Arte de criar bem os filhos na idade da puerícia



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EDUCAÇÃO E RELIGIÃO NA OBRA “ARTE DE CRIAR BEM OS FILHOS NA IDADE DA PUERÍCIA”, DE ALEXANDRE DE GUSMÃO, DE 1685
Vanessa Freitag de Araújo (Aluna do Programa de Pós-graduação em Educação PPE/UEM - vanessa1104@gmail.com)

Profº Dr. Cézar de Alencar Arnaut de Toledo (DFE/PPE/UEM - caatoledo@uem.br)



Resumo: O presente texto trata de uma pesquisa realizada sobre o padre português Alexandre de Gusmão (1629–1724), da Companhia de Jesus, tendo como pano de fundo o contexto histórico da ordem católica e do século XVII. Entre textos catequéticos, novelas e sermões, Gusmão legou-nos a Arte de criar bem os filhos na idade da puerícia (1685), que foi a primeira obra escrita em terras brasileiras a tratar do tema infância e educação de crianças pequenas, sendo então o autor considerado o primeiro pedagogo do Brasil colonial. A opção por escrever sobre a concepção pedagógica impressa na obra de Gusmão deu-se porque, escrita em meio ao clima da pujança jesuítica, sua obra expressa a própria filosofia educacional da Companhia de Jesus. Considerando que esse conceito de educação não se detém na educação livresca e intelectual, ou seja, não implicando somente ao conteúdo escolar, mas também, por intermédio de valores morais, estabelecendo padrões e trabalhando com questões sociais - característica típica do período em que a sociedade européia transitava da Idade Média à Modernidade. A análise mostra que Alexandre de Gusmão desenvolveu um pensamento sobre civilidade, um estilo de textos voltados aos temas da educação e do cuidado das crianças, de grande profusão naquela época.
Palavras-chave: Alexandre de Gusmão. Educação Infantil. Educação Jesuítica. Século XVII.


Introdução
Este texto pretende apresentar uma análise da concepção de educação para crianças pequenas sob a perspectiva do catolicismo, por intermédio da obra Arte de Criar bem os filhos na idade da puerícia (1685), do padre jesuíta Alexandre de Gusmão (1629–1724) – considerado o primeiro pedagogo do Brasil colonial. Esta obra - republicada em 2004 pela editora Martins Fontes, de São Paulo – apesar de pouco estudada, tem o mérito de preencher uma lacuna no que diz respeito à história da educação infantil no Brasil.
A educação cristã de crianças, exposta no livro de Alexandre de Gusmão, é mais uma demonstração da influência jesuítica na educação nacional, considerando que a Companhia de Jesus, até a data de sua expulsão em 1759, praticamente detinha o monopólio da educação no Brasil-colônia. Assim, a análise dos métodos jesuíticos de ensino é fundamental quando se pretende discutir a educação em território nacional, porém sua influência não se resume apenas ao campo educacional, nem somente ao Brasil. A Ordem deixou grandes contribuições para o pensamento moderno por intermédio de seu trabalho missionário.
O livro Arte de Criar bem os filhos na idade da puerícia, por ser uma obra escrita no final do século XVII, representa o apogeu do projeto da Contra-Reforma e da propagação do catolicismo, propondo uma estruturação familiar em uma sociedade pagã e escravocrata, sob os moldes da Igreja. Pode-se, por intermédio dessa obra, analisar o projeto jesuítico de educação no Brasil-colônia. A concepção de educação jesuítica era a de uma educação integral, não formando apenas a inteligência, mas, também desenvolvendo capacidades e aptidões que preparavam o homem para a vida, porém, tendo sempre em mente que essa educação se dava para a formação religiosa, e que uma educação que desviasse desse propósito, de acordo com os preceitos jesuíticos, não era considerada uma educação humana de fato.
Dividido em duas partes, o livro possui fundamentos teológicos, que expõem detalhadamente: 1) a importância da boa criação dos meninos e dos cuidados especiais na criação das meninas. Essa parte do livro que surpreende, pois, assim como defende a guarda e recolhimento das meninas no lar com toda vigilância e cuidado possível, defende também o ensino das artes às meninas, e que essas deviam, no mínimo, aprender a ler e a escrever, não somente para uma melhor organização política, mas, também para formar grandes mães de família, seguindo os ensinamentos de São Jerônimo; 2) da utilidade dessa boa criação; 3) da responsabilidade daqueles que cuidam das crianças e a má sorte que terão se não o fizeram corretamente, dando conselhos práticos - que muitas vezes utilizavam a violência e os castigos como alternativa para a boa educação, embora o autor deixe sempre claro que para uma boa criação deve haver uma relação equilibrada entre o mimo e o rigor; 4) como cuidar bem dos meninos órfãos e enjeitados. Ato esse de misericórdia e religião, pois quem por piedade cuidar de filhos de estranhos como se fossem seus, a Deus muito agradaria; 5) o cuidado dos pais de meninos defuntos, que devem buscar o bem eterno para a alma desses meninos, demonstrando a importância do batismo, e que as crianças, mesmo sendo consideradas pelo autor como pequenos anjos inocentes, podem padecer no inferno devido a má criação dos pais.
Assim como o recomendado pelo tratado Ratio Studiorum (1599) – plano de estudos, organização e metodologias dos colégios da Companhia de Jesus - em todo o livro, o autor recorre a grandes filósofos, a Bíblia, a momentos históricos e a histórias populares para dar embasamento à sua obra e reforçar seus conselhos, com a brevidade e a fidelidade que o método exigia. Percebe-se também, no decorrer da obra, outra característica do método de ensino dos jesuítas, que se trata da repetição, no qual uma lição ou conselho é passado e retomado diversas vezes durante o livro, com o objetivo de ratificação e memorização de tais preceitos.
Vida e obra de Alexandre de Gusmão
Escritor ascético, Alexandre de Gusmão é considerado o primeiro e maior pedagogo e precursor do romance no Brasil colônia, pois escreveu a primeira obra de ficção do país. O padre jesuíta nasceu em Lisboa no dia quatorze de agosto 1629, e faleceu no dia quinze de março 1724, na Bahia, aos noventa e cinco anos, longe dos debates, com fama de santo e veneração da população local (MENEZES, 1969). Proveniente da pequena nobreza, veio ao Brasil com a família em 1644. Estudou humanidades por um ano no colégio dos jesuítas no Rio de Janeiro antes de ingressar a Companhia de Jesus em vinte e sete de outubro de 1646. Foi um intelectual que não teve sua formação concluída na sociedade metropolitana. Cursou filosofia e teologia no colégio da Bahia. Atuou como mestre no Rio de Janeiro em 1662, foi vice-reitor e reitor do Colégio Jesuítico do Espírito Santo (1663-1664) e da Bahia, onde foi por duas vezes provincial (1684 a 1688 e 1694 – 1697), onde apoiou as missões do sertão. Administrou em São Paulo, índios aldeados, promovendo missões, local aonde chegou a ser prisioneiro de piratas.
Gusmão fundou o Seminário de Belém da Cachoeira (Bahia), o qual o dirigiu durante anos, que possuía caráter popular, no qual crianças pobres, filhos dos moradores do sertão, estudavam, não só as primeiras letras como também tinham acesso a cultura erudita. Sobre o Seminário, sua fundação, manutenção e objetivos, Serafim Leite (2004) nos diz:
A Escola de Belém, de 1678, e a Arte de Criar bem os filhos, reunidas num pensamento único, fizeram nascer a Escola ou Seminário, a que se pôs o mesmo nome de Belém, que ficou na topografia local e na história pedagógica do Brasil.

A idéia do Seminário apresentou-se ao começo com caráter popular, para nele se criarem os filhos dos moradores, sobretudo dos pobres, que viviam no sertão, e poderem estudar não só os primeiros elementos de ler e escrever, mas também latim e música. Impunha-se a ajuda oficial e particular para iniciativa de tal natureza e magnitude. Alexandre de Gusmão requereu-a à Coroa. El-Rei mandou pedir informes ao Governador Geral, manifestando o seu apoio à idéia e estabelecendo a colaboração privada no ensino. Dizia El-Rei ao Governador o que o Governador repete na resposta, como era praxe na correspondência oficial: “procurasse persuadir aos moradores de maior possibilidade concorressem para com ele algumas esmolas certas, para se sustentarem os filhos dos que são pobres, pois era razão que tendo êles maior fruto das terras, se movessem à caridade para com os necessitados; principalmente quando as rendas da fazenda de Vossa Majestade não fôssem bastante para os encargos públicos para a conservação de todo o Estado; e ainda no caso dela poder caber alguma côngrua para êste Seminário, sempre convinha que se aumentasse um maior número, para que, por meio da doutrina, que adquirissem os pobres, que nêles se recolhiam, pudessem ter os que são ricos, Missionários naturais para as Aldeias, Mestres para os seus filhos, e Religiosos para o serviço de Deus, enriquecendo a todos do bem espiritual das almas, sem o que não podia haver riqueza, que aproveitasse, nem duração alguma dos bens temporais, que hoje se logram”.



Contém a Carta Régia a própria exposição de motivos dada pelo Jesuíta. El-Rei assume-os como seus e declara o Estabelecimento de “utilidade pública” e excita os particulares a que o subsidiem (LEITE, 2004, p. 241, grifos do autor).
Nessa perspectiva, embora com alguma ajuda dos poderes públicos da época (que totalizaram o valor de cem mil réis, enviados em uma única vez somente), surgiu a necessidade de, além das doações feitas por benfeitores (tais como Bento Maciel e Padre Inácio Pereira) ao Seminário, buscar auxílio financeiro aos alunos filhos de nobres e afortunados pais. Os alunos que podiam pagavam uma modesta quantia para que subsidiassem a admissão de alunos mais pobres e que não pudessem pagar pelo estudo. Percebe-se assim, que a manutenção do Seminário era mantida pela iniciativa privada. O Seminário de Belém da Cachoeira atendia na forma de internato, portanto, é considerado o primeiro Colégio interno do Brasil, ratificando cada vez mais a importância do padre jesuíta para a pedagogia brasileira e, de acordo com Leite (2004), durante os setenta e dois anos de funcionamento, recebeu cerca de mil e quinhentos estudantes. O objetivo maior do Seminário era receber alunos de diversas partes do país para estudarem Humanidades, a fim de formarem alunos bons cristãos e tementes a Deus, assim como consta no Regulamento do Seminário de Belém, que possui três partes e quarenta e quatro parágrafos:
o fim dêste Seminário é criar os meninos em santos e honestos costumes, principalmente no temor de Deus, e inclinação às coisas espirituais, afim de saírem ao adiante bons cristãos. Além disso, hão-de aprender a ler, escrever, contar, gramática e Humanidades, e não se lerá Curso de Filosofia; e nas doutrinas, que se fazem aos Domingos, se há-de procurar que aprendam os mistérios da fé com inteligência, e por isso não se estenda o Padre, que faz a doutrina, demasiado, nas exortações ao Povo porque essa se pode fazer aparte nas festas do ano e a obrigação de fazer a doutrina é maior (LEITE, 2004, p. 244).
Estudaram no Seminário de Belém também ilustres homens, tais como Bartolomeu Lourenço de Gusmão (1685 – 1724) – conhecido como o Voador, por ter sido o inventor de uma máquina aérea - e seu irmão Alexandre de Gusmão (1695 – 1753) – diplomata e secretário de D. João V. Algumas bibliografias afirmam que Bartolomeu e Alexandre eram sobrinhos do padre, todavia, de acordo com Serafim Leite, em A História da Companhia de Jesus no Brasil (2004), o padre Alexandre de Gusmão ainda teve um sobrinho nascido no Rio de Janeiro que também se chamava Alexandre de Gusmão (que também foi padre da Companhia e reitor do Colégio de São Paulo) e tampouco era irmão de Bartolomeu e Alexandre. Nessa perspectiva, existiram, portanto, três Alexandres de Gusmão: o fundador do Seminário de Belém da Cachoeira, o diplomata e o reitor do Colégio de São Paulo. A pouca divulgação da obra do padre Alexandre de Gusmão influencia também no fato de existirem poucos materiais sobre sua biografia. Assim, aspectos de sua vida confundem-se com a de seu afilhado e de seu sobrinho em alguns escritos.
A questão educacional sempre esteve presente na vida de Alexandre de Gusmão, e está expressa de maneira clara na obra escolhida para este estudo - o livro Arte de criar bem os filhos na idade da puerícia é considerado inovador na literatura do Brasil colonial, pois desenvolve metodologias para a educação das crianças pequenas de acordo com a perspectiva da Igreja Católica. E, como citado anteriormente, por seus ideais pedagógicos, tanto os expostos em seus livros como os aplicados no Seminário de Belém da Cachoeira, é considerado o primeiro e maior pedagogo da colônia portuguesa (O’NEILL; DOMÍNGUEZ, vol II, 2001).
Entre textos catequéticos, livros e sermões, Alexandre de Gusmão legou-nos o total de treze obras: Escola de Belém, Jesus nascido no Presépio (Évora, 1678), a já mencionada Arte de criar bem os filhos na idade da puerícia (Lisboa, 1685), História do Predestinado Peregrino e seu irmão Precito (Lisboa, 1682) - a primeira novela alegórica escrita no Brasil, e que fora traduzida para o castelhano e reeditada até o século XIX, Sermão na catedral da Bahia de Todos os Santos (Lisboa, 1686), Meditação para todos os dias da semana (Lisboa, 1689), Meditationes digestae per annum e Menino Cristão (ambos publicados em 1695), Rosa de Nasareth, nas montanhas de Hebron (Lisboa, 1709), Eleição entre o bem & Mal eterno (1717), e as publicações póstumas O corvo e a pomba da Arca de Noé e Árvore da vida (ambos publicados em Lisboa, 1734), Compendium perfectionis religiosea (Veneza, 1783) e Preces recitandae statis temporibus ab alumnis Seminarii Bethlemici (data de publicação incerta, provavelmente em 1783). Serafim Leite, fazendo referência à primeira edição da publicação da obra Arte de criar bem os filhos na idade da puerícia, afirma que:
o Seminário de Belém da Cachoeira, no Recôncavo da Bahia, nasceu como demonstração prática do que o P. Alexandre de Gusmão, seu fundador, explanara antes em duas obras escritas. Em 1678 tinha saído de Évora, da Oficina Acadêmica, o seu primeiro livro, Escola de Belém, Jesus nascido no Presépio; e sete anos depois a Arte de Criar bem os filhos na idade da puerícia. Dedicado ao Menino de Belém, Jesus Nazareno (Lisboa, 1685) (LEITE, 2004, p. 241).
Embora a existência de escritos sobre a educação de crianças pequenas vinha sendo registrados desde o século XVI, Alexandre de Gusmão, por intermédio de suas obras, recomenda um modo de educar as crianças em um período em que essas ainda não eram focos de discussões. A obra em análise demonstra ainda o aspecto de reforma da vida familiar, sendo que os preceitos para a educação formal e informal das crianças abrangiam não apenas fundamentos teológicos, mas conselhos práticos aos pais e responsáveis. De acordo com Alexandre de Gusmão:
Se nos pais houver cuidado em ler e praticar este tratado a seus filhos; e nos meninos houver a curiosidade em estudar o que lhes pertence, espero, com a graça de Deus e favor de sua santíssima mãe, haja nas famílias muita melhoria, nas repúblicas, muita reformação, na igreja, muitos justos e, no céu, muitos santos (ALEXANDRE DE GUSMÃO, 2004, p. 6).
Assim, a leitura de Arte de criar bem os filhos na idade da puerícia é indicada pelo autor não apenas aos pais, mas às próprias crianças, algo que sugere então que os preceitos ali contidos não eram difundidos. Ratificando, dessa maneira, a necessidade de reforma da família na sociedade colonial.
Companhia de Jesus: aspectos históricos
O primórdio da fundação da Companhia de Jesus se deu em 1534, com a união de sete estudantes da Universidade de Paris: Pedro Favre (1506-1546, Sabóia), Francisco Xavier (1506-1552, Navarra), Diogo Laínez de Almazan (1512-1565, Castela), Afonso Salmerón (1515-1585, Toledo), Nicolau Afonso (1511-1590, Bobadilha) e Simão Rodrigues (1510-1579, Vouzela) e Inácio de Loyola (1491-1556, Azpeitia), cujos objetivos eram ser “bons soldados de Cristo e do Papa” (ROSA, 1954, p. 32, grifos do autor), por intermédio de meditações, comunhões, orações, estudos e práticas de piedade, seguindo a experiência religiosa exposta nos Exercícios Espirituais (escrito em 1523, porém impresso com a aprovação papal apenas em 1548) - documento fundamental da Ordem que surgia - de Inácio de Loyola, liderança do grupo.
Pode-se dizer que a Companhia de Jesus foi fundada pelo padre espanhol Santo Inácio de Loyola (1491-1556) em 1534, embora passasse a existir oficialmente com a bula do Papa Paulo III Regimini militantis Ecclesiae, de 27 de setembro de 1540, que aprovou a existência jurídica e canônica da Ordem. Sobre a união desses estudantes e sua relação com a fundação da Ordem:
[...] os sete estudantes passaram suas horas livres juntos em conversa devota, tentando imaginar para onde seus futuro os poderia levar. Nesse período eram apenas “amigos no Senhor”. [...] Na festa da Assunção de Maria em 15 de agosto de 1534, eles se uniram por voto para trilhar o meso caminho de ação, assim como levar uma vida de pobreza. A decisão de viver em celibato estava implícita ao tornarem-se padres, apesar desses votos e da decisão relacionada à ordenação, todos insistiram em relatos posteriores sobre essa virada crucial em suas vidas, que não tinham a intenção de fundar uma nova ordem religiosa. Para Inácio, contudo, uma carta posterior a seu irmão mostra que, naquele período ou imediatamente depois, uma idéia sobre essa possibilidade já tinha germinado (O’MALLEY, 2004, p. 57).
Dessa maneira, a Companhia de Jesus fundou-se em sua essência como uma Ordem verdadeiramente militante, que possuía como votos, assim como as demais ordens religiosas, a castidade, pobreza e obediência, porém, que se submetia intensamente às ordens do Papa e que defendia e propagava o nome de Jesus com o objetivo de salvar almas para a doutrina católica, utilizando-se da caridade, pregações públicas e catequização de crianças e pessoas rudes para alcançar seu intento maior. A definição da Companhia de Jesus era “não uma Ordem de monges ou frades, mas de clérigos livres e expeditos à disposição do Papa” (ROSA, 1954, p. 44). A respeito do projeto missionário e a diferença da organização da Companhia de Jesus em relação às demais ordens, Maria Lucia Spedo Hilsdorf escreveu:
[...] é importante considerar que os jesuítas são a ordem religiosa exemplar do século XVI, marcado por uma aguda consciência da dimensão social e ativa da Igreja. Diferentemente das ordens monásticas medievais que eram receptivas, acolhedoras, passivas em relação aos novos adeptos, e com suas unidades autônomas (os mosteiros e abadias) representavam na Igreja a força dos poderes locais os jesuítas são ativos, missionários, vão ao encontro de novos fiéis, fazem catequese e se põem a serviço do Papado, para reforçar a centralização institucional e a unidade doutrinária da Igreja Católica, que estavam sendo definidas no Concilio de Trento (1545-63). Os jesuítas atuam imbuídos de uma missão, de um projeto claramente inscrito na diacronia da Igreja: manter e propagar a fé católica em uma fase em que ela é contestada pela Reforma, pelas religiões orientais e dos povos do Novo Mundo, mas também internamente (HILSDORF, 2003, p. 4).
Ao se estudar a história da Companhia de Jesus, não se pode desconsiderar o contexto da Contra-Reforma, tendo em vista que a Ordem foi uma das representações máximas desse movimento de reação católica à Reforma Protestante, segundo afirma John W. O’Malley “a história dos jesuítas é, sem dúvida, inseparável da então chamada Contra-Reforma, e eles têm sido freqüentemente considerados símbolos de tudo que era ruim ou de tudo que era bom naquele acontecimento” (O’MALLEY, 2004, p. 16). Todavia, o autor também considera que essa concepção de que a existência da Companhia de Jesus se deu única e exclusivamente em decorrência da Reforma Protestante é equivocada, pois a Ordem teria existido independente da Reforma:
Não há necessidade de acentuar que a Reforma influenciou a imagem da Companhia de Jesus, que de fato é freqüentemente descrita como tendo sido fundada precisamente para opor-se ao protestantismo. Esta descrição, obviamente, erra o alvo. Em Paris, os companheiros testemunharam as incursões do “luteranismo” dentro da capital francesa, mas não utilizaram nada do que entendiam serem os principais pontos do novo movimento. Embora estavam conscientes como estavam da Reforma, esta não exerceu nenhuma influência palpável sobre o futuro que delinearam para si mesmos e assim fizeram poucas referências a isso quando descreveram seus anos em Paris. Quando, em 1534, assumiram o voto de passar algum tempo do ministério num lugar distante, voltaram seus olhos a Jerusalém e não a Wittenberg.

Jerusalém prevaleceu a sua imaginação até que a impraticabilidade da viagem os forçou a aceitar a alternativa de ir a Roma para obter a orientação de uma visão mais ampla da necessidade pastoral que o Papa provavelmente mantinha. Com tal alternativa veio a probabilidade quase inevitável de alistar-se na batalha contra o protestantismo. Favre já estava na Alemanha nos últimos anos de 1540, mas não devido a uma iniciativa jesuítica. Por volta de 1550, contudo, a “defesa da fé” se deslocou para seu lugar privilegiado na Fórmula, porque os jesuítas tinham começado a perceber que a Reforma lhes indicava uma obrigação pastoral da mais alta urgência.



Eles tinham de fato essa tendência de entender a Reforma como um problema principalmente pastoral. Eles viram suas causas fundamentais curas relacionadas não somente a temas doutrinais, mas principalmente à condição espiritual das pessoas envolvidas e ajudaram a perpetuar essa interpretação, o que coincidia com suas próprias convicções sobre o que era mais importante na vida (O’MALLEY, 2004, p. 36-37, grifos do autor).
A batalha contra o protestantismo pelos jesuítas se deu devido à obediência ao Papa, contudo, não se pode desconsiderar que a Companhia de Jesus teve papel fundamental na defesa da fé católica, pois a maioria da Europa parecia perdida para o protestantismo quando o Inácio de Loyola enviou seus discípulos para as regiões onde este mais avançava, desenvolvendo um trabalho evangelizador. José Maria de Paiva e Roberto Valdés Puentes, no artigo A Proposta jesuítica de educação: uma leitura das constituições (2000), afirmam que a Igreja Católica, além das pressões externas vindas em decorrência da Reforma, esta ainda estava em um processo interno de reformulações, que ocorria desde a Idade Média. Dessa forma, para os autores, a fundação da Companhia de Jesus
[...] foi fruto do amplo movimento que gerou profundas transformações na Igreja Católica nos inícios do século XVI, resultado, de um lado, dos contínuos esforços de rejuvenescimento e de reorganização a que historicamente esteve submetida; de outro, como conseqüência das imensas pressões exercidas pela Reforma Protestante, no bojo de mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais que atravessavam a Europa (DE PAIVA; PUENTES, 2000, p. 101).
As reformulações que a Igreja Católica almejava, devido sua própria crise interna, causada pelo descrédito de seus membros, foi agravada pela ameaça protestante, representadas por João Calvino (1509-1564) e Martinho Lutero (1483–1546). A importância dos jesuítas nesse contexto, de acordo com Cézar de Alencar Arnaut de Toledo e Flávio Massami Martins Ruckstadter (2003), não apenas na reforma interna da instituição, mas também na luta da Contra-Reforma, é essencial:
desde os Tempos Medievais, a Igreja Católica buscava uma reforma interna. A instituição definhava em alguns setores e agonizava em outros. O descrédito tinha se tornado algo corriqueiro entre seus próprios fiéis. [...] A ameaça protestante desencadeou um processo de reforma interna da Igreja, processo este liderado pelos jesuítas, especialmente nas Missões e na Educação. Eles eram, devido sua formação rígida e sólida, os mais indicados para encabeçarem essa reforma, da qual a Igreja tanto necessitava, para que não perdesse um número ainda maior de fiéis (ARNAUT DE TOLEDO; RUCKSTADTER, 2003, p. 262, grifos do autor).
Embora a educação tenha sido um meio utilizado por essa ordem missionária, esse não foi o primeiro objetivo da Companhia de Jesus. A educação acabou por sobressair-se como instrumento de evangelização e formação dentro da própria Ordem. A forte formação intelectual dos jesuítas era também o que os distinguiam e os tornavam preparados para a execução de suas missões. Nessas perspectivas, de acordo com Arnaut de Toledo e Ruckstadter (2003), diversos colégios foram fundados pelos jesuítas e grandes intelectuais estudaram nesses colégios, tais como: René Descartes (1596-1650), Montesquieu (1689-1755) e Denis Diderot (1713-1784). A respeito da importância do papel da educação no interior da Ordem, como ideal para a formação jesuítica e para a conversão do gentio, pode-se afirmar que “os estudos sempre tiveram grande destaque na Ordem. Sempre foi exigido dos jesuítas grande empenho nos estudos, e nos colégios pertencentes à Ordem havia grande exigência em relação aos alunos. Foram escolas que se tornaram modelos para a educação” (ARNAUT DE TOLEDO; RUCKSTADTER, 2003, p. 262).
No Brasil, a chegada dos jesuítas aconteceu em 1549. Desembarcaram junto com o primeiro governador geral do Brasil, Tomé de Souza, o primeiro grupo de jesuítas, liderados por Manuel da Nóbrega.Tinham por objetivo a catequização e humanização dos indígenas, integrando-os ao mundo da civilização ocidental cristã (SAVIANI, 2007), bem como eram encarregados da educação dos mandantes coloniais e seus descendentes, cuja educação era baseada em textos clássicos em grego e latim, fundamentada na escolástica.
A Companhia de Jesus praticamente detinha o monopólio da educação no Brasil Colônia, e a historia da educação escolar no Brasil basicamente se iniciou devido à ação dos membros dessa Ordem, embora outras Ordens também atuassem no país, porém, de forma mais dispersa e com poucos recursos. É fato que a primeira Ordem religiosa desembarcar na colônia e a desenvolver a catequese, foram os franciscanos. Dentre as outras Ordens religiosas que desembarcaram no Brasil, destacam-se, “além dos franciscanos e beneditinos, [...] os carmelitas, mercedários, oratorianos e capuchinhos” (SAVIANI, 2007, p. 41), que também exerciam atividades educativas no Brasil. Percebe-se assim, a grande influencia e importância das Ordens religiosas, não apenas para a educação, mas, também para a própria colonização do território.
A Companhia de Jesus se manteve no Brasil realizando missões até 1759, quando foi determinada a sua expulsão pelo Marquês de Pombal (1699-1782), nomeado primeiro-ministro pelo rei de Portugal Dom José I, que governou no período de 1750 a 1777. Pombal, baseado no ideário Iluminista, quis diminuir a influência da Igreja sobre os indígenas e vinculou a Igreja ao Estado, tornando-a independente de Roma, e na educação, após a expulsão dos jesuítas, introduziu as aulas régias, mantidas pela Coroa. De acordo com Saviani (2007, p. 32) “as reformas pombalinas da instrução pública inserem-se no quadro das reformas modernizantes levadas a efeito por Pombal visando a colocar Portugal ‘à altura do século’, isto é, o século XVIII, caracterizado pelo Iluminismo”. Os jesuítas retornam ao Brasil e retomam suas atividades apenas em 1842, oitenta e dois anos após sua expulsão dos domínios portugueses.
A filosofia educacional dos jesuítas e concepção de educação para crianças pequenas
A importância dos jesuítas para a história da educação é grande se considerarmos que delinearam os primeiros modelos educativos na colônia. A Companhia de Jesus trouxe grande contribuição para o ensino e sua pedagogia influenciou a educação na modernidade, não apenas no Brasil, e essa influencia ocorre até os dias atuais. A Ordem religiosa não foi a única a atuar no Brasil colonial, porém, foi a que mais exerceu influência no campo educacional, missionário e político. Os padres da Companhia de Jesus sistematizaram o ensino letrado no país, fundaram colégios, seminários, casas de ensino de primeiras letras e atuaram na catequização dos nativos e educação dos colonos. Arnaut de Toledo e Ruckstadter (2003), afirmam que:
a obra educacional dos padres da Companhia de Jesus marcou decisivamente a educação moderna. A sólida filosofia educacional – forjada ao modo inaciano – aliada ao rígido método de ensino empregado nas escolas da Ordem – a Ratio Studiorum – garantiram aos jesuítas um êxito incontestável até mesmo por seus críticos. É neste sentido que deve ser compreendida a formação cultural do Brasil, na qual os padres da Companhia desempenharam funções importantes. Foram eles os responsáveis pela primeira educação escolar (ARNAUT DE TOLEDO; RUCKSTADTER, 2003, p. 265).
Gusmão afirma o ideário educacional da Companhia de Jesus (embora esse não tenha sido objetivo na fundação da Ordem) no decorrer de sua obra. A educação de crianças pequenas dentro dos preceitos cristãos, que abrangem a assimilação de bons consumes e não apenas a educação formal, é, de acordo com o autor, obrigação da Companhia de Jesus. Tendo em vista que a boa criação como grande importância para as famílias, nas repúblicas e, para o fim maior predestinado dos homens, o contato com os ensinamentos da Igreja Católica. Sobre a importância da criação das crianças pequenas e o que o levou a escrever uma obra voltada para o tema, Gusmão afirma que:
É tão próprio da Companhia de JESUS atender à boa instituição dos meninos nos primeiros anos de sua puerícia, que faz disso especial menção na forma de sua profissão; porque, sendo seu instituto ensinar as boas artes e inculcar os bons costumes a todos, para a maior glória de Deus e bem das almas neste particular de instituir os meninos, quis seu fundador, iluminado pelo Espírito Santo, que houvesse na Companhia especial obrigação. Por esta causa, ocupando-se a Companhia em ensinar aos mancebos as ciências maiores, não somente em escolas públicas, mas em doutíssimos comentários com que cada dia sai a luz; com o mesmo cuidado se ocupa em ensinar aos meninos os primeiros princípios e as primeiras ações dos bons costumes, com que se colhe o fruto, que a todo mundo é manifesto.

Sendo, pois, esta a obrigação dos da Companhia, fica clara a razão por que resolvi fazer este tratado, que intitulo Arte de criar bem os filhos na idade da puerícia, para que os pais de família saibam a obrigação que têm de os criar e saibam também como o hão de fazer com acerto. E juntamente para que entre as jóias com que dotam suas filhas, quando lhes dão estado de casadas, lhes dêem um livro destes como jóia de maior utilidade e de maior estimação, em que aprendam a ser mãe de filhos (ALEXANDRE DE GUSMÃO, 2004, p. 5-6, grifos do autor).


Ao trabalhar com a educação de crianças pequenas, Alexandre de Gusmão os concebia como uma tabula rasa, na qual tudo poderia ser escrito e projetado, e isso dependia de sua educação para ser uma boa pessoa cristã. De acordo com o autor, eram “os ânimos dos meninos como uma tábua rasa que um insigme pintor tem aparelhada para pintar nela qualquer imagem [...] se anjo, anjo; se demônio, demônio representará” (ALEXANDRE DE GUSMÃO, 2004, p.13). E, essa educação, dependia exclusivamente de seus pais, mestres e responsáveis pela criança, pois assim como o quadro, bem ou mal pintado, depende do pintor assim “bem, ou mal criado, o filho depende dos primeiros ditames que nele, como em tabua rasa, debuxou o pai enquanto menino” (ALEXANDRE DE GUSMÃO, 2004, p. 14). Gusmão deixa de lado a visão de infância que projeta a criança como um adulto em miniatura, com as mesmas responsabilidades, formas de vestir e de tratar, mas salientando a necessidade de cuidados, correções, educação, exemplos, entre outros, que as crianças pequenas demandavam. Dessa maneira, Gusmão ajudou a solidificar o conceito de infância no Brasil colonial.
Sabe-se que o conceito de infância nem sempre existiu, e que este se modificou conforme os períodos históricos, refletindo a maneira de se organizar e de se pensar a sociedade. Essas mudanças do conceito de infância são bastante significativas se compararmos a Idade Média à Moderna, porém, notaremos aproximação dos conceitos se fizermos o mesmo com a Idade Média e a Contemporânea, já que, de acordo com estudos e próprios conhecimentos populares, o excesso de exposição a informações e de estimulações das crianças, estão tornando-as cada vez mais precoces, diminuindo gradualmente a infância nos dias atuais.
Percebe-se que, desta forma, a importância dos movimentos religiosos e do pensamento moderno – nos quais Alexandre de Gusmão se insere - para a criação do conceito de infância e da necessidade de tratamento diferenciados das crianças em relação aos adultos. Sobre a visão da criança tida como um adulto em miniatura e a construção do conceito de infância, António Gomes Ferreira, também fazendo uma leitura da obra de Ariès, compara as crianças do século XII com as do século XVII:
Áriès observou que, até ao século XII a criança aparecia representada tal qual um adulto [...]. Nos séculos seguintes, as representações do Menino Jesus demonstravam que alguma coisa tendia a mudar na forma como se encarava a infância: pelo menos uma criança era alvo de atenções particulares e merecia figuração especifica. Todavia, as crianças que começavam a surgir no século XV, mais não eram ainda que figuras ornamentais e pitorescas que serviam para dar vida a um quadro; só no século XVII a criança parecia ter valor suficiente para ser representada a solo. No entanto, observa ainda Áriès, tal coincidia de modo algum com uma visão mais optimista da infância mas apenas com a idéia transmitida pelos moralistas de uma criatura de Deus fraca e inocente que era preciso simultaneamente preservar e modificar, um ser cujo comportamento devia ser treinado e corrigido. Segundo o investigador francês, ter-se-ia passado de uma sociedade aberta na qual a criança, quando capaz de valer-se a si própria, vivia livre, como um adulto no meio de adultos, a uma sociedade fechada em núcleos familiares que privatizavam e segregavam a infância mediante sistemas educativos que implicavam autoritarismo e regime disciplinar restritivo. Desta forma, se a criança adquiria maior importância nem por isso teria saído mais beneficiada pois, a partir de então, sobre ela se abatia a severidade dos que a educavam (FERREIRA, 2000, p. 18 e 19).
No Século XVII o conceito de infância foi se aprimorando, já que a criança não era mais vista como um adulto, porém seu papel era então de uma criatura fraca e dependente dos severos cuidados e da educação provinda dos adultos. Nesse contexto pode-se incluir a obra de Gusmão, pois este tinha a definição de criança como um papel em branco, cuja responsabilidade do que ali seria desenhado era dos pais e responsáveis. E esse “desenho” seria feito na base de uma educação rígida e cristã, que permitia até castigos físicos se necessário, pois “se tendes filhos, ensinai-os e domai-os desde sua puerícia; quebrai-lhes os brios enquanto são moços; açoitai-os enquanto são meninos; por que não suceda que, depois de grandes, se façam rebeldes e não tomem vossos conselhos, com dor de vossa alma ou com mágoa de vosso coração” (ALEXANDRE DE GUSMÃO, 2004, p.13). De acordo com Gusmão, a importância da boa criação dos filhos na idade da puerícia e as conseqüências infelizes da má educação, eram responsabilidade e dever da família.
Sobre a concepção de infância no contexto pedagógico moderno, no qual se pensamento de Alexandre de Gusmão, fazendo uma ponte de ligação com o momento histórico da Reforma e Contra-reforma, Batista e Moreno argumentam:
nos séculos XVII e XVIII, movimentos culturais e religiosos, como a Iluminismo e o protestantismo, deram um lugar ao descobrimento da infância, considerando-a como etapa diferente da idade adulta e tratando-a diferenciadamente. Á medida em que as concepções fatalistas e predeterministas da vida humana foram desaparecendo, as pessoas sentiam-se mais protagonista de sua própria existência e passaram a atribuir um papel importante à educação das crianças. Tal época, marcada pelo empirismo e baseada nas idéias dos filósofos J. Locke e D. Hume veiculou a proposição de que a mente humana pode ser comparada, no momento do nascimento, a uma tabula rasa. Sendo assim, a experiência que a criança adquire em contato com o meio depende da estimulação que recebe, que determinaria a todo momento os conteúdos do psiquismo. Locke, repetindo a máxima de Aristóteles afirmou: “não há nada na inteligência que não tenha passado antes pelos sentidos” (BATISTA; MORENO, 2005, p. 8).
O pensamento moderno, conforme citam as autoras, permitiu um avanço no conceito de infância, e no Brasil, o padre Alexandre de Gusmão, em sua obra Arte de Criar bem os filhos na idade da puerícia (1685), foi o pioneiro a escrever sobre os cuidados que se deve ter na criação dos meninos e das meninas, seguindo os preceitos cristãos, representando a pedagogia jesuítica em seu apogeu. Isso significa dizer que ela representava a hegemonia católica sobre a educação, além da religião, nos domínios portugueses. Sobre como se fundamentava a obra de Gusmão, Ferreira (1988, p. 270) afirma:
A concepção pedagógica deste educador jesuíta caracterizava-se fundamentalmente, para além do apego à sobriedade dos princípios da doutrina católica, pela vigilância, pela severidade e pela autoridade: Gusmão (1685, p. 259 -272 e 301 – 324) condenava tudo o que fossem mimos ou cedências às vontades pueris e defendia, convictamente, o recurso à disciplina, à obediência e ao castigo físico moderado. Como dava também grande importância à conduta e ao exemplo dos educadores, pretendia que na escolha do mestre se atendesse, preferencialmente, ao seu comportamento social e moral (FERREIRA, 1988, p. 270).
O livro de Gusmão, dividido em duas partes, demonstra todo o rigor da formação e militância jesuítica. Discorre sobre conselhos aos pais e mestres no cuidado da criança, considerando que, no século XVII houve uma grande valorização da infância. Isto porque, com as reformas religiosas, a criança era tida como salvação da humanidade, portanto, preservando e consertando-a seria possível mudar o rumo da humanidade. Este fato torna o livro de Gusmão ainda mais necessário como objeto de estudo, ratificando sua importância no cenário da educação infantil.
Arte de criar bem os filhos na idade da puerícia divide-se inicialmente em: dedicatória Ao menino de Belém JESUS Nazareno, Prólogo ao leitor e Licenças. Em um segundo momento, o livro é desenvolvido em duas partes. A Parte I, subdivide-se em dezenove capítulos, intitulados respectivamente: Da importância da boa criação dos meninos; Explica-se a importância desta criação dos meninos com algumas semelhanças aos padres; Da utilidade da boa criação dos filhos enquanto meninos; De quanta utilidade seja para os pais a boa criação dos filhos; De quanta utilidade é para toda a república a boa criação dos meninos; Da obrigação que têm os pais de criar bem os filhos na idade de meninos; Quão severamente castiga Deus nesta vida os pais negligentes na boa criação dos filhos; Quão severamente castiga Deus na outra vida os pais negligentes na boa criação dos filhos; Quanto se agrada Deus dos pais que sabem criar bem seus filhos; Quais estejam mais obrigados à criação dos meninos, os pais ou as mães; Da obrigação dos tutores aios e mestres de meninos; Dos pais que enjeitam os filhos pelos não criar; Da crueldade dos pais que matamos filhos pelos não criar ou por outros respeitos humanos; Da boa criação dos meninos enjeitados; Da boa criação dos meninos órfãos; Do cuidado que devem ter os pais dos meninos defuntos; Como se hão de haver os pais com os filhos e má condição; Que naquilo em que os pais puseram os filhos na puerícia ficarão toda vida e, finalmente, Do cuidado que os antigos tiveram da boa criação do meninos.
O segundo momento do livro intitulado Como hão de haver os pais na criação dos meninos, é disposto em vinte e cinco capítulos: De quanta importância é oferecer a Deus a criança logo em nascendo; Como se hão de haver os pais com os filhos na primeira idade de infantes; De quanta importância é para a boa criação dos meninos serem criados aos peitos de suas próprias mães; Que coisas principalmente devem prevenir os pais aos meninos tanto que chegam aos anos da descrição; Do temor de Deus e ódio ao pecado em que se devem criar os filhos desde a puerícia; Do amor da castidade e horror a toda torpeza com que se devem criar os meninos; Dos pais que permitem ou dissimulam aos filhos coisas desonestas; De outros vícios próprios dos meninos, de que os devem afastar os pais; Quanto importa para a boa criação dos meninos o bom exemplo dos pais; Da boa companhia dos meninos; Que se não devem criar os meninos à vontade; Quanto dano causa criar os meninos com mimo; De quanta importância é criar os meninos em piedade e devoção; De quanta importância é criar os meninos na devoção da Virgem Maria, Nossa Senhora; Da boa eleição do mestre dos meninos; Do respeito e obediência a seus mestres, aios e tutores em que se hão de criar os meninos; Quanto importa castigar os meninos quando erram; Que não devem ser demasiadamente severos os pais nos castigos dos meninos; Que não hão de amaldiçoar nem praguejar os filhos, mas encomendá-los a Deus e a Virgem Nossa Senhora; Qual deve ser o amor dos pais na criação dos meninos; Como devem os pais inclinar os filhos na pueadolescência; De quanta importância é inclinar os filhos ao estado religioso logo de sua puerícia; Se convém que os filhos tomem o estado religioso na idade da puerícia?; Dos jogos e brincos dos meninos e, finalizando, Do especial cuidado que se deve ter na criação das meninas.E, finalizando a obra, o índice onomástico.
A primeira parte do livro discorre sobre a importância da boa criação dos meninos, da utilidade desta educação e da obrigatoriedade dos pais e preceptores de darem uma boa criação aos infantes, expondo claramente todas as terríveis conseqüências e maldições decorrentes da má criação, que prejudica todos os responsáveis pela educação da criança, inclusive ela própria, sendo então, essa primeira parte uma análise dos fundamentos teológicos para a boa educação. Já a segunda parte do livro, Gusmão sugere conselhos práticos aos pais, mostrando de quanta importância é, para o autor, oferecer à criança a Deus, sendo guiados sobre seus ensinamentos, a fim de tornarem pessoas justas, dignas e temerosas, especifica o papel da mãe e do pai na criação dos filhos. Em todo o livro o autor recorre a grandes filósofos, à Bíblia e a histórias populares para dar embasamento à sua obra e reforçar seus conselhos. Ao observar os títulos dos capítulos do livro, pode-se ter uma nítida noção dos conteúdos dos temas abordados, tendo em vista que Gusmão expôs de maneira clara todos os seus pressupostos para a boa educação sugeridos no decorrer da obra, seguindo uma linha de raciocínio coerente e de fácil compreensão.
Tendo em vista que a metodologia pedagógica dos jesuítas era sistematizada pelas regras contidas no Ratio Studiorum, pode-se notar sua influência no modo como o autor desenvolveu seu texto e conselhos, na base da repetição, no qual os ensinamentos são passados e retomados diversas vezes, seguidos por exemplos e histórias e que os ratificam, em como a disciplina rígida é colocada como condição para a boa criação e para a educação. Pode-se encontrar no decorrer da obra, passagens que afirmam citações de filósofos sobre a infância, como por exemplo, Alexandre de Gusmão afirma e concorda que “como diz Aristóteles, todo o bem dos depende de sua boa criação” (ALEXANDRE DE GUSMÃO, 2004, p. 13). Sobre a importância de escrever sobre a infância e ilustres autores que já o fizeram e que Alexandre de Gusmão recorre para enfatizar os conselhos contidos em seu tratado:
não é esta matéria de tão pouca importância e autoridade, que não fosse tratada já pelos mais ilustres engenhos que no mundo houve. Dos antigos, trataram políticas de meninos: Platão, Plutarco e Aristóteles e outros filósofos antigos. Dos doutores católicos, escreveram os principais da Igreja: São Jerônimo, Santo Ambrósio, São João Crisóstomo, São Basílio, São Bernardo, Além de outros muitos, que em seus escritos encarecem a boa criação dos meninos como coisa de grandíssima importância, e nós adiante veremos (ALEXANDRE DE GUSMÃO, 2004, p. 6).
A segunda parte também discute sobre quais virtudes devem ser estimuladas nas crianças, bem como quais vícios devem ser evitados, sobre o papel da religião e jogos nas vidas dos meninos e, por ultimo, faz uma análise do especial cuidado que se deve ter na criação das meninas. Sobre este assunto, António Gomes Ferreira afirma:
Nas últimas páginas da Arte de criar bem os filhos na idade da puerícia, destinadas a dar algumas recomendações sobre a educação das crianças do sexo feminino, Alexandre de Gusmão (1685, p. 377 – 386) deixa-nos perplexos: se, por um lado, insistia na tradicional idéia do austero recolhimento doméstico, desde a infância, por outro, achava conveniente e louvável que as meninas, tal como os rapazes, usufruíssem do ensino da artes liberais ou, pelo menos, da aprendizagem da leitura e da escrita. Dois anos mais tarde, um outro clérigo, num outro país, abordaria o tema com outra desenvoltura (FERREIRA, 1988, p. 271).
No século XVII houve uma grande valorização da infância. Isto porque, com as reformas religiosas, a criança era tida como salvação da humanidade, portanto, preservando e consertando-a seria possível mudar o rumo da humanidade. Este fato torna o livro de Gusmão ainda mais necessário como objeto de estudo, ratificando sua importância no cenário da educação infantil. Gusmão não indica como meta, apenas o uso escolar de sua obra, mas também ao convívio social.
A isso pode-se acrescentar novamente, a referência do conceito de cultura característico do período em que a sociedade européia transita da Idade Média à Modernidade. A burguesia, que assumia papel cada vez mais importante e dava início a uma nova estruturação de sociedade, ia fomentando cada vez mais sua distinção com as demais camadas sociais, perpetrando este sistema educativo uma marca a compor a sociedade civil, publicando cada vez mais livros sobre a boa convivência, boas maneiras e educação. As obras do padre jesuíta definem o conceito de educação estreitamente ligado a religião e a conceitos de civilidade, e trazendo esse enfoque para o Brasil colonial (Século XVII), percebe-se que essa educação era uma educação que apenas perpetrava uma educação elitista, no qual apenas ricos e nobres tinham acesso.
Considerações finais
Sobre a importância histórica da obra do padre jesuíta Alexandre de Gusmão, fato indiscutível é que para se discutir a formação da educação no Brasil, temos que discutir a história da Companhia de Jesus e seu método de ensino. Isto porque a educação para as crianças pequenas traçada pelo padre no século XVII representa apenas um dos diversos aspectos do grande projeto evangelizador dos jesuítas para o Brasil, embora o faça com maestria, se tornando assim uma fonte fiel de pesquisa para a educação da época.
O termo educação aqui utilizado é no sentido mais alargado do que no sentido apenas escolar, tendo em vista que a educação não atingia mais do que uma pequena minoria no Brasil Colonial, lembrando que esse conceito de educação não abrange apenas a educação livresca e intelectual, mas também condutas comportamentais, delimitação de vícios e virtudes dentro de uma sociedade burguesa. Nessa perspectiva, considerando o poder da Igreja Católica, a hegemonia jesuítica na educação no Brasil colonial, percebe-se que os jesuítas logo não apenas catequizavam e ensinavam as primeiras letras, como também exerciam grande influência política. Isto porque disseminavam os mandamentos católicos (lembrando que a Ordem foi de grande valia no combate ao avanço do protestantismo), na tentativa de manutenção do poder e influência da Igreja.
A Companhia de Jesus tinha como missão disseminação da fé católica por meio da catequização, pregação, confissão e a educação como meio concomitante para o homem chegar ao seu fim maior predestinado e, por serem composições organizadas no final do século XVI, as obras escritas por Alexandre de Gusmão são de certa forma, o ápice do projeto da Contra-Reforma no que se diz respeito à propagação do catolicismo, pois Gusmão escreveu peças, textos e sermões com explícitos propósitos catequéticos, nas quais se pode ter uma noção da implantação da religião cristã na sociedade brasileira.  
Alexandre de Gusmão utilizava a educação de crianças pequenas – algo que ainda não havia sido feito no Brasil – e outras formas de escrita (como a novela alegórica História do Predestinado Peregrino e seu irmão Precito, primeira do gênero também escrita no Brasil) para adaptar à mensagem teológica para a mensagem popular de fácil entendimento e aceitação, permitindo que, posteriormente, possamos analisar o projeto pedagógico e intuito da catequese no Brasil colonial por intermédio de sua obra.
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