Alma sobrevivente



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6. Leon Tostoi e Fyodor Dostoievski

Em Busca da Graça


Minhas mais profundas dúvidas sobre a fé podem ser resumi­das numa única per­gunta: por que ela não funciona? Por viajar pelo mundo todo, vejo que o cristianis­mo traz uma série de melhorias à cultu­ra. Educação, ciência, medicina, direitos humanos, democra­cia, arte, caridade -todas essas coisas se desenvolveram com maior vi­gor a partir de raízes cristãs e permanecem estag­nadas em alguns dos países não cristãos que visitei. Porém, quando falo com mu­çulmanos ou hindus devotos, eles citam as diversas guerras que assolaram a Euro­pa durante sua fase predominantemente cristã e o crime, a de­cadência e a ruptura da família que cara­cterizam o ocidente cristão atual. Não tenho defesa contra esses argu­mentos.jamais encontrei algum seguidor de qualquer religião que não lenha apreciação por Jesus, mas e quanto à Igreja? Como um amigo judeu me disse certa vez: "Jesus pregou um evangelho maravilhoso. A admiração por Jesus está crescendo cada vez mais entre nós, judeus. Porém, mos­tre-me o prometido Reino de Deus. Olhe para a História, especialmente a perseguição que os cristãos empreenderam contra os da minha raça. Este lugar realmente se parece com um mundo redimido?" O judeu olha para o mundo e pergunta por que o Messias ainda não veio; o cristão, que acredita que o Messias já veio, fica espantado com o mal que ainda é abundante.

Em sua autobiografia espiritual, chamada Uma confissão, Leon Tolstoi menciona que os cristãos às vezes tratam uns aos outros de maneira pior que as pessoas de outras crenças. Ele cresceu pacificamente entre católicos, protestantes, ortodoxos e pessoas semelhantes aos anabatistas, mas a Igreja Ortodoxa Russa lhe disse que "estas pessoas são flagradas em mentiras, o que lhes dá a força vital é uma tentação do demônio, e somente nós possuímos a única verdade possível". "E vi que aqueles que não professassem uma fé idêntica eram considerados hereges pelos orto­doxos, assim como os católicos e as outras igrejas chamavam de hereges os próprios ortodoxos."

Quando penso nos indivíduos cristãos que conheço, vejo algumas pessoas que mudaram para melhor por causa de sua fé, mas também encontro alguns que pioraram bastante. Para cada cristão gracioso, ani­mado e perdoador, posso apontar um que é orgulhoso, malvado e julgador. Em minha própria experiência, pude perceber que aqueles que mais se esforçam e crêem de maneira mais fervorosa geralmente são as pessoas menos atraentes. Como os fariseus dos tempos de Jesus, eles se envol­vem numa competição e terminam mais hipócritas que justificados. Os políticos dizem que as cartas mais sórdidas que recebem vêm de pessoas que citam a Bíblia e clamam para si a autoridade de estar falando em nome de Deus - o que eu realmente acredito, pois minha caixa de cor­reio está repleta de cartas que seguem o mesmo padrão. Como é possível resolver a tensão entre os ideais do evangelho e a realidade daqueles que o professam?

Hoje em dia, vejo adolescentes usando pulseiras com as letras, em inglês, "WWJD" (What would Jesus do?) para lembrar-lhes a terrível pergunta: "Em seus passos, o que faria Jesus?" 40 Esta pergunta está baseada no título do livro de Charles Shekion In His Steps (Em seus passos, o que faria Jesus? 41), que conta a história de um grupo de pessoas comuns que solenemente votou agir como Jesus agiria, baseando suas ações nos capítulos 5 a 7 de Mateus. Como adolescente da década de 1960, muito antes de os marqueteiros descobrirem o potencial de ven­das do WWJD, li o livro de Sheldon e fiz a mesma pergunta a mim mesmo todos os dias. Quase fiquei louco. Se eu desse esmolas a todo o mundo que me pedisse, logo ficaria sem dinheiro. Num lampejo de rai­va, chamava meu irmão "bobo" ou alguma coisa pior, e logo depois ficava preocupado por ter me arriscado a arder no fogo do inferno. Será que eu deveria arrancar um olho por dar uma olhadela na revista pornográfica do meu vizinho? Deveria eu não reclamar quando os meninos da escola me jogavam para fora do ônibus ao chegar no meu ponto? Tentei fazer isso até o dia em que me cansei de chegar em casa com o nariz sangrando.

Havia uma mulher perfeita na igreja em que cresci. Pelo menos era este o título que ela dava a si, insistindo que nunca havia pecado em 12 anos. Posso me lembrar do meu tempo de criança, muito ciente de todos os meus pecados, quando olhava para aquele maravilhoso esta­do de perfeição. Nunca duvidei de sua sinceridade, pois como uma pessoa perfeita poderia mentir? Durante os cultos, às vezes ficava olhando para ela, tentando descobrir seu segredo. Agora, porém, olho para trás com pena daquela mulher. O apóstolo João não poderia ter sido mais direto: "Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós" (1 Jo 1:8). Ape­sar de aquela mulher ter conseguido evitar os pecados abertos e óbvios, duvido que ela tenha obedecido ao pé da letra aquilo que Jesus cha­mou de primeiro e maior mandamento: amar a Deus com todo o seu coração, alma e entendimento. Sua atitude presunçosa e superior denunciava que ela provavelmente já havia sido vítima do pecado do orgulho.

Várias passagens do Novo Testamento, notadamente o Sermão do Monte, falam de altos ideais éticos - dar a todo aquele que pede, amar os inimigos, nunca cobiçar, não odiar, perdoar sempre, receber a perseguição com alegria -, o que inevitavelmente se opõe à repug­nante realidade do comportamento humano vigente. Tenho sentido uma tensão constante e sem solução quanto às falhas do cristianismo.

Como jornalista, tenho observado de perto tanto os aspectos espeta­culares quanto os mais vis de proeminentes líderes espirituais, muitos dos quais nunca vieram a público. Quando decido escrever sobre mim mesmo, em vez de escrever sobre os outros, logo descubro que escrevo muito melhor sobre disciplinas espirituais do que as pratico. Somos chamados a lutar por ideais que nunca poderão ser alcançados?

Não havia encontrado maneira alguma de abordar a dissonância cognitiva que me manteve num estado de inquietação espiritual, até que me deparei com os escritos de dois romancistas russos do século xix. Minha compreensão da tensão entre os ideais cristãos e a realida­de agora é formada parte por Tolstoi, parte por Dostoievski.

No início da década de 1970, Malcolm Muggeridge 42 ouviu, para sua surpresa, que membros da elite intelectual da União Soviética, ainda sob o regime comunista, estavam experimentando um reavivamento es­piritual. Um dissidente russo que vivia exilado na Inglaterra disse-lhe que virtualmente todo escritor, artista ou músico de renome estava ex­plorando questões espirituais. Muggeridge relata: "Perguntei-lhe como aquilo poderia estar acontecendo, dados os intensos esforços de lava­gem cerebral anti-religiosa sobre os cidadãos e a ausência de literatura cristã, inclusive os Evangelhos. Sua resposta foi memorável. Ele disse que as autoridades esqueceram de suprimir as obras de Tolstoi (1828 — 1910) e Dostoievski (1821 — 1881), as mais perfeitas exposições da fé cristã dos tempos modernos".

Exatamente na mesma época, eu morava no ocidente, cercado de cristãos, saturado de literatura religiosa e, francamente, incapaz de entender a maioria delas. Esses dois romancistas russos, que ninguém poderia acusar de serem equilibrados ou até mesmo psicologicamente sadios, ajudaram a restaurar em mim um senso de equilíbrio. Assim como Robert Coles havia descoberto que os romancistas sabiam mais sobre o comportamento humano do que todos os seus professores de Psicologia, eu também descobri que eles sabiam mais de Teologia que a maioria dos teólogos. Em um estágio crucial de minha peregrinação, eles se tornaram os orientadores espirituais que me levaram à resolu­ção de um problema que atormenta todo cristão zeloso - ou o segui­dor de qualquer religião, no que diz respeito a este assunto, conhecido como o grande hiato entre a vida como ela deveria ser e a vida como ela é; entre a teoria da fé e sua prática.

Na história da literatura, ninguém superou a Leon Tolstoi na habi­lidade de retratar a completa essência da vida. Virgínia Woolf ex­pressou assim:

Nada parece lhe escapar. Nada passa diante dele sem ser registrado (...) Cada folha, cada pena é atraída por seu ímã. Ele nota o azul ou o vermelho das vestes de uma criança; a maneira como o cavalo abana sua cauda; o som de uma tosse; o ato de um homem colocar as mãos num bolso que já foi remendado. Quando seus olhos infalíveis registram uma tossidela ou a ha­bilidade de mãos, seu cérebro infalível se refere a algo escondido em seu caráter, de modo que passamos a conhecer quem são seus personagens não apenas através da maneira como eles amam ou como vêem a política ou até a imortalidade da alma, mas também pela maneira como eles assoam o nariz e ficam sufocados. Sentimos como se fôssemos colocados no topo de uma montanha e tivéssemos um telescópio ao alcance de nossas mãos. Tudo fica impressionantemente claro e absolutamente nítido.

Um dos biógrafos de Tolstoi comentou que quando terminou de ler Guer­ra e paz e voltou "à vida normal", teve a sensação de voltar a algo mais pálido e menos verdadeiro do que a própria arte de Tolstoi. Tive exata­mente a mesma experiência. Meu mundo criou vida nos romances deste escritor, separado de mim por metade do mundo e por quase um século. Quando Tolstoi descreveu a primavera, a maravilha das delicadas flores desabrochando pela tundra que derretia, atribuiu à mesma exuberân­cia o significado que deu à descrição do êxtase religioso. Ao fazer isso, ele me ensinou como ir além de mim mesmo.

Hoje, quando olho para trás e vejo o claustro do fundamentalismo do Sul dos Estados Unidos, em que cresci, fico pensando se talvez não estivesse sofrendo de uma disfunção narcisista (talvez todos os ado­lescentes sofram disto, não é?). Via o mundo através das venezianas fechadas da igreja e da família, sem a capacidade de projetar fora de mim e compreender o ponto de vista de, digamos, um meeiro na área rural do Alabama ou de um imigrante polonês do Bronx; quanto mais um membro da aristocracia russa ou um camponês da Rússia do sé­culo xix. Tolstoi abriu as cortinas, mostrando para mim um mundo do qual não conhecia nada. De maneira especial, ele criou em mim com­paixão pelos pobres.Na época em que ele escreveu, a Rússia tinha 50 milhões de servos; quase metade da população vivia como verdadeiros escravos, possuídos por seus senhores. Com as terras antigas onde ele vivia e escrevia, Tolstoi herdou centenas desses camponeses, um número que flutuava enormemente quando ele perdia ou ganhava essas almas em rodadas de apos­tas. Ao contrário da maioria dos donos de terras, porém, ele caminhava entre os camponeses e os conhecia. Tolstoi concluiu que os camponeses tinham vida mais rica e muito mais interessante que sua própria vida na aristocracia:

A vida de um trabalhador, com sua infindável variedade de formas de trabalho e os perigos ligados a esta atividade no mar e sob a terra; suas migrações, as relações com os empregadores, supervisores e pares, e com os homens de outras religiões e nacionalidades; suas lutas com a natureza e os animais selvagens, as associações com animais domésticos, o trabalho na floresta, nas estepes, nos campos, no jardim, no pomar (...) Para nós, que não temos esses interesses e não possuímos percepção religiosa alguma, tudo isso nos parece monótono em comparação com aquelas pequenas alegrias e insignificantes cuidados de nossa vida - uma vida sem labor e sem produ­ção, mas de consumo e destruição daquilo que outros produziram para nós. Pensamos que os sentimentos experimentados pelas pessoas de nossos dias e de nossa classe são muito importantes e variados; mas, na realidade, quase todos os sentimentos das pessoas de nossa classe se resumem em não mais do que três sentimentos bastante insignificantes e simples: o sentimento do orgulho, o sentimento do desejo sexual e o sentimento de enfado da vida. Estes três sentimentos, com suas conseqüências, formam quase que a essên­cia única da arte da classe rica.

(Extraído de What is Art? 43)

As diferenças entre a vida simples dos camponeses e a vida de tolerância das pessoas ricas como ele mesmo começavam a corroer Tolstoi, para­lisando sua capacidade de escrever. Seus camponeses, ao que parece, conheciam o significado da vida e do trabalho, sabiam como suportar o sofrimento e conheciam o significado da morte, coisas totalmente desconcertantes para ele. Tolstoi estudou a filosofia de Buda, Schopenhauer e Jesus em busca de suas próprias respostas para esses misté­rios, e não encontrou alívio. Por fim, concluiu que o problema principal não estava tão ligado ao modo errado de pensar, mas na maneira de agir. Sendo um parasita nas costas de seus trabalhadores, ele mal podia dizer que vivera uma vida. "Meu coração estava oprimido por um sen­timento doloroso, que somente posso descrever como uma busca por Deus", escreveu ele. "Era um sentimento de medo, orfandade, isolamento numa terra estranha e a esperança de ajuda de alguém."

A busca tornou-se tão intensa, na verdade, que Tolstoi se desviou de sua missão artística e buscou quase que unicamente resolver as importantes questões sobre o sentido das coisas. Para o desalento dos críticos literários e dos leitores que ansiavam por mais romances gran­diosos, ele dedicou os melhores anos de sua vida à especulação religio­sa. Como escritor e peregrino, lutou com a tensão entre o mundo como ele é e como ele deveria ser. Escreveu centenas de páginas em cadernos de anotação, transformando-os em seu diário espiritual. Desenvolveu uma estética altamente moralista (em sua obra What is Art?) e escreveu livros nos quais expôs suas crenças religiosas.

Assim como Tolstoi tinha a capacidade única de retratar o mundo como se fosse a primeira pessoa que verdadeiramente tivesse visto um arado removendo enormes torrões de terra ou tivesse ouvido o gelo trin­cando num rio congelado, ele também agiu como se fosse a primeira pessoa a verdadeiramente levar os Evangelhos a sério. Ele leu os manda­mentos diretos de Jesus e tentou colocá-los em prática. "Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu", disse Jesus ao jovem rico (Mc 10:21). Depois de ler isto, Tolstoi liberou seus trabalha­dores, cedeu os direitos de suas obras e começou a se desfazer de todos os seus imóveis. Para se identificar com as pessoas comuns, vestiu rou­pas de camponês, fez seus próprios sapatos e começou a trabalhar nos campos.

Os escritos espirituais de Tolstoi, diferentemente de sua ficção, le­vantam argumentos de todos os lados. Mahatma Gandhi, achou-os profundamente tocantes, e considerava a obra The Kingdom of God Is Within You (O reino de Deus está dentro de você) como sendo a fonte de inspiração que orientou seus princí­pios de não-violência, simplicidade e pobreza intencional. Nos dias de Tolstoi, uma legião de idealistas, revolucionários, pretensos santos e anarquistas quis ouvir de sua própria boca as fortes palavras sobre justiça e dignidade humana. Para cada Gandhi motivado pelos altos ideais de Tolstoi, porém, outro leitor era repelido pela forma tão pobre quanto ele mesmo os vivia. O que Tolstoi encontrou nos Evangelhos o atraiu como uma chama; seu fracasso em realizá-los terminou por consumi-lo.

Tolstoi era atormentado pela mesma tensão que todos os cristãos sentem em alguma escala, a tensão que afligiu minha adolescência. Quando escreveu sobre sua fé religiosa ou procurou vivê-la, o antagonis­mo entre o ideal e o real o assombrou como um dybbuk. 44 O romancista John Updike mostra o outro lado em seu comentário sobre o diário de 13 volumes de Tolstoi: "A luz da arte de Tolstoi raramente atinge a cela de monge de seu incessante moralismo e desprezo a si mesmo".

As tentativas de Tolstoi na direção da honestidade e da mudança causaram infindáveis problemas em sua própria família. Como jovem oficial do Exército, ele colecionara uma enorme lista de amantes, fre­qüentara bordéis, participara de orgias regadas a bebida e contraíra doenças venéreas diversas vezes. Ele diligentemente registrou todas essas desventuras em seu diário e, quatro dias antes de seu casamento, insistiu que sua noiva, uma recatada moça de 18 anos de idade, lesse o lúgubre relato. Ela nunca se recuperou de tal experiência.

"Quando ele me beija, penso: não sou a primeira mulher que ele amou", escreveu Sônia Tolstoi, em seu próprio diário. Suas aventuras no Exército ela podia perdoar, mas não o seu caso com Axinya, uma mulher camponesa que ainda trabalhava nas terras de Tolstoi. Todas as vezes que olhava para o filho de Axinya, via as feições de seu próprio marido. Quando ele comunicou sua intenção de abdicar dos direitos de seus livros, ela queixou-se, dizendo que ele estava dando uma fortuna a excêntricos enquanto "pão preto seria suficiente para seus filhos e ne­tos". Seu desprezo pelas propriedades arruinou a renda da família; a abdicação dos direitos privou seus herdeiros. Aquilo que Tolstoi consi­derava passos rumo à santidade, Sônia via como tolice e abuso de sua família.

Quando leio os diários de Tolstoi, vejo flashbacks de minhas arremetidas rumo ao perfeccionismo. Os diários registram muitas das difi­culdades de Tolstoi com sua família, mas principalmente as lutas de Tolstoi consigo. Seu desejo de alcançar o perfeccionismo o levou a de­linear listas de regras ainda mais abrangentes. Ele abandonou a caça, o tabaco, o álcool e a carne. Decidiu vender ou doar qualquer coisa supérflua - piano, mobília, carruagens - e tratar todas as pessoas da mesma forma, de governadores a pedintes. Ele esboçou regras para o desenvolvimento da vontade emocional, para o desenvolvimento dos sentimentos elevados e a eliminação dos inferiores, e para subordinar a vontade ao sentimento de amor.

Mas Tolstoi nunca conseguiu alcançar a autodisciplina necessária para viver de acordo com suas próprias regras. Terminou mantendo o piano e a mobília. Passou as terras para o nome de sua esposa, mas continuou vivendo nelas e fazia suas refeições vegetarianas sendo servi­do por criados de luvas brancas. Mais de uma vez, Tolstoi fez votos públicos de castidade (Jesus não havia elogiado isso?) e pediu quartos separados. Ele nunca conseguiu manter estes votos por muito tempo pois, para sua vergonha, as 16 gestações de Sônia evidenciavam isto ao mundo. Escreveu em seu diário que sua esposa estava impedindo sua realização espiritual ao insistir numa maneira "normal" de viver a vida e, depois de ceder a seus apelos sexuais, ele adicionava um comentário como "era tão repugnante quanto a sensação de ter cometido um cri­me". Sônia continuou lendo esses diários por toda sua vida, o que lhe infligia constante dor.

Às vezes, Tolstoi conseguia fazer um grande bem. Quando a fome assolou sua região, passou dois anos organizando programas de atendi­mento, criando hospitais de campanha e cuidando dos necessitados. Depois de um longo hiato literário, ele escreveu seu último romance, Resurrection (Ressurreição 45), já com 71 anos de idade, em apoio aos Dukhobors, um grupo de 12 mil anabatistas que sofriam perseguição do czar, doando todo o lucro para financiar a emigração daquele grupo para o Canadá. A filosofia de não-violência de Tolstoi, tirada direta­mente do Sermão da Montanha, teve um impacto que se prolongou para além de sua própria vida, por intermédio de seus descendentes ideológicos, como Gandhi e Martin Luther King Jr. Em todos os aspec­tos, porém, a busca que Tolstoi empreendeu pela santidade foi um total desapontamento. Em resumo, ele não praticava aquilo que pregava. Sua esposa relata de maneira adequada (ainda que claramente tendenciosa):

Há pouco afeto genuíno nele. Sua bondade não vem de seu coração, mas simplesmente de seus princípios. Suas biografias vão dizer como ele ajudou os trabalhadores a carregar baldes de água, mas nenhuma delas dirá que ele jamais deu descanso à sua esposa e nunca, nestes 32 anos, deu a seus filhos um copo d'água ou passou cinco minutos ao lado de suas camas para que eu pudesse ter uma chance de descansar de meus trabalhos.

(Extraído do Diário de Sônia)

"Onde está seu amor?", perguntava ela depois de uma briga recheada de gritos. "Sua não resistência? Seu cristianismo?" Ele jamais mostrou afeição aos filhos que consumiram tanto da vida de sua esposa. Aquele que professava tamanho amor pela humanidade tinha dificuldades para amar qualquer indivíduo em particular, até mesmo os membros de sua própria família.

Os firmes passos rumo à perfeição nunca resultaram em qualquer aparência de paz ou serenidade. Até o momento de sua morte, seus diários e cartas mantiveram-se recordando o pesaroso tema do fracasso, expondo o distanciamento entre os ideais do evangelho e as contradi­ções de sua própria vida. Honesto demais para enganar-se, ele não era capaz de silenciar a consciência que o convencera. Alguns o chamaram hipócrita, mas o hipócrita finge ser algo que não é; Tolstoi sabia melhor do que qualquer pessoa quais eram suas falhas.

Leon Tolstoi foi um homem profundamente infeliz. Disparou con­tra a Igreja Ortodoxa Russa e recebeu em troca a excomunhão.46Todos os seus planos de melhoria pessoal naufragaram. Houve momentos em que ele precisou esconder as cordas de sua propriedade e se livrar de suas armas para resistir à tentação do suicídio. No fim da vida, Tolstoi afastou-se de sua fama, sua família, suas posses, sua identidade. Mor­reu como um vadio numa estação de trem do interior, cercado por aldeões curiosos e jornalistas do mundo inteiro. Um repórter conse­guiu tirar uma tocante foto de Sônia olhando ansiosamente através de uma vidraça suja para o interior do lugar onde seu marido jazia à mor­te. Seus discípulos impediram a presença da esposa para que isto não o perturbasse.

Diante de tantos fracassos, o que posso aprender da trágica vida de Leon Tolstoi? Li muitos de seus textos religiosos e, sem exceção, saí inspirado por sua reverência ao ideal absoluto de Deus. Tolstoi me lembra que, ao contrário daqueles que dizem que o evangelho resolve nossos problemas, em muitas áreas - questões de justiça, dinheiro, preconceito racial, orgulho e ambição pessoais -, ele na verdade nos adiciona um fardo.

Em tempos modernos, pode ser muito fácil confundir o evangelho com o "sonho americano" de contentamento, prosperidade c uma exis­tência livre de problemas. Tolstoi viu que Jesus nos chama para algo além de uma bela casa com vizinhos simpáticos. Ele havia provado da fortuna, do talento, da educação e da fama mundial: "Eu diria a mim mesmo: 'Muito bem, você será mais famoso do que Gogol, Pushkin, Shakespeare ou Molière, ou mais do que todos os escritores do mundo; e daí?' E sairia sem resposta alguma". Tolstoi levava muito a sério a pergunta feita por Jesus: "Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?" (Mt 16:26).

Não é fácil desprezar um homem disposto a libertar seus servos e distribuir suas posses em obediência ao mandamento de Jesus. Outros nobres russos compravam e vendiam seus servos como quem negocia gado, agredindo violentamente aqueles que desobedeciam a suas or­dens - isto numa nação que se considerava o lar da pura Igreja de Cristo. Tolstoi libertou seus servos voluntariamente. Se outros tives­sem seguido a liderança dele nas questões de justiça, é possível que o pesadelo da revolução de 1917 jamais tivesse acontecido.

Como teria sido bom se Tolstoi tivesse vivido de acordo com seus ideais - ou se eu pudesse viver à altura deles! Apesar de ter estabele­cido diversas regras para si, Tolstoi nunca descambou para um legalismo raso. O título de seu livro The Kingdom of God is Within You fala corretamente, pois ele buscava absorver a lei moral ideal dentro de si.

Tolstoi dizia que os sistemas religiosos tendiam a promover as regras exteriores: o judaísmo fez isto, assim como o budismo, o hinduísmo e o islamismo. Mas Jesus apresentou uma nova abordagem ao se recusar a definir um conjunto de regras exteriores que seus seguidores pudessem suportar com um senso de autojustificação. Em uma passagem magis­tral, Tolstoi mostra essa distinção entre a abordagem de Cristo e as das outras religiões:

O teste da observância dos ensinos religiosos exteriores c se nossa conduta se conforma ou não com seus decretos (observar o sábado; ser circuncidado; entregar o dízimo). Tal conformidade é realmente possível.O teste da observância dos ensinos de Cristo é a consciência de nosso fracasso em atingir a perfeição ideal. O quanto nos aproximamos dessa per­feição não é mensurável; tudo que podemos ver é o tamanho de nosso desvio. Um homem que professa uma lei exterior é como alguém que está diante da luz de uma lanterna pendurada num poste. Há luz em toda a sua volta, mas ele não pode ir a lugar algum. Um homem que professa os ensinos de Cristo é como alguém que carrega uma lanterna diante de si em um poste longo, ou mesmo não tão longo: a luz está adiante dele, sempre iluminando lugares novos e sempre encorajando-o a ir mais além.

Apesar das pérolas de sabedoria de passagens individuais, os tex­tos de fundo religioso de Tolstoi, na maior parte, são erráticos e instáveis. Ele via "o tamanho" de seu desvio, e pouca coisa mais. Ao diagnosticar seus próprios esforços interiores, o que viu apenas o en­cheu de desgosto: fracasso moral, hipocrisia, infidelidade. Talvez seja exatamente por isso que poucas pessoas lêem atualmente suas reflexões espirituais. Como conselheiro, ele oferece mais desânimo do que espe­rança. Se Tolstoi mal podia ajudar-se, como podemos esperar que ele nos ajude?

Em resposta a tal crítica, Tolstoi respondeu que não devemos jul­gar os santos ideais de Deus pela inabilidade que tinha o escritor em cumpri-los; não julgar a Cristo a partir daqueles de nós que, de manei­ra imperfeita, carregamos o seu nome. Uma passagem em especial, ex­traída de uma carta particular, mostra como Tolstoi respondia a tais críticas no fim de sua vida. Ela se coloca como um resumo de sua pere­grinação espiritual, ao mesmo tempo que é uma gritante afirmação da verdade na qual ele acreditava com todo seu coração, e um plangente apelo pela graça que ele nunca conheceu plenamente.

"E quanto a você, Lev Nikolayevitch, você prega muito bem, mas faz aquilo que prega?" Esta é a mais natural das perguntas, uma que sempre me é feita. Normalmente, é feita de maneira vitoriosa, como se fosse uma forma de calar minha boca. "Você prega, mas como vive?" E respondo que não prego, que não sou capaz de pregar, ainda que deseje apaixonadamente fazê-lo. Posso pregar apenas através de minhas ações, e minhas ações são vis (...) E respondo que sou culpado, e vil, e digno de receber as críticas por meu fracasso em cumpri-las.

Ao mesmo tempo, sem ter o propósito de me justificar, mas simplesmen­te visando explicar minha falta de consistência, digo: olhe para minha vida atual e para minha vida passada, e você verá que não tento defendê-las. E verdade que não tenho cumprido a milésima parte deles [os preceitos cris­tãos], e me envergonho disto, mas deixei de cumpri-los não porque não quis, mas porque fui incapaz de fazê-lo. Ensine-me como não ser enredado pela tentação que me cerca, ajude-me, e eu os cumprirei; mesmo sem ajuda, eu desejo e espero cumpri-los.

Ataque-me — eu mesmo faço isto —, mas ataque a mim, em vez de culpar o caminho que sigo e que indico a todos aqueles que me perguntam onde acho que ele esteja. Se conheço o caminho de casa e ando por ele em­briagado, o caminho não deixa de ser certo simplesmente porque ando por ele cambaleante! Se não é o caminho correto, então mostre-me um outro; mas se cambaleio e perco o caminho, você deve me ajudar, deve manter-me na senda da verdade, assim como eu mesmo estou disposto a ajudá-lo. Não me leve por caminhos errados, não fique feliz por eu me perder, não se rejubile dizendo: "Olhe para ele! Disse que estava indo para casa, mas está se arrastando para um pântano!" Não, não se regozije, mas dê-me seu apoio e sua ajuda.

Fico triste ao ler os textos religiosos de Tolstoi. A visão de Raios X lançada sobre os corações humanos, que fez dele um grande romancista, tam­bém o transformou num cristão torturado. Como um salmão na época da desova, ele lutou correnteza acima em sua vida, desmoronando por exaustão moral. Quando criança, ele acreditava numa varinha verde, com a qual se entalhava palavras que iriam destruir todo o mal nos corações do homem, fazendo-lhe bem. Ele nunca encontrou essa varinha, jamais chegou a um acordo sobre a condição de decadência da humanidade, inclusive ele mesmo. Ele achava que sua própria vontade seria suficien­te para expulsar o mal, e ela o traiu. Em seu último romance, Ressurrei­ção, um de seus personagens percebe "muito claramente que o único meio seguro de salvação dos terríveis erros em que caíra a humanidade é que todo homem se reconhecesse um pecador diante de Deus e, por­tanto, incapaz tanto de punir quanto de restaurar a outros".

Mas também sou grato a Tolstoi pela busca incansável de fé au­têntica, que causou impressão indelével sobre mim. Tive meu primeiro contato com seus romances numa época em que estava sofrendo os efeitos retardados do abuso praticado pela Igreja. As igrejas nas quais cresci apresentavam muitas fraudes, ou pelo menos era assim que eu enxergava na arrogância da juventude. Quando percebi a fenda que separava os ideais do evangelho e as falhas de seus seguidores, fiquei profundamente tentado a abandonar aqueles ideais, considerando-os desesperadamente inatingíveis. Então descobri Tolstoi. Ele foi o primei­ro que, para mim, cumpriu a mais difícil das tarefas: tornar o bem tão crível e atraente quanto o mal. Descobri em seus romances, fábulas e contos uma fonte de poder moral.

A maioria dos escritores modernos explora a depravação e alguma coisa mais. Tolstoi, que bebera dessa depravação, mantinha-se acima dela, na direção de uma visão daquilo que poderia e deveria ser, rumo a uma regra de amor que ele sempre anelou e nunca descobriu. Sua luta vã ajudou a me convencer que meu completo fracasso em perceber a verdade não desvalorizava a própria verdade, mas, ao contrário, desta­cava minha necessidade de continuamente entregar-me à misericórdia de Deus. Uma idéia não pode ser considerada responsável por aqueles que dizem acreditar nela. Com Tolstoi, aprendi a responder aos críticos: "Ataque a mim, em vez de culpar o caminho que sigo". Graças a seu passado devasso, Tolstoi sabia que outros caminhos levavam para ain­da mais longe da verdade.

"Não serei órfão nesta terra enquanto este homem viver", disse Maxim Gorky, um dos mais talentosos contemporâneos de Tolstoi. Ele ergueu os olhares de uma nação inteira, e até hoje seus escritos levam essa mensagem ao mundo todo. Poucos anos atrás, um amigo meu, professor de Literatura, recebeu um desesperado pedido de ajuda de uma ex-aluna que servia num miserável campo de refugiados na Tailândia. Todos os dias, ela entrevistava pessoas que haviam escapa­do do Camboja e do Vietnã, ouvindo suas histórias de brutalidade e mal. Ela disse que quase não conseguia mais acreditar na bondade humana. Quase não conseguia mais acreditar em Deus, também. Será que meu amigo poderia enviar-lhe alguns livros que fossem capazes de ressuscitar-lhe a fé? Ele escolheu cinco livros, sendo que o primeiro da lista era Ressurreição, de Tolstoi. Este último romance fala do incansá­vel e insaciável amor de uma ex-prostituta que fora abusada por um homem que se sentia, agora, extremamente culpado pelo que fez. Essa obra representa o ponto mais próximo que Tolstoi chegou de entender o que é graça.

Um dos melhores romances de Tolstoi, Ana Karenina, termina com dois parágrafos que comentam o despertamento espiritual de Levin, um dos personagens principais. Levin diz: "O conhecimento alcançá­vel através da razão foi-me revelado pessoalmente, ao meu coração, abertamente e sem sombra de dúvida, e tento obstinadamente expres­sar esse saber por intermédio de palavras e de minha razão". Ao ler as palavras finais de Levin, não consigo deixar de ver nelas a projeção do próprio Tolstoi, tanto no que se refere à sua desesperada esperança quanto aos seus sonhos não realizados.



Este novo sentimento não me transformou, não me fez feliz nem me iluminou repentinamente como imaginei que fosse fazer - assim como o sentimento que tenho por meu filho. Não houve qualquer surpresa em relação aos dois. Mas quer ele seja fé ou não - e não sei o que ele é -, este sentimento entrou tão imperceptivelmente em minha alma através do sofrimento, e se alojou ali firmemente.

Ainda ficarei irado com meu cocheiro, Ivan, ainda discutirei e expres­sarei meus pensamentos em momentos inoportunos. Ainda haverá uma pa­rede entre o santo dos santos de minha alma e as outras pessoas, até mesmo minha esposa, ainda a culparei por meus próprios medos e também me arrependerei. Continuarei sendo incapaz de compreender com minha razão por que estou orando e continuarei a orar. Mas minha vida, minha vida inteira, independentemente de qualquer coisa que possa acontecer a mim, cada momento dela não será mais sem sentido, mas possuirá um incontes­tável significado de bondade, com o qual tenho o poder de investi-lo.

Eu poderia aceitar para mim este credo, reconhecendo, ao mesmo tem­po, uma teimosa imperfeição e incontestável bondade.

Ler Tolstoi e Dostoievski transformou minha visão daquilo que pode ser comunicado pelas palavras. Eu já havia lido muitos livros de Teologia e Apologética, com algum benefício e muita frustração. Alguns dos argumentos dos filósofos ateus, afinal, pareciam igualmente cons­trangedores num nível racional. Porém, quando li os dois russos, o cerne da fé cristã me alcançou mais profundamente. Conheci o poder da história, a verdade sendo expressa numa forma corpórea, indiscutível,incontestável. Conceitos como graça e perdão, que constituem o cora­ção do evangelho, tinham pouco espaço em muitos livros de Teologia. Comecei a entender por que Jesus gostava tanto de parábolas. O filho pródigo nos conta quase tudo que precisamos saber sobre redenção; o bom samaritano, o que precisamos conhecer sobre ética. Jesus con­trastou um fariseu - que estava muito bem sintonizado com a Teolo­gia - com um pecador que só podia clamar por ajuda; e era o clamor do pecador, naturalmente, que Deus ouvia.

Os próprios escritos de Tolstoi trazem o mesmo princípio, à medida que atravessam de um gênero para outro. Seus textos religiosos contra­dizem-se uns aos outros e se baseiam em racionalizações gritantes. Em suas melhores histórias, porém, o perfume da propaganda evapora. Os romances apresentam doutrina e ética não como idéias abstratas, mas como forças de vida encarnadas dentro de personagens reais. Seu retra­to ficcional da vida, a verdade sobre homens e mulheres que ele conhe­cera, observando-os com seu olho fotográfico, continham dentro de si o coração do evangelho que havia sempre escapado à sua busca racional. Tolstoi era muito melhor pintando um quadro sobre redenção do que a explicando.

É triste constatar que Tolstoi nunca permitiu que o evangelho trou­xesse conforto para sua própria vida. A. N. Wilson, um biógrafo de Tolstoi, comenta que "sua religião era uma coisa mais ligada à Lei do que à gra­ça; um plano para a benfeitoria do homem, em vez de uma visão de Deus alcançando o mundo caído". Com uma claridade cristalina, Tolstoi podia ver sua própria inadequação à luz do ideal de Deus. Mas ele não pôde dar o passo seguinte, de confiar na graça de Deus para superar essa limitação.

Pouco depois de ler Tolstoi, descobri seu compatriota Fyodor Dostoievski. Estes dois, os mais famosos e completos de todos os escri­tores russos, viveram e trabalharam durante o mesmo período da His­tória. Apesar de considerarem o trabalho um do outro com admiração, jamais se encontraram. Tal qual planetas que gravitavam ao redor das mesmas cidades, atraindo atenção e exercendo poderosa força, suas ór­bitas nunca se cruzaram. Talvez exatamente por isto: eles eram opostos em tudo.

Enquanto Tolstoi escrevia romances brilhantes e ensolarados, Dostoievski produzia peças introspectivas e soturnas. Tolstoi criava esquemas ascéticos para sua própria melhoria, e Dostoievski periodica­mente desperdiçava sua saúde e sua fortuna em casos, álcool e apostas. Tolstoi mantinha uma agenda de trabalho bastante disciplinada; Dostoievski normalmente trabalhava à noite, produzindo histórias num ritmo frenético com o objetivo de pagar suas dívidas de jogo. Milhares de peregrinos passaram pela casa de Tolstoi, buscando sabedoria; nin­guém sequer pensava em ir ao desordenado Dostoievski para buscar conselhos. Ele era socialmente inepto. Administrava tão mal o dinheiro que, às vezes, sequer podia pagar as despesas de postagem para enviar um romance completo para o editor. Sofria de epilepsia, e um ataque era capaz de deixá-lo prostrado por vários dias.

Dostoievski cometeu muitos erros na vida, mas conseguiu uma grande façanha na arte. Seus romances comunicam graça e perdão, o cerne do evangelho cristão, com uma força tolstoiana. Dostoievski en­sinou-me o remédio para os seguidos fracassos de Tolstoi.

Logo no começo de sua vida, Dostoievski passou por uma ressur­reição. Ele fora preso por pertencer a um grupo considerado traidor pelo czar Nicolau I, que, para mostrar aos jovens radicais a gravida­de de seus erros, encenou uma execução fictícia. Depois de passar oito meses na cadeia, aguardando a sentença, repentinamente, numa manhã fria, três dias antes do Natal, os conspiradores foram tirados de suas celas e transportados a uma praça pública onde, para deses­pero do grupo, um oficial lia a sentença que os condenava à morte. Eles não tiveram tempo de absorver a notícia nem a possibilidade de apelar. Um esquadrão de fuzilamento estava pronto para a execução. Com as cabeças descobertas, vestidos em mortalhas brancas, mãos firmemente atadas para trás, foram levados na neve, diante de uma multidão estúpida.

Um oficial pronunciava as palavras "o salário do pecado é a morte" para cada prisioneiro e uma cruz era levantada para que fosse beijada. Os três primeiros foram selecionados para morrer e, então, foram ata­dos a postes. No último instante, quando a ordem "preparar, apontar" foi dada, com os tambores rufando, rifles armados e colocados nos om­bros, um cavaleiro galopando trouxe uma mensagem pré-escrita pelo czar: por misericórdia, o soberano comutava suas penas para trabalhos forçados. Dostoievski, membro da nobreza, teve uma espada quebrada sobre sua cabeça em sinal de vergonha. Um dos prisioneiros caiu de joelhos e exclamou: "O bom czar! Vida longa ao nosso czar!" O outro teve um colapso nervoso do qual nunca mais se recuperou.

Ainda que de maneira diferente, Dostoievski também jamais se re­cuperou dessa experiência. Ele viu a morte muito de perto, e aquele momento de sua vida tornou-se incomparavelmente precioso. De volta à prisão, andava de um lado para o outro, cantando em absoluta alegria o fato de ter tido sua vida restaurada. Escreveu as seguintes palavras a seu irmão: "Nunca fervilhou em mim um tipo tão abundante e saudá­vel de vida espiritual como agora (...) Agora minha vida vai mudar, nas­cerei de novo numa nova forma". Dobrou cuidadosamente a mortalha para guardá-la como lembrança daquele episódio.

Sua próxima provação estava relacionada ao transporte para a Sibéria. Na badalada da meia-noite do dia de Natal, os guardas ataram pesadas correntes, com quase cinco quilos, às suas pernas e fizeram com que ele puxasse um trenó aberto como se fosse um cavalo. Por 18 dias, sob um frio congelante que lhe causou diversas ulcerações na pele, ele suportou esse trabalho cruel por toda a jornada. O comboio parou por alguns dias na Sibéria antes da dispersão final dos prisioneiros, e o co­mandante permitiu a visita de três mulheres, esposas de outros prisio­neiros políticos, que haviam se estabelecido ali para ficarem próximas a seus maridos. As três se lançaram à missão de dar boas-vindas aos no­vos prisioneiros e tentar trazer-lhes um pouco de conforto. Uma delas, uma mulher devotada que havia estudado Filosofia alemã e conhecia quase a Bíblia toda de cor deu a Dostoievski um Novo Testamento, o único livro permitido dentro da prisão. Ela sussurrou-lhe que ele deve­ria procurar com atenção; dentro do livro, ele encontrou dez rublos.

Crente de que Deus havia lhe dado uma segunda chance para cum­prir seu chamado, Dostoievski meditou sobre o Novo Testamento du­rante seu confinamento. "Ele estudou aquele precioso volume de capa a capa, ponderando cada palavra; decorou grandes partes do texto e nunca as esqueceu", escreveu sua filha Aimee, anos mais tarde. "To­das as suas obras estão saturadas dele, e é isso que dá poder a seus escritos." Mesmo depois de sua libertação, Dostoievski levava consigo aquele exemplar do Novo Testamento, e, em casa, mantinha-o numa gaveta de sua escrivaninha, sempre ao alcance da mão.

Dostoievski passou os quatro anos seguintes em trabalhos forçados e mais outros seis em exílio. No fim daquela década, ele emergiu com inabaláveis convicções cristãs, conforme expressas num credo que foi escrito à mulher que lhe dera o Novo Testamento: "Este Credo é muito simples e aqui está: acreditar que nada é mais belo, profundo, simpáti­co, razoável, varonil e mais perfeito que Cristo (...) Além do mais, se alguém me provasse que Cristo está fora da verdade, preferiria estar com Cristo a permanecer com a verdade".

Dostoievski sofreu terrivelmente enquanto esteve na prisão. Seu pro­blema com os nervos era tão grave que os ataques de epilepsia o atiravam ao chão, produzindo fortes grunhidos, espumando pela boca, com os membros em movimentos convulsivos. Era comum vê-lo internado no hospital, tratando do reumatismo e da epilepsia. Ele lamentava pro­fundamente não ter algo para ler, curvado diante da constante luta, machucado pelas correntes e ansioso por um momento de solidão, distan­te do burburinho - uma necessidade que ele considerava tão premente quanto comer ou beber. Durante os anos da prisão, ele não recebeu uma carta sequer de sua família.

Alguns de seus companheiros de sofrimento reagiam à punição com ódio e sede de vingança. É digno de nota o fato de Dostoievski ter volta­do à sociedade com uma alegria renovada na vida e com otimismo em relação à natureza humana. Ele guardava lembranças de permanecer por horas num vão da cerca, com a cabeça apoiada numa das estacas, olhando a grama verde e o profundo céu azul. Um dos locais de traba­lho era "o único lugar em que víamos o mundo de Deus: um horizonte puro e brilhante, as imensas estepes desertas, cuja simplicidade sempre causou em mim uma estranha impressão".

Ele se lembrava da bondade da mulher que lhe havia dado o Novo Testamento e de uma menina que viera correndo em sua direção quan­do andava pelas ruas na companhia de um guarda, gritando e dizendo: 'Aqui, pobre homem, tome um kopek, em nome de Cristo!" Ele manteve aquela moeda de pouco valor, bem como o Novo Testamento e a morta­lha, como um tipo de memorial. Ele se lembrava de um período de confinamento solitário, quando toda noite a janela da porta de sua cela se abria e uma voz anônima dizia: "Coragem, irmão, nós também sofre­mos". Aquelas pequenas notas de graça, interpostas no meio do sofri­mento, encontrariam lugar em seus romances posteriores.Acima de tudo, Dostoievski tinha uma satisfação imensa em celebrar o dom da vida. "A vida é um dom", escreveu ele horas depois da falsa execução. "A vida é felicidade; cada minuto pode ser uma eternidade de felicidade (...) A vida está em todo lugar, em nós mesmos, não no exte­rior." Depois de ser liberto, ele escreveu:

Ame cada folha, cada raio de luz.

Ame os animais, ame as plantas, ame cada coisa.

Amando tudo, você perceberá o mistério de Deus em tudo.

Eu não esperava este surto de alegria em Dostoievski. Li seus romances em um período obscuro de minha vida, depois de ter mergulhado em romances existenciais. Vivia numa ermida emocional. Afastei-me das pessoas e as julguei, aproximando-me de novos amigos com extrema cau­tela. As pessoas podiam me conquistar, sim, mas era exatamente isto, uma conquista. Vi meu caráter dormente na obra Underground Man (Memórias do subsolo), de Dostoievski, e depois prossegui para me encon­trar com seus outros personagens, cuja bondade transbordante fazia que eles se colocassem em total contraste. Era impossível deixar de no­tar o paradoxo: Tolstoi, que tinha tudo, acabou irascível e amargurado, enquanto Dostoievski, que havia perdido tudo, terminou agradecido e exuberante.

A prisão ofereceu a Dostoievski uma oportunidade única que, à pri­meira vista, parecia uma maldição. Ela o forçara a viver muito próximo de ladrões, assassinos e camponeses bêbados. A verdade é que, mais tarde, ele refletiu que a pior dor que sofrera na prisão fora o ódio incle­mente que confrontou em camponeses presos que o viam como alguém da classe superior que fora desprezado. Esta revelação veio como um grande choque, pois seus amigos aristocratas estavam liderando um movimento de reforma que visava restaurar direitos às próprias pessoas que, como ele via agora, desprezavam aqueles que lutavam por elas. A vida compartilhada com aqueles prisioneiros mais tarde o levou à cria­ção de personagens incomparáveis em seus romances, como o do assas­sino de Raskolnikov, em (Crime e castigo).

A visão liberal de Dostoievski sobre a bondade inerente da humani­dade não era capaz de explicar o mal em estado puro que ele encontrou em seus colegas de cela; sua teologia precisava se ajustar a essa nova realidade. Com o tempo, porém, ele também percebeu a imagem de Deus no mais vil daqueles prisioneiros. Como Tolstoi, ele descobriu que resquícios do cristianismo tradicional haviam sobrevivido nos cam­poneses, o que ele começou a ver como a única esperança de um novo começo. Ele passou a acreditar que uma pessoa é capaz de amar so­mente quando é amada. Dostoievski via como parte de sua missão a "restauração dos vis". Nos brilhantes e complexos romances que con­tinuaria a escrever, ele fez exatamente isto, redimindo diante dos olhos dos russos letrados uma classe de camponeses e criminosos proscritos. Ele mesmo começou a se ver como o filho pródigo no exílio, vivendo num país distante, entre as lavagens e os porcos. Todo condenado, con­cluiu ele, sente-se como o filho pródigo, que não está em casa, mas apenas de visita. A esperança - "estranha, impaciente e intensa esperança" -de que alguma coisa o espera fora dos muros da prisão é que mantém o prisioneiro vivo, literalmente. Para Dostoievski, a esperança por trás das barras tornara-se um símbolo da esperança eterna que ele sentira num relance quando ouviu a sentença de morte em praça pública. "Estare­mos com Cristo", disse ele instintivamente a um amigo a seu lado ("So­mos apenas um punhado de pó", respondeu, laconicamente, o amigo ateu). Dostoievski passou a crer na imortalidade como a única forma de entender a vida como qualquer coisa, menos algo sem sentido.

Naquela época, os intelectuais russos estavam flertando com a nova e empolgante filosofia do niilismo, a crença de que nada importa, que toda moralidade é arbitrária, que não existe um Deus benevolen­te governando o mundo, que todas as ações são determinadas por nos­sa biologia, que o amor é uma sensação física inseparável do desejo sexual. Depois de ser libertado de seu exílio, Dostoievski foi contrário a cada uma dessas colocações em seus textos. Em vez de discutir com eles, preferiu mostrar as conseqüências da disseminação daquelas idéias. Seu romance The Possessed (Os possessos), por exemplo, narra a história (baseada em fatos reais) de dedicados revolucionários que mataram um membro de seu próprio grupo por considerarem que esta seria a melhor maneira de resolver as diferenças com ele. Crime e castigo apre­senta o resultado de um "homem extraordinário", seguidor da filosofia de Nietzsche, que vivia acima dos padrões convencionais de moralidade e cometeu dois assassinatos simplesmente para saber como seria a ex­periência de matar alguém.Contudo, sempre existe uma nota tocante a soar. Foi nos romances de Dostoievski, na verdade, que pela primeira vez comecei a entender a graça não como um conceito teológico, mas como uma realidade viva, implementada num mundo em que ela está ausente. Apesar de Crime e castigo retratar um ser humano desprezível que comete um crime des­prezível, o bálsamo lenitivo da graça penetra na vida de Raskolnikov por intermédio da pessoa da prostituta convertida chamada Sônia, que o segue por todo o caminho até a Sibéria e o leva à redenção. "O amor os ressuscitou", escreve Dostoievski. "O coração de um proveu infinitas fontes de vida para o coração do outro." Em The Idiot (O idiota), Dostoievski apresenta uma figura de Cristo na forma de um estranho e imprevisível príncipe. Quieta e misteriosamente, o príncipe Myshkin movimenta-se entre os círculos da classe alta da Rússia, expondo sua hipocrisia, enquanto também ilumina suas vidas com bondade e verda­de. A cena final de O idiota apresenta, talvez, a mais tocante descrição de graça de toda a literatura: o príncipe "idiota" compassivamente abraça o homem que acabara de matar a mulher que ele amava.

Em um mundo regido pela Lei, a graça se levanta como um sinal de contradição. Queremos justiça; o evangelho nos dá um homem ino­cente pregado numa cruz, que clama: "Pai, perdoa-lhes". Queremos respeitabilidade; o evangelho exalta coletores de impostos, pródigos e samaritanos. Queremos sucesso; o evangelho inverte os termos, mo­vendo o pobre e o oprimido para o centro das atenções e os ricos e famosos para os bastidores. Tendo recebido a Cristo no desconforto de uma prisão siberiana, entre colegas de cela que zombavam de sua en­fermidade e desdenhavam de seus avanços, Dostoievski compreendeu a graça em sua forma mais contraditória. Ela avança sorrateiramente em seus romances, sem aviso, silenciando os céticos e desarmando os cínicos. Eles acham que têm a vida sob controle até que, de repente, um encontro com a pura graça os deixa sem fôlego.

Isto acontecera com o próprio Dostoievski. Pendurado em dívidas de jogo e com uma loja falida, ele havia se iludido com o plano inescrupuloso de um editor que passaria a deter todos os direitos de suas obras antigas se ele não entregasse um romance até certa data. Dostoievski postergou, sentindo sua criatividade totalmente bloquea­da até que o prazo restante era de apenas três semanas. A tarefa pare­cia impossível, e ele estava totalmente desesperado até que Ana, uma estenógrafa de 19 anos de idade, apareceu para ajudá-lo, Tendo sofrido um ataque epilético poucos dias antes, estava de péssimo humor. Tra­tou-a asperamente na primeira vez, xingou-a e reclamou de sua veloci­dade. Ela escrevia todas as suas palavras, trabalhando durante a noite indo depois para casa para copiá-las e, depois, apresentando uma cópia escrita a mão no dia seguinte. Com tais esforços sobre-humanos, ela o conquistou e tirou dele um romance, The Gambler (O jogador), que foi entregue duas horas antes do prazo final.

Neste ponto, Dostoievski já havia reconhecido todos os encantos daquela estenógrafa e lhe propusera casamento. Ana não sentia atração física alguma por ele, um viúvo desajeitado, 25 anos mais velho do que ela, com uma notória fraqueza pelo álcool e pelo jogo. Mas sentiu pena, e sabia que ele precisava dela. Com um considerável sacrifício pessoal, ela concordou com a união, mudou-se para organizar sua carreira e seu lar, dando a ele 15 anos de felicidade - "os anos milagrosos", como seus biógrafos chamam esse período, pois foi nessa época que Dostoievski produziu todas as suas obras-primas.

O último trabalho de Dostoievski, Os irmãos Karamazov, um dos maiores romances já escritos, traça o contraste entre Ivan, o bri­lhante agnóstico, e seu devotado irmão Alyosha. Ivan é capaz de anali­sar as falhas da humanidade e criticar qualquer sistema político criado para lidar com esses fracassos, mas não conseguia apresentar soluções. Alyosha não tinha resposta para os problemas intelectuais que Ivan levantava, mas dispunha de uma solução para a humanidade: amor. "Eu não sei qual é a resposta para o problema do mal", disse Alyosha, "mas conheço o amor". Ivan articula o caso e o expõe a Deus de uma maneira tão poderosa quanto ninguém jamais fizera depois de Jó. Alyosha, sem palavras e cheio de compaixão, se levanta e o beija suave­mente nos lábios - como Cristo fizera com seu atormentador no grande poema de Ivan, O grande inquisidor.

Os irmãos Karamazov contém todos os importantes elementos da própria vida trágica de Dostoievski: o brutal assassinato de seu pai nas mãos de seus servos, a experiência de ser desprezado no mundo da literatura, a prisão e a execução vexatória, os anos num campo de pri­sioneiros, casos extraconjugais, a tortura do amor não correspondido,epilepsia, enfisema, um casamento conturbado, a morte de filhos em fun­ção de doenças, o fardo de grandes dívidas, o jogo. Ele eslava estudando o Livro de Jó quando escreveu este romance, e não deixou de fora ne­nhuma de suas agonias pessoais. Dois meses depois de completar seu romance, como se não tivesse mais nada a dizer, Dostoievski morreu, praticamente sem dinheiro. Em seu colo, no momento de sua morte, estava o Novo Testamento que lhe fora dado na Sibéria tantos anos antes.

O escritor Frederick Buechner resume Karamazov como "um livro que é um enorme caldeirão em ebulição. É digressivo e expansivo, com diversos personagens, muito longo, mas é um livro que, justamente por Dostoievski ter deixado cheio de espaços abertos, é preenchido aqui e ali por, talvez, nada mais, nada menos que o próprio Espírito Santo, tornando-se, portanto, até onde posso entender (...) um romance que fala menos sobre a experiência religiosa do que um romance cuja leitura é uma experiência religiosa: de Deus, tanto em sua presença subterrânea quanto em sua apavorante ausência".

Quando li Os irmãos Karamazov pela primeira vez, percebi que me dava bem com Ivan. Eu tinha uma longa lista de reclamações contra o mundo. Meus argumentos contra a injustiça e a deslealda­de de Deus eram bastante fortes. Sentia ódio e ressentimento por Deus. Para citar Dostoievski, "não posso simplesmente ser devorado sem esperar que aquele que me devora seja louvado?" Torturado pela falta de amor no mundo, eu, porém, não estava fazendo nada sobre isto. Sentia falta do instinto de Alyosha pela bondade comum, por uma reação compassiva.

Foi então que comecei a ver o que Dostoievski havia aprendido na prisão: o Evangelho da graça permeia o mundo não primariamente por intermédio de palavras e argumentos racionais, mas através de atos, através do amor. As pessoas que eu estava aprendendo a admi­rar mais, como Paul Brand e Robert Coles, estavam expressando sua fé através de ações, de maneira encarnacional. Quando viajei para outros países - Brasil, Nepal, Filipinas, Quênia -, encontrei pessoas humildes que a cada dia enfrentavam problemas muito mais sérios do que eu podia imaginar, que não reagiam com paralisia ou ressentimento, mas com compaixão e amor. Dostoievski mostrou-me as conseqüências lógicas de uma vida baseada no niilismo e na dúvida. Servos cristãos me mostraram as conseqüências lógicas de uma vida baseada em fé e amor. Aprendi que seguir a Jesus não significa resolver todos os pro­blemas humanos - o próprio Cristo não tentou fazer isto -, mas, ao contrário, reagir como ele mesmo fez, contra toda a razão para dispen­sar graça e amor àqueles que menos mereciam.

Em geral, os intelectuais dos dias de Dostoievski não o consideravam muito convincente. Sua fé no cristianismo latente das classes menos favorecidas, seu apelo à caridade e à compaixão, sua desconfiança quanto às mais recentes teorias da engenharia social, tudo isso o expunha como um moralista à moda antiga, totalmente incapaz de abordar os proble­mas da Rússia moderna. Eles escolheram outro caminho, a trilha da moralidade baseada no utilitarismo, separado da transcendência. "Sem Deus, tudo é permitido", advertiu Dostoievski em Os irmãos Karamazov. O século xx mostraria quão presciente fora o escritor. "Os homens de­vem se curvar diante de alguma coisa", também escreveu ele. No caso da Rússia do século xx, os homens optaram por se curvar uns diante dos outros, conservando Lenin como uma relíquia num mausoléu e tratando Marx e Stalin como profetas. Na condição de ateus, adoraram homens-deuses, no lugar de adorar o Deus que se fez homem, obtendo os mais trágicos resultados que nosso planeta já presenciou.

No Templeton Address 47 de 1983, 102 anos depois da morte de Dostoievski, Alexander Solzhenitsyn reviu a trágica história da Rússia no século xx. Foi por intermédio da leitura de Dostoievski, disse Solzhenitsyn em outra oportunidade, que ele começou a entender pela primeira vez a primazia do espiritual sobre o material. Isto o levou a uma experiência de conversão, também em um campo de prisioneiros, o que mudou o rumo de sua vida e, por fim, afetou o destino de sua nação. Eis o que ele disse no Templeton Address:



Lembro-me que, meio século atrás, quando eu ainda era uma criança, ouvia várias pessoas mais velhas apresentarem a seguinte explicação para os gran­des desastres que haviam atingido a Rússia: "Os homens se esqueceram de Deus; é por isso que aconteceram todas essas coisas". Desde então, tenho passado quase 50 anos estudando a história de nossa revolução. Durante esse processo, li centenas de livros, colecionei centenas de testemunhos pessoais e contribuí com oito volumes de minha própria lavra no esforço de transpor o entulho deixado por aquele levante. Mas se hoje me pedissem para formular da maneira mais concisa possível a causa principal da perniciosa revolução que deu cabo de mais de 60 milhões de compatriotas, não poderia fazê-lo de modo mais preciso do que repetir: 'Os homens se esqueceram de Deus; é por isso que aconteceram todas essas coisas'."

Por que ela não funciona? Comecei com esta pergunta sobre a Igre­ja cristã, a fonte de muitas de minhas dúvidas essenciais. Os ideais cristãos suscitam admiração até mesmo de descrentes, mas como pos­so considerar esses ideais como bons se não sou capaz de colocá-los em prática? Dois grandes pensadores russos apareceram com diferentes respostas a essa pedra de tropeço da fé. Tolstoi fundou sua filosofia numa crença na perfectibilidade da natureza humana. Ela não fun­ciona porque não nos esforçamos o suficiente, concluiu, apesar de ter tentado mais do que qualquer pessoa e nunca ter conseguido resolver as contradições dentro de si, quanto mais as de outras pessoas. Dez anos na Sibéria tiraram de Dostoievski qualquer ilusão desse tipo: "Em todo homem, naturalmente, há um demônio escondido", diz seu per­sonagem Ivan Karamazov. Ele não discordava em aspecto algum de Tolstoi quanto ao caminho que a Rússia deveria trilhar, mas tinha, sim, muitas diferenças sobre como chegar lá.

Durante o período de exílio na Sibéria e antes de se casar com Ana, Dostoievski havia se casado por impulso com uma viúva que ti­nha um filho pequeno. Voltaram para São Petersburgo juntos, mas não foi um casamento mais feliz que o de Tolstoi. A epilepsia e o deslei­xo de Fyodor causavam repulsa a Maria. Ela entrava em surtos de ódio histérico, o que apenas pioraria a epilepsia do marido. Ele fez diversas viagens à Europa, parcialmente em busca da cura de seu mal, mas também para ficar afastado dela. Os dois não formavam um casal feliz.

Depois de sete anos de casamento, Maria Dostoievski morreu de tuberculose. Como lhe era característico, seu marido passara a maior parte do tempo em que a esposa esteve doente viajando pela Europa com uma moça de 20 anos de idade. Agora, voltando em função da morte da esposa, ele se senta na sala, ao lado daquela onde está o corpo, tomado pela saudade dos momentos felizes do passado, lamen­tando sua morte e arrependido de seu comportamento. Passa a noite toda em vigília ao lado do caixão, fazendo anotações à luz de velas. "Masha está sobre a mesa", começa a escrever. "Será que verei Masha outra vez?"

Suas melancólicas reflexões daquela noite levam-no a uma singular discussão sobre a imortalidade. Ao responder à pergunta se veria sua esposa novamente, Dostoievski ignora os argumentos tradicionais - da ressurreição de Jesus, digamos, ou da necessidade de equilibrar os pra­tos da balança da justiça - e transforma o documento numa espécie de confissão pessoal. Ninguém consegue viver à altura do ideal, admite. Não há quem seja capaz de amar seu próximo como a si mesmo. Nin­guém pode cumprir a lei de Cristo. Deus não poderia pedir tanto e se satisfazer com tão pouco. Somos feitos para algo que é muito maior que nós. É exatamente por isto, conclui ele, que devemos acreditar numa vida futura. Sem esta crença, nossa luta vã para satisfazer a lei de Cris­to não teria razão de ser. É nosso próprio desejo, nosso fracasso, nosso senso de imperfeição que faz que nos entreguemos à misericórdia de Deus. Nossa imperfeição nesta vida clama por uma realização mais com­pleta deste ideal.

Assim, Dostoievski adiciona uma nota de melancólico clamor, de graça, ao ideal cristão que ele compartilhava com Tolstoi.

Atualmente considero esses dois russos como minhas referências em espiritualidade porque eles ajudaram a responder a minhas dúvi­das interiores, lançando luz sobre um dos paradoxos centrais da vida cristã. De Tolstoi, aprendo a necessidade de olhar para dentro, para o Reino de Deus que está em mim. Nesta visão, percebo quão miseravel­mente distante estou dos ideais do evangelho. Mas a partir de Dostoievski, conheço a extensão total da graça. Não apenas do Reino de Deus dentro de mim: o próprio Deus habita ali. "Mas onde abun­dou, o pecado, superabundou a graça" é a forma como o apóstolo Paulo expressa esta verdade em Romanos 5:20.

Só existe uma maneira de todos nós resolvermos a tensão entre os altos ideais do evangelho e a triste realidade de todos nós: aceitar que nunca estaremos à altura, mas que também não temos de estar nesse patamar. Tolstoi acertou em partes: qualquer coisa que me faça sentir confortável com o padrão moral de Deus, algo que me faça dizer "final­mente cheguei lá", é uma cruel decepção. Dostoievski acertou a outra parte: qualquer coisa que me faça sentir desconfortável com o amor perdoador de Deus também é uma cruel decepção. "Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus", insistiu Paulo em Romanos 8:1. Tolstoi nunca entendeu isto completamente.

Ideais absolutos e graça absoluta. Depois de aprender os contra­pontos das mensagens dos romancistas russos, voltei a Jesus e per­cebi que isto é o que permeia seu ensinamento. Em sua resposta ao jovem rico, na parábola do bom samaritano, em seus comentários sobre o divórcio, o dinheiro e qualquer outra questão moral, Jesus nunca rebaixou os ideais de Deus. "Sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste", disse ele em Mateus 5:48. "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento" (Mt 22:37). Nem Tolstoi, nem Francisco de Assis, nem Madre Teresa de Calcutá, nem ninguém cumpriu totalmente estes mandamentos.

Mas o mesmo Jesus oferece, com ternura, a graça absoluta, tal­vez a mais notável característica distintiva da fé cristã. Deus nos ama não por aquilo que somos ou que fizemos, mas por aquilo que Deus é. A graça flui para todos aqueles que a aceitam. Jesus perdoou uma adúltera, um ladrão na cruz, um discípulo que o negou, mesmo conhecendo-o. A graça é absoluta e abrange todas as coisas. Ela se estende inclusive para as pessoas que pregaram Jesus na cruz: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" está entre as últimas palavras que ele disse aqui na terra (Lc 23:34).

Hoje, leio o Novo Testamento, especialmente as passagens como o Sermão da Montanha, com um espírito diferente daquele de minha adolescência. Jesus não pronunciou aquelas palavras exaltadas para que nós, como Tolstoi, enrugássemos a testa diante de nosso fracasso em alcançar a perfeição. Ele as proclamou para nos comunicar o ideal de Deus pelo qual nunca devemos deixar de lutar, e também para mostrar que nenhum de nós vai alcançá-los algum dia. O Sermão da Montanha nos força a reconhecer a grande distância entre Deus e nós, e qualquer tentativa de reduzir essa distância através da diminuição de suas exigências é em vão. Estamos desesperados, e este é, na verda­de, o único estado apropriado a um ser humano que deseja conhecer a Deus. Tendo falhado em cumprir o ideal absoluto, como Tolstoi, não temos outro lugar em que aportar senão em Dostoievski, no ninho tran­qüilo da graça absoluta.


LEON TOLSTOI E FYODOR DOSTOIEVSKI PARA INICIANTES


Os maiores romances de Tolstoi são Guerra e paz e Ana Karenina. Os dois, porém, são bastante longos, e os iniciantes podem preferir começar com suas obras mais curtas, que são igualmente encantadoras. Reco­mendo A morte de Ivan Ilyich, Master and Man (Mestre e homem), e The Kreutzer Sonata (A sonata a Kreutzer), assim como algumas de suas fá­bulas. Das muitas biografias de Tolstoi, a de Henri Troyat é considerada um clássico, enquanto o recente esforço de A. N. Wilson é mais arejado e subjetivo. William L. Shirer habilmente colocou o título de Amor e ódio no trabalho que focaliza o tortuoso casamento de Tolstoi, contando mais do que você gostaria de saber. Wilson também compilou seleções dos textos religiosos de Tolstoi em um volume fino chamado The Lion and the Honeycomb (O leão e o favo de mel), do qual extraí vários trechos deste capítulo.

Dostoievski produziu uma grande quantidade de romances lon­gos, sendo os mais importantes Os irmãos Karamazov, O idiota, Crime e castigo e Os possessos. A casa dos mortos traz informações sobre seus dias na prisão; Notas do subsolo teve um impacto maior na literatura existencialista posterior. Joseph Frank publicou quatro volumes de uma biografia de Dostoievski planejada originalmente para ter cinco volu­mes, um relato magistral de sua vida que nos apresenta o pano de fundo histórico e cultural, lançando luz sobre aquilo que aconteceu posteriormente na Rússia. Um livro produzido pela Hutterian Brethren 48, chamado The Gospel of Dostoevsky (O evangelho de Dostoievski), extrai explicitamente passagens religiosas de seus romances.




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