As classes de aceleraçÃo e o sucesso escolar- o que faz a diferençA



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AS CLASSES DE ACELERAÇÃO E O SUCESSO ESCOLAR – O QUE FAZ A DIFERENÇA.

Luciane Maria Schlindwein (UNIVALI)

Claúdia Maria Petri

Esta pesquisa analisou programas semelhantes de classes de aceleração, em dois municípios de Santa Catarina (Itajaí e Balneário Camboriú). A investigação esteve focada nos possíveis diferenciais teórico-metodológico que possam garantir a promoção das crianças com defasagem idade-série, ou seja, crianças que já repetiram mais de dois anos de escolarização. Esta forma de promoção escolar tornou-se viável a partir da promulgação da lei de diretrizes e bases da Educação nacional nº 9394/96, artigo V, alínea 6. De acordo com a lei, o aluno que apresenta desempenho satisfatório, pode ser promovido em uma ou mais séries do ensino fundamental.

De maneira geral a organização de classes de aceleração nas redes de ensino tem por objetivo diminuir a defasagem idade-série, corrigindo o fluxo escolar e re-adaptando os alunos multi-repetentes, (com dois anos ou mais de repetência), no ensino regular. Para tanto, é preciso organizar toda uma estrutura de apoio, acompanhamento e avaliação, aos professores de maneira especial e ao programa de forma geral.

Esta pesquisa constitui-se em um estudo de caso qualitativo, desenvolvido junto às redes de ensino municipal em Itajaí e Balneário Camboriu, Santa Catarina. Os dados de pesquisa foram coletados em dois momentos distintos, nos meses de julho a dezembro de 2000. Em um primeiro momento foram desenvolvidas entrevistas semi-estruturadas contendo questões referentes ao projeto de aceleração de aprendizagem, junto às professoras. A partir da análise das respostas das professoras foram elaboradas as categorias de análise (estrutura do programa, formação dos professores envolvidos, apoio e acompanhamento ao trabalho dos professores, orientação teórico-metodológica, avaliação). Em um segundo momento, foram desenvolvidas observações em sala de aula, com o objetivo de analisar a coerência entre o discurso das professoras e a ação pedagógica. Por questão de tempo, foram desenvolvidas observações regulares, semanais, em apenas duas classes: uma de Itajaí e outra em Balneário Camboriú. A escolha destas duas classes deu-se em função do critério de comprometimento com o projeto, apresentado pelas professoras, nas entrevistas.

As respostas apresentadas pelas professoras foram categorizadas e sistematizadas em doze quadros, com o objetivo de demonstrar, de maneira mais didática, a percepção dos professores acerca das classes de aceleração. Neste trabalho, no entanto, apresentamos uma síntese da análise original, que contempla a análise da estrutura de cada um dos programas, formas de apoio, acompanhamento e avaliação; a formação inicial dos professores envolvidos e suas experiências no magistério, e a metodologia (ação pedagógica).

No município de Itajaí o programa de classes de aceleração é coordenado pelo Instituto Ayrton Senna, apoiado pelo CETEB e Petrobrás e avaliado pela Fundação Carlos Chagas. Esse programa teve início no ano de 1998. O objetivo do programa é corrigir o fluxo de defasagem idade-série, que variava em torno de 14%, na época da implantação. Em 1998 foram atendidos 625 alunos, em 1999, 520 e no início de 2000, 143. Ao final de 2000, o programa atendia 128 alunos, em oito classes, em diferentes escolas.

Nessas classes os professores são orientados no sentido de promover a aprendizagem dos alunos naqueles aspectos mais deficitários. O professor é apoiado com treinamento e supervisão permanente. Os alunos recebem materiais próprios, suficientes e adequados ao seu nível de maturidade. A avaliação do desempenho escolar é continua, durante todo ano. Além desta, empreende-se uma avaliação externa, ao final de cada ano letivo. O projeto destas classes de aceleração tem duração limitada. Não deve durar mais do que quatro anos em uma mesma rede, dois anos no máximo em cada escola. Este princípio pretende evitar a criação de classes de repetentes. É meta do programa que o aluno que freqüente um ano a classe de aceleração possa ser incluído no ensino regular, diminuindo ou extinguindo a defasagem idade-série.

Existe a preocupação constante na formação continuada dos professores envolvidos. O programa conta com uma coordenadora e duas supervisoras que auxiliam constantemente os professores, em reuniões semanais. O currículo é articulado por meio de pequenos projetos temáticos, nos quais os alunos são envolvidos, ao longo do ano.

No município de Balneário Camboriú um programa semelhante foi implantado em 1999. No ano de 2000 foram atendidos 79 alunos, em quatro escolas, mas com cinco turmas. O programa de aceleração é mantido e coordenado pela secretaria municipal de educação. As reuniões e visitas são mensais, ao cargo de uma coordenadora, que presta assessoria à secretaria.

O município de Itajaí conta com um quadro de professoras mais experiente e melhor habilitado: três professoras formadas em Pedagogia, sendo que uma delas possui pós-graduação em nível de especialização em educação; seis estão cursando Pedagogia. Quanto ao tempo de serviço no magistério, as professoras do município de Itajaí possuem maior experiência profissional na área: duas com três anos, cinco com mais de quatro anos e duas com dezesseis anos ou mais.

Em Balneário Camboriu, já a formação inicial das professoras constitui-se em variável relevante, uma vez que apenas duas possuem formação na área da educação, ainda que em nível médio, uma cursou Estudos Sociais (licenciatura curta) e outra cursou Engenharia, mas não concluiu. No que se refere a experiência profissional, uma dos professoras possui onze anos de docência, enquanto que as outras possuem menos de dois anos.

Considerando-se os critérios formação inicial e tempo de serviço, as professoras de Itajaí são mais bem habilitadas e com mais experiência no magistério.

Quanto ao planejamento, é possível afirmar que todas as professoras entrevistadas afirmaram possuir acompanhamento sistemático em suas atividades de planejamento. Apesar de desenvolverem as atividades referentes ao planejamento em casa, as professoras afirmam que as discussões com os diferentes supervisores garantem que se estabeleça um fórum permanente sobre as atividades pedagógicas, possibilitando um trabalho mais coletivo. Consideramos que este fato constitui-se em variável importante a ser analisada. È bem possível que o sucesso das classes de aceleração esteja vinculado a este trabalho mais coletivo, uma vez que essas professoras têm a quem recorrer em seus momentos de dificuldades

O acompanhamento constante das professoras junto com as supervisoras e orientadoras constitui-se em variável importante no que se refere ao sucesso destas classes. Pudemos perceber que este acompanhamento constante foi mais observado nas classes de aceleração do município de Itajaí. Cabe lembrar que este município tem implementado o programa Acelera Brasil, do Instituto Ayrton Senna, obtendo mais recursos financeiros, podendo disponibilizar uma equipe de maior sustentação. Esta equipe, como já afrimamos anteriormente, é composta por uma coordenadora geral, e duas supervisoras que fazem visitas semanalmente às classes do município de Itajaí.

No que se refere às classes de aceleração localizadas em Balneário Camboriu, as professoras não recebem este acompanhamento de forma tão sistemática. O programa é mantido com recursos do próprio município. Nesta questão percebemos bem as diferenças nos dois programas de aceleração dos diferentes municípios.

No que se refere à função docente, as professoras dos dois municípios têm postura comuns: afirmam que o professor deve desempenhar sua função de mediador e como mediador, deve trabalhar a auto-estima dos seus alunos.

Esta mediação é entendida enquanto um processo de intervenção de um elemento intermediário em uma relação, criando situações para que os alunos construam seus próprios pensamentos e conhecimentos, passando de conceitos espontâneos para científicos, usando os instrumentos ou ferramentas. Esta concepção de mediação esta ancorada na abordagem histórico-social, que tem em Vygotsky o seu maior expoente.

Vygotsky (1989) considera a mediação fundamental no processo de construção do conhecimento. A partir desta premissa consideramos a possibilidade de vincularmos o acompanhamento sistemático e constante a uma forma de mediação necessária ao sucesso dos docentes do programa Acelera Brasil. Consideramos este elemento intermediário (a mediação) como sendo a ação das supervisoras sobre as práticas das professoras nas classes de aceleração.

Quanto à compreensão das professoras sobre o projeto classes de aceleração tanto as de Balneário Camboriú quanto às de Itajaí afirmam em sua totalidade que o objetivo e o que entendem por Aceleração está ligado à auto-estima deste aluno e na promoção dele para que supere a defasagem idade-série. De acordo com o depoimento das professoras entrevistadas, o diferencial básico deste programa é promover a auto-estima nos alunos. De acordo com os relatos, a cultura da repetência destruiu o autoconceito destes alunos. Desta forma, investir na reconstrução da auto-estima dos alunos é tarefa primordial nas classes de aceleração. Coerente com a afirmação das professoras, percebemos que nos dois programas grande ênfase á atribuída à auto-estima dos alunos atendidos.


Auto-estima é a vivência de termos apropriados à vida e às exigências que ela coloca. Mais especificamente, auto-estima é a confiança em nossa capacidade de pensar e enfrentar os desafios básicos da vida. A confiança em nosso direito de ser feliz, a sensação que temos de valor, de que somos merecedores, de que temos o direito de expressar nossas necessidades e desejos e de desfrutar os resultados de nossos esforços” (BRANDER, 1994, P.28)
A avaliação destes alunos diverge um pouco nos programas dos dois municípios.

O programa de Itajaí tem uma avaliação externa desenvolvida pela Fundação Carlos Chagas e outra pela Secretaria Municipal de Educação e o CETEB, a autoavaliação a cada final de projeto (livro base), avaliação a cada subprojeto (lição do dia). Já o município de Balneário Camboriú desenvolve as avaliações de acordo com o livro, organizadas e previstas pela própria Secretaria Municipal de educação.

De acordo com o programa de aceleração de aprendizagem a avaliação implica a conclusão de cada projeto e a discussão dos resultados obtidos, a avaliação dos alunos são feitas ao longo do processo em função do sucesso obtido. Em cada unidade uma avaliação com base nos testes padronizados disponíveis, permitirá comprovar que esses alunos obtiveram, no mínimo, o mesmo nível de aprendizagem da média nacional.

A visão das professoras sobre o seu aluno, o que esperam dele e a relação que deve ser estabelecida entre professor e aluno é predominantemente a mesma nos dois programas. Afirmam que seus alunos são inteligentes, capazes, com potencial e em busca de conhecimento. Esperam que resgatem a auto-estima, sejam felizes, tenham uma profissão e alcancem seus objetivos. A relação entre professor e aluno é baseada em respeito, amizade, confiança e carinho. Deve-se esperar deste aluno responsabilidade, compromisso, e acreditar que são capazes, e eles próprios são os construtores de seu sucesso escolar.

Os dois programas utilizam materiais variados em sala de aula. A utilização de textos literários tem por objetivo tornar a aula dinâmica. Os textos não são apenas os apresentados no livro base, mas tirados de outras fontes como jornais, revistas, folders, gibis, poesias, letras de música. Esta dinâmica provoca o interesse das crianças, articulando o conteúdo a uma aprendizagem mais significativa e atrativa. São utilizados, também, mapas, globo, jornais, revistas, músicas, jogos interativos, vídeo, dicionário, técnicas de pintura, colagem, com o intuito de promover a criatividade e a participação dos alunos.

Analisamos as diferentes estruturas destes dois programas, no que diz respeito às condições físicas e materiais, das secretariais municipais e da escola, apoio pedagógico e orientações às professoras. Consideramos que a ação pedagógica do professor em sala de aula constitui-se em variável fundamental no processo de aprendizagem. Neste sentido analisamos com especial atenção o diferencial pedagógico utilizado pelos professores. E, em nossas análises, consideramos que o trabalho coletivo do professor, garantido pela participação efetiva dos supervisores e coordenador do programa, garante uma ação pedagógica mais efetiva. O professor mais assistido revê sua ação, avalia as possibilidades de seus alunos pautado em critérios melhor definidos, de desempenho em atividades coletivas e individuais. Enfim, o professor encontra, no acompanhamento sistemático, uma forma de mediação que lhe encoraja, dando-lhe pistas para enfrentar os problemas do cotidiano escolar. E, os resultados podem ser evidenciados no desempenho final dos alunos, que superam suas defasagens, podendo ser incluídos em classes subseqüentes.

Em estudo publicado em 1999, no qual desenvolveram estudo de caso em seis escolas da rede estadual de ensino de São Paulo, PLACCO et alii afirmam que

... as observações revelaram que os alunos de classes de aceleração desenvolveram atitudes adequadas para a realização das tarefas escolares, movimentando-se de forma organizada no espaço de sala de aula, desenvolvendo os trabalhos com interesse e autonomia, demonstrando cooperação, respeito, tanto em relação aos colegas quanto em relação ao professor. Esses comportamentos são fundamentais para que ocorra a aprendizagem.” (PLACCO et alii, 1999: 60)


Esta pesquisa terá continuidade em 2001. Pretendemos acompanhar os alunos egressos das classes de aceleração, já incluídos nas 5ª séries do Ensino Fundamental. Pretendemos investigar a integração destes alunos no processo de escolarização regular, já que a metodologia de ensino e a didática da escolarização regular são diferenciadas das trabalhadas nas classes de aceleração.

Pretendemos investigar a inclusão desses alunos perante a nova sistemática de aulas e disciplinas referentes a uma 5ª série do ensino regular, analisando as possíveis dificuldades e resistências.



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
FONTANA, Roseli Aparecida Cação. Mediação pedagógica na sala de aula. Campinas : Autores Associados, 1996.

FREIRE, P.. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1987.

MOREIRA, Antônio Flávio; SILVA, Tomaz Tadeu da. Currículo, cultura e sociedade. 2. ed. São Paulo : Cortez, 1995.

PLACCO, V. M. N. et alii. Estudo Avaliativo das Classes de Aceleração na Rede Estadual Paulista. In: Cadernos de Pesquisa. N. 108 nov. 1999 Fundação Carlos Chagas. São Paulo. Editora autores Associados, revista quadrimestral.


REGO, Teresinha Cristina. Vygotsky : uma perspectiva histórico-cultural da educação. 3. Ed. Petrópolis : Vozes, 1995.

SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO. Documento Classe de Aceleração 1ª a 4ª Séries do Ensino Fundamental. Florianópolis : COGEN/DIEF, 1999 (mimeo).

SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO. Proposta Curricular de Santa Catarina (Temas Multidisciplinares). Florianópolis : IOESC, 1998.

SMOLKA, Ana Luiza B.; GÓES, Maria Cecília R. de. A linguagem e o outro no espaço escolar : Vygotsky e a construção do conhecimento. Campinas : Papirus, 1996.


SOUZA, Clarilza Prado. Limites e Possibilidades dos Programas de Aceleração de Aprendizagem. In: Cadernos de Pesquisa. N. 108 nov. 1999 Fundação Carlos Chagas. São Paulo. Editora autores Associados, revista quadrimestral.



Dados de Identificação(Projeto/Universidade/Autores

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Resultados

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Bibliografia

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