ApresentaçÃO por OóvisRossi



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Encontro12.07.2018
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APRESENTAÇÃO por Clóvis Rossi

A aventura da reportagem (SP: Summus, 1990) R. Kotscho & G. Dimenstein


Que me desculpem Vinícius de Moraes, os editores e os redatores, mas repórter é fundamental. É certamente a única função pela qual vale a pena ser jornalista. Jornalista não fica rico, a não ser um punhado de iluminados. Jornalista não fica famoso, a não ser um outro (ou o mesmo) punhado e assim mesmo no círculo restrito que freqüenta ou no qual é lido. Jornalismo, por isso, só vale a pena pela sensação de se poder ser testemunha ocular da historia de seu tempo. E a história ocorre sempre na rua, nunca numa redação de jornal. É claro que estou tomando "rua" num sentido bem amplo. Rua pode ser a rua propriamente dita, mas pode ser também um estádio de futebol, a favela da Rocinha, o palanque de um comício, o gabinete de uma autoridade, as selvas de El Salvador, os campos petrolíferos do Oriente Médio. Só não pode ser a redação de um jornal. Por isso, é um privilégio ser repórter. Não se trata de menosprezo à função dos companheiros editores e redatores. Até porque jornalismo é um trabalho de equipe, em que um bom editor valoriza ainda mais uma boa reportagem, um bom redator pode melhorar o texto de um repórter e assim por diante. Ocorre que, como em todas as profissões, também no jornalismo há talentos específicos. Há gente que só se sente bem colocando, numa página de jornal, revista ou no vídeo da tevê, uma reportagem. Como há gente que se sente asfixiada se tiver que ficar muito tempo trancada em uma redação. Reportagem é uma coisa paradoxal, por se tratar, ao mesmo tempo, da mais fácil e da mais difícil maneira de viver a vida. Fácil porque, no fundo, reportagem é apenas a técnica de contar boas histórias. Todos sabem contar histórias. Se bem alfabetizado, pode-se até contá-las em português correio e pronto: está-se fazendo uma reportagem, até sem o saber. Difícil porque o repórter persegue esse ser chamado verdade, quase sempre inatingível ou inexistente ou tão repleto de rostos diferentes que permanentemente se corre o risco de não conseguir captá-los todos e passá-los todos para o leitor/ouvinte/telespectador. Há alguns anos, em uma palestra em São Paulo, Cari Bemstein, o repórter do Washington Post que, com Bob Woodward, desvendou o caso Watergate e levou o presidente Nixon à renúncia, definiu jornalismo assim: "A melhor versão da verdade possível de se obter". É isso. Parte já do pressuposto de que a verdade inteira é inalcançável porque fala em "melhor versão da verdade". E acrescenta a essência do ofício de repórter no "possível de se obter". Um exemplo simples mostra como a definição é adequada.

Suponha que você está numa ponte sobre uma rodovia qualquer. De repente, um carro passa para a pista contrária e bate de frente num caminhão. Morre o motorista do carro. Qual é a verdade? O motorista atravessou a pista e, logo, foi o culpado. Mas a função do repórter é ir atrás das causas, e estas não ficam visíveis nem mesmo no exemplo simples usado.

Ou seja, mesmo que você seja testemunha ocular de um fato, nem por isso fica seguro de que sabe de tudo a respeito dele. Ora, jornalistas quase nunca são testemunhas oculares de fatos menos corriqueiros. Em geral, eles se passam nas sombras dos gabinetes, no escurinho dos palácios, nos fundos dos morros e favelas e assim por diante. Logo, resgatar "a melhor versão possível da verdade" é uma tarefa ingrata. Para executá-la, sejamos francos, exige-se muito mais transpiração do que inspiração. Mais esforço físico do que intelectual. Exige que se gaste a ponta do dedo telefonando para todas as pessoas que possam dar ao menos um fragmento de informação. Exige que se gaste a bunda nos sofás das ante-salas de autoridades ou "otôridades", na espera de que elas atendam o repórter e lhe dêem mais um pedacinho de informação. Exige que se gastem as pernas e as solas dos sapatos andando atrás de passeatas, comícios ou fugindo da polícia. Exige ainda gastar a vista lendo livros, revistas, jornais, documentos, relatórios, certidões, o diabo, atrás de detalhes ou confirmações, ou, no mínimo, como ponto de partida para se iniciar um trabalho com um mínimo de informações prévias. Gasta-se a vista também no simples exercício de olhar com olhos de ver. Tem muita gente que olha o não vê detalhes que acabam compondo pedaços por vezes vitais de uma reportagem. Pois é, a história às vezes passa diante do nariz e dos olhos da gente e a gente nem vê ou ao menos não vê todos os detalhes que a compõem. Cada vez mais o mundo e, dentro dele, o mundo do jornalismo exige especialização, e houve um tempo em que se supôs que o repórter - estigmatizado como um "especialista em assuntos gerais" - estava com seus dias contados. Bobagem. No limite, não há jornal, telejornal ou radiojornal se não houver ao menos um repórter na ponta da linha.

Mas jornais, telejornais e radiojornais poderão ser bem feitos e melhores se as novas gerações de repórteres se livrarem de um vício da grande maioria dos repórteres de hoje e de ontem. Trata-se da suposição de que para manter uma fonte (e o repórter depende muito delas) é preciso agradá-la no texto das histórias que o repórter conta. Não vou ao extremo de dizer que acariciar a fonte não ajuda a mantê-la. Mas pode ajudar também a agredir a verdade ou ao menos uma das faces da verdade e, no limite, o repórter de verdade vai sucumbir à angústia de sentir que está falhando.



É mais razoável e civilizado preservar as fontes pela reprodução fiel e bem-intencionada do que elas dizem ou pensam. Se o presidente da República disser que transformou o país em um paraíso, você deve escrever o que ele disse mas, em seguida, deve acrescentar os números e os fatos que demonstram que ele está enganado. Afinal, o presidente (qualquer presidente em qualquer país) tem uma imensa parafernália de meios para dizer a sua verdade. O repórter tem apenas o que já se disse antes: a disposição para transpirar muito em busca da verdade fugidia e um mínimo de inspiração para contar bem a sua história.



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