Alma sobrevivente



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5. Dr. Robert Coles

Vidas Calmas e as Agressões do Universo


Quando trabalha­va como editor da revista Campus Life, na década de 1970, mais de 200 revistas passavam pela minha mesa re­gularmente. Eu costumava empilhá-las até que for­massem torres altas e inclinadas para, então, passar um fim de se­mana inteiro virando suas páginas, num esforço para poder ver nova­mente a cor do tampo de minha escrivaninha.

Cerca de metade das revistas vinha de organizações cristãs, in­clusive missões, denominações, associações de jovens, universidades, gru­pos de aconselha­mento e de estudos. A outra metade era de fontes seculares, as revistas que você encontra em qualquer banca de jornal. Ficava sur­preso com o enorme abismo que havia entre os dois grupos. Os crí­ticos de Nova York certamente já tinham ouvido que 30 a 40 mi­lhões de cristãos nascidos de novo viviam em algum lugar dos grandes centros, mas qual deles já havia se encontrado com algum desses cris­tãos? Era até bem possível que eles sequer existissem, apesar de toda menção feita a eles. Enquanto isso, os cristãos estavam muito ocupados, construindo uma contra-sociedade - completa, com escolas, livrarias, estações de televisão e rádio, até mesmo anúncios de negócios, numa espécie de Páginas Amarelas cristã - e visando, com isto, se proteger dos ataques do mundo secular, cujo objetivo era sua destruição.

Passando pela pilha em uma tarde, deparei-me com o nome de Robert Coles no fim de um breve artigo intitulado "Por que você ainda acredita em Deus, na promessa da cruz?" na mais improvável das pu­blicações que estavam ali, na Harper's. Que tipo de pessoa poderia abordar uma questão tão transcendente em um artigo sobre fé pessoal numa publicação especializada em Nova York? Com o passar dos anos, pude ver o nome de Coles aparecendo nos mais improváveis contextos: uma resenha do escritor católico francês George Bernanos no New York Times Book Review; uma discussão sobre Kierkegaard e Pascal no New England Journal of Medicine; um tributo a Dorothy Day e ao movimento do Obreiro Católico na New Republic; outra resenha sobre Flannery O'Connor no Journal of the American Medical Association.

Enquanto outros cristãos lamentavam a tendência contrária da im­prensa secular em relação a artigos baseados em questões de fé, Robert Coles, um nome desconhecido para a maioria deles, estava escrevendo sobre o que queria, onde queria e a partir de um ponto de vista aber­tamente cristão. Comecei a vê-lo como um construtor de pontes, um escritor zeloso em quem eu podia confiar para me levar a outras pes­soas, muitas das quais se tornariam meus pastores virtuais, Para toda uma geração de alunos de Harvard, o professor Coles apresentou o cris­tianismo como uma incrível opção para o mundo moderno, e por inter­médio de seus escritos ele fez o mesmo por mim.

Em 1972, numa reportagem de capa, a revista Time chamou Coles "o mais influente psiquiatra vivo dos Estados Unidos". Eu pensava: "Quando é que ele acha tempo para exercer a psiquiatria?" Ele dava aulas na Harvard Medicai School, sim, mas também dava palestras sobre "a literatura da transcendência", o nome que ele dava à sua lista de romances preferidos que tratavam de temas espirituais. Ele parecia ser um homem com milhares de interesses, e todas as vezes que desco­bria um novo, escrevia um livro a respeito: um livro sobre o diálogo com o padre radical Daniel Berrigan; um livro de crítica literária sobre o romancista Walter Percy e outros sobre James Agee e George Eliot; biografias de Erik Erikson, Anna Freud, Simone Weil e Dorothy Day; um livro sobre Flannery O'Connor's South, coleções de conversas sobre os pobres, outras sobre direitos civis, trabalhadores rurais, esquimós, crian­ças ricas - mais de 60 livros ao todo, além de, pelo menos, mil artigos.

Seu mais impressionante trabalho, a série Children of Crisis, com cin­co volumes, possui mais de um milhão de palavras, e deu a Coles um Prêmio Pulitzer em 1973. Mais tarde, ele foi escolhido pela Fundação McArthur para receber a Medalha de Gênio, que incluía uma gratifica­ção em dinheiro que permitiu a ele ainda mais tempo livre para pesquisar e escrever. Em 1999, quando completou 70 anos, ainda estava produ­zindo, em grande quantidade, tanto livros quanto artigos. O presidente Clinton reconheceu seus feitos, dando a ele a Medalha da Liberdade, a mais alta condecoração civil dos Estados Unidos.

Durante o período que acompanhei a carreira de Coles, ele me aju­dou a entender uma das peculiaridades da profissão de escritor: a síndrome do observador. Escrever é um ato executado na solidão. Sou tentado a chamá-lo um ato psicótico, pois nós, escritores, construímos uma realidade artificial, habitada somente por nós, e que normalmente nos parece mais real que o próprio mundo "lá fora". Depois de ter hiber­nado por uma semana num projeto intensivo de escrita, sinto que pre­ciso passar por uma coisa parecida com uma reentrada na atmosfera, pois praticamente me esqueci como é manter uma conversação normal e como conduzir a sutil negociação que compõe o relacionamento hu­mano. Fico lidando com as palavras e idéias por um longo tempo, e, por mais difícil que possa parecer, é um processo muito mais ordeiro e con­trolado do que interagir com os seres humanos. O resultado é que nós, escritores, temos a tendência de nos afastar, segregarmos a nós mesmos, observando a vida sem verdadeiramente participar dela.

Por causa de meu histórico jornalístico, levo uma vida mais agitada que muitos escritores. Tenho viajado por lugares como Somália, Rússia, Chile e Myanmar, sempre para coletar material para escrever, é claro, mas a síndrome do observador nunca desaparece. Visitei um campo de refugiados na Somália no auge da fome que aquele país enfrentou. Trinta mil pessoas viviam em tendas improvisadas naquele campo nomeio do deserto. A cada dia, morriam de 40 a 50 crianças. Nunca me senti tão fraco. Enfermeiras aplicavam injeções, médicos administravam antibióticos e os capelães enterravam os mortos, enquanto eu, um jorna­lista, ficava ao lado, rabiscando notas e tirando fotos. Jamais meu tra­balho me pareceu tão deslocado, nem minha existência tão periférica.

A condição vicária, afinal, é coisa de escritor. Embora nem todo mundo possa visitar um campo de refugiados na Somália, se eu for bom o suficiente no meu trabalho, os leitores terão alguma idéia de como ele é e poderão até se dispor a ajudar. Visitei John Perkins no Mississippi e o Dr. Paul Brand na Índia. Mesmo tendo entrado em suas vidas por apenas alguns dias ou semanas, abro uma fenda atra­vés da qual as pessoas podem observar um mundo que, de outra for­ma, elas não veriam.

Em seu trabalho chamado adequadamente Conjectures of a Guilty Bystander, Thomas Merton fala sobre uma viagem que fez de seu mos­teiro até uma cidade próxima. "Em Louisville, na esquina da Fourth com a Walnut, no centro de um distrito de compras, fui repentinamen­te atingido pela percepção de que amava todas aquelas pessoas; que elas eram minhas e eu, delas; que não poderíamos ser como estrangeiros uns aos outros, embora fôssemos totalmente estranhos (...) embora os 'fora do mundo' [os monges] estejam no mesmo mundo que o restante das pessoas, o mundo das bombas, do conflito racial, da tecnologia, da comunicação de massa, dos grandes negócios, da revolução e do todo o resto."

Esse momento singular tornou-se uma epifania para Merton, que prosseguiu dizendo que a função da solidão é perceber algumas coisas -a unidade da raça humana, a maravilha da vida, a gloriosa impossibili­dade de se reproduzir uma pessoa qualquer - com a clareza que seria impossível a qualquer pessoa completamente envolvida no mundo, a não ser que esteja postada na borda, observando. "Não há forma de dizer às pessoas que todas elas estão caminhando, brilhando como o sol", disse ele.

Realmente não há. E, embora raro e com freqüência inconscien­te, mesmo o escritor hábil pode, rendendo-se aos detalhes das vidas comuns, refletir de volta para o leitor alguma coisa dessa radiância. Robert Coles fez isto por mim. Com seu estilo peculiar e pouco ortodo­xo, ele rompeu a barreira existente entre o observador e o participante, entrando em outras vidas, depois se afastando para uma solidão que permitia que as apresentasse a todos nós.

Apesar da origem em Harvard, Coles dificilmente se encaixaria no molde de um acadêmico que vive numa torre de marfim. Ele pratica um estilo pouco comum de pesquisa de campo, seguindo crianças de um lugar para outro, sentando-se no chão de suas casas, fazendo algu­mas perguntas, ganhando sua confiança. Ele vai para a escola no mes­mo ônibus das crianças, sentando em pequenos bancos sem forração e segurando as barras enferrujadas do assento da frente, enquanto o veículo sacoleja em seu caminho para a escola e na volta dela. Ficou conhecido como o "homem do lápis de cera" por pegar papéis de sua pasta e pedir que as crianças fizessem desenhos. Normalmente, os de­senhos revelavam mais coisas do que as palavras que elas diziam. Uma garotinha negra desenhava pessoas brancas mais altas que ela e com um alto grau de detalhes, como o número correto de dedos nas mãos e nos pés, enquanto retratava a si mesma faltando um olho, uma orelha ou até mesmo um braço.

De alguma forma, Robert Coles sempre conseguiu que as coisas em sua vida acontecessem da maneira correta. Ele atribui muita coisa à sorte dos primeiros anos. Sorte de ter despertado para a literatura nos primeiros anos da escola; sorte de um artigo sobre o médico e escri­tor William Carlos Williams tê-lo levado a conhecer o próprio Williams e, assim, fazê-lo escolher a Medicina como carreira; sorte de, como residente, ter tratado e conversado com Enrico Fermi; sorte de ter se ligado a Dorothy Day e à comunidade dos Obreiros Católicos; sorte de ter feito amizade com psicoterapeutas como Anna Freud e Erik Erikson, de ter estudado com teólogos como Reinhold Niebuhr e Paul Tillich e de ter se envolvido com Martin Luther King Jr. e o movimento dos direitos civis.

Contudo, as decisões tomadas depois de ter alcançado renome ele não atribui à sorte. Fez escolhas conscientes para penetrar nos pontos mais importantes do mundo, entrando às escondidas no distrito de Soweto durante o tempo do apartheid na África do Sul, visitando famí­lias brancas iradas durante os agitados dias da "Boston school busing", ouvindo católicos e protestantes amaldiçoarem uns aos outros na Irlanda do Norte, entrevistando famílias nas favelas do Rio de Janeiro e nos porões dos dissidentes da Polônia.Coles gosta de citar a obra Madame Butterfly, de Flaubert. "O discur­so humano é como uma chaleira quebrada na qual tamborilamos rit­mos primitivos para que os ursos dancem, enquanto desejamos fazer uma música que seja capaz de fundir as estrelas." Há momentos em que os discursos que ele coletou de crianças do mundo inteiro executam um ritmo primitivo e, às vezes, derretem as estrelas. De um jeito peculiar, as crianças lidam com questões profundas que têm atormentado a huma­nidade por toda a sua história. Na primeira vez que encontrei Coles, eu escrevia livros sobre o problema da dor, citando principalmente filóso­fos e teólogos. Encontrei nas entrevistas do psiquiatra expressões mais simples e pungentes sobre o problema. "Quando olho para o Jesus lá em cima [no alto do Corcovado, no Rio de Janeiro], fico imaginando o que ele está pensando", medita Margarida, de sua casa na favela. Sua mãe, doente, com tosse e sangramentos, trabalha num hotel em Copacabana, onde os ricos se divertem. Do alto daquela montanha, flutuando acima da neblina, Jesus deve ver tanto a favela quanto os hotéis de luxo, bem como o sacerdote que dirige um carro de luxo e mora numa casa bem grande. Por que ele se mantém calado?

Ou então, de volta a Massachusetts, não muito longe da casa de Coles, um menino judeu de nove anos de idade tem problemas com o conceito de justiça divina. Um advogado que se hospedou em sua casa mostrou-lhe o número que foi tatuado em seu braço quando esteve num campo de concentração nazista. O homem disse que, naquela época, deixou de acreditar em Deus pois Hitler quase venceu a guerra, o que fez o garoto ficar preocupado desde então. "Acho que ele nunca interfe­re; é isso que nosso professor de hebraico nos ensina, que Deus nem mesmo tenta parar ou começar alguma coisa. Não entendo como ele pôde ficar sentado e não ter feito nada para impedir Hitler. Se os judeus são o seu povo, então ele poderia ter-nos perdido. Perguntei ao meu pai: 'Então Deus teria chorado se todos os judeus tivessem morrido naque­les campos de concentração?' Papai disse que não sabe; ele não sabe se Deus ri ou chora ou o que ele faz."

É a mesma pergunta feita por Coles, numa escala mais ampla, du­rante uma de suas primeiras entrevistas, na época em que foi residente na ala pediátrica, durante o apogeu da epidemia de poliomielite. Coles perguntou a Tony, um garoto de 11 anos de idade, se poderia gravar a conversa. "Por favor, grave todas as palavras que vou dizer", respondeu o menino, com uma surpreendente paixão. "Posso estar morto ama­nhã, e esta será uma chance de minhas palavras viverem além de mim!"

Numa gravação de baixa qualidade técnica, é possível ouvir com dificuldade as palavras de Tony, entremeadas pela pulsação do pulmão mecânico que o engolfava. "Quando ouvi que havia uma epidemia de pólio, eu disse: 'Que chato, alguém vai ficar doente'. Nunca é você! É assim que a gente pensa: outra pessoa! Agora, sou eu; eu sou o 'alguém' (...) Você precisa estar aqui para entender como é que se sente numa situação assim! É como uma prisão - só que você não pode andar de um lado para outro na cela. Você não pode sequer respirar sem que a má­quina faça isto para você! Faço uma pergunta: 'OK, Deus, eu devo ter feito alguma coisa para merecer isto. Diga-me o quê'!"

Em um museu próximo ao escritório de Coles, em Cambridge, existe um tríptico pintado por Gauguin durante o fim de sua vida no Taiti, uma espécie de resumo final de sua arte. Por meio de palavras reais em francês, Gauguin rabiscou o verdadeiro significado da mensagem que ele queria transmitir, em três perguntas: "De onde viemos? Quem so­mos? Para onde vamos?" Os artistas não se expressam mais tão direta­mente, os filósofos abandonaram estas perguntas tão importantes há alguns anos, os cientistas oferecem respostas que não satisfazem e as universidades evitam a todas. Quase sozinho no mundo acadêmico, Robert Coles, o médico, vai contra a corrente, lançando tanto pergun­tas quanto respostas - ironicamente, por intermédio da voz de crian­ças. É evidente que a carência ainda existe: por vários anos, suas aulas têm sido as opcionais mais procuradas em Harvard, com algo como 600 alunos se espremendo, em pé, num auditório.

Em todos os aspectos, Coles tem forjado seu próprio caminho de iconoclastia e contradição. Sendo psiquiatra, ele expôs as ilusões de Freud e valorizou os "desequilibrados": mártires, São Francisco, Simone Weil, os profetas hebreus. Como acadêmico, ele desdenhou os jargões e foi aclamado por seus relatos coloquiais de conversas com crianças. Na con­dição de professor de Harvard, tomou ônibus escolares e se sentou no chão de pernas cruzadas com as crianças que ele cuidava nas escolas dos guetos. Médico melindroso demais para exercer a Medicina, termi­nou dando aulas de literatura. Apesar de ser um ícone cultural, respei­tado por organizações favoráveis ao direito de a mulher escolher se quer abortar e por organizações pró-homossexuais, falava contra o aborto ("Uma afronta ao Senhor") e o movimento gay.

Ao explicar sua dialética pessoal sobre a fé, Coles cita Pascal: "A natureza refuta os céticos e a razão confunde os dogmáticos". Um bom resumo do "homem do lápis de cera".

O próprio Robert Coles admite que sua vida só faz sentido quando 'vista em seqüência. Seu pai veio da Inglaterra, de uma herança meio judaica, meio católica. Físico formado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), via tudo que se relacionava à religião com ceticismo. Se o jovem Bob citasse Shakespeare na questão do céu, seu pai dizia: "Que céu? Mostre-me!" Se alguém falasse no Espírito Santo, ele perguntaria, pela milionésima vez, o que era o Espírito Santo. Em contraste a isto, a mãe de Bob, nascida na Igreja Episcopal, em Iowa, tinha uma inclinação religiosa, até mesmo mística. Ela levava os dois filhos à igreja enquanto o pai esperava do lado de fora, no carro, lendo jornal. Ela conhecia a Bíblia e o Livro de orações comunitárias, citando-os livremente a seus filhos.

Na adolescência, Bob Coles sentia-se puxado em direções opostas: por um lado, para o pragmatismo teimoso de seu pai; por outro, para o pietismo amoroso de sua mãe. Ele nunca sabia em que acreditar com relação a Deus. Mãe e pai, porém, estavam alinhados em seu amor pela literatura. Os dois liam George Eliot em voz alta para Bob e seu irmão, instilando nele um grande amor por Tolstoi e Dickens. Quando se tratava de questões morais, Bob aprendeu a pensar em termos de história, em vez de conceitos abstratos. Apesar de suas diferenças re­ligiosas, seus pais expressavam compaixão de maneira concreta. Sua mãe dedicava tempo a clínicas freqüentadas por pessoas pobres, dis­tribuía sopa a moradores de rua e a crianças que sofriam de câncer. Seu pai visitava os pobres e idosos nos leitos de hospitais e nas casas de repouso.

Bob foi tão bem nos estudos a ponto de poder entrar em Harvard, onde se formou em Literatura Inglesa. Ali ficou fascinado com a vida de William Carlos Williams, que exercia as carreiras de médico e poe­ta. A combinação tocou o jovem Coles no sentido de poder ajudar as pessoas através da Medicina e, então, refletir sobre aquelas experiências por intermédio de seus textos. Decidiu-se pela carreira médica, de ma­neira especial, pela influência de Williams.

Coles concluiu seus estudos em Medicina, mas foi se tornando cada vez mais perturbado. Passava muito mais tempo conversando com seus pacientes do que trabalhando no laboratório. Tarefas como dissecar corpos causavam-lhe repulsa; ele era incapaz de inserir agulhas em bebês sem ficar nervoso com seus gritos. Certa vez, quando pediram que retirasse sangue de uma veia no pescoço de uma criança, ele re­cuou. As exigências do trabalho o levaram a uma completa exaustão, e ele se pegou um dia olhando distante para as estrelas e as árvores. Leu poemas de Thomas Merton e se retirou para o Mosteiro Trapista de Merton no Kentucky para um período de contemplação e quietude. Deveria voltar para Harvard e estudar literatura? Ou deveria ser vo­luntário para trabalhar no Hospital Albert Schweitzer, na África? Seus professores recomendaram que ele fizesse psicanálise como uma ma­neira de ajudá-lo a reconsiderar seu futuro na Medicina.

A análise ajudou, mas de uma maneira inesperada. Coles sabia mui­to pouco de psicanálise - nada tinha lido sobre Freud -, mas a idéia de praticar Medicina conversando com as pessoas chamou sua atenção. Ele decidiu tornar-se psiquiatra. Coles saiu daquela residência com mais perguntas do que respostas. Ficava intrigado pelo fato de algumas pes­soas ficarem doentes enquanto outras que tinham um histórico igual­mente atribulado permaneciam razoavelmente sadias. A arrogância de sua própria profissão também o preocupava. Seus professores tinham uma tendência de explicar comportamentos colocando rótulos neles, ao passo que, para Coles, cada pessoa era inescrutavelmente complexa e misteriosa. Ele se lembra das visitas a pacientes que fazia com Williams e o respeito que aquele médico havia mostrado por pessoas que viviam em um mundo carente, em total oposição ao seu próprio. Enquanto ouvia seus pacientes recitarem suas histórias, Coles considerava tão im­portante honrar suas vidas quanto buscar uma "cura".

Mesmo enquanto estudava psiquiatria, ele se sentia cada vez mais atraído pelos romancistas. Paul Tillich havia recomendado Walker Percy, um médico que virou romancista. Coles devorou sua obra e encontrou nela uma representação da humanidade mais acurada do que a que via em seus livros sobre comportamento. Enquanto lia cada vez mais textos diferentes, Coles ficou abismado com o fato de um romancista como Fyodor Dostoievski ter mais insight sobre a psiquê humana do que qual­quer outro psiquiatra que ele já encontrara.

Coles começou a perder a confiança no método tradicional de psi­quiatria, que consistia em um especialista sentado a uma mesa, ouvindo seu paciente, por isso optou por um tratamento adequado. Ele precisava entrar na vida de seus pacientes para entender sua família, seu lar, sua cultura e sua condição econômica. Precisava atravessar a ponte entre o observador e o observado, entre médico e paciente. Conforme disse mais tarde, "precisava dar vida ao interior daquelas vidas", inclusive seus so­nhos, suas crenças e seus preconceitos particulares, suas piadas repenti­nas e seus comentários eventuais. Como Dorothy Day disse-lhe certa vez, "tenho uma noção de realidade aguçada em minha mente, mas ela se perde no caminho quando estou sentada numa mesa conversando com alguém, ouvindo tudo o que aconteceu naquela vida em especial".

Em resumo, ele aprendeu a dar atenção, ativa e agressivamente. Cada vida tem seu próprio mistério, sua própria história para ser contada. Ele estava determinado a descobrir qual era essa história e tentar traduzi-la para os outros. Sua abordagem estava grandemente afastada da tra­dição. Freud dissera que, quando você começa a perguntar sobre o sentido da vida, então está realmente doente. Robert Coles raramente perguntava outra coisa que não fosse isto.

No começo da década de 1960, houve dois momentos da vida de Coles que pareceram simples acidentes naquele momento, como interrupções não planejadas em seus compromissos. Mas agora eles se colocam como momentos críticos que o transformaram para sempre. Coles estava servindo na Força Aérea, dirigindo uma unidade psiquiá­trica próxima de Biloxi, Mississippi, quando, numa tarde de domingo, resolveu dar um passeio de bicicleta pela costa do Golfo do México. Dobrando uma esquina, ouviu sons de luta. Meneou a cabeça em de­saprovação, pensando por que alguém estaria brigando numa tão bela tarde de primavera, e resolveu parar para ver.

Uma guerra racial em miniatura estava se desenrolando. Algumas pessoas negras haviam tentado dar um mergulho numa praia reservada apenas a brancos, e uma multidão de brancos as cercou. Os dois lados estavam gritando uns para os outros. Ele viu um branco pisar sobre os óculos de uma mulher negra e quebrar seu relógio. O clima estava es­quentando, e Coles temia que a violência física pudesse irromper a qualquer momento. Sendo um ianque 29 magro e assustado, distante milhares de quilômetros de casa, ele preferia não se envolver com qual­quer afronta moral. Pegou sua bicicleta e foi embora.

Durante seu turno no hospital da base, Coles ouviu dois policiais conversando sobre um incidente na praia. Eles eram amigos, policiais gentis e corteses que haviam alcançado respeito. Mas naquela noite eles falavam em um tom ameaçador. "Eles estariam mortos agora se não chamassem tanta atenção", disse um deles. "Mas morrerão se tenta­rem fazer isso de novo." Coles não disse nada, mas sentiu-se profunda­mente tocado pelo drama que era vivido no Sul. Que princípio moral fazia com que aquelas pessoas negras arriscassem suas vidas sim­plesmente para serem os primeiros de sua raça a pisar na areia numa insignificante praia do Mississippi? E que força era capaz de colocar tanto ódio nos olhos de dois homens brancos tão pacíficos? Ele guar­dou para si estas duas perguntas.

Enquanto isso, a vida pessoal de Coles estava à deriva. Ao se juntar à Força Aérea, ele esperava ir para algum lugar exótico em que pudesse dar vazão aos desejos da juventude: São Francisco, talvez Havaí ou Ja­pão. Designado para o Mississippi, sempre se viu um pouco fora do esti­lo militar. Bebia bastante e lutava contra surtos de depressão. Na maior parte do tempo, estava melancólico e isolado, mais como uma pessoa que precisava de terapia do que alguém apto a aplicá-la. Preocupado, descobriu um psiquiatra em Nova Orleans e foi se consultar, dirigindo seu Porsche branco em alta velocidade todas as semanas, saindo da base no Mississippi e indo para a distinta região de Nova Orleans.

Certo dia, porém, ele teve problemas ao passar pelo distrito indus­trial de classe pobre de Gentilly. Tropas estaduais haviam interditado as principais estradas em função de um protesto racial. Ele se dirigiu ao centro de toda a comoção, uma escola primária. Ali, a primeira pessoa que viu foi Ruby Bridges, uma pequena menina negra de seis anos de idade. Ruby era a primeira criança negra a freqüentar a Escola Frantz, e todos os alunos estavam boicotando a escola em protesto. Escoltada por agentes federais (as polícias da cidade e do Estado se recusaram a protegê-la), a menina tinha de andar por entre uma multidão de pes­soas brancas que gritavam obscenidades e ameaças, balançando os punhos em sua direção. Coles descobriu que ela sofria essas ameaças todos os dias, freqüentando uma escola vazia para se sentar sozinha em sua sala de aula.

Enquanto observava aquela criança valente, ocorreu a Coles que ela era um caso ideal para se estudar os efeitos do estresse em crianças pequenas. Levou algum tempo para que ele ganhasse a confiança da família da menina, uma vez que nenhum branco havia entrado em sua casa antes. Ruby, porém, concordou em cooperar. Quando paravam de conversar, Coles pedia que ela fizesse desenhos.

Uma coisa impressionante aconteceu nos meses seguintes. O Dr. Robert Coles surgira como um especialista, um pediatra e psiquiatra com todo o prestígio de Harvard, Columbia e da Universidade de Chicago a lhe respaldar. Ele já havia tratado de uma criança negra desprotegida e sem estudo em Nova Orleans. Com o passar do tempo, porém, come­çou a perceber uma inversão de papéis. Ele era o aluno, não Ruby, e ela estava lecionando um curso avançado de ética.

À noite, Coles discutia com sua esposa, Jane, como ele reagiria em circunstâncias semelhantes. E se um grupo de homens e mulheres irados se alinhasse em frente ao Clube de Harvard para bloquear a entrada? O que ele faria? Chamaria a polícia, naturalmente. Mas em Nova Orleans, os agentes federais entraram em cena porque a polícia não estava do lado de Ruby, e ele se lembrou da conversa que ouvira daqueles dois policiais na base aérea. Ele chamaria seu advogado e conseguiria um mandado. A família de Ruby não conhecia advogado algum e não podia pagar por um. Por último, ele se levantaria diante da multidão, explican­do seu comportamento numa linguagem de psicopatologia e, talvez, até mesmo escreveria um condescendente artigo sobre eles. Ruby não conhe­cia tais palavras: ela estava simplesmente aprendendo a ler e escrever.

Então, o que fez Ruby Bridges em circunstâncias tão atemorizantes? Ela orou. Por ela mesma, para que fosse forte e não tivesse medo, e também por seus inimigos, para que Deus os perdoasse. "Jesus orou por isso na cruz", disse ela a Coles, como se isto encerrasse o assunto. "Perdoai-os, porque não sabem o que fazem."

Três outras meninas estavam freqüentando outras escolas sob as mesmas condições adversas. Coles começou a se encontrar com elas também, duas vezes por semana. Ele conheceu Tessie de maneira es­pecial, bem como sua avó materna, que saudava os agentes federais todos os dias às oito da manhã com a expressão "Senhor Poderoso, ou­tra bênção!", e então lhes entregava a pequena Tessie, que carregava sua lancheira para a escola entre os dois homens vestidos com ternos escuros e revólveres em seus cintos. Depois de enfrentar a multidão por dois meses, Tessie sugeriu que talvez devesse ficar em casa. Sua avó lhe deu um sermão: "Olhe, minha netinha, você precisa ajudar o Bom Se­nhor com seu mundo! Ele nos colocou aqui e nos chama para que possa­mos ajudá-lo (...) Você pertence à Escola McDonogh, e há de chegar o dia em que todos saberão disto, até mesmo aquelas pobres pessoas -Senhor, eu peço por elas! -, aquelas pobres, pobres pessoas que estão lá fora gritando para você. Você é uma filha de Deus, e ele tem colocado sua mão sobre você. Ele tem um chamado para você, um chamado para servir, em seu nome!"

Nos gráficos que Coles possuía sobre o desenvolvimento moral, o amor magnânimo pelos inimigos aparecia no topo, sendo um nível atingi­do apenas por pessoas como Jesus, Gandhi e um punhado de santos preciosos. Ele não tinha esperança alguma de encontrar tal filosofia sen­do vivida diariamente por meninas de seis anos de idade e suas famílias "privadas de cultura".

"Todas as suas notas eram A, mas ele era sempre reprovado no viver cotidiano", disse o romancista Walker Percy sobre um de seus personagens em The Second Corning. O Dr. Robert Coles começou a pen­sar se tal descrição não se aplicava também a ele.

UMA VOZ DE UM DOS LIVROS DE COLES:


No ano passado, fomos para uma pequena igreja de Nova Jersey (...) To­dos os nossos filhos estavam lá, inclusive o bebê. O reverendo Jackson esta­va lá - não consigo esquecer seu nome -, e pediu a todos que ficassem quietos. Disse que deveríamos estar felizes por morar neste país, pois ele é cristão e não "ímpio". Continuou falando sobre os outros países, não me lembro de quantos, que eram todos "ímpios". Então, meu marido perdeu a paciência: acho que alguma coisa aconteceu com seus nervos. Ele se levan­tou e começou a gritar, sim senhor. Levantou-se e falou com o reverendo Jackson, dizendo que ele calasse a boca e nunca mais falasse — não a nós, os migrantes. Meu marido disse a ele que voltasse para sua igreja, seja lá qual fosse, nos deixasse sozinhos e que não ficasse ali em pé, olhando para nós com aquela cara de bonzinho, como se estivesse nos fazendo um favor. Então ele fez a pior coisa que poderia fazer: pegou um bebê, a pequena Annie, e a segurou bem na cara do pastor, e berrou, gritou e esperneou, como nunca vi ninguém fazer. Não me lembro do que ele disse, as palavras exatas, mas ele falou ao pastor que aquela era a nossa pequena Annie, e que ela nunca tinha ido a um médico, e que estava doente, e eu e ele sabíamos disso, porque seu estômago não segura nenhuma comida e ela tem tremores, "e eu tenho medo que ela morra", mas que "com a graça de Deus ela vai sair dessa" e que "nós não temos dinheiro nem para Annie nem para nós mesmos".

Então ele levantou a Annie, colocando-a numa posição mais alta que o reverendo, e perguntou por que ele não orava pela Annie e orava para que os fazendeiros fossem punidos por aquilo que estavam fazendo a todos nós, os migrantes. O reverendo não respondeu, porque acho que ficou assustado. Então meu marido começou a gritar um pouco mais, sobre Deus e por que ele nos desprezava, enquanto tomava conta de todas as outras pessoas por aí (...) E segurou a Annie o mais alto que podia, perto da cruz, e disse a Deus que era melhor que ele não tivesse mais pastores falando por ele, e que ele deveria vir e ver com seus próprios olhos, e não deixar que os "pregadores" - ele os cha­mava "pregadores" - falassem por ele.

(Extraído de Migrants, Sharecroppers, Mountaineers)

Deixando em sua casa de Massachusetts todos os seus diplomas e licen­ças para exercer a Medicina, fornecidos pelas mais famosas universida­des do país, Robert Coles começou a se dedicar ao trabalho que tem executado nos últimos 40 anos. Alguns poucos contatos com pessoas como Ruby e Tessie o haviam inspirado. Ele começou a visitar a perife­ria, os trailers e as fazendas do Sul. Ele e sua esposa Jane, uma professora, começaram a conhecer as crianças, a visitar suas salas de aula e a dizer, tanto a elas quanto a seus pais, que eles queriam conhecer a vida das pessoas.

As primeiras entrevistas foram desajeitadas e desconfortáveis, pois as famílias viam os estranhos com suspeita. Durante as primeiras visitas, Jane e Robert não receberam sequer a oferta de um copo com água. Um amigo negro lhes disse: "Nenhum branco esteve por aqui, exceto aqueles que vieram tirar alguma coisa". No começo, os Coles apenas ouviam; depois de um tempo, começaram a tomar nota. Quando finalmente acharam que tinham ganhado a confiança deles, pegaram o gravador. Gradualmente, a família inteira se abria, como a esposa da família dos meeiros já mencionado.

Coles nem sempre conseguia - nem tentava - manter uma distinção entre observador e participante. Na cidade de Atlanta, enquanto estu­dava os primeiros dez adolescentes negros a integrar a escola pública dessa cidade, Coles ouviu falar do Comitê Coordenador de Não Violên­cia Estudantil, conhecido pela sigla SNCC e liderado por James Foreman e Stokely Carmichael. Ele lhes ofereceu seus serviços como médico e psiquiatra, e pediu permissão para entrevistar os alunos que traba­lhavam. Eles o deixaram arrasado. Oprimido, ele perguntou se havia alguma coisa que pudesse fazer para ajudar a causa. Jim Foreman res­pondeu: "Sim, você pode nos ajudar mantendo este lugar limpo!"

Nas semanas e meses que se seguiram, chegando ao período de um ano, ele serviu como zelador residente, varrendo o chão, passando aspira­dor de pó, lavando a louça, esfregando o banheiro. Ao fazer isto, ele perce­beu que metade dos pais negros que ele conhecia faziam o mesmo tipo de trabalho como sua principal ocupação. Agindo assim, ganhou o respeito relutante e a confiança dos estudantes, ouviu suas histórias ao longe e se juntou ao movimento em seu nível mais baixo. Chegou até mesmo a pas­sar um período na cadeia, quando a Casa da Liberdade do SNCC, no Mississippi, foi bombardeada e, pela lógica kafkiana 30 daquela época, seus moradores foram presos por perturbarem a paz. Em 1964, no último momento, ele mudou seus planos de acompanhar três defensores dos di­reitos civis que estavam empenhados em registrar eleitores no Mississippi, os quais foram encontrados mortos no fundo de um pequeno açude.

A partir dessas experiências, surgiu um fluxo de palavras que se tornou uma cascata. Coles e sua esposa editaram as transcrições das fitas, colocaram as idéias numa ordem lógica e tiraram conclusões so­bre aquilo que haviam aprendido. Um livro sobre os moradores do Sul dos Estados Unidos chamado Children of Crisis: A Study of Courage and Fear transformou-se no primeiro volume de uma série que incluía migrantes, meeiros e montanheses (volume 2); habitantes dos Apalaches e os pobres das cidades do Norte (volume 3); esquimós, latinos e índios (volume 4); e os filhos de ricos (volume 5). Baseando-se em conversas verdadeiras com crianças, ele procurava chegar a uma voz única, agindo meio como transcritor, como Studs Terkel, 31 e meio intérprete, como Bruno Bettelheim.32 Pelo menos ele tinha encontrado uma forma de combinar sua paixão pela literatura com seu treinamento científico.

O trabalho com pessoas comuns deu a Coles uma segunda forma­ção. Ele começou a conhecer as pessoas como indivíduos, não como membros de um grupo social. Encontrou, em diversas pessoas desampa­radas, uma reserva de força interior que ele não havia encontrado em moradores de bairros de classe média ou nas escolas dos mais favoreci­dos. Um trabalhador analfabeto, por exemplo, levado de caminhão por diversas fazendas pelo Sul do país, confinado em celeiros e galinheiros à noite, que recebe um dólar por hora como pagamento por um trabalho opressivo - de onde uma pessoa como essa tira forças para sobreviver? De acordo com o behaviorismo 33 que Coles aprendeu, essas pessoas de­veriam ter se enfraquecido pelas circunstâncias que viveram, ou, na me­lhor das hipóteses, ficariam totalmente exasperadas. Em vez disto, tal como muitos portadores de hanseníase que o Dr. Brand tratou na Índia, os pobres norte-americanos também mostravam momentos de transcendência e graça que desafiam qualquer explicação.

Os livros de Coles estão repletos de retratos verbais de pessoas que, de alguma maneira, colocam-se acima da miséria de suas vidas, como náufragos que, pela graça, encontram uma bóia salva-vidas. Como eles falavam muito de Deus, Coles começou a freqüentar a igreja com os pobres. Num primeiro momento, tendo em mente a idéia de que a igreja era um lugar solene, no qual se vivia uma experiência até certo ponto intelectual que não extrapolava uma hora, considerou a informalidade e a alta dose de emocionalismo algo assustador. Ele ia aos cultos, ouvia o canto e assistia à congregação e ao pastor com olhos frios e impassíveis, alerta a algum sinal indicativo da operação das forças psicossociais na religião dos pobres.

Por diversas vezes, ele viu migrantes e negros pobres e, sim, operá­rios brancos, profundamente transformados por aquilo que acontecia dentro de suas igrejas. Coles tinha de admitir que alguma coisa muito poderosa fluía livremente naqueles cultos, algo não facilmente explica­do pelo jargão que ele aprendera na faculdade de Medicina. Pessoas cansadas saíam renovadas; a força da opressão parecia aliviada; o ódio estava um pouco abrandado. Ele não encontrava categorias, a partir do treinamento que recebera, que pudessem explicar o que via:

Vou, porem, tentar. Meu palpite talvez esta seja a melhor forma de dizer - é o animado espírito do Espírito, como aconteceu de alguém como eu ver, ouvir e sentir esse Espírito atuando, tornando-se um evento. Ele é um evento: alguma coisa acontece, alguma coisa é feita; o adorador se sente tomado, sente-se não mais como alguém que fala sobre o Espírito, que apenas usa essa palavra, mas, ao contrário, como alguém que pelo menos está no caminho, pelo menos se propõe a fazer algo. Eu diria até ir a algum lugar. Nas igrejas rurais, algumas pessoas são movidas e transportadas, outras são elevadas e chamadas, outras usam os braços, as mãos e as pernas, outras se curvam, se esticam, dão voltas e, sim, definitivamente sim, chegam lá.

(Extraído de Migrants, Sharecroppers, Mountaineers)

O pobre não tinha respostas para as injustiças da vida. Teria sido apenas resultado de um nascimento acidental que o condenava a um ciclo de sofrimento e pobreza? Aquelas pessoas tinham pouco tempo livre para analisar tais questões. Mas quando eram perguntadas so­bre a fonte da força de suas vidas, normalmente apontavam para Jesus. Para elas, a religião não era uma muleta, mas uma fonte de inspiração. Elas encontravam em Jesus e na imagem da cruz um raio de esperança que os convencia de que Deus sabia de seu sofrimento. Como Fannie Lou Hamer costumava cantar nos campos de algodão do Mississippi e, mais tarde, na prisão: "O Senhor, tu sabes exata­mente como me sinto".

Uma mulher expressou seu estado desta maneira, em termos quase kierkegaardianos:34

Minha vontade não é o que importa: a vontade de Deus é que é impor­tante. Se ele quer que eu sofra assim, acho que ele tem suas razões. Você está aqui para provar sua confiança nele. Se alguém me oferecesse um milhão de dólares e dissesse que eu poderia ter tudo o que eu e meus filhos quiséssemos para comer, mas que tivesse de parar de pensar nele e come­çasse a pensar apenas em mim, então eu teria certeza de que estava realmente entrando numa encrenca. Começaria a me preocupar comigo mesma. Eu "espero" que o faria. Eu espero que me lembraria de Jesus. Ele nos advertiu sobre pensarmos em nós mesmos, e não nele. Ele pediu muito de nós.

(Extraído de Migrants, Sharecroppers, Mountajneers)

Coles refletiu sobre as circunstâncias peculiares da vida que Deus havia escolhido para vir à Terra. Como sua mãe costumava lembrá-lo, ele veio como carpinteiro, associou-se a pessoas simples e pescadores, não como um doutor, advogado ou professor universitário. Nas pala­vras do pai de Annie, Deus veio para "ver com seus próprios olhos".

"Nós temos a mente de Jesus Cristo em nossas cabeças", disse um agricultor migrante numa entrevista, e, naquele tempo, Coles pensava como um doutor, imaginando que aquele homem estava bêbado, era louco, estava delirando ou era lento no pensamento. Somente mais tarde, quando Coles parou para refletir como a mente de Jesus Cristo podia ser realmente vivida - em solidão e afastamento, em dor, em escárnio, isolamento, solidão, a "mente" do kenosis, ou vazio -, é que ele conseguiu enxergar a profunda verdade daquilo que o homem havia dito. "Você sabe que ele não precisava vir aqui", disse uma menina, referindo-se a Jesus.

Em seu trabalho com os pobres, Coles tentou evitar a armadilha de romantizar a pobreza e ver a religião como uma consolação que mantinha os pobres calmos. Ele fez lobby no Congresso e escreveu em jornais liberais para apoiar os programas sociais e o programa Guerra à Pobreza. Mesmo assim, ele não podia negar a realidade da vida de fé entre as pessoas com as quais vivera. Entretanto, quando ele escrevia sobre o efeito da religião sobre os pobres, os revisores o saudavam com um educado silêncio. Aplaudiam suas pesquisas de campo e seu refi­nado retrato da experiência da pobreza. Citavam-no com freqüência. Mas o ignoravam nesta área - a da religião -, que parecia a Coles ser mais importante para os pobres.

Coles chegou a acreditar que aquilo que aprendera na escola sobre religião - que, como "ópio do povo", ela anulava a indignação moral e política - era um mito perpetrado pelos cientistas sociais sem religião que tinham pouco contato real com os pobres. Junto aos pobres que ele visitava, quer estivessem na África do Sul, no Brasil, no norte da Irlan­da ou nos Estados Unidos, a fé religiosa normalmente aguçava, em vez de anular, a indignação e a afronta. Ele leu outra vez os pronunciamentos dos profetas hebreus e os de Jesus. E viu pessoalmente o resultado prá­tico daquela mensagem entre as "comunidades de base" na América Latina, entre os negros da África do Sul e os inflamados pastores que lideraram o movimento dos direitos civis no Sul dos Estados Unidos.

Como lhe disse um jovem que protestava em Birmingham, Alabama, em 1965: "Não sei por que disse 'não' à segregação. Sou apenas mais um sulista branco, ensinado desde pequeno a não concordar com a integração racial. Mas fui ensinado a amar a Jesus Cristo, e quando vejo os policiais da cidade atiçando cães contra o povo, pergunto a mim mes­mo o que Jesus teria feito - e isso é tudo o que sei sobre ter chegado até aqui, na linha de fogo".

Com o passar dos anos, enquanto lia os textos de Robert Coles, eles surtiam um efeito peculiar em mim. Coles deixa que as pessoas que ele entrevista falem por si mesmas, o que leva alguns leitores a reclamar, dizendo que o acúmulo de vozes pode ter um efeito de entorpecimento. Para mim, porém, elas são acompanhantes que me levam a fazer uma nova visita ao meu passado, dessa vez com os tapa-olhos retirados.

Cresci num dos lugares onde Coles trabalhou. Enquanto ele aconse­lhava os dez adolescentes negros matriculados em escolas públicas em Atlanta, eu freqüentava o segundo grau no município vizinho de De Kalb, numa área tão infestada pela Klan que nenhum estudante negro ousava quebrar a barreira da cor.

Na igreja, eu ouvia James Foreman, Stokely Carmichael e os volun­tários da SNCC serem denunciados como agitadores estrangeiros, agen­tes comunistas enviados para fomentar a revolução. Anos mais tarde, através dos olhos de Coles, pude vê-los como realmente eram: jovens idealistas, comumente motivados por sua fé, que incluíam o termo "não-violência" tanto no nome de sua organização quanto em sua missão. Treinavam como soldados, porém nas táticas de não-violência aperfei­çoadas por Gandhi e pelo Dr. Martin Luther King Jr. O grupo chamado Freedom Riders (Cavaleiros da Liberdade), muitos deles adolescentes, mostrou enorme bravura ao entrar em um ônibus da Greyhound,35 de­terminado a ficar nas salas de espera do Alabama e do Mississippi. Em cada parada, uma turba de brancos os recebia com garrafas, tijolos e canos de ferro. Às vezes, o ônibus não parava, passando velozmente pela multidão e se dirigindo à próxima parada. Em outros momentos, o ônibus fazia a parada e os voluntários desciam desarmados para enfren­tar a violência. Então, com bandagens improvisadas sobre suas cabeças ensangüentadas e costelas quebradas, eles entravam novamente no ônibus e continuavam sua jornada, interrompida quando uma bomba explodia à beira da estrada.

Encontrei não apenas defensores dos direitos civis nos livros de Coles, mas também vi brancos pobres e preconceituosos, como as pes­soas entre as quais cresci. Tentei me desvencilhar delas, ficar acima delas, dissociar-me delas e colocá-las para fora de minha mente; e con­segui, em parte, colecionando diplomas e me mudando para Chicago. Quando ouvia as vozes de Coles, pessoas de minha infância voltavam à minha mente, especialmente os vizinhos do trailer em que vivi. Meu amigo Neal, que nos procurou em busca de abrigo quando seu pai bêbado avançou para cima de sua mãe com uma garrafa de cerveja, estilhaçando os vidros de um carro enquanto ela apertava a buzina em desespero, gritando por socorro. Gypsy Joe, o lutador profissional de visual ensebado que usava rabo-de-cavalo e que tinha um estacio­namento para trailers na estrada, sujeito que se acostumara a fazer lutas falsas, mas, ainda assim, perigosas todas as semanas no centro de Atlanta. Meus colegas de 12 anos de idade que fumavam nos bos­ques e brincavam de guerra em volta da estação de tratamento de esgoto perto de casa, e que arrombaram um trailer em que um homem havia morrido de tanto beber e estava prostrado, morto, havia uma semana, até que o cheiro invadiu todo o parque.

São pessoas assim que aparecem nos livros de Robert Coles. Duran­te a viagem de recapitulação pela qual ele me levou, pude perceber que eu havia trocado o velho fundamentalismo por um de outro tipo, que nascera do esnobismo, em vez da ignorância. Quão alegremente eu apontava os pecados e falhas das igrejas da minha infância, e como ra­ramente eu me detinha nas coisas boas que também encontrava ali. Costumava desprezar os negros; hoje, desprezo os racistas. Uma grande parte da história oscila em torno de polaridades: pobres contra ricos, brancos contra negros, católicos contra protestantes, muçulmanos con­tra hindus, israelenses contra árabes, sendo que a religião ergue uma ou mais barreiras. Coles, quase sozinho, tem tentado avaliar a dignidade presente nos dois lados simplesmente deixando que eles falem, valori­zando cada ser humano em toda a sua plenitude.

Coles fala de um sermão improvisado que Martin Luther King Jr. proferiu um dia "aos irmãos e irmãs do movimento", no escritório do SNCC. Os voluntários estavam cansados da oposição implacável e tinham poucas vitórias para mostrar por todos os esforços no registro de eleitores e na luta contra o desmantelamento das leis de integração. King temia que os estudantes ficassem amargurados e, em represália, devolvessem aos seus oponentes o mesmo espírito de hostilidade que estavam rece­bendo - em outras palavras, tornar-se inimigos. King lhes disse:



Um grande perigo para nós é a tentação de imitar as pessoas a quem nos opomos. Elas nos xingam, então nós também as xingamos. Talvez não chamemos ninguém de "peão" ou "zé-ninguém"; para eles há nomes com um verniz sociológico ou psicológico, certo lustro; mesmo assim, porém, são nomes- "ignorante" ou "mente fraca" ou "pateta" ou "histérico" ou "branco-pobre" ou "consumido pelo ódio". Eu sei que vocês podem me apresentar muitas provas defendendo essas categorias. Mas eu lhes peço encarecidamente que as considerem como tais - como categorias; e lembro-lhes que em muita gente, em muita gente chamada de segregacionista, há outras coisas que fazem parte da sua vida: esta ou aquela pessoa, que está aqui ou acolá, pode ser outra coisa também - bondosa com os vizinhos e a família, prestativa e jovial no trabalho.

Vocês sabem, penso eu, o que estou querendo dizer - que devemos fazer um esforço para não acabar usando estereótipos em relação àqueles a quem nos opomos, exatamente como eles nos enfiam a todos nós nos seus estereóti­pos. Quem somos nós? Não vamos proceder em relação a nós mesmos como outros (no papel de nossos opositores) fazem conosco: tentar encaixar a todos nós numa categoria única que tudo abrange - os virtuosos em oposição aos maus, os decentes em oposição aos maliciosos, preconceituosos, os bem instruí­dos em oposição aos ignorantes. Vocês podem ver que eu poderia encompridar e muito essa lista - e ali está o perigo: a mentalidade "nós" ou "eles" predo­mina, e nós de fato corremos o risco de cerrar fileiras exatamente com as pessoas a quem nos opomos. Eu me preocupo muito com isso nestes dias.

(Extraído de The Call of Service )

Lendo as palavras de King e a reação de Coles, percebi que o próprio Coles havia me alertado sobre essa tentação. Eu havia me tornado o iluminado, pensador e culto observador cultural - a perigosa posição contra a qual Coles havia batalhado a vida toda, a arriscada postura do fariseu. Eu precisava redescobrir a verdade niveladora do evangelho de Jesus, que tem mais atração pelo filho pródigo do que por seu irmão responsável e bem-sucedido. Carecia de uma mudança tanto no cora­ção quanto no pensamento. Assim como King buscava perdoar aqueles que o feriam, eu precisava perdoar a igreja que havia me machucado, ou então seria deixado com um evangelho de Lei, e não de graça; de divisão, em vez de reconciliação. Em seu trabalho prático, Coles tinha incons­cientemente descoberto um Jesus radical que havia exposto minha pró­pria necessidade, até então mascarada.

Coles recorda uma viagem que fez de carro para Boston, saindo da Flórida, onde havia passado um tempo com trabalhadores migrantes. Por vários meses, ele foi o modelo de sensibilidade e compaixão, entran­do nas cabanas dos migrantes, ganhando sua amizade, tratando-os com respeito, extraindo palavras deles, dando-lhes conselhos médicos. Mas quando atravessou a divisa estadual e parou por um instante para fazer um lanche num café da Geórgia, ele se pegou desprezando a garçonete que levou tempo demais para colocar mais café em sua xícara. Pouco tempo se passara, e ele já estava se apoderando dos direitos ao privilégio. Logo estaria de volta à sua casa amarela em Cambridge, com uma BMW estacionada na garagem.

Com Coles, pertenço a uma minoria privilegiada. Todos aqueles que estão lendo esta frase pertencem, na verdade, a uma pequena porcentagem das pessoas do mundo que têm tempo e habilidade para ler e possuem recursos para comprar um livro. Como é que nós, os privilegiados, agimos como mordomos da graça que recebemos? Podemos começar, conforme dito por Coles, tirando os rótulos que tão impru­dentemente colocamos naqueles que são diferentes de nós. Podemos começar buscando uma comunidade que valoriza a compaixão pelos fracos, um instinto que o privilégio tende a suprimir. Podemos come­çar com humildade, gratidão e reverência, e então prosseguir orando sem cessar pelo maior dos dons, o amor.

Como Martin Luther King Jr. disse a Coles, em uma entrevista:

Comecei a pensar na dificuldade que tantas pessoas têm de viver sem alguém a quem possam desprezar, mas desprezar mesmo. Não se trata de aplicar um golpe em alguém. Trata-se de sentir compulsão a olhar para dentro de si e ver aquilo que gosta. Meu coração se condói por pessoas que são chamadas "cai­piras". Elas têm tão pouco - quando têm algo -, e o ódio é uma posse na qual elas podem confiar, e que funciona para elas. Tenho menos pena de pessoas abastadas e estudadas por causa de seus comentários maliciosos, espertamente racionalizados, pela forma como mobilizam suas justificativas políticas e até mesmo morais para alcançar seus propósitos. Ninguém pede que elas se justifiquem. A Klan é seu bode expiatório. Algum dia, todos veremos que, quando começamos a perseguir uma raça, uma religião, uma etnia, uma região ou qualquer setor da humanidade do Senhor, estamos enfiando uma faca em seu coração, e nós mesmos sangraremos.

(Extraído de Simone Weil: A Modern Pilgrimage, de Coles)

Depois dos quatro volumes de Children of Crisis, concentrando-se nos grupos menos favorecidos em termos de direitos, Coles faz uma mudança em seu quinto volume, chamado The Privileged Ones: The Well-off and the Rich in America. Apesar de seguir o mesmo estilo de entrevista que havia aperfeiçoado em seu trabalho com os pobres, ele teve mais dificuldades para se aproximar dos ricos: barreiras de sus­peitas efetivamente se levantaram e impediram que ele alcançasse o interior de suas vidas.

Por 15 anos, Coles ouvira os pobres falar "deles", os privilegia­dos, os abençoados, aqueles que tinham comida sobre a mesa, médi­cos à disposição, educação, alguns carros e uma casa própria, sem nenhum senhorio. Mas o que tal conforto produziu? Eram os ricos mais felizes? Tinham mais paz? Eram mais agradecidos? Mais uma vez, o psiquiatra Coles encontrara paradoxos na natureza humana que pareciam desafiar as mais elaboradas formas behavioristas que ele aprendera - o mesmo paradoxo que romancistas como Tolstoi e Dickens haviam explorado tão magistralmente. Entre os pobres, ele esperava encontrar derrota e desespero; encontrou um pouco, sim, mas também encontrou força, esperança e coragem. Entre os ricos ele esperava satisfação e, em vez disto, encontrou fastio, alienação e decadência.

Coles explicou a ironia de seu título, Os privilegiados, a um jornalista:



Há uma visão de que a ansiedade, a dor e o medo são partes integrantes da vida, que o próprio Deus assumiu uma vida assim, que ele viveu sob constan­te ansiedade, dor e medo, e terminou como um criminoso comum pendurado numa cruz para morrer. Agora, se você considera este tipo de existência como uma coisa muito importante e como um modelo de destino, então terá difi­culdades para se tornar uma pessoa bem-sucedida, pois trata-se de um contraponto ao que aprendeu sobre o que significa ser de uma família de classe média. Você enfrenta um dilema moral.

(Extraído da revista Sojourners)

Muitos dos defensores dos direitos civis da década de 1960 que Coles entrevistou vieram de tais famílias de classe média. Seus pais os per­turbaram com a idéia de conseguir um bom trabalho e ter uma boa renda. Um deles reagiu da seguinte maneira às orações preocupadas de sua mãe a seu favor: "Fico pensando o que Jesus diz ao ouvir suas orações. Fico com vontade de responder a ela, perguntando se Jesus teve algum emprego fixo, ou até mesmo se ele encontrou uma vocação. Jesus, o pregador migrante, aquele que se tornou tão impopular e per­turbou tanto os grandes e importantes que foi crucificado".

Ao trabalhar com os pobres e oprimidos, Coles ficou maravilhado com a maneira pela qual as suas vidas refletiam os profetas e o próprio Jesus. Talvez tenha sido por isso que eles encontraram conforto na reli­gião, sendo também a razão pela qual os críticos tão cuidadosamente ignoravam o que eles tinham a dizer sobre isso. As igrejas de classe média normalmente são agradáveis, tranqüilas e inofensivas, com cultos de ado­ração previsíveis e controlados. O próprio Coles, um produto da minoria privilegiada, começou a se admirar com sua própria resistência ao poder de um evangelho radical. Ele não podia fechar os olhos à discrepância entre os ensinamentos bíblicos sobre justiça e integridade e as vidas que as pessoas privilegiadas tendem a ter, marcadas pela ganância, pela com­petição e pelo status. Qual era a mensagem do evangelho para os abasta­dos? E para ele mesmo? Enquanto estudava a mente dos privilegiados, Coles percebeu que estava explorando a sua própria. Para sua vergonha, descobriu dentro de si muitas das mesmas tendências problemáticas.

Ele notou que as pessoas confortáveis estavam inclinadas a ter um sentimento de compaixão atrofiado, provavelmente mais dispostas a amar a humanidade como um todo do que a se envolver com uma pessoa em particular. Ele mostrava compaixão? Como aluno de Harvard, lembra-se, com profundo remorso, que tratava a faxineira do alojamento como uma serviçal inferior, mesmo obtendo nota "A" nas disciplinas ligadas à ética.

E quanto à arrogância? Como médico, sofria essa tentação todos os dias. Além do mais, ele era um especialista, o curandeiro que viera para salvar os inferiores. Orgulho? O que realmente o motivava a conseguir os diplomas, receber os prêmios, escrever todos os livros? Egoísmo? Ele era generoso, é bom dizer, mas ele se dava ao luxo de ser generoso. Nun­ca passara por necessidades, que é a situação diária de muitas pessoas pobres.

Coles refletiu sobre estes assuntos em seu quinto volume, o livro que ele considera o melhor da série, mas o mais desprezado pelos críticos. Por fim, ele passou a crer que a mais perigosa das tentações é a tentação da fartura. A riqueza amaldiçoa com uma das mãos aquilo que aben­çoou com a outra. A conclusão de Coles é que ser privilegiado leva a um abafamento da compaixão, a uma restrição da comunhão e ao cres­cimento da ambição.

Filhos ricos que tentam romper com seu ambiente seguro e respon­dem ao chamado da consciência representam uma ameaça aos outros. Coles entrevistou um filho de uma família muito rica da Flórida que tivera contato com os ensinamentos de Jesus com a idade de dez anos. Começou a repetir algumas das afirmações de Jesus na escola - como é difícil um rico entrar no céu e que os pobres herdarão o Reino. Suas perguntas se tornaram um tormento para os pais, os professores e o médico da família. Seus pais deixaram de levá-lo à igreja e marcaram consulta com um psicoterapeuta para curar seu "problema".

Analisando os ricos e pobres que veio a conhecer, Coles ficou choca­do com as ironias. Era verdade que os pobres eram amaldiçoados. Ele havia tratado de mineiros com doenças pulmonares e crianças mal-nu­tridas como Annie, que fora apresentada pelo pai diante da cruz (ela morreu aos três anos de idade). Mas, de uma maneira estranha, porém inegável, os pobres também eram abençoados, por qualquer que seja a razão, com qualidades como coragem, amor e uma grande disposição para depender de Deus. A ironia: os bons humanistas trabalham a vida inteira para melhorar a condição dos desfavorecidos, mas para quê? Para elevá-los ao nível das classes superiores? Para que eles também possam experimentar o enfado, a alienação e a decadência?

Na época em que o último volume de Children of Crisis foi publica­do, Robert Coles chegara não a um novo lugar, mas a um lugar bem antigo. Viajou milhares de quilômetros, gravou inúmeras fitas e escreveu milhões de palavras, todas apontando de volta ao Sermão do Monte. Ele descobrira que os pobres eram misteriosamente abençoados e que os ricos viviam em perigo. Ele tinha aprendido que o mais importante não vinha de fora - as circunstâncias da vida -, mas do interior, de dentro do coração de um homem, de uma mulher ou de uma criança. Ele havia começado sua pesquisa com a cabeça cheia de frases como "complexo de culpa", "distorções de caráter", "resposta a estímulos". Saiu do trabalho com palavras da moda antiga como consciência, peca­do e livre-arbítrio.

O que ele poderia fazer com tudo isso? Coles ousou não glorificar a pobreza, pois seu campo de pesquisa lhe mostrara a tolice desse romanticismo. Também ousou não glorificar a riqueza, o que ele hoje vê como uma distração ou verdadeiro impedimento àquilo que é mais importante. Foi então que ele se voltou a alguns homens e mulheres selecionados que haviam feito dos assuntos espirituais o foco de suas vidas. O Dr. Robert Coles, o cientista social, continuou a perseguir seu trabalho diligentemente, mesmo quando um novo papel surgiu em sua vida: professor de Literatura Espiritual em Harvard.

Depois de ter sido indiretamente influenciado por Robert Coles durante vários anos, pedi-lhe uma entrevista pessoal, e ele gra­ciosamente concordou. Ele me disse que gostava de se encontrar com visitantes num restaurante popular próximo ao seu escritório, longe de interrupções, e, assim, nos encontramos no Bartlee's Famous Hamburgers. Internamente, o lugar era decorado como um cenário hollywoodiano demais para um estabelecimento próximo de Harvard: lambris de madeira, cadeiras plásticas vermelhas, um menu estilizado como uma lousa, com as letras imitando giz, um violino quebrado pendurado na parede. E pôsteres, muitos pôsteres. "Não critique o café: você também será velho e fraco um dia", advertia um desses cartazes. Outro, de 40 anos atrás, mostrava o ator Ronald Reagan autografando caixas de ci­garros Chesterfield, indicando-os como presentes de Natal para seus amigos.

O próprio Coles parecia mais um aluno do que um professor de Harvard: estava usando uma camisa de algodão azul toda amarrotada, calça cáqui, com uma bolsa bem colorida pendurada no ombro esquerdo.

Ele tem estatura mediana e é magro. Seu rosto é queimado do sol e enrugado, com um cabelo despenteado como o de alguém que fica o dia inteiro passando as mãos sobre ele. Fala de maneira anasalada, com um sotaque do Nordeste dos Estados Unidos, e ri alto e com faci­lidade diante de qualquer coisa que tenha a mínima pitada de humor. Tradicionalmente ele toma apenas um copo de chá gelado no almo­ço antes de voltar para o seu escritório, situado a apenas um quarteirão de Harvard. A universidade lhe fornece o escritório num espaçoso can­to de um antigo edifício de tijolos. Uma placa na parede destaca que Franklin Roosevelt 36 (9) usou a sala como seu dormitório no período de 1900 a 1904. Na parede também está uma coleção de peças memoráveis: um pôster de Simone Weil, fotos de Bonhoeffer, Walker Percy, Dorothy Day, Erik Erikson e James Agee. O escritório é tranqüilo, um bem-or­ganizado lugar de retiro, uma base a partir da qual Coles planeja suas pesquisas de campo e prepara suas palestras para as várias escolas asso­ciadas a Harvard.

Coles leciona tanto em Harvard quanto na Duke University, mas em nenhum dos dois lugares ele oferece um curso em sua área de espe­cialização - nada sobre pediatria, psiquiatria infantil, sociologia ou mesmo técnicas de entrevista. Em vez disso, ele fala sobre os grandes romancistas e os pensadores cristãos. Sua leitura inclui Tolstoi e Dostoievski, Pascal, Weil, Merton, João da Cruz, Dickens, Flannery O'Connor, Emily Dickinson, Robert Frost, Thomas à Kempis, Teresa de Ávila, Kierkegaard, Bernanos, Silone, Agee, William Carlos Williams, Orwell, George Eliot e o amigo de longa data de Coles, Walker Percy. A partir desta lista, ele elabora cursos de literatura de acordo com as ne­cessidades de uma especialidade: "Literatura de Reflexão Cristã", na universidade; "Literatura e Medicina", para a faculdade de Medicina; "Moral e Pesquisa Social Através da Ficção", para a escola de Adminis­tração; e "Dickens e a Lei", para as turmas de Direito.

O que transformou um médico e cientista social num devoto da literatura? O próprio Coles responde: "Um homem como Tolstoi sabia mais de Psicologia do que todo o cenário científico da atualidade ja­mais saberá. Para saber todas essas coisas sobre estágios da morte que estão aparecendo agora é só ler A morte de Ivan Ilych 37 - está tudo lá. E quem pôde adicionar mais sabedoria à questão dos problemas conju­gais desde Ana Karenina? 38 Sem falar em Dickens, meu Deus, o que Dickens sabia sobre a natureza humana! Eu simplesmente vou de um lugar a outro ensinando sobre esses romances e tentando, de alguma maneira, desfazer o mal nas faculdades de Medicina, Administração e Direito".

Por que as escolas o convidam? "Eu não sei. Provavelmente por razões idólatras. Um nome escrito num panfleto, este tipo de coisa. Alguns dos alunos entendem o propósito: ouço-os falar e percebo que eles foram tocados por aquilo que li. Mas aqui é difícil. Sabe, esta é a cidadela do "humanismo secular".

"Mas a literatura tem seu poder", diz Coles. "Flannery O'Connor escreveu um maravilhoso livro de ensaios chamado Mystery and Manners, e o título sozinho já atinge em todas as ciências sociais: os romances reverenciam os mistérios e os costumes de indivíduos. Por que não aprendemos isto, no lugar de todos aqueles jargões ridículos e todas aquelas teorias elaboradas - a língua morta e as absurdas simplifica­ções que com freqüência recebemos dos especialistas? Os romancistas não estão interessados em teoria ou em transformar seus cérebros em divinos órgãos pontificais. Ao contrário, eles evocam e louvam a com­plexidade, a ironia, a ambigüidade, o paradoxo. Eles descobrem e reconhecem que cada pessoa é um mistério separado e finito, não algu­ma coisa que pode ser colocada em uma categoria ou outra."

Robert Coles está recostado num sofá marrom, com a luz do sol invadindo o recinto e as cortinas balançando com a brisa. Mas ele também poderia estar empertigado numa plataforma, atrás de uma mesa - ou púlpito, se você preferir - em uma de suas aulas em Harvard. E é o que ele está fazendo agora: alunos com as melhores notas do processo de admissão, com seus pedigree e roupas informais de grife, colegas do corpo docente com seus currículos, suas indicações de comitês e suas incontestáveis teorias, explicando a Economia, o comportamen­to humano e qualquer outra coisa do universo. E ele mesmo: Coles com freqüência volta-se para si, expondo a idolatria, o orgulho e a de­pendência em si que tem alimentado sua própria vida.

Os alunos tentam transformá-lo num herói. Eles o aplaudem pe­los anos que passou junto aos colonos migrantes. "Mas o que acon­tecia no fim do dia?", relembra Coles a seus alunos. "Eles voltavam para suas cabanas e seus trailers e eu entrava pela portaria do Holiday Inn. Certamente eu sentia culpa, e acho que realmente devia sentir.

Posso imaginar o que alguns de nós, com nossa fobia pela culpa, diría­mos a Jesus: "Ei, rapaz, isso é fácil! Não se preocupe com essas pessoas que precisam de pão. Por que você está visitando prisões? Está passan­do bem? Deve haver algum psiquiatra na Galiléia com quem você possa falar".

Coles fala bastante de seus fracassos e imperfeições. Ele acha que deve pensar nisso para manter sob controle os pecados do orgulho e da arrogância que brotam de um lugar como Harvard. "Todo mundo quer encontrar uma forma de solucionar um problema ou silenciar uma questão", diz. "Os alunos estão sempre protestando por uma coi­sa ou outra. Só que estes mesmos alunos não vão atravessar a cidade e conversar com as pessoas que vivem em condições semelhantes às das pessoas em nome de quem elas estão protestando.

Tal como os fariseus, queremos provar que somos limpos e corre­tos. Mas Jesus e os profetas mantêm as perguntas no ar: 'E aí, você não matou ninguém? Odeia alguma pessoa? Você não comete adulté­rio? Não tem nenhum desejo pecaminoso?' Gostamos de analisar a 'questão dos pobres'. Mas o que estamos fazendo por alguma pessoa pobre, em particular? Fui ao Mississippi num momento de crise, espe­rando aprender sobre 'o problema do Mississippi'. Descobri que há um pouco do Mississippi em todos nós - assim como um pouco de Massachusetts, África do Sul e Irlanda do Norte, também."

Para seus alunos em Harvard, para o grande público que compra seus livros, para os milhões que lêem sobre ele em revistas e jornais, Robert Coles tenta manter vivas as questões. "Está muito claro", disse ele a um repórter do Washington Post que preparava uma matéria de primeira página, "que sou maluco por religião. O que mais você faz quan­do fica velho e pára para pensar sobre o sentido desta vida?" E, por causa de suas credenciais, as pessoas precisam parar e dar ouvidos ao que ele está dizendo.

"Em muitos aspectos, Bob é uma espécie de pastor", disse Phillip Pulaski, assistente de Coles, ao repórter. "Ele provavelmente é o professor mais influente de Harvard em termos de impacto sobre a vida das pessoas."

Se Coles estivesse na sala, teria colocado Pulaski para correr, de­pois de ouvir tamanho elogio. Ele teria se lançado numa forte crítica aos perigos do orgulho e das idolatrias modernas. Porém, seus arquivos possuem diversas cartas de ex-alunos dizendo que ele foi o único que pediu que eles considerassem as mais importantes questões da vida enquanto estiveram em Harvard.

Coles gosta de citar Kierkegaard. "Ele dizia que Hegel explicava tudo na vida, exceto como sobreviver a um dia comum." É por isso, mais do que qualquer outra razão, que Robert Coles ensina Literatura para alu­nos de Administração, em vez de lecionar Psiquiatria para estudantes de Medicina. Temos sistemas aqui para explicar tudo, exceto como vi­ver. Também temos categorias para cada habitante da Terra, mas quem é capaz de explicar uma única pessoa?"

Robert Coles consegue explicar uma única pessoa? Depois de uma carreira dedicada a ouvir e a entrevistar, o que ele aprendeu sobre os seres humanos? É ele capaz de destilar tudo isso e chegar a um grande resumo? Ele pensa por um instante, e então aponta para uma Bíblia em sua mesa. "Nada daquilo que aprendi sobre a composição de um ser humano contradiz em qualquer aspecto aquilo que aprendi de pro­fetas hebreus como Isaías, Jeremias e Amós, e do Livro de Eclesiastes, de Jesus e das vidas daqueles que foram tocados por ele. Qualquer coisa que eu possa dizer sobre minha pesquisa no campo do comporta­mento humano é uma simples nota de rodapé referente àquelas vidas do Antigo e do Novo Testamento."

Ele prossegue: "Conheci seres humanos que, diante do insuportável estresse do dia-a-dia, resistem e até reagem com nobreza. Também co­nheci outros que vivem num ambiente confortável e luxuoso, e, mes­mo assim, parecem totalmente perdidos. Temos os dois lados dentro de nós, e é isto que a Bíblia diz, não é? A Bíblia nos mostra tanto a esperança quanto o juízo, a possibilidade e a traição. Em suas histó­rias, há momentos em que o favorito é fatalmente tentado e o humilde e obscuro se transforma num agente de esperança e até de salvação. Creio que essas histórias são uma parte de cada um de nós. Andamos numa corda bamba, oscilando entre a melancolia e a perda da fé, por um lado, e a tentação de se dar muita importância ou valor, por outro. Os dois extremos levam ao pecado.

Alguns críticos me atacam por dizer as mesmas coisas antigas sobre a natureza dos seres humanos: que somos uma mistura de bem e mal, de luz e trevas, potencialmente inclinados à destruição e à redenção. Quero crer que eles desejam uma nova teoria. Mas a minha pesquisa simplesmente ratifica aquilo que a Bíblia tem dito esse tempo todo sobre os seres humanos.

"Se eu puder tomar um estudante que, pela virtude de freqüentar uma escola de prestígio, é seduzido pelo pecado do orgulho, se puder levá-lo a pensar em si e em seu vizinho do modo como Jesus nos ensinou, então terei servido a algum tipo de propósito aqui na Terra. Posso estar parecendo um pouco melodramático, mas acho que talvez Jesus não se importasse em entrar nessa escola de Medicina por intermédio das his­tórias de Flannery O'Connor. É assim que mantenho a tradição bíblica desta universidade, pois ela realmente lhe pertence e é um privilégio resgatá-la como professor."

A cada ano, quando começa suas aulas de literatura, Coles lê uma citação do romancista James Agee. "Minha vontade era sair lendo o Evangelho de Lucas logo de cara, mas isto não funcionaria aqui. Assim, recorro a um grande trecho da literatura que aborda a mesma men­sagem, tal como esta citação de Agee: 'Tudo que uma pessoa é, experi­menta e sempre experimentará, seja no corpo ou na mente, tudo isso são diferentes expressões de si mesmo e de uma raiz, e são idênticas: e nenhuma dessas coisas ou nenhuma dessas pessoas é passível de ser duplicada, nem substituída, nem mesmo teve um precedente; mas cada um é uma vida nova e incomunicavelmente afável, ferida a cada suspiro e quase tão facilmente morta quanto ferida, sustentando, por um mo­mento, sem qualquer defesa, as enormes agressões do universo'."

O que Robert Coles costuma falar em todos esses anos é sobre a inerente dignidade do ser humano, a imagem de Deus que vive em todos nós, negros ou brancos, estudados ou analfabetos, ricos ou pobres, sau­dáveis ou doentes - a fagulha que torna imortal aquilo que é mortal. Ele não começou acreditando nisto, mas foi o que as crianças lhe disseram, depois os romancistas e, por fim, o que ele mesmo confirmou em sua pesquisa. É isso o que ele está tentando dizer a todos nós agora:



Às vezes, quando paro e vejo uma criança tentando desenhar a face de Deus, seus atributos, a forma de sua cabeça, os traços de sua fisionomia, lembro dos dias nos quais trabalhei na cozinha dos Obreiros Católicos de Dorothy Day. Certa tarde, depois de vários de nós termos um enorme trabalho com um bêbado, um cachaceiro, um homem irado, truculento e boca suja na casa dos 50 anos, com um longo cabelo grisalho, uma barba cheia e irregular, com uma enorme cicatriz no lado direito do rosto, uma boca sem nenhum dente, olhos vermelhos, um dos quais tinha um terrível tique, Dorolhy nos disse: 'Até onde sabemos, ele poderia ser o próprio Deus vindo até nós para nos testar; portanto, vamos tratá-lo como um convidado de honra e olhar para sua face como se fosse a mais linda que pudéssemos imaginar'.

(Extraído de The Spiritual Life of Children)

ROBERT COLES PARA INICIANTES


A série de cinco volumes intitulada Children of Crisis apresenta a marca registrada de Robert Coles - entrevistas, reflexões, interpretações -, e os volumes 2 e 3 receberam o Prêmio Pulitzer. Os leitores que acharem a leitura cansativa poderão escolher obras mais concisas que foram reuni­das: A inteligência moral das crianças 39, The Political Life of Children e The Spiritual Life of Children, The Call of Service e The Call of Stories também são representativos de sua abordagem.

Além disso, procure textos de Coles como se você estivesse numa biblioteca. Críticas literárias? Experimente seus trabalhos sobre William Carlos Williams, Walker Percy e os vitorianos ingleses. Biografias? Veja as vidas de Dorothy Day e Simone Weil, ou de Erik Erikson e Anna Freud. Teologia? Considere The Geography of Faith, seu livro de conversas com Daniel Berrigan. Ou então, seu livro de 1999, The Secular Mind, no qual Coles ousa questionar a mais consagrada premissa da modernidade, aquela que diz que encontramos sentido dentro de nós mesmos, e não "lá fora". Livros para crianças? Para uma biografia intelectual do pró­prio Coles, o livro Intellect and Spirit, de Bruce Ronda, é o que apresenta o melhor panorama. E, para alguém que não tem tempo para procurar, A Robert Coles Omnibus reúne amostras de diferentes obras, especialmen­te de ensaios sobre literatura.




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