Alma sobrevivente



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4 . Dr. Paul Brand

Desvios no caminho da felicidade


Fui estudante uni­versitário duran­te os quatro últimos anos da década de 1960. Tudo o que acontecia nos Estados Unidos parecia estar desmoro­nando: a guerra do Vietnã havia destruído nossos ideais nacionais, revelações de abuso contra o meio ambiente desafiavam a ética das indústrias que haviam construído nosso país e a contracultura juvenil expôs o vazio do materialismo e da mídia. Atualmente, essas questões tornaram-se familiares e até mes­mo banais, mas para aqueles de nós que estavam formando uma visão do mundo de então, a década de 1960 dei­xou uma marca pro­funda e permanente. Lembro-me dos sentimentos que tive nos anos seguintes, resumindo-os como sendo raiva, solidão e deses­pero. Vi amigos brilhantes e talen­tosos abandonarem a sociedade e buscarem um novo caminho atra­vés do LSD e da mescalina. Outros jamais voltaram das florestas do Vietnã. Eu oscilava entre os áridos romances existencialistas e os rela­tos nada ficcionais do Holocausto e do Gulag soviético.24 Olhando para a Igreja com olhos tão pessimistas, eu via basicamente sua hipocrisia e sua irrelevância para o mundo exte­rior. Apesar de pessoas como G. K. Chesterton terem me levado de volta a Deus, eu ainda tinha dificuldades para separar Deus da Igreja e culti­var uma fé pessoal estável. As perguntas giravam como redemoinhos. Mesmo sendo editor de uma revista cristã, escrevi livros como Deus sabe que sofremos, Decepcionado com Deus e Unhappy Secrets of the Christian Life, projeções exteriores de minhas próprias lutas com a fé.

Hoje vejo que minha parceria na produção de livros com o Doutor Paul Brand ajudou-me a resistir naqueles períodos de volatilidade. Passei horas a fio interrogando-o sobre questões globais, sobre a vida e sobre Deus. Pude fazer um registro de sua vida através de viagens à Índia e à Inglaterra, conversando com antigos pacientes e colegas (descobri que as enfermeiras que faziam a limpeza das salas de operação eram as pes­soas que tinham a visão mais perspicaz do caráter de um cirurgião). Orgulhoso possuidor de um dos primeiros computadores do tipo laptop, uma monstruosidade de mais de seis quilos, entrevistei o próprio Brand no meio de suas atividades, mantendo meus dedos no teclado de modo que pudesse continuar digitando mesmo quando nosso Jeep sacolejava ao atravessar as esburacadas estradas da área rural da Índia, ou quan­do nos sentávamos e éramos gentilmente embalados pelo movimento de um trem do metrô de Londres.

Aprendi as primeiras coisas sobre Brand enquanto escrevia Deus sabe que sofremos. Enquanto eu hibernava em bibliotecas, lendo livros sobre o problema da dor, minha esposa, ao organizar documentos num escritório de uma empresa de produtos medicinais, viu um intrigante estudo que ele havia escrito, intitulado "O dom da dor". A abordagem de Brand, conforme o próprio título deixava implícito, era sobre a pa­radoxal qualidade que havia me atraído a Chesterton. Ele tinha uma concepção de prazer e dor completamente diferente das outras que eu havia encontrado. Eu já entrevistara uma multidão de pessoas que queriam desesperadamente se livrar da dor; Brand, por sua vez, fala­va de gastar milhões de dólares para tentar criar um sistema de dor para seus pacientes.

À medida que caminhava e conversava com pessoas que conhe­ciam Brand pessoalmente, ficava cada vez mais cativado. Em um re­pente, liguei para ele de Chicago, pedindo uma entrevista. "Bem, as pessoas me mantêm bastante ocupado por aqui", respondeu ele, um pouco embaraçado, "mas tenho certeza de que podemos abrir um espa­ço entre as reuniões e meu trabalho na clínica. Se você topar, venha".

Tivemos nosso primeiro encontro no único leprosário dos Estados Unidos. Depois de voar para Nova Orleans e alugar um carro, dirigi por duas horas pelas margens do rio Mississippi, passando por velhas fazendas, lanchonetes especializadas em siri e reluzentes refinarias de petróleo. Meus olhos estavam ardendo por causa da fumaça das fábri­cas poluidoras que encontrei no caminho, quando descobri a estrada que me levaria ao povoado de Carville e, então, para uma pequena estrada que terminava no Hospital e Centro Nacional de Pesquisa so­bre Hanseníase.

As autoridades de Louisiana que fundaram o hospital colocaram-no bem longe dos centros populacionais. Devido a mitos sobre a hanseníase, os sentimentos afloram quando a construção de um leprosário é proposta. Construída num estilo colonial amplo e cercada por um enorme bosque de carvalhos, Carville lembrava o cenário de algum filme sobre uma plantação nas Filipinas. Pude ver pacientes usando muletas ou andando em cadeiras de rodas, caminhando lenta­mente pelos corredores cheios de arcos que interligavam os prédios mais importantes. Cercando o hospital em três lados diferentes, havia um campo de golfe e campos de beisebol, uma horta e o prédio dos escritórios. A oeste ficava o poderoso Mississippi, oculto à visão por uma barragem de seis metros. Abri o carro e caminhei por um nevoeiro típico da umidade do delta.

Fiquei sabendo da respeitabilidade de Brand entre a comunidade médica antes de minha visita: as ofertas que recebera para cuidar de centros médicos importantes na Inglaterra e nos Estados Unidos, as famosas preleções por todo o mundo, os procedimentos cirúrgicos batizados com seu nome, o prestigioso prêmio Albert Lasker, sua nomea­ção como Comandante da Ordem do Império Britânico pela Rainha Elizabeth II, sua escolha como o único ocidental a trabalhar para a Fundação Mahatma Gandhi. Mas esperei por nossa entrevista num cubículo chamado "escritório", que pouco tinha a ver com tal nome. Pilhas de jornais médicos, slides e correspondência que não havia sido respondida cobriam cada centímetro de uma horrível mesa de escritório verde. Um velho aparelho de ar-condicionado de parede funcionava com o mesmo nível de ruído de uma motocicleta sem escapamento.Finalmente, um homem esguio, de estatura abaixo da média e pos­tura firme, entrou na sala. Ele tinha cabelos grisalhos, sobrancelhas grossas e um rosto que enrugava demais quando ele sorria. Com um sotaque britânico - um gritante contraste com a pronúncia desleixada que se ouvia pelos corredores do hospital -, aquele homem desculpou-se pelas manchas de sangue em seu avental, explicando que acabara de dissecar tatus, o único espécime não humano conhecido por abrigar o bacilo da hanseníase.

Aquela primeira visita durou uma semana. Acompanhei Brand pe­las rondas hospitalares, espremendo-me nas paredes para dar lugar às cadeiras de roda elétricas e bicicletas conjugadas com carrinhos. Sentei-me no ambulatório enquanto ele examinava os pés e as mãos inflama­dos e ulcerados de seus pacientes, os quais ele entrevistava como um detetive, no esforço de determinar as causas dos ferimentos. Tivemos momentos de conversa breve em seu escritório, às vezes interrompidos por chamadas internacionais: um cirurgião da Venezuela, da Índia ou da Turquia gritando no meio do ruído da linha telefônica para pedir conselho sobre algum caso difícil.

À noite, em seus aposentos de madeira na propriedade do hospi­tal, compartilhei uma refeição de arroz com curry com ele e Margaret, sua esposa, uma respeitada oftalmologista. Então, Brand esticava seus pés descalços (uma marca registrada dele), eu ligava o gravador e co­meçávamos uma conversa que abordava desde teologia e lepra até fome mundial e conservação do solo. Ele comentava cada tópico que eu le­vantava, ainda que em diferentes níveis de profundidade. Suas via­gens lhe deram uma perspectiva global: ele viveu um terço de sua vida na Inglaterra, outro terço na Índia e, agora, quase um terço nos Esta­dos Unidos. Durante as pausas, ele me ensinou coisas como o modo de escolher um figo maduro ("Veja aqueles sobre os quais as borboletas pousam com mais freqüência, provando o fruto"), como bater na pele com uma escova de cabelos dura para estimular as células nervosas e aliviar a dor, como fazer um milkshake de manga.

Eu e o Doutor Brand éramos uma dupla estranha. Eu era um jo­vem punk com pouco mais de 20 anos e cabelo cheio, parecido com o de Art Garfunkel. Brand era um nobre cirurgião de cabelos grisalhos, caracterizado pelo típico comportamento reservado dos britânicos. No meu papel de jornalista, precisava abordar diversos assuntos: atores e músicos, políticos, executivos bem-sucedidos, atletas olímpicos e pro­fissionais, ganhadores dos prêmios Nobel e Pulitzer. Alguma coisa me atraía mais em Brand do que os outros assuntos que eu já havia trabalhado. Talvez pela primeira vez eu tenha encontrado verdadeira humildade.

Brand ainda estava se ajustando à vida nos Estados Unidos. Ele estava preocupado com o impacto da televisão e da cultura da música popular sobre seus filhos. Os luxos do dia-a-dia o deixavam nervoso, e ele preferia a vida simples e ligada à terra que tinha na Índia. Quando fomos a um restaurante à noite, ele quase não conseguia se conter ao ver o desperdício de comida tirada dos pratos dos clientes, sem ter sido sequer tocada. Ele conhecia presidentes, reis e pessoas famosas, mas raramente os citava, preferindo falar sobre seus pacientes. Falou aber­tamente de seus defeitos, e sempre procurava atribuir seu sucesso a seus parceiros. Ele se levantava cedo todos os dias para estudar a Bíblia e para orar. Humildade e gratidão fluíam naturalmente dele, e, durante o tempo que passamos juntos, senti uma enorme falta dessas caracterís­ticas em mim mesmo.

A maioria dos oradores e escritores que conhecia estava no circuito, apresentando as mesmas idéias em livros diferentes e pronunciando os mesmos discursos para distintas platéias. Enquanto isso, Paul Brand, que tinha maior profundidade espiritual e intelectual que qualquer pes­soa que eu já tivesse visto na terra, fazia muitos de seus discursos para um punhado de pacientes leprosos na capela protestante do hospital. Cedendo à insistência de Brand, compareci ao culto de quarta-feira à noite na semana em que estive em Carville. Se bem me lembro, havia cinco pessoas no coro e oito no auditório. Margaret Brand implorou para que eu me sentasse no coro: "Faz muito tempo que não temos uma voz masculina conosco. Paul vai pregar e, por isso, ele não poderá can­tar. É só sentar e cantar conosco". Agindo assim, ela pulverizou meus mínimos protestos. "Não seja tolo", disse ela. "Metade das pessoas que freqüentam o culto são surdas por causa da reação de uma droga que usamos contra a hanseníase. Mas um corista convidado é algo inusita­do para eles. Vão ficar felizes só em vê-lo sentado ali!"

Brand prosseguiu, entregando àquele grupo tão heterogêneo uma mensagem digna da Abadia de Westminster. Estava claro que ele havia passado horas meditando e orando por aquele único sermão.Não importava se éramos um pequeno grupo de anônimos quase sur­dos numa aconchegante mas sonolenta capela do interior. Ele falou como um ato de adoração, como algo de alguém que realmente acredita em Deus e mostra quando dois ou três estão reunidos em nome do Senhor.

Mais adiante, naquela mesma semana, Brand admitiu, um pouco timidamente, que já havia tentado escrever um livro. Alguns anos an­tes, quando ele proferiu uma série de palestras numa escola médica em Vellore, Índia, outros membros do corpo docente o incentivaram a transcrevê-las para que fossem publicadas. Ele fez um esforço extra, mas o material ocupou apenas 90 páginas, o que não era suficiente para um livro. Vinte anos se passaram, e ele não havia tocado nos manuscritos desde aquela época. Eu o persuadi a procurar nos armá­rios e nas gavetas até que encontrasse os já borrados originais daquelas palestras da capela.

Naquela noite, fiquei até tarde lendo seus notáveis comentários sobre o corpo humano. Eu estava acomodado na sala de hóspedes do hospital, e o ventilador de teto de vez em quando espalhava aquelas folhas finas por todo o recinto. Fiquei recolhendo as folhas e classi­ficando-as o tempo todo, pois sabia que havia encontrado ouro. No dia seguinte, perguntei a Brand se poderíamos trabalhar em conjunto e, no fim, aquelas páginas se transformaram em dois livros completos.

Algum tempo depois, trabalhamos num terceiro volume, The Gift of Pain (A dádiva da dor). Segui o caminho do Doutor Brand por anos. É comum sentir-me como James Boswell, que seguiu os passos do grande Samuel Johnson25 e fielmente registrou cada bocado de sabedoria que saía de seus lábios. Pauline, a filha de Brand, certa vez me agradeceu por trazer alguma ordem "à feliz confusão que eram a vida e os pensa­mentos de meu pai". Mal sabia ela do grande papel desempenhado por seu pai ao trazer alguma ordem à infeliz bagunça que era a minha pró­pria vida. Os bons amigos sabem apreciar o valor que, com o tempo, um exerce sobre a vida do outro. Quando comparo a pessoa que eu era em 1975, em nossa primeira reunião, e a pessoa que sou hoje, percebo as mudanças sísmicas que ocorreram dentro de mim, sendo que Brand é o responsável por muitos desses tremores.

Paul Brand é um homem tanto bom quanto grandioso, e serei eter­namente grato pelo tempo que passamos juntos. Num estágio em que eu não tinha a menor confiança em escrever sobre minha fé tão incipiente, tive absoluta certeza de escrever sobre sua fé. Minha fé cresceu enquanto observava, com o olho crítico de um jornalista, uma pessoa que se aperfeiçoava, em todos os aspectos, em função de seu relacionamento com Deus. Vim a conhecê-lo como um verdadeiro mo­delo vivo que eu podia ver em ação: em Carville, com seus pacientes; nos vilarejos da Índia, como marido e pai; como orador tanto em con­ferências médicas quanto bíblicas.

Depois de se aposentar da Medicina, o Doutor Brand mudou-se para uma pequena casa de campo de frente para Puget Sound, em Seattle, a única casa que ele realmente possuiu. Ocupou algumas ve­zes o cargo de presidente da Sociedade Cristã Internacional de Medi­cina e Odontologia, prestou consultoria à Organização Mundial de Saúde e, mesmo na casa dos 80 anos, continuou a apresentar palestras por todo o mundo. Com o passar dos anos, foi inevitável que nossos papéis se invertessem. Ele começou a me pedir conselhos em assuntos como qual o melhor processador de textos a usar, como organizar suas notas e como lidar com as editoras. Sofreu um derrame numa viagem à Turquia e um ataque cardíaco leve em Londres (uma reação solidária a um ataque mais sério, sofrido por sua esposa). Durante um tempo, seus discursos eram notadamente confusos, e sua habilidade de lem­brar nomes e fatos havia diminuído. Nossas conversas mudaram para questões como envelhecimento e mortalidade.

Conforme prossegui nos vários estágios da vida, agora me apro­ximando da idade que Brand tinha quando nos encontramos pela pri­meira vez, tenho diante de mim sua figura frágil, mas ao mesmo tempo forte, mostrando-me o caminho a seguir. Privado de meu próprio pai na infância, recebi de Brand, quando adulto, muito mais do que eu havia perdido. Como ninguém mais, ele contribuiu para que eu me colocasse no rumo certo em questão de perspectiva, espírito e ideais. Olho para o mundo natural e para as questões ambientais especial­mente através de seus olhos. Dele também obtive a certeza de que a vida cristã sobre a qual ouvira em teoria pode verdadeiramente reve­lar-se na prática. É realmente possível viver na sociedade moderna e alcançar sucesso sem penalizar a humildade, servir aos outros de ma­neira sacrificial e, ainda assim, emergir com alegria e contentamento. Nos dias atuais, quando bate a dúvida, olho para trás, para o tempo que passei com Paul Brand."O universo é um lugar amistoso?", perguntou Einstein. Como cientista, ele procurou uma resposta na vastidão do cosmo. Todo aquele que tenha sobrevivido às feridas causadas por uma família ou por uma igreja desestruturada conhece o lado mais pessoal desta questão. Um tio ou um sacerdote abusa sexualmente de uma criança pequena; uma mãe que se refugia no alcoolismo; um irmão de seis anos de idade que contrai leucemia. Para alguém que cresce em tal ambiente, as perguntas nunca desaparecem. O mundo é um lugar amigável? Pode-se confiar nas pessoas? E em Deus?

Não preciso meditar muito sobre minha infância para reconhecer que estas perguntas fundamentais consomem minha alma. Na adoles­cência, quando lia livros como A náusea,26 de Jean-Paul Sartre, A peste,27 de Albert Camus, e A noite,28 de Elie Wiesel, poucas eram minhas razões para ter otimismo. Então, vi-me ajudando um homem que passara a maior parte de sua vida entre os mais rejeitados seres humanos do pla­neta. Inesperadamente, em vez de intensificar meus questionamentos, o Doutor Brand apontou para algo que parecia uma resposta.

Brand alcançou fama no mundo médico principalmente por inter­médio de suas pesquisas pioneiras sobre a mais antiga e temida doen­ça do mundo. Antes de ir para o hospital de Carville, ele dirigiu uma escola médica e um hospital em Vellore, Índia, e fundou um leprosário conhecido como Karigiri. A incidência de lepra é desproporcionalmente favorável aos pobres. Deixadas sem tratamento, suas vítimas podem desenvolver desfiguração facial, cegueira e a perda dos membros, que tanto assusta as pessoas que, em troca, respondem com abuso e maus-tratos. Num lugar como a Índia, as pessoas com lepra são duplamente expulsas da sociedade, pois são consideradas membros da casta dos intocáveis.

Nos tempos bíblicos, as pessoas mantinham uma distância segura e gritavam "impuro!" a qualquer um que se aproximasse. Nos tempos medievais, elas viviam fora dos muros das cidades e usavam sinos de advertência. Até mesmo nos dias atuais, na Índia moderna, lar de qua­tro milhões de leprosos, uma pessoa que mostra sinais da doença pode ser chutada- literalmente - para fora de sua família e sua vila para levar uma vida de pedinte. Quando entrevistei antigos pacientes de Brand, ouvi histórias de crueldade humana que beiravam o inacreditá­vel. Se alguém devesse ter direito à amargura ou ao desespero, essa pessoa deveria trabalhar com esses desafortunados. Ao contrário disso, o que mais me impressionou em Paul Brand foi seu firme senso de grati­dão. Para ele, o universo é, seguramente, um lugar amistoso.

Lembro-me de nossa primeira conversa, na qual, por alguma ra­zão, negligenciei a necessidade de apertar o botão vermelho de "gra­var" do equipamento que eu estava usando. Naquela noite, depois de descobrir o erro que cometera, tomei uma balsa que cruzava o Mississippi, sentei-me num café e freneticamente tentei me lembrar de tudo o que havíamos conversado. Eu tinha uma lista de todas as perguntas que fizera, e suas respostas haviam me impressionado tanto que eu achava que seria capaz de reconstruí-las quase que textual­mente. Enquanto colocava uma das mãos na vasilha cheia de siris ver­melhos, escrevia com a outra, como um louco, registrando tudo o que me vinha à lembrança, eventualmente derrubando azeite nas páginas do meu bloco de anotações.

Como um Deus tão bom poderia permitir a existência de um mundo tão maculado? Brand havia respondido a todas as minhas reclamações. Doenças? Porventura sabia eu que, das 24 mil espécies de bactérias, apenas poucas centenas são nocivas? As plantas não poderiam produ­zir oxigênio nem os animais seriam capazes de digerir os alimentos sem a ajuda de uma bactéria. O fato é que as bactérias constituem metade de toda a matéria viva. A maioria dos transmissores de doenças tem pouquíssimas diferenças - chamadas mutações - desses organismos tão necessários, conforme explicou o Dr. Brand.

E quanto aos bebês defeituosos? Brand se lançou na descrição da complexa bioquímica envolvida na produção de uma criança saudável. A grande maravilha não é um bebê nascer defeituoso, mas sim o nas­cimento de milhões deles saudáveis. Seria possível criar um mundo à prova de erros em que o genoma humano, com seus bilhões de variáveis, nunca cometesse um erro no momento de sua transmissão? Nenhum cientista é capaz sequer de imaginar tal sistema infalível em nosso mun­do de rígidas leis físicas.

"Achei muito útil pensar como o Criador", disse-me Brand. "Mi­nha equipe de Engenharia em Carville tem feito exatamente isto. Por vários anos, trabalha com a mão humana. Que perfeição de engenha­ria encontramos ali! Tenho uma estante cheia de livros sobre cirurgia que descrevem operações que as pessoas imaginam para mãos feridas:formas diferentes de arranjar os tendões, músculos e juntas, manei­ras de substituir partes de ossos por junções mecânicas, milhares de procedimentos. Mas não conheço nenhum procedimento que tenha sido bem-sucedido em melhorar um membro sadio. Os melhores ma­teriais que usamos, por exemplo, em juntas artificiais, têm um coefi­ciente de atrito 80% menor que o das articulações do corpo, mas duram apenas alguns anos. Todas as técnicas corrigem os desvios, aquela mão em cem que não funciona como Deus planejou. Depois de operar milhares de mãos, devo concordar com Isaac Newton: 'Na falta de qualquer outra prova, só o polegar já me convenceria da existência de Deus'."

Eu ficava propondo exceções, e Brand lidava com cada uma de­las. Mesmo nos piores casos, dizia ele, nosso mundo natural mostra evidências de um projeto cuidadoso. Como um guia num museu de arte, ele descrevia com entusiasmo a belíssima maneira pela qual as fibras musculares rompidas se reconstituíam depois de um ferimento. "E você conhece o ductus arteriosus? Sendo um vaso de desvio, ele leva sangue diretamente às extremidades em desenvolvimento de um feto, em vez de levá-lo aos pulmões. No momento do nascimento, repenti­namente o sangue precisa começar a passar pelo pulmão para rece­ber oxigênio, pois o novo bebê está respirando ar. Num relance, uma aba desce como uma cortina, desviando o fluxo sangüíneo, e um mús­culo contrai o ductus arteriosus. Depois de executar esta função, esse músculo gradualmente se dissolve e é absorvido pelo restante do cor­po. Sem este ajuste instantâneo, o bebê jamais poderia sobreviver fora do útero."

Nossa conversa foi a primeira de muitas lições de anatomia que eu teria com o Doutor Brand. Sua capacidade de relembrar o que havia estudado na faculdade de Medicina 30 anos antes certamente me im­pressionava, mas uma coisa a mais se destacava: um entusiasmo de criança, um efervescente senso de maravilha diante da criação de Deus. Ao ouvi-lo, meu próprio senso de maravilha chestertoniano se reavivou. Eu estava me concentrando nas aparentes falhas da Criação; apesar de ter passado a maior parte da vida lidando com aqueles problemas, aquele médico, ao contrário, tinha uma atitude de apreciação, até mesmo de reverência. Tal atitude, conforme viria a descobrir, levava de volta a uma infância vivida próximo à natureza.

Filho de pai missionário na distante e montanhosa Índia, Brand cres­ceu num mundo de árvores com frutas tropicais e borboletas, pás­saros e outros animais. Sua mãe, artista, tentava captar tal beleza nos quadros que pintava. Seu pai, Jesse, um naturalista autodidata, via em qualquer canto da natureza a impressão digital do Criador. Ele era ca­paz de levar seu filho ao alto de um cupinzeiro e explicar as maravilhas da cooperação na organização social daqueles insetos. "Dez mil pernas trabalhando juntas, como se fossem comandadas por um único cérebro, todas em frenético movimento, à exceção da rainha, grande e redonda como uma salsicha, que fica deitada inerte, pondo seus ovos."

Ele lhe mostrava o funil arenoso de um formigueiro, ou o ninho de um joão-de-barro, ou um enxame de abelhas em volta de um galho de árvore. Paul fazia seus trabalhos escolares numa casa de madeira mon­tada no alto de uma enorme árvore frutífera, e, às vezes, estudava à noite sob a pulsante luz de um pote cheio de vaga-lumes.

Os estudos trouxeram um fim ao paraíso de Paul Brand, quando ele foi enviado à Inglaterra com a idade de nove anos. Cinco anos de­pois, na condição de adolescente longe da família e do lar, recebeu um telegrama anunciando que seu pai havia morrido de malária. Logo chegou uma carta, enviada de navio algumas semanas antes da morte de seu pai, a qual se tornou para ele um tipo de legado final. Jesse Brand descrevia as colinas ao redor de sua casa e concluía: "Deus deseja que nos deliciemos com este mundo. Isto não quer necessariamente dizer que precisamos conhecer biologia, botânica ou zoologia para apre­ciarmos a diversidade de vida da natureza. Apenas observe. Lembre-se. Compare. E sempre olhe para Deus com gratidão e adoração por ter colocado você em um lugar tão agradável do universo quanto o planeta Terra."

O filho de Jesse Brand seguiu seu conselho e o manteve, seja fazen­do caminhadas à beira-mar, observando pássaros nos pântanos da Louisiana ou lecionando para estudantes de Medicina, contando-lhes as maravilhas dos corpos dos quais estarão cuidando. Primeiramente nas colinas da Índia, depois por intermédio de seu estudo sobre o corpo humano, ele veio a perceber que o mundo natural esconde traços de Deus, e que o Deus que ele encontrou ali era bom. Era uma mensagem que eu precisava ouvir, vinda de um mensageiro em quem eu aprendera a confiar.A carreira de Brand se concentrava no talvez mais problemático aspecto da Criação, a existência da dor. Eu estava escrevendo o livro Deus sabe que sofremos. Ele me convidou a considerar um mundo alterna­tivo, sem dor. Brand insistia na grande importância da dor, baseando seu argumento nos terríveis resultados da hanseníase - rostos desfigura­dos, cegueira e perda de dedos e membros -, tudo em decorrência da ausência de dor. Ainda como um jovem médico, Brand anunciou a im­portante descoberta médica que constatou que a hanseníase fazia isso simplesmente destruindo as terminações nervosas. As pessoas que ha­viam perdido a sensação de dor feriam-se simplesmente por executar ações como pegar um cabo de vassoura lascado ou usar um sapato muito apertado. Hematomas se formam, a infecção tem início e nenhuma dor os alerta para que tratem da área afetada. Vi esses danos pela primeira vez em minha vida no consultório de Brand.

"Agradeço a Deus pela dor", declarou Brand, com a mais pura sin­ceridade. "Não posso pensar num presente maior a dar para meus pa­cientes de hanseníase." Ele prosseguiu, descrevendo a complexidade do sistema de dor que protege o corpo humano. Você precisa apertar uma agulha contra a planta do pé com uma força razoável para sentir dor, ao passo que a córnea é capaz de perceber uma pressão equiva­lente a um milésimo daquela usada no pé, dando início ao reflexo que faz com que o olho pisque, fazendo com que os cílios trabalhem como uma espécie de vassoura, limpando a superfície. Os intestinos não sentem dor por serem cortados ou queimados - perigos aos quais os órgãos internos normalmente não estão expostos -, mas enviam o importante sinal da cólica quando são distendidos.

"Nós, médicos, enfrentamos um brutal despertamento quando saí­mos da faculdade", continuou Brand. "Depois de estudar as maravilhas do corpo humano, fui colocado numa posição muito parecida com a do atendente do balcão de reclamações de uma loja de departamentos. Nenhum paciente vem ao meu consultório para expressar sua admira­ção por ver um rim ou um pulmão funcionando adequadamente. Eles vêm para reclamar de algo que não está trabalhando direito. Somente muito tempo depois, pude perceber que aquelas coisas das quais eles reclamavam eram seus grandes aliados. A maioria das pessoas vê a dor como uma inimiga. Porém, como meus pacientes no leprosário compro­vam, ela nos força a dar atenção a ameaças a que nossos corpos estão submetidos. Sem ela, um ataque cardíaco, um derrame, um apêndice rompido ou úlceras estomacais aconteceriam sem aviso. Quem iria visi­tar um médico se não estivesse sentindo dor?

Notei que os sintomas dos quais reclamavam meus doentes eram, na verdade, uma prova da cura que o próprio corpo estava promoven­do. De modo geral, todas as reações de nossos corpos que vemos com irritação ou nojo - bolhas, calos, inchaços, febre, espirro, tosse, vômito e, especialmente, a dor - demonstram um reflexo em direção à cura. Em todas essas coisas, normalmente consideradas nossas inimigas, podemos encontrar uma razão para sermos agradecidos."

Eu ficava muito perturbado ao ler a cena dramática em que Jó, o protótipo do sofredor inocente, confronta Deus com suas reclamações sobre o sofrimento. O discurso que Deus fez em resposta tem perma­necido como uma das grandes passagens sobre a natureza encontra­das na literatura, uma soberba celebração à Criação. Porém, Deus não dá resposta direta alguma ao problema da dor, apresentando apenas um desafio a Jó: "Se eu, como Criador, produzi um mundo tão ma­ravilhoso como este, o qual você pode observar claramente, como é que você não pode confiar em mim naquelas áreas que não consegue compreender?"

Enquanto ouvia Brand, pude perceber que eu estava me aproxi­mando de Deus como um paciente doente - como se o Criador estivesse atrás do balcão de reclamações. Ficava angustiado com as tragédias, doenças e injustiças, e enquanto estava assim, ignorava todas as coisas boas que me cercavam neste mundo. Seria possível, pensava eu, manter um entusiasmo chestertoniano pelas maravilhas do mundo natural, a despeito de suas aparentes falhas? Tal como o salmista, poderia eu apren­der a louvar e lamentar ao mesmo tempo, sem que nenhuma das duas entoações influenciasse a outra?

Brand reagiu a esse mesmo dilema com um espírito de gratidão e de confiança - gratidão por coisas que ele podia ver e apreciar e confiança diante daquelas que ele não podia. Lembrei-me da descrição de Chesterton de uma pessoa "comum", que aceita o mundo como um dom, cuja resposta adequada a ele é a gratidão. Para surpresa de Brand, a fé na integridade de Deus aprofundou-se até mesmo enquanto ele traba­lhava com as pessoas com menores probabilidades de sentir gratidão, como vítimas de hanseníase na Índia, pois ele vira transformações no mais vil dos mais vis, resultantes de simples atos de compaixão e de toque curador.

Desde que comecei a trabalhar com Brand e a segui-lo pelo mundo afora, encontrei outros cristãos dedicados que devotaram suas vidas para curar as feridas da humanidade. Na Índia, por exemplo, onde menos de 3% da população professa a fé cristã, quase 20% de todo o serviço de saúde é executado por médicos e enfermeiros cristãos, muitos dos quais treinados no velho hospital de Brand, em Vellore. Acompa­nhei-os em visitas a vilas, onde cuidavam de doenças tropicais, fixa­vam e engessavam ossos e faziam pequenas cirurgias, normalmente ao ar livre, embaixo de um pé de tamarindo. Cuidavam de hindus, mu­çulmanos, sikhs, jainas, parses e comunistas. Se você disser a palavra "cristão" a um camponês indiano - mesmo que ele nunca tenha ouvido falar de Cristo -, a primeira imagem que virá à sua cabeça será, muito provavelmente, a de um hospital ou de um ambulatório volante que pára em seu vilarejo uma vez por mês para prestar assistência pessoal gratuita.

Assistindo a essas pessoas servindo em meio a dificuldades extremas, com baixos salários e quase nenhum benefício, pude ver um enorme con­traste entre sua visão e a minha. Sentei-me em minha casa em Chicago e escrevi livros exigindo respostas de Deus sobre os problemas do mun­do. Aqueles homens e mulheres foram voluntariamente para a linha de frente da batalha, numa atitude típica de quem encarna o evangelho. Tal como a família Brand, eles mostravam um nível de satisfação pes­soal e até mesmo de felicidade que eu não havia encontrado entre as muitas pessoas famosas que já entrevistara.

Aprendi que parte da resposta à minha pergunta - "Onde está Deus quando sofremos?" - tem relação com outro questionamento: "Onde está a Igreja quando sofremos?" Conforme escreveu o teólogo judeu Abraham Heschel: "a questão primordial - por que o Deus da justiça e da compaixão permite que o mal exista? - está atrelada ao problema de como o homem deveria ajudar Deus de modo que a justiça e a com­paixão prevalecessem". A partir do toque curador de profissionais da saúde como Paul e Margaret Brand, os pacientes de hanseníase da Índia têm aprendido que as castas não são uma sina, e que doenças não são o seu destino. Nesse mesmo toque, muitos sentem pela primeira vez a realidade palpável do amor de Deus.

Apesar de ter um grande respeito pelo Doutor Brand e pelo serviço que ele presta a Deus, também confesso que me sinto aliviado pelo fato de ele não ser um "santo" tirado do molde de um Francisco de Assis ou de uma Madre Teresa. Eu precisava de um modelo para o qual pu­desse olhar e me relacionar mais naturalmente.

Paul Brand conversou com Madre Teresa, serviu em comitês com discípulos de Gandhi e conheceu alguns dos mais tradicionais "santos" da Índia. Em sua própria vida, porém, ele preferiu equilibrar o material e o místico, o profético e o pragmático. Alguns amigos mais velhos do hospital em Vellore lembram-se dele não apenas por sua profundidade espiritual e serviço sacrifical, mas também por suas piadas, pelo amor a marmelada e manga e por dirigir muito rápido. Depois de emergir da década de 1960, uma década que jamais foi acusada de possuir senso de equilíbrio, eu precisava do exemplo de alguém que vivesse uma vida abrangente no meio da sociedade moderna, não num mosteiro ou numa ermida.

Brand lutara com as tensões que as civilizações modernas enfren­tavam, e ainda assim não cedeu a nenhum dos dois lados. De um lado, viveu um estilo de vida semelhante ao da contracultura, muito antes de esta expressão pertencer ao vocabulário comum. Na Índia, ele in­sistia em receber o salário indiano, não os salários muito maiores, nor­malmente pagos aos médicos estrangeiros. Os Brand sempre tiveram hábitos alimentares simples, comendo normalmente pães feitos em casa e vegetais cultivados em sua horta. O Doutor Brand admite algumas razões para se desfazer de uma roupa - peças que não podem mais ser remendadas, por exemplo -, mas estar fora de moda certamente não faz parte de sua lista de razões. A mobília em sua casa e em seu con­sultório é, por assim dizer, despretensiosa. Ele se opõe ao desperdício de qualquer espécie. Brand admite abertamente que não derramaria lágrima alguma se todos os avanços da revolução industrial repentina­mente desaparecessem. Ele prefere a vida rural da Índia, fechada ao resto do mundo.

De outro lado, aprendeu a usar as ferramentas disponibilizadas pela moderna tecnologia. Sob sua liderança, um hospital na poeirenta cidade de Vellore cresceu e se transformou na mais moderna e sofisti­cada instalação hospitalar do sudoeste da Ásia. Mais tarde, Brand che­gou a Carville, nos Estados Unidos, porque aquele centro de pesquisa oferecia o suporte tecnológico necessário para beneficiar milhões de pacientes com hanseníase em todo o mundo. Quando os computado­res pessoais surgiram, em 1980, ele colocou seu nome numa lista de interessados na compra do primeiro PC da IBM com a alegria de um garoto. Ele agradecidamente usava microscópios eletrônicos, termógrafos e aviões a jato, crendo que a tecnologia usada com sabedoria, e não de maneira destrutiva, podia servir aos mais altos ideais da com­paixão humana.

Minhas conversas com Brand com freqüência se desviavam para a questão do estilo de vida, pois suas experiências na Índia, na Inglaterra e nos Estados Unidos haviam lhe fornecido uma perspectiva única. Ele vivera num dos países mais pobres do mundo e em dois dos mais ricos. A influência ocidental, dizia ele, sempre nos oferece uma tentação mortal. A enorme diferença de poder aquisitivo pode ampliar o fosso que separa o Ocidente do resto do mundo, tornando-nos insensíveis aos clamores de necessidade e justiça.

A eterna tensão sobre o estilo de vida remonta à infância de Brand na Índia. Depois de seu pai ter morrido de malária, a mãe de Paul assumiu o estilo de santa no sentido tradicional. Ela passou a viver de ofertas, devotando sua vida a levar cura física e espiritual aos habi­tantes das vilas que se espalhavam por cinco montanhas próximas. Não se importava com sua aparência pessoal, a ponto de se livrar de todos os espelhos de sua casa. Continuou empreendendo perigosas jor­nadas montada em seu pônei, mesmo depois de sofrer fraturas e concussões provocadas pelas quedas. Apesar de doenças tropicais terem afligido seu próprio corpo, ela dedicou todas as suas energias ao trata­mento de doenças e feridas das pessoas ao seu redor.

Às vezes, vovó Brand deixava Paul embaraçado com explosões emocionais. Durante um jantar oficial em Vellore, por exemplo, ela foi capaz de perguntar, horrorizada: "Como é que vocês podem comer alimentos tão requintados aqui, enquanto há pessoas nas montanhas que estão morrendo de fome exatamente nesta noite?" Ela morreu aos 95 anos, e em seu enterro, milhares de aldeões caminharam vários qui­lômetros para honrá-la na capela que seu marido havia construído com suas próprias mãos.

De seus pais, Paul aprendeu a duradoura lição de que o amor só pode ser exercido de uma pessoa para outra. Eles deixaram atrás de si algumas instituições e as impressões permanentes em milhares de vidas a quem ensinaram cuidados de saúde, saneamento, agricultura e o evange­lho de Cristo. Sozinha, vovó Brand livrou extensas áreas de uma infecção que resistia por vários séculos, provocada por um verme. Ela despertou tamanha confiança que os aldeões seguiram suas instruções e construí­ram paredes de pedra ao redor de poços abertos, onde a larva se desen­volvia. Nenhum programa governamental foi tão bem-sucedido.

Seu filho Paul, porém, causou seu mais duradouro impacto através de rígidas disciplinas científicas. Em Vellore, ele disputava com Margaret, sua esposa, um espaço no refrigerador para preservar mãos humanas nas quais podia praticar técnicas cirúrgicas à luz de um lam­pião. Por vários anos, ele se perturbou com a fisiologia dos sintomas da hanseníase: quais células a doença ataca, e por quê? A resposta - sua mais importante descoberta médica - veio durante uma autópsia, quando descobriu que o bacilo da hanseníase atacava somente teci­dos nervosos. Provar aquela teoria exigiria muitos anos de pesquisa, nos quais ele tinha de identificar a causa precisa de todos os ferimentos de seus pacientes. Os resultados de tais estudos tiveram um efeito signi­ficativo no tratamento da hanseníase e de outras doenças em todo o mundo. Quinze milhões de vítimas de hanseníase passaram a ter es­perança de que, com tratamento adequado, poderiam preservar seus dedos e sua visão. Mais tarde, ele aplicou os mesmos princípios nos pacientes diabéticos que sofriam de falta de sensibilidade nos pés, ajudando a impedir uma estimativa de cerca de 70 mil amputações apenas nos Estados Unidos.

Brand falou-me sobre um comentário feito por Madre Teresa quan­do ela o consultou sobre uma clínica para doentes de hanseníase que estava abrindo em Calcutá: "Temos drogas para as pessoas que sofrem de doenças como a lepra", disse ela, "mas elas não tratam do problema principal: a doença de se tornar indesejadas. É isto o que eu e minhas irmãs esperamos oferecer".

Em uma de nossas conversas, Brand refletiu sobre a existência de missões cristãs que se dedicam exclusivamente aos leprosos. Muito de seu trabalho na Índia era patrocinado pela Missão aos Leprosos da Inglaterra, uma organização co-irmã da Missão aos Leprosos da Améri­ca. "Não conheço Missão alguma aos Pacientes de Artrite ou Missão aos Diabéticos", disse ele. "Creio que a resposta se relaciona ao terrível estigma que tem cercado a lepra por tantos séculos. Trabalhar com os leprosos exigia muito mais do que um instinto natural de compaixão: requeria um tipo de chamado sobrenatural. Pessoas como o padre Damien, que ministrava aos portadores de hanseníase no Havaí e termi­nou ele mesmo contraindo a doença. Ele acreditava que os seres huma­nos, independentemente de sua aflição, jamais deveriam ser afastados da sociedade. Era tarefa da Igreja cuidar dos doentes, dos excluídos e dos indesejados."

Conforme estudei a história da lepra enquanto escrevia com Brand, fiquei familiarizado com aqueles poucos santos que, desafiando o estig­ma da sociedade, ignoravam os sintomas invisíveis e ministravam às vítimas da doença. Quando a doença se alastrou pela Europa, durante a Idade Média, ordens de freiras dedicadas a Lázaro, o padroeiro dos leprosos, criaram lares para os doentes. Aquelas mulheres corajosas não podiam fazer nada além de enfaixar as feridas e mudar as roupas, mas os lares em si, chamados lazarettos, podem ter ajudado a interromper o ciclo de disseminação da doença na Europa, isolando os doentes e melho­rando suas condições de vida. Nos séculos xix e xx, missionários cristãos se espalharam pelo globo, estabelecendo colônias para portadores de hanseníase, e o resultado foi que os maiores avanços científicos no tra­tamento dessa doença vieram de missionários.

O próprio hospital de Carville (recentemente fechado por uma me­dida de contenção de despesas do governo) tem sua história de leprosário com atuação mundial. Os sete primeiros pacientes, expulsos de Nova Orleans, foram trazidos ao Mississippi às escondidas por autoridades num navio de transporte de carvão, uma vez que as leis do século xix proibiam as pessoas com lepra de viajar em qualquer forma de trans­porte público. Eles desembarcaram numa plantação abandonada e destruída, escolhida com cuidado pelas autoridades do Estado da Louisiana. Algumas poucas cabanas de escravos ainda estavam em pé, habitadas principalmente por ratos, morcegos e cobras. Os sete pacientes mudaram-se para a Casa da Lepra de Louisiana, mas o Estado tinha dificuldades em recrutar trabalhadores para o leprosário até que, final­mente, as Filhas da Caridade, uma ordem de freiras católicas, se voluntariou. Aquelas mulheres, apelidadas "chapéus brancos", fizeram muito do trabalho inicial. Levantando-se duas horas antes do nascer do Sol para orar, usando engomados uniformes brancos em meio ao calor do interior, as freiras drenaram pântanos, nivelaram estradas e refor­maram prédios para o novo leprosário. Suas sucessoras ainda serviam em Carville quando visitei Brand naquele local.

Na Índia, um enorme caldeirão religioso, Brand observou como as outras religiões reagiam ao problema da dor. Os budistas ensinavam uma serena aceitação do sofrimento, uma atitude que nós, moradores do ocidente hipocondríaco, certamente poderíamos aprender. Os hindus e os muçulmanos com freqüência encaram o sofrimento com um espíri­to fatalista: para o hindu, ele resulta dos pecados de uma vida anterior; para os muçulmanos, é a vontade de Alá. Em contraste, o cristianismo tem tradicionalmente respondido com o paradoxo apresentado por Je­sus: devemos confiar na bondade de Deus, a despeito do sofrimento c da injustiça que vemos ao nosso redor, e, ainda assim, fazer tudo que estiver ao nosso alcance para aliviar esse sofrimento enquanto vivemos nesta terra. Paul Brand deu-me um exemplo vivo dessa atitude.

Já no ocaso de sua vida, o Dr. Brand aceitou muitos convites de escolas médicas que queriam ouvi-lo falar sobre a desumanização da Medici­na. Nos dias atuais, a Medicina de alta tecnologia, as políticas de planos e seguros de saúde e a crescente especialização conspiram para esmagar os próprios instintos que atraíram muitos dos melhores alunos a esse campo. Brand expressou o princípio orientador de sua carreira médica da seguinte maneira: "O bem mais precioso do ser humano é o seu espí­rito, seu desejo de viver, seu senso de dignidade, sua personalidade. Embora possamos ser descritos em termos de tendões, ossos e termina­ções nervosas, jamais devemos perder de vista a pessoa que estamos tratando".

Apesar de nossas conversas cobrirem uma ampla gama de assun­tos, inevitavelmente elas se direcionavam para histórias de pessoas, normalmente antigos pacientes de Brand. Com muita freqüência, es­ses pacientes eram pessoas esquecidas, abandonadas por suas famílias e expulsas de suas vilas por causa da doença que tinham. Uma junta médica pode reparar boa parte do dano físico. Também pode prover uma das mais básicas necessidades humanas, o toque físico. Mas o que eles podem fazer pelo espírito do paciente, pela auto-imagem que foi corroída? Durante várias horas, a cada encontro, eu me sentava e ouvia Brand contar histórias desses pacientes e de suas famílias o excelente tratamento que recebiam no leprosário de Karigiri. Fico es­pantado em saber que um cirurgião ortopedista se lembra de tantas coisas sobre pacientes dos quais cuidou três décadas antes, e ainda mais surpreso com as lágrimas que correm livremente enquanto ele conta suas histórias. Fica claro que elas causaram um grande impacto, tanto nele quanto nas pessoas que tratou.

Deter o progresso da hanseníase exige apenas alguns centavos, usando-se as drogas sulfonadas. São necessários milhares de dólares e cuidado esmerado de profissionais capacitados para restaurar a inteire­za de um paciente cujo corpo sofreu o ataque desenfreado da doença. Brand começou a trabalhar no tratamento de mãos enrijecidas, fazendo experiências com transplantes de tendões e músculos, até encontrar a melhor combinação para restaurar completamente alguns movimen­tos. As cirurgias e sessões de fisioterapia se estendiam por meses, e até anos. Ele aplicou procedimentos similares aos pés, corrigindo deformi­dades causadas por anos de caminhada sem o sentido da dor para guiar o corpo e distribuir o peso e a pressão.

Pés e mãos restaurados davam ao portador de hanseníase a capa­cidade de se sustentar por intermédio do trabalho, mas quem daria em­prego a uma pessoa que tivesse as cicatrizes dessa apavorante doença? Os primeiros pacientes voltavam a ele desesperados, pedindo que rever­tesse os efeitos da cirurgia para que pudessem mendigar novamente, uma profissão que se valia das deformidades mais aparentes.

Paul e Margaret Brand trabalharam juntos para corrigir o dano estético. Eles aprenderem a refazer um nariz humano penetrando no espaço entre a gengiva e o lábio superior, esticando a pele e irrigando-a, construindo depois uma nova estrutura nasal interna por intermédio de um implante de osso. Eles procuravam impedir a cegueira restau­rando a capacidade de piscar. A hanseníase mata as pequenas células que fazem que uma pessoa sadia pisque várias vezes por minuto; a secura dos olhos termina levando à perda da visão. Margaret apren­deu a redirecionar um músculo que normalmente é usado apenas para a mastigação e a ligá-lo à pálpebra. Mascando chiclete o dia inteiro, os pacientes simultaneamente mexem as pálpebras para cima e para baixo, lubrificando os olhos e, assim, evitando a cegueira. Por fim, os Brand substituíam as sobrancelhas de seus pacientes enxertando pedaços do couro cabeludo, intactos, com seus nervos e veias, sob a pele da lesta, costurando-os sobre os olhos. Os primeiros pacientes orgulhosamente deixaram suas sobrancelhas crescerem, deixando-as grossas e longas.

Todas essas elaboradas técnicas médicas eram dedicadas a desco­nhecidos, vítimas da hanseníase que passaram a maior parte de suas vidas mendigando. Muitos que chegavam ao hospital mal lembravam seres humanos. Ombros caídos, encolhiam-se de medo diante de outras pessoas. O brilho há muito fugira de seus olhos. Meses de tratamento compassivo por parte dos funcionários de Karigiri podiam devolver a luz a seus olhos. Por vários anos, as pessoas se afastavam delas em terror; em Karigiri, enfermeiras e médicos seguravam suas mãos e conversavam com eles. Sem revolta, sem medo, o corpo clínico ouvia as histórias dos novos pacientes e usava a magia do toque humano. Com pouco mais de um ano, esses pacientes que se pareciam com Lázaro saíam do hospital para, com orgulho, aprender algum ofício.

Como Brand considera hoje, o processo de acompanhar o paciente por todo o ciclo de reabilitação desafiou toda a visão que tinha da Medicina. Em algum lugar, talvez numa escola de Medicina, os médi­cos adquirem uma atitude que se parece por demais com a arrogância: "Você chegou na hora certa. Conte comigo. Creio que serei capaz de salvar você". Trabalhar em Karigiri destruía esta arrogância. Ninguém podia "salvar" um paciente com hanseníase. O corpo médico podia deter a doença, sim, além de reparar alguns danos. Por conseguinte, todo paciente tinha de voltar para casa e, contra todas as dificuldades, precisava tentar construir uma nova vida. Brand começou a perceber que sua principal obrigação era algo que ele não havia estudado na faculdade: juntar-se a esse paciente como um parceiro na tarefa de restaurar a dignidade e o espírito abatido. "Estamos cuidando de uma pessoa, não de uma doença", costuma dizer ele. "Este é o verdadeiro significado da reabilitação."

As grandes sociedades ocidentais estão cada vez mais longe da crença fundamental no valor da alma de um ser humano. Nossa tendência é ver a história em termos de um grupo de pessoas: classes, partidos políticos, raças, agrupamentos sociais. Aplicamos rótulos uns aos ou­tros, explicamos comportamentos e atribuímos valores baseados nesses rótulos. Depois de um prolongado contato com o Dr. Brand, percebi que tenho visto os grandes problemas da humanidade a partir de um modelo matemático: percentuais do Produto Interno Bruto, renda per capita, taxa de mortalidade, quantidade de médicos por mil habitantes. O amor, porém, não é matemático; jamais poderemos calcular com pre­cisão qual é a quantidade de bem a ser aplicada igualmente aos mais pobres e necessitados do mundo. A única coisa que podemos fazer é alcançar uma pessoa, depois outra, e mais outra, como objetos do amor de Deus.

Eu estava lutando com questões que abordavam a humanidade. Mas ainda não tinha aprendido a amar pessoas - indivíduos criados à imagem de Deus. Jamais consideraria um leprosário na Índia como o lugar mais provável onde aprenderia o valor infinito do ser humano, mas é impossível não aprender isso depois de uma visita àquele lugar.

Na minha última viagem à Índia com Paul Brand, em 1990, ele me mostrou a casa onde viveu sua infância nas montanhas Kolli Malai. Nosso carro subiu uma estrada fantástica, com 70 curvas muito fechadas (cada uma numerada: 38/70, 39/70, 40/70). Uma motoci­cleta passou por nós, tendo na garupa uma mulher, agarrada ao pilo­to. Seu sari voava como se fosse uma bandeira. As curvas fechadas trouxeram muitas lembranças a Brand. "Não havia estrada alguma naquela época", disse ele. "Quando eu era bebê, viajava numa geringonça que parecia um estilingue. Ia sentado dentro daquela coi­sa, sendo que as pontas eram presas em varas de bambu e carregadas nos ombros dos carregadores. Quando já tinha crescido o suficiente para andar, ia cambaleando próximo dos carregadores, sendo que meu campo de visão eram as pernas deles. Ficava de olho nas sanguessugas que caíam das plantas e se grudavam nas pernas deles, inchando con­forme bebiam do sangue daqueles homens."

Nesta viagem, porém, estávamos mais preocupados com o supe­raquecimento do motor do que com as sanguessugas. Finalmente, a estrada ficou plana e prosseguiu por um enorme platô, permitindo que tivéssemos uma vista maravilhosa dos verdejantes arrozais abaixo e das pálidas linhas curvas no horizonte que destacavam outras ca­deias de montanhas a distância. Então, acabou o asfalto e a estrada mergulhou num pequeno vale. O cascalho deu lugar à lama, e a estrada se resumiu a dois sulcos na terra que corriam ao lado de grandes eucaliptos. Seguimos os sulcos por meia hora, sem ver uma pessoa se­quer, e começamos a pensar se nosso motorista sabia realmente onde estava.

De repente, nosso carro atingiu o cume de uma pequena colina c uma maravilhosa vista se descortinou. Cerca de 150 pessoas estavam esperando ao largo da estrada - e estavam ali, conforme descobrimos depois, havia mais de quatro horas. Cercaram nosso carro, fizeram saudações bem no estilo indiano, com as palmas das mãos juntas e a cabeça curvada. As mulheres, mais parecidas com pássaros tropicais, vestidas com seus brilhantes saris de seda, colocaram sobre nossos pescoços colares de flores e nos ofereceram um banquete servido em folhas de bananeira. Depois da refeição, todos se reuniram na capela de paredes de taipa construída pelo pai de Paul Brand e nos alegraram com um programa de uma hora em que cantaram hinos, fizeram ho­menagens e executaram danças cerimoniais.

Lembro-me de maneira especial das palavras de uma mulher que falou da mãe de Paul. 'As tribos das montanhas não praticavam aborto", disse a mulher. "Elas se desfaziam das crianças indesejadas deixando-as à beira da estrada. A vovó Brand recolhia essas crianças, tratava delas, criava e tentava educá-las. Eu fui uma dessas crianças deixadas para morrer. Havia dúzias de nós, mas ela nos tratava mais como mãe ado­tiva do que como a diretora de um orfanato. Nós a chamávamos 'mãe da montanha'. Quando eu estava na idade escolar, ela pagou para que eu fosse para uma escola adequada e, por fim, consegui um diploma de mestre. Atualmente, leciono enfermagem na Universidade de Madras. Hoje viajei centenas de quilômetros para honrar os Brand por aquilo que fizeram por mim e por tantos outros."

Depois de fazer um pequeno discurso e secar as lágrimas dos olhos, o Dr. Brand levou-me para fora para mostrar o legado que seus pais haviam deixado. Mostrou-me a casa de madeira cortada à mão que seu pai construíra, colocando nas estacas da fundação panelas viradas com a boca para baixo para impedir a entrada dos cupins. Uma clínica ain­da funcionava, com uma escola - seus pais haviam fundado nove delas nas montanhas - e uma carpintaria. Um dos projetos agrícolas de vovó Brand eram pomares de frutas cítricas que se espalhavam pelas colinas. Seu marido, Jesse, havia criado meia dúzia de fazendas com plantações de amora, banana, cana-de-açúcar, café e mandioca. Paul não parava de dizer quanto os jacarandás haviam crescido desde que seu pai os plantara, sete décadas antes. As flores de alfazema que caíam deles acarpetavam o chão. Quando chegou a hora de partir, ele me levou ao local em que seus pais estavam enterrados, num declive próximo à cabana onde ele cresceu. "Seus corpos estão aqui, mas seus espíritos continuam vivos", disse. "E só dar uma olhada em volta."

Paul optou por um curso diferente em sua vida, escolhendo ser um cirurgião ortopedista no lugar de missionário. Visitei seus antigos pa­cientes para verificar o legado que ele estava deixando. Um homem, chamado Namo, tinha na parede de sua casa uma foto de Paul aos 24 anos de idade, com a inscrição: "Que o espírito que vive nele possa viver em mim". Quando Namo contou-me sua história, pude entender facil­mente a razão da afeição que aquele homem tinha por seu cirurgião.

Quando era jovem, Namo precisou deixar o último ano da universi­dade. Indicadores de hanseníase começaram a aparecer em sua pele, e sua mão estava se retraindo, como uma pata de caranguejo. Rejeitado por sua escola, sua vila e, finalmente, por sua família, Namo foi ao leprosário no Sul da Índia, onde um jovem médico estava fazendo algu­mas cirurgias experimentais nas mãos de seus pacientes. Havia quatro milhões de portadores de hanseníase na Índia, e 15 milhões ao redor do mundo, mas Brand era o único cirurgião ortopedista que estava tentan­do tratar suas deformidades.

Namo se recorda daquele dia horrível. "Estava tão indignado com minha condição que mal conseguia falar. Soluçando, disse ao Dr. Brand que minhas mãos eram-me inúteis. Sabia que logo meus pés estariam na mesma condição. Eu não me importava se ele as amputasse", contou. Namo fez um gesto como que de corte em direção ao outro pulso. "Ele poderia fazer qualquer coisa que quisesse, se aquilo servisse para ele aprender algo sobre a doença."

Felizmente, Namo estava errado quanto a seu diagnóstico. As dro­gas impediram o avanço da doença. Depois de se submeter a uma série de delicados procedimentos cirúrgicos num período de cinco anos, ele recobrou o movimento de suas mãos e seus pés. Fez inúmeras sessões de fisioterapia, começou a trabalhar com outros doentes de hanseníase e se tornou o Chefe de Terapia Física do Instituto All-India.

Mais tarde, naquele mesmo dia, visitei Sadan, outro antigo pacien­te. Ele parecia uma miniatura de Gandhi: magérrimo, careca, óculos grossos, empoleirado na beira de uma cama com as pernas cruzadas. A porta daquele modesto apartamento estava aberta, e pequenos pás­saros entravam e saíam o tempo todo. Um cachorro sarnento estava deitado na entrada. Sadan mostrou-me seus pés, os quais terminavam em pequenos tocos arredondados, no lugar de dedos. "Conheci os Brand tarde demais para conseguir salvar estes aqui", disse ele, "mas eles me deram sapatos que me permitem caminhar".

Numa voz aguda e meio cantada, Sadan contou-me tristes histórias de rejeição no passado: os colegas de classe que riam dele, o motorista que o pôs para fora do ônibus, os muitos empregadores que se recusa­ram a contratá-lo, apesar de seu treinamento e seu talento, os hospitais que impediram sua entrada com rispidez: "Não tratamos de leprosos aqui".

"Quando cheguei a Vellore, passei a noite na varanda de Brand porque não tinha para onde ir", relatou Sadan. "Não se ouvia falar de uma pessoa com lepra naquela época. Ainda posso me lembrar do momento em que o Dr. Brand tocou meus pés sangrentos com suas mãos. Eu já estivera em muitos outros médicos. Alguns examinaram minhas mãos e pés a distância, mas o Dr. Paul e a Dra. Margaret fo­ram as primeiras pessoas da área médica que ousaram me tocar. Já havia praticamente esquecido como era o toque humano. Ainda mais impressionante foi o fato de eles me deixarem ficar em sua casa naque­la noite, isto numa época em que os funcionários da saúde estavam terrivelmente amedrontados com a lepra."

Sadan então contou a elaborada seqüência de procedimentos mé­dicos: transplante de tendões, secção de nervos, amputação de dedos e remoção de catarata - tudo feito pelos Brand. O transplante dos tendões de seus dedos tornaram possível a Sadan escrever novamente, e hoje ele elabora relatórios para um programa que presta assistência gratuita a portadores de hanseníase por intermédio de 53 clínicas mó­veis. Ele falou por cerca de meia hora. Seu passado era um catálogo de sofrimentos humanos. E o estigma continua até os dias de hoje: recen­temente, ele assistiu ao casamento de sua filha sentado sozinho num carro, temendo que sua presença pudesse perturbar os convidados.

Enquanto eu e os Brand degustávamos nossa última xícara de chá antes de irmos ao aeroporto para pegar nosso vôo para a Inglaterra, Sadan fez esta espantosa declaração: "Digo ainda que sou feliz por ter tido essa doença". Perguntei, incrédulo: "Feliz?" Ele me respondeu: "Sim. Se não fosse a hanseníase, eu teria sido um homem normal, com uma família normal, buscando a riqueza e uma posição mais alta na socieda­de. Nunca teria conhecido pessoas tão maravilhosas quanto o Dr. Paul e a Dra. Margaret, e jamais teria conhecido o Deus que vive neles".

Dois dias depois, nossa recepção na Inglaterra foi um impressio­nante contraste em relação àquelas boas-vindas dignas de um rei que recebemos na Índia. Ali também eu e Brand revivemos momentos do passado. Visitamos a casa em que seus pais passavam os dias, quan­do estavam licenciados. Sua mãe vinha de uma família rica, e a casa, localizada numa das melhores regiões de Londres, valia, seguramente, um milhão de dólares. A moradora da casa saiu para perguntar o que estávamos olhando, e Brand a conduziu por uma visita por todos os quartos, descrevendo a aparência da casa 60 anos antes.

Naquela tarde, subimos ao terraço do hospital em que, como resi­dente, ele assistiu ao bombardeio alemão. Ninguém nos recebeu com colares de flores, nem se reuniram à nossa volta, ou sequer cantaram hinos e deram testemunhos. Para os guardas e para a equipe médica do hospital, Brand era apenas um velho confuso que estava interfe­rindo em seu trabalho. Os escritórios tinham mudado de lugar, alas foram demolidas, havia muitos procedimentos de segurança. No meio do cenário do início de sua carreira médica, a única coisa que Brand parecia ser era um anacronismo. Caminhamos pelos corredores, pergun­tando a diversas recepcionistas do University College Hospital sobre antigos colegas. "Quem? Como se soletra o seu nome?" era a resposta típica. Finalmente, num corredor escuro, encontramos uma galeria com fotos de alguns dos professores de Brand - doutores que, em seus dias, eram tão famosos quanto Christian Barnard e C. Everett Koop o são atualmente.

Peguei-me pensando em como a carreira de Brand teria se desen­volvido se ele tivesse ficado em Londres. Mesmo trabalhando numa vila remota da Índia com leprosos banidos da sociedade, ele conseguiu alcançar renome mundial. Se tivesse ficado num centro de pesquisas com um laboratório bem equipado, quem pode saber que honrarias ele teria recebido? Quem sabe um Prêmio Nobel?

Mas, e daí? Sua foto estaria junto às dos outros médicos naquele corredor escuro, empoeirada e começando a amarelar. Seu nome, como o deles, apareceria numa nota de rodapé de alguns livros de Medicina. A fama nos anais da Medicina raramente dura um longo tempo. As técnicas de microcirurgia há muito suplantaram a maioria dos procedi­mentos considerados inovadores na juventude de Brand. Em contraste a isso, seu trabalho como cirurgião missionário na Índia continua a pro­duzir frutos nas vidas transformadas de Namo e Sadan, e em centenas de outros iguais a eles.

Por estarmos tão próximos, os encontros na Índia e na Inglaterra tornaram-se, para mim, um tipo de parábola, contrastando a transitoriedade da fama com a perenidade do investimento no serviço aos outros. Quer vivamos nossos dias na Índia, na Inglaterra ou em Clarkston, Geórgia, a verdadeira medida de nosso valor dependerá não de um curriculum vitae ou da herança que deixamos, mas do espírito que pas­samos aos outros. "Quem acha a sua vida perdê-la-á; quem, todavia, perde a vida por minha causa achá-la-á", disse Jesus, no provérbio mais repetido nos Evangelhos (Mt 10:39). Cada carreira oferece suas próprias recompensas. Mas depois de sentar com Brand nas casas de Namo e Sadan, além de passar pelo Hall da Fama no Royal College of Surgeons, não tenho dúvidas de qual recompensa é mais duradoura.

Em uma de nossas últimas conversas, o Dr. Brand ficou pensativo. "Nunca ganhei muito dinheiro com a Medicina, especialmente em fun­ção dos lugares onde a pratiquei. Mas lhe digo que, olhando para trás, para uma vida toda dedicada à cirurgia, vejo que a multidão de ami­gos que um dia foram meus pacientes traz-me mais alegria do que qualquer riqueza poderia dar. Encontrei-os pela primeira vez quando eles estavam sofrendo e com medo. Como seu médico, compartilhei de sua dor. Agora que estou velho, é seu amor e sua gratidão que ilumi­nam o caminho de minha vida. É estranho. Aqueles de nós que se en­volvem com lugares em que existe o maior sofrimento olham para trás surpresos por descobrir que ali foi o lugar onde conheceram a realidade da alegria."

Então ele citou outras palavras de Jesus: "Felizes são aqueles que levam consigo uma parte das dores do mundo. Durante a longa cami­nhada, eles saberão mais coisas sobre a felicidade do que aqueles que a evitam" (tradução de J. B. Philips).

PAUL BRAND PARA INICIANTES


O Dr. Brand e eu escrevemos três livros juntos: Fearfully and Wonderfully Made e A imagem e semelhança de Deus. Mais recentemente, The Gift of Pain, que costura, em uma mesma obra, a história de sua vida e suas teorias sobre a dor. Há uma biografia missionária mais tradicional, escrita por Dorothy Clarke Wilson, intitulada Ten Fingers for God, concen­trada especialmente em seu tempo na Índia, e Granny Brand, também de Wilson, que conta a história do trabalho de sua mãe. Brand também publicou mais alguns pensamentos em God's Forever Feast.



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