “a biblioteca ainda era considerada um bem público e cultural para a sociedade ludovicense, vindo a ser considerada um centro de convergência pública, lugar utilizado pelos intelectuais maranhenses para expressarem seus conhecimentos” (SILVA, 2008, p.52). Antônio Lobo deixa o cargo de diretor, em 1910, para ser diretor da instrução pública e do Liceu Maranhense, por onde ficou somente um ano. Ao mesmo tempo, sua carreira de magistério no curso primário (GASPAR, 2009) foi requisitada pelo governo e por várias escolas, sendo chamado a lecionar cadeiras diferenciadas, como história universal, do Maranhão e instrução cívica na escola normal, em 1900.

Podem causar curiosidade os constantes chamamentos oficiais a Antônio Lobo para assumir o encargo de lecionar as mais diversas disciplinas. Ocorre que isso acontecia em face de sua reconhecida competência, em geral para preencher a ausência dos titulares das respectivas cadeiras. (GASPAR, 2009)

Exercia também o magistério em escolas particulares, como seminários, proporcionando à juventude conhecimentos sobre o curso de Humanidades, cadeira de Inglês, além de ser nomeado professor do Liceu Maranhense em 1910, para a cadeira de Lógica. Descrever os feitos desse ilustre intelectual maranhense é um desafio, pois tantos prodígios foram desempenhados por Lobo que se torna insuficiente mencioná-los num artigo. A figura de Lobo na educação maranhense foi de grande relevância na medida em que desenvolveu a biblioteca do estado, lecionou em várias escolas e participou do cargo de inspetor público, além de suas publicações inovadoras na área da Biblioteconomia e Crítica Literária. Sua genialidade ficou guardada na história maranhense e brasileira, e, por isso, faz-se necessário minutar ao seu respeito. Gaspar (2009) corrobora ao destacar que Antonio Lôbo foi “um homem ímpar, na sua época. (...) Embora contestado e aplaudido, provou ser o melhor dentre todos aqueles que fizeram da Academia Maranhense de Letras a sua casa, a casa de Antônio Lobo”.

3 DOMINGOS PERDIGÃO (1872 – 1929)
Domingos de Castro Perdigão nasceu na fazenda Santana, município de Pinheiro, interior do Maranhão, em 1º de novembro de 1872. Filho de Domingos Tomaz Velez Perdigão e D. Maria Rita de Castro Perdigão, “seus estudos primários foram feitos em escola particular, na cidade de Pinheiro e os de humanidades em São Luís e Portugal, onde os interrompeu por doença, regressando ao torrão total”. Depois de um tempo de descanso e de recuperação, voltou à capital e foi nomeado amanuense1 da Secretaria do Interior (antiga Secretaria do Governo do Estado). Foi a partir desse momento que começou a subir sua carreira dentro da administração pública. Foi promovido a Diretor Geral da Secretaria e, nessa mesma época, “[...] o Governador Luís Domingues entendeu premiar-lhe os serviços prestados ao Maranhão, quando o representou, como Comissário do Estado na Exposição Nacional de 1808, no Rio de Janeiro, e em 1912 [...]”. Essa premiação ocorreu quando resolveu resgatar a Sociedade Festa Popular do Trabalho, até então antes realizada por seu pai, na Exposição de Produtos Maranhenses. Serviu em Comissão como encarregado da Repartição de Obras Públicas, Viação, Indústria, Terras e Colonização. No entanto, não só de cargos no Governo vivia Perdigão. Em 1918, lançou “O que se deve comer: adaptação do systema de alimentação vegetariana para uso dos brazileiros”, falando sobre comida vegetariana, discorrendo sobre a composição química e o valor nutritivo das frutas e legumes, além de mostrar a adaptação dos vegetais típicos da culinária brasileira às receitas vegetarianas europeias. Tornou-se membro da Sociedade Vegetariana de Portugal e do Núcleo Naturalista Maranhense.

Em 1918, Perdigão ajudou a fundar a Faculdade de Direito do Maranhão: “[...] em 28 de abril de 1918, resultado do esforço conjugado dos professores Domingos Castro Perdigão - então Diretor da Biblioteca Pública do Estado, e Manoel Fran Paxeco - Cônsul de Portugal no Maranhão”2. Foi também um dos fundadores da Faculdade de Farmácia e Odontologia, em 1922. Em 1925, “um grupo de ilustres maranhenses, previamente convocado por Antonio Lopes da Cunha, reuniu-se em prédio da Rua Magalhães de Almeida, para tratar da fundação do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão”3. Entre estes ilustres estavam Perdigão, fazendo parte da Comissão de Bibliografia.

Entre suas obras, destacam-se: “Catálogo do Estado do Maranhão na Exposição Nacional de 1908, Tipografia da Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 1908; O Maranhão na Exposição Nacional de 1908 - Imprensa Oficial. Maranhão, 1910; Álbum do Tricentenário (1612 – 1912); A Biblioteca Pública do Estado do Maranhão em 1914 - Imprensa Oficial. Maranhão, 1915; Relatórios da Biblioteca Pública do Estado do Maranhão nos anos de 1915, 1916, 1917, 1918 - Imprensa Oficial; A Biblioteca Pública do Estado do Maranhão em 1919, Imprensa Oficial; Exposições e feiras (Trabalhos apresentados ao Congresso de Agricultores, Imprensa Oficial, 1922; O Esperanto, As Bibliotecas Infantis; O Colégio Perdigão (trabalhos impressos nos Anais do Congresso Pedagógico) - Imprensa Oficial, 1922.


    1. Contribuições a educação

Na gestão de Perdigão, “que tão dignamente exerce as funções de diretor da nossa biblioteca, merece os mais francos aplauzos por mais esse trabalho meritório que presta a sua terra” (Revista Maranhense, 1916), a biblioteca se encontrava no pavimento térreo do edifício do Congresso Legislativo do Estado. No relatório, era mencionada a seguinte descrição do pavimento: “não pode ser mais impróprio o alojamento para um estabelecimento deste gênero, não só pela má acomodação e falta de segurança e higiene do pavimento que ocupamos; como por se achar situado em local afastado do centro da cidade”. (RELATÓRIO PERDIGÃO, 1915, p. 6). O diretor continuou na luta para uma instalação digna à biblioteca pública, pois a falta de um prédio próprio tinha como consequência o abandono dos livros (traças, umidade). Além disso, a falta de iluminação adequada prejudicava a frequência da biblioteca, “pois só funciona das 9 às 17 horas do dia, enquanto penetra a luz solar nos aludidos compartimentos” (Perdigão, 1915, p. 8).

É importante destacar que em todos os relatórios escritos pelo referente diretor da Biblioteca Pública, ele salienta a importância de um prédio próprio para a mesma e a sua tristeza por ainda não ter sido construído tal edifício.
Mais um anno decorreu sem que me fosse concedida a nimia satisfação de ver a Bibliotheca Publica do Estado installada em predio adequado e para este fim especialmente construido, realisando assim um dos meus antigos ideaes, pelo qual venho clamando desde que me foi confiada a direcção deste estabelecimento, conforme podeis verificar dos meus relatorios apresentados aos vossos antecessores.

O que me animou agora, não é uma fogueira esperando, conforme dizia no relatorio de 1918, e a affirmativa cathegorica do Exmº. Sr. Dr. Urbano Santos, D. D. Presidente do Estado, de que em breve será construido esse edificio n'uma das principaes praças desta cidade, onde o Governo já tem adquirido propriedades, ao qual, com toda a justiça se poderá dar o nome de Templo do Saber, porque n'elle serão, ampla e confortavelmente, installadas - a Bibliotheca Publica com todas as suas colleções, a Academia Maranhense de Lettras e a Faculdade de Direito do Maranhão.

Que venha essa medida salvadora para a inestimavel riqueza intellectual, que aqui continua a se damnificar pela falta de espaço, de ar e de luz [...] (RELATÓRIO PERDIGÃO, 1920, p. 35)
Além da importância do prédio próprio, para que se pudesse atender às necessidades dos frequentadores da Biblioteca, ele também fazia referência ao estado em que se encontrava o mobiliário e a organização dos livros. Em 1915, Perdigão planejou a criação “[...] de um catálogo systematico impresso em 1908, e organizado de accordo com os moldes adoptados por James Brown, bibliothecario da Bibliotheca Publica de Clerkenwell, em Londres [...]” (RELATORIO PERDIGÃO, 1915, p. 10). Contudo, no Relatório de 1916, ele faz menção que este catálogo já “[...] tinha se tornado imprestável”. Assim, procurando adotar um catálogo que “[...] satisfaça rápida e facilmente as exigências do público [...]” (RELATORIO PERDIGÃO, 1920, p. 3), tomou-se como base Melvil Dewey e seu sistema de classificação, a Classificação Decimal de Dewey.4

Nesse sentido, Perdigão transcreveu sobre a relação existente entre a biblioteca e a instrução pública, pondo em destaque o aumento da frequência infantil: “houve um aumento regular na frequência feminina e enorme na infantil, o que atribuo às novas obras adquiridas e adequadas às idades juvenis, o que tem atraído consideravelmente os nossos bons amiguinhos da leitura infantil” (Perdigão, 1916, p. 5). Para sua melhor acomodação, pedia-se a compra de “três ditas pequenas para leitura infantil”. Deste modo, acha-se necessário analisar a finalidade da biblioteca pública maranhense que, para Perdigão (1916, p. 77), “são instituições de educação popular e, por isso, poderosos auxiliares da instrução pública”. É assim que entendemos o objetivo das bibliotecas em geral, sempre incentivando o saber que se concretiza ao processo da leitura. As estratégias utilizadas da biblioteca maranhense, para maior frequência e incentivo à instrução, estão na resposta do seguinte questionamento de Perdigão: “em que poderá, porém, influir a biblioteca na instrução de um povo que se não habituou a ler? Para esses mesmos poderá ser muito útil se conseguir habituar-lhe os filhos à leitura”. Portanto, a seção infantil foi criada para internalizar defeitos na instrução dos seus pais, ajudando a melhorar as condições educacionais do estado. De acordo com Perdigão (1916, p. 77):


A nossa seção infantil, a qual tenho procurado, por todos os meios ao meu alcance, dar uma feição de utilidade, atraindo a infância com livros de fáceis leituras e profusamente ilustrados com belas estampas e, aos professores, franqueando o estabelecimento para seus alunos, examinarem e fazerem estudos das coleções aqui existentes, tendo sempre em vista o que diz Emma Gragim "o bibliotecário não pode ter amigo e aliado mais firme do que o professor, sobretudo quando este tem a compreensão clara do auxilio que a biblioteca e a escola se podem mutuamente dispensar.

Além disso, Perdigão incentivou o público infanto-juvenil ao “gosto pela leitura e assim imperceptível habituá-los ao estudo”; e realizou um catálogo especial com obras adequadas à juventude, que era, ao mesmo tempo, recreativo e instrutivo. No ofício de 30 de maio, o diretor solicitava verba para a aquisição de obras referentes à leitura infantil. Foram adquiridas por compra as seguintes obras:

Pátria brasileira; contos pátrios; alma; tratado de versificação; teatro infantil; poesias infantis; o meu sistema; coração; livros de exercícios; noções da vida prática; lições da vida domestica; lições de cousas; sciencias naturaes e physicas; diccionario de rimas; botanica elementar; historia universal; historia do Brazil; Mario; sciencias naturaes em contos; historias da nossa terra; a arvore; atravez do brazil; minha terra e minha gente; contos para a infância. (RELATÓRIO PERDIGÃO, 1915)

Nos seus relatórios, Perdigão pede a compra de “três banquetas para leitura na secção infantil” e, ao tratar da organização do catálogo infantil, ele afirmava que “tem este estabelecimento que organizar o da leitura infantil e o especial de cada collecção aqui existente, trabalhos que dependem de muito tempo e aturado estudo” (RELATORIO PERDIGÃO, 1915, p. 32).

Ele ainda salienta o valor da própria instituição para a sociedade, quais os serviços e sua finalidade:

Pelo art. 1.º do Regulamento, então baixado para este estabelecimento, se poderá ajuizar do valor moral dessa nova organização.

diz elle: <> (RELATÓRIO PERDIGÃO, 1915, p. 4)

"Era aqui o centro do mundo intellectual maranhense, e não pode haver melhor logar para quem peocura saber, de aquelle, onde ha livros e livros que podem ser lidos" (RELATÓRIA PERDIÇÃO, 1916, p. 78)


Contudo, uma de suas principais e mais importantes obras foi “Vade-Mecun Bibliográfico: O que se deve ler”, lançado em 1923, com a finalidade de atender aos jovens que frequentavam a Biblioteca Pública: “foi escripto para attender as necessidades do serviço sob minha direcção e às reclamações dos freqüentadores da nossa leitura infantil” (PERDIGÃO, 1923, p. 5). Esse trabalho foi dividido em fases, pois, segundo o autor, deve-se “[...] fazer a distribuição por idades, do que pode ser lido com aproveitamento” (PERDIGÃO, 1923, p. 8). Na primeira fase estão as “Leituras preparatórias – dos oito aos dez annos”, onde Perdigão destaca tanto autores patrícios, como nacionais, como Dr. Antonio Marques Rodrigues com o seu “Livro do Povo”; Dr. Antonio do Rego, com a tradução da obra francesa “Joãozinho” de Charles Jeannel; P.º Raimundo Alves da Fonseca, “Selecta Nacional”, P.º Dr. J. S. Castello Branco, “Selecta Escolar”; Visconde de Almeida Garret, “Tratado de Educação”, Mario Bulcão, João Kopke, entre outros. A primeira parte da obra de Perdigão está dividida em assuntos como livros escolares, coleções seriadas e educação cívica.

Na segunda fase, encontram-se as “leituras educativas e instrutivas – dos 12 aos 15 anos”, indicada aos alunos do ensino secundário. Ele ainda comenta que “[...] nas vossas horas de folga, procurar a Bibliotheca Publica, que vos receberá satisfeita e alegre, proporcionando-vos os meios de iniciardes a segunda phase das vossas leituras, informando os melhores livros que venham corroborar os vossos estudos” (PERDIGÃO, 1923, p, 40.). Ele completa: “Agora que já tendes a idade precisa para melhor comprehenderdes as cousas, devo declarar-vos que as Bibliothecas são umas escolas, sem professor, sem a obrigatoriedade das lições, sem horário determinado para estudo; por outras palavras, a bibliotheca é uma escola onde os alumnos vão espontaneamente, e educam-se conforme lhe apraz”.

Destaca-se nessa fase assuntos sobre língua portuguesa, literatura nacional, língua esperanto, estudo da Geografia, higiene, entre outros, assim como os autores Ribeiro do Amaral, Justo Jansen Pereira, Villa-Lobos, Euclides da Cunha, Sotero dos Reis, etc.

Na terceira fase, encontram-se as “leituras ilustrativas – dos 15 aos 18 anos”. Perdigão afirma que nessa idade o leitor já tem a capacidade de iniciar as leituras ilustrativas e tem plena liberdade de consultar qualquer livro do catálogo. Os primeiros livros que ele indicou foram a “Arte de Estudar”, de Augusto de Benedea; “Arte de Escrever”, de Xavier Marques; e “A formação do estilo pela assimilação dos autores”. Assim, “depois de lidos, ou melhor, depois de estudados, estes três manuaes, podereis então entrar no campo vastíssimo das leituras litterarias.” (PERDIGÃO, p. 169). Entre os assuntos destacados nesta fase estão: os dicionários, como os de Pierre Laurosse, e as enciclopédias universais, como as de Diderot e d’Alembert; leituras maranhenses, como Odorico Mendes e Sotero dos Reis, Gonçalves Dias e João Lisboa. No final da terceira fase, ele apresenta uma “Synthese Systematica do Catálogo Maranhense”, onde são listadas as obras mais divulgadas na literatura mundial, começando pelo Maranhão, onde ele divide por áreas: poesia, filologia, literatura, romance, contos e fantasias, teatro, crônicas e epístolas, discursos e conferências, bibliografia e biblioteconomia, imprensa, jornalismo na capital, geografia, história, viagens, religião, pedagogia, belas artes, educação cívica, direito e jurisprudência, matemática, engenharia, historia natural, botânica, física e química, medicina, naturismo, agricultura, indústria, burocracia, milícia, política, administração, relatórios e catálogos, e almanaks. Depois, ele divide a lista de autores por países, começando pelo Brasil, e passando por Portugal, Espanha, Holanda, entre outros.

Assim, Perdigão se considera como um pai ou professor, instruindo seus filhos, sendo que “a ampla lista de títulos, que recomenda para leitura, tem função pedagógica e disciplinar, que busca educar e moldar o leitor. (BASTOS, ERNEL, p. 4)”.

Perdigão foi diretor da Biblioteca por nove anos, “nomeado a 14, assumiu em 16 de janeiro de 1914; Diretor até 15 de setembro de 1923”. No dia 1º de janeiro de 1924, fundou a Biblioteca Pública de Pinheiro, município de seu nascimento.



4 CONCLUSÃO

A educação maranhense do século XIX e meados do XX sofreu transformações nos regulamentos, nas práticas, na estrutura, ou seja, desenvolveu-se no decorrer do cotidiano escolar. Nesse contexto, a Biblioteca, ao longo de sua trajetória, passou por intensos períodos, como auges e declínios e, por isso, destaca-se a figura de Antônio Lobo à frente da direção da instituição e suas realizações para a sociedade maranhense. Do outro lado, tem-se a presença de Domingos Perdigão, aprimorando os serviços da biblioteca.

A corporatura de Lobo, excêntrico, sério e disposto a justar pelo correto, sempre comprometido em melhorar a biblioteca, estimulou mulheres e crianças a frequentarem a instituição, na medida em que a mulher seria a imagem das crianças, incentivando-as no processo educacional.

Grande foi o seu esforço, não somente na Biblioteca, mas, no meio intelectual, marcado por polêmicas, especialmente por não aceitar ideias do seu meio. Foi inovador, rompendo barreiras de sua época. Apesar das discussões, Lobo colaborou para o crescimento intelectual do estado, ajudou a fundar a Academia Maranhense de Letras, participou de várias associações literárias, foi jornalista, redator, cronista, tradutor, romancista, educador.

Já Domingos Perdigão voltou-se basicamente para o aprimoramento dos serviços oferecidos pela Biblioteca, procurando ressaltar a sua importância para a instrução das crianças e dos jovens, e o seu valor legal e intelectual no desenvolvimento das práticas leitoras dos mesmos. Outra importante iniciativa foi a criação de um livro que serviu de apoio aos estudantes que frequentavam a Biblioteca Pública. O livro está dividido em três fases, as quais também estão subdivididas por idades, para facilitar o entendimento e a procura do leitor.

Um capaz de lutar pelo correto na educação maranhense, e o outro, por diversas vezes, preocupado com o principal órgão de organização intelectual do estado, a Biblioteca. No entanto, mesmo que esses dois intelectuais tenham vivido em épocas diferentes, eles não deixaram de mostrar sua preocupação com o desenvolvimento da instrução pública. Lobo enfrentava as dificuldades da pré-revolução, às vésperas da República, e Perdigão as dificuldades encontradas com o seu advento. Contudo, em meio às adversidades, ambos não desistiram de trazer e implementar melhorias na instrução das crianças e dos jovens, procurando as melhores formas de poder lidar com a realidade existente.

REFÊRENCIAS

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______. Relatório da Bibliotheca do Estado do Maranhão apresentado ao Exmª. Sr. Dr.

Secretario do interior pelo perspectivo director Domingos de Castro Perdigão. São Luís: Imp.

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______. Relatório da Bibliotheca do Estado do Maranhão apresentado ao Exmª. Sr. Dr.

Secretario do interior pelo perspectivo director Domingos de Castro Perdigão. São Luís: Imp.

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SALDANHA, Lilian Leda. A instrução maranhense na primeira década republicana.

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SILVA, Diana Rocha da. Recomeço de uma história: percurso histórico e a recriação da

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SANTOS, Waldemar. Fragmentos da História do Maranhão. São Luís: Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado-SIOGE, 1982.

1 Funcionário que copiava ou registrava documentos e fazia correspondência oficial

2 http://www.direitoufma.com.br/

3 Atualmente chamado de Superintendência do Iphan no Maranhão

4 Sistema que divide em 10 classes as áreas do Conhecimento: 000 Obras Gerais; 100 filosofia; 200 Religião; 300 Ciências Sociais; 400 Línguas; 500 Ciências Puras; 600 Ciências Aplicadas; 700 Artes; 800 Literatura; 900 História e Geografia. Adotado até hoje principalmente em bibliotecas públicas e escolares.




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