Anais do I congresso de História Nacional: possibilidades de leitura e mapeamento das tendências de uma disciplina



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ANAIS DO I CONGRESSO DE HISTÓRIA NACIONAL: POSSIBILIDADES DE LEITURA E MAPEAMENTO DAS TENDÊNCIAS DE UMA DISCIPLINA

Lucia Maria Paschoal Guimarães - Professora Titular - Departamento de História - Universidade do Estado do Rio de Janeiro


O vocábulo Anais deriva do termo latino annales, cujo significado primitivo é o registro de fatos históricos ou pessoais, organizados ano por ano. Entretanto, para os romanos, inicialmente, devido à influência grega, os Anais correspondiam ao relato do que outros fizeram e que o escritor jamais havia visto, uma vez que na Grécia o texto histórico devia descrever os acontecimentos verdadeiros a que o autor presenciara. Tácito, por exemplo, denomina de Anais a parte de sua obra dedicada aos séculos passados e dá o título de história à narrativa dos fatos contemporâneos.

Contudo, os próprios romanos procurarm estabelecer outras possíveis distinções entre obras históricas e os Anais. Inverteram aquela relação temporal e fixaram regras para a sua escrita. Para Sempronius Asello, Anais constituem uma compilação dos fatos que se sucedem a cada ano, devendo o escritor limitar-se à simples exposição do que ocorreu, tal como um cronista. Já o autor de uma obra histórica deveria articular os fatos às circunstâncias em que eles se passaram, refletindo sobre causas, motivações e conseqüências. Cícero acentuaria essas diferenças, ao conceituar Anais como a memória dos acontecimentos. Noção que se vulgarizou na Idade Média, com a organização de diversas publicações do gênero, a exemplo dos Anais de Gales, dos Anais de Saint Bertin e dos Anais de Carlos Magno.

Na Encyclopédie, o verbete Anais é definido como o relato histórico dos negócios de Estado, organizados em ordem cronológica. De registro dos acontecimentos do Estado ou dos feitos dos homens do Estado, o termo também começou a ser utilizado como sinônimo do relatório anual das atividades das academias científicas e literárias, ou dos avanços de um determinado campo do conhecimento. No século XIX, o uso corrente da expressão expandiu-se ainda mais passando a ser empregado para designar a memória escrita de certos eventos científicos, cuja periodização se supunha regular, como congressos, simpósios, encontros e atividades do gênero.

Anais de congressos, por conseguinte, são publicações formadas pelo somatório dos trabalhos ali apresentados. Representam um inventário extenso, uma espécie de (...) pedra angular de uma disciplina, em uma determinada época. Tais premissas nos auxiliarão a examinar os Anais do Primeiro Congresso de História Nacional. Obra que reúne os resultados de um evento pioneiro, promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1914. Pretendemos identificar as possibilidades de leitura dos Anais do Primeiro Congresso de História Nacional e apontar as principais tendências da disciplina, no alvorecer do século XX.

No período de 1910-1920, a intelectualidade brasileira vivenciava uma fase de efervescentes manifestações cívicas. À medida em que crescia esse apostolado, reflexo da crise internacional que acabaria desaguando na primeira Grande Guerra, tomava corpo uma onda de interesse pelas questões nacionais. A ilusão ilustrada das nossas elites1, nas palavras de Walnice Galvão, no fundo, constituía-se em uma das vertentes da versão nativa de um fenômeno de âmbito mundial, denominado por Maurice Agulhon de patriotismo modelo 19142.

Os ventos do culto à nacionalidade também sopravam pelos lados do Instituto Histórico. Afinal, dentre as lições do catecismo cívico, sobressaía-se o estudo da história pátria. Tanto assim que, em 23 de abril de 1913, o historiador e diplomata Manuel de Oliveira Lima pronunciou uma conferência, que obteve grande repercussão entre letrados e políticos, intitulada “O atual papel do Instituto Histórico”, onde salientava a necessidade de (...) reforçar o sentimento nacional, por meio da construção de um passado comum a todos os brasileiros. Para tanto, sugeria a reunião de um congresso histórico brasileiro, com a participação de estudiosos de todo o país, (...) formando-se assim uma federação intelectual e afetiva3. Tarefas pedagógicas de assinalado serviço à causa nacional, no entender do Conde de Afonso Celso, então presidente do Instituto, figura reconhecida como chefe venerável do nacionalismo brasileiro4.

Com efeito, dias depois da citada conferência de Manuel de Oliveira Lima, Max Fleiüss e Afonso Arinos encaminharam à Mesa Diretora uma proposta formal visando à convocação do Primeiro Congresso de História Nacional, daqui por diante denominado apenas de Primeiro Congresso. Uma comissão executiva, presidida por Ramiz Galvão, incumbiu-se de preparar o “Regulamento” do encontro, segundo as bases indicadas por Oliveira Lima. As atividades teriam lugar na sede do Instituto Histórico, entre 7 e 16 de setembro de 1914. Concluída a parte acadêmica, haveria uma excursão dos congressistas à cidade de Ouro Preto, considerada a mais típica e sugestiva das cidades coloniais brasileiras.

O evento compreendia nove seções de trabalho, cada qual correspondendo a uma especialidade dos estudos históricos, a saber: História Geral do Brasil; História das Explorações Geográficas; História das Explorações Arqueológicas e Etnográficas; História Constitucional e Administrativa; História Parlamentar; História Econômica; História Militar; História Diplomática e História Literária e das Artes. Grosso modo, esta divisão inspirava-se na tipologia definida por Langlois & Seinobos, no manual Introduction aux études historiques5, obra que na época era considerada a bíblia do método histórico, segundo Madeleine Rébérioux6. Cada seção contava com um relator e um comitê científico. Aos relatores, além de redigir a síntese dos trabalhos apresentados, cabia propor as teses, isto é, os temas ou questões que deveriam ser objeto da reflexão dos congressistas. Por sua vez, os comitês científicos ficavam encarregados de emitir parecer sobre o mérito das comunicações propostas e da respectiva adequação às normas do Regulamento, podendo também manifestar-se sobre o potencial cívico das mesmas.

As comunicações dividiam-se em duas categorias: teses oficiais e teses avulsas. Em ambas as situações só seriam aceitos textos inéditos. No primeiro caso, o IHGB convidaria um especialista para discorrer sobre determinado assunto do programa. No segundo, os autores inscreveriam seus trabalhos por iniciativa própria, desde que respeitado o elenco de temas estabelecido pelos organizadores, sendo-lhes facultado abordar (...) qualquer episódio da história brasileira, desde o descobrimento até a lei dos nascituros. Ou seja, contemplava o período que se estende entre 1500 e 1871.

O núcleo central da programação era constituído por 93 teses oficiais, que se distribuíam pelas nove seções de trabalho, conforme a tabela que se segue:

Tabela nº 1

IHGB, Primeiro Congresso de História Nacional: Distribuição do temário por seção

SEÇÕES

RELATOR

Teses Oficiais







Nos Absolutos

%


1ª História Geral do Brasil

Manoel Cícero Peregrino

11

12,0

2ª História das Explorações Geográficas

Gastão Ruch

11

12,0

3ªHistória das Explorações Arqueológicas e Etnográficas

Edgard Roquete Pinto

07

7,5


4ªHistória Constitucional e Administrativa

Alfredo Valadão

18

19,3

5ªHistória Parlamentar

Augusto Tavares de Lyra

09

9,5

6ªHistória Econômica

João Pandiá Calógeras

09

9,5

7ªHistória Militar

Antonio Gomes Pereira

07

7,5

8ª História Diplomática

Luís G. d’Escragnole Dória

06

6,5

9ª História Literária e das Artes

José Vieira Fazenda

15

16,2

Total




93

100,0


Fonte: Anais do Primeiro Congresso de História Nacional. IHGB, Rio de Janeiro: IGHB; Imprensa Nacional, 5 v., 1915-1917.

A distribuição percentual dos temas por seção demonstra sintonia dos relatores com as principais tendências da historiografia européia dos primeiros anos do século XX7. Privilegiava-se nitidamente o campo da história política e territórios correlatos (história militar, história diplomática, história constitucional e administrativa e história parlamentar). Por sua vez, a incidência de matérias na seção História das Explorações Geográficas também revela familiaridade com aquelas orientações, pois a geografia histórica vinha se consolidando como uma nova área de estudos, nos grandes centros universitários do Velho Mundo8. Do mesmo modo, há que se notar a parcela, ainda que modesta, de proposições alocadas em certas especialidades que na época eram consideradas “emergentes”, a exemplo da história econômica e da chamada história das explorações arqueológicas e etnográficas9.

Por outro lado, o expressivo percentual de tópicos no segmento dedicado à história literária e das artes constitui uma pista de que as preocupações nacionalistas do Instituto extrapolavam o culto às tradições históricas, buscando também salientar e preservar certos conhecimentos, que ajudassem na modelagem da consciência de grupo, como a literatura, a arte, os costumes e a religião.

Quanto ao conteúdo, os temas da 1ª Seção, direcionada para o estudo da história geral do Brasil, demarcavam as grandes linhas que iriam servir de fio condutor para os demais segmentos do Primeiro Congresso. A opção metodológica de partir da história geral para as chamadas histórias especializadas, mais uma vez, apoiava-se nas premissas formuladas por Langlois & Seignobos. Não é demais lembrar que os dois historiadores franceses aconselhavam os estudiosos a identificarem em primeiro lugar os fatos gerais, os grandes acontecimentos, sobretudo aqueles de natureza política, demarcadores das sucessivas etapas da evolução de uma determinada sociedade. No caso de episódios decorrentes de ações individuais, cabia destacar apenas as personalidades cuja atuação houvesse afetado uma parcela significativa da população, imprimindo determinada direção a uma massa de indivíduos10.

As matérias propostas para a Primeira Seção formavam dois grandes eixos temáticos, construídos a partir da divisão cronológica da história do Brasil segundo os regimes políticos, ou seja, a Colônia e o Império11. O passado colonial desdobrava-se em fases sucessivas, do mesmo modo que o período monárquico. As balizas temporais utilizadas para pontuar os respectivos fracionamentos foram fixadas consoante a categoria dos chamados grandes acontecimentos. Por sua vez, a escolha dos vultos representativos daquelas fases da história pátria também seguia os mesmos princípios definidos por Langlois & Seignobos. Os tópicos escolhidos eram os seguintes: 1 O descobrimento do Brasil. 2 A colonização, capitanias. 3. Estabelecimento de um governo geral, os primeiros jesuítas. 4. O domínio espanhol. 5. Os holandeses no Brasil, governo de Maurício de Nassau. 6. O padre Antonio Vieira. 7. Política do Marquês de Pombal. 8. tentativas de Independência. 9. A Corte Portuguesa no Brasil. 10. Primeiro Império, os governos da regência. 11. O Segundo Império até 1871

Inaugurado solenemente em 7 de setembro de 1914, pelo Presidente da República, o Marechal Hermes da Fonseca, o Primeiro Congresso reuniu cerca de 200 participantes, inclusive representantes dos governos estaduais e das principais associações científicas do país. Público, aliás, bem expressivo, considerando as acanhadas dimensões dos círculos letrados brasileiros nas primeiras décadas do século XX.

A memória do evento acha-se registrada nos Anais do Primeiro Congresso de História Nacional, uma coleção de 5 alentados volumes, que perfazem um total de 4.925 páginas12. Além das contribuições historiográficas, que trataremos mais adiante, integram a publicação os documentos relativos à organização e à realização do evento propriamente dito, inclusive a transcrição das atas das sessões, dos discursos e das moções apresentadas. Este material, aliás, revela que as reuniões plenárias serviram de palco para os intelectuais externarem o seu repúdio à guerra que eclodira recentemente na Europa, ao mesmo tempo em que exaltavam as virtudes nacionais, por meio de discursos apologéticos, pontuados por profissões de fé no glorioso futuro que estaria reservado ao país.

No âmbito acadêmico, os Anais reportam a exposição de 102 trabalhos, no correr das sessões ordinárias. Deste conjunto, foram publicadas 95 memórias históricas, sendo 54 na categoria das teses oficiais e 41 na das teses avulsas13.

O total de comunicações na classe das teses oficiais indica que cerca de 60% do temário apresentado pelos organizadores foi objeto de estudo. O que pode ser considerado um indicador expressivo, não só diante da quantidade de assuntos propostos, mas também porque certos temas se repetiam em mais de uma seção, conforme já se disse. Contudo, sabendo-se que as teses oficiais deveriam ser desenvolvidas por intelectuais de nomeada, convidados pela Comissão Executiva do evento, é possível supor que houve um índice relativamente alto de absenteísmo daqueles notáveis.

Percebemos, todavia, que o mesmo não ocorreu quando as teses oficiais foram confiadas à chamada “prata da casa”. Os sócios efetivos do Instituto Histórico prepararam alentadas intervenções. Figuras da envergadura do Prof. Manuel Álvaro de Sousa Sá Vianna, reconhecido especialista de direito internacional, que dissertou sobre “O tráfico e a diplomacia brasileira”14. Do jurista Clóvis Bevilaqua, autor da tese oficial “As capitanias hereditárias perante o Tratado de Tordesilhas”15, ou ainda do próprio presidente do IHGB, o Conde de Afonso Celso, que discorreu sobre a proposição “O poder pessoal do Imperador”, analisando as prerrogativas e o exercício do Poder Moderador no Segundo Reinado16.

Já na categoria das teses avulsas, onde as adesões eram facultativas, o total das comunicações editadas indica uma resposta positiva dos estudiosos ao conclave. Ao lado de veteranos membros do Instituto Histórico, apresentaram-se sócios recém ingressos. No primeiro caso, destacamos o historiador Max Fleiüss e o geólogo Orville Derby, autores respectivamente da pesquisa documental “O Imperador D. Pedro II no Arquivo do Conselheiro José Saraiva”17, e da monografia “Estudos cartográficos na primeira fase dos descobrimentos da América”18. No segundo, o Prof. Pedro Souto Maior, que relatou os resultados das suas investigações recentes no Arquivo Real de Haia, a respeito dos sínodos e classes do Brasil, durante o domínio holandês19. Fora dos quadros do Instituto, dentre outros nomes do mundo das letras e da política, expuseram trabalhos, Laudelino Freire, Basílio de Magalhães, Levi Carneiro e Múcio da Paixão, este último vindo da cidade de Campos para participar do evento. Novos talentos também foram revelados, a exemplo do jovem engenheiro e arquiteto Prof. Adolfo Morales de los Rios, cujo belíssimo estudo “Subsídios para a história da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro”20, hoje em dia é considerado livro de referência.

Na tabela adiante, quantificamos as monografias publicadas de cada seção, distribuindo-as por categoria de inscrição, de acordo com o respectivo recorte temporal, segundo a divisão cronológica da história do Brasil por regime político21:


Tabela nº 2

IHGB: Anais do Primeiro Congresso de História Nacional: Distribuição das comunicações publicadas



SEÇÔES

Teses Oficiais


Teses Avulsas


TOTAL

%


Colônia

Império

Outro

Colônia

Império

Outro






1ª História Geral do Brasil


06

-

-

16

03

01

25

26,4


2ª História das Explorações Geográficas

06

-

-

04

-

01

11

11,5


3ªHistória das Explorações Arqueológicas e Etnográficas

02

-

02

-

-

01

05

5,2


4ªHistória Constitucional e Administrativa

02

10

02

01

05

-

20

21,1

5ªHistória Parlamentar


-

05

01

-

02

-

08

8,4

6ªHistória Econômica



-

02

02

-

-

01

05

5,2

7ªHistória Militar

01

06

-

01

03

-

11

11,5

8ª História Diplomática


-

02

-

01

-

-

03

3,2

9ª História Literária e das Artes


02

01

02

01

-

01

07

7,5

TOTAL

19

26

09

24

13

04

95

100


Fonte: IHGB, Anais do Primeiro Congresso de História Nacional. Rio de Janeiro: IHGB; Imprensa Nacional, 5 v., 1915-1917.

De um modo geral, a distribuição das comunicações por seção acompanha as mesmas tendências observadas para a tabela nº 1. Nas duas categorias predominaram os estudos de história política e áreas correlatas, alcançando cerca de 71% dos textos publicados nos Anais. Os 29% restantes repartiam-se entre as demais seções, nos seguintes percentuais: 11,5% tratavam de temas da geografia histórica, então denominada de história das explorações geográficas; 7,5% de história literária e das artes; 5,1% de história econômica e 5,1% história das explorações arqueológicas e etnográficas. Note-se que os dois últimos segmentos correspondem às especialidades que consideramos “emergentes”.

No que se refere à periodização da história pátria, no grupo das teses oficiais, 19 monografias examinaram a fase colonial, enquanto 26 trataram do Brasil independente. A diferença constatada em favor deste último período espelha a organização do conteúdos programáticos dos segmentos de história constitucional e administrativa, história parlamentar e história militar, cuja incidência maior de temas recaía sobre o Segundo Reinado.

O quadro se inverte na classe das teses avulsas, onde os congressistas puderam escolher os assuntos de suas comunicações, com a preponderância de trabalhos que tratavam da fase colonial. Evidência de que a problemática da América portuguesa continuava a ser o grande objeto dos estudos históricos, tal como já vinha ocorrendo desde meados dos oitocentos22. Tendência, aliás, que ainda se manteve por um bom tempo na historiografia brasileira, inclusive na produção originária do meio universitário, como apontam os levantamentos de José Roberto do Amaral Lapa23.

A análise do conteúdo dos textos editados nos Anais traz algumas surpresas, tanto nas teses oficiais, quanto nas avulsas. Sobretudo no que diz respeito aos enfoques utilizados por certas comunicações apresentadas nas especialidades ditas “emergentes”. No âmbito da história econômica, merecem registro duas teses oficiais: “Dívida do Brasil, pública e privada” e “A circulação. Crise do xem-xem, evolução das leis monetárias. Crises de 1857 e de 1864”, escritas respectivamente por F. T. de Souza Reis e A. B. de Ramalho Ortigão24. Ambos os autores fizeram uso de métodos que mais tarde seriam próprios da história serial e chegaram a conclusões instigantes, considerando a cultura histórica do início do século XX. O primeiro, por meio do estudo da dívida passiva do Tesouro Nacional, no período compreendido entre 1824 e 1871, comprova que o recurso à contração de empréstimos externos e internos foi uma prática constante, utilizada pelos nossos dirigentes sempre que havia déficits nas contas públicas. O segundo, através de um conjunto de sofisticados procedimentos estatísticos, inclusive o levantamento da curva do meio circulante, demonstra como o governo imperial se valeu do recurso da emissão de papel moeda sem o respectivo lastro em ouro, por sucessivas vezes, como uma alternativa fácil para encobrir os danos das crises financeiras que afetaram a economia do país em diferentes momentos, contribuindo deste modo para o aumento da inflação.

No tocante aos segmentos de história das explorações arqueológicas e etnográficas e de história literária e das artes, ao lado de narrativas dirigidas para a valorização da nacionalidade, aparecem trabalhos de abordagem bastante original. Veja-se a contribuição de Teodoro Sampaio, sobre os relatos dos naturalistas viajantes do século XIX a respeito das populações indígenas25. No domínio da história literária e das artes, a dissertação intitulada “Do teatro no Brasil”, escrita por Múcio da Paixão26. Isto sem falar das monografias que trataram da pintura, dos costumes do cotidiano e do cancioneiro dos bandeirantes27. Textos que descortinam, por assim dizer, alguns aspectos da cultura brasileira que só seriam incorporados às análises historiográficas na década de 1930, nas obras pioneiras de Gilberto Freyre e de Sérgio Buarque de Holanda.

O mesmo se pode afirmar dos estudos de geografia histórica, que sob o rótulo de história das explorações geográficas examinaram os itinerários dos bandeirantes, as etapas do povoamento e do desbravamento do território, bem como a importância dos sistemas fluviais para o acesso e conquista de determinadas regiões brasileiras. Na área da cartografia histórica, a mencionada monografia de Orville Derby constitui caso exemplar, à medida em que compara seis mapas, elaborados entre 1492 e 1502, contendo os registros dos primeiros navegadores europeus que alcançaram o continente americano28.

Por outro lado, no campo da história política, prevaleceram as mesmas perspectivas da historiografia brasileira oitocentista, em que pesem o seu ineditismo e o esforço de erudição dos respectivos autores, que se espelhavam nos cânones da escola metódica29 . Os estudos relativos à América Portuguesa, via de regra, eram tributários da História geral do Brasil de Francisco Adolfo de Varnhagen, confirmando as palavras de Oliveira Lima, de que a obra de Varnhagen (...) foi e continua a ser a peça de resistência da nossa refeição histórica, o assado sólido, gordo, apetitoso na sua simplicidade sem adubos nem temperos franceses, com um molho leal e nenhum acompanhamento (o grifo é nosso)30.

A exceção do Prof. Jonatas Serrano, na tese oficial “A colonização – Capitanias”31, raros foram os autores que se aventuraram na trilha aberta por Capistrano de Abreu, cujos Capítulos de história colonial tiveram sua primeira edição em 1907. Indício de que os estudiosos ainda não haviam incorporado certos encaminhamentos propostos por Mestre Capistrano, sobretudo no que diz respeito ao exame das diversidades regionais, bem como dos contrastes e desequilíbrios da sociedade colonial.

As narrativas que se reportam ao período reinol e ao processo da independência inspiravam-se nas premissas estabelecidas por Pereira da Silva, na História da fundação do Império Brasileiro 32. Embora, no texto “A Corte Portuguesa no Brasil”33, já se perceba alguma influência das análises de Manuel Oliveira Lima, no livro D. João VI no Brasil, lançado em 1908. Quanto às comunicações que versavam sobre os acontecimentos relativos ao jogo político do Segundo Reinado, a citação obrigatória recaía na obra Joaquim Nabuco, Um Estadista do Império.

Apesar da diversificação temática dos trabalhos publicados, decorrente da própria amplitude da programação do Primeiro Congresso, a leitura dos Anais demonstra que três assuntos mereceram uma atenção especial dos estudiosos, a saber: o “Domínio Holandês”, a “Revolução de 1817” e a “Guerra do Paraguai”. Três episódios da história pátria, por sinal, muito propícios ao desenvolvimento do ideário nacionalista.

A problemática da presença batava no nordeste, além de tangenciada em diversos autores, mereceu cinco monografias. A exceção de Pedro Souto Maior, cujo estudo de fontes já nos referimos, os demais autores preocuparam-se em fixar a gênese da nacionalidade brasileira no caráter heróico da resistência pernambucana, (...) exemplo de amor à terra natal (...) para sacudir o odioso jugo estrangeiro34. Houve mesmo quem examinasse papel desempenhado por Domingos Fernandes Calabar, o famigerado mameluco que se passou para o lado dos holandeses, contra os épicos de Pernambuco, concluindo que destino sinistro de Calabar deveria servir de lição à mocidade nacional35.

A “Revolução de 1817” recebeu tratamento idêntico por parte dos três estudiosos que a abordaram. Ascendino Carneiro da Cunha enalteceu a ação dos rebeldes na Paraíba do Norte36, enquanto Jonatas Serrano e Marcílio Teixeira de Lacerda ocuparam-se da biografia de um dos líderes daquele movimento, Domingos José Martins. Modelo de virtudes cívicas a ser cultuado pelas gerações futuras, porquanto (...) morreu como um herói e assumiu as proporções grandiosas de um semi-deus, segundo Teixeira de Lacerda37.

As dissertações sobre a “Guerra do Paraguai” também não fugiram dos cânones da historia magistra vitae. Não vem ao caso fazer uma apreciação detalhada desses trabalhos, todos assinados por militares, pois trata-se de um conjunto bastante homogêneo, cujo enfoque privilegia a arte da guerra, com detalhadas descrições das situações de combate, mas sempre entrecortadas por relatos de episódios de bravura e patriotismo. Entretanto, do ponto de vista interpretativo, é importante notar que os autores preocuparam-se em sustentar a posição de que o Brasil, ao contrário do Paraguai, não empreendera uma guerra de conquista38.

Este breve balanço das comunicações publicadas nos Anais do Primeiro Congresso de História Nacional revela que a historiografia brasileira, no alvorecer no alvorecer no século XX, mostrava-se bastante familiarizada com as principais tendências européias que orientavam o estudo da disciplina. Tanto com as noções da escola metódica, em especial na sua vertente francesa, representada por Langlois & Seignobos, quanto no que diz respeito ao ideário nacionalista do patriotismo à moda 1914, que dava à escrita da história um caráter eminentemente pragmático, destinado a fornecer bons exemplos e lições de civismo.

Todavia, a estreita afinidade dos nossos historiadores com aquelas concepções não impediu o aparecimento de contribuições originais, privilegiando objetos hoje em dia muito caros ao domínio da história cultural. Ou que tratassem de certas questões de história econômica, valendo-se de métodos de análise sofisticados, que só viriam a ser consagradas pela história serial muitos anos mais tarde.



Seja como for, o Instituto Histórico, por meio do Primeiro Congresso de História Nacional, promoveu a sistematização do conhecimento histórico disponível, conferindo-lhe unidade e coerência, incorporando inclusive à história pátria o passado recente do país. Afinal, como argumentara Manuel de Oliveira Lima, o grande mentor do conclave, Todos lucram em verificar que a nossa história, por mais local que pareça, é toda ela a mesma(...) 39. Ainda que condimentada por generosas porções dos tais adubos e temperos franceses, para desgosto do paladar de Oliveira Lima, cabe acrescentar.



1 Cf. Walnice Galvão, “Depoimento”, em 13 de abril de 1998. História, Ciências e Saúde: Manguinhos, Rio de Janeiro, 5: 293 (Suplemento), julho de 1998.

2 Cf. Maurice Agulhon, Histoire vagabonde III. (La politique en France, d’hier à aujourd’hui). Paris: Gallimard, 1996, p. 12.

3 Manuel de Oliveira Lima, “O atual papel do Instituto Histórico”. In: ______, Obra Seleta, organizada sob a direção de Barbosa Lima Sobrinho.Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1971, p. 721.

4A expressão é de Wilson Martins. Cf. Wilson Martins, História da inteligência brasileira. São Paulo: Cultrix, 1978. v. VI, p.191.

5 A 1ª edição data de 1898. No presente trabalho utilizamos a re-edição de 1992. Cf. Charles-Victor Langlois & Charles Seignobos, Introduction aux études historiques. Préface de Madeleine Rébérioux. Paris: Éditions Kimé, 1992, p.201-202.

6 Cf. Madeleine Rébérioux, “Préface”. Idem, p.7.

7 Para efeito de comparação, ver os levantamentos de Pim den Boer, History as profession. The study of history in France, 1818-1914. Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 1998, p. 333-335.

8 Sobre a colaboração mais estreita entre historiadores e geógrafos no início do século XX, Charles Higounet, “La Géohistoire”. In: Charles Samaran (dir.) L´histoire et ses méthodes. Paris: Gallimard, 1973, p. 78-82. (Encyclopédie de La Pléiade, v.11). Ver, também, Pim den Boer, op. cit., p.335.

9 Cf. Peter Burke, “Quanto é nova a nova história”. In: _______ (org.), A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Editora da UNESP, 1992, p. 16-25.

10 Cf. Langlois & Seignobos, Introduction aux études historiques. Op. cit., p.202-204.

11 É importante salientar que essa divisão cronológica da história do Brasil por regimes políticos, acrescida naturalmente do período republicano, é utilizada ainda hoje por autores contemporâneos, a exemplo de José Roberto Amaral Lapa e de Francisco Iglésias dentre outros. Serve, também, para a classificação de projetos de pesquisa na área de História, por órgãos oficiais de fomento à pesquisa, como é o caso do CNPq.

12 Ver, IHGB, Anais do Primeiro Congresso de HIstória Nacional, Rio de Janeiro: IHGB: Imprensa Nacional, 1915-1917., v.1, p.1-134.

13 No Anexo 2 apresentamos a relação das monografias e respectivos autores.

14 Manuel Álvaro de Sousa Sá Vianna, “O tráfico e a diplomacia brasileira”. IHGB, Anais do Primeiro Congresso de História Nacional, op. cit., v. 5, p.537-564.

15 Clóvis Bevilaqua, “As capitanias hereditárias perante o Tratado de Tordesilhas”. Idem, v. 2, p. 5-26.

16 Afonso Celso, “O poder pessoal do Imperador”. Idem, v. 4, p. 375-412.

17 Max Fleiüss, “O Imperador D. Pedro II no Arquivo do Conselheiro Saraiva”. Idem, v. 1, p. 1509-1540.

18 Orville Derby, “Estudos cartográficos na primeira fase dos descobrimentos da América”. Idem, v. 2, p. 325-344.

19Pedro Souto Maior, “Religião reformada no Brasil, no século XVII”. Idem, v.1, p. 707-780.

20 Adolfo Morales de los Rios, “Subsídios para a história da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro”. Idem, v.1, p. 989-1350.

21 Os trabalhos cuja problemática contemplava recorte cronológico que se estendia desde a fase colonial até o Brasil independente foram computados na coluna outro. Procedeu-se do mesmo modo com a monografia “Economia e finanças dos Estados”, de autoria de João de Lyra Tavares, que apesar de tratar do período republicano, foi apresentada na categoria das “teses avulsas”, da seção de história econômica.

22 Cf. Lucia Maria P. Guimarães, “Debaixo da imediata proteção de Sua Majestade o Imperador”, op. cit., p. 513.

23 No período 1934-1973, 43,5% das teses de doutoramento defendidas na Universidade de São Paulo abordaram temáticas do período colonial. Cf. José Roberto do Amaral Lapa, A História em questão: historiografia brasileira contemporânea. 2ª edição. Petrópolis: Vozes, 1981, p.48.

24 Ver, F. T. de Sousa Reis, “Dívida do Brasil, pública e privada”, Anais do Primeiro Congresso de História Nacional, op. cit., v. 4, p. 613-690, e A. B. de Ramalho Ortigão, “A circulação. Crise do xem-xem, evolução das leis monetárias. Crises de 1857 e de 1864”, Idem, p. 465-548.

25 Cf. Teodoro Sampaio, “Os naturalistas viajantes dos séculos XVII e XIX e o progresso da etnografia indígena no Brasil”. Anais do Primeiro Congresso de História Nacional. Op. cit., v. 2, p.543-594.

26 Cf. Múcio da Paixão, “Do teatro no Brasil”. Idem, v.5, p. 675-722.

27 Ver, por exemplo, Francisco Luiz da Gama Rosa, “Costumes dos povos nos nascimentos, batizados, casamentos e enterros”. Idem, ibidem, p. 735-746.

28 Orville Derby, “Estudos cartográficos na primeira fase dos descobrimentos da América”. Idem, v. 2, p. 325-344.

29 Sobre a escola metódica, ver Guy Bourdé & Hervé Martin, “O discurso do método”. In: ____, As escolas históricas. Lisboa: Publicações Europa-América, s.d., p. 101-104.

30 Manuel de Oliveira Lima, “Elogio a Varnhagen”. In: ______, Obra Seleta... Op. cit. p.551.

31 Cf. Jonatas Serrano, “A colonização – Capitanias”. Anais do Primeiro Congresso de História Nacional Op. cit. v 1, p.185-206.

32 Ver, por exemplo, Taciano Accioli Monteiro, “Algumas reflexões sobre a ata do Fico”. Idem, v. p.883-900.

33 Ver, Pandiá H. Tautphoeus Castello Branco, “A Corte Portuguesa no Brasil”. Idem, p. 417-434.

34 Ver: Augusto Tavares de Lyra, “O domínio holandês no Brasil, especialmente no Rio Grande do Norte”. Idem, v. 1, p. 437-506. Joaquim de Salles Torres Homem, “A expulsão dos holandeses de Pernambuco”. Idem, v. 5, p.7-47. Sebastião de Vasconcellos Galvão, “Expulsão dos holandeses de Pernambuco”. Idem, ibidem, p.420. A expressão é de Joaquim de Salles Torres Homem, p. 17.

35 Olímpio Galvão, “Calabar na história ou domínio holandês no Brasil”. Idem, v.1, p. 819-875.

36 Cf. Ascendino Carneiro da Cunha, “A Revolução de 1817 na Paraíba do Norte”. Idem, v.1, p. 588-612.

37 Cf Jonatas Serrano, “Um vulto de 1817”. Idem, v. 1, p. 519-551 Marcílio Teixeira de Lacerda, “Domingos José Martins”. Idem, v. 1, p.553-.586. A expressão é de Teixeira de Lacerda, p. 577.

38 Ver, Liberato Bitencourt, “Fase inicial da guerra do Paraguai. Marcha dos exércitos aliados anteriormente ao comando de Caxias. Operações da esquadra”. Idem, v.5, p.175-210. Bernardino Borman, “Guerra do Paraguai”. Idem, v. 5. p.211-293. Antonio José Dias de Oliveira, “Guerra do Paraguai. A Campanha das Cordilheiras. Fim da Guerra. Golpe de vista sobre a formação da nacionalidade paraguaia”. Idem, v. 5, p.295-460.

39 Manuel de Oliveira Lima, “O atual papel do Instituto Histórico”. In: ______, Obra Seleta... Op. cit. p. 721-724.




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