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Encontro12.07.2018
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Pernilongos e seus zumbidos românticos
Ouvir o zumbido de um pernilongo sinaliza que logo mais nosso sangue será sugado e, com um pouco de azar, seremos infectados pelo parasita da malária ou pelos vírus da febre amarela e do dengue. Não é sem razão que o zumbido desperta nos humanos uma fúria assassina só saciada ao esmagar o pernilongo.

Cientistas que têm dedicado suas vidas a estudar o zumbido dos pernilongos recentemente descobriram que casais de pernilongos organizam seus encontros amorosos utilizando o zumbido que tanto nos irrita.


O Aedes aegypti, responsável pela epidemia de dengue, produz seus zumbidos vibrando as asas durante o vôo. Faz anos descobriram que os machos produzem um zumbido de 600Hz (freqüência de seiscentas vibrações por segundo), um som mais agudo que o emitido pelas fêmeas que “cantam” a 400Hz. Sabemos também que o órgão capaz de captar o som nestes mosquitos é capaz de detectar os zumbidos dos machos e das fêmeas e se suspeitava que os mosquitos “conversavam” utilizando seus respectivos zumbidos. A novidade é que agora isto foi demonstrado em uma série de experimentos muito elegantes.
Para executar o experimento os pesquisadores capturaram os mosquitos vivos e colaram seus abdomens a pequenos alfinetes de modo que eles ainda pudessem bater as assas (e pensar que estavam voando) quando na verdade estavam fixos no alfinete. Eles também utilizaram um microfone, um osciloscópio (equipamento capaz de medir a freqüência do som emitido), um gravador e um alto-falante capaz de reproduzir o zumbido nas diferentes freqüências.
Primeiro os cientistas aproximaram os mosquitos colados nos alfinetes do microfone e confirmaram que eles cantam a 600Hz (machos) e 400Hz (fêmeas). Depois, mantendo o macho perto do microfone eles aproximavam as fêmeas do macho, como se ambos tivessem se encontrado ao acaso em seus vôos perto da orelha de uma vítima. O que eles observaram é que quando a distância entre o macho e a fêmea é menor que 2cm imediatamente o macho e a fêmea mudavam seu zumbido e passavam a cantar em uníssono a 1200Hz (bem mais agudo). Mas se a distância entre eles era aumentada em poucos segundos eles voltavam a emitir seu zumbido original. O interessante é que esta sincronia em uma freqüência mais alta só ocorre em interações de pernilongos do sexo oposto. Quando dois machos ou duas fêmeas se encontram nenhum deles muda seu “canto”. Para confirmar que a identificação do sexo oposto era feita pelo som os cientistas usaram os alto-falantes para simular um pernilongo macho ou fêmea. Se o alto-falante que zumbia a 600hz era levado para próximo de uma fêmea que estava zumbindo a 400Hz ela imediatamente mudava seu canto para 1200Hz. Este resultado confirma que no escuro a identificação do sexo oposto se deve unicamente ao som emitido.
Os cientistas acreditam que o fato dos pernilongos de diferentes sexos emitirem sons de diferentes freqüências, combinado com a descoberta que os sexos ajustam sua freqüência quanto encontram o sexo oposto, sugere fortemente que os mosquitos utilizam este mecanismo para identificar potenciais parceiros sexuais e se acasalarem no escuro. A partir de hoje quando os pernilongos estiverem zumbindo no meu ouvido vou me tornar um voyeur auditivo, imaginando a dança amorosa dos bichinhos. Talvez isso aplaque minha vontade de esmagar os zumbidos.
Mais informações em: The Harmonic convergence in the Love songs of the dengue vector mosquito. Science vol. 323 pag 1077 2009
Fernando Reinach (fernando@reinach.com)



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