Amor de Aluguel Heart-throb for hire Miranda Lee Qual seria o preço de uma noite de amor?



Baixar 1,12 Mb.
Página3/4
Encontro11.09.2017
Tamanho1,12 Mb.
1   2   3   4

CAPÍTULO VI

Na manhã seguinte, Estelle entrou na sala de Kate com uma expressão de dúvida no rosto.

— É verdade? — perguntou.

Kate levantou a cabeça, encarando-a. Estava distraída, preocupada com a possibilidade de receber um telefonema de Roy. Se isso acontecesse, seria forçada mais uma vez a mandá-lo sair de sua vida.

— Do que você está falando?

— De você ter saído com Roy Fitzsimmons ontem, depois do trabalho.

— Bem... — Kate sentiu o rosto corar. Esquecera-se completamente das pessoas que a tinham visto na tarde anterior.

— Então é mesmo verdade! — a secretária exclamou, espantada.

— Sim, é verdade — Kate concordou, não vendo razão para mentir.

Na verdade, o fiasco da noite anterior iria ao menos servir para acabar com os comentários que faziam sobre ela na empresa. Por que não deixar que os colegas de trabalho pensassem que saía com homens como Roy o tempo todo?

— Roy apareceu depois que você se foi e convidou-me para jantar. — ela explicou no tom mais casual possível. — E eu aceitei.

— Mas Cheryl disse que ele...

— Me beijou no saguão dos elevadores. — Kate completou, tentando aparentar naturalidade.

Lembrou-se do efeito que os lábios de Roy tinham produzido ao tocar nos seus, do contato com o corpo dele... Nunca sentira nada parecido, e achava que jamais iria es­quecer aquela sensação.

Mas a lembrança daquele prazer a deixava preocupada. Por que insistir em recordar algo que nunca mais iria acontecer?

— Cheryl disse que você parecia completamente diferente. — Estelle resumiu de forma acusadora. — Disse que você estava maquiada... e de brincos!

Kate não pôde conter o riso.

— Pelo amor de Deus, Estelle, por acaso é crime usar maquiagem e brincos? Você fala como se eu tivesse feito alguma coisa errada! Bem, ao menos isso vai provar a todos que não sou homossexual — terminou com secura.

— Pode apostar. Cheryl disse que aquele pedaço de ho­mem parecia completamente louco por você!

Kate suspirou, exasperada.

— Que exagero! Tudo o que ele fez foi me beijar uma ou duas vezes. Acaso isso não acontece quando você sai com seus namorados?

Estelle ficou boquiaberta. Estava cada vez mais surpresa.

— Está me dizendo que Roy Fitzsimmons é seu namorado?

Kate ficou frustrada. Quanto mais tentava explicar a si­tuação, mais complicava as coisas.

— Digamos que somos apenas bons amigos, certo? — disse por fim.

— Oh, claro! — A expressão da secretária era irônica.

— As pessoas sempre dizem isso quando não querem que os outros saibam a verdade. Não me faça de tola, Kate. Está namorando Roy, não está? Sempre descubro quando uma mulher anda dormindo com alguém. Ficam coradas e nervosas, como você, quando falam a respeito.

— Eu não estou corada e nervosa! — Kate defendeu-se, inutilmente. Tudo o que queria naquele momento era que Estelle sumisse ou parasse de falar sobre aquele homem infernal.

— Claro que não está — foi à resposta cínica. — Você parece gelada como um iceberg... Ora, ficou vermelha como um pimentão!

— Ouça aqui, se quiser continuar como minha secretária, pare de falar nisso. Não estou namorando Roy Fitzsimmons. Se quer mesmo saber, duvido que eu vá sair mais uma vez com aquele homem depois da noite passada.

— Oh... ele avançou o sinal, não foi? Ouvi dizer que é durão com as mulheres. Se bem que um homem daqueles...

Uma súbita batida à porta interrompeu a frase de Estelle. Kate olhou pelo vidro, levantou-se de um salto e ficou pálida. Assustada, a secretária virou-se para a entrada e descobriu que o motivo daquela alteração era exatamente o homem sobre o qual haviam acabado de falar.

— Desculpem-me a interrupção. Mas não havia ninguém para atender e eu ouvi vozes, então eu... hã... — Roy calou-se ao notar que as duas mulheres continuavam a encará-lo num silêncio embaraçoso. Estelle com curiosidade; Kate, chocada. Não esperava que ele a procurasse pessoalmente.

"Não é justo", pensou ao olhar para aquele homem ma­ravilhoso, que usava calça e jaqueta jeans. A barba, de novo por fazer, e o cabelo negro ondulado lhe davam uma apa­rência tão sexy que era quase indecente.

Engolindo em seco, ela encarou os olhos azuis, cortantes como lâminas afiadas.

— Se eu estiver interrompendo algo importante, posso esperar lá fora.

— Oh, não, Sr. Fitzsimmons — Estelle emendou, corando de admiração. — Pode entrar. Eu já estava de saída, não é mesmo, Kate?

Saiu em seguida, fechando a porta e deixando a chefe à mercê do inimigo, sem armas para se defender. Quanto a Kate, apreciava Roy detidamente. Como era bonito! Bonito, charmoso, viril e... disponível. Tudo se resumia a uma ques­tão de preço.

Cerrando os punhos e apoiando-os na escrivaninha, ela continuou a encará-lo, tentando parecer firme.

— Acho que deixei minha posição muito clara ontem à noite.

— Não concordo. O que fez foi me deixar muito confuso.

— Ora, seja razoável...

— Não. Quem tem que ser razoável é você. — ele cortou, com uma expressão de raiva. — Num momento estávamos nos divertindo. No minuto seguinte... tudo voa pelos ares!

Quero saber qual é o problema. O que aconteceu, exata­mente, para causar essa mudança drástica?

— Acho que você vai descobrir isso facilmente se usar a cabeça.

— Bem, está enganada. Pensei no assunto a noite toda e não descobri nada. Você estava bem até chegarmos a meu apartamento. E algo relacionado àquele lugar?

— Não.

— Então diga o que é, droga!



A raiva dele, bem como a visita-surpresa, deixavam-na enfurecida. Por que Roy simplesmente não ia embora? Tinha perdido uma provável cliente, nada mais. Havia muitas ou­tras. Pelo menos fora isso que Kate entendera ao ouvir aquele telefonema na noite anterior.

— Já lhe disse. — ela falou com frieza. — Não saio com homens.

— Então é isso? Bem, permita-me lembrá-la de que saiu comigo ontem, e de que, até onde sei, sou um homem.

— Ou acha que é!

A insinuação deixou-o completamente furioso. Ele atra­vessou a sala com uma expressão sombria. Kate despencou na cadeira, temerosa.

Mas Roy não a tocou. Parou no lado oposto da escriva­ninha, encarando-a com olhos frios como aço.

— Melhor explicar o que quer dizer, Kate Reynolds, antes que eu fique tentado a mostrar que sou mesmo um homem.

— Verdade? — ela arriscou. — E como pretende fazer isso? Vai me chutar como uma bola de futebol?

Ele deu um sorriso sarcástico.

— Não, eu tinha algo mais primitivo em mente. Algo como pegá-la no colo e lhe dar uma boa surra até que se lembrasse de ter boas maneiras!

— Você não faria isso!

— Só há uma forma de me deter: contar o que está pas­sando em sua cabeça. E quero que seja bastante clara.

— Tem certeza que quer ouvir a verdade? — ela provocou.

— Não estou brincando, Kate Reynolds.

— Certo. Espero que não fique decepcionado. Sei quem você é, Roy Fitzsimmons. Sei como ganha a vida depois que abandonou o futebol. Ouvi a conversa que teve com Ned pelo telefone ontem, e eu seria uma idiota se não pudesse somar dois mais dois. — Ergueu-se desafiadora, indignada. — Como pode ver, percebi o motivo real de seu convite, sua insistência em me ver novamente, e o porquê de você estar aqui hoje. Pensa que sou uma daquelas mulheres desespe­radas, com mais dinheiro do que bom senso, e que pode me ajudar a ter "bons momentos". — Sorriu ironicamente. — Mas está enganado. A caça fugiu antes que você conseguisse arrancar algo dela. Perdeu seu tempo dessa vez, querido.

Ela jamais vira alguém tão pálido quanto o homem do outro lado da mesa. Ele a encarava perplexo. Na certa nunca imaginaria que sua conversa sórdida pudesse ter sido ouvida e compreendida por alguém.

— O que realmente me deixa furiosa — Kate continuou. —, é que fui tola o bastante para acreditar que um homem como você poderia se interessar por alguém como eu. Mas é assim mesmo que funciona, não é? A escolha das vítimas nunca recai sobre as jovens ou bonitas. Você as deixa fas­cinadas, depois as leva para a cama e...

— Levo para a cama?

— Oh, pelo amor de Deus, pare de fazer papel de inocente! Sua máscara caiu. Sei que você não passa de um gigolô.

— Um gigolô — ele repetiu numa voz tão entorpecida que fez surgir um fio de dúvida em Kate.

A dúvida cresceu quando Roy continuou a olhá-la, estu­pefato. Gradualmente, a expressão passou a espelhar uma profunda curiosidade. Então, ele começou a gargalhar.

Aquilo a chocou. Não esperava semelhante reação, mas parecia que tinha acertado no alvo.

— Então você admite! Admite que é mesmo um gigolô.

— Não admito nada.

— Mas não pode negar que...

— Não nego nada. — ele cortou com um estranho sorriso nos lábios. — Por que deveria?

— Não acho isso engraçado. Você me magoou ontem à noite.

— Magoei? — ele perguntou suavemente. — Como?

— Você... você...

— Eu lhe mandei rosas, levei-a para jantar e procurei fazê-la divertir-se. E, se não me engano, paguei a conta, não foi? Depois você quis ir até minha casa e eu a levei. Como foi que magoei você?

— Você... me enganou. Achei que gostasse de mim.

— Eu gosto de você.

— Você quis me usar.

— Não, eu desejei você.

Ela engasgou, e uma onda de calor percorreu seu corpo.

— Não diga isso.

— Por quê?

— É mentira.

— Acha mesmo?

— Sabe muito bem que é — ela murmurou, desconsolada. Pensava que ele fosse desistir da conquista quando desco­brisse que ela sabia a verdade.

— Não, Kate. O problema é que você acredita nisso. E não posso fazê-la mudar de idéia, não é?

Ela recusou-se a responder, mas sua expressão deixava claro que Roy acertara. Um silêncio profundo tomou conta da sala por alguns instantes. Repentinamente, uma das lu­zes do telefone começou a piscar, indicando uma chamada. Kate ergueu o olhar.

— Tenho que atender uma ligação. Por que não vai embora?

— Não vou a lugar nenhum. Atenda sua ligação. Eu espero.

Virando-se, caminhou até o sofá, acomodando-se confor­tavelmente depois de tirar a jaqueta. Parecia completamen­te à vontade.

Kate observou o peito musculoso, que esticou a camiseta branca quando Roy abriu os braços sobre o espaldar do sofá. Em seguida pegou o fone.

— Kate Reynolds. — atendeu com um fio de voz.

— Kate, como vai? Aqui é mamãe.

Sentindo-se pouco à vontade, ela voltou a sentar.

— Tudo bem, mamãe. E você?

— Estou ótima. Só estou ligando para lembrá-la sobre o fim de semana. Prometeu nos visitar, lembra?

— Claro que lembro. Até já providenciei uma folga na segunda, assim não preciso voltar no domingo.

— Que bom, querida. Vai trazer alguém?

— Não, vou sozinha.

— Nenhum... hã... não há nenhuma amiga que queira trazer?

— Não.


O suspiro da mãe pareceu a Kate um sinal de preocupação.

— Certo. Bem, ao menos não terei que arrumar o quarto de hóspedes, não é?

— Desta vez não.

— Seu pai e eu pensamos em fazer um churrasco, que acha?

— Churrasco? Acho uma boa idéia.

— Quando vai chegar?

— Vou sair daqui no sábado pela manhã e devo estar chegando a Armidale à tarde, na hora do chá.

Vai dirigir com cuidado, não é, querida? As estradas ficam muito movimentadas nessa época do ano.

— Vou tomar cuidado, prometo.

— Bem, então até logo, querida.

— Até logo, mãe.

Kate desligou, mantendo-se silenciosa por alguns segundos.

— Seus pais vivem em Armidale?

O coração dela disparou. Tinha esquecido completamente de seu visitante. Pensar no final de semana com a família ocupara sua mente.

— Sim.

— E vai dirigir até lá sozinha?



Ela lançou um olhar cáustico a Roy.

— Espantoso uma mulher fazer isso, não é?

A expressão dele manteve-se inalterada, a não ser por um pequeno sorriso que formou-se em seus lábios.

— Não parece muito ansiosa por essa visita.

— Você entendeu muito bem. Sou uma solteirona, lem­bra-se? Não tenho nenhum namorado para apresentar aos meus pais.

— Será que percebi um traço de amargura em sua voz?

Ela deu de ombros.

— Pode ser. Mas cansei de pensar sobre esse assunto, e agora ele não me incomoda mais.

— Acho que está mentindo. — Roy desviou o olhar quando ela tentou encará-lo. Depois levou os dedos ao queixo e fez uma expressão pensativa. — Sabe, tive uma idéia. Por que não me leva a Armidale? Eu poderia fazer o papel de seu namorado.

— Não seja ridículo!

— Ridículo por quê?

— Bem, em primeiro lugar, minha família nunca acre­ditaria que eu estivesse namorando alguém como você. Em segundo, acho que não posso pagar por isso!

Ele olhou ao redor.

— Oh, acho que você conseguiria, sim. Admito que meu preço é alto, mas por um final de semana inteiro podemos fazer um acordo. Um acordo especial.

Kate odiou a si mesma por continuar ouvindo. Mas havia algo de fascinante no que ele estava dizendo. Será que outras mulheres realmente pagariam para tê-lo como companhia?

— Sua oferta é muito generosa. Mas dispenso, obrigada.

— Está com medo?

— Medo? De você?

— Não. De si mesma... — Roy levantou-se e caminhou va­garosamente na direção dela.

— O que... o que você está fazendo? — Ela segurou os braços da cadeira. Sua cabeça parecia girar e o coração batia loucamente. — Se me tocar, juro que eu grito,

— Não vou tocar em você. — Ele pegou uma caneta sobre a escrivaninha e procurou um pedaço de papel. — Vou ano­tar seu endereço. Pode dizer.

— Não vou dar meu endereço a você!

— Vai dar sim. — Seu olhar brilhava. — E vai me levar para Armidale no sábado.

— Por que eu faria isso?

— Porque é isso que você quer.

— Não seja tolo!

— Não estou sendo. Você está louca para tirar seu ego ferido do chão. Vai ser bom ter um braço em torno da cintura, para variar. E será ainda melhor se for de um jovem atlético, não é? Sua família nunca mais vai incomodar você depois desse fim de semana, prometo.

Aquela idéia soava, a um só tempo, instigante e inofen­siva. Roy estava certo. Sua família não parava de perse­gui-la. Seria interessante ver a expressão que fariam se aparecesse acompanhada do lindo e famoso Roy Fitzsimmons.

Mas o risco era muito grande. Se ela contratasse Roy como acompanhante naquele final de semana, submetendo-se ao charme e à sensualidade dele, quanto tempo agüen­taria antes de chamá-lo pela segunda vez, ou pela terceira? Quanto tempo agüentaria sem sentir os braços dele ao redor de seu corpo?

Esse era, sem dúvida, o plano daquele homem. Primeiro estimular-lhe-ia o desejo, tornando-a escrava de seus ca­rinhos e atenções. Depois viria o sexo. Roy Fitzsimmons devia gostar muito de dinheiro para prostituir-se daquela maneira.

Embora estivesse ultrajada, Kate não podia deixar de perguntar quanto ele cobraria para fazer aquele tipo de serviço. Além disso, a idéia de pagar para fazer amor com ele era perversamente estimulante. O simples fato de con­siderar essa possibilidade a excitava muito.

Afinal de contas, ele devia fazer um grande esforço para que cada dólar investido valesse a pena...

— Além disso, não vou dormir com você. — ele anunciou friamente. — Nunca durmo com uma cliente no primeiro encontro.

Kate arrependeu-se por ter imaginado tantas coisas sórdidas.

— Que graça. — ironizou. — Como se eu pudesse dormir com um homem que se vende por hora!

— Oh, mas eu me vendo por períodos também. — ele informou. — Quando encontro uma cliente especial, da qual realmente gosto, prefiro ficar a noite toda. Além disso, uma hora ou duas dificilmente fariam justiça a todo o meu ta­lento. — Sorriu de modo indecente depois da insinuação. — Mas sinto muito, Kate. Por mais que eu goste de você, preciso seguir certas regras. Prefiro conhecer melhor a pessoa que me contratou antes de ir para a cama com ela. Não importa quanto dinheiro a cliente ofereça. A propósito, meus serviços vão custar quinhentos dólares por dia, mais as despesas.

— Isso é um absurdo!

— Kate, querida, é barato. Normalmente cobro o dobro. Vou fazer um preço menor para você porque não vamos fazer sexo.

— Mas... — Kate interrompeu-se. Não sabia o que respon­der. Estava surpresa. Muito mais do que poderia imaginar.

— Vamos lá, Kate. — ele insistiu com voz rouca. — Des­perte seu lado selvagem. Contrate-me.

Ela o encarou, sabendo que era uma insanidade aceitar aquele acordo. Tratava-se de uma armadilha. Mais uma vez pensou na surpresa que seus pais teriam se aparecesse acompanhada de Roy. Imaginava principalmente a cara de sua mãe. Perguntava-se qual era o preço do próprio orgulho. Aparentemente, mil dólares, mais despesas.

— Certo. — ela concordou, dando de ombros.

O brilho que surgiu nos olhos azuis a deixou perplexa. Para o diabo com as aparências, pensou. Para o diabo com tudo. Naquele final de semana teria o que desejava. Mesmo que não passasse de uma grande mentira.

— Mais uma coisa. — disse Roy, interrompendo-lhe os pensamentos. — Se você acha que vai ser minha namorada, vestida desse jeito, pode esquecer. Vamos precisar de algo muito mais quente.

Kate examinou o conjunto preto que usava naquela ma­nhã. Depois do desastre da noite anterior, voltara a usar roupas sérias. Nada de maquiagem, nada de jóias.

— Não vejo nada de errado com meu traje.

— Como não? Mais parece funcionária de uma funerária!

A crítica irritou Kate.

— Melhor do que parecer uma vadia!

— Querida, você nunca conseguiria parecer uma vadia, mesmo que quisesse. — A voz dele era extremamente se­dutora. — Mas pode parecer à mulher sexy, intrigante e feminina que já é. Portanto, pegue seus cartões de crédito e vamos fazer algumas compras.




CAPÍTULO VII

Na sexta-feira, Kate quase não conseguiu dormir. Sentia-se excitada, mas ao mesmo tempo tinha medo de estar fazendo papel de tola.

Não se conformava em ter deixado Roy tomar conta da situação, aceitando levá-lo para passar o final de semana em Armidale. Além disso, permitira que ele lhe escolhesse até as roupas! E, devia mesmo estar louca.

Aquele homem era perverso. E falso. Ao final das com­pras, fizera-a pensar que era de fato um amigo, quando na verdade a envolvia cada vez mais em sua armadilha sensual. As roupas eram, sem dúvida, parte da estratégia de deixá-la indefesa.

Kate, entretanto, não podia negar que as roupas caíam-lhe muito bem. Faziam-na parecer diferente, mais viva e, sem dúvida, mais sexy.

Sentir-se sexy era uma experiência nova. Nunca imagi­nara quão deliciosa poderia ser a sensação de ter o corpo observado por um homem, como Roy fizera ao vê-la com um conjunto de saia e jaqueta de couro negro.

Durante anos ela evitara pensar em sexo. Chegava a virar o rosto quando havia uma cena mais erótica num filme, por exemplo. Nunca lia nada a respeito do assunto nem se olhava nua ao espelho. E nunca, nunca mesmo, permitira-se tocar no próprio corpo.

Agora, deitada na cama, sua mão acariciava um dos seios sob a camisola de cetim. O mamilo estava rígido. Kate bai­xou o decote, expondo o busto nu, para notar que o bico do seio tremia de excitação. Ela toda tremia de excitação.

Não tinha nenhuma dúvida de que, quando Roy começasse a tirar vantagem dessa atração, estaria completamen­te perdida. Quando sentia o calor daquele olhar penetrante, mal conseguia se conter. Por isso tinha certeza de que, no momento em que sentisse um toque dele, mesmo que fosse casual, tremeria da cabeça aos pés.

Rolou na cama, abraçando o travesseiro e gemendo.

— Você é uma completa idiota, Kate Reynolds! — sus­surrou baixinho. — Por que não cuidou da própria vida naquela manhã? Por que não deixou aqueles moleques fa­zerem picadinho dele? Pelo menos não estaria metida nessa tremenda confusão!

Roy tocou a campainha do apartamento de Kate exata­mente às oito da manhã de sábado.

Acordada já há algum tempo, agitada como nunca esti­vera, hesitara ao vestir a calça marrom de tecido leve, muito justa, e o minúsculo top verde que Roy escolhera para a viagem. E, ao ver a expressão dele, que franziu as sobran­celhas com desaprovação, concluiu que fizera tudo errado.

— Já sei Estou horrível. Meus seios são muito pequenos. Não combinam com um top — disse, nervosa, notando como ele estava sexy vestindo calça e camisa na cor cinza, e uma jaqueta de couro negra.

— Seus seios são perfeitos. O problema está no cabelo. Solte-o.

— Não. Fica parecendo um ouriço.

— Fica muito mais sexy.

— Eu não sou sexy.

— Não é o que eu penso. Bem, faça o que quiser. Mas coloque alguma jóia. Aqueles brincos que usou na noite em que jantamos serviriam. E um pouco de batom não cairia mal...

— Grande! E assim que você trata todas as clientes? Francamente, acho que o fato de estar pagando me dá o direito de usar o que quiser!

Encarou-o, desafiadora. Ele devolveu o olhar.

— Achei que você desejasse enterrar a velha Kate neste fim de semana. Pensei que quisesse que sua família mudasse de idéia a seu respeito. Disse que queria vê-los "espantados".

— E quero!

— Então faça o que eu disse e pare de discutir.

— Tudo bem, tudo bem! — Kate levou as mãos ao cabelo. Roy não era apenas mandão e arrogante. Chegava a ser irritante. — Melhor você entrar. Vou precisar de algum tempo para me arrumar.

Ao entrar no apartamento, Roy olhou ao redor. Decorado em tons de verde e azul, o local deixava transparecer o toque pessoal de Kate.

— Gostei de sua casa. — ele comentou, vendo-a caminhar para o quarto. — E como você. Sofisticada.

Kate não pôde evitar um certo orgulho diante do elogio. Ali estava um homem que, com certeza, sabia como agradar uma mulher.

Entretanto, decidiu manter uma expressão mais fria quando retornou à sala, pois não queria demonstrar quanto o charme dele a afetava.

— Obrigada! — disse simplesmente. Os brincos já pen­diam de suas orelhas e a maquiagem emprestava uma nova cor a seu rosto. — Eu também gosto. E então, estou melhor agora?

Roy parecia muito satisfeito. "Se estiver mentindo", ela pensou, "é, sem dúvida, um grande ator”.

— Kate, eu... hã... Você está linda! — Ele sorriu e fez uma pausa, durante a qual observou-a da cabeça aos pés. — Bem, há uma coisa que eu preciso lhe falar.

— Espero que não seja outra de suas mentiras. — Kate comentou, desviando o olhar. — Ou será que vai dizer mais uma vez que estou linda?

Roy deu um suspiro desanimado.

— Na verdade, achei que não seria correto irmos em seu carro. Que tipo de homem dirige o automóvel da namorada? Achei melhor ir no meu, se isso não a incomodar...

— Como conseguiu o carro? — ela perguntou, espantada. — E que tipo de carro é? Não quero que meus pais me vejam num veículo extravagante.

— Vá até a janela e veja.

Foi o que ela fez, engasgando ao ver o automóvel prateado encostado no meio-fio, em frente ao prédio.

— Meu Deus, é um Mercedes!

— Por que o espanto? Tem alguma coisa contra carros alemães?

Ela virou-se.

— Não, apenas contra extravagâncias! Sinceramente, es­pero que não resolva incluir isso na minha lista de despesas. Como conseguiu o carro? Ou será que não devo perguntar? Talvez tenha sido um presente de uma de suas amigas... Sabe-se lá o que teve que fazer para consegui-lo.

O rosto de Roy ficou sombrio por um momento. Depois seus lábios curvaram-se levemente, num sorriso irônico.

— Só tive que dar um telefonema, querida. Ned cuidou de tudo para mim.

— Oh, claro, entendo. — Kate sabia que não tinha ne­nhum direito de ficar ofendida. Afinal de contas, também era cliente de Roy. — Bem, por mim está tudo bem.

— Fico feliz de que tenha gostado. — ele disse secamente. — Já está pronta?

— Eu... só tenho que deixar Pippa na vizinha.

— Pippa?


— Meu canário.

— Ah, finalmente descobri seu segredo! Seu namorado tem penas!

O sorriso era tão cativante que ela teve que corresponder. Como aquele homem era atraente! Se pudesse, também lhe daria um Mercedes.

— É, você me pegou. — Kate concordou sorrindo.

No fundo estava pensando nas mentiras que teria de contar durante o final de semana. Já se sentia culpada. Será que convenceria mesmo a família de que fora capaz de conquistar um homem como Roy? Começava a concordar com ele: se não parecesse um pouco mais sexy, não con­venceria ninguém.

Roy seguiu-a até a cozinha, onde se encontrava a avezi­nha.

— Aqui está. — apontou ela.

— Deixe-me ajudar — Roy se ofereceu, estendendo a mão para apanhar a gaiola. — E uma coisinha bonitinha, não é? — Kate observou que ele olhava enternecido para o ca­nário e sorria. — Sabe, às vezes penso que somos como os pássaros. Temos nossas asas, mas às vezes não sabemos usá-las. Nunca devemos agir como não desejamos. Tudo o que temos a fazer é abrir as asas e voar.

Ela o encarou. Concordava inteiramente com aquilo.

— Você está certo!

— Claro que estou certo. Demorei vinte e oito anos para descobrir isso.

— Vinte e oito anos? — ela repetiu, surpresa. — Você tem vinte e oito anos?

— Por enquanto. Mês que vem faço vinte e nove. Achou que eu fosse mais velho? Provavelmente pareço mais velho por causa da vida que venho levando. Ando meio esgotado, sabe.

Kate não podia acreditar que ele fosse apenas um ano mais jovem que ela. Mas ficou pensando na "vida que ele vinha levando".

— Na verdade, você parece mais jovem.

— Acha mesmo? Você é ótima! Talvez seja por causa dos exercícios que faço.

— Roy, por favor! Seja um pouco decente! Eu gostaria de esquecer o que você faz para viver. Não fale disso o tempo todo!

Mais uma vez ele a encarou com uma expressão inson­dável. Kate chegava a ficar confusa quando Roy a fitava dessa maneira. Era como se quisesse dizer alguma coisa e não conseguisse.

— Vou levar Pippa até a vizinha. — ela disse, pegando a gaiola. — Se ela vir você, vai querer conversar durante horas.

— Vou levar sua bagagem para o carro. Feche tudo e me encontre lá embaixo. E não demore. Armidale fica a oito horas daqui, você sabe.

Quinze minutos depois estavam no carro, dirigindo-se para a estrada New England. Ao entrar na rodovia, Roy acelerou o carro.

— Ei, está querendo bater algum recorde de velocidade? — ela perguntou assim que cruzaram a ponte Hawkesbury. — Prometi a mamãe que tomaria cuidado. Não pode dirigir mais devagar?

— Desculpe! Não pensei que a velocidade fosse tão alta. Esse carro é tão macio que é difícil perceber.

Ela lançou-lhe um olhar de reprovação.

— Não tente me enganar, Roy Fitzsimmons.

Ele sorriu, encabulado.

— Por falar em sua mãe, você se lembrou de ligar avi­sando que levaria companhia? Ou preferiu fazer surpresa?

— Acho que "choque" é a palavra certa. Não, não telefonei.

Roy assobiou e ficou pensativo por um momento.

— Quando ela vir à nova aparência da filha, vai ficar realmente chocada!

— Não exagere. Não estou tão diferente assim.

— Espere até chegarmos lá e verá. Mudando de assunto, comprei algo para você... Não precisa se preocupar, não vai entrar na sua lista de despesas. Está no porta-luvas.

— Mas... mas... — ela balbuciou. Não esperava que Roy pensasse em comprar-lhe um presente.

— Ora, não seja orgulhosa. Veja o que é antes de me repreender.

Kate abriu o porta-luvas e verificou que havia dois embrulhos.

— Qual devo pegar primeiro?

— O da direita. Gostaria que usasse hoje à noite.

— Perfume! — ela exclamou ao abrir o pequeno pacote e deparar com um vidro de perfume francês da melhor qualidade.

— Percebi que você não usava nenhum quando saímos. A moça da loja me garantiu que esse perfume é muito re­finado e discreto. Achei que combinaria com você.

O outro embrulho era maior. Ao abri-lo, Kate viu uma luxuosa agenda telefônica com capa de couro negro. Em letras douradas havia a inscrição "Corpo Perfeito". Ela abriu a o caderno e observou que a inscrição se repetia na primeira página, com um detalhe: o nome de Roy aparecia logo abaixo, em letras menores. Num dos cantos havia três números de telefone, um dos quais era o dele.

— Isso é apenas um brinde. Achei que poderia ser-lhe útil.

Kate encarou-o, desconfiada.

— Fornece isso a todas as suas clientes? E bem conve­niente. Faz com que elas não o esqueçam com facilidade.

Ele parecia desconsolado. Balançou a cabeça negativa­mente e suspirou.

— Você não está entendendo nada, garota. Essa é uma agenda promocional de uma rede de academias de muscu­lação da qual me tornei sócio. Vamos fazer uma grande festa de inauguração no próximo sábado.

— Quer dizer que não vai mais trabalhar como gigolô? — As palavras saíram sem que Kate tivesse tempo de pensar. Mas, no fundo, surgiu dentro dela uma ponta de esperança.

— Oh, pelo amor de Deus! — ele resmungou, irritado.

Ficaram em silêncio durante algum tempo.

Kate concluiu que Roy não abandonaria uma carreira tão rentável. Era ingenuidade pensar que isso fosse possível. Na verdade, aca­demias de musculação eram lugares perfeitos para encon­trar mulheres preocupadas demais com o próprio corpo, ví­timas potenciais parã conquistadores. O nome "Corpo Per­feito" era de um duplo sentido que beirava a ironia.

— Simplesmente não consegue aceitar o fato de que me interessei por você, não é? — Roy disse abruptamente, que­brando o silêncio. — Não pode acreditar que te acho sexy e atraente. E que a desejo muito.

Ela sorriu com amargor.

— Não, não acredito. Mas pode continuar com os elogios. Fazem bem à minha auto-estima. Mesmo que sejam falsos.

— Nunca encontrei uma mulher tão teimosa!

— Não sou teimosa.

— É sim. Mas vou fazê-la mudar de idéia.

— É mesmo? E como pretende conseguir tal façanha?

— Vou usar os métodos consagrados.

— E quais são eles?

— Para começar, um pouco de psicologia. Depois vou aconselhá-la. E, se todo o resto falhar... — sorriu de maneira travessa — ...Vou apelar para métodos mais antigos.

Kate entendeu a insinuação. Os olhos dele eram revela­dores o suficiente.

— Quando você estava em minha casa disse que nunca devemos fazer algo que não desejamos. Aquela conversa toda sobre abrir as asas e voar, lembra-se?

— Mas que ótimo! Vejo que se importa com o que eu digo.

Kate corou. Não podia deixá-lo levar vantagem.

— E o que me diz sobre sua regra de não se envolver sexualmente no primeiro encontro?

— Ah, acontece que lembrei que este não é nosso primeiro encontro.

— Que conveniente.

— Também acho.

— Talvez não fique tão entusiasmado quando aceitar a realidade.

— Entusiasmado? Acho que estou agindo com naturalidade.

— Você não desiste nunca, não é? Pobre Roy. Agora vai dizer que me ama?

— Eu já disse isso alguma vez?

— Alguns homens fazem qualquer coisa para conseguir o que querem.

— Alguém fez muito mal a você, não é? Quem era ele? O que fez para deixá-la tão amarga?

Ela desviou o rosto, olhando pela janela. Então a sessão de psicanálise começara... Já a fizera se lembrar de Trevor.

— E então? — Roy insistiu. — Qual era o nome dele?

— Trevor.

— E onde foi que o conheceu?

— Na universidade.

Roy assobiou.

— Faz muito tempo, não é mesmo?

— Faz.

— Parece que cheguei na hora certa... Mas me conte, o que ele fez?



— Não posso colocar toda a culpa em Trevor. Até que ele tinha razão.

— Explique melhor.

— Bem, ele me convidou para um programa. Aceitei. Trevor era um rapaz muito bonito e todas as garotas da escola queriam sair com ele... Depois ouvi-o dizer aos ami­gos, sem que percebesse minha presença, que eu era uma presa fácil por ser feia. Para usar as palavras dele: "As feias sempre estão loucas de vontade".

— Mas você não é feia. Longe disso. Trevor estava errado.

Ela deu uma risada amarga.

— Você precisava ter me visto naquela época: dentuça e com óculos fundo-de-garrafa. Eu parecia uma bruxa!

Roy a contemplou, pensativo, tentando imaginá-la assim.

— Mas, pelo que vejo, você resolveu esses problemas.

— Isso aconteceu mais tarde. Quando comecei a ganhar meu próprio dinheiro.

— Entendo. Seus pais não tinham o suficiente para cuidar de uma filha adolescente.

— Errado. Meus pais tinham dinheiro. Papai é professor universitário de matemática em Armidale. — Fez uma pau­sa, suspirando. — Mas, ao que parece, eles estavam preo­cupados demais com seus próprios problemas para impor­tar-se comigo.

Roy tentou sorrir para amenizar a situação. Procurava uma forma de mudar de assunto.

— De qualquer maneira — começou, hesitante —, quem tratou de seus dentes era um especialista e tanto. Ficaram perfeitos!

Kate sorriu. Realmente tinha sido um bom trabalho.

— Pode apostar nisso! Não economizei um centavo. Podia ter dado a volta ao mundo com o dinheiro que gastei no tratamento.

— Vou lembrar disso na próxima vez que a beijar.

Kate sentiu o coração acelerar. Desviou o olhar, dirigindo-o para a janela. Por que a simples sugestão de receber um beijo daquele homem a deixava naquele estado?

— Você falou em óculos. — Roy continuou. — Mas notei que não usa lentes de contato. Como resolveu o problema?

Ela suspirou. Roy não desistia nunca?

— Uma cirurgia com raios laser corrigiu minha miopia. Nunca mais vou precisar de óculos.

A resposta foi seca. Ela não queria deixar-se envolver pelo charme daquele homem sedutor. Sentia-se frágil e de­samparada, como se com um simples estalar de dedos Roy pudesse desmontá-la completamente. Estava determinada a impedir que isso acontecesse.

Mas ele não parecia pensar dessa forma, pois continuou a conversar.

— Podemos falar de algo mais... hum... intelectual. Assim você vai se sentir melhor. Afinal de contas, faz mais o seu estilo. Que tal conversar sobre cinema? Gosta disso? O que acha dos diretores franceses? Godard, por exemplo?

— Não suporto os filmes dele. — ela admitiu, rindo. Começava a achar divertido o esforço que Roy fazia para agradá-la.

— Graças a Deus! — ele gritou, rindo também. — Eu estava começando a pensar que era o único a não gostar de Godard. Que tal Woody Allen?

— Adoro.


— Isso está começando a ficar melhor! Que série de te­levisão é a sua favorita?

— Deixe-me ver... — Kate parecia estar entrando na brin­cadeira. — Não tenho assistido muita televisão nos últimos tempos. Prefiro ler. Mas adorava Jeannie é um gênio.

O rosto de Roy demonstrava espanto. Essa também era sua série preferida. Os dois começaram a rir com descontração.

Passaram o resto da viagem conversando sobre assuntos banais e rindo o tempo todo. Kate não se divertia desse modo há muito tempo.

Mas, quando uma placa na estrada indicou que estavam a poucos quilômetros de Armidale, ela sentiu o coração aper­tado. Preocupava-se com a reação que Roy provocaria em sua família. Além disso, não sabia o que podia acontecer se ficasse muito tempo ao lado dele.

Sentia que bastava um toque para que Roy a tivesse completamente nas mãos, e isso a enchia de medo. Mas, intimamente, desejava aquele toque. Desejava entregar-se, e tinha certeza de que era o que ia acabar acontecendo. Do contrário, enlouqueceria. E não tinha a mínima intenção de enlouquecer.




CAPÍTULO VIII

Ao entrar em Armidale, Roy passou a dirigir bem devagar, apreciando cada detalhe da cidade.

— Faz muito tempo que não visito Armidale. Mas con­tinua tão linda quanto eu me lembrava.

Kate olhou ao redor com um novo olhar. Quando se vive muito tempo num lugar, é comum não reparar em como ele é de verdade. Agora ela percebia quão adoráveis eram as velhas casas e igrejas, os jardins em estilo inglês e as árvores majestosas.

— Sim, é uma linda cidade. — ela concordou.

— Agora, que tal me ensinar o caminho?

— Siga em frente até aquela montanha, está vendo? De­pois vire à direita. E a terceira casa depois da curva. Número seis. Uma construção em estilo colonial, com um grande jardim na frente.

— Deve ser muito bonita.

— O quê? Oh... acho que é.

— Você está uma pilha de nervos, não é?

— Vou melhorar depois que acabarem as apresentações.

— Não acha melhor me dizer algo sobre sua família antes de chegar?

Ela o encarou, confusa.

— Droga! É mesmo! Nem tinha pensado nisso.

Roy estacionou o carro sob um frondoso carvalho e des­ligou o motor.

— Alguns minutos a mais não farão muita diferença. Acho que podemos começar por seus irmãos. Diga os nomes deles e das esposas. Esqueça as crianças, eu não lembraria o nome de todas. Certo? Então comece!

— Meu irmão mais velho é Jeff. A mulher chama-se Dawn. Depois há Bevan, casado com Loretta.

— E seus pais?

— Melhor chamá-los de Senhor e Sra. Reynolds. São muito antiquados.

— Certo, mas eu não sou. Diga os nomes e deixe que eu cuido do resto.

Kate suspirou, achando que aquilo não ia funcionar.

— Papai chama-se Henry e mamãe, Alice.

— Seu pai bebe?

Ela piscou, atônita.

— Bem, digamos que ele bebe socialmente.

— Ótimo! Eu trouxe uma caixa de bebidas para presen­teá-lo. Minha contribuição para o churrasco.

— Eu vou ter que pagar por isso?

Roy deu uma risada.

— Claro que não. Por que acha que nunca dou nada? Que sempre tenho que cobrar?

— Se quiser, pode cobrar pelo perfume também.

A expressão dele era de impaciência.

— Oh, Kate... O que vou fazer com você?

— Nada, espero. Mas, voltando ao assunto, que tipo de bebida é? Cerveja?

— Sim, e algumas garrafas de vinho branco, selecionadas especialmente para você.

Kate cruzou os braços e ergueu as sobrancelhas, furiosa.

— Está pensando em me embebedar para me levar para a cama? Se for isso, esqueça. Não vai funcionar.

— Posso assegurar que sedução não é o que tenho em mente. Só achei que você precisa de um pouco de coragem para ficar a meu lado fazendo o papel de mulher decadente.

Ela se empertigou, ainda mais irritada.

— O que quer dizer com "mulher decadente"?

— Bem, você não acha que os outros vão acreditar que não estamos dormindo juntos, não é? Encare isso. Garotas da sua idade só levam dois tipos de homem na casa dos pais: noivos ou amantes. Como não sou, definitivamente, seu noivo, a conclusão a que vão chegar é que somos amantes.

— Ora!

— Deixe-me prosseguir. Se sou seu amante, você, óbvio, é minha amante. E, se eu tivesse uma amante assim, não desgrudaria os olhos dela um minuto.



Aproximou-se de Kate, que, presa pelo cinto de segurança, não pôde evitar o beijo. Talvez nem mesmo quisesse evitá-lo. Não podia enganar-se por muito mais tempo. Estava louca de desejo por aquele homem.

Nem ao menos fingiu quando a boca sensual cobriu a sua. Teve medo por um segundo, mas no momento em que sentiu o gosto dele, aconteceu exatamente o que imaginara: perdeu-se em meio a uma vertigem de prazer.

— Oh, Kate... Kate — ele murmurou, com voz rouca, enquanto a beijava.

A paixão que havia naquela voz a deixou confusa. Roy aprofundou o beijo, e Kate foi dominada por uma sensação tão... diferente! Tão incrivelmente diferente!

Espantou-se com a própria reação, surpresa por não ter oferecido nenhuma resistência. Naquele momento, tudo o que queria era sentir a língua macia explorando-lhe a boca. Deixava-se levar por um desejo incontrolável, estimulado pelas mãos fortes que tocavam seu rosto, seu cabelo.

A simples idéia de aquele homem estar realmente apai­xonado era mais embriagante do que qualquer vinho. Ele não poderia estar fingindo tamanha paixão, poderia? Oh, certamente não...

Kate não queria pensar naquilo por mais tempo. Sim­plesmente porque não conseguia pensar em nada.

Gemidos suaves e sensuais escapavam-lhe dos lábios. Suas mãos apalpavam o rosto de Roy, o pescoço. Então, tremendo, deslizou os dedos pela abertura da camisa e pôde sentir a pele quente, macia. Começou a desabotoar-lhe a camisa, mas foi interrompida por ele.

— Eu realmente adoraria ir até o fim, mas vamos esperar pelo lugar e pela hora certa. Por favor, pare de me olhar assim... — Endireitando-se, ele acariciou-a no rosto, os olhos fixos na boca feminina. — Sinto muito, amor. Também para mim é difícil parar assim, de repente...

Naquele momento, depois que a loucura se fora, Kate teve consciência de que se reduzira a uma simples escrava do prazer. E acontecera tão depressa! Por um instante che­gara a acreditar que Roy estivesse realmente apaixonado. Porém, sem dúvida, aquele beijo era apenas mais um passo da estratégia de sedução, para lembrá-la de tudo o que po­deria ter, caso estivesse disposta a pagar.

Talvez Trevor tivesse razão. Talvez ela fosse o tipo de mulher que perdia o controle quando se tratava de sexo. Sentira-se frustrada e miserável durante tanto tempo que bastava um toque para atirá-la nas chamas da paixão.

Roy a encarava com um brilho sedutor nos olhos azuis. Com um movimento suave, levou um dedo até o lábio su­perior dela. O simples toque daquele dedo a fez lembrar do prazer que desfrutara durante o beijo.

— Você tem lábios lindos. — ele murmurou.

Kate cerrou os dentes, apertando tanto que o maxilar começou a doer.

— Oh, pare com isso! — implorou.

Ele examinou-a com impaciência.

— Quando vai aprender a aceitar um elogio?

— Quando for verdadeiro. Acha realmente que pode me fazer de tola com alguns beijos e um amor fingido? Eu já lhe disse antes e vou dizer outra vez: não vou pagar para ter sexo, não interessa quanto você ache bom. Por que não coloca isso na cabeça de uma vez por todas?

— Amor fingido! — ele gritou, furioso, segurando o queixo dela para forçá-la a encará-lo. — Então acha que eu estava fingindo? — Soltou-a com um gemido abafado, esmurrando o volante. — Droga, nunca encontrei uma mulher como você. Posso ficar horas conversando, confortando, pedindo descul­pas, e nada disso adianta. Não acredita numa palavra que eu digo. Mas, seja como for, vou repetir. Eu quero você, Kate Reynolds, como nunca quis nenhuma mulher em mi­nha vida. Não é mentira. Não é encenação. Vai ter que tomar uma decisão. E pegar ou largar!

— Então eu vou largar, obrigada! Tudo o que quero de você, Roy Fitzsimmons, é aquilo pelo que paguei.

— Pode acreditar que vai receber! — Ligando o motor, ele acelerou furiosamente. — Depois da montanha à direita, terceira casa, certo?

— Certo.


Kate olhou de relance para o rosto furioso de Roy. A raiva dele parecia real. Mas, se não estava fingindo, o que acontecera? Ele realmente a desejava?

— Talvez o vinho faça você relaxar um pouco. Tentarei de novo mais tarde.

— Tentar de novo? — ela repetiu, tomada de pânico.

— Vou tentar fazê-la me ouvir, amor. Fazê-la entender meus motivos.

— Acho que entendo perfeitamente seus motivos.

— Oh, não. Não mesmo! Nem começou a tentar. Mas vai entender... na hora certa. — A voz dele era calma. Nesse momento o carro já estava na rua da casa dos pais de Kate. — Aquela é sua mãe, vindo nos receber?

Os olhos de Kate desviaram-se imediatamente para a mulher que caminhava pelo jardim da bela casa, olhando para o carro.

— Oh, meu Deus! — ela murmurou, prendendo a respi­ração enquanto Roy estacionava na pequena trilha de pedras e desligava o motor. Seus olhos estavam fixos na mãe.

Alice Reynolds era uma mulher bonita e feminina. Usava, como sempre, um vestido discreto. O marido, Henry, preferia assim. Achava que mulheres deviam trajar somente vesti­dos, pois detestava calças e pantalonas, que considerava antifemininas.

Era óbvio que ele e Roy tinham gostos diferentes. O rapaz parecia preferir calças apertadas, como a que Kate vestia.

Ela engoliu em seco ao imaginar que tipo de comentário à mãe faria em relação a suas roupas. Outra preocupação era quanto à companhia. Será que os pais aprovariam sua pretensa relação com Roy?

Alice, vestida de azul-claro, usava um colar de pérolas e maquiagem suave. Apesar de ter quase sessenta anos, apa­rentava não mais do que cinqüenta. Era bem diferente da consagrada imagem da matrona tradicional, e o cabelo curto, cacheado, deixava-a ainda mais jovem.

— Kate? — ela indagou, parada no passeio, ao lado da janela do carro.

Tentando aparentar naturalidade, Kate saltou do auto­móvel com um sorriso conciliador.

— Sim, sou eu. — Ela avançou, beijando o rosto da mãe, que parecia atônita. — Espero que não se importe, mas acabei trazendo um amigo.

Roy, que já descera do carro, caminhava na direção das duas com um sorriso nos lábios.

— Olá — cumprimentou alegremente. — Sou Roy, amigo de Kate. Você é Dawn ou Loretta?

Kate fulminou-o com um olhar desconfiado. Ele sabia que aquela era sua mãe, mas, sem dúvida, não resistia ao impulso de ser galante. Era assim que agia. Com seu charme era capaz de seduzir todas as mulheres, e Alice não era exceção. Percebia-se isso pelo sorriso que dirigiu a Roy.

— Nenhuma das duas. — ela corrigiu suavemente. — Sou a mãe de Kate. Mas pode me chamar de Alice. — estendeu a mão, satisfeita.

Roy beijou-lhe a mão.

— Que gentileza de sua parte, fazer com que eu me sinta tão bem-vindo! Espero não estar atrapalhando sua reunião de família.

— Oh, não! Há anos que pedimos para que Kate traga algum amigo. O pai dela vai ficar encantado, assim como os irmãos.

Kate assistia à cena com resignação. Era, provavelmente, a única mulher que Roy não conseguia enganar. Sem dúvida, Dawn e Loretta também seriam facilmente seduzidas pelo charme dele.

— Entrem, entrem. — convidou Alice, apontando para a casa.

— Melhor pegarmos a bagagem antes, mamãe. Os outros já chegaram?

— Ainda não. Vão demorar um pouco. E hoje as crianças não virão. Jeff e Dawn levaram os filhos para a casa de Bevan, e Loretta contratou uma babá. Assim eles poderão aproveitar mais a festa. — Parou de falar, com expressão preocupada. — Mas que cabeça! Já ia me esquecendo: pre­ciso acomodar seu Roy no quarto de hóspedes.

Kate sorriu, encabulada, ante o "seu Roy".

— Não se preocupe comigo, Alice. — ele disse com sim­patia. — Posso me arranjar em qualquer lugar.

— Mas já notei, caro rapaz, que você não caberia no sofá. — Alice comentou, entrando na casa.

— Posso dormir no quarto da caçula. — ele sussurrou para Kate, com um sorriso.

— Minha cama é de solteiro. — ela replicou, seca.

— Melhor. Acho que adoraria isso.

— Está tentando ser engraçado?

Roy suspirou.

— Só estava tentando fazê-la rir, querida. Você está tão tensa! Relaxe. Tudo vai dar certo.

Bastou algum tempo para que Kate constatasse que ele tinha razão. Seu pai, que gostava de esportes, reconheceu Roy imediatamente. E, ao contrário do que imaginava, seus pais pareciam contentes por vê-la acompanhada. Não houve nenhum olhar de censura ou reprovação.

Alice, particularmente, parecia encantada com Roy. Logo que pôde, arrastou Kate para uma conversa particular.

— Onde você encontrou esse pedaço de homem? E por que não me falou sobre ele quando telefonei?

— Não sabia se conseguiria convencê-lo a vir. Ele é um homem muito ocupado. Está trabalhando num novo negócio.

— Oh, sim, eu o ouvi comentando algo sobre academias de musculação com seu pai.

— Isso mesmo. — Kate confirmou, arrumando as roupas e seu kit de maquiagem nos devidos lugares.

— Sim, mas como você o conheceu? — a mãe insistiu, sentando-se no canto da cama.

— Como o conheci? — Kate balbuciou, esforçando-se por simular calma. — Eu... ahn... o conheci num parque, e depois conversamos.

— Num parque? Ah, quer dizer que estava passeando. Mas não é perigoso conversar com estranhos dessa maneira?

— Eu o reconheci — Kate mentiu. — Ele é muito famoso em Sydney.

— É mesmo? Seu pai disse a mesma coisa, mas eu não sei nada sobre esportes. Estão saindo há muito tempo?

— Nem tanto — respondeu Kate com indiferença, en­quanto seus dedos brincavam com o vidro de perfume que Roy lhe dera.

— Foi presente dele? — Alice perguntou, franzindo as sobrancelhas.

O interrogatório estava começando a irritar Kate, que olhou para a mãe de relance e, sem conseguir se conter, disparou:

— Sim, por quê? Há algo errado em um homem presen­tear uma mulher?

— Não precisa ficar nervosa, querida. Eu estava apenas tentando ter uma conversa normal com minha filha. Sei que você nunca se interessou por essas coisas, mas também reparei que está muito mudada.

— Por quê? Só porque finalmente estou acompanhada de um homem? — Kate perguntou com um tom amargo. Sentia que as velhas feridas abriam-se novamente. — Posso contar com sua aprovação, agora que me transformei numa mulher normal? Ou será que ainda me acha um patinho feio?

Alice olhou para a filha, e sua expressão era desconsolada. Depois sacudiu a cabeça, dando de ombros.

— Oh, querida... Ainda pensa assim a meu respeito? Sem­pre tentei fazê-la sentir-se melhor, mas acho que acabo agin­do de maneira errada. E por isso que me odeia tanto?

Lágrimas saíam dos olhos de Alice. Naquele momento, Kate sentiu-se mal, egoísta. Como podia fazer a mãe sofrer daquele jeito?

— Oh, mamãe... eu não odeio você — disse, sentando-se ao lado de Alice e abraçando-a. — Eu a amo. E que me senti solitária e infeliz por tanto tempo que pensei...

— Pensou que eu não aprovaria seu Roy? — Alice sus­surrou, erguendo a cabeça para encarar a filha.

— Acho que sim.

Naquele momento, Kate percebeu que muitos de seus medos não tinham nenhum fundamento. Passara boa parte da vida colocando nos pais, principalmente na mãe, a culpa por sentir-se inferior. No entanto era ela mesma quem fazia isso. Mas era hora de acabar com aquele sofrimento. Para sempre.

— Mamãe, preciso dizer algo. Eu e Roy somos apenas amigos. Não há nada sério entre nós.

Alice encarou-a com ceticismo.

— Não foi à impressão que tive.

— Por quê?

— Apenas tive uma impressão. Talvez seja intuição.

As duas sorriram, entreolhando-se, e depois trocaram outro abraço. Alice levantou-se, arrumando o cabelo e recompondo-se. Logo ostentava de novo sua jovialidade característica.

— Acho que preciso descer para cuidar do churrasco. — anunciou.

— Vou acabar de arrumar minhas coisas. — Kate infor­mou. — Depois acho que vou abrir uma das garrafas de vinho que Roy trouxe especialmente para mim. Acho que vou precisar.

Alice sorriu, compreensiva, como se concordasse em guar­dar o segredo.

— Sabe o que acho, filha? — perguntou ao abrir a porta. — Que esse homem vai roubá-la de mim. Posso apostar nisso!

E, antes que uma Kate estupefata pudesse replicar, fe­chou a porta e desceu a escada.




CAPÍTULO IX

Dois anos antes, os pais de Kate haviam re­formado o jardim, transformando-o num lu­gar apropriado para as reuniões de família. Um belo forno de barro fora construído, o que facilitava muito as coisas na hora do churrasco, além de aquecer as pessoas durante o rígido inverno do campo. Também tinham comprado mó­veis plásticos e mandado colocar um piso de ardósia, que dominava apenas o centro da área. Era, enfim, um ambiente adorável.

Quando Kate finalmente dirigiu-se para lá, Roy e Henry estavam preparando o churrasco. Isto é, deviam estar fa­zendo isso. Na verdade, olhando pela janela da cozinha, ela reparou que ambos conversavam animadamente, rindo e bebendo um pouco do vinho predileto de Henry. Provavel­mente seu pai estava contando as mesmas velhas piadas de sempre. Mas tudo bem. Roy com certeza não as conhecia.

Ao pensar no pai, Kate lembrou-se de que o pai de Roy falecera havia pouco. Pela maneira como o rapaz falara sobre o assunto, na primeira noite, ela concluíra que os dois deviam ter se amado muito. Roy na certa sentia muita saudade. Talvez, se tivesse uma família de verdade, não houvesse escolhido um estilo de vida tão reprovável.

O que a deixava mais triste é que ele não fazia idéia disso. Para um homem jovem e bonito, talvez fosse excitante viver cercado de mulheres. Mas o que aconteceria com o passar do tempo?

Se ele se dedicasse à rede de academias, poderia obter sucesso financeiro. E não era isso que queria? Ou será que gostava do sexo a ponto de não conseguir abandoná-lo?

Kate sabia que associar Roy e sexo era perigoso. Reparou que ele tirara a jaqueta de couro e a substituíra por um suéter creme, que realçava suas formas musculosas. Sentiu um arrepio de prazer.

— Não fique aí parada como uma lunática. — Alice a repreendeu. — Você tem duas opções: ou vem me ajudar com as saladas, ou pede a um dos homens para abrir uma das garrafas de vinho que Roy trouxe especialmente para você. Estão na geladeira.

Kate respirou fundo, caminhando até o refrigerador. Pe­gou uma das garrafas que Roy levara.

— De onde tirou a palavra "lunática"? Eu não a ouvia há muito tempo.

— E uma palavra conveniente. Você parecia estar cami­nhando na lua! — Fez uma pausa e depois emendou. — Está realmente interessada nele, não é?

Interessada... Sim, estava. Mas em quê? Em passar uma noite ou uma vida ao lado daquele homem?

— Acho que estou.

— E o que ele sente por você?

— Oh, acho que gosta de mim.

Alice arqueou uma das sobrancelhas.

— Será que apenas gosta? Eu diria que os sentimentos dele são mais fortes.

Kate soltou um riso amargo.

— Sim, mas acho que não posso falar sobre os sentimentos dele com você.

— Kate, vai tomar cuidado, não vai? Quero dizer...

— Fique tranqüila, mamãe. Vou tomar bastante cuidado. Pare de se preocupar. Já sou uma garota crescida.

Decidida a não falar mais sobre Roy, dirigiu-se à porta, abriu-a e ficou parada nos degraus da escada que levava ao jardim.

— Ei! — gritou. — Será que um dos adoráveis beberrões poderia ajudar uma pobre donzela em apuros? Preciso abrir uma garrafa de vinho.

Roy virou-se, surpreso por perceber o bom humor na voz de Kate.

— O que quer dizer com "beberrões"? Henry, como deixa sua filha falar assim?

— Não olhe para mim. Ela nunca ligou para o que eu digo. E veja como está vestida. Calça comprida! Não agüento mulheres que usam calça comprida.

— Nem eu. — Os olhos de Roy brilhavam intensamente quando ele piscou para Kate. — Seu pai quer que você tire essa roupa. Vamos, suba e vá se trocar!

— Vou providenciar. — ela concordou, divertida.

Henry continuava bebendo vinho.

— O que é isso? Quero dizer... — Olhou para Roy, depois para a filha, e um sorriso surgiu em seus lábios. — Vocês dois estão querendo zombar de mim, não é?

— Por que faríamos isso? — Rindo, Kate caminhou na direção dele e acariciou-lhe os ralos cabelos. — Como vão as coisas na universidade?

— Tudo bem. E naquela cidade poluída?

— Melhorando.

— Ganhando muito dinheiro?

— Claro.

— Dinheiro não é tudo, filha.

— Foi o que eu disse a ela. — Roy comentou com um sorriso franco.

Kate encarou-os com uma expressão in­crédula.

— Uma mulher na idade dela devia ter outros interesses. Há outras coisas na vida além do dinheiro: di­versões, viagens, crianças...

— Crianças! — Kate interrompeu, encarando Roy com estupefação. — Agora quem está zombando de quem?

— Falei sério — Roy respondeu, quase fazendo com que ela acreditasse.

Aquele homem era um ator e tanto. Podia fazer uma garota acreditar em tudo o que dissesse.

— Pare com essa bobagem e vá abrir o vinho — ela o repreendeu. — E você, papai, pare de enrolar e organize as coisas! Está ficando tarde.

— Igualzinha à mãe. Não pode ver um homem sentado! — Henry resmungou quando Kate puxou Roy e conduziu-o para a cozinha.

No caminho, antes de chegar à escada, ela aproximou-se e disse baixinho:

— Gostaria que parasse com isso. Estou pagando para que faça o papel de meu acompanhante, não o de meu noivo. Crianças... Francamente! Meus pais vão começar a ter idéias a respeito. Minha mãe já está acreditando que você está apaixonado por mim.

— Mulher esperta.

Kate parou. Seus olhos verdes faiscavam.

— Não vai começar de novo com aquela história, Vai?

— Não agora.

— Nem agora nem nunca! Faça somente o seu trabalho, por favor. Sorria e seja uma boa companhia, mas pare de jogar pesado, entendeu? A última coisa que quero é ouvir minha família perguntando quando vamos nos casar. — O sorriso que apareceu nos lábios de Roy deixou-a ainda mais nervosa. — Ora, nem sei por que falei isso!

— Não mesmo?

— Pare com essas insinuações! Basta comportar-se da maneira certa que tudo vai correr bem.

— E qual é a maneira certa?

— Simplesmente aja como um homem que posa nu para pôsteres. — ela atacou, e, virando-se, caminhou na direção da escada.

Porém, quando pisou no primeiro degrau, olhou por cima do ombro e notou que Roy não saíra do lugar. Nunca o vira com aquela expressão. Era como se estivesse tentando conter uma fúria incontrolável. O rosto mostrava-se sombrio e os olhos faiscavam.

Sentiu-se culpada. Não tinha o direito de tratá-lo daquele jeito. Afinal, fora ela quem o contratara, o que a tornava tão má quanto ele.

Foi tomada por um estranho pânico ao pensar que talvez nunca mais o visse depois daquele final de semana. Quem sabe fosse aquilo que a fizesse agir como uma tola. Entrou rapidamente na cozinha.

— Seu pai já começou a se mexer? — Alice perguntou, sem levantar os olhos da travessa. Dava o toque final numa bela salada. Uma garrafa de vinagre estava a seu lado e, quando virou-se para apanhá-la, percebeu que Roy também entrara. — Ah, então você foi o escolhido para ajudar!

— Sim, mas veio à força. — Kate caçoou, tentando des­contrair o ambiente. — Onde está o saca-rolhas, mamãe?

— Está ali. — Alice apontou, e Kate foi pegá-lo. — É melhor se trocar, querida, apesar de parecer ótima nessa roupa. O que você acha, Roy?

— O que Dawn e Loretta costumam usar? — ele per­guntou, pegando o saca-rolhas da mão de Kate.

— Ah, são muito modernas. Não é, querida?

— Sim, mamãe.

— Então, vá se trocar. — Roy disse com firmeza. — E deixe o cabelo solto.

— Quem decide isso sou eu. Mamãe, tome conta dele enquanto me troco.

— Este rapaz já está bem crescido, querida. Pode cuidar de si mesmo.

Kate deu de ombros e saiu. Já estava a meio caminho da escada quando ouviu Roy comentar baixinho, dirigindo-se a Alice:

— Não conte a ela, mas eu adoraria que cuidasse de mim.

Kate parou, preocupada com o que Roy iria dizer em seguida.

— Não tenho dúvidas, meu jovem. Ela é uma garota muito especial. Mas não quero que seja ferida por alguém que não saiba disso.

Satisfeita por ter sido defendida pela mãe daquela ma­neira, Kate continuou seu caminho até o quarto. Estava decidida a vestir a roupa mais sexy que tinha comprado. Naquela noite queria maltratar Roy, fazê-lo ver o que estava perdendo.

Primeiro tomou um banho demorado. Depois examinou-se nua diante do espelho, enquanto colocava o perfume que ganhara de Roy. Decidiu que devia valorizar suas formas. Optou por deixar as pernas à mostra, tanto quanto a de­cência permitisse. Mas, ao colocar a minúscula saia de couro negro, que mal escondia sua roupa íntima, chegou à con­clusão de que decência nada tinha a ver com aquilo.

Vestira meias de seda, também pretas, e, ao calçar os sapatos de salto alto, virou-se de costas e gostou do que viu. Suas formas pareciam explodir de sensualidade por debaixo do couro.

Escolheu um corpete vermelho justo, e decidiu não usar sutiã. Seus seios ficaram quase que inteiramente expostos pelo amplo decote. Completou o conjunto com a jaqueta de couro negra. E soltou o cabelo.

"Vamos jogar segundo suas regras, Roy Fitzsimmons", pensou enquanto arrumava os novos brincos de brilhante.

Demorou cerca de uma hora para arrumar-se. Quando, finalmente, desceu para juntar-se aos demais, foi recebida por todos com olhares de surpresa.

— Minha nossa! — exclamou Henry. — Isso é uma saia? E onde arrumou tanto cabelo?

— Puxei ao senhor. Tinha muito cabelo antes que ele ficasse grisalho e começasse a cair. — Kate lembrou, igno­rando o comentário quanto à saia.

— Mas que roupa... interessante — Alice falou, sem muita convicção. — Está linda, querida.

— Obrigada. — Kate sorriu, sabendo que a mãe estava chocada. O sorriso desapareceu quando ela virou-se para encarar Roy. — Você não vai dizer nada?

Ele estava parado ao lado do forno, remexendo o carvão. Caminhou lentamente na direção dela, os olhos queimando de paixão.

— Você está perfeita. — disse, beijando-a suavemente no rosto. — Espero que possamos ficar logo a sós. — murmurou ao ouvido dela para que ninguém mais ouvisse.

A campainha os interrompeu.

— Os outros estão chegando. Vá recebê-los, Kate. — Alice sugeriu. — Depois traga-os para conhecer Roy. Roy, venha cá e me conte mais sobre as academias.

Embora a nova aparência de Kate tivesse chocado os pais, ela notou que os irmãos, bem como suas mulheres, adoraram a novidade.

— Kate, é você mesma? — Dawn perguntou, ofegante. — Nossa, eu adoraria poder vestir uma roupa assim! E seu cabelo! Nunca reparei que ele era tão bonito!

— E ela está tão magra! — Loretta emendou. — Está fazendo alguma dieta?

Kate achou estranha a referência a seu peso. Sempre fora magra, mas talvez nunca tivesse vestido roupas que salientassem suas formas.

Adorei seu cabelo solto, mana. — Bevan disse com um assobio.

— E mesmo. Está um arraso! — Jeff concordou.

Quanto às reações causadas pelo "namorado", foram igualmente satisfatórias. Loretta chegou a engasgar por um segundo. Dawn manteve-se aparentemente fria, mas, quan­do ele virou as costas, sussurrou "maravilhoso" no ouvido de Kate.

Bevan, que era fanático por futebol, reconheceu-o ime­diatamente. Jeff. não ligava muito para o esporte, mas já ouvira falar de Roy e ficou impressionado.

Conversaram animadamente durante algum tempo. Roy destacava-se na conversa, demonstrando possuir um vasto conhecimento.

— Você devia participar de um desses shows de televisão — Alice sugeriu. — Seria um grande concorrente.

— Eu costumava ler enciclopédias quando era mais jovem.

— É uma leitura incomum para um jovem. — Henry comentou.

Roy franziu as sobrancelhas.

— Eu era filho único, e meu pai era inválido. Eu cos­tumava ficar em casa cuidando dele. Minha mãe morreu quando eu era muito pequeno... Um dia, nossa televisão quebrou e não tínhamos dinheiro para consertá-la. Então comecei a ler uma enciclopédia que papai comprara alguns anos antes. No princípio era um passatempo, mas depois comecei a gostar.

A história de Roy tocou Kate profundamente.

— Que história triste. — Dawn comentou.

— Sim — Bevan emendou. — Deve ter sido muito duro para você.

— As coisas não eram sempre tão ruins. No ano seguinte fui selecionado para o time de futebol. Aquilo deixou meu pai muito feliz.

Kate arqueou as sobrancelhas ao ouvir a última frase. Soava como se agradar ao pai tivesse sido a única razão que o levara a jogar. Isso provocou-lhe um súbito interesse.

Ela passou a observá-lo mais atentamente. Sempre que seus olhos se encontravam, Roy a convidava, com um gesto sutil, para afastarem-se dali. Mas Kate sabia que precisava resistir o máximo que pudesse.

Pouco depois da meia-noite, seus irmãos subiram para os quartos, acompanhados das esposas. Kate e Roy ofere­ceram-se para lavar a louça, enquanto Alice e Henry arru­mavam o jardim.

— Você realmente gosta de jogar futebol? — ela pergun­tou, observando-o enxugar os pratos.

— E uma pergunta curiosa.

Kate deu de ombros.

— Às vezes fazemos coisas por causa de outras pes­soas. Crianças, principalmente, adoram agradar aos pais. Eu, por exemplo, sempre gostei de estudar porque achava que meu pai ficaria contente... — Fez uma pau­sa, lembrando-se das desventuras amorosas dos tempos de estudante. — Não sei se teria me esforçado tanto se fosse um pouco mais bonita.

— Isso não mudaria nada. Você é uma pessoa brilhante. E, quanto ao futebol, você está certa. Fiz aquilo mais para agradar meu pai. Nunca teria abandonado o curso de direito em circunstâncias normais. — Carregou uma pilha de pratos secos da pia até a mesa e depois continuou: — Eu sabia que papai estava muito mal. O primeiro contrato que me ofereceram era bastante atraente, e eu precisava do dinheiro para pagar o tratamento médico. Depois... as coisas foram acontecendo, sabe como é.

— Deve ter sido muito difícil, para você, jogar futebol em vez de fazer o que realmente queria.

— Não posso dizer que foi fácil. Mas ao menos fez com que meu pai tivesse alguns momentos felizes. Ele se orgu­lhava muito do filho.

— Tenho certeza que sim — respondeu ela, ponderando que o Sr. Fitzsimmons não estaria tão orgulhoso se soubesse o que o filho fazia agora.

— Sabe, Kate, não consigo entender como, depois do efeito que provocou em todos essa noite, você pode continuar achando que não é bonita.

Ela não respondeu.

— Isso também aconteceu comigo, quando estava no co­légio. Era um rapagão magrelo e alto. Meus amigos me apelidaram de "espantalho". — Riu ao lembrar-se do. pas­sado. — Meu Deus, como era difícil conseguir um encontro naquela época!

— Claro que isso é coisa do passado. — ela comentou com frieza.

A chegada de Alice, carregada dos utensílios que estavam no jardim, interrompeu a conversa.

— Seu pai e eu vamos dormir, querida. Coloquei toalhas limpas sobre sua cama, Roy. O banheiro fica ao lado da porta. — Virou-se para Kate: — Você apaga as luzes antes de deitar? Então boa noite. Vejo-os pela manhã.

Quando se viu sozinha com Roy, Kate sentiu-se alarmada. Começou a lavar os pratos apressada, ansiosa para terminar logo. Mas, quando acabou e tentou ir para o quarto, Roy a segurou pelo braço.

— Não vá. Esperei a noite toda para poder falar com você a sós.

— Para me pegar desprevenida, não é? Será que você nunca desiste?

Ele livrou-se do pano de prato.

— Estou quase desistindo.

— Você é muito esperto.

— Um dia, Kate Reynolds, você vai se meter numa tre­menda encrenca por causa dessa sua língua afiada.

— E um dia, Roy Fitzsimmons, você vai se meter numa tremenda encrenca por causa desse seu corpo! Ou ainda não pensou nisso?

— Não consigo pensar em outra coisa desde que saímos de Sydney.

— Como se eu não soubesse!

— Você não sabe nada sobre mim, madame. Se soubesse, não ficaria tirando conclusões ridículas a meu respeito.

— Do que está falando?

— Estou dizendo que não sou um gigolô, ou seja lá o que for! O único negócio que Ned e eu temos é a sociedade nas academias de musculação Corpo Perfeito. E isso que estou dizendo!

Kate ficou desnorteada.

— Mas... mas... ouvi vocês no telefone, aquela noite...

Roy levou as mãos ao céu. Já não estava nervoso, apenas irritado.

— O que você ouviu foi uma conversa de negócios. Es­tamos tendo problemas com os clientes dos antigos proprietários. — As mensalidades que eles cobravam eram muito baixas, e algumas clientes não conseguem perceber que investimos muito dinheiro em novos equipamentos. Por isso, vivem re­clamando das novas taxas. Não levam em conta que con­tratamos instrutores profissionais, com salários maiores, no lugar dos amadores que estavam lá.

Kate esforçou-se para assimilar as informações que aca­bara de ouvir. Tudo fazia muito sentido, mas... uma dúvida ainda a assaltava.

— Então por que não me contou a verdade antes? Por que me deixou acreditar no pior?

— Por muitas razões. A principal delas era tentar en­tendê-la. Tentar compreender por que você é tão arredia e hostil. E por que me rejeita.

— Eu? Rejeitando você? Mas isso é uma loucura!

Roy caminhou até a porta e abriu-a, saindo para o jardim. Depois de algum tempo, Kate o seguiu. Ele estava sentado numa das cadeiras, pensativo.

— Se não me rejeita, por que age dessa forma? Por que é incapaz de acreditar no que sinto por você?

Ela o encarou com uma expressão de incredulidade.

— Mas Roy... eu não entendo! Você poderia ter a mulher que quisesse. Por que eu?

— Está vendo? Você não é capaz de acreditar nem mesmo agora. Vou repetir mais uma vez: é você que eu desejo. Como nunca desejei uma mulher.

— Preciso de algum tempo para pensar. Estou muito confusa...

— Como acha que me sinto?

— É que não estou preparada para ter um envolvimento... de uma noite só.

— Quem disse que quero só uma noite? — Ele se levantou, aproximando-se de Kate e acariciando-a no rosto. — Escute, amor, respeito você, mas não vou respeitar esse seu medo, essa sua falta de auto-estima. Vá para sua cama e pense no assunto. Vou esperar você tomar a iniciativa. Já não estou agüentando a pressão...

Depois de dizer isso, ele entrou na casa, deixando-a sozinha.

Kate respirou o ar da noite, tentando se refazer das revelações que acabara de ouvir. Tudo o que queria era entregar-se àquela paixão, sem preocupar-se com as conseqüências.

Mas precisava de coragem. De muita coragem.



1   2   3   4


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal