ApresentaçÃO



Baixar 0,58 Mb.
Página1/12
Encontro03.05.2017
Tamanho0,58 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   12

APRESENTAÇÃO

Ana Maria de Alencar1 e Ana Lúcia Moraes**


Este número da revista Terceira Margem resulta de um gentil convite feito por Alberto Pucheu, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura, a quem agradecemos pela oportunidade de apresentar alguns frutos de nossa pesquisa sobre as oficinas de escrita inspiradas no OULIPO.

Quando em 1960, Raymond Queneau e o matemático François Le Lionnais criaram o Ouvroir de Littérature Potentielle, talvez não se dessem conta do amplo sucesso e da longevidade de seu empreendimento. Sob a influência de Raymond Roussel, Bourbaki e da Patafísica, a Oficina de Literatura Potencial pretendia realizar experimentações de estilo a partir de antigas práticas retóricas, mas também inventar novas restrições, as famosas contraintes, que pudessem guiar o esforço de criação. Em encontros marcados sobretudo com o humor, explorar as potencialidades da linguagem, injetando noções matemáticas na invenção romanesca ou poética, era o que queriam esses oulipianos que se diziam "ratos que constroem eles próprios os labirintos de que propõem sair". O sucesso da publicação de seus textos, durante uma década, levou-os à organização dos primeiros estágios. Rapidamente, eles atraíram um público tão numeroso que se viram obrigados a escolher entre continuar suas pesquisas e produções ou organizar as oficinas.

Existem hoje duas grandes tendências que norteiam as oficinas de escrita: a tendência da expressão e a tendência da produção. A idéia de uma prática coletiva da escrita, gerando uma reflexão sobre a linguagem, evidenciando a relação indissociável entre teoria e prática, entre leitura e escrita, fundamentando assim a reescrita consciente do texto, é a base do segundo tipo de oficina, que segue o caminho oulipiano.

Abrindo esta revista, o primeiro ensaio traz uma apresentação geral do Oulipo, situando suas propostas e questões num contexto filosófico. Quisemos também paralelamente problematizar alguns dos exercícios desenvolvidos no tipo de oficina de produção textual que é o nosso. Histórico, o texto de Claudette Oriol-Boyer, amiga de Georges Perec e criadora das oficinas de escrita adaptadas para o contexto acadêmico, narra o início de seu percurso, descrevendo uma seqüência de oficina e sublinhando alguns pontos importantes de seu método: a releitura e a reescrita, a função metatextual, ou seja, o fato de todo texto denotar ou conotar os mecanismos que o produzem. "O Concílio do pastiche" de Daniel Bilous é, ele mesmo, um pastiche. Trata-se da montagem dialogada de um encontro entre escritores, teóricos e críticos - Mallarmé, Proust, Queneau, Wilde, Genette, Laurent, o próprio autor desse "polílogo imaginário", dentre outros - que debatem animadamente as questões levantadas pela prática do pastiche. Amotz Giladi nos traz a contribuição de alguns oulipianos (Perec, Lescure, Le Lionnais), mostrando que nela os jogos com a língua ultrapassam o puro divertimento, ao traduzirem uma teoria revolucionária quanto ao ato de escrever e quanto à própria linguagem. O texto de Christelle Reggiani, especialista no Oulipo e na obra de Raymond Roussel, focaliza a idéia das restrições, analisando como elas estabelecem a recepção de um texto literário. Isabelle Guisan conta sua experiência como animadora de oficinas que seguem a tendência da expressão. Tais oficinas acontecem na Grécia e na Suíça, onde mora a autora. Com o lingüista Pierre Guisan, é a oposição entre língua oral/língua escrita que é trabalhada numa tentativa de descontruir certos pressupostos veiculados pelo senso comum.

O dossiê Iauaretê deve seu nome ao título do conto de Guimarães Rosa -embora não se constitua unicamente de produções em torno dele - que serviu de texto modelo para um dos exercícios de estilo desenvolvidos em nossa primeira oficina. Trata-se de uma homenagem feita aos alunos dessa oficina a quem dedicamos a presente publicação.

O projeto de pesquisa sobre as oficinas de escrita desenvolvidas na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em andamento desde março de 2004, conta com o apoio essencial do Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ao qual cabe enfim agradecer.

ensaios



O OULIPO E AS OFICINAS DE ESCRITA

Ana Maria de Alencar1 e Ana Lúcia Moraes**


“Quando a vida vai mal, pelo menos existe o Oulipo”.

Paul Braffort




Rumores da época


A idéia de fundar o que iria ser batizado de OULIPO nasceu coletivamente em 1960 num colóquio de Cerisy La Salle dedicado ao escritor Raymond Queneau. O OUvroir de LIttérature POtentielle situa-se, pois, no começo de uma década que marcará uma completa reviravolta quanto aos modos de pensar e de escrever em vigor até o período do pós-guerra. Depois de Gide, que já havia exaltado "todos os possíveis" e libertações, depois de Camus que escrevera O homem revoltado contra todas as opressões, a literatura também se desfaz de alguns entraves e assume a embriaguez de sintaxes e palavras novas. Não à toa, a década que traz o OULIPO, e com ele os inúmeros e famosos Ateliers d'écriture na França, é também a de uma revolução cultural que, tanto nas ruas quanto nas universidades, converge para uma principal exigência: a do direito à palavra.

O que está em jogo, aqui, do ponto de vista epistemológico, tem certamente a ver com os diferentes tipos de formalismos que atravessam a cultura ocidental no decurso do século XX. Rejeitando um certo misticismo da arte, a psicologia, a compreensão da obra na sua relação exclusiva com o meio ou um pretenso conteúdo, as teorias formais liberam o campo para pesquisas e experimentações as mais diversas. Basta lembrar, desde o início, a repercussão do formalismo sobre a pintura moderna, sobre a criação da etnologia literária, sua influência nas composições musicais, na arquitetura ou, mais tarde, sua aplicação à lingüística, à mitologia comparada ou à psicanálise. O destino do modelo estrutural, esse novo discurso do método, está diretamente ligado ao advento das ditas "ciências" humanas.

Tudo se passa como se o século XX, com o surgimento da lingüística suscitando um novo modo de pensar o humano nas ciências que tratam do signo, descobrisse finalmente que entre conhecimento e fala, entre corpo e expressão, há mais ambigüidade - e menos hierarquia - do que costumavam crer certas filosofias. Todo ato humano tem um sentido, Freud e Husserl já haviam concordado quanto a isso. Mas seria um equívoco acreditar que expressamos algo que existiria, de forma definida, antes que o expressássemos. A linguagem é existência no sentido primitivo do termo, ou seja, saída para o fora, extasis. A palavra é um acontecimento que compromete meu corpo e ao mesmo tempo habita as coisas. Se o pensamento habita a palavra, não se deve pensar que a palavra é a vestimenta do pensamento. É a Merleau-Ponty que se deve a reflexão:

Se a fala pressupusesse o pensamento, se falar fosse em primeiro lugar unir-se ao objeto por uma intenção de conhecimento ou por uma representação, não se compreenderia por que o pensamento tende para a expressão como para seu acabamento, por que o objeto mais familiar parece-nos indeterminado enquanto não encontramos seu nome, por que o próprio sujeito pensante está em um tipo de ignorância de seus pensamentos enquanto não os formulou para si ou mesmo disse e escreveu, como o mostra o exemplo de tantos escritores que começam um livro sem saber exatamente o que nele colocarão1.



Essa nova compreensão das relações entre linguagem e inteligência, fundamental para todos os estudos formais que virão, inclusive os do Oulipo, é o que está em jogo na passagem que ocorre da fenomenologia para o estruturalismo, sem entrar no mérito da inflação incontrolável que este termo sofreu. Foi Merleau-Ponty, em um de seus últimos cursos assistido aliás por Michel Foucault, o primeiro a falar de Saussure, que já morrera então há cerca de meio século e continuava praticamente desconhecido. A idéia de que a linguagem é puro jogo de diferenciação - ou seja, aquilo que Saussure chamava de "valor diacrítico" dos signos de uma língua (cada palavra não se reveste de sentido senão pela relação que estabelece com as outras palavras que lhe são próximas) - põe em xeque a dicotomia clássica entre sujeito e objeto. Opondo-se a concepções impregnadas de certo intelectualismo ou idealismo, a forma moderna do conceito de estrutura parecia mais apta a dar conta dos efeitos de sentido como sendo produzidos em um processo do tipo lingüístico. Em nome da estrutura, desqualificava-se o sujeito, pelo menos aquele sujeito que, à luz da fenomenologia, era visto como doador de sentido.


  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   12


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal