ApresentaçÃO



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Pastiche crítico do conto Meu Tio o Iauaretê, de João Guimarães Rosa


Por

Sebastião Edson Macedo


Vou começar este proseio contando uma historinhazinha besta, só pra ilustrar bem justo o que eu quero dizer a despois:
Era uma vez um raio dum home muito falador que vivia à sós no mei dos mato, num baixão das brenha gerais. Zagaieiro bom, andava pelos sertão tudo, caçava onça, gente, o diabo à quat’o. Cachaceiro de emborcar as canela e os beiço, não dá pra acreditar em tudo que ele inventa não. Diz ele que é parente das onça, que véve igualzim a elas, e que resolveu que num mata mais onça não, num gosta, tem pena. E jura de pé junto um monte de causo um atrás do ôto. Bêbo bosta é quando mais periga. Vira onça mermo. A valência é que o bicho já tá véi, chei de ano nos couro, mago, numa lerdeza só. Num dá mais tanto medo assim. Dá é pena de ver. Tem um revirado na língua, um falado feito as onça, nhengando uns bugre de índio misturado. Só assuntando a voz dele pra explicar direito. Mas nem carece. Carece nada. Carece é de assuntar ele, esse home., e cuidar do couro véi, e criar juízo.
Linha gerais, pra num alongar conversa, ora mais pra menos, ora mais pra mais, segue a história do subrim do jaguaretê, que é mei assim: mei lenda, mei causo, mei prosona solta, gorda, ligêra, as vez a gente vendo que é inventada, as vez igualzim à fala dos caboco dos mato, misturada cum monte de fraseado de sertanista, geralista, beletrista, tudo. Mais relato de caçada de onça, viage em vereda, rincão, travessia, açude, nonada, é tudo enquanto. E segue, segue toda vida. Parece que é um desimbesto de gente pela boca fora, porque é uma boca só que reza tudo. Esconjurante mermo. Cansa não. Mas tem que ler em voz alta, dobrar o esprito de porco da priguiça e assuntar que prosa mermo que é essa, até o fim. Mar vamo pelos começo, devagar, mode de arrochar as ruela desse conto curió.

Primêro que num é narrativa, ao mode tradicional dos conto bem entindido. Só fala um sujeito o tempo todo, que é o home, e que a gente sabe que é ele pelo aberto de um baita travessão, logo nos “incipítio” do texto, pra falar bonito e estudado. O home num é narrador de nada. É locutô se si mermo. E que num se locuta direito. Disvia, esquece, e vai. E sozim. Outra coisa: ele conversa cum alguém que num se assunta no texto, que pode ser qualquer urêa seca, fariseu, filibustante. Mas se o caba leitô fizer o fio da meada, que serve de adjutóro, se assunta ôto sujeito sim, nos implícito do texto. É mei de finim: assuntado que tem boi na linha das palestrada escusa, e que rende a noite toda, a noite mais escusa fô. É do gosto da crítica dita fulêra fazê o discurso direto do home, o tempo todo, apontar logo p’r’os monolóquio dos antigo, p’r’os teatro, p’os papo de cumádi, p’os drama d’uma gente só. Isso é bestêra. Cumeça que num é só isso. Isso é mais que pouco. Isso é pobre, pobre, pobre e de marré. Vejamo.

Discurso do home, subrim do jaguaretê, dá mais que palmo de drama pra manga de defunto sem cova, se eu posso dizer assim: dá é um nó no reparto de um gênero do ôtro, misturando peça de causo, de dramaturja de caipira, de pira e de pora, e tudo que é jeito, chei de enxerte de depoimento que bem que podia ser virídico se fosse mermo de um home mermo desse, se tivesse tido um, e chei de fala dos erudito de sertão, de pai de dicionári do lado, de invenção e mais invenção. Parece o diabo, mar num é o diabo não.

É trombeta, trompa, trombone, corneta, os corno, os berro... Pode pensar em uma coisa de música, de voz de cadência jogada nos monturo das oiça, de polifonia à folote, de um monte de gente falando junto por uma boca só, valei-me, que é quage isso. Quage, porque tudo escapa, se reparar direito. E mostro os apreceio.

A historiazinha besta que eu caçei em cima, todo mundo concorda mais ou meno que é essa a história que se passa afinal, mas que afinal não se passa côra ninhuma, porque não é essa história que é das conta do conto. Enquanto o subrim do jaguaretê aumenta um ponto na prosa, o leitô aumenta ôtro no entindimento do mermo conto, que se passa.por trás da fala e deixa de ser dramaturja, e começa a parecer mermo uma história, dum home que era muito faladô e tudo mais. Como se fosse duas história. Uma que o home conta, ôta que o povo entende debaixo, de fundo, de contra a forma que é contada. Prosa boa, dramadinha, rimosa, até. ‘Té aqui tudo bem, mas segue que tem pelelja.

Segundo, a’despois, essa coisa de meter o dedo nas fala tudo, incarná o sangue do caboco nos óio, até nas eguáge da boca cumendo letra, trocando os som, midindo o acaso da orde, dos impulso, repetindo, fazendo lista de coisa nas estrompa, dando detalhe de jeito, maneira, mode, qualidade... Meste Rosa, escritôzim desse conto, fez bonito de mais da conta. E como se num bastasse, ‘inda tem falância de grunido, nhengage de índio perdido, mato, estalo de bicho, miado de onça, sudenga, supapo, matutage de fumo e melisma embrabeado de cachaça quente nas goela abaixo. Ixe que dá ‘té troço de cum pouca na língua. Trava fêi. Isso, mode dá conta da viração de índio em bicho onça. Mode de gente tudo acretitá, pregá as pestana no testo, metê medo. Só imitando mermo gargalo de jaguárinzim pra chegá aos parecido. E a disdobra da conversa é pra chiá reclamo: da gente que véve a vida inteira e num parece feito gente, num sussega nada. Doido.

Tercêro tem um romance dentro de tudo, no mei das onça, c’uma onça. O home e as maria-maria. Conversa de fazerr hum-rum no juízo, de dá bons conselho, de proteger as cria, de dormi junto, esparramado os dois, de fazer jaguanhenhém com se fosse cafuné de preto. A valia é que o home faz criar vista nela das vantage de mulher mermo, formosura, manho, essas coisa. Pegando um detalhe se quizo, tem. Tem possive cena de idílio, e tem inté sexo, sexo mermo, se os crítico petece enxergar pelos mei.

Episódi vale de quê? Olhe: vale de humanizar o bicho home que o jaguázim as também é. P’á dá um salpicado de fogo e pêlo nessa solidão de brejo e muita perdura, disconfiança, cangaço, ceifo de foice, o diabo. Vale de fazê o coração cativo das onça mansa, sem querê cumê, só encostar, posto visto que parente de jaguá num carece mais nem um achego de gente, que enjoô tudo as conversa, as besteira, as maldade, os furto, as trapilha, as espora, os juízo, os preço, os à parte, os fíi, as sorte. Vale de ajuntar tudo num cofo só e picar longe. Maria-maria, essa não. Maria-maria vale de chegar cum’s pensamento tudo bom, tudo certo, tudo bunito, tudo prazenteiro, como manda os pensamento de onça mermo, que dá sossego e fome, e a’despois passa, como tudo nesse mundo. E segue.

Se a história desse home seguisse a boca mosca do povo, disse me disse igualzim de carecer, de tudo, espalhava notícia rúim que era uma praga.
Deu a vez de um sinhorzim caçador, perguntador, reparador das coisa, passar a noite toda a desconfiado, a lascado de medo, escorando as costela no sereno sem querer nem deitar cum’s história de onça e de esconjuro, nas beirada de amanhacer logo pra enxergar uma picada e ir simbora.
Mas a história vira bicho, bicho mermo, um grunido de gatuno só, fosco, bêbo. Vira resto de saborra em bica de garrafa, vira índio de novo, se agarra nos magote, arranca pedaço, e num é o diabo não, que esse tá na riluta de aparecê, mas só vem no Grande Sertão, romance só lá de mais tarde do Meste Rosa, cum hora marcada, cum pacto de sangue, cum faca nas beiça, cum os meio da rua, cum redemunho, cum paixão destrambelhada pelas vereda tudo. Home que num é onça, home que é carcará. Uma brabice só.

Mas desse home jaguá, voltando o torto da prosa, p’ra dá ela por sartisfeita, se inventa muita história diante das varanda, dos sono de sacabuxa, dos ribuliço na palhêra, nos puxado. Valei de figa, valei do que seria os ermo sem as andança...


Sinhozim tinha perdido o rumo das vereda mas tava entendendo tudo, tudo. O home era mei home, mei bicho mermo. Pode de ser nem um tiquim frouxo p’ra segurar a zagaia perto dele e das peste.
Se num dormir de véspra dá p’ra chumbar bonito. Tem que ser bem nos peito, ou na tela logo que é um só. A’como um sirviço pago. Um só, p’ra num fedê.
Iauaretê? Carece de ser mais ligeiro. Ô então num tem nhenhém que resolva. É crau.



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