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Tradução: Ana Maria de Alencar e Ana Lúcia Moraes


Resumo: Expondo a experiência pioneira de criação das oficinas de escrita no contexto acadêmico francês, esse texto apresenta os princípios teóricos e o encaminhamento prático das oficinas concebidas por Claudette Oriol-Boyer.

Palavras-chave: Oficinas de Escrita, Reescrita, Releitura.


Abstract: Describing the experience as a pioneer in the creation of the writing workshops in the French academic context, this text presents the theoretical principals and the practical development of the workshops conceived by Claudette Oriol-Boyer.

Key-words: Writing Workshops, Rewriting, Rereading.





O Concílio do Pastiche

Daniel Bilous*



A Jacques Laurent

Eles estavam todos lá, nessa noite qualquer, na Rue de Rome, número 87: os vivos e os mortos, os grandes e os obscuros, ao redor da mesa, em meio-círculo e grande demais para as dimensões da sala de jantar, com a caixa de tabaco majestosamente no centro, e a névoa leve das fumaças de todos flutuando como uma nuvem doméstica. Perto da grande salamandra onde morriam brasas, discutia-se literatura, como sempre. E a um momento, com o olho fixo no espelho, Remy de Gourmont, dirigindo-se ao anfitrião mas como se falando a si mesmo, deixou cair essas palavras:

– Sempre haverá dois tipos de escritores, os que escrevem – e os outros. E o senhor será sempre o Mestre dos primeiros e o escândalo dos outros. O gênio do verbo é o que se perdoa menos, por ser inimitável.

O assunto não deixou ninguém indiferente. Do que eles se disseram então, ninguém pensou naquele instante em fixar a lembrança. Foi preciso reconstituir o debate, dar-lhe forma, recortá-lo; a coisa era bastante fácil já que cada um, ou quase, falava como um livro. Foi Mauclair que, no silêncio incomodado que se seguiu, encadeou.




O mito

Camille Mauclair – Disseram, Mestre, que o senhor professava e ensinava a doutrina simbolista a jovens que o senhor pervertia. É totalmente inexato: a atitude que, poeta, o senhor sempre teve foi a de um individualista, escrevendo segundo um método puramente aplicável à sua própria inspiração, recusando todo ensino e convocando cada um a somente se fiar em si mesmo. Se o senhor jamais teve alguma influência, foi pelo prestígio do caráter, do desinteresse, da sóbria elegância e da nobreza de alma.
René Ghil (baixo, a Theodor de Wyzewa) – Eis alguém que o ultrapassa em adulação.
Theodor de Wyzewa (baixo, a René Ghil) – Cale a boca, imbecil. Ele mostra como seu esforço é vão.
René Ghil – Não sei do que você está falando.
Camille Mauclair – Eu insisto: ali, não há nada para perverter nem para fazer escola; e quanto às formas mesmas da obra poética e prosaica de Mallarmé, ninguém, a não ser ele, usou-as. Apenas uma ou duas construções frasais, uma certa maneira de colocar os epítetos aplicados ao sujeito entre vírgulas, e um uso momentâneo do infinitivo como particípio presente para produzir um efeito especial, passaram dos escritos do poeta para os de alguns de seus amigos. É tudo o que se pode constatar, quer dizer, quase nada. Stéphane Mallarmé é um homem inimitável, sem análogo em seu passado, um organismo cujo mistério nasceu todo dessa falta total de similitude com quem quer que seja, que não podia ser pastichado de modo algum.
Roland Barthes – É a figura absoluta da função utópica da literatura.
Albert Thibaudet – Concordo com você, Mauclair, apenas em parte. A língua e o estilo de Mallarmé são algo, para nós, de paradoxal e de único, mais certamente do que a música de seu verso. Sua poesia, enquanto tal, pode ser ligada, senão a antecedentes, ao menos a análogos. Ela não parece de modo algum, na seqüência das escolas, isolada. Sua prosa, ao contrário, não se parece com nada. Sem ponto de ligação com o passado, ela está igualmente garantida no futuro contra qualquer imitação, a não ser ridícula. A língua e o estilo que aí se desnudam, desprovidos do modo encantatório pelo qual o verso os ordenava segundo um tipo anterior, formam, nos confins extremos do francês, um jogo muito curioso, que nos revela às vezes certas potências, certas tendências, irrealizáveis, de nossa escrita literária.
Paul Valéry – Que haja certos resultados dessa obra precisa que “não tenham demorado a entrar na produção”, todos nós o demonstramos. Mas Mallarmé não devia ter influência: é uma proposição que se pode demonstrar. Influência é imitação ou continuação. Imitar um ser tão singular é gritar que se imita. Imitar uma arte tão perfeita é um caso desastroso: custa mais caro do que arriscar ser “original”.
Stéphane Mallarmé – Pois, saibam: por que adulterar o que, talvez, não se deva vender, sobretudo quando isso não se vende?
Daniel Bilous – Mas às vezes custa menos do que se ganha, em valores temporais. Na Grasset, suponho que eles ainda se felicitem por terem sido os primeiros a publicar os À la manière de...
Paul Reboux – E que tinham sido primeiramente recusados pelos Ollendorff, os Calmann-Lévy, Fasquelle e outros Flammarion! Entretanto, para responder a Paul Valéry, a oportunidade é uma coisa, a questão da possibilidade é outra. Sustento que é possível zombar do humanitarismo impetuoso de um Mirbeau, da nostalgia de um Loti, da simploriedade de um J. H. Fabre, do estilo 1900 de um Henry Bataille, e, claro, do hermetismo de Stéphane Mallarmé, das redundâncias de tal homem político, da virtude burguesa de tal moralista. Quanto a nosso Maupassant, saberiam vocês por que nunca imaginamos que sua célebre narrativa “La Parure” tinha permanecido em estado de esboço para ser narrada por seus amigos Dickens, Goncourt, Zola e Daudet? É que é impossível fazer um bom pastiche baseado em Anatole France com seu estilo de diamante, no luminoso Voltaire, no irretocável Maupassant, no inimitável Molière...
Jean-François Marmontel – Rousseau, com seu talento para o epigrama, pegou o contorno, o estilo de Marot; La Fontaine imitou-o, ultrapassando sua inocência. Mas quem jamais falsificará, quem imitará, mesmo de longe, a feliz e rica naturalidade de La Fontaine?
Paul Reboux – Sobre tais escritores, as zombarias escorreriam como gotas sobre uma plumagem impenetrável.
Gérard Genette – Impenetrabilidade bastante relativa, de qualquer modo: você mesmo não atribuiu um “L’Anglois et les rieurs”1 a esse “inimitável” fabulista? Mas continuemos. Segundo você, eles praticariam ordinariamente uma sorte de grau zero ou de escrita branca, a língua mesma em sua pureza fundamental?
Paul Reboux (baixo, a Müller) – Estranho Volapük! Poderíamos talvez...Você percebe, Charles? (Alto) Menos “branca” do que clara, luminosa, senhor professor!
Gérard Genette – Eu tinha entendido. Há, subjacente à prática e à tradição da charge – você permite que eu chame assim seus deliciosos A la manière de...?
Paul Reboux – Por favor: Müller e eu jamais fizemos senão caricaturas em palavras.
Gérard Genette – Há, como eu dizia, uma norma estilística, uma idéia do “bom estilo”, que seria essa idéia (simples) de que o bom estilo é o estilo simples.
Charles Müller (levantando os olhos para o céu) – Bem-aventurados os simples, pois deles será o Reino do Estilo!...
Daniel Bilous – Se me permitem intervir, creio compreender que para o senhor Reboux pouco importa que esses autores sejam saudados como mestres, se não é o “estilo simples” que os torna inapreensíveis, é uma... ausência de estilo. Eles seriam “mestres”, precisamente, por terem sabido não permanecer “estilistas”, enquanto que os outros se contentam com isso – os medíocres, os que não podem ser imitados. Eu acrescentaria, no entanto, que essa hipótese maximalista não se sustenta de modo algum no plano teórico.
Paul Reboux – Oh, você sabe, para nós, a teoria...
Daniel Bilous – Você tem uma, como todo mundo: seu discurso ilustra a visão do estilo como “idioleto”, que se encontra tão freqüentemente oposta aos socioletos e, sobretudo, a uma “língua”, a língua dita, pelo uso, “comum”, na qual se encontra o substrato (explícito ou não) do que se chama a “estilística do desvio”.

Um anjo passou. No fundo do salão, tramava-se um aparte:


Charles Müller (baixo, para Reboux) – Peguei por alto: “grau zero”, “escrita branca”, “a língua em sua pureza fundamental”, “uma norma estilística”, “hipótese maximalista”, “o estilo como idioleto”, “o socioleto”, “a língua dita, pelo uso, “comum”, “a estilística do desvio". Falta-me um.
Paul Reboux (baixo, para Müller) – “O substrato”: seria uma pena esquecê-lo, esse aí. Imagina se com tudo isso a gente não consegue arrematar um trecho estruturalista!

Em seguida, a voz do Fauno levantou-se.


Stéphane Mallarmé – Se for do agrado de alguém, que a envergadura surpreende, incriminar...será a Língua, cujo embate aqui temos.
Daniel Bilous – Um embate e não um desvio (obrigado, Mestre). Conhece-se, de resto, a dificuldade do estilista que parte de tais premissas para isolar essa entidade geral, a norma anestilística. A objeção virá, aliás, do leitor mais obtuso e não menos do lingüista: esses escritores são inimitáveis, que seja!... pelo menos, eles o são cada um a sua maneira. Sempre será um caso de estilo, quer dizer de um estilo e é o senhor, caro Reboux, que o enuncia: um é “adamantino”, o outro “luminoso”, o terceiro “irretocável” (quaisquer que sejam as críticas a se opor a um estilo), etc. Senão, seria simplesmente impossível distingui-los entre eles. E enquanto tal, essa maneira é imitável como qualquer outra.
Jean-François Marmontel – Porém não se pode argumentar que quanto mais amaneirado for um escritor, quer dizer, singular no tom e na expressão, mais será fácil contrafazê-lo?
Marcel Proust – Inversamente, creio eu, a extrema complicação e a extrema nudez tornam os pastiches difíceis.
Daniel Bilous – Difíceis, mas não impossíveis. Se se trata de imitar um estilo e se mesmo a “ausência de estilo” faz estilo, então o inimitável é uma quimera, quer dizer, num outro nível, um puro e simples postulado estratégico. A inimitabilidade constitui uma das virtudes que honra a hagiografia, essa doença endêmica da crítica literária. Pode-se duvidar que o vírus seja sempre o entusiasmo apaixonado do especialista pelo seu objeto. Incensar a literatura como arte do único não permite somente lhe preservar um certo valor. Também autoriza a receber os dividendos da operação: o único é por definição o que não se pode esgotar; falar do único, portanto, parecerá um empreendimento nobremente temerário. Conseqüentemente, não basta dizer que toda obra é, como seu autor, única. É preciso reforçar o truísmo, ou o mito – e afirmar enfaticamente que a obra é “original”. Em primeira instância, com relação a todas que a precederam – eis uma meia-verdade; e posteriormente, nada menos: para garantir a plenitude da originalidade, é preciso que toda tentativa para refazê-la ou continuá-la seja inelutavelmente fadada ao fracasso ou ao derrisório – e eis a meia-mentira. O alicerce ideológico do edifício assim construído – o Sr. Proust não me contradirá em absoluto – é um sainte-beuvismo que renasce sempre: assimilem o escritor ao homem, associem a obra ao homem como o fruto a sua árvore, e escritor algum será jamais imitável.
Pol Vandromme – As aparências não são sempre tão enganosas quanto se imagina habitualmente. Mas ainda é preciso persuadir-se que são somente aparências e que, sempre, o gênio dos autores de primeira linha escapa às astúcias de uma atenção inquisitorial. Há, na obra de um grande escritor, uma parte irredutível, rebelde a tudo, aos mecanismos de sua própria criação como aos confrontos com uma crítica que exerce o mimetismo. Uma memória profunda não se deixa penetrar por uma memória de superfície.
Daniel Bilous – Que um pastichador sustente uma proposição semelhante só pode significar uma coisa: o quanto sua teoria permanece aquém de sua prática.
Pol Vandromme – E orgulho-me disso, caro senhor!
Maurice Maeterlinck – Mas o senhor nada diz, Mestre, e permanece em silêncio já há algum tempo.
Charles Müller – Prelúdio à tarde de um áfono...
Marcel Proust (para Paul Reboux, Charles Müller e Georges Maurevert) – É agora! (juntos, à maneira de Maeterlinck) – Sim, que silêncio! Vocês escutam o silêncio! Oh, o terrível silêncio! Uma palavra, uma palavra antes que o silêncio!
Jean-Marc Bernard, que escorregou para baixo da mesa, recitando versos –
SILENCE

Funèbre cette nuit présage maints désastres

Inscrits au ciel en la noire absence des astres

Pour le poète seul agonisant ici.

Silence! et que retient ton stérile souci;

Car pour l'éternité le voici tributaire

Du Verbe que malgré son cœur il a dû taire.

Aussi bien si d'un mot vierge ensemble et subtil

Quelque jour, ignoré hélas! te rompait-il

Pur tu t'exhalerais parmi le soir insigne

Et pareil à la mort sur l'étang d'aucun cygne.1
René Ghil – Mas, calemo-nos: ele vai falar...
Stéphane Mallarmé – Que, mais ou menos, todos os livros contenham a fusão de algumas reiterações contadas; mesmo que fosse um só – no mundo, sua lei – bíblia como a simulam nações. A diferença, de uma obra para a outra, oferecendo tantas lições propostas num imenso concurso pelo texto verídico, entre as idades civilizadas ou – letradas.
Vitor Chklovski – Agradeço-lhe, Mestre, por estender sua proposição a todas as nações. Eu ainda acrescentaria: não somente o pastiche, mas toda obra de arte é criada em paralelo e em oposição a um modelo qualquer. Um crítico de seu país, Ferdinand Brunetière, já o havia dito antes de mim: “De todas as influências que se exercem na história de uma literatura, a principal é a das obras sobre as obras”.

Crítica e Sátira

Jacques Laurent – Para o crítico, a idéia de duplo é simples. Ele está frente ao criticado como o erudito frente ao fenômeno. Não se admitiria que um físico bancasse o dervixe girador porque estava observando uma corrente senoidal. O dilema não é muito complicado. Ou o crítico deixa de ser crítico ou, se ele o permanece, condena-se a permanecer estrangeiro à obra estudada, obrigado a ficar de fora para poder julgá-la, permanecer lúcido frente à demência e prosador frente à poesia. O pastiche é a única saída. Ele permite que se borboleteie, se o autor borboleteia, mas tem esse poder sem ridículo, porque não se situa no universo do julgamento. O pastiche, como a obra pastichada, é um fenômeno.


Paul Reboux – Por isso, o pastiche é uma forma da crítica literária, e não a menos eficaz.
Marcel Proust – No meu caso, L’Affaire Lemoine foi preguiça de fazer crítica literária, por divertimento de fazer crítica “em ação”. Primeiramente, quis publicar esses pastiches com estudos críticos paralelos sobre os mesmos escritores, os estudos enunciando de um modo analítico o que os pastiches figuravam instintivamente (e vice-versa), sem dar prioridade nem à inteligência que explica nem ao instinto que reproduz.
Daniel Bilous – Você falava, Jacques Laurent, de apreciação do leitor. Ora, o que se chama na França de crítica literária sempre se dividiu entre a análise mais ou menos fina de um texto ou de uma obra e o julgamento mais ou menos severo que se tem direito de formular a seu respeito. Trata-se de descrever um estilo ou de avaliar uma prática e seus resultados?
Paul Reboux – Permita-me responder: um não existe sem o outro. Mas a nossos olhos, o pastiche é superior: um discurso pedante não vale uma pilhéria para desencorajar um ridículo, assinalar um erro, caracterizar um escritor, preservar o público de um arrebatamento. Um livro de pastiches é uma necessidade estética. Clareia o horizonte literário. Ele serve de alerta para os idiotas que se deixam enganar pelos maliciosos hábeis demais em mascarar, graças a uma obscuridade metódica, sua impotência.
Marcel Proust (baixo, para Mallarmé) – Siga meu olhar...
Stéphane Mallarmé (baixo, para Proust) – Ah, o seu também?1
Marcel Proust (baixo, para Mallarmé) – Touché!
Paul Reboux – Ele ensina o pensamento nítido, o falar claro, a arte de não representar redondo o que é quadrado, de evocar a natureza não através de vagas e fugazes analogias, mas por imagens que se impõem e por fórmulas estritas.
Stéphane Mallarmé (para Proust) – Isso, acho que é com você.
Marcel Proust (para Mallarmé) – Com você também: não somente cultivou o demônio da analogia, como você também restringiu a expressão até generalizar a elipse.
Remy de Gourmont – Devo ter escrito algo assim.
Paul Reboux – Se você vestiu a carapuça... O imitador faz-nos compreender, zombando dos pretensiosos e dos velhacos, que não se escreve somente para si, para brincar, para exprimir emoções que se teve. Deve-se escrever para se fazer compreender, para comunicar aos outros o que se sentiu. Ele mostra o que se arrisca, distanciando-se dos caminhos do equilíbrio e do bom senso.
Subitamente, Marcel Proust é tomado de uma violenta crise. Celeste acorre e o conduz para o quarto da senhorita Mallarmé. O debate é retomado depois dessa interrupção.
Gérard Genette – Portanto, ato, Sr Reboux. Mas essa apologia da clareza, do bom senso, a idéia de que certas imagens se imporiam e outras não, esse ideal da fórmula estrita, tudo isso é um pouco datado.
Paul Reboux – E de quando, por favor?
Gérard Genette – De 1820, já que você faz questão de milésimos. Parece que estamos ouvindo uma dessas diatribes dos “clássicos” contra os “românticos”. Mas talvez nisso consista o espírito da “charge”, que você, Masson e tantos outros, ilustram e que me parece ser o antípoda do espírito do pastiche, ao menos o de Proust.
Paul Reboux – Vamos lá, então. Marcel Proust.... – a porta está fechada? – Proust, como eu dizia, escreveu alguns A la manière de...em que se atestavam sua cultura e sua delicadeza. Mas, perdoem-me, eles nunca “decolaram”. Mesmo meritórios, eles permaneciam cinzentos e tediosos. A maior parte das tentativas desse gênero sofre do mesmo inconveniente. Elas não divertem nem pela aspereza, que consiste em submeter à pena de um escritor frases que o ridicularizam, nem pela invenção de uma anedota. São imitações pálidas como um velho espelho que reproduz sem deformar.
Stéphane Mallarmé, alisando a barba de frente para o espelho – Tais reflexos têm seu charme!
Paul Reboux – Demasiadamente discreto. Müller e eu sempre começamos inventando uma história alegre por si só, e capaz de divertir, independentemente do autor imitado.
Charles Müller – Mas às suas custas.
Paul Reboux – Até um certo ponto. Quanto a nos tratar de clássicos, é um pouco forte: você não leu nosso – perdão! a Cléopastre de Müller, por Jean Racine?1
Charles Müller – É o contrário.
Paul Reboux – Sim, perdoe-me, é a emoção! Vocês esqueceram minha Oraison funèbre de Madame Adèle, Abbesse de Volleyclault, par Jacques-Bénigne Bossuet, Aigle de Meaux?2 Vocês saberiam que ninguém escapa a nosso espelho deformante que, no fundo é uma lupa. Julgar sem palmatória e sem regras, reformar divertindo, isso é próprio a um espírito liberado dos dogmas e das modas, quer dizer, superior às doutrinas e aos esnobes.
L’Abbé Sallier – Eu mesmo tinha dado essa definição para o quarto tipo do que chamava de “paródia”: fazer versos dentro do gosto e do estilo de certos autores pouco aprovados.
Charles Nodier – Falsifica-se sem problema algum defeito notável, mas é preciso outras faculdades para imitar bem o que é perfeito.
Jean-François Marmontel – Assim, Montaigne. Ele parece, às vezes, falar de forma lânguida e alongada, e foi o que La Bruyère copiou dele: o defeito3.
Roland Barthes – Só que nossos duetistas generalizam a reprovação, uma vez que suas charges não poupam muita gente. Os letrados classificar-se-iam exclusivamente entre pretensiosos e vadios. A seus olhos, Reboux, quem “escreve”, no sentido que viemos a dar a tal verbo, só pode escrever mal.
Michel Perrin – Ora, não se zomba bem senão do que se ama...ou do que se amou.
Paul Reboux (arrasado) – Eles são sublimes! E muito modernos, de verdade!
Jacques Laurent – Eu tampouco concordo com você, Reboux. Mesmo satírica, a imitação não poderia funcionar como uma polícia na República das letras. Num bom pastiche, o pastichador tem uma causa em comum com sua vítima.
Paul Reboux e Charles Müller – Não, jamais! ...
Jacques Laurent – E talvez seja uma pena. Enquanto um crítico consumidor escreverá que a cena II do III ganharia em ser encurtada, que um crítico egoísta dirá por que lhe agrada a lentidão dessa cena em que ele encontra etc... o pastichador talvez seja o único a compreender que a tal cena de seu autor modelo, vista de longe, ganharia sem dúvida em ser encurtada mas não é encurtável, que o autor não a sentiu lenta, e que, reagindo contra seus obstáculos interiores, ele talvez nunca tenha se considerado tão rápido quanto nesse momento.

Pastiche e paródia

Lilith pulou para o colo de Mauclair, depois para a mesa, que lhe é proibida.


Paul Valéry – Foi Victor Hugo quem falou do gato como de um “tigre de apartamento”.
Stéphane Mallarmé – É a filha da gata do Baudelaire, sabia? Ela não é muito brava, é antes uma paródia de tigre!
Gérard Genette – Os Gongourts falavam de uma “paródia de floresta”, a respeito do bosque de Vincennes.
Jacques Laurent – Ganha-se pouco em empregar a torto e a direito uma palavra como essa.
Charles Nodier – Qual?
Jacques Laurent – “Paródia”. Hoje o público veio a dar o nome de pastichador a parodistas, quer dizer, àqueles que se contentam em transportar uma obra nobre para o gênero burlesco. De fato, o pastichador estava outrora tão distante do parodista que era, em geral, um gatuno cuja intenção era vender suas falsificações como verdadeiras o que lhe tiraria qualquer vontade de ridicularizar sua vítima. A mesma razão obrigava-o a reagrupar em seu pastiche os tiques mais freqüentes do mestre e, por isso mesmo, a esboçar, por mais formal que fosse, uma crítica interior.
Gérard Genette – Contrariamente à paródia, cuja função é desviar a letra de um texto, dando-se portanto como restrição compensatória respeitá-la o mais que possa, o pastiche, cuja função é imitar a letra, salva sua honra no fato de lhe dever literalmente o menos possível. A citação bruta, ou empréstimo, não encontra aí, de modo algum, seu lugar.
Remy de Gourmont – O pastiche deve conter as palavras favoritas do autor original e até certos começos de frases que retornem textualmente dentro de um estilo; mas de forma alguma frases inteiras. Se a imitação é assumida, seria então o centão, exercício completamente diferente e ao qual Ausone quase conseguiu dar aparência de valor literário.
Bernardo Schiavetta – Esse quase é muito severo.
Jan Baetens – E o consegue em monovocalismo!
Daniel Bilous – Para a poética, cujo método é hipotético-dedutivo, efetivamente, a citação mais ou menos literal é o contrário da imitação. Mas há uma outra abordagem indutiva e um pouco empírica, própria, certamente, aos literários, que consiste em considerar as produções reais. Ela leva a constatar, em muitos pastiches, vários empréstimos brutos.
Michel Perrin – É verdade: misturados às frases de minha safra, há na minha coletânea Monnaie de singe diversos fragmentos autênticos, diversas citações entremeadas...
Paul Reboux – E no volume de Courteline intitulado Le miroir concave...
Daniel Bilous – Muito bonito, o título, para traduzir a convergência de traços levando ao pastiche...
Paul Reboux – De fato; bem, o trecho intitulado Le coup de marteau, em que, depois de tantos outros, o humorista divertiu-se coppeisando, terminou com um verso do próprio Coppée, com aquele achatamento estudado e voluntário cujo exemplo François Coppée havia espertamente dado:

“E não acho isso tão ridículo assim.”


Daniel Bilous – Em Les érotiques1, dentre seus trinta alvos, Julie Bourrache fez um texto autêntico esgueirar-se, entre Le chat dormant de Perrault, Les ennuis du lit de Balzac, le Gross-Culo de Bram Stoker, le Aimez-vous aimer? De Françoise Sagan e o En attendant Godmiche de Beckett! Mas o Sr. Proust está voltando, e talvez ele tenha uma opinião sobre isso.
Marcel Proust – Sim, mas por gentileza, afastem esse gato. Pessoalmente, tive duas lembranças involuntárias. Fiquei tão contrariado que seria capaz de reimprimir meus pequenos pastiches, só para tirar as duas frases (duas do conjunto dos pastiches) que me parecem destoar um pouco. Felizmente que são apenas três ou quatro linhas ao todo em talvez cinco ou seis mil. Mas só vejo isso. E tenho o tempo todo medo de fazer novas descobertas. Mas explorei a obra de meus pastichados – e não achei nada mais.
Daniel Bilous – O negócio talvez seja a plausibilidade mimética. Um empréstimo, se ele chama a atenção, remete ao próprio texto mesmo do qual é um segmento. Mas essa ancoragem tem um revés terrível: com a identificação da fonte, é a mudança de sentido ligada ao contexto novo que salta aos olhos.
Bernardo Schiavetta – Como no caso do centão.
Daniel Bilous – Exatamente. Mas se o Sr. Proust fala de suas “lembranças involuntárias” como de tarefas horríveis (ao contrário da pequena madeleine que abre universos!), é certamente porque o mimetismo supõe uma conformidade que aceita mal essa traição implicando no desvio do sentido. Além disso, parece improvável, e portanto muito pouco plausível, que um autor “original” se cite a si mesmo, ou seja, que se repita literalmente, servindo-se dos mesmos enunciados várias vezes.
Gérard Genette – Você se esquece do Nouveau Roman?
Daniel Bilous – Vejo-o como uma transgressão do uso corrente, em que a ficção permanece um discurso. Mas o autor pode, é claro, citar outros, como quando o Renan da Affaire Lemoine cita a Condessa de Noailles.
Marcel Proust – Não efetuei uma correção no Renan. Mas fiquei de tal modo inspirado que acrescentei às provas páginas inteiras com cola, e foi tão no último minuto que há, efetivamente, citações da Sra. de Noailles que não pude verificar.
Daniel Bilous – Exatas ou não, elas não comprometiam, de modo algum, a semelhança com o modelo. Por outro lado, é um dos prazeres da paródia, e não dos menores, colocar, de algum modo, um autor em contradição com ele mesmo, desviando o sentido de suas próprias palavras.
Gérad Genette – A auto-repetição traça a fronteira entre a imitação e o que nomeio transformação. O que eu disse duas vezes, ou mais, deixa de me pertencer para me caracterizar, e pode me deixar por simples transferência de imitação: repetindo-me, eu já me imito, e podem nesse ponto imitar-me, repetindo-me. O que digo duas vezes não é mais minha verdade, mas uma verdade sobre mim, que pertence a todo mundo.
Daniel Bilous – Isso também vale para a escrita néo-romanesca. Portanto, o critério da repetição com virtude mimética, segundo você, é a freqüência de certos enunciados, que se tornam fórmulas, como em Homero.
Gérard Genette – Ou o recorrente “Eis por que” de Balzac.
Daniel Bilous – Que seja; mas existe uma outra forma de recorrência em literatura: a repetição da coisa lida, relida e rerelida. Talvez tenhamos esquecido o que significa “célebre”, em latim?
Remy de Gourmont – “Citado por um grande número de pessoas”?
Daniel Bilous – Obrigado. A obra, uma vez escrita, começa sua carreira de leituras. A recorrência, à qual deveríamos dar um grande lugar, ao lado da freqüência textual, é, digamos, a freqüência leitoral do texto – sua celebridade – que pode, de resto, articular-se sem problema com a primeira. A imagem de um estilo, nas nossas sociedades escolarizadas, passa pela freqüência voluntária ou imposta pelas antologias, manuais escolares, e sabemos a que ponto a escolha recai sempre sobre os mesmos...
Georges-Armand Masson – Chorceaux moisis1. Perdão, escapou: foi assim que intitulei uma das minhas coletâneas.
Paul Reboux – Se a leitura dos modelos é necessária, também é perigosa. Charles Müller e eu fazíamos com freqüência tal experiência. A primeira operação intelectual levando a imaginar qual o lado bufão da história que resumirá o escritor, o roteiro se estabelece, leio então a obra inteira do escritor... É preciso ler para impregnar-se de seu pensamento, viver sua atmosfera, estabelecer uma espécie de intensa corrente de simpatia intelectual. Ao ler, sublinho. Não copio, pois a corrente seria interrompida. Sublinho as palavras típicas, os componentes das frases características, os assuntos familiares, os nomes próprios ou de lugar, as modalidades de sintaxe, tudo que forma, em resumo, a personalidade própria do autor.
Marcel Proust – O resultado, aliás, é, freqüentemente, uma imagem sintética muito difícil de desfazer. Quando escrevi, outrora, um pastiche, detestável, aliás, de Flaubert, não me perguntei se o canto que ouvia em mim provinha das repetições dos imperfeitos ou dos particípios presente. Sem isso, jamais teria podido transcrevê-lo.
Georges Maurevert – “Tornamo-nos parodistas, mas nascemos pastichadores”.
Paul Reboux – Reconheçamos o lugar do instinto. Quando nos ocorreu ter de fazer “empréstimos” brutos, sempre foi por razão imperativa. Se eu citasse frases autênticas de Chateaubriand, vocês me tomariam por um farsante: “Meu opúsculo teve profundas conseqüências em todo o universo”; ou então: “Escrevi história e fiz história”. O cúmulo em um autor, e o que justifica nosso trabalho, são esses momentos em que não teríamos nada a acrescentar, tanto o que ele próprio diz – e, para o divino Visconde, o que ele diz dele mesmo – parece... com ele! Desse cotejamento entre o autêntico e o apócrifo, lucramos muito: uma contaminação, uma osmose.
Pol Vandromme – Certamente, mas resta uma pequena diferença: o que, no texto original, tendia para a complacência, aparece, no texto apócrifo, como lucidez irônica.
Daniel Bilous – À condição, talvez, que o contexto imitativo seja bastante poderoso, em volume e intensidade, para compensar o sentimento de pura e simples retomada. Engastados no conjunto já muito parecido, citação e empréstimo fundem-se na massa, como é o caso das “restaurações” bem feitas, para os quadros. É o caso do seu Maeterlinck, eu acho, Sr. Reboux.
Maurice Maeterlinck – Que me fez rir bastante, confesso.
Paul Reboux – Que bom. Em nosso pastiche intitulado: Idrofile e Filigrane, exageramos naturalmente a simplicidade das formulações, a ingenuidade do enredo, e essa mania que as pessoas têm, em Pelléas et Mélisande, em La Mort de Tintagiles, em Intérieur, em Aglavine et Sélysette, de sempre perceber coisas extraordinárias, pronunciar com profundidade e gravidade palavras vãs, e de repetir essas palavras infatigavelmente.
Remy de Gourmont, lendo -

" La Nourrice. - Mais alors, je vais voir la ville.

Maleine - Je ne vois pas la ville.

La Nourrice - Vous ne voyez pas la ville?

Maleine - Je ne vois pas la ville.

La Nourrice - Vous ne voyez pas le beffroi" 1


Não, Müller, inútil se agitar nessa cadeira: você não escreveu isso!
Charles Müller – Creia, como lamento!
Remy de Gourmont – Foi tirado de La Princesse Maleine. Fato é que esse sistema quase irritante de repetições fraseológicas cansa.
Maurice Maeterlinck – Caro Senhor-Crítico, teria sido fácil suprimir de La Princesse Maleine muitas ingenuidades perigosas, algumas cenas inúteis e a maior parte dessas repetições de espanto. Mas vou lhe dizer meu segredo quanto a esses diálogos. Não se trata de arte. Os camponeses de minha terra, cuja inteligência é preguiçosa, têm o costume de pronunciar várias vezes os mesmos epítetos ou os mesmos verbos. Esse hábito dá a seu discurso um caráter de gravidade ao mesmo tempo pueril e sentenciosa. Inspirei-me disso, julgando que um personagem lendário tinha alguma afinidade com um homem do campo e podia falar a mesma linguagem ... Fui levado por uma espécie de instinto de imitação e não pelo desejo de me singularizar.
Daniel Bilous – Seus inumeráveis pastichadores imitaram , então, uma imitação!
Gérard Genette – O que eu dizia?
Paul Reboux – Maeterlinck, você é um grande poeta, é excelente evocando atmosferas dolorosas, atmosferas trágicas... E, naturalmente, atmosferas não se pintam com traços, nem com palavras, que são os traços através dos quais se fixa o pensamento. Isso se pinta – meu Deus! Não sei como – com termos imprecisos, frases mal coordenadas, associações de idéias bizarras, repetições... Seria necessário que imitássemos Maeterlinck e sua atmosfera. Como? O procedimento que empregamos vai, certamente, parecer-lhes indecente.
Georges Maurevert – Esperamos o pior.
Paul Reboux – Segundo nosso método habitual, anotamos por alto, lendo Pelléas, Intérieur, Les Aveugles, Aglaveine et Sélysette, as fórmulas que nos pareciam mais características. Depois, as transcrevemos sobre pequenos pedaços de papel.
Jan Baetens – Seu pastiche seria então um patchwork? Interessante...
Paul Reboux – Não totalmente: acrescentávamos a cada uma alguma coisa de ligeiramente excessivo, um pouco elevado, alguma coisa como um sustenido. Dobramos todos esses pedaços de papel em quatro, e os colocamos num chapéu; em seguida, para que nossa peça tivesse essa espécie de inesperado envolvente que tem a vida, essa incoerência e essa contradição tão filosóficas que oferece o teatro de Maeterlinck, nós tiramos do chapéu as fórmulas, uma a uma e nós as transcrevemos na ordem em que tiramos.
Bernardo Schiavetta – Esse sorteio coloca sua peça nos antípodas do centão clássico, em que os fragmentos são selecionados em função de uma coerência, em qualquer nível em que a procurarmos.
Daniel Bilous – De qualquer modo, vocês reescreveram essas fórmulas e esses fragmentos, no sentido de um agravamento do sistema estilístico que eles revelam. A imitação, e sua arte, estão totalmente nesse trabalho de reescrita. O que, entre outras coisas, basta para distinguir sua prática da de um Scarron, que, em Virgile travesti, não imita a Eneida, mas o falar do populacho para narrar de novo a Eneida.
Imitações

Gérard Genette - O parodista ou o travestidor apodera-se de um texto e o transforma segundo tal restrição formal ou tal intenção semântica, ou o transpõe de modo uniforme e mecânico num outro estilo. O patichador apodera-se de um estilo - objeto este um pouco menos fácil, ou imediato a se compreender - , e esse estilo lhe dita seu texto. Em outras palavras, o parodista ou travestidor lida essencialmente com um texto e acessoriamente com um estilo; inversamente, o imitador lida essencialmente com o estilo e acessoriamente com o texto.


Charles Nodier - Certo, mas eu gostaria que nós precisássemos essa famosa noção. Num pastiche, os contornos familiares de um escritor podem ser encontrados, mas não na ordem e na sucessão de suas idéias. A forma do estilo é uma espécie de mecanismo que se reduz a alguns procedimentos, que os autores escolhem segundo sua tendência ou faculdade; mas a concepção de um plano é o resultado de uma forma expressa e particular de sentir as relações entre as coisas, e é mais ou menos impossível descobrir seu segredo. Eu não acreditaria na perfeição de uma imitação de estilo que tivesse certa extensão, por que o sistema da composição me alertaria, mesmo quando a construção da frase me iludisse.
Daniel Bilous - Inimitável não morto ! O que você está chamando de "sistema da composição", os Antigos chamavam de inventio e dispositio. Ora tais aspectos, o modelo permite observá-los, deduzir um número suficiente de fórmulas, e portanto refazê-los.
Paul Reboux - Há um bom exemplo. Você tentou ler alguma coisa de Chateaubriand? Sim, sem dúvida. Encontramos nele, além do orgulho, mencionei há pouco, três outras características principais. O tédio, em primeiro lugar: ele é extraordinariamente entediante.
Charles Müller - Jules Lemaître dizia-nos em particular: " Sua obra provoca longos bocejos".
Paul Reboux - Exostismo, também. Chateaubriand aplicou-se em descrever países longínquos; e até, a julgar pelo diário de seu camareiro, aconteceu-lhe descrever países onde nunca esteve. O resultado disso foram certos erros nos nomes de aves e de plantas. Tiramos partido dessa fraqueza prestamente.
Charles Müller ( lendo) -

"Quando voltei a mim, estava deitado sobre um leito de sensitivas. Um arcabosteiro gigantesco estendia seus ramos sobre minha fronte. Diante de mim, a savana desdobrava seus quadros risonhos. Aqui, passavam cervos; ali, perseguiam-se opossuns; adiante, ocarinas, espécie de roedores bastante parecidos com nossos coelhos da Europa, balançavam-se nos galhos, pendurados pelas longas caldas"1.


Paul Reboux - Romantismo, enfim. Chateaubriand é do tempo em que os heróis de romances choravam, choravam como uma Madalena arrependida, derramavam torrentes de lágrimas. Dê-me o livro, Charles:

" Ah! como teria merecido ser lamentado, aquele que, diante de tais palavras, não se tivesse prostrado, cheio de gratidão, frente aos decretos da divina Providência! Meu pranto serpenteava sobre minha face, tal um borbotão que os abismos da terra tentassem em vão reter, ou tal o leite nutriente, mas inútil, que o seio materno faz jorrar como uma libação no túmulo do defunto recém-nascido".


Gérard Genette - Quase todos esses traços têm a ver com o conteúdo da obra, mesmo se no meio desse palavrório, vocês os restituam com bemóis e sustenidos. Quando digo que o alvo do imitador é um estilo, incluo nele os motivos temáticos que comporta. O conceito de estilo deve ser tomado aqui em seu sentido mais amplo: trata-se de uma maneira, no plano temático como no plano formal.
Maximilien Vox - O ajuste é feliz, mas pode-se ir mais longe. Aprecio, quanto a mim, um autor que põe seu talento muito particular a imitar os escritores que ele praticou, não raro admirou. Digo imitar, não parodiar nem pastichar.
Gérard Genette - É o que chamo de forjar, ou seja imitar num registro sério. Quanto às formas que despertam o riso ou o sorriso, oporia a que zomba do modelo e a que se desenvolve como puro exercício.
Raymond Queneau - ... de estilo.
Gérard Genette - Justamente. Esse "pastiche" é fruto de um puro ludismo. Reboux et Müller parecem-me exemplos de imitação satírica...
Paul Reboux - que ainda agora você chamou de "charge".
Gérard Genette - Porque não se pode zombar sem caricaturar. Proust ilustraria a imitação lúdica, para a qual reservo o nome de pastiche.
Daniel Bilous - Essa questão terá ecos sem dúvida, mas de Reboux a Proust, a diferença é um caso...
Charles Müller - ....de natureza.
Daniel Bilous - Antes, de grau, com uma fronteira porosa tal um pontilhado.
Gérard Genette - Você leu direitinho meu quadro.
Maximilien Vox - Mas o pastiche é às vezes uma espécie de commedia dell'arte, onde se trata mais de chamar a atenção para o artista do que sobre a fábula que ele deve representar. O pastichador, através de muitos trejeitos, leva incessantemente o leitor (o espectador) a exclamar: "como ele é esperto!". Ora, tal não é o caso, por exemplo, de um Silvain Monod.
Paul Reboux - Cuja bela coletânea eu prefaciei.
Maximilien Vox - Lembramos disso. Esse homem sério, e até grave, não tem tanto a intenção de alegrar-nos às custas de seu modelo, como de copiar seus traços com uma paciência, um realismo, uma fineza que pudessem nos fazer confundir a cópia com o original.

Gérard Genette - É o ideal do forjar, ou do apócrifo sério que você descreve: um mimotexto cuja restrição seria a de passar por autêntica aos olhos de um leitor de uma competência absoluta e infalível. Essa restrição acarreta obviamente regras negativas tal como a ausência de anacronismo, por exemplo.


Marcel Proust - Cometi alguns nos meus - como você chama - "mimotextos". Fiz, ainda sobre L'affaire Lemoine, um pastiche de Saint-Simon e inseri nele uma passagem sobre a Sra.Strauss. Em princípio, não a favor de colocar num pastiche do século XVII nomes que evocam, com tanta força como o seu, todas as graças do século XX. Isso cria dissonância, ou seja, o contrário do pastiche. Mas por outro lado, meu coração e meu pensamento falavam mais alto que essa razão técnica.
Gérard Genette - Cada um com suas fraquezas. Mas há também uma regra positiva que se pode grosseiramente formular da seguinte maneira: conter os mesmos traços estilísticos do original (mas às custas de novos desempenhos e, em princípio, sem empréstimos literais), nem mais nem menos, e na mesmo proporção. Não creio que ao se forjar, tais regras sejam respeitadas.
Jean-Marc Bernard - Meu pequeno Silence de ainda há pouco fez, em seu tempo, um certo barulho. Ele basta, creio eu, para lhe tirar a razão, senhor.
Daniel Bilous - Não se pode nunca dizer: "o falso existe, eu o encontrei.". O destino do apócrifo é cessar de sê-lo imediatamente depois de ter sido identificado como tal. Por definição, o verdadeiro falso é impercebível, escondido entre os autênticos; a poética postula a existência destes, mas não poderia nunca fornecer um exemplo concreto. Por outro lado, a hipótese de um leitor com uma competência absoluta e infalível é sem dúvida uma utopia, o que complica um pouco as coisas.
Paul Reboux - E também, seria preciso supor que o estilo de um autor é reconhecível, como se ele escreve sempre da mesma maneira. Nenhuma certeza, quanto a isso. Segundo uma prática inversa do pastiche, eu fiz um livro há tempos, onde eu compilava citações sem nome de autor, e perguntava: "De quem é?" (era o título da obra); eu os tinha escolhido, obviamente, entre os menos típicos, para que o leitor, diante das respostas, medisse as dificuldades extremas da especialização nas letras. Espontaneamente, nunca teria associado tal fragmento a tal assinatura.
Daniel Bilous - Em suma, um texto seria autêntico porque um autor ali escreve à sua própria maneira, ou então porque escreve de outra maneira. Infelizmente, ele pode ser apócrifo pelas mesmas razões.
Maximilien Vox - Mas o falso é uma impasse, da qual Monod, por exemplo, não padece. Ele não tem outro objetivo, como o pintor com seu trompe-l'oeil, senão fazer semelhante. De fato, é com os mestres do naturalismo barroco que se aparentam; há algo do Arcimboldo em sua maneira igual e minuciosa, que à terceira vista revela uma rosto, uma efígie falante - ali onde só tínhamos visto rochedos ou legumes. E já que se trata de batizar formas e práticas, deveríamos - para definir essas miniaturas onde se encontra imitada até a poeira do tempo - inventar uma palavra nova, um vocábulo que lhes fosse próprio: por exemplo o de FAXIMILE.

Ele escreve a palavra e faz circular o papel.


Daniel Bilous - Se estou lendo direito, seu termo sugere, até em sua grafia, ao mesmo tempo: o simili que ele pretende ser, mas recusando também o que ele não é; nem fac-simile (a cópia, o plágio), nem falso. Nessas condições, apenas uma dupla assinatura, ou uma menção como "à maneira de..." permitem distinguir a imitação e o texto autêntico.
Maximilien Vox - Por certo: o faximile é um apócrifo que se declara de ante-mão, mas na margem.
Jacques Laurent - Trata-se de fato de uma solução econômica para resolver o dilema do imitador, que remete para a função crítica. Isso não é evidente. O pastichador tem um contrato: ele veste a roupa do leão mas fica aparecendo a orelha.
Charles Müller (baixo, para Paul Reboux) - Nos chamou de burros !...
Paul Reboux (baixo, para Charles Müller) - Acalme-se. Afinal, é La Fontaine.
Jacques Laurent - Há uma constante terrível, a incerteza. Melhor se imita, menos se oferece ao público a ocasião de julgar. Mais se caricatura para abrir os olhos do leitor, menos se imita. Ficamos divididos entre uma docilidade que não expõe nada, e uma demonstração que trai. O autor é entediante? O pastichador terá que sê-lo, deixando que se adivinhe o tédio, mas discretamente, senão haveria fracasso quanto a essa tentativa, bergsoniana se quisermos, de crítica pela interioridade.
Paul Reboux - Müller e eu, nós calculamos tal risco. Ao ler nosso Paul Adam - um autor passavelmente tedioso - Maurice Donnay nos escreveu: " É tão justo, tão verdadeiro, tão isso, que não pude chegar até o final".
Jacques Laurent - Isso prova pelo menos uma coisa: o exercício não é menos difícil para o leitor do que para o autor. Para um como para o outro, trata-se de crer e não crer.
Oscar Wilde - De alguma forma, a suspensão voluntária da incredulidade.
Daniel Bilous - A frase não é sua, mas de Coleridge. Mas não se torna menos verdadeira por isso: o mundo das obras supostas é por inteiro um universo de ficção.

Pastiche e criação
Denis Diderot - Estou bastante zangado com essa palavra, pastiche, que marca desprezo e que pode desencorajar os artistas, afastando-os da imitação dos melhores mestres antigos.
Daniel Bilous - Mas há um abismo entre, de um lado, a imitação como exercício abertamente assumido por sua artificialidade, promovida à classe de gênero literário pelos Reboux, Proust, Masson, etc., e do outro, a imitação defendida por toda uma tradição clássica, que encontra sua plena realização com La Fontaine: a imitação, como o senhor diz, "dos melhores mestres antigos" não quer outra coisa do que ultrapassar a si própria, ou seja a inovação.
Marcel Proust - A fronteira que o senhor traça não é tão precisa. A mim, a idéia da Affaire Lemoine veio-me de um livrinho que fez furor, lá pelo ano de 1907: os tais À maneira de...
Paul Reboux e Charles Müller, juntos - Eu tinha certeza!
Marcel Proust - Por que eu esconderia? Ora, tratava-se, para mim, de uma questão de higiene: é preciso purgar-se do vício natural da idolatria e da imitação. E ao invés de fazer sorrateiramente algo que lembrasse Michelet ou os Goncourt assinando-o (aqui os nomes de tais ou quais de nossos contemporâneos mais amáveis), fazer abertamente pastiches, para em seguida voltar a ser, apenas, Marcel Proust quando escrevo romances. Assim, no que diz respeito à intoxicação flaubertiana, não me cansarei de recomendar aos escritores a virtude purgativa, exorcizante do pastiche. Quando se acaba de escrever um livro, não somente se gostaria de continuar a viver com seus personagens, com a senhora de Beauséant, com Frédéric Moreau, como também nossa voz interior que foi disciplinada ao longo da leitura a seguir o ritmo de um Balzac, de um Flaubert, gostaria de falar como eles. Deve-se deixá-la em paz, por um momento, deixar o pedal prolongar o som, isto é fazer um pastiche voluntário, para poder, depois disso, se tornar novamente original, não fazer durante toda a vida pastiches involuntários.
Paul Reboux (baixo, para Müller) – Está vendo, o pastiche depende do toque.
Charles Müller (baixo, para Reboux) – Você está exagerando!
Remy de Gourmont – O pastiche involuntário, logo desajeitado, atormentado por remorsos, entrecortado de arrependimentos, remete para quase toda a pequena literatura corrente. Assim que um romance obtém um grande êxito, começam seus pastiches a aparecerem por toda parte. Os falsos Caracteres, em continuação aos do Sr. de la Bruyère, são livros ainda comuns; no início do século XIX, ainda se pastichava Telêmaco.
Charles Müller (para Proust) – Certo, mas essa divisão entre originalidade e imitação corre o risco de levar a um mal-entendido. Ligada à leitura de obras fortes, a imitação seria, a deduzir pelo que o senhor diz, imediata, espontânea e portanto, fácil, enquanto que ser original suporia uma separação dolorosa com relação aos modelos de todos os tipos.Concordo com o segundo ponto, mas estamos todos aqui para atestar que existe uma arte - e particularmente árdua, vocês sabem do que estou falando- do que o senhor está chamando de pastiche voluntário.
Jacques Laurent – Uma arte atravessada de paradoxos. De fato, se o pastichador é apenas um imitador, ele perecerá. Não se imita a invenção.
Marcel Proust – Por certo. Um autor moderno, que quisesse escrever à maneira de Saint-Simon, poderia copiar a primeira linha do retrato de Villars: "Era um homem moreno bastante alto com uma fisionomia expressiva, aberta, saliente", mas que determinismo poderia lhe fazer encontrar a segunda linha que começa com "e verdadeiramente um pouco louca"? É que a imitação puramente formal da variedade não é senão vazio e uniformidade, ou seja o que mais se opõe à variedade. O que chamamos de estilo não é de modo algum um adorno; não se trata nem mesmo de uma questão de técnica, é como a cor para os pintores, uma qualidade da visão, uma revelação do universo particular que cada um de nós vê e que não é visto pelos outros.
Jacques Laurent – Por conseqüência, o conhecimento de uma obra e a vontade de expressá-la não bastam para o pastichador. Uma vez instalado no terreno do mestre, encontrará apenas seus tiques se não dispuser, ele próprio, de um imprevisto criador.
Daniel Bilous – Mas se o imprevisto é absoluto, não há mais imitação possível. De fato, o que convém procurar no outro é justamente sua arte de imitar: que haja, entre os mimetismos e os traços que parecem imprevisíveis a mesma relação que separa, em Saint-Simon, a primeira linha do retrato de Villars da segunda. Um desvio interno, ele pode ser imitado como o resto, e pode ser considerado como típico, até mesmo como um tique, pela freqüentação – volto a dizer – que o aclimata dentro do horizonte estilístico.
Gérard Genette – O imprevisto criador de que você fala, Laurent, não pode remeter para o imprevisível. Li certa vez em Balzac, por exemplo o seguinte: "Lady Stanhope, essa pedante do deserto".
Marcel Proust – O senhor roubou meu exemplo!
Gérard Genette – Pertencem a todos, mas obrigado mesmo assim. Não lançaria mão da facilidade que é reproduzir um pastiche, tal qual, esse simples balzaquema: um pastiche não é um pot-pourri, deve proceder de um esforço de imitação, ou seja, de recriação. Pois então, observo que esse passe pertence, em Balzac, a uma classe de enunciados do tipo digamos ao acaso "Bianchon, l'Ambroise Paré do século XIX" ou "César Birotteau, esse Napoleão da perfumaria". Da aproximação dessas ocorrências análogas, extraio um modelo de competência, a fórmula x, esse y de z, que é, ela, o balzaquismo propriamente dito, a classe das locuções idiomáticas cujas performances se dispersam e diversificam no texto balzaquiano; em seguida, a partir desse modelo iterativo, formo uma nova performance, que eu posso legitimamente considerar como (e situar em) um pastiche de Balzac...
Marcel Proust – "Sr. de Talleyrand, esse Roger Bacon da natureza social"?
Gérard Genette –Agora, é o senhor que me toma minhas fórmulas?
Paul Reboux – Ele lhas retoma. Se me permite, esta aqui provém de L'affaire Lemoine dans un roman de Balzac, por Marcel Proust.
Daniel Bilous – Nesse plano, torna-se talvez vão distinguir o meu do seu. O próprio do balzaquismo é permitir que se faça algo que remete para Balzac e que não seja Balzac.
Marcel Proust ­­­­– Eu não teria formulado melhor. Existe uma frase, certo detalhe numa frase pelo menos, de que não sou pouco orgulhoso. Está em meu Renan; eu faço-o dizer, dirigindo-se à Humanidade: "Tua história doravante entrou por uma via de onde nem as tolas fantasias do vaidoso e do ser aberrante não conseguirão desviar".
Paul Reboux e Charles Müller – E então?
Marcel Proust ­­­­– Acho "aberrante" extremamente Renan. Penso que Renan nunca usou essa palavra. Se a encontrasse em sua obra, isso diminuiria minha satisfação em tê-la inventado.
Stéphane Mallarmé – Eu disse, parece-me, algo semelhante a propósito de uma palavra rara, há tempos atrás.
Eugène Lefébure, mexendo em seus bolsos – Tenho sempre comigo a carta em que você escreveu isso para mim : "Queira fazer a gentileza de me enviar o sentido real da palavra ptyx: asseguram-me que não existe em nenhuma língua, o que eu preferia de longe para sentir o charme de tê-la criado pela magia da rima".
Jean Milly – Essa palavra, Sr Proust, deve lhe ter soado renaniana pelo seu conteúdo, talvez pelos traços fônicos, pelo uso que faz dele na frase (adjetivo substantivado com valor de tipo).
Daniel Bilous – Quer se trate de regras como a rima, ou mais amplamente de uma conformidade na silhueta, como é o caso dessa falsa palavra de Renan, é sempre com uma determinação estrutural que o escritor tem que lidar. Mas permita-me dizê-lo, essa palavra, vejo-a antes (e acima de tudo) como "extremamente proustiana".
Camille Mauclair – E a título de quê, por gentileza?
Daniel Bilous – Mas, julgando por certos traços fônicos, já que Jean Milly evocou esse aspecto. O adjetivo "aberrante" não lembra mais Renan do que a última sílaba de Guermantes, ao narrador da Busca do tempo perdido, lembraria "cor amarante", ou a localidade de Quimperlé, "mieux attaché entre les ruisseaux dont il gazouille et s'emperle" ["melhor preso entre riachos de que gorjeia, semelhando pérolas"].
Marcel Proust – Então era isso !
Daniel Bilous – O senhor o sabia, ainda que confusamente. Mas a lição é clara: o modelo de competência de que fala o Sr. Genette não dá conta exatamente, ou por completo, do fenômeno. A imitação é o teatro de um conflito entre o estilo do sujeito que imita e o estilo que, do modelo, ele elabora. Seu "aberrante" constitui uma maravilhosa revelação - para retomar os termos que o senhor usou - do universo renaniano tal como Marcel Proust o vê, ele e talvez somente ele. Os outros, justamente, irão praticar sem dúvida um idioma renanizante de onde tal palavra não constará, já que é num caldeirão proustiano que ela fora forjada. O estilo do mimotexto - o mimo-estilo - assim é, sempre, um inter-estilo. Eis porque dois imitadores não saberiam fazer um "à maneira de..." da mesma, e exatamente da mesma.... maneira. Existem pastiches de estilo...
Marcel Proust e Paul Reboux (juntos) – E estilos de pastiches! O senhor nos reconciliou.
Charles Müller – Sobre esse ponto.
Marcel Proust – E sobre qual outro?
"Era para fazer ler !"

Daniel Bilous – Sobre o quê? pois, entre pastichadores, parece-me que a questão torna-se a seguinte: do modelo até a imitação, se diferença há...


Todos - ...?...
Vários anjos passaram.
Daniel Bilous – Eu disse algo de inconveniente?
Stéphane Mallarmé, retornando da cozinha com uma última ração de tabaco – De modo algum. Mas, vejam, quantos grandes espíritos começaram pelo pastiche...
Paul Reboux – O senhor está supondo que é impossível terminar fazendo isso...
Stéphane Mallarmé, com o dedo levantado – Ao contrário, meus amigos: creio, antes, que seja muito difícil deixá-lo. Leiam a crítica, assim que um livro é exibido nas livrarias e por pouco, verdadeiramente, que seja novo. A rima é rica? Invoca-se Banville. A frase, longa? Tratar-se-á de Proust. Teria sido, sem dúvida, necessário, na visão desses senhores, se destacar das formas de nossos mestres, e desprezar suas inovações (Ele aponta para a taça de frutas que Maria acaba de pôr na mesa de centro). Se fosse assim, depois da uva, teria sido proibido ao lilás florescer, pois o ritmo do cacho havia sido inventado.
Daniel Bilous – A imitação "voluntária" é sem dúvida mais propícia a um estudo do caso, pelo cálculo de certas reações, entre os críticos e antes, entre o menos atento dentre os leitores.
Gérard Genette – O ideal comum entre o pastiche e a charge pode ser definido como um estado de imitação perceptível enquanto tal, com a condição daquilo que a descrição trivial batiza, de forma talvez excessiva, o exagero. Todo mundo sabe intuitivamente que uma imitação cômica "exagera" sempre os traços característicos de seu modelo: é esse processo que os Formalistas russos batizavam, com um termo mais técnico porém ainda sumário, e aliás equivocado, a estilização.
Victor Chklovski – Iuri Tynianov foi o primeiro a aplicá-lo ao pastiche.
Gérard Genette – O termo mais apropriado e mais preciso talvez fosse o de saturação: seja um traço estilístico ou temático característico de um autor, como o epíteto de natureza em Homero; a freqüência média calculável desse traço poderia ser (adianto uma cifra arbitrária) de uma ocorrência por página; a saturação característica do exagero pastichial ou caricatural consistiria em colocar algo como duas, cinco ou dez vezes mais.
Daniel Bilous – Entretanto seu exemplo baseia-se num cômputo de ocorrências que não é, a meu ver, senão um aspecto do trabalho. Há pelo menos três formas para um imitador, de "exagerar". Saturar o espaço quantitativamente, ao multiplicar um traço, por acumulação (é seu exemplo). Mas também, pode-se "engordar" qualitativamente um traço determinado. Seja a evocação de um mundo ou de uma situação desaparecidos, através de uma memória involuntária, em favor de uma sensação fugidia.
Marcel Proust – Tomemos um exemplo ao acaso...
Daniel Bilous – Quase; se, ao gosto de certa madeleine molhada em algum chá, substituo... Mas escutemos entretanto "Uma palavra apressada"
Paul Reboux, lendo –

“Ele percebeu frente a um espelho colocado à esquerda da vitrine de uma padaria que, na brecha que separava dois de seus dentes, tinha-se aninhado, quando da refeição, uma minúscula parcela de cerefólio: tal raminho verde ressuscitou em sua memória os amplos horizontes dos pastos pintados por Ver Meer de Delft, não menos que os solenes foliáceos de um Hubert Robert, sem omitir os maravilhosos talos em que Watteau espalhou os rosas de um pôr-do-sol citereano; tais imagens incompletas e mutantes reproduziam-se nele por simples divisões, como certos organismos inferiores...”1


Daniel Bilous – Acho que já deu ! Chamo de "engrossamento" essa desproporção entre a causa sensível, ínfima, e seus incalculáveis efeitos. O terceiro procedimento, já o compreenderam, é a acumulação de traços engordados. Em suma, é uma questão de dosagem. E justamente, Sr. Genette, você separa nos planos formais e funcionais o pastiche e a charge.
Gérard Genette – No plano ideal, sim; no propriamente textual, esse distinguo permanece muito aleatório, ou subjetivo. Haveria talvez, na charge, um grau a mais no exagero, que seria uma espécie de passagem para o absurdo.
Marcel Proust – Em meu Balzac, eu cometi: "A dona de casa, essa carmelita do sucesso mundano".
Gérard Genette - Em matéria de extravagâncias ou de enormidades, reconheçamos, a realidade balzaquiana ultrapassa muitas vezes qualquer ficção. Assim, a primeira página de La Muse du département: "a Vistule, essa Loire do Norte".
Jacques Laurent – Mas não é a imitação sempre um concentrado, ou uma redução de escala? Mais do que a própria obra, o pastiche permite ao leitor apreciar porque ele reúne num trajeto curto os obstáculos e as subidas que, no estado de dispersão, fazem o relevo da obra escolhida.
Marcel Proust – Daí importar tão pouco que um pastiche seja prolongado, se contém os traços gerais que, ao fazer com o que o leitor multiplique ao infinito as semelhanças, dispensem de adicioná-las. O pastiche é o produto de nossas leituras, através de suas somas. Eis por que...
Gérard Genette – Como diria Balzac...
Daniel Bilous – Eu não disse: Eis. Eis por que, quão longe esteja da "escrita original" que se imagina, a imitação, apesar de tudo, é dela tão próxima.
Marcel Proust – A tal ponto que me foi necessário um dia escolher. (assumindo um tom professoral):

Você abre um livro e cai na primeira página: L’Affaire Lemoine, por Balzac. Bom, você diz, eis um escritor que conhece o forte e o fraco dos outros escritores, que se diverte reproduzindo, com a postura geral de um pensamento, a mesma gesticulação de estilo. Ele sabe que não se pode negligenciar nada que possa esclarecer um tipo ou informar sobre um tempo; ele não negligencia nenhuma dessas particularidades da sintaxe que traem o jogo da imaginação, os costumes cambiantes, as idéias pré-concebidas, o temperamento herdado, a faculdade primordial. Trata-se de boa caricatura. Está bem posto. Mas a caricatura cansa rapidamente, e você não gosta de ficar cansado. Você vira a página e passa para as coisas sérias. Você lê a primeira linha. L’Affaire Lemoine por Renan. Santo Deus, pensa você, que abuso! Você aceita uma ou duas caricaturas em um vestíbulo, antes de entrar na biblioteca. Mas é tedioso permanecer indefinidamente no vestíbulo.



Charles Müller – Parece Taine!
Marcel Proust – Então não me saí tão mal.
Paul Reboux – De fato, mas, caro Marcel Proust, isto se verifica em você, que é um caso particular: a biblioteca será a de seus próprios livros. No entanto, fazer um pastiche, pelo menos para os profissionais do gênero, não é “vestibular”. É passar para o salão de fumar e tomar licores, pilheriando sobre a refeição que lhes foi servida e que às vezes pesa no estômago.
Jacques Laurent – Voltamos para o cômico, e para a sátira.
Gérard Genette – Mas nem toda imitação provoca o riso.
Paul Reboux – Sobretudo em quem serve de modelo. Se ainda for vivo.
Gérard Genette – Refiro-me ao leitor, que pode se encontrar diante de duas situações. Se escrevo um pastiche de Marivaux, mostro-o a você sem o avisar do fato, e, por falta de cultura (ou de competência) suficiente, você não reconhece ninguém: você não terá nenhuma razão para rir. Ou então – segundo caso – o próprio texto imitativo não é identificado como tal, e passa portanto como sendo um texto autêntico, de seu autor verdadeiro ou de seu modelo. Por exemplo, um leitor de Angelo não reconheceria ali nenhum beylisme (mimetismo stendhaliano), e o leria, sem nuance, como uma obra de Giono qualquer.
Daniel Bilous – Sua descrição demonstra-o: a imitação só remete para esse famoso registro sério se, e somente se, o trabalho for tomado por uma obra original: o leitor não pode rir porque um dos termos constitutivos da relação que constrói o texto lhe falta. Deixem-me, portanto, tirar disso uma regra positiva: identificado como tal, um mimotexto, como diz você, sempre provoca riso, há alguém que paga o pato.
Charles Müller – O autor pastichado.
Gérard Genette – Ou o pastichador: se a imitação for, como diz Bergson, “mecanização do vivo”, a vítima poderia perfeitamente ser também o imitador ele próprio, na medida em que se conduzisse de forma mecânica, ou prescrita pela de seu modelo.
Paul Reboux – Meu senhor, um bom pastiche é sempre menos ridículo do que cômico.
Gérard Genette – Não se zangue. Talvez não haja aqui necessariamente nenhuma vítima: a imitação faria rir por si só, como um trocadilho, ou seja, sem que fosse em detrimento de alguém, dependeria de outra coisa – do exagero – que tal efeito cômico se exercesse em detrimento do modelo.
Charles Müller – E quando não se ri nem do pastichador nem do pastichado...
Maurice Maeterlink – Sim, de quem se zomba?
Daniel Bilous – Sobra somente um, senhores: o leitor. Nada é gratuito, em arte, jamais. Quando se ri de um trocadilho, é de si mesmo que se está rindo, ao se descobrir o jogo verbal que não se soubera imaginar, nem decifrar de cara. O verdadeiro “Mystère dans les Lettres” é que no fundo, nem Maeterlink, nem Proust, nem qualquer outro, nem mesmo o senhor, caro Mallarmé, existem.
Stéphane Mallarmé – Somente no papel, talvez, e tão pouco. Ainda assim, branco, de preferência.
Remy de Gourmont – Mas a imitação é um golpe de misericórdia, ela acaba com você!
Stéphane Mallarmé – Ela nos prolonga pelo avesso. Pensa-se nela como em algo que poderia ter sido; com razão, pois não devemos nunca negligenciar, no plano das idéias, nenhuma das possibilidades que orbitam em torno de uma figura, elas pertencem ao original ainda que em detrimento da verossimilhança.
Daniel Bilous – O que existe – a “realidade dos autores” como dizem – é uma imagem complexa, um sistema de representações que associa as obras de um autor a seu nome e que, para alguns de seus leitores, transforma a cultura em culto e a arte, em ronco admirativo. É por isso que a imitação bem sucedida sempre inspira nesse leitor fetichista em certo mal-estar: observem-no buscar a falha, fantasmar até o detalhe através do qual salvar a diferença, para além dos semelhantes.
Lilith adormeceu. É uma hora da manhã. As senhoras Mallarmé retiraram-se há muito, e a maioria dos convivas se foi. Marcel Proust pediu para ser levado até o Ritz, para cear uma coxa de galinha. Reboux e Müller acompanham Gourmont ao prostíbulo. No estreito vestíbulo, os últimos vestem o casaco, antes de se despedir do anfitrião, a meia-voz.
Oscar Wilde – Aristóteles dizia algo como deve-se imitar a natureza. Why not? Mas e se fosse a natureza que imitasse a arte?
Bernardo Schiavetta – A menos que atualmente, não seja a arte que imite a arte.
Oscar Wilde, olhando para Mallarmé – A palavra final?
Daniel Bilous – Não, a fina palavra: pois, é aqui, antes, que tudo começa.
Stéphane Mallarmé (pensativo) - ... Ou recomeça!...

Esse polílogo imaginário foi concebido a partir de cartas, prefácios, obras, conferências ou artigos, cujas referências o leitor encontrará a seguir.


BARTHES, Roland. Leçon. Paris, Seuil, 1978. p. 23.

BILOUS, Daniel. Mallarméides - Les récritures de l'œuvre de Mallarmé - Poétique et Critique (Thèse de Doctorat d'Etat, Nice, 1999), p. 343-344, 353-357, 364, 371-372, 404.

"Intertexte/Pastiche: l'Intermimotexte", in TEXTE, n° 2, Trinity College, Toronto, 1984. p.141-144.

"Réc-rire - du second degré en littérature", in Rires et sourires littéraires, Etudes du C.R.L.P. de l'Université de Nice-Sophia Antipolis, 1994, p. 245, 248.

CHKLOVSKI, V. Théorie de la littérature. Paris, Seuil, 1965, p. 50.

DIDEROT, D. "Exergue de M. Perrin", Haute Fidélité. Paris, Calmann-Lévy, 1963. p. 7.

GENETTE, G. Palimpsestes. Paris, Seuil, coll. Points, 1992; 1ª ed. 1982. p. 37, 44-45, 102-105, 107, 112-114, 126-128.

GOURMONT, R. Lettre à Mallarmé, 29 janv.1897; "Stéphane Mallarmé", in Promenades littéraires, 4ème série. Paris, Mercure de France, 1920.

Le Problème du style. Paris, Mercure de France, 1938, p. 145.

LAURENT, J. "Eloge du pasticheur", in Neuf perles de culture. Paris, Gallimard, 1925, p 9-12.

MATERLINCK, M. Réponse à Adolphe Brisson in Le Temps, 25 juil. 1896.

MALLARMÉ, S. Oeuvres complètes. Paris, Gallimard Pléiade 1945: "Etalages", p. 372; "Le mystère dans les lettres", p. 386; "Crise de vers", p.367; "Les poésies parisiennes", p. 251, 255; "Arthur Rimbaud", p. 518; Lettre à Eugène Lefébure, 3 mai 1868.

MARMONTEL, Eléments de littérature (1787), Article "Pastiche", in Oeuvres complètes (née de la Rochelle), p 833-835.

MAUCLAIR, C." Les recherches de Mallarmé", in L'Art en silence. Paris, Ollendorf, 1901. p. 76.;

Mallarmé chez lui. Paris, Grasset, 1935. p. 131.

MILLY, J."Les pastiches de Proust, structures et correspondances" in Le français dans le monde n° 35, 1967, p. 48.

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PROUST, M. Lettres à Jules Lemaître, fév.-mars 1909; à Robert Dreyfus, 18 et 23 mars 1908, e juil.1909; à Ramon Fernandez, 1919; à Mme Strauss, 9 oct. 1918; Lettre à Antoine Bibesco, nov. 1912; à Jules Lemaître (s.d.); "A propos du style de Flaubert".

REBOUX, P. Préface à Sylvain Monod, Pastiches. Paris, Lefebvre, Paris, 1963, p. VIII, X-XI; Préface à Georges Armand Masson, A la façon de... Paris, Pierre Ducray, 1949, p.9, 12, 15-17, 22, 23; Conférence "A la manière de...", Paris, Revue de l'Université des Annales, 1912; Mes Mémoires, Paris, Les Editions Haussmann, 1956, p. 188-189.

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VOX, M. 4ème de couverture de Sylvain Monod, Pastiches. Paris, Henri Lefebvre, 1963.





Resumo: Com muito humor e erudição, o texto encena uma conversa entre diferentes autores de diferentes épocas, alguns deles imaginários, reunidos na casa de Mallarmé. Ao teatralizar um encontro entre literatos, ao fazer o pastiche de um dos famosos mardis de la rue de Rome, Daniel Bilous, presente ele próprio neste concílio, questiona e problematiza aspectos teóricos importantes do fazer literário.

Palavras-chave: Pastiche, Estilo, Imitação, Autor.


Abstract: With lots of humour and erudition, this text exhibits a conversation among authors from different periods, some of them are imaginary, gathered in Mallarmé’s house. Dramatising a meeting among literates, writing the pastiche of one of the famous Mardis de la Rue de Rome, Daniel Bilous, who is also present in this council discusses and questions important theoretical aspects of the making of the literary.

Key-words: Pastiche, Style, Imitação, Author.






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