“as comunidades caiçaras passaram a chamar a atenção de pesquisadores e de órgãos governamentais mais recentemente em virtude das ameaças cada vez maiores à sua sobrevivência material e cultural e pela contribuição histórica que essa população tem dado



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UFRJ – CCMN – IGEO 2° SEMESTRE DE 2005

DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA

DISCIPLINA: ESTÁGIO DE CAMPO II

PROFESSORA: ANA LUIZA COELHO NETTO

ALUNA: PALOMA SOL HERTZ CUNHA

DRE: 102060366

MODOS DE VIDA E DE PRODUÇÃO CAIÇARA

E MANEJO LOCAL DA MATA ATLÂNTICA.

ANÁLISE DA RESILÊNCIA ECOLÓGICA E CULTURAL



INTRODUÇÃO:

A Mata Atlântica, em sua extensão original, pré colombiana, é a segunda floresta neotropical em tamanho, depois da floresta amazônica. Sua existência é ligada à serra do mar, cadeia montanhosa que corre ao longo da costa brasileira de forma quase contínua. É considerada um dos hot spots ecológicos mundiais, ou seja, é uma área representativa de um ecossistema degradado e fragmentado, cuja integridade e conservação estão fragilizados, concentrando grande biodiversidade, e espécies endêmicas ameaçadas de extinção.

A floresta da Mata Atlântica é o resultado de um gradual processo evolutivo, em escala de tempo geológico. A organização espacial complexa e articulada das comunidades de organismos, fundamentadas em relações ecológicas de fluxos cíclicos de matéria e energia, interdependência, retro-alimentação, padrões de ligações em rede, diversidade, flexibilidade, cooperativismo e auto-organização, possibilita um funcionamento sustentável ao ecossistema. Sustentável no sentido que o ecossistema tem a capacidade de alimentar a si mesmo, internamente, sem gerar gastos excedentes, a partir do ciclo de nutrientes e do ciclo hídrico. E também por se conservar através de uma auto-organização, mantendo condições de estabilidade, a partir da resistência e resiliência do sistema. Cabe esclarecer sobre o caráter relativo dessa estabilidade, na medida em que ela sofre variações e constantes transformações, já que a floresta é um sistema aberto, afastado do equilíbrio. Porém a estabilidade é caracterizada pela manutenção da estrutura do sistema, que podem sofrer alterações drásticas com as perturbações freqüentes (Begossi, Capra). O sistema aberto é caracterizado por provocar ainda a emergência de novas estruturas, que por sua vez desenvolvem adaptações locais, integrando-se à co-evolução em rede, formando o que Capra denomina a teia da vida, ou seja, uma auto-organização das comunidades ecológicas.

As florestas desempenham um papel muito importante na conservação da qualidade ambiental. São reguladoras do ciclo hidrológico, mantendo grau de umidade no ambiente, e conservação dos canais de drenagem e da qualidade de suas águas; reduzem o risco de enchentes e inundações; reduzem a erosão dos solos e o assoreamento dos rios; amenizam o clima; preservam diversas espécies da fauna e flora ameaçadas de extinção, assim como preservam a biodiversidade em geral; garante a reprodução de diversos recursos naturais renováveis; dentre inúmeras outras funções, como a manutenção da sustentabilidade ecológica local e global, a partir da regulação e conservação da funcionalidade de ciclos ecológicos (nutrientes, biomassa, etc.).

Infelizmente a floresta da mata atlântica sofreu grande devastação ao longo da historia, a partir da chegada dos portugueses ao novo mundo. Diversos ciclos econômicos foram progressivamente substituindo a cobertura vegetal das encostas por monoculturas e usos degradadores, como a exploração descontrolada de recursos naturais. A urbanização desenfreada gerou grandes pressões sobre as florestas, não apenas restrita ao entorno das manchas urbanas, mas também através do aumento da demanda pela produção de alimentos, e conseqüente expansão da agricultura moderna e pecuária extensiva. Os ciclos canavieiro, da cafeicultura, da pecuária extensiva, da industrialização, da exploração madeireira, da mineração, da agricultura moderna, geraram além do desmatamento, o esgotamento dos solos, diminuindo a produtividade e capacidade de regeneração florestal.

Hoje, de uma mata original pré-colombiana que ocupava 1,3 milhões de km², 93% já foi devastado (fonte: Revista Fundação SOS Mata Atlântica, outubro 2005 – n°2). Brown e Brown, extraído de Adams (2000) presume que pode ter havido uma redução de cerca de 50% nas espécies de mata atlântica, devido ao caráter fragmentado em que ela se encontra hoje. Dentro dos remanescentes, as áreas de floresta primaria, ou seja, com estrutura pré-colombiana, são muito restritas, representando ilhas isoladas no interior de matas secundarias.

No Rio de Janeiro, segundo site do IEF (Instituto estadual de Florestas) as estimativas em relação ao passado supõem que 98% do estado era recoberto pela mata atlântica, constituído pela floresta ombrófila densa, principalmente, e ainda pelos ecossistemas associados, como manguezais, restingas e campos de altitudes. Atualmente, calcula-se que menos de 17% da superfície do Estado estejam recobertos por florestas, que se acham em vários estágios de conservação.

Os resquícios atuais, tanto no Rio de Janeiro quanto no resto do Brasil, encontram-se em sua maioria protegidos por leis ambientais, consistindo Unidades de Conservação (UC) regidas pelo SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação), documento legislativo da nação brasileira.

No entanto, a oficialização das leis, como política principal na conservação de ambientes de floresta tropical, não tem se mostrado eficiente na manutenção da integridade e diversidade ecológica das florestas e mananciais. As diversas pressões sobre os recursos naturais, tais como a pecuária extensiva, o mercado madeireiro, monoculturas agrícolas, mercado imobiliário e de terras, continuam a avançar nas bordas das áreas florestais, e penetrar em seu interior.

Além disso, a normatização destes espaços vem potencializando um processo já crescente de fragilização e degradação cultural. Nestas áreas muitas vezes residem populações humanas tradicionais (entre outras de ocupação recente) que possuem modos de vida e produção historicamente desenvolvidos e adaptados ao ecossistema local. Os atuais habitantes tradicionais da mata atlântica possuem suas origens culturais e genéticas de uma miscigenação composta parcialmente por comunidades humanas pré-colombianas nativas da Mata Atlântica. Essas comunidades indígenas nativas são estruturas ecológicas que emergiram e se adaptaram às florestas em um processo co-evolutivo. Caracterizam-se por tradições culturais associadas aos princípios ecológicos de sustentabilidade, condicionado por limites demográficos.

O avanço das tecnologias de transporte e comunicação, aumentando o acesso entre os lugares, acaba por aumentar também o contato destas populações tradicionais com as áreas urbanas, provocando uma difusão cultural desigual à medida que os valores e padrões da sociedade ocidental capitalista penetram nestas áreas, sobrepondo-se à cultura local. Os jovens principalmente absorvem esse processo em maior intensidade, ao enxergar possibilidades de substituir as amarguras do trabalho duro na roça em baixo do sol quente, da luz de vela e do fogão alimentado por lenha diariamente coletada, pela facilidade e praticidade das tecnologias da vida urbana.

A criação das Unidades de Conservação, principalmente aquelas de categoria de proteção integral, proibindo atividades e ocupações humanas, acaba por acelerar essa crise dos sistemas tradicionais de manejo ao proibir as práticas historicamente adaptadas, como a produção agrícola em roçados, e a produção artesanal de cestos, tapetes, casas, entre outros artefatos, utilizando elementos locais como cipó e palha. A normatização do espaço, nestes casos, pode gerar duas conseqüências que ocorrem paralelas (entre outras): o êxodo rural, as famílias impossibilitadas de praticarem suas atividades de produção que garante sua existência e reprodução, alem de gerar excedentes de renda para adquirir necessidades básicas da cidade, abandonam os locais de origem, migrando para os centros urbanos contribuindo para o crescimento do processo de favelização, aumentando as pressões já saturadas destes ambientes; a “urbanização” das áreas rurais naturais, à medida que as famílias buscam formas de geração de renda, em geral nos padrões capitalistas de trabalho assalariado, acabam por importar cada vez mais elementos externos de origem urbana, como o mercado turístico, alterando de forma crescente a paisagem natural.

Como podemos observar, a criação de Unidades de Conservação e a aplicação de políticas preservacionistas possuem caráter paradoxal, à medida que a proteção às florestas e aos mananciais é apenas parcial, pois contribui, por outro lado, para a degradação e alteração deste ecossistema fragmentado.

CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS NAS UNIDADES DE CONSERVAÇÃO:

PRESERVACIONISMO X CONSERVACIONISMO

A maior parte das Unidades de Conservação presentes no mundo (isso cabe ao Brasil também) estão baseadas em um modelo de área natural protegida desenvolvida pelos Estados Unidos. Este modelo que se difundiu por diversos paises e tornou-se uma das políticas conservacionistas mais utilizadas pelos paises periféricos, reflete ideologias preservacionistas, ou seja, que acredita no isolamento da natureza, preservando-a da ação humana tratada como necessariamente depredatória. A visão preservacionista está associada ao “mito moderno da natureza intocada” (Diegues, 1998), onde o ser humano é visto como um intruso destruidor do equilíbrio natural dos ecossistemas. Uma outra visão ambientalista, o conservacionismo, considera a corrente ideológica anterior de extremo radicalismo, por fundamentar-se em relações dicotômicas entre ser humano e Natureza, abstraindo o fato de que o ser humano é integrado a Natureza, sendo um elemento constituinte do ecossistema global. O modelo norte-americano de áreas protegidas propõe a criação de “ilhas” de conservação ambiental desarticuladas entre si (umas com as outras) e com suas periferias de entorno, na tentativa de estabelecer sistemas fechados. O objetivo deste modelo era de isolar áreas de grandes belezas cênicas naturais, onde o homem urbano pudesse contemplar a natureza “intocada”. Para atingir esta finalidade, adotou-se uma política de desapropriação de populações humanas que residiam dentro das áreas, mesmo sendo estas ocupações muitas vezes seculares. Motivado inicialmente por valores estéticos, este modelo beneficia populações urbanas externas, como mais um serviço de consumo, em detrimento das populações camponesas locais. Diegues (1998) adverte que dessa forma, o próprio “turismo ecológico” se constitui em um mito da sociedade urbano-industrial.

Certas Unidades de Conservação, como os Parques Nacionais, podem associar-se a uma lógica de acumulação de capital, a partir de atividades ecoturísticas voltadas para um segmento social restrito com alta infra-estrutura (trilhas pavimentadas, hotéis de luxo, altas taxas de entrada, lojas de conveniência sofisticadas, aeroportos associados), realizando desapropriação de populações locais cujos territórios historicamente ocupados se inseriam nas áreas protegias, causando exclusão social das comunidades periféricas.

Marginalizadas do processo, as populações locais muitas vezes não tem documentação de posse, não recebendo remuneração pela remoção, sendo transferidas para áreas de condições sócio-ambientais distintas, para as quais suas praticas de subsistência, culturais e suas conhecimentos potenciais não estão adaptadas. Além do mais, muitas vezes a existência da própria comunidade funcionava como um mecanismo isolante da degradação ambiental à medida que garantiam a conservação local através de sistemas tradicionais sustentados de subsistência e apropriação de recursos naturais, desenvolvidos a partir de históricos processos adaptativos, limitando de certa forma o avanço de explorações insustentáveis.

No Brasil, podemos identificar inúmeras UCs distribuídas por todo território brasileiro, que atualmente são regidas pelos regulamentos do documento legislativo SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza - edição mais recente é de 2002) cuja elaboração está baseada nas ideologias e no modelo norte-americano (portanto exógeno) de áreas protegidas, ou seja, ilhas desarticuladas de conservação, desenvolvido em contextos externos distintos das realidades sócio-ambientais locais, regionais e nacionais. A Mata Atlântica se insere neste quadro apresentando diversas unidades de conservação, de distintas categorias e, portanto, possuindo regras e normas e acesso e uso diferenciadas, desde Reservas Extrativistas (RESEX – Unidades de Uso Sustentável), onde é permitido exploração de modo sustentável, até Reservas Biológicas (REBIO), onde até mesmo a visitação publica é proibida. O regulamento de algumas permite a existência de ocupações humanas especificas, contando que sigam as normas do plano de manejo, outras porém, ao serem criadas, decretaram por lei a desapropriação (remoção) de populações tradicionais que ali viviam, realizando suas atividades de reprodução social e cultural. A criação das unidades de conservação aparece nestes contextos, como elemento de aprofundamento da crise dos sistemas tradicionais de manejo na Mata Atlântica.

ÁREA DE ESTUDO:

A área de estudo da presente pesquisa consiste na Reserva Ecológica da Juatinga, localizada no município de Paraty, no limite sul do estado do Rio de Janeiro.

Esta localidade da Serra do Mar passou por uma sucessão de ciclos econômicos de monocultura que marcaram o uso do solo das encostas de uma pretérita mata atlântica. Os ciclos de cana-de-açúcar, rizicultura e café transformaram áreas onde os processos ecológicos tinham sua estabilidade garantida pela diversidade da floresta tropical, em áreas de capim, capoeira, e encostas marcadas por cicatrizes no solo (voçorocas). Hoje o ciclo da pecuária, proliferando gados e pastos pela região torna-se mais um fator de instabilidade e insustentabilidade ecológica. A região encontra-se ainda possivelmente ameaçado por uma nova monocultura que emerge protegido pelo mercado mundial de carbono, as plantações de eucalipto para a produção de celulose e papel. Estudos sobre as conseqüências ecológicas destas plantações de eucalipto para o ambiente ainda possuem caráter inicial, porém sabe-se que qualquer monocultura é prejudicial por acabar com a biodiversidade, além de o eucalipto ter a característica de retirar água demasiadamente do ambiente. Esses e outros mercados apresentam-se como fator de ameaça aos remanescentes florestais da Mata Atlântica.

Algumas áreas porém resistiram a estes processos de ocupação ambientalmente degradadores, como a reserva estudada. Além de apresentar consideráveis fragmentos de floresta primarias, envolvidos por florestas secundarias, e capoeira nas bordas, em estados preservados, nascentes, córregos e rios diversos, a reserva singulariza-se por sua beleza excepcional, caracterizada por extensas encostas florestadas, picos rochosos e praias semi-deserta de águas límpidas e claras. Segundo acervo turístico e cultural de Paraty, A floresta dessa reserva é a única mata primária existente no município, diferenciando-se das demais pela grossura e altura das árvores e pela grande quantidade de palmito Jussara existente. A especialidade desta área é destacada no ato de criação da reserva, que intencionou preservar sua integridade não apenas ecológica, como também cênica, como evidencia o DECRETO ESTADUAL No 17.981 – DE 30 DE OUTUBRO DE 1992:



O Governador do Estado do Rio de Janeiro, no uso de suas atribuições legais, tendo em vista o disposto no art. 9°, VI, da Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, regulamentada pelo Decreto nº 99.274, de 7 de junho de 1990, bem como a Lei Estadual nº 1.859, de 1 de outubro de 1991, e considerando ser impostergável preservar o ecossistema local, composto por costões rochosos, remanescentes florestais de Mata Atlântica, restingas e mangues que, em conjunto com o mar, ao fundo, forma cenário de notável beleza, apresentando peculiaridades não encontradas em outras regiões do Estado,

DECRETA:



Art. 1º - Fica criada, no Município de Parati, a Reserva Ecológica da Juatinga, de natureza non edificandi, delimitada, de um lado, pelo Saco de Mamanguá, de outro e pela frente, pelo mar aberto e, pelos fundos, por uma linha reta imaginária que, partindo do ponto conhecido como Cachoeira do Cocal (no lado do Canto Bravo da Praia do Sono), alcança o local conhecido como Porto do Sono (ao fundo do Mamanguá), ficando, destarte, resguardada a faixa de Marinha.

O órgão governamental à qual é concedido a administração da reserva é o Instituto Estadual da Floresta (IEF), como dispõe o artigo 2 do mesmo decreto:



Art. 2º - A administração da Reserva Ecológica da Juatinga será exercida pela Fundação Instituto Estadual de Florestas I.E.F./RJ, entidade administrativa vinculada à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Projetos Especiais.

MANEJO TRADICIONAL DA MATA ATLÂNTICA

A área da reserva foi historicamente manejadas pelas comunidades tradicionais caiçaras e seus sistemas produtivos, que resultaram de processos evolutivos de reciprocidade entre a população humana nativa e seu habitat, formando uma comunidade fundamentada nos princípios ecológicos de sustentabilidade. Seus modos de vida, sistemas produtivos, rituais místicos e reprodução social seguem a ordem e o tempo da natureza e seus ciclos sazonais. Devido a essa interação com os ciclos naturais, e também ao baixo impacto das tecnologias utilizadas por essas sociedades nativas, suas relações com o ecossistema são caracterizadas como harmônicas e sustentáveis, no sentido de não interromper a reprodução dos elementos ecológicos que garantem a funcionalidade do ecossistema. Essas populações caiçaras adquiriram ao longo do lento processo adaptativo grande carga de saberes locais, como amplo conhecimento das espécies locais e suas propriedades, medicinais por exemplo, e técnicas de mecanismos adaptados às dinâmicas ambientais, produzidos a partir de elementos locais. Essas especificidades localmente desenvolvidas caracterizam-se como parte da biodiversidade do ecossistema da mata atlântica, a diversidade cultural.

Como podemos perceber, há uma relação direta entre cultura e ecologia, e a cultura também deve ser considerada como um elemento de conservação ecológica. Como os próprios caiçaras argumentam, não é por acaso que o habitat natural desta cultura se tornou uma unidade de conservação. O manejo tradicional propiciou as atuais condições de preservação das florestas e mananciais. E apesar desta cultura ter sido capaz de garantir a reprodução da biodiversidade local, a legislação ambiental proíbe as atividades tradicionais praticadas, tentando modificar o sistema de produção caiçara.

Essa questão que envolve conflitos entre políticas preservacionistas e culturas tradicionais tem sido recentemente discutido por pesquisadores em geral na área da antropologia. Este debate vem trazendo preocupações com o futura de tais culturas, e de seus habitats e ecossistemas nativos, à medida que, cada vez mais a manutenção da diversidade cultural está sendo vista como essencial para a conservação da biodiversidade. Esta percepção surge de evidencias como a preservação florestal de terras indígenas, onde o nível de desmatamento é muitas vezes menor que em áreas naturais protegidas em que a presença humana é proibida, como explicita Esterci, Lima e Léna (2002)

“Conforme já perceberam, e erigraram em regra, grande parte dos conservacionistas, as áreas protegidas correm menos riscos quando tem a zelar por elas os seus habitantes, desde que, como advertem Ayres et al. 1994, convencidos de que a conservação reverterá também em seu beneficio e não será apenas um motivo de sacrifícios ainda maiores.”.

A CULTURA CAIÇARA

Diegues (2002) entende caiçaras como as comunidades formadas pela mescla da contribuição étnico-cultural dos indígenas, dos colonizadores portugueses e, em menor grau, dos escravos africanos. São caracterizados por uma cultura específica que se desenvolveu principalmente nas áreas costeiras dos atuais estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e norte de Santa Catarina. Suas origens se associam aos “interstícios dos grandes ciclos econômicos do período colonial, fortalecendo-se quando essas atividades voltadas para exportação entraram em declínio” (Diegues, 2002). A decadência destes ciclos econômicos incentivava maiores dedicações às atividades de produção e consumo familiar, como a agricultura, a pesca e o extrativismo vegetal. A prosperidade dos ciclos econômicos também incentivavam a produção agrícola na medida em que a maioria da população focava as atividades na produção e extração para exportação, provocando em certas situações escassez de alimentos, que as famílias de pequenos produtores supriam. As comunidades caiçaras sempre mantiveram contatos e intercâmbios econômicos e sociais, em intensidades diferentes, com as cidades próximas que emergiram no litoral, associadas aos ciclos econômicos de exportação, como Parati, Santos, Ubatuba. Dependiam delas ainda para atender as necessidades materiais não produzidas em seus sítios, como combustível, vestimentas, nylon, variando de local para local. Os caiçaras produziam também mercadorias consumidas nestas cidades, como balaios (cestos de cipó), tapetes de palha, farinha de mandioca e muito peixe, e as vezes abastecendo com gêneros alimentícios.

O modo de vida caiçara possui diversas diferenciações regionais e locais, devido a sua extensão territorial, que vai desde o sul do estado do rio de janeiro até o estado do Paraná, de acordo com Diegues (2004):

“Consideramos território caiçara o espaço litorâneo entre o sul do Rio de Janeiro e o Paraná onde se desenvolveu um modo de vida baseado na pequena produção de mercadorias que associa a pequena agricultura e a pesca, além de elementos culturais comuns, como o linguajar característico, festas e uma forma particular de ver o mundo.”

Sendo assim, apesar de analisar algumas pesquisas espacialmente mais abrangentes ou regiões caiçaras mais ao sul do litoral, este trabalho restringe sua analise aos caiçaras do estado do Rio de Janeiro, e mais especificamente, à área de estudo do trabalho de campo realizado, a Reserva Ecológica da Juatinga.

Em contextos gerais, as comunidades caiçaras, segundo Diegues (2002), mantiveram sua forma tradicional de vida até a década de 1950, quando as primeiras estradas de rodagem interligaram as áreas litorâneas com o planalto, ocasionando o inicio de um fluxo migratório. O aumento do fluxo porém não foi apenas migratório e nem somente unidirecional. A possibilidade de maiores acessos teve como conseqüência uma maior difusão de valores, padrões e práticas. Esta difusão porém, apesar de ser em ambos os sentidos, foi desigual, e o modo de vida urbano, com seus padrões e valores de uma sociedade industrial, penetrou na vida e nos lugares caiçaras. Tratando mais especificamente da região da reserva da juatinga, foi com a construção da estrada Rio-Santos, na década de 1970, que este processo se intensificou.

A partir da década de 1980 surgem novas pressões aos territórios caiçaras, e novas ameaças às suas tradições culturais, à medida que estes espaços de ocupação tradicional transformam-se em áreas protegidas por lei. Órgãos governamentais ambientalistas entram em conflitos com as comunidades caiçaras, criando um quadro que reflete a situação acima exposta de crise dos manejos tradicionais acelerados com práticas preservacionistas do meio ambiente. Esta ameaça estimulou pesquisadores de diversas áreas a realizarem estudos sobre estes conflitos entre preservacionistas e caiçaras.

Antônio Carlos Diegues, um dos autores que publicou diversos textos sobre o tema em questão realizou pesquisas com comunidades caiçaras da Mata Atlântica e reuniu artigos de diferentes pesquisadores em um livro denominado: Enciclopédia Caiçara, O Olhar do Pesquisador. Os artigos tratam de diversos problemas envolvendo caiçaras tradicionais, unidades de conservação, turismo e urbanização. Há diversos relatos de perdas culturais, como o fim das festas, danças e músicas locais, fato este verificado em trabalho de campo da presente pesquisa, na área de estudo. Neste livro, o organizador, Antônio Carlos Diegues, explicita o papel dos caiçaras na conservação ambiental local, e da fragilidade que se encontra a existência desta cultura:

“As comunidades caiçaras passaram a chamar a atenção de pesquisadores e de órgãos governamentais mais recentemente em virtude das ameaças cada vez maiores à sua sobrevivência material e cultural e pela contribuição histórica que essa população tem dado à conservação da biodiversidade, por meio do conhecimento sobre a fauna e flora e os sistemas tradicionais de manejo dos recursos naturais de que dispõem.” E ainda: “Essas iniciativas na área ambiental, caracterizadas por grande esforço de pesquisas inovadoras partiam do pressuposto que os caiçaras não eram adversários da conservação, mas seus aliados com base na constatação de um grande cabedal de conhecimento acumulado sobre a biodiversidade da floresta e do mar, e de engenhosos sistemas tradicionais de manejo.” (Diegues, 2002)

Podemos então identificar um processo de reestruturação espacial, ambiental e sócio-cultural, que afeta tanto o ecossistema local quanto a cultura tradicional caiçara. Esta reestruturação tende a causar descaracterização da cultura local, e diversas mudanças no modo de vida, nas relações de troca, nos fluxos demográfico, transformando tanto a paisagem, as formas fixas, quanto à organização espacial como um todo.



OBJETIVOS:

O presente trabalho possui como objetivo analisar os modos de vida e de produção das comunidades caiçaras a fim de avaliar a funcionalidade de seu manejo do ambiente local na sustentabilidade do ecossistema da mata atlântica. A pesquisa identifica mudanças no modo de vida das comunidades costeiras da Juatinga, provocadas pelo processo de reestruturação sócio-cultural e ambiental, no intuito de compreender dinâmicas culturais e alterações nas relações dos caiçaras com o ecossitema local, seu território. A agricultura, vista sob óticas ecológicas, sociais, culturais e da saúde nutricional, recebe um enfoque especial na medida em que essa atividade expressa uma ligação importante nas relações de identidade e manejo ambiental. Assim também é o extrativismo, analisado aqui com menor enfoque, mas que expressa em grande intensidade o conhecimento tradicional local, e sua contribuição para o manejo ambiental sustentável.

Considerando a importância da articulação local com o global, sem causar sobreposição cultural, a pesquisa avalia inovações técnicas, como a agroecologia, como uma possível forma de adaptação aos novos contextos culturais, ambientais e institucionais, e como mecanismo de melhorar a resiliencia cultural e ecológica das comunidades praianas. E ainda como forma de amenizar os atuais conflitos de sobreposição territorial, de UCs, e espaços tradicionalmente vividos.

Na medida em que este objetivo demandar uma serie de estudos aprofundados para ser alcançado, este trabalho pode ser considerado restrito devido a sua superficialidade. Intenciona, porém contribuir ao passo que reúne elementos de distintas pesquisas envolvendo tal objetivo, observações e pesquisas realizadas em trabalho de campo, sob as óticas de uma geografia integrada.



METODOLOGIA

A metodologia desenvolvida fundamentou-se em pesquisa bibliográfica envolvendo diversos focos da pesquisa, como a cultura caiçara, Unidades de Conservação, ecologia, agricultura, agroecologia, entre outros. Outra etapa de extrema importância foi a realização de um trabalho de campo na região costeira da Reserva da Juatinga, visitando comunidades caiçaras de diferentes características. Durante o trabalho de campo, foram feitas observações diversas, e aplicadas entrevistas semi-estruturadas (abertas) com caiçaras das comunidades. Na maioria das praias, foram entrevistados os moradores mais antigos, de modo a resgatar as lembranças dos tempos antigos, ou seja, de maior isolamento e autonomia alimentícia, onde as praticas agrícolas possuíam maior valor sendo realizadas de forma mais intensa. Muitas vezes, haviam outros moradores de idade jovem que também participavam da entrevista, realizada tanto de modo individual quanto coletivo (com um individuo, um casal, ou um grupo de caiçaras). Entrevistou-se também alguns jovens individualmente, a fim de compreender percepções atuais do modo de vida caiçara.



BASE TEÓRICA: CONCEITOS E TERMOS ABORDADOS

Cabe, para a compreensão do trabalho, explicitar a intenção de alguns conceitos abordados, como o de sustentabilidade, resiliência, biodiversidade, comunidades tradicionais, e o de modos de vida.



SUSTENTABILIDADE

A sustentabilidade é um termo amplamente utilizado na atualidade, tanto em meios científicos, políticos, quanto na mídia. Sua apropriação é porem amplamente diversa, e muitas vezes vaga. Há de se levar em consideração que o termo pode se associar a diversas visões. Economistas podem considerar uma situação, ou um sistema sustentável, enquanto ecologistas, ou antropólogos negam tal caráter de sustentabilidade. Esta pesquisa utiliza o conceito de sustentabilidade sob óticas principalmente ecológicas e culturais, concebendo a cultura como um elemento ecológico do sistema. Compreende-se o conceito enquanto a propriedade do sistema (neste caso, ecossistema ao se tratar da mata atlântica) de conservar a funcionalidade ecológica a partir das leis de sustentabilidade sugeridas por Capra (teia da vida) e adaptadas nesta pesquisa: diversidade (de espécies e de culturas), fluxos cíclicos de matéria e energia (nutrientes, água, biomassa..), reciclagem, cooperativismo, auto-organização, interdependência e relações em rede.



RESILIENCIA

De acordo com Begossi (????), a resiliencia é um conceito ecológico ligado à sustentabilidade, representa a habilidade do sistema para manter sua estrutura e funções de distúrbio. O termo descreve a velocidade com a qual uma comunidade retorna ao estado de referencia, ou sua capacidade de absorver as mudanças. Uma resiliencia alta significa retornos rápidos às condições normais após perturbações, e alta resistência a estas. Caracteriza-se por eventos afastados do equilíbrio, pressionando as fronteiras da estabilidade. Sendo uma idéia relacionada à sustentabilidade, apresenta alto grau de adaptação e variabilidade. Holling (1992, retirado de Begossi, 2003) Identificando ciclos organizados por quatro forças: exploração, conservação, libertação (ou desprendimento) e organização, descreve a resiliencia como sendo a seqüência do desprendimento e reorganização. Berkes e Folks (1998, retirado de Begossi, 2003), resiliencia é uma medida da magnitude de distúrbio que pode ser absorvido antes do sistema modificar suas estruturas, podendo ser uma medida da capacidade de amortecimento do sistema.

A apropriação do conceito de resiliencia nas discussões de sustentabilidade de comunidades tradicionais é relevante na medida em que, de acordo com as idéias de Begossi (????), a resiliencia do sistema ecológico é incrementado devido aos moradores locais serem manejadores de recursos naturais, diferente dos casos onde o manejo é oficial, realizado pelo estado, mas sem fronteiras e supervisões claras e efetivas. Seguindo Folk, 1998, retirado de Begossi (????), comportamentos culturais podem contribuir para a resiliência ecológica via práticas que incrementam a biodiversidade ou evitam a sobre exploração.

BIODIVERSIDADE: (bio = vida; diversidade= variedade)

Entende-se biodiversidade como a “variedade de seres que compõem a vida na terra (espécies de plantas, animais e microorganismos), seus genes e os ecossistemas dos quais eles fazem parte. As pessoas e suas diferentes raças e culturas também fazem parte da biodiversidade, e para essa variedade dá-se o nome de sociodiversidade.”(Guia do Educador, 2005)

A biodiversidade é essencial na conservação do ecossistema, garantindo sua riqueza genética. Capra (teia da vida) identifica a biodiversidade como uma importante lei da sustentabilidade ecológica, uma das essências da auto-organização dos ecossistemas. Capra descreve a diversidade como diversas ligações, muitas aproximações diferentes para o mesmo problema. Desta forma, uma comunidade diversa tem a possibilidade de se adaptar a situações de mudança, garantindo sua resiliencia. Segundo o autor, a diversidade é uma vantagem estratégica, mas é de extrema necessidade que haja uma rede de relações, e um fluxo de informação por todas as ligações da rede. Begossi, baseado em Tilman (1997), expõe que os ecossistemas mais diversos possivelmente são mais resistentes às perturbações, apresentando menores mudanças nas respostas às perturbações. À medida que as perturbações são comuns nos sistemas ecológicos e populações em estado de equilíbrio não são usuais (Rosenzweig, 1995, retirado de Begossi, 2003), é de grande importância levar em consideração a resiliencia, e portanto a biodiversidade, para a conservação de ecossistemas.

Os corredores ecológicos são uma importante estratégia ambiental na medida em que possibilitam e viabilizam esses fluxos informacionais, podendo-se incluir fluxos genéticos, de matéria, energia e espécies, garantindo a conservação da biodiversidade. Dentro de uma Unidade de Conservação, visto que esta é composta por fragmentos internos de floresta primária, isolados por florestas secundarias, e as vezes capoeiras, torna-se necessário viabilizar os fluxos informacionais entre essas áreas clímax restritas, garantindo sua resiliência.



COMUNIDADES TRADICIONAIS

Diversas são os autores que utilizam os termos comunidades tradicionais, populações tradicionais, utilizado e divulgado inclusive pelo SNUC, para destacar Antonio Carlos Diegues, Mauro Almeida, Neide Esterci. Cada autor, porém, trata o termo com visões distintas, abrangendo ou excluindo diferentes padrões culturais. Alguns, por exemplo, incluem comunidades indígenas entre as tradicionais, como os autores da perspectiva marxista que associam culturas tradicionais a modos de produção pré-capitalistas, outros excluem populações indígenas da categoria de população tradicional, como Mauro W. B. Almeida & Manuela Carneiro da Cunha. Diegues (1998) menciona que para os neomarxistas, culturas tradicionais são as que se desenvolvem dentro de um modo de produção da pequena produção mercantil. Para o autor, as comunidades tradicionais estão relacionadas com um tipo de organização econômica e social com reduzida acumulação de capital, não usando força de trabalho assalariado. Há o predomínio de atividades econômicas de pequena escala, como a agricultura e pesca de subsistência, coleta e artesanato. Outra característica importante é a combinação de diversas atividades econômicas, que se auto complementam, e se alternam, obedecendo aos ciclos naturais de reprodução.

Diegues (1998) aborda diversas características comuns que determinam as populações tradicionais, dentre as quais cabe destacar: Conhecimento aprofundado da natureza e de seus ciclo, refletindo na elaboração de estratégias de uso e manejo dos recursos naturais, sendo este conhecimento transferido por gerações via oral; Noção de território enquanto espaço onde o grupo social realiza reprodução social e econômica; Moradia e ocupação do território por varias gerações (historicamente); Importância das atividades de subsistência; Importância das simbologias, mitos e rituais; Tecnologia utilizada sendo relativamente simples, de impactos limitados sobre o meio ambiente, sobressaindo técnicas artesanais; Auto-identificação pelos outros de se pertencer a uma cultura distinta das demais.

Esterci, Lima & Léna (2002) advertem para a fragilidade do uso do termo a medida que envolve representação e questões políticas. Os autores aconselham que

“os critérios ambientais utilizados para definir esses segmentos devem ser interrogados pelos cientistas sociais (...) na medida em que servem tanto para legitimar quanto inibir ações políticas, financiamentos ou projetos diverso, podendo incluir ou excluir parte da população.” E ainda que “ (os conceitos) são estratégias de reconstrução de identidades, e de acesso a recursos e a políticas publicas”

A idéia preponderante que se associa ao termo de comunidade tradicional é a de identidade. O termo passa a ser apropriado a partir de uma auto/reafirmação identitária entre os membros da comunidade, e para com o seu território. A noção de território também se integra profundamente à idéia de comunidade tradicional, à medida que a existência das comunidades se associa a uma determinada porção de terras, relativamente delimitada por suas atividades e vivências, na qual os indivíduos se apropriam dos recursos naturais contidos e realizam sua reprodução social e cultural, seus rituais e suas ações cotidianas, de forma a criar forte identidade com este espaço, o território, que por sua vez auto-afirma a identidade comunitária. O termo passa então a ser manipulado politicamente, funcionando como instrumento de luta.

Para esta pesquisa então, considerando as comunidades caiçaras enquanto tradicionais, o termo será apropriado a partir da noção de identidade territorial que tal comunidade possui com o espaço que ela reside e realiza suas atividades, sendo estas atividades relacionadas aos recursos naturais locais, de baixo impacto. Leva-se ainda em consideração a ocupação histórica e predominância de valores, padrões e praticas com baixas influencias urbanas, e dos elementos da globalização enquanto homogenizadora de culturas.

MODO DE VIDA

De acordo com Begossi (2003), o conceito de livelihood, similar à concepção de modo de vida, associa-se com conceitos ecológicos, assim como diversidade, resiliencia, estabilidade, complexidade e territorialidade, de modo a analisar as interações entre as pessoas e o ambiente. Estes conceitos ecológicos aproximam modos de vida à manejo local. A autora acredita que livelihood é um conceito que tem mostrado aplicações práticas, por estabelecer ligações entre as diversas atividades humanas, incluindo o uso de recursos naturais. Baseando-se em Soussan, 1999, Begossi expõe que este conceito ajuda a compreender fatores que influenciam a vida e o bem estar das pessoas, é baseado nas dinâmicas de vivencia e nos meios para obter bens e serviços.

Modo de vida caiçara, é entendido por DIEGUES (2004), como “forma pela qual as comunidades praianas ou praieiras do sudeste organizam a produção material, as relações sociais e simbólicas dentro de um determinado contexto espacial e cultural.”

O modo de vida caiçara, e sua reprodução cultural, fundamenta-se na complementaridade de diversas atividades cotidianas praticadas coletivamente pelos membros das famílias, em sua maioria atreladas aos recursos naturais locais. O modo de produção, igualmente baseado em recursos naturais locais é de baixo impacto ambiental, se apropriando de baixa tecnologia. Os praianos utilizam basicamente ferramentas manuais, algumas adquiridas em centros urbanos e algumas fabricadas manualmente por eles mesmos. Suas atividades tradicionais são principalmente voltadas para o consumo familiar (o que muitos chamam de subsistência). Há ainda uma pequena produção de mercadorias (artesanato, farinha, alimentos da roça, peixe) a ser comercializado com fins de adquirir, em geral nos centros urbanos, necessidades básicas não atendidas localmente. A agricultura, pesca, extrativismo, caça e artesanato são elementos essenciais da cultura caiçara, e refletem heranças das origens genéticas e culturais, os indígenas litorâneos.



ARTESANATO

O artesanato serve principalmente de base para as outras atividades. Conhecimento este transmitido de formas tácitas (baseados na oralidade e na pratica, e não na escrita), os filhos aprendem a fabricar tapitis, balaios, vassouras, esteiras, cachimbos de barro, entre diversos outros artefatos a partir do aprendizado com parentes, em geral os pais, avós e tios. O tapiti é uma forma de cesto insubstituível na produção manual de farinha de mandioca pelos caiçaras. Alem de artefatos pequenos, os caiçaras tradicionalmente constroem estruturas diversas e criativas para atender as necessidades familiares, como casas de pau-a-pique, moedores de cana, ranchos beira-mar, canoas “puxadas” do mato, remos, redes de pesca, entre outros, utilizando fundamentalmente elementos naturais locais.



EXTRATIVISMO

O extrativismo é um fator de extrema importância no estudo da territorialidade dos caiçaras, das relações deles com a floresta enquanto ecossistema local, e desta cultura enquanto elemento de conservação ambiental. Grande parte do arcabouço de saberes tácitos desenvolvidos e transmitidos historicamente, acerca da flora local, de suas características e propriedades, estão associadas às atividades extrativistas. Além da identificação, localização, usos medicinais e não medicinais, os caiçaras aprendem as técnicas adequadas para a extração e utilização das plantas. A atividade envolve cuidados com a regeneração das espécies, preservando “mães” e “jovens”, como na retirada do cipó Tinopeba para a produção de Balaio. Essa forma de manejo dos elementos naturais reflete uma preocupação dos caiçaras com a conservação da floresta.

Essa consciência também se reflete na analise dos nichos ecológicos desta população. Do ponto de vista da agricultura e da habitação, o nicho ecológico dos caiçaras é mais restrito, englobando quintais, roçados e a praia, áreas em geral de floresta secundaria e capoeira. Somando a pesca, podemos incluir uma extensa área marítima, de característica relativamente variável (estudos e informações sobre pesca foram menos exploradas nesta pesquisa). O extrativismo estende a vivencia e a afetividade da população com o ambiente para áreas mais amplas, no interior da mata, penetrando florestas primárias. É através principalmente destas atividades extrativas, além da caça, que as florestas em estágios avançados de sucessão ecológica constituem espaço vivido dos caiçaras. E portanto, analisando sob óticas simbólicas e de apropriação do espaço, as florestas podem ser vistas enquanto território destas comunidades praianas. Haesbaert (2002) comenta sobre essa visão de território em seu livro territórios alternativos, “território como fruto de uma apropriação simbólica, especialmente através das identidades territoriais, ou seja, da identificação que determinados grupos sociais desenvolvem com seus espaços vividos.” Diegues (2004), ao comentar sobre o território caiçara, porem de forma mais ampla, englobando todo o litoral de sudeste à sul do país, destaca a concepção de território por Godelier, expressando uma concepção apropriada às idéias aqui defendidas:

“O território pode ser definido como uma porção da natureza e espaço sobre o qual uma sociedade determinada reivindica e garante a todos, ou a uma parte de seus membros, direitos estáveis de acesso, controle ou uso sobre a totalidade ou parte dos recursos naturais aí existentes que ela deseja ou é capaz de utilizar (Godelier, 1984) essa porção da natureza fornece, em primeiro lugar, a natureza do homem como espécie, mas também os meios de subsistência, os meios de trabalho e produção e os meios de produzir os aspectos materiais das relações sociais, aos que compões a estrutura determinada de uma sociedade (relações de parentesco, etc)(Godelier, 1984)”

Os caiçaras desenvolveram uma identidade com a floresta que reflete esta territorialidade. As relações existentes entre os caiçaras com áreas de uso restrito e mais intensivo do solo (roçado, capoeiras e florestas secundarias) se distingue das relações estabelecidas com áreas de floresta primaria. Áreas estas onde a amplitude e o caráter esporádico de uso reflete cuidados e consciência com a conservação das florestas primarias, tratadas como fontes de produção (elementos extraídos), fontes de reprodução (por conter alta variedade de espécies e sementes), e essenciais a manutenção dos ciclos ecológicos, como de nutrientes, mantendo fertilidade do solo, e ciclos hídricos, mantendo a abundancia de água nos canais de drenagem.

AGRICULTURA – A ROÇA CAIÇARA

A agricultura é historicamente um elemento essencial da tradicional cultura caiçara, incorporando todos os membros da família, crianças, jovens, adultos, idosos, homens e mulheres, envolvendo quase todo o calendário anual (apesar da dedicação variar com a sazonalidade, assim como as etapas). Como herança indígena, os caiçaras praticam a agricultura itinerante (chamada também de roça de toco ou coivara), que consiste em ciclos de cultivo e pousio, onde as áreas de roçado mudam geralmente em períodos de 2 a 3 anos. Seguindo Adams (2000) o sistema da lavoura agrícola tradicional brasileira, onde se insere a lavoura caiçara, enquadra-se na definição de pousio florestal, de acordo com a classificação dos estágios agrícolas de E.Boserup (1987)

O processo se inicia com a escolha de local de mata para abertura de novo roçado, de preferência em áreas de baixa declividade (as vezes porem nem sempre possível). Em geral as áreas utilizadas são de capoeira, ou, em menos casos, de floresta secundaria, pois a sua “limpeza” (retirada da cobertura vegetal) é mais fácil que em áreas de floresta primaria. O tamanho da área é variável, devido a diversos fatores como numero de indivíduos por núcleo familiar, produtos desejados, fertilidade do solo, etc...

Primeiramente é realizada a retirada de madeiras utilizadas, e posterior ocorre a derrubada de arvores em geral (desmatamento). A área é deixada para secar, ate que esteja em estado ideal para ser queimada. A queima é uma técnica utilizada para facilitar a “limpeza” da roça nova, e ao mesmo tempo incorporar ao solo de forma rápida os nutrientes contidos nas plantas, que se disponibilizam sob a forma de cinzas. Este processo permite a safra resultante do cultivo de um ou dois ciclos curtos de produção alimentícia, nos padrões caiçaras, onde a mandioca tem destaque acentuado.

Os roças caiçaras apresentam variações em cada família, mas também semelhanças. O cultivo principal é a mandioca, para a produção de farinha. Em menores quantidades, ocorre geralmente a produção de outros alimentos, como a batata doce, feijão, melancia, aipim, banana, abacaxi, taioba, jerimum (abóbora), cana de açúcar, entre outros. A variedade de produção muda para cada família, assim como as estruturas de produção. Em algumas roças cada cultura possui seu espaço delimitado, as plantações são separadas. Em outros porém, ocorre o que alguns chamam de “plantar em consórcio, tudo junto”, as culturas as vezes se misturam, as plantações não tem limites definidos e as vezes se intercalam. Esta mistura porém é parcial, devido ao fato da mandioca necessitar alta intensidade de luz solar. A plantação de mandioca geralmente é exclusiva, mas pode ocorrer de haver uma fileira de abacaxi nas bordas, e um pé de jerimum no meio. Ou ainda áreas onde se planta feijão, melancia e abóbora, sem limites definidos entre as plantações.

Após dois ou três anos de cultivo, há uma queda de produtividade do solo, devido à exaustão dos usos exclusivos (não foi verificada a ocorrência de rotação de culturas). Ocorre a interrupção momentânea dos ciclos de nutrientes, estes são por um período de tempo apenas retirados do solo, sem ocorrer uma reposição para manutenção dos balanços normais. A cultura exclusiva acentua a queda da fertilidade, na medida em que ela retira os nutrientes de uma mesma e única camada de solo, pois as raízes possuem profundidades homogêneas.

Estas áreas são então abandonadas e entram no período de pousio, cuja duração é muito variável, em geral de 5 a 50 anos. Através da sucessão ecológica natural, as clareiras são ocupadas por espécies pioneiras, como as samambaias, e tendem a se tornar áreas de capoeira. Após um período de tempo, e dependendo também de uma diversidade de fatores como proximidade de áreas fontes de sementes (e variedade de espécies dessas áreas), declividade, entre outros, as áreas de capoeira tendem a se transformar em áreas de mata secundaria, com presença predominante de espécies secundarias.

Rogério Ribeiro de Oliveira (1999) realizou uma tese de doutorado onde analise a sustentabilidade e funcionalidade da mata atlântica sob o manejo caiçara, a partir de estudos sobre a sucessão ecológica desenvolvida em roças abandonadas. Utilizando a Ilha Grande, localizada no município de angra dos reis, litoral sul do estado do Rio de Janeiro, como área de estudo, o autor teve como objetivo verificar como os caiçaras vem manejando o meio ambiente através de suas praticas agrícolas seculares. Sua conclusão foi de que a população caiçara promove conservação dos mecanismos de sustentabilidade da mata atlântica. O autor destaca para a importância de desmitificar a idéia de floresta virgem, pois esta consiste num resultado de manejo histórico dos povos primitivos, e não em matas intocadas. Para ele, a paisagem atual da Ilha Grande, assim como as características físicas e químicas dos solos e florestas, é provavelmente o resultado de usos e manejos seculares de pretéritos habitantes indígenas cuja ocupação é evidenciada. É possível que estes povos praticassem atividades agrícolas semelhantes às tradicionais agriculturas itinerantes atuais, a medida que são, em parte, antepassados culturais. O autor levanta a hipótese do estabelecimento de um processo de co-evolução sistêmica entre os sistemas florestais e antrópicas:

“A atual estrutura e composição da floresta/vegetação, bem como a funcionalidade do ecossistema estão relacionadas com eventos ocorridos no passado, ligados às intervenções antrópicas, que provocaram uma forte conexão de fluxos entre floresta e a agricultura. Os grupamentos humanos (...) também podem ter tido aspectos de sua cultura e estrutura moldados pelos condicionantes do ambiente, sendo a densidade das roças nas encostas e das moradias em tempos passados um exemplo disto” (Oliveira, 1999)

Oliveira analisou áreas de antigas roças caiçaras, com distintas idades sucessionais (anos contados a partir do abandono da roça). A área de 5 anos é identificada como capoeira, com predominância de espécies pioneiras, e baixas diversidades (26 espécies em 5,6 m²/ha). As áreas de 25 e 50 anos possuem dominância de espécies secundarias iniciais e tardias, com diversidade media (respectivamente: 70 espécies em 26,3 m²/há e 63 espécies em 32,3 m²/há). Foi analisada ainda uma área de floresta clímax, onde havia a predominância de espécies climácicas (143 espécies em 57,9 m²/há).

Oliveira utilizou como metodologia para verificar a conservação dos mecanismos de sustentabilidade das florestas pelo manejo caiçara (entre outras metodologias), a avaliação da eficácia de alguns mecanismos de conservação e captura de nutrientes, por meio do estudo da água de chuva interceptada pelas copas em cada estádio, e também a dinâmica de produção e de estoque da serrapilheira. A partir da analise do ciclo de nutrientes, que determinam a fertilidade do solo, e da presença de espécies pioneiras, secundarias e climacicas pode-se verificar o desenvolvimento dos ciclos de regeneração florestal e sucessão ecológica. A analise do ciclo de nutrientes é importante na medida em que o autor adverte que a disponibilidade de nutrientes é um fator de natureza crítica para o funcionamento do ecossistema de floresta tropical: “a maioria dos solos das regiões tropicais encontra-se sob elevada intemperização, o que leva à dominância de colóides de muito baixa capacidade de troca de cátions, acarretando uma baixa fertilidade natural, acentuada pela perda constante de bases durante o seu processo de formação (RAMOS, 1991)” segundo Oliveira, a entrada de nutrientes nas florestas tropicais pode ser feito por 3 vias:


  1. atmosférica – chuvas, orvalho, neblina..

  2. biológica – ganhos e perdas de matéria viva

  3. geológica – decomposição de rocha matriz

Em relação à perda de nutrientes, a água constitui o principal agente transportador de massa do sistema e os rios representam sua saída. No cultivo de produtos agrícolas, ocorre a perda de nutrientes através da incorporação nos alimentos cultivados, que não retornam aos solos pois são retirados para consumo em ambiente externo. A ausência da serrapilheira na roça contribui para a perda de fertilidade do solo. Segundo Oliveira, a serrapilheira possui um comportamento acumulador, onde todos os elementos bióticos e abióticos do ecossistema estão potencialmente representados, sendo sua composição química reflexo do sistema. O autor destaca a importância da serrapilheira nos ciclos nutricionais

“muitos autores consideram-na como o mais importante mecanismo para a ciclagem direta e para a captura de nutrientes. A maioria dos nutrientes não é lixiviado para o solo, mas transferido diretamente para as raízes localizadas no topo do solo e na camada da serrapilheira chamada “ciclagem direta”. Neste processo, as micorrizas (fungos que crescem entre as raízes e a serrapilheira) representam um papel destacado na transferência de nutrientes” Oliveira (1999)

Outro papel de destaque da serrapilheira é em relação à drenagem, ao estocar água da chuva, ela diminui a lixiviação dos nutrientes do solo (alem de estocar consequentemente os nutrientes da própria água da chuva). Contribui ainda para diminuir o escoamento superficial do tipo hortoniano (quando a água da chuva excede a capacidade de infiltração) por favorecer uma infiltração mais controlada. Alem de evitar a compactação e selagem (salpicar do solo com gotas, selando os poros) do solo, processos estes que diminuem a capacidade de infiltração da água. Sendo assim, a serrapilheira tem uma importante função de evitar, ou diminuir, processos erosivos, minimizando a perda de nutrientes.

Adams (2000) e Oliveira (1999) enxergam no ciclo de nutrientes a base da sustentabilidade da agricultura itinerante caiçara. No estudo de Oliveira, podemos encontrar resultados de analise cientifica comprovando a conservação dos nutrientes no sistema de manejo caiçara:

“Nas 3 áreas verificou-se a presença e atuação dos seguintes mecanismos de captura e conservação de nutrientes: a) rápida decomposição e liberação de nutrientes da serrapilheira; b) retranslocação de fósforo antes da abscisão das folhas; c) grande biomassa de raízes associadas à serrapilheira e ao topo do solo e d) eficiência na retirada de nutrientes da chuva pela copa das arvores.”

Adams explica as alterações químicas no ciclo de nutrientes com a queimada e o roçado, e sua posterior reorganização, com a sucessão ecológica resultante do pousio:

“A biomassa presente na floresta contem nutrientes minerais que são mobilizados durante a queima. O nitrogênio e o enxofre são voláteis e se perdem na fumaça, mas outros nutrientes permanecem disponíveis às plantas nas cinzas que se formam. A matéria orgânica do dolo é reduzida em aproximadamente 25%. As espécies herbáceas utilizadas nas culturas agrícolas possuem raízes curtas, que capturam os nutrientes das camadas superficiais. A queda na produção ocorre quando estes nutrientes são incorporados à biomassa (cultura) em formação, ou são lixiviados, perdidos por erosão superficial ou simplesmente tornam-se inacessíveis. O solo torna-se mais acido, conforme há um decréscimo nos nutrientes sob a forma de cátions e o alumínio torna-se solúvel na forma AL+3. Este íon é tóxico para as plantas, especialmente para aquelas utilizadas nos cultivos. Alem disso o fósforo, nutriente primordial, combina-se rapidamente com o alumínio em composto insolúveis, tornando-se indisponível às plantas cultivadas.” (Adams, 2000)

A autora comenta ainda que as espécies arbóreas nativas secundárias que vão se instalar após o abandono e formação de capoeira são menos sensíveis aos solos ácidos e ao alumínio solúvel, na medida em que as micorrizas de suas raízes possivelmente aproveita melhor os nutrientes desmobilizando o fósforo. Possibilitam ainda uma retirada de nutrientes de camadas mais profundas do solo devido suas raízes serem mais profundas. Concomitante ao restabelecimento da floresta, a biomassa incorpora progressivamente os nutrientes, de forma mais acelerada no inicio do processo. Oliveira observa que o desenvolvimento da estrutura de ciclagem formada por raízes finas e pela serrapilheira é extremamente rápida nas etapas iniciais do pousio, onde a massa de serrapilheira de uma capoeira de 3 ano equivale a da floresta de 150 anos. E ainda identifica a semelhança nas composições químicas, de fósforo, magnésio, potássio e sódio.y

O caráter migratório da agricultura caiçara é de extrema importância na conservação das propriedades de fertilidade do solo a longo prazo. O autor cita vantagens do sistema de pousio, base do manejo tradicional dos praianos dentre as quais destaco aquela relacionada ao ciclo de nutrientes: o sistema de pousio possibilita a formação da capoeira e a translocação dos nutrientes do solo à superfície, através da formação e decomposição da serrapilheira.

Seguindo Oliveira é a estrutura de ciclagem formada por raízes e serrapilheira que permite a recomposição do solo exaurido sem a adição de adubo. Adiciona ainda que é durante o período de pousio que a fauna edáfica se recompõe.

Através dos métodos de produção baseado no pousio, os caiçaras desenvolveram um sistema agrícola cuja sustentabilidade ecológica é evidenciada pela manutenção da produtividade ao longo do tempo e pela não utilização de insumos externos (Oliveira, 1999). Muitas vezes este pousio é acompanhado pelos agricultores, como retrata Adams (2000) “a observação do processo sucessional e das espécies que aí se instalam permite aos agricultores avaliar a fertilidade do solo da área abandonada e o numero de anos necessários de pousio.”, e em alguns casos, ainda há um aproveito alimentício de algumas espécies cultivadas que permanecem na capoeira, como a mandioca, o feijão guandu. Este método pode ser então avaliado não apenas como abandono de antigas roças, mas sim como formas de manejo ambiental.

De acordo com Oliveira, a entrada de espécies nos estágios iniciais, primeiros anos de pousio, é tipicamente por rebrota de tocos, já que durante o período de implementação da roça caiçara, estes são mantidos vivos e fisiologicamente atuantes, constituindo a fonte inicial de colonização do sítio. Ulh et al. (1988), lido em Oliveira (1999), verificaram que a rebrota a partir de tocos e estolões, em áreas de uso leve, é a principal fonte de entrada de espécies no processo de regeneração da área. Fato este não verificado no uso do solo associado à pastagem, e presença de gado, atividade esta que tem efeitos muito maiores e mais prolongados, dificultando o processo de sucessão. Cerca de 90% das espécies da área de 5 anos surgiram da rebrota, e não por recrutamento do banco de sementes do solo, levando o autor a concluir que este fator inicial interfere diretamente na composição da guilde das espécies pioneiras e colonizadoras. Sendo assim, a estrutura da vegetação que se desenvolve a partir da sucessão ecológica durante pousio reflete o manejo caiçara, na medida em que:

“Em um recorte temporal e espacial mais amplo, pode-se considerar a cultura caiçara responsável pela seleção de espécies e tipos ecológicos especializados na ocupação de espaços abertos, ou seja, pool de espécies pioneiras e secundarias iniciais disponíveis” Oliveira (1999)

Em relação à presença de espécies de grupos funcionais, pioneiras, secundarias iniciais e tardias e climáxicas, podemos verificar a partir da analise do Gráfico 1, retirado de Oliveira (1999), que o retorno funcional e estrutural da floresta secundária à floresta climácica parece ser lento. Sob óticas do próprio autor, o incremento de espécies climácicas da área de 25 para a de 50 anos é baixo (de 4,2% para 6,3%, respectivamente), dando a impressão de que estas duas áreas permanecerão com a presente composição de grupos ecológicos por muito tempo.





Gráfico 1..........................................................................FONTE: Oliveira, 1999

Oliveira observou que o recrutamento de espécies climacicas nas áreas secundarias é baixo, devido em parte a estas áreas encontrarem-se afastadas de fontes de propágulos de mata climácica. Ocorre ao longo da historia ambiental uma transformação de áreas climácicas em secundarias, o que, para o autor, pode ter provocado a extinção de numerosas espécies endêmicas. Isso pode ter uma tendência de aumentar o tempo de permanência das florestas na situação de clímax antrópico, ou seja, florestas resultantes da co-evolução sistêmica. Os reduzidos enclaves de floresta primaria aparentemente não lograram direcionar a sucessão das áreas alteradas e podem ser descaracterizados de sua condição prístima (Oliveira, 1999).

Além de Oliveira, muitos autores, como Cristina Adams ressaltam o caráter sustentável e produtivo da forma de manejo baseado em pousio:

“Sabe-se, hoje em dia, que a agricultura itinerante praticada da forma tradicional é uma forma sustentável, que pode continuar indefinidamente nos solos pouco férteis encontrados sob a maioria das florestas úmidas, contanto que a capacidade de suporte da terra não seja excedida” e ainda “A rotação das terras ao invés das culturas impede, por exemplo, a propagação de pragas, doenças e plantas invasoras, características de um ambiente sempre úmido em que não há uma estação fria ou seca.” (ADAMS, 2000)

A autora adverte, no entanto, para os limites da agricultura itinerante, onde a capacidade de suporte do ambiente não tolera “mais do que 10 a 20 pessoas por Km². A sustentabilidade da agricultura itinerante se restringe a contextos de baixa densidade populacional e organização espacial das famílias baseadas na dispersão.

“Qualquer excesso na redução do período de pousio ou no aumento do tempo de plantio, situações de ocorrência provável quando há aumento populacional e, portanto, na demanda por terras, pode colocar este equilíbrio a perder (Altieri, 1989; Whitmore, 1990)” (ADAMS, 2000)

Outra característica de sustentabilidade da agricultura itinerante, e de pousio praticada pelos caiçaras é que eles poupam matas clímax, como retrata Adams (2000)“Agricultores itinerantes normalmente deixam trechos de floresta primaria intactos, de forma a manter espécies úteis e como habitat para os animais que utilizam para caça”. Outra constatação importante do estudo de Oliveira é que não foram identificadas voçorocas e outros processos erosivos nas áreas de estudo, o que evidencia que a cultura caiçara e suas atividades econômicas não deixam cicatrizes no solo.

Em suas conclusões, Oliveira pensa na roça caiçara como um sistema agrícola produtor de um tipo particular de paisagem florestal que mantêm:



  1. sustentabilidade ecológica da exploração agrícola ao longo do tempo

  2. processos erosivos minimizados tanto na fase de plantio como de pousio

  3. mecanismos de captura e conservação de nutrientes ativos em estágios iniciais da sucessão ecológica

  4. tratos de floresta em diferentes idades de regeneração e com numero mais reduzido de espécies

Retrata ainda o fator de resiliência deste sistema agrícola :

“Em uma escala de paisagem há de se destacar que o manejo feito pelos caiçaras parece ser responsável pelo grau de resiliência das formações recentes de capoeira, que apresentam como visto, capacidade de captura de nutrientes atmosféricos semelhantes à de formações climácicas.” Oliveira (1999)



CONTEXTUALIZAÇÃO ATUAL

As características culturais das comunidades caiçaras acima exposto dizem respeito aos seus modos de vida e manejo tradicionais. No entanto, o processo de reestruturação espacial e sócio-cultural pela qual a região da Juatinga passou, assim como a maioria das localidade caiçaras, fez com que grande parte desta cultura exista hoje apenas na memória, no que diz respeito aos seus elementos característicos e representantes. Lembrando que este processo se associa aos diversos fatores comentados no inicio desta exposição, como o aumento do acesso com a abertura de estradas, desencadeando processos de difusão cultural desigual, e substituição de valores e praticas tradicionais caiçaras, pelos padrões urbanos, associados a um modo de vida da sociedade branca ocidental industrial. Complementando a crise dos sistemas de manejo tradicional, surgem as políticas ambientais preservacionistas associadas aos órgãos governamentais ambientalistas.

Durante o trabalho de campo, foi percorrido à pé, através de trilhas, acompanhando a costa litorânea a maioria das praias ocupadas por comunidades caiçaras de toda a Reserva Ecológica da Juatinga. Cada uma apresenta características e graus de conservação ecológica e cultural distintas. Realizamos entrevistas e conversas com alguns dos moradores mais antigos de cada praia, envolvendo na conversa suas famílias, amigos vizinhos, moradores locais de todas as idades. As conversas envolviam questões diversas, em geral sobre costumes e modos de vida anteriores aos processos de reestruturação; as principais mudanças ocorridas e sentidas; atividades e costumes atuais, e as relações com as florestas e rios. As perguntas e a direção das conversas variavam para cada individuo, família ou grupo de moradores entrevistados, de modo a absorver as especificidades de cada situação. Cruzamos no caminho diversas praias pequenas inabitadas, ou com um morador apenas, as vezes caseiros de fazendas de veraneio, as vezes caiçaras tradicionais.

Algumas praias são acessíveis por barco na maior parte do tempo, outras, é preciso esperar o mar amansar totalmente, ficando quase sempre isoladas. A maioria não possui cais para o desembarque direto. Todas se conectam por trilhas de pedestres, ora acompanhando a costeira, ora cruzando vales por entre as matas. As trilhas são em geral intensamente utilizadas pelos moradores locais, onde os fluxos em geral se restringem Às praias vizinhas. Abaixo será exposto as observações gerais realizadas sobre as praias mais habitadas (dentre as visitadas) algumas de forma breve, outras mais aprofundadas, envolvendo tanto questões similares quanto distintas.



SACO DE MAMANGUÁ

O saco de mamanguá, localizado próximo à vila de Paraty Mirim. Famoso por sua singularidade, é conhecido como um “fiorde tropical”, por ser um braço de mar cercado por morros florestados e escarpas rochosas, e também como reduto tradicional caiçara. Suas águas mansas caracterizam-no enquanto berço marinho, sendo local de alta visita de fauna aquática, e ambiente de reprodução. Em seu fundo desembocam diversos rios, formando ambiente de manguezal. Apesar de ambas as costas possuírem diversas praias habitadas por comunidades caiçaras distintas, ele será analisado de forma unificada. Foram visitadas 4 praias do saco, uma na margem direita, a praia grande do mamanguá, outra no fundo, a praia da escola, e duas na margem esquerda, a praia do cruzeiro, onde há muitos moradores e uma associação de moradores, e a praia do engenho.

O Saco de Mamanguá era conhecido pela sua produção de aguardente, farinha de mandioca e pequenas criações de animais domésticos. Essa produção era embarcada em canoas e vendida em Angra dos Reis, Mangaratiba, e destes locais eram trazidas mercadorias (café, banha, carne seca) para vender na região. As relações de troca muitas vezes não envolviam dinheiro. Haviam muitas festas, de santos, onde haviam uma diversidade de canções e danças, como a do tamanco, do caranguejo, a ciranda, todas tradicionais da cultura caiçara.

Processos paralelos, das ultimas décadas, descaracterizou Mamanguá enquanto reduto tradicional caiçara e berço marinho. O Saco passou, cada vez mais a ser visitado por grandes embarcações de pesca artesanal, que realizavam o arrastão, técnica que arrasta toda a fauna marinha com redes, causando fortes impactos ambientais. Ao diminuir drasticamente a os recursos pesqueiros locais, degradando o Saco enquanto habitat, inviabilizando ainda a regeneração da vida, a pesca industrial insustentável acabou com a pesca tradicional, realizada pelos caiçaras por meio de canoas, de forma controlada.

A institucionalização do espaço, com a chegada da Reserva Ecológica, em 1992, criou uma serie de leis e restrições, como a proibição de usos de recursos naturais locais, e das atividades agrícolas. As roças se extinguiram, e atualmente não há mais produção agrícola, salva raras exceções, e pequenos cultivos de hortaliças e frutíferas no quintal. Os moradores entrevistados relatavam a repressão atual do IEF (Instituto Estadual da Floresta), órgão governamental ambiental de maior atuação na Reserva, impossibilitando-os de plantarem e roçarem. A alimentação que era baseada em aipim, batata doce,melancia, laranja, pamonha, produtos da terra em geral, atualmente é suprida através da compra de produtos industrializados em Paraty, pão, biscoito, maçarão, enlatados. A produção de lixo aumentou, e este tende a se acumular pelas dificuldades de transporte do local. Os moradores confessam a preferência pela alimentação do passado:

“Antes tinha de tudo aqui, nas matas, no mar, hoje não tem nada. Hoje agente come comida congelada que faz mal, antes não era assim não, a comida era feita na panela de barro e era muito mais gostosa.” (entrevista com a professora da escola do Saco de Mamanguá, outubro de 2005)

Alguns moradores relataram que o IEF permite exceções nas áreas desmatadas, podendo aí implementarem suas roças. Porém falavam também que estas terras já estavam gastas e inférteis, sendo necessário roçar em áreas de floresta mais desenvolvidas a fim de obter bons resultados. Estas informações são apenas relatos, e associam-se apenas à parte dos moradores, pois outros dizem que tudo que se planta nasce, mas é preciso dedicação. Há grande discordância nas opiniões sobre a produtividade das terras, assunto que será mais trabalhado adiante.

Esses dois fatores contribuíram para mudar intensamente as relações de produção no Saco de Mamanguá. O modo de produção caiçara sustentável baseado na agricultura familiar para consumo e auto-suficiência, foi substituído pela valorização e busca do trabalho assalariado. Com a falta de peixe os moradores abandonaram as atividades de pesca autônoma, buscando empregos relacionados com a vida ou os fluxos urbanos. As maiores possibilidades de acesso possibilitaram o aumento do turismo, desencadeando um processo de construção de casas de veraneios. Muitos caiçaras venderam suas terras à beira-mar para Indivíduos e famílias de alto poder aquisitivo, na maioria dos casos tornando-se caseiros de seus novos patrões, que ali construíram grandes mansões de férias. Muitos moradores são À favor do turismo, a medida que este proporciona dinheiro e emprego local, apesar de confessarem preferirem seus modos de vida antigos, baseados na pesca e agricultura autônomos.

Podemos verificar dois movimentos, as antigas residências caiçaras na praia à beira do mar foram substituídas por casas de veraneio, e transferidas para cima das encostas, como periferia das mansões. Outro movimento foi o Êxodo rural, ao vender suas terras as famílias caiçaras migravam para Paraty, devido às dificuldades de transporte com as novas necessidades não supridas localmente, sentida principalmente pelas famílias de baixa renda.

De acordo com alguns moradores, um dos principais problemas enfrentado é relacionada ao transporte. O acesso se restringe a viagens de barco, e em alguns casos, trilhas demoradas. O isolamento, apesar de ter diminuído parcialmente, piorou com os novos modos de vida, relacionados com o aumento de relações e dependência com a cidade, proporcionando maiores necessidades de condução. Antigamente, com a produção alimentícia e autosustentabilidade, os problemas de isolamento eram outros, que atualmente já estão amenizados, como saúde e educação, com o auxilio das conduções barqueiras disponibilizadas pela prefeitura, para a escola por exemplo.

Na praia visitada no fundo do Saco há uma escola pólo, multiseriada que vai da 1ª à 4ª série. As crianças das diversas praias do “fiorde” estudam cotidianamente, através de transporte de barco financiado pela prefeitura. Há uma horta na escola, que na época da visita estava parcialmente abandonada por falta de adubo. Alem da horta, que possuía pimenta, boldo, abacaxi, abóbora, haviam frutíferas no quintal da escola, como jaca e banana. As crianças porém não participam do trabalho com a horta.

O artesanato, das antiguidades até os dias de hoje é praticado no Saco de Mamanguá. Uma das especialidades, famosas localmente, são os barquinhos de madeira, produzidos manualmente a partir da Caxieta, uma árvore de mangue. O uso da caxieta é permitido pelo IBAMA, apesar de ser retirado dos mangues do fundo do Saco, pois a regeneração é rápida, ao cortar um individuo nascem 5 ou 6 novos.

Alguns moradores idosos relataram que as matas locais, apesar de bem conhecidas pelos antigos, são cada vez menos visitadas, pois o IEF não permite que se utilize nenhum recurso natural local. Os jovens assim, vão perdendo afetividade com a floresta, a medida que as relações vão diminuindo de intensidade e variedade. Com a extinção das roças, os jovens não aprendem a plantar. Os saberes tácitos relacionados à cultura caiçara não estão contidos nos ensinamentos escolares, baseados em padrões de ensino urbanos. Com isso, a circulação dos conhecimentos tradicionais é parcialmente interrompido, os fluxos de informação caiçara diminuem, elementos e saberes culturais podem estar ameaçados de extinção.

Adentrando de barco o Saco do Mamanguá podemos perceber da base de suas encostas, até o meio mais ou menos (variando bastante) dominadas por clareiras, antigos roçados tomados por samambaias e outras plantas pioneiras, e muitas áreas de capoeira. Há presença de muitas palmeiras. Nas praias, os casebres caiçaras se anulam diante dos chamativos resorts de luxo, com seus jardins de grama e paisagismo urbano.



PRAIA GRANDE DA CAJAÍBA

A Praia Grande possui uma beleza notório, com suas águas calmas azul cristalina. Cortada no meio pela desembocadura de um rio, que forma um lago de água espelhada , a praia é rodada por montanhas, que resguardam cachoeiras e florestas preservadas. Enfrenta há algumas décadas um problema intenso de grilagem de terras, associado à um movimento de grilagem que abrange diversas praias da Reserva da Juatinga. Ouvimos, de diversos moradores antigos a historia que envolve a grilagem.

O primeiro grileiro foi o Gibrail, que após atuar na praia do Sono, foi grilando e comprando praia em praia na região, arrumando conflito com os moradores caiçaras locais: Antigos, Antiguinhos, Jaguaíba, Mamanguá, Ilha do Algodão, Praia Vermelha, Boa Vista e Olaria. Ele levava policiais aos locais ameaçando fisicamente e verbalmente os moradores.Através de promessas e mentiras pediam assinaturas em documentos, dos caiçaras que eram em sua maioria analfabetos. Na praia Grande a situação envolveu muitos conflitos entre o grileiro, que chegou a tentar criar búfalos a fim de marcar propriedade, e os caiçaras que relatam já terem suas roças destruídas. Após diversos fatos ocorridos, a tensão foi acalmada, e por fim o Gibrail morreu, deixando porém herdeiros, o Cristiano, grileiro igual o avô.

Ao longo dos conflitos os moradores relataram casos de destruição de roças, falsificação de documentos, e arrecadação desleal de assinaturas. De 23 famílias moradoras, a alguns anos atrás, restaram apenas 3, todas ameaçadas pelo Grileiro neto Cristiano Gibrail. Estes problemas ainda são enfrentados pelos remanescentes. Neste ano tiveram seus ranchos beira-mar derrubados por funcionários do IEF, uniformizados, à ordens de superiores. As praticas de grilagem envolvem ações do órgão governamental, e são protegidas pelo uniforme, autoritarismo e ideologias preservacionistas do IEF. Com a repressão do IEF quanto À construção de casas pau-a-pique, roças e utilização dos recursos naturais da floresta, junto com as ameaças dos grileiros, muitos caiçaras aceitaram vender suas terras e migrarem para a cidade de Paraty, contribuindo com as parcelas regionais de êxodo rural. Na cidade sofrem porem com a falta de adaptação, modos de vida, dinâmicas e relações totalmente distintas das de costume, e tentam voltar para a praia grande. Suas casas foram porem destruídas pelo IEF e pelo grileiro, para evitar o movimento de retorno, englobando-se à pobreza urbana e suas dificuldades.

Alem das casas dos três complexos familiares, estas por sua vez escondidas no interior da vegetação, há uma fazenda gramada, com uma casa grande na beira da praia, visível do mar, pertencente à Cristiano, com placas alertando sobre a PROPRIEDADE PRIVADA. Há esforços constantes em evitar o turismo na praia, por parte de Cristiano, que tenta impedir barcos de desembarcarem turistas na areia. Há placas locais do IEF advertendo para a proibição de acampar na Praia Grande. Estas ações prejudicam os caiçaras, que geram renda a partir de serviços aos turistas como camping e venda de alimentos (bolinho de aipim, peixe preparado, bebidas) e artesanato, como tapetes e cestos. Essas atividades econômicas são de grande relevância na medida em que o isolamento dificulta ganhos financeiros, necessários para suprir bens básicos não produzidos localmente, como combustível, vestimentas, rádios, pilhas.

Todas as 3 famílias que permaneceram na praia praticam agricultura, produzem farinha de mandioca e pescam ou seja, fundamentam suas produções em atividades agrícolas para consumo familiar, mantendo modos de vida tradicional caiçara. Os caiçaras relatam a diferença entre a pesca artesanal praticada por eles e a de barco de pesca comercial. As malhas da rede dos moradores possuem aberturas grandes “para miúdo fugir”, a fim de permitir a passagem de peixes pequenos e filhotes, garantindo regeneração e alimentação, portanto preservação dos peixes maiores. Os barcos maiores possuem redes de aberturas pequenas, capturando estrela do mar, peixe “miúdo”, camarão, e diversos outros elementos da fauna aquática, fundamental para a regeneração do ecossistema. Muitos destes elementos nem chegam a ser aproveitados ou de interesse comercial, sendo desperdiçados, contribuindo ainda mais para a insustentabilidade deste tipo de pesca.

Todas desejam continuar no local. A escola, foi desativada com a diminuição considerável do numero de crianças. Jovens e crianças que permaneceram tornaram-se importantes elementos de reprodução cultural, na medida em que seus aprendizados envolvem técnicas, manejo e conhecimentos tradicionais, transmitidos tacitamente pelos antigos.

CALHÉUS

Olhando a praia do alto, a ocupação humana é bem grande comparada com sua pequena extensão. A pesca é a principal atividade econômica atual, havendo ainda outras como na área de construção, e empregos assalariados relacionados à Paraty. Antigamente os moradores praticavam as tradicionais atividades de produção caiçara, múltipla, complementadoras e sustentáveis. Hoje porem, uma parcela muito pequena de famílias ainda realizam plantações, provavelmente menos de 10%, segundo relatos. O numero total de moradores não é preciso, mas gira em torno de 50 famílias. Os motivos para o abandono da agricultura são os diversos citados anteriormente. A comida é em sua grande maioria comprada em Paraty. O consumo de legumes diminuiu consideravelmente devido à impossibilidade de conservá-los. O de frutas se restringe às poucas arvores frutíferas no quintal.

Alguns moradores diziam que as terras mais próximas “não davam mais”, possuíam pouca produtividade devido ao uso intensivo. Seria, segundo estes, preciso roçar em matas mais desenvolvidas para obter bons resultados. Levando em consideração que a população tem crescido de forma intensa nos últimos anos, talvez podemos relacionar esta insustentabilidade com limites de capacidade de carga locais do ambiente. Como foi proposto nos estudos teóricos, a agricultura itinerante possui limites demográficos, e sua eficácia se restringe à capacidade de resiliência do (eco)sistema, que por sua vez está condicionado à intensidade de perturbações.

POUSO

A situação na praia do pouso se assemelha à de Calhéus. O crescimento populacional nesta praia é porém maior, e mais perigoso. Há cerca de 100 famílias, dentre as quais um numero aproximado de 10 ainda praticam as tradicionais atividades agrícolas. Destes, menos ainda produzem farinha de mandioca manual. Entre os diversos motivos das mudanças, um fator que parece ter sido bem determinante, pelo menos ativando (iniciando) e intensificando o processo, é a repressão do IEF, assim como em Calhéus. As principais atividades comerciais estão ligadas à trabalho assalariado, sendo a área de construção bem significativa. A maioria dos jovens estão se engajando na pesca, e trabalhando “de bico”, como ajudante de pedreiro, carregando material, como caseiros e ajudantes de moradores de Paraty e São Paulo (este último principalmente). A construção se sustenta com as taxas de crescimento populacional da praia. Novas residências são construídas não apenas para novas famílias que se formam internamente, a partir de jovens caiçaras, mas principalmente com novos habitantes externos, muitos de alto poder aquisitivo provindos do meio urbano. Casas de veraneio preenchem cada vez mais a paisagem, descaracterizando de certa forma a tradicional ocupação caiçara, alterando elementos da organização espacial, como as relações de trabalho acima mencionadas.

Apesar de poucos praticarem a tradicional agricultura para consumo familiar auto-sustentável, muitas residências possuem hortas ou pequenas roças de quintal, além de frutíferas, a fim de suprir parcialmente as necessidades alimentícias.



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