Amor de Aluguel Heart-throb for hire Miranda Lee Qual seria o preço de uma noite de amor?



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Encontro11.09.2017
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CAPÍTULO II

Na manhã seguinte, Estelle recebeu um bu­quê de rosas vermelhas. Logo em seguida invadiu o escritório de Kate, dividida entre a surpresa e a curiosidade.

— São para você! — exclamou com espanto.

Kate não precisou ler o cartão para saber que as rosas eram um presente de Roy, e essa certeza lhe produziu uma involuntária onda de prazer. De qualquer forma, conseguiu conservar a compostura diante da secretária.

— Que gentil — disse calmamente. — Acho que são de Roy. — emendou antes que Estelle desconfiasse que algum executivo da empresa estivesse lhe mandando flores.

— Que Roy?

Kate não ficou aborrecida com a pergunta. Estelle, sua secretária há um ano, cedo demonstrara não ter a sutileza como qualidade. Ainda assim, as duas acabaram se tornando boas companheiras.

Na verdade, Kate só tivera duas opções: acostumar-se a Estelle ou demiti-la. Preferira a primeira. A secretária era apenas mais uma garota que só pensava em homens.

— Fitzsimmons, acho. — Kate respondeu. — Eu o ajudei ontem e acho que ele mandou as flores para agradecer.

O rosto de Estelle estampou uma expressão de espanto ainda maior.

— Quer dizer que você conheceu Roy Fitzsimmons? Não acredito! — Entregou o buquê e ficou parada, olhando para a chefe como se esperasse a conclusão da história.

Kate colocou as flores cuidadosamente sobre a mesa, lan­çando um olhar para o rosto angustiado da secretária. Lem­brou-se de que Roy ficara surpreso quando ela não o reco­nhecera. Talvez fosse alguma celebridade, e não o malandro que ela imaginara.

— Sabe, acho que reconheci vagamente esse nome. — mentiu com cautela. — Mas não consegui ligá-lo à pessoa. Quem é exatamente Roy Fitzsimmons?

Estelle encarou a chefe com estupefação.

— Francamente! Quer dizer que você não o conhece? Meu Deus, por onde tem andado? — A garota fez uma expressão sonhadora antes de continuar: — Roy Fitzsimmons é o jo­gador de futebol mais famoso da Austrália! Além, claro, de ser o mais bonito! Suas fotos vivem saindo nas revistas femininas. Eu mesma tinha um pôster dele no quarto, mas agora troquei por outro, do James Dean.

Definitivamente, Estelle não tirava os homens da cabeça. Mas o que dissera mesmo sobre Roy? Jogador de futebol? Se fosse esse o motivo de tanta fama, Kate não se sentia culpada por não tê-lo reconhecido. Afinal de contas, nunca se interessara muito por esportes. Quando estudante, tro­cara o ginásio da escola pela biblioteca.

— Como você o conheceu? — Estelle parecia entusias­mada como uma adolescente. — Pode me apresentar a ele?

— Calma! Uma coisa de cada vez! Eu o trouxe ao escri­tório, ontem, para ajudá-lo.

— Ajudá-lo? Por quê?

— Eu... hã... ele levou um tombo enquanto corria no par­que e eu vi. Trouxe-o até aqui para que o médico pudesse cuidar dele.

— Cuidar dele... — Estelle repetiu, suspirando. — E eu não estava aqui para ver aquele corpo maravilhoso! E você nem mesmo o reconheceu!

Kate deu de ombros. Em seguida, observou as flores. Os botões, entreabertos, exalavam um aroma suave e doce. Com dedos cuidadosos, ela destacou o pequeno envelope preso no maço e começou a ler silenciosamente.

— Oh, não faça isso comigo! — a secretária protestou. — Conte-me o que ele diz!

Uma pessoa intuitiva já teria notado o sorriso nos lábios de Kate, mas Estelle não era esse tipo de pessoa.

— Ah, não é nada importante. Ao contrário, ele foi bas­tante impessoal. Diz: "Obrigado novamente". E assina.

Kate achou prudente não ler em voz alta o restante do cartão, que dizia: "P.S. Ainda quero levá-la para jantar. Se mudar de idéia, esse é meu número de telefone..."

Fechou o envelope e guardou-o na primeira gaveta da escrivaninha, sorrindo de forma distraída para a secretária.

— Estelle, pode providenciar um vaso para as flores? — disse ao lhe devolver o maço.

A moça ainda hesitou, tentando achar um pretexto para continuar a conversa. Finalmente desistiu, suspirando, e saiu, resignada.

Logo que a porta se fechou, Kate levantou-se da cadeira, mal contendo a alegria. Roy ainda queria levá-la para jantar! E não era um malandro, interessado apenas no dinheiro dela.

Dadas às novas circunstâncias, estava claro que o convite não fora apenas por gratidão. Principalmente depois que ela cometera a enorme bobagem de dizer que não saía com homens... Sim, ele devia estar mesmo muito interessado.

Mas talvez fosse melhor manter aquele equívoco por mais algum tempo...

"Não fantasie, Kate!", repreendeu a si mesma com raiva. "Pare de ser ridícula!"

Pouco a pouco, o entusiasmo foi dando lugar ao bom senso. Um homem como Roy devia ter milhares de mulheres a seus pés. Para constatar isso, bastava observar a reação que Estelle tivera.

Por que estaria interessado nela? Kate não passava de uma mulher comum. Mas por que, com tantos homens no mundo, ela fora se sentir atraída justamente por Roy Fitz-simmons?

Era jovem demais. Aparentemente, não tinha inclinações intelectuais. Em suma, era o último homem pelo qual ela deveria se interessar.

Mas, apesar disso, estava interessada. Definitivamente.

E ele lhe dera o número do telefone. Tudo o que tinha a fazer era tomar coragem para discar e dizer sim. Por que negaria esse prazer a si mesma? Seria apenas um jantar, nada mais. Além disso, queria esclarecer o mal-entendido sobre sua sexualidade. Era uma questão de honra.

Quando Estelle voltou, com as rosas arranjadas no vaso, Kate estava parada na janela, olhando para a rua, mas ab­sorta em seus pensamentos.

— Onde você quer que eu ponha isso? — a garota perguntou.

Kate virou-se para fitá-la.

— O quê? Ah! Coloque na minha mesa, por favor.

— As flores são adoráveis, não são?

— Sim — Kate concordou, olhando atentamente para o vaso. — São mesmo.

Estelle balançou a cabeça, como se reprovasse a si mesma.

— Roy Fitzsimmons aqui no escritório, e eu não o vi. Ele parecia bem? Andei lendo nos jornais que machucou o joelho na última temporada... Há rumores de que está aca­bado para o futebol.

Kate franziu as sobrancelhas. Acabado... Uma dúvida sur­giu em sua mente. Será que a nova informação mudava o rumo das coisas? Kate lera algo sobre personalidades do esporte, que viviam de forma opulenta enquanto estavam no topo e caíam na mais absoluta miséria quando a carreira acabava.

— Ele... parecia bem — respondeu, cuidadosa. No entan­to, só conseguia pensar no estado miserável das roupas dele, em sua má aparência, na barba por fazer...

— Aposto que sim. Vamos lá, Kate, admita que ele é um pedaço de homem, não é? Até você tem que concordar com isso...

Kate corou.

— O que quer dizer com "até você"?

— Oh, nada demais... E que você nunca se interessou muito por homens, não é?

— Claro que me interesso — Kate defendeu-se com fir­meza. — O que exatamente você quer dizer?

Estelle pareceu confusa e embaraçada.

— Bem, eu acho... quer dizer, alguns homens aqui... quer dizer... Não tenho certeza. — Fez uma pausa, constrangida. — As pessoas dizem coisas sobre você... Não que eu concorde, só falei por falar. Sinto muito, não sou eu que falo essas coisas. São as outras secretárias e... e...

— Os chefes delas, sem dúvida! — Kate completou com frieza. — Bem, pode dizer a eles que o fato de não sair com ninguém da empresa não significa que eu não goste de ho­mens. Aliás, seria melhor que eles cuidassem das próprias vidas!

— Kate! Por favor, não fique irritada. Sinto muito. Mes­mo. Oh, querida, isso é tão embaraçoso. Acho você uma pessoa incrível e uma chefe maravilhosa e eu... eu...

Estelle começou a chorar, forçando Kate a esquecer mo­mentaneamente o orgulho ferido para confortá-la.

Quando a garota saiu da sala, Kate se perguntou se tinha o direito de culpar as pessoas por acharem que ela era homossexual. Afinal de contas, nunca falava em homens, jamais fora vista acompanhada e, além disso, suas roupas...

Olhou para o sério tailleur creme que vestia naquela ma­nhã. Por que insistia em usar trajes como aquele? Talvez quisesse, inconscientemente, afastar os homens para bem longe.

Era uma questão complexa, que ela já analisara exaus­tivamente. Chegara à conclusão de que seu jeito não passava de uma forma de autodefesa. Deixava de lado uma parte de sua vida sobre a qual não tinha muito controle e se concentrava somente naquilo que não oferecia perigo.

Kate sempre se orgulhara de sua brilhante carreira aca­dêmica, do sucesso profissional. Tivera a habilidade de con­quistar um alto posto sem pisar em ninguém. Mas o segredo dessa eficiência era sua personalidade fechada.

Jamais dividia suas emoções, principalmente com ho­mens. Nunca poderiam acusá-la de fracassar nos relacio­namentos com o sexo oposto, uma vez que jamais mostrava interesse por nenhum homem em especial.

Quantas pessoas usavam a indiferença como desculpa para disfarçar as próprias dúvidas e inseguranças? Muitas, ao que ela sabia. Principalmente mulheres, que dependiam muito da aparência para ser socialmente aceitas. Isso não acontecia somente na vida madura; começava já na infância, na escola.

Kate relembrou os problemas que tivera no colégio por causa do óculos e do aparelho nos dentes.

Os garotos sempre foram particularmente cruéis, cha­mando-a de "quatro-olhos" e "cara-de-tubarão". A principal diversão deles era roubar-lhe os óculos, sem os quais não conseguia enxergar praticamente nada, expondo-se à humi­lhação. Só o devolviam quando ela, invariavelmente, come­çava a chorar.

Não demorou muito para que Kate se transformasse na menina mais introvertida da classe. A menina que tirava notas altas em todas as matérias como forma de compensar os próprios problemas.

Nunca desfrutara do simples prazer de ser popular, de ter um namoradinho de escola. Nunca conseguira, sequer, uma companhia para os bailes do colégio. A única vez que se atrevera a convidar um rapaz para um desses bailes, recebera como resposta uma gargalhada de desprezo. Depois disso, sempre arrumava uma desculpa para não ir a baile algum. E, ao que sabia, ninguém notara sua ausência.

Ao entrar para a universidade, já aceitara o fato de que os rapazes não lhe davam a mínima atenção, e entregou-se cada vez mais aos estudos. Foi uma aluna brilhante. Mas, no fundo, sempre desejara ser apenas uma garota normal, uma garota que atraísse a atenção dos rapazes.

Então, aos vinte e dois anos, quando já cursava o último ano da faculdade, transformou-se na vítima perfeita para Trevor North. Um rapaz não apenas bonito, mas popular e cortejado por muitas outras garotas.

Kate ficou esperançosa desde o primeiro instante, quando Trevor a convidou para um café depois das aulas. Logo depois, ele sugeriu que passassem juntos o final de semana. Ela aceitou prontamente, passando os dois dias que se se­guiram no sétimo céu.

Sua alegria durou até o momento em que surpreendeu Tre­vor conversando com os amigos no refeitório da universidade, tão entretido na conversa que nem lhe notou a presença.

— Se vocês quiserem moleza — ele se vangloriava —, peguem uma das feias. As feias sempre estão loucas de vontade! Vejam, por exemplo, Kate Reynolds, aquela feiosa de óculos e aparelho nos dentes. Podem acreditar, ela vai fazer tudo o que eu quiser antes que vocês possam contar até dez...

Kate saíra de lá silenciosamente, sentindo o mundo afun­dar sob seus pés. Conseguiu desmarcar o encontro seguinte e manteve sua dignidade, mas o episódio fez com que se fechasse ainda mais dentro de sua concha.

Quando já estava trabalhando, ganhando seu próprio di­nheiro, estabelecera dois itens que queria banir de sua vida: o aparelho e o óculos. Mas já estava com vinte e cinco anos e nunca tivera um encontro de verdade com um homem. Depois de Trevor, recusara os poucos convites que recebera, sempre tomada pelo medo. Medo de passar por tola, medo de que descobrissem que ainda era Virgem, medo do sexo.

Sua virgindade era um problema que lhe vinha à mente toda vez que tentava se relacionar com um homem. E a cada ano o problema tornava-se pior. Gradualmente, sem perceber, Kate começara a eliminar todos os sinais de se­xualidade que possuía. Não queria pensar em nada que dissesse respeito a homens.

Primeiro parou de usar maquiagem e perfumes. Em se­guida foi o cabelo, que passou a prender. Nunca usava jóias e suas roupas, sempre de corte discreto e em cores pastéis, foram ficando cada vez mais assexuadas. Jamais usava cores como azul, vermelho ou verde. Nunca um toque sequer de rosa.

Seu objetivo era fazer com que nenhum homem arriscasse um segundo olhar. Assim estaria sempre segura, e poderia dedicar-se completamente à vida profissional. Vivia para o trabalho, e passava as horas vagas no teatro, na leitura e jogando bridge.

Estava de bem com a vida até o incidente no parque. Mas o que sentira na manhã anterior a fizera perceber que, sob o manto de indiferença que ostentava, era uma mulher como outra qualquer. Sua vida pareceu-lhe pateticamente vazia. E odiosamente solitária. O que aconteceria se conti­nuasse se comportando daquela maneira?

Tinha que tomar uma decisão, encarar seus medos em relação aos homens e ao sexo. Tinha que fazer isso, antes que fosse tarde demais.

Estendeu a mão, abrindo a gaveta na qual jogara o cartão que viera com as flores.

Poderia começar por aquilo: aceitar o convite de Roy. Não interessava se era apenas gratidão, ou se não o veria novamente depois. Era um ponto de partida.

Respirou profundamente e suspirou em seguida. A deci­são estava tomada. Telefonaria para Roy e aceitaria.

Mas pegar o telefone e discar não era tão fácil assim. Durante todo o dia Kate arrumou pretextos para não ligar. Primeiro tinha que organizar uma lista mensal, depois pre­cisava checar a cotação do iene no dia anterior...

Quando sua lista de obrigações terminou, já no meio da tarde, encarou com desgosto a tarefa simples de tirar o fone do gancho e discar o número. Quando ouviu o sinal de cha­mada, pensou em desligar, mas forçou-se a esperar.

Roy atendeu no sexto toque. Sua voz parecia a de alguém que tinha acabado de acordar.

— Roy? É Kate... Kate Reynolds.

— Kate! — Ele pareceu agradavelmente surpreso. — Re­cebeu as rosas?

— Sim... sim, recebi. Elas são lindas. Muito obrigada.

— Foi um prazer. E sou eu que lhe agradeço. Andei pen­sando no que fez por mim e ainda estou surpreso. Você foi muito corajosa.

Kate riu para disfarçar o próprio nervosismo.

— Eu realmente não tive tempo para pensar. Talvez não tivesse feito nada se tivesse refletido por um momento...

— Não acredito. Tenho certeza de que é uma mulher corajosa.

Corando, Kate teve que segurar o fone com ambas as mãos para impedir que tremesse.

— Roy...

— Sim?


— Sobre seu convite...

— Sim?


— Eu... vou aceitar.

— Vai mesmo?

Ele pareceu um pouco chocado. Teria convidado apenas por obrigação? "Claro que sim", ela pensou com tristeza. Era o que estava escrito nas entrelinhas.

Bem, ao menos fizera à tentativa. Não era nenhuma sur­presa ter falhado mais uma vez.

— Mas isso é ótimo! Que me diz de nos encontrarmos hoje à noite?

— Hoje à noite? — ela repetiu, sem acreditar. Seu coração batia descompassado.

— Sim, se você estiver livre. Posso apanhá-la no escri­tório. Há um pequeno restaurante aí perto que serve uma comida deliciosa. O que me diz? Isso lhe agrada?

— Eu... bem, sim. Acho que sim.

— Você não parece muito segura. Se preferir passar em casa antes, não há problema, mas eu preferiria encontrá-la no centro da cidade. Estou sem carro no momento.

Um pensamento vago passou por sua mente: "Ele está sem carro e sem emprego".

— Meu velho carro me deixou na mão há alguns dias — Roy continuou. — E ainda não tive tempo nem paciência para comprar um novo.

Não tinha tido tempo? Estava em casa às três horas da tarde... Talvez não tivesse dinheiro, o que era mais provável.

Kate começou a sentir-se culpada por forçá-lo a pagar o jantar. Talvez ele tivesse sugerido o lugar por ser mais barato...

Voltou à realidade ao perceber que suas mãos continua­vam tremendo. Sentia uma mistura de satisfação e pânico, e sabia o porquê. Tinha aceitado o convite de um homem para um encontro. E não era um homem qualquer. Era jovem, sexy e atraente.

— Em que horário devo apanhá-la? — ele perguntou.

— Oh... hã... Que tal às sete?

— Trabalha até esse horário todos os dias?

— Geralmente.

— Então vai ter um bom motivo para mudar seus hábitos. Aliás, para mudar vários hábitos, Kate Reynolds... Estarei aí às seis horas. Esteja pronta.

Kate engoliu em seco ao ouvi-lo desligar.

— Esqueci de dizer que não sou homossexual — mur­murou, desconsolada. — Meu Deus!

O que aconteceria naquela noite? O que Roy estaria pen­sando naquele momento?

Ela se recostou na poltrona e seus olhos verdes fixaram o vazio.


CAPÍTULO III

Depois de desligar o telefone, Kate olhou para o relógio. Passava das quatro, e em menos de duas horas Roy estaria lá.

Por alguns segundos sua mente ficou confusa. Sentiu-se estremecer. Felizmente, nesse instante Estelle entrou na sala com alguns documentos, o que a forçou a voltar à rea­lidade.

— Eu poderia sair alguns minutos mais cedo hoje? — a garota perguntou enquanto Kate assinava os papéis. — Vou a um concerto no Entertainment Centre e preciso trocar de roupa. Posso remeter as cartas no caminho. E amanhã posso trabalhar durante meu horário de almoço para compensar.

Kate pensou no pedido de Estelle durante um momento. Naquele dia em especial tinha um bom motivo para dis­pensar a secretária mais cedo. A última coisa que desejava era vê-la por perto quando Roy chegasse. O acaso lhe faci­litava as coisas.

— Sim, é claro — concordou rapidamente.

— Você é mesmo uma chefe maravilhosa! — Hesitou por um momento antes de continuar: — Estou terrivelmente desolada pelo que aconteceu hoje cedo. A partir de agora, se alguém disser algo a seu respeito na minha frente, vai ter que se entender comigo, acredite!

Kate tentou não corar, mas falhou. Estelle olhou-a de forma simpática, pegou as cartas e em seguida saiu sem dizer mais nenhuma palavra.

O incidente lembrou a Kate a intenção de mudar o próprio comportamento. Ficara orgulhosa de si mesma ao ligar para Roy, aceitando o convite. Mas temia que à primeira insi­nuação dele começasse a tremer incontrolavelmente. Isso não podia acontecer, de jeito nenhum! Tinha que começar a mudar de verdade.

A primeira coisa a fazer era tratar de sua aparência.

Levantando-se rapidamente, caminhou até o banheiro e examinou o próprio reflexo no espelho, tentando fazer uma análise sincera.

Os cabelos ruivos e brilhantes emolduravam um rosto de linhas delicadas e agradáveis. Seus olhos, de um verde profundo, possuíam um certo brilho. Até mesmo o sorriso era apresentável, depois que se livrara daquele famigerado aparelho.

Mas precisava fazer alguma coisa em relação à sua cor: estava pálida demais. Até mesmo os lábios eram demasia­damente descoloridos.

Poderia soltar um pouco o cabelo, o que mudaria bastante seu aspecto. Um toque de maquiagem e uma ou outra jóia também cairiam bem...

Com rápidos movimentos começou a retirar os grampos. Balançou a cabeça assim que terminou, e as mechas enca­racoladas cobriram-lhe os ombros.

Suspirou. Tinha que ser muito corajosa para usar o cabelo daquele jeito. Parecia... selvagem. Era uma mudança radical demais. Não se sentiria à vontade daquele jeito.

Colocou os grampos de volta. Cabelos revoltos com­binavam com mentes revoltas. Ela estava muito longe daquilo.

Mas poderia fazer algo em relação ao rosto. Um pouco de base, rímel, blush e batom. Na verdade, poderia sair logo que Estelle fosse embora para comprar alguns cosmé­ticos. Poderia também fazer alguma coisa para amenizar a seriedade do conjunto que vestia. Talvez tirar a blusa e usar o blêiser meio aberto, com um lenço no pescoço...


Roy chegou pontualmente às seis, e ao entrar no escritório encontrou-a parada perto da mesa. Admirou-a com uma expressão de surpresa.

— Uau! — exclamou com satisfação.

Por uma fração de segundo, Kate esqueceu os próprios temores. Nem mesmo reparou na reação de Roy. Tudo o que conseguia fazer era apreciar a visão devastadora da­quele homem, agora arrumado e barbeado.

O rosto dele, de linhas clássicas, era vigoroso e masculino. E os olhos! Profundos e azuis como o oceano num dia de verão, pareciam atrair Kate a ponto de deixá-la sem respi­ração. Cobrindo o corpo perfeito, ele usava calça preta, ca­miseta estampada em branco e preto e uma jaqueta de couro. O cabelo negro e ondulado completava a visão. Ele era puro sex-appeal.

— Essa é a mesma Kate Reynolds que conheci ontem? — ele perguntou sorrindo. — Ou será que alguma criatura do espaço se apossou de seu corpo?

O elogio fez Kate corar. Ela sorriu, nervosa, mas em certo sentido concordava com o comentário. Para ser sincera, ficara satisfeita com as mudanças que fizera depois que Estelle fora embora.

A vendedora da loja onde comprara os cosméticos a tinha atendido muito bem. Chegara mesmo a fazer a maquiagem. Que diferença isso fazia! Ela parecia realmente outra pessoa.

Então, quando já estava saindo da loja, viu um par de brincos de ouro que combinavam perfeitamente com seu rosto, além de ornar com os botões dourados do blêiser.

Mais tarde, já no escritório, ela tirara a discreta camisa branca, expondo o colo nu sob o largo decote. A transfor­mação fora completa! Estava tão excitada quanto Cinderela indo para o baile.

Perceber o brilho nos olhos de Roy a deixava muito feliz. Era uma mulher atraente, o olhar dele não deixava dúvidas. Era desejável. E não era... homossexual, lem­brou-se subitamente.

Sentiu o estômago virar. Tinha que esclarecer o assunto. E rápido, antes que ficasse embaraçada demais com o ri­dículo da situação.

Mas como, se o próprio fato de falar sobre aquilo já era embaraçoso?

— Roy... — ela começou, apreensiva.

— Sim?


— Eu... hã... quero lhe dizer algo.

Ele sorriu, constrangido.

— Algo que eu ainda não sei?

— Não. Você não sabe.

Ele deu de ombros e cruzou os braços.

— Sou todo ouvidos.

— Aquilo que eu disse sobre não sair com homens... Não sei o que você entendeu, mas... não é o que parece. Eu... não sou homossexual. — Kate sentiu o rosto corar violen­tamente quando terminou a frase.

Roy piscou, descruzando os braços enquanto um sorriso franco formava-se em seus lábios.

— Claro! Meu instinto não podia estar errado. Achei di­fícil acreditar, quando você contou. Cheguei a perder o sono. — O sorriso ficou mais relaxado. — Kate Reynolds, garota malvada, mente assim o tempo todo ou só queria se livrar de mim?

Ela não sabia se queria ser sincera naquele momento. Entretanto, as palavras foram saindo aos borbotões.

— Na verdade eu não menti, Roy. Eu não saio com ho­mens. Sou uma solteirona. Sempre fui uma solitária... até hoje, ao menos.

Ele a encarava, perplexo, deixando-a indecisa sobre se deveria falar mais sobre si mesma ou deixá-lo tirar as pró­prias conclusões. Sabia que não devia esperar muito daquela noite. Uma celebridade não desejaria dela muito mais do que um jantar. Aquele encontro devia ser, para Roy, um misto de obrigação e chateação.

— Olhe, não precisa se preocupar. — ela disse, parecendo divertida consigo mesma. — Talvez eu esteja falando de­mais. Mas a verdade é que gostei de sua companhia, ontem, e isso me fez pensar em como tenho sido tola por impedir que os homens se aproximem. — Fez uma pausa, virando a cabeça para olhar pela janela. — Acho que eu é que devo agradecer. Por você ter deixado às coisas mais claras para mim.

Ele simplesmente a encarava, sem dizer uma palavra.

Kate sorriu, satisfeita com seu discurso e pela forma como estava tomando o controle da própria vida. Além disso, Roy não era o tipo de homem que se espantava facilmente. Sa­beria entendê-la.

— Podemos ir? — ela sugeriu, apanhando a bolsa.

Roy sorriu novamente. Um leve assobio de surpresa es­capou de seus lábios.

— Eu sabia que você era uma mulher surpreendente, Kate Reynolds. Só não imaginava quanto. — E, enlaçando-a, caminhou com ela pelo corredor até o saguão dos elevadores, onde algumas pessoas esperavam.

Entre elas estava a secretária que provavelmente es­palhara a maior parte dos rumores sobre Kate. A garota era uma bisbilhoteira infernal, todos sabiam disso. A moça quase teve um ataque ao notar o novo visual de Kate, além da pessoa que a acompanhava. Mesmo que não reconhecesse Roy como um famoso jogador de fu­tebol, certamente veria que era um homem jovem e bo­nito, que abraçava Kate e deixava bem claro que estava interessado nela.

— A propósito — Kate sussurrou no ouvido de Roy ao parar no saguão —, já sei quem você é. Minha secretária me contou. Sinto muito não tê-lo reconhecido ontem.

— Não fiquei chateado. — ele sussurrou de volta. — É muito mais agradável do que ser assediado por adolescentes bobas. Por falar nisso, por que aquela moça não tira os olhos de você?

— Oh, ela. Pensa que sou homossexual, vive fazendo co­mentários sobre isso.

— Que tal acabarmos com as dúvidas?

Antes que Kate pudesse protestar, Roy beijou-a na orelha, depois no rosto, e então, aproximando-se mais, cobriu os lábios dela com os seus.

Ela gelou, prendendo a respiração até que ele se afas­tasse, sorrindo. Sentia uma estranha vertigem.

— Parece que a mocinha não acredita no que está vendo — ele murmurou. — Acho que precisa de mais uma prova...

O segundo beijo não foi tão discreto. Agora, quem não acreditava no que estava acontecendo era Kate.

— Acho que ela ficou convencida — Roy disse ao afas­tar-se novamente.

O coração de Kate batia descompassado. Sentindo o gosto de Roy em seus lábios, não conseguia dizer uma palavra sequer. Felizmente as portas do elevador abriram-se nesse momento. As pessoas entraram apressadas e lotaram a ca­bine, forçando Roy a manter Kate bem junto a si.

Quando o elevador parou no andar seguinte, e mais gente entrou, Roy puxou-a para tão perto que ela pôde sentir-lhe cada centímetro do corpo. Um calor estranho começou a queimar seu rosto, e sua cabeça girava.

Uma eternidade parecia ter-se passado quando eles fi­nalmente chegaram ao andar térreo. Kate estava a um passo do pânico, incapaz de dominar os estranhos sentimentos que a invadiam. Uma parte dela queria se entregar às sen­sações, submeter-se àquele desejo selvagem. O resto queria manter o controle a qualquer preço. Por um instante pas­sou-lhe pela cabeça a idéia de sair correndo, para afastar-se daquele homem, daquele garoto que tinha o poder de tor­ná-la vulnerável apenas com um beijo.

— Algo errado? — Roy perguntou, colocando a mão sobre seu ombro e impedindo-a de fugir. — Ela se virou, com os olhos verdes brilhando. Sua respiração estava entrecortada. — Eu a deixei embaraçada lá em cima? Se foi isso, por favor, me desculpe.

— Não — ela balbuciou. — Você não me deixou emba­raçada.

O que ele fizera fora deixá-la aterrorizada. Como Kate podia imaginar que sentiria tudo aquilo? Tão depressa, tão profundamente? Certo, nunca fora beijada antes, mas como poderia imaginar que um simples beijo pudesse pro­vocar todas aquelas sensações? Se lhe contassem, jamais acreditaria.

Talvez aquela reação violenta fosse provocada por sua carência. Talvez ela soubesse, instintivamente, como reagi­ria à atração sexual, e por isso afastasse tanto os homens. Nesse instante lembrou-se das palavras que Trevor dissera, anos atrás, naquele refeitório: "Se vocês quiserem moleza, peguem uma das feias..."

Ficou irritada com a lembrança. O que teria acontecido se não tivesse ouvido aquela conversa? Será que Trevor estaria certo? Teria se entregado sem pensar? Sua auto estima era tão baixa a ponto de fazê-la submeter-se a qualquer coisa para manter a ilusão do amor? Sempre julgara ter recusado o convite de Trevor por causa do orgulho ferido. Mas talvez o verdadeiro motivo fosse o medo. Medo de que ele estivesse certo.

Deu de ombros e sentiu-se de novo a mesma garota in­segura, cheia de dúvidas e temores.

— Eu... quero ir para casa — disse num fio de voz. Seus olhos pareciam perdidos no vazio.

— O quê? — O tom de Roy foi de surpresa. — De jeito nenhum, madame. Você garantiu que iria sair co­migo nessa noite, e é isso que vai fazer. Chega de fugir, Kate Reynolds!

— Fugir? — ela repetiu, sem entender.

— Não finja que não sabe do que estou falando. Não é preciso ser nenhum gênio para deduzir que você teve alguma experiência péssima com um homem, e resolveu nunca mais dar nenhuma chance a qualquer outro, fugindo sempre. Mas o beijo que me deu há pouco não foi nada frio, querida. Ao contrário, foi até quente demais! Então vamos parar com esse teatro e jantar. Já!

Apesar de ficar contrariada com a forma pela qual Roy se expressara, Kate tinha que concordar que ele estava com a razão. De que adiantava tentar negar a própria natureza? Se surgisse algum problema, ela saberia se controlar, não saberia?

Claro que sim. Era uma mulher de trinta anos, não uma adolescente ingênua. Tampouco a presa fácil que Trevor imaginara.

Mas quando Roy tocou novamente em seu braço, conduzindo-a para a saída, uma onda da feminilidade adormecida novamente tomou conta dela, fazendo-a imaginar quão de­licioso seria ir para a cama com aquele homem. Pela pri­meira vez em sua vida começou a pensar em sexo com cu­riosidade, não com medo, e o que sentia era uma espécie de expectativa, não apreensão.

Chegou à conclusão de que aquilo era um marco em sua vida, um ponto a partir do qual não havia mais volta. E devia tudo isso a Roy Fitzsimmons.

CAPÍTULO IV

Aqui estamos — anunciou Roy, conduzindo Kate pela cintura através de um átrio que dava para uma pequena escada. Logo mergulharam num ambiente à meia-luz.

Quando os olhos de Kate acostumaram-se a pouca lumi­nosidade, ela viu que se encontrava num autêntico clube inglês. Nenhum detalhe fora esquecido, da pesada decoração de madeira às voluptuosas garçonetes que desfilavam de forma provocante entre as mesas.

Era exatamente o tipo de lugar que combinava com Roy. Escuro, sensual e levemente obsceno. Kate o adorou no ins­tante em que o viu.

— Acho que devemos começar com um drinque — decidiu Roy, acomodando-a numa das banquetas do bar e sentando ao seu lado em seguida. — O que prefere? Não, não me diga, deixe-me adivinhar. Champanhe?

— Seria ótimo — ela concordou, esforçando-se por parecer natural enquanto cruzava as pernas. A saia subiu levemen­te, revelando seus joelhos e parte das coxas.

— Simples demais — Roy caçoou. — Você precisa de um drinque de verdade. — Chamou o barman. — Merv, prepare um drinque especial para minha amiga. E me dê uma cerveja.

— Já está saindo! — foi à resposta de Merv.

Kate balançou a cabeça, sem acreditar na situação. Ten­tava imaginar o que Estelle pensaria se a visse num bar com Roy Fitzsimmons. Não que Kate se importasse com o juízo que fariam dela. Não se divertia daquela maneira há anos!

A chegada do coquetel a fez engolir em seco. Como se não bastasse o drinque ser azul, do copo alto e decorado saíam labaredas. Ela estendeu a mão, desajeitadamente, para pegar o copo, mas Roy a deteve.

— Não acha que vai beber isso assim, não é? — Ele sorria. — Deixe-me mostrar como se faz. — Em seguida soprou a beira do copo, apagando a chama, e passou-o a Kate.

Ela levou o drinque aos lábios com apreensão. O gosto era diferente de tudo o que já experimentara. Mas, ao con­trário do que pensara, era um coquetel muito suave. Sabo­reou-o, tomou um gole e então sorriu.

— Muito bom! O que você colocou aqui dentro? — per­guntou ao barman.

— Uma mistura poderosa e afrodisíaca. Eu a chamo de "Lamborghini Incendiado" — Merv informou, esclarecendo em seguida que criara o drinque a pedido de um famoso corredor de Fórmula 1 que freqüentava o bar. Depois afas­tou-se para atender outro cliente.

— Como acha que eu ficaria dentro de uma Lamborghini, Kate?

— Acho que você faria coisas melhores, com seu dinheiro, em vez de comprar um carro caro como esse. — ela acon­selhou com seriedade. — Além disso, não é nada econômico. E você gastaria uma fortuna só para fazer o seguro.

— Você realmente fala como uma expert em finanças. Mas será que notei uma certa preocupação em sua voz? Talvez algo relacionado ao fim de minha milionária carreira esportiva... Estou certo?

— Tudo o que sei a respeito de sua carreira, Roy, é o que minha secretária me contou. Parece que você é o ídolo de Estelle. Ela comentou que chegou a ter um pôster seu na parede do quarto.

Roy balançou a cabeça, contrariado.

— Diabos, eu nunca devia ter feito aquela série de pôsteres!

— Se não lhe agradava, por que fez as fotos?

Ele sorriu.

— Por dinheiro, por que mais?

Foi à vez de Kate balançar a cabeça.

— Dinheiro não é tudo.

— Certo. Mas tente viver sem ele. — E seu rosto assumiu uma expressão séria.

— Você fala como se já tivesse sido muito pobre...

— Terrivelmente pobre. Minha mãe morreu quando eu era muito novo, e meu pai vivia doente. Quando se tem que viver às custas da previdência acaba-se por aprender o valor do dinheiro. Nunca tivemos nada, muito menos um carro. Portanto, se agora tenho dinheiro para comprar uma Lamborghini, para o diabo com a economia! Você não seria capaz de imaginar o que precisei fazer para conquistar o que possuo. Acho que tenho direito a um pouco de conforto.

— Claro — ela respondeu, espantada com a súbita confissão.

— Sinto muito — ele desculpou-se ao perceber que ela não sabia o que dizer. — Sempre me altero quando falo sobre dinheiro. Não ligue. Quer outro drinque?

— Não acho uma boa idéia — respondeu Kate, que não estava acostumada a bebidas e já começava a sentir o efeito do primeiro drinque.

Ele sorriu, compreensivo.

— Eu não a culpo. Os coquetéis do Merv são capazes de mandar foguetes para a lua. Que tal passarmos para o jan­tar?

O bufê ficava no fundo do salão, e parecia delicioso. O lugar estava repleto, e por isso eles demoraram algum tempo para conseguir se servir. Finalmente Kate pegou um prato numa pilha e parou diante do bufê, tentando se decidir.

— Algum problema? — perguntou Roy, notando-lhe a indecisão.

— Não sei se me sirvo de um prato quente ou de um frio.

— Pegue os dois. Foi o que fiz.

Kate olhou de relance para o prato de Roy e percebeu que ele não somente pegara ambos. Servira-se de tudol Ba­lançou a cabeça, incrédula.

— Tem certeza de que vai comer tudo isso?

— Não se preocupe. Sou um garoto crescido.

A palavra "garoto" a incomodou. Lembrou-se de seus te­mores e chegou à conclusão de que não devia esperar que nada surgisse a partir daquele encontro. Era velha demais para ele. Para não dizer, claro, que não era bonita o sufi­ciente. Roy devia estar acostumado a sair com garotas de vinte anos, muito jovens, louras e sensuais.

Decidiu que não iria mais pensar naquilo. Estava ali ape­nas para iniciar uma nova fase em sua vida. Não importava que depois daquele encontro nunca mais visse Roy. Estava aberta para a vida, e outros homens apareceriam.

Mas será que conseguiria se sentir tão bem com outro homem? Haveria mais alguém capaz de beijá-la daquela forma, como se houvesse eletricidade no ar? Ela esperava que sim. Mas, no fundo, duvidava.

— Algo errado? — indagou Roy, reparando na expressão distante de Kate.

Com esforço, ela deu de ombros e esboçou um sorriso. Precisava aproveitar ao máximo aquela noite. Não sabia se haveria outra igual...

— Estou me sentindo um pouco zonza. — desculpou-se, sorrindo.

— Provavelmente é efeito da bebida. Logo desconfiei que você não estava acostumada ao álcool. Pegue, segure meu prato enquanto eu sirvo você.

— Obrigada.

Kate sorriu delicadamente ao observar a maneira cuida­dosa como ele arrumava as iguarias no prato, lado a lado.

— Pronto! Agora vamos pegar as bandejas, os talheres e procurar uma mesa vazia.

Atravessaram o salão até alcançar um canto aconche­gante, onde havia uma mesa para dois.

—- Aqui está bom? — Roy perguntou. — Longe do barulho e bastante privativo. Sente-se. Eu cuido do resto. — Com eficiência, colocou a bandeja sobre a mesa, puxou a cadeira para que Kate sentasse e chamou uma garçonete. — Chateau Margot, 57 — pediu após olhar a carta de vinhos. A garçonete retirou-se rapidamente.

— Eu... não me importaria de tomar o vinho da casa. — Kate ponderou. Sabia que a bebida que ele pedira era in­crivelmente cara.

Roy sorriu, compreensivo.

— Bem, eu me importo.

— Mas esse vinho deve custar uma fortuna!

— Está preocupada com dinheiro, novamente?

— Bem, eu...

— Nada disso, moça. Convidei-a para jantar e não quero ficar contando centavos.

— Alguma vez você já se importou em contar centavos? — ela perguntou com um sorriso forçado.

Roy, por sua vez, sorriu abertamente.

— Não, se não for preciso.

— E se os centavos acabarem?

— Então eu saio e consigo mais.

— Como?

Agora ele parecia zombeteiro.



— Isso é sua maneira de descobrir o que faço atualmente para ganhar a vida?

Ela encolheu os ombros e apanhou o garfo.

— Na verdade não. Estou apenas curiosa a seu respeito, é tudo.

— O que acontece se eu não quiser lhe contar? — Kate pareceu surpresa.

— Por que não me contaria? E algo de que se arrependa?

— Meu Deus, não! — Ele riu. — Não me arrependo de nada que fiz.

— O que me diz do pôster?

— Bem, aquilo foi diferente. Eu não imaginava que seria obrigado a tirar toda a roupa.

Toda a roupa?

Kate tinha que pedir aquele pôster para Estelle. Aliás, iria exigir.

— Havia uma toalha, colocada estrategicamente — ele prosseguiu, seco. — Mas era óbvio que eu estava nu. Meus colegas do time zombaram de mim por meses. Meu pai tam­bém não ficou muito bem impressionado. — Roy pareceu lembrar-se de algo. — Ele disse que não podia mais sair na rua. Pediu-me para não fazer mais nada parecido en­quanto vivesse.

— Você e seu pai são muito unidos, não são?

— Fomos. Ele morreu no ano passado. Câncer.

— Oh, Roy... Oh, sinto muito. Eu não sabia.

— Tudo bem. Você não poderia saber. De qualquer ma­neira, foi melhor. Ele estava sofrendo muito. Além disso, não tenho mais que me preocupar tanto com as coisas que faço para viver.

Kate percebeu algo estranho nessas últimas palavras. Era como se ele confessasse estar fazendo algo que deixaria o pai preocupado.

— Mas já falamos o suficiente a meu respeito. — Roy concluiu, encerrando o assunto. — Quero saber mais sobre você, srta. Kate Reynolds. Trabalha naquela empresa há muito tempo?

— Três anos.

— E antes disso?

— Eu era corretora num banco de investimentos.

— Uau, isso é que é trabalhar sob pressão! Quanto tempo estudou para fazer essa carreira meteórica?

— Fiz bacharelado em administração financeira na Uni­versidade de Armidale.

— Por quanto tempo?

— Três anos. Quatro, se você contar o estágio.

— E é claro que você fez o estágio.

— Por que "é claro"?

— Não precisa ficar ofendida. Só quero dizer que você é muito inteligente.

— Ser inteligente não significa ser feliz. — Kate divagou, com uma ponta de amargura.

— Sabe, eu estava no meio da faculdade de direito quando minha carreira de jogador decolou, forçando-me a abandonar os estudos.

Kate ergueu os olhos, os lábios estavam entreabertos.

— Você quis ser advogado?

Roy contemplou-a com um sorriso irônico.

— Não pareço inteligente o bastante?

— Bem, sim, é claro, mas eu... quer dizer... é que você...

— O fato é que jogadores de futebol não costumam ser muito inteligentes. — ele completou friamente. — É isso que você quer dizer, não é?

— Não é isso. Acontece que tenho uma certa visão de advogados, sempre tão sisudos, e você me parece tão alegre...

Roy riu e pegou um pedaço de pão.

— E eu que estava pensando em voltar para a faculdade de direito... Mas obrigado pelo elogio. Foi um elogio, não foi?

Ou você queria dizer que sou frívolo e superficial?

— Você é frívolo e superficial?

— Freqüentemente. E você?

— Nunca.


— Acredito.

— Sei.


Kate encarou aqueles olhos azuis e, por um segundo, odiou o brilho que havia neles. Preferia que Roy fosse dez anos mais velho e um pouco menos bonito. Mas, aí, talvez não se sentisse tão atraída.

— Mas, num certo sentido, isso é bom — ele continuou, num tom brincalhão. — Preciso de alguém sério para me colocar na linha. Vivi como um bon vivant durante muito tempo.

— Quer dizer que me quer como uma espécie de... cão de guarda?

— Gostaria desse papel?

"Gostaria de qualquer papel que você me desse", foi o pensamento que veio à sua mente naquele instante.

— Acho que não tenho o talento necessário para desem­penhar essa função. — ela disse, esforçando-se em parecer indiferente. — Parece que essa tarefa é mais adequada a uma esposa.

— Pode ser — ele murmurou, encarando-a pensativo. — Pode ser... — Continuou a fitá-la por um longo tempo, a expressão indecifrável. Então, subitamente, pareceu voltar à realidade. — Ei, que achou da comida? Boa, não é?

— Muito boa — ela concordou, aliviada pela mudança de assunto.

Nunca conhecera um homem com olhos como aqueles. Sabia que seria capaz de entregar-se a ele de corpo e alma apenas para ver o brilho daqueles olhos. Roy fora um acon­tecimento e tanto em sua vida. Desde o primeiro momento, quando o vira deitado no jardim. Mas ainda não sabia o que ele fazia para viver...

O vinho chegou logo depois, e Roy serviu-o em seguida. Kate já estava refeita do primeiro drinque, graças à comida.

— Vamos pedir a sobremesa? — ele perguntou quando terminaram a refeição.

Kate parecia distante.

— Acho que bebi demais.

— Então acabe o serviço — disse Roy, enchendo nova­mente o copo dela.

— Está tentando me embebedar?

— Claro!


— Acho melhor pedir um café forte no lugar da sobremesa.

— Podemos tomar café no meu apartamento.

O coração de Kate disparou mais uma vez, mas ela con­seguiu encará-lo com frieza.

— Quem disse que vou ao seu apartamento?

Eu disse.

Ela suspirou, exasperada.

— Alguém já lhe falou que você é muito arrogante?

— Não.


— Pois acho que vou recusar o convite só para lhe dar uma lição de modéstia.

— Não é preciso. O pôster foi uma lição mais do que suficiente.

Kate riu.

— Está me dizendo que depois das fotos nunca mais tirou a roupa?

— Ao menos não em público. Atualmente faço apenas shows privativos. Gostaria de assistir a um? — Ela corou violentamente, sem saber para onde olhar. — Eu embaracei você de novo... Desculpe, mas não pude resistir. Faz muito tempo que não saio com uma mulher capaz de corar.

O olhar dela era reprovador.

— Não devia se orgulhar disso.

— Tem razão. Gostaria de ser a primeira dama de ver­dade a visitar meu apartamento?

— Só se você prometer comportar-se como um cavalheiro.

Ele fingiu estar ofendido.

— Como pode pensar que eu me comportaria de outra forma?

— O homem que me beijou no saguão dos elevadores não era um cavalheiro.

— Ah, mas aquilo foi só uma encenação, para encerrar certos rumores. Prometo comportar-me como um gentleman.

— Provavelmente está mentindo — ela comentou, sorrindo.

— Estou chocado! Você definitivamente não confia em mim!

— Querido, posso não ter muita experiência com os ho­mens, mas sei quando mentem. Vamos ao seu apartamento para um café, mas não pense que vai me enganar. — En­saiou um olhar levemente fatal. — Quando... e se eu for para a cama com um homem, é porque ambos significamos muito um para o outro. Fui bastante clara?

— Perfeitamente.

— Bem, continua querendo tomar café?

— Só se antes você responder a uma pergunta.

— Qual?


— Prefere o café com açúcar ou adoçante? — E sorriu como um menino travesso.


CAPÍTULO V

Atemperatura havia caído bastante. Em Sydney, os dias de abril eram agradáveis, mas à noite, invariavelmente, fazia frio. Uma brisa gélida varria a rua, fazendo Kate encolher-se toda.

— Sua casa fica muito longe? — ela perguntou. — Po­deríamos pegar um táxi. Eu posso pagar, caso você esteja quebrado.

O jantar e os drinques não tinham custado muito caro, mas ela não tinha a mínima idéia da situação financeira de Roy. Pelo que sabia, ele podia até estar falido.

— Eu pareço quebrado? — ele perguntou, apalpando o próprio corpo como se procurasse algo e sorrindo.

— Sabe que estou falando de outra coisa — Kate replicou com ar de reprovação.

— Acho que anda pensando demais em dinheiro. — foi à resposta dele, acompanhada de um sorriso contrafeito. — Aliás, se estiver cansada demais para caminhar, posso levá-la no colo.

Ao dizer isso, ergueu-a do chão, girando-a no ar. Com o mo­vimento, quase atingiu um homem que passava pela calçada

— Olhe o que está fazendo, cara. — o homem resmungou.

— Perdão. — Roy desculpou-se, desajeitado.

O desconhecido continuou resmungando enquanto se afastava, de cabeça baixa, segurando sua maleta. Kate pen­sou em si mesma ao ver o homenzinho caminhando, agar­rado à maleta de couro. Quantas vezes ela mesma não vol­tara para casa naquele horário, caminhando apressada com sua maleta, perdida nas próprias preocupações? Frequen­temente cruzava com casais enamoradas e sorria, imagi­nando ser preciso desculpar os excessos dos amantes. Amantes?

Kate encolheu-se involuntariamente, olhando de relance para o belo homem que a segurava no colo. Tinha que ser honesta consigo mesma. Ela e Roy nunca seriam realmente amantes.

— Não deixe aquele chato incomodar você. — ele acon­selhou, apertando-a levemente na cintura.

— Ele não me incomodou.

— Engraçado... Não é o que parece.

— Pois você se enganou. — Kate deu um sorriso forçado. — Só estou com um pouco de frio.

— Eu também. Apressemo-nos. Meu apartamento fica a duas quadras daqui. Vamos logo tomar aquele café. — Co­locou-a delicadamente no chão e estendeu o braço. — Me dê sua mão.

Kate apreciou tanto o simples prazer de andar pela rua de mão dadas que até esqueceu de imaginar onde poderia ser o apartamento de Roy. Sua primeira idéia a respeito era a de que ele deveria morar em alguma pensão, ou talvez num dos hotéis da zona do cais.

Estavam perto da região portuária, mas o sofisticado pré­dio na frente do qual pararam não era nada do que ela imaginara. Parecia muito novo e sofisticado.

— Você alugou um apartamento aqui? — Kate o encarou, incrédula.

Roy conduziu-a, através das portas abertas de vidro, para o interior do edifício. Caminharam pelo luxuoso lobby, onde ele cumprimentou dois seguranças uniformizados, sentados atrás de um balcão de recepção semicircular que ficava ao lado dos elevadores. Depois de apertar o botão, Roy olhou com naturalidade para o rosto atônito de Kate.

— Esqueci de dizer que não estou "quebrado". E, respon­dendo à sua pergunta, não aluguei apartamento algum. Sou o proprietário. Sempre gostei de ter um teto sobre minha cabeça.

— E que teto! Só falta me dizer que é dono da cobertura.

— Uma delas. Na verdade, esse edifício possui outras três.

— Oh! — ela murmurou, embaraçada pela idéia inicial que fizera sobre a situação de Roy. — Então você deve ser rico!

— Não, não sou. Mas estou trabalhando para isso.

As portas do elevador abriram-se e eles entraram. Roy pressionou o botão da cobertura.

— Não vai me dizer o que faz para viver? — Kate indagou quando as portas se fecharam e a cabine começou a subir.

— Acho que não. Gosto de conservar um certo ar de mistério. Talvez assim você não tenha idéias preconceituo­sas a meu respeito.

— Tudo bem, não sou uma mulher curiosa. — murmurou. Mas, no íntimo, sabia que era, ao menos no que dizia respeito a Roy. — Em todo caso... não vai me dar nenhuma pista?

O rosto dele fechou-se numa expressão misteriosa.

— Sem pistas. Se você for uma boa menina, talvez eu lhe conte na semana que vem.

Kate engoliu em seco. Aquilo significava que ele iria con­vidá-la para sair novamente? Queria acreditar nisso. Muito mesmo.

Nesse momento o elevador parou e as portas se abriram, revelando um corredor de forma circular. Forrado com um carpete alto na cor azul, o ambiente era decorado com qua­dros de paisagens marítimas.

— Por aqui. — Roy indicou o lado esquerdo, onde uma saliência escondia a porta do apartamento, decorada com os mesmos motivos do corredor.

Quando Roy a abriu, Kate constatou que nunca vira um lugar como aquele. Tudo era de uma opulência inacreditável, desde o piso de madeira polida até as paredes, completa­mente recobertas por espelhos decorados. Um enorme lustre de cristal dominava a grande sala. Os móveis eram moder­nos e elegantes, e um dos lados do aposento conduzia a uma espécie de galeria, à qual se chegava por uma pequena escada. O ambiente todo fora concebido com vários desníveis, e a decoração parecia ter saído das páginas de uma revista especializada.

— Oh, Roy! — Kate murmurou, caminhando lentamente enquanto admirava o lugar. — É tudo tão lindo...

— Não uso muito esta sala. É por isso que está tão arrumada.

Arrumada? Não. A sala estava impecável. Era toda de­corada em tons dourados e verde-oliva, com sofás e cadeiras confortavelmente arranjados em frente da lareira e cortinas brancas com detalhes bordados. Uma varanda enorme, atrás de uma parede de vidro, dominava um dos lados. No canto direito havia um piano de cauda.

Kate caminhou em direção a ele, admirando a beleza do instrumento.

— Você toca?

— Nem uma nota. E você?

— Não, mas adoraria aprender.

— Por que não começa? Assim pode vir praticar aqui. Isso me daria uma boa desculpa para vê-la mais vezes.

Ela levantou a cabeça e encarou-o, confusa. O que, afinal, aquele rapaz queria? Se fosse apenas gratidão, ele não iria tão longe assim.

— E desde quando você precisa de desculpas? — per­guntou, tentando parecer despreocupada. Sabia, entretanto, a resposta que queria ouvir, e desejava aquela resposta ar­dentemente.

Roy começou a caminhar na direção de Kate, e seu olhar fez com que o coração dela disparasse. Sabia que seria bei­jada. Tinha certeza de que ele iria tomá-la nos braços e não acreditava no que estava prestes a acontecer.

O telefone tocou, alto e insistente, quebrando o silêncio.

— Droga! — ele resmungou, angustiado. — Acho melhor atender.

— Claro. — A resposta serena escondia uma enorme von­tade de gritar de raiva. Algo lhe dizia que aquele momento mágica não voltaria a acontecer.

Roy passou por uma porta que deixou entreaberta e aten­deu o telefone em outra sala. Do lugar onde estava, Kate podia ouvir claramente a voz profunda e grave, que ressoava por todo o apartamento.

— Sim, Ned, você está atrapalhando. Espero que seja algo importante.

"Quem será Ned?", ela pensou.

— Você deve estar brincando! — Roy parecia irritado.

— Fizemos de tudo para agradar àquela mulher! Que mais ela quer?

Nesse instante Kate ficou alerta. A palavra "mulher" cha­mara sua atenção.

— Deus meu, ela não pode, pode? — Sua voz estava bastante alterada. — Diabos, mas essa proposta é indecente! Querer mudar o acordo agora é ridículo. E preciso avisá-la de que vai receber um valor proporcional ao que pagou. Temos o nosso preço, Ned. Se ela quiser algo barato e in­decente, que procure em outro lugar. Da próxima vez que ela ligar, peça-lhe que fale comigo. Vou dizer exatamente o que penso a respeito disso!

A boca de Kate ficou seca. Uma sombra de dúvida surgiu novamente em sua mente. Roy não podia estar fazendo aqui­lo em que ela estava pensando... ou podia? Afastou as di­vagações e continuou ouvindo.

— Sem problemas, Ned. Tenho pensado a respeito. Pre­cisamos cuidar desse negócio de maneira séria. Não somos uma instituição de caridade para viúvas e mulheres aban­donadas. Danem-se elas! A maior parte dessas mulheres tem tanto dinheiro que nem sabe o que fazer com ele. Não me sinto culpado por nada. Se elas não gostam daquilo que entregamos, que procurem outra pessoa.

Ele era exatamente o que Kate imaginara. Não fora à toa que não quisera falar sobre o assunto.

— Sim, você está certo — Roy admitiu resmungando. — Ao menos elas têm que pagar pelo privilégio. Certo, verei o que posso fazer para acomodá-las. Agora desligue, Ned, tenho uma visita e prometi um café a ela. — Seu riso, aos ouvidos de Kate, pareceu perverso. — Duvido, Ned. Mas nunca se sabe. Até logo.

Quando percebeu que Roy desligara o telefone, Kate cor­reu até a varanda, de onde seria impossível ouvir aquela conversa. Apertando as mãos para evitar que tremessem, olhou vagamente para a baía de Sydney, que se estendia à sua frente. Geralmente aquela paisagem conquistava qual­quer pessoa, com a ponte estendendo-se do lado direito e as bandeiras brancas da Opera House à esquerda. Mas Kate estava consumida demais por seus conflitos interiores para apreciar a vista.

Perguntava-se a razão de não ter confiado em seus ins­tintos iniciais. Nunca deveria ter acreditado que um homem como Roy pudesse realmente se interessar por ela. Se não tivesse sido tão ingênua, não estaria se sentindo tão mal. Estava totalmente arrasada.

Um gosto amargo invadiu-lhe a boca ao imaginar que Roy usava as mulheres para conseguir dinheiro. Era apenas um homem vulgar, que explorava a vulnerabilidade de pes­soas carentes como ela, cobrindo-as de falsas atenções e galanteios, usando seu charme para fazê-las de tolas. Quan­do estivessem seduzidas, essas mulheres não se negariam a pagar pelo privilégio de ter a companhia dele, e quaisquer outros serviços que um astro do esporte pudesse prestar.

— Aqui está você!

Kate arrepiou-se ao ouvir a voz máscula, mas sua ex­pressão manteve-se calma, o que exigiu grande esforço. Virou-se para encará-lo. Desejava imensamente odiar aquele homem, mas no entanto, tudo o que sentia era vontade de chorar.

Lágrimas afloraram a seus olhos, mas ela as conteve. Jurara, no passado, que nunca mais um homem a faria chorar. Isso certamente incluía tipos como Roy Fitzsimmons.

— Sinto muito, mas não posso ficar para o café. Obrigada pelo jantar. Adorei. Só que me lembrei de uma reunião importante que acontecerá amanhã pela manhã, e tenho realmente que ir para casa.

O sorriso dele desapareceu no mesmo instante. Observando-a com um olhar penetrante, ficou em silêncio por alguns momentos.

— Se você prefere assim, tudo bem. Deixe-me ao menos chamar um táxi.

O desgosto tomou o lugar da raiva. O que ela esperava, afinal? Que ele tentasse convencê-la a ficar, usando todo o seu charme? Não, Roy nem ao menos tentara fazer isso. O que a deixava ainda mais intrigada.

— Obrigada — ela murmurou. — Eu gostaria muito.

— Onde você mora?

— North Sydney.

— Vive com sua família?

— Não, vivo sozinha.

— Não tem família?

Kate estava ficando cada vez mais irritada. Não havia dúvida de que ele precisava obter o maior número de in­formações sobre suas vítimas. Conhecimento é poder. Mas não funcionaria com ela. Roy poderia saber tudo o que qui­sesse, e não faria nenhuma diferença. Kate decidiu, naquele instante, que nem ele, nem qualquer outro homem, teria lugar em sua vida. A solidão era preferível àquele sofri­mento.

— Tenho família — respondeu friamente. — Mas eles não moram em Sydney. Agora, poderia chamar aquele táxi, por favor?

Ele lhe dirigiu um último olhar antes de sair, e voltou poucos minutos depois.

— O porteiro vai avisar quando o carro chegar.

— Acho melhor esperar lá embaixo. — Roy pareceu perplexo.

— Está mesmo com tanta pressa?

— Não costumo dormir tarde. — ela se desculpou, come­çando a andar na direção da porta de entrada.

Ele a seguiu.

— Mas não é tão tarde assim.

— Mas vai ser, quando eu chegar em casa. Tenho trabalho amanhã, lembra?

— Falando nisso, posso ligar amanhã?

— Seria melhor se você não ligasse. — ela respondeu, tentando mostrar indiferença.

— Não concordo.

— Vai estar perdendo seu tempo. Ele franziu as sobrancelhas.

— Acho que está acontecendo alguma coisa, e não faço a mínima idéia do que seja.

Ela ignorou totalmente o comentário.

— Não precisa me acompanhar até lá embaixo. Deve estar cansado.

Kate acentuou a última palavra, olhando de relance para Roy.

— Por que você disse isso? — ele perguntou ao abrir a porta.

— Porque você parece cansado — ela reafirmou.

— E você parece linda.

O comentário foi feito de forma suave, mas era a pior coisa que Roy poderia ter dito. Kate virou-se para encará-lo, e seus olhos faiscavam de ódio.

Nunca mais, nunca me faça falsos elogios, entendeu? Não sou bonita e sei muito bem disso. Nada me irrita mais do que um homem que gosta de explorar os pontos fracos de uma mulher!

Virou-se e caminhou na direção dos elevadores. Roy se­guiu-a e a deteve, forçando-a a encará-lo. Sua expressão era de surpresa e perplexidade.

— Que diabos está acontecendo? O que foi que eu fiz? Em que você está pensando? Talvez ache que sou apenas um playboy querendo uma noite de prazer, mas posso ga­rantir que está enganada. Eu...

A risada dela o interrompeu.

— Tenho certeza de que não deseja apenas uma noite de prazer. Isso não pagaria o aluguel do piano. Acho que você prefere relacionamentos mais longos, não é?

— E se eu preferir? Qual é o problema? Gosto de você, Kate. Quero conhecê-la melhor. Quero...

— Sei exatamente o que você quer, Roy Fitzsimmons, mas dessa vez se deu mal.

— Ouça, eu não estava pensando em sexo quando a con­videi para jantar. Mas fomos nos conhecendo melhor e...

— Oh, por favor, poupe-me de seus galanteios. Pode guar­dá-los para suas outras amigas.

— Que amigas? Não saio com uma mulher há meses! — A porta do elevador abriu-se nesse instante. Kate dirigiu um olhar exasperado a Roy.

— Não! — gritou quando ele começou a segui-la para dentro da cabine. — Por favor, se você realmente gosta de mim, deixe-me ir.

Ele apoiou o ombro na porta, impedindo que se fechasse. O pânico tomou conta de Kate. Ela sabia que não poderia lutar contra aquele homem.

— Por favor, deixe-me ir!

— Certo — ele concordou com relutância, dando um passo para trás. — Mas só por essa noite. — A porta começou a fechar-se e Kate suspirou aliviada. — E eu vou ligar ama­nhã, Kate Reynolds. Escreva o que estou dizendo.

Quando Kate chegou ao térreo, o táxi já a esperava. Antes das dez horas estava em casa, mas só conseguiu dormir depois da meia-noite. Não foi capaz de esquecer as palavras que Roy dissera antes que as portas do elevador se fechassem.





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