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Encontro12.07.2018
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Cientistas observam o surgimento de uma nova espécie
Nós temos uma enorme dificuldade de imaginar fenômenos que ocorrem ao longo de milhões de anos. Esta dificuldade é uma das razões que levam muitas pessoas a não acreditar na Evolução. Afinal, você já viu uma nova espécie surgir no seu jardim?
É por este motivo que os biólogos ficam excitados quando conseguem flagrar o aparecimento de uma nova espécie. É isto que foi observado recentemente no Lago Vitória, na África, por um grupo de cientistas de mais de dez países.
Neste lago vivem mais de 500 espécies de peixes da família dos ciclídeos, muitas delas conhecidas de quem possui um aquário em casa. Perto da beira, onde a água é rasa e a luz é abundante os cientistas descobriram que os peixes possuem pigmentos azuis nos seus olhos, mais adequados a um ambiente com muita luz. Na mediada que a água fica mais profunda e menos luz chega ao ambiente, predominam peixes que possuem pigmentos mais sensíveis à luz vermelha, que funcionam melhor na penumbra. Em algumas bordas do lago, onde a profundidade muda lentamente, os dois tipos de peixes co-existem. O interessante é que estes mesmos peixes podem ter duas cores de pele, alguns são azulados outros avermelhados. Nas regiões de baixa declividade não existe correlação entre o tipo de pigmento presente nos olhos e os pigmentos presentes na pele e as quatro combinações possíveis podem ser encontradas (olho azul/pele azul; olho azul/pele vermelha; olho vermelho/pele azul e olho vermelho/vermelha).
Os cientistas coletaram estes quatro tipos de peixes das regiões de baixa declividade e tentaram descobrir como as fêmeas escolhiam os machos com quem iriam cruzar. O resultado demonstrou que fêmeas com pigmentos azuis nos olhos (tanto faz a cor de sua pele) preferiam machos de pele azul e as fêmeas com pigmentos vermelhos nos olhos preferiam machos de cor vermelha. Apesar da preferência, como todos os tipos de cruzamento ocorrem nesta região, as quatro combinações se mantêm na população.
Quando estes experimentos foram repetidos em regiões da borda do lago onde a profundidade muda rapidamente os cientistas descobriram que nas partes mais fundas só ocorriam peixes vermelhos enquanto que na parte rasa só existiam peixes azuis. Quando os cientistas repetiram os experimentos com peixes azuis (coletados no raso) e vermelhos (coletados no fundo) eles descobriram que nestas regiões de alta declividade do lago todos os peixes com pele azul tinham pigmentos azuis nos olhos e só cruzavam com peixes de pele azul. O mesmo ocorria com os peixes vermelhos, que só cruzavam com peixes da mesma cor e só possuíam pigmentos vermelhos nos olhos.
Estes resultados demonstram que nas regiões do lago onde a declividade é maior os dois tipos de peixes (azuis e vermelhos) já são espécies distintas, incapazes de se misturar (do mesmo modo que um cavalo não cruza com uma zebra) enquanto que nas regiões de menor declividade o processo de especiação esta em andamento mas ainda não gerou duas espécies distintas.
A conclusão é que o que está ocorrendo bem na frente dos olhos dos cientistas é o surgimento de duas novas espécies de peixes, uma prova a mais que a evolução de fato ocorre. Num século onde as noticias sobre a extinção de espécies domina o noticiário, é confortante saber que no Lago Vitória novas espécies estão surgindo neste exato momento.
Mais informações em: Speciation through sensory drive in cichlid fish. Nature vol. 455 pag. 620 2008
Fernando Reinach (fernando@reinach.com)



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