Alma sobrevivente



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3. G. K. Chesterton

Relíquias à beira-mar


Se, durante meu curso universi­tário, você me pergun­tasse o que eu iria fazer depois de me formar, "escritor cristão" seria a última das minhas opções. Conta­ria novamente todas as mentiras que minha igreja havia me ensina­do sobre raças e outros assuntos e zombaria de seu legalismo sufo­cante. Descreveria um evangélico como um invejoso socialmente re­tardado, um fundamentalista que ganhava bem, com a mente só um pouquinho mais aberta e com um pouco mais de conhecimento das coisas. Teria reclamado dos missionários apo­sentados que lecio­navam no seminário em que estudei, os quais ensinavam disciplinas como Ciência e Filosofia, sabendo menos sobre estes assun­tos do que qualquer professor de escola primária. Aquela escola pendia mais para a punição do que para a recompensa da curiosidade intelectual. Um dos professores disse-me abertamente que dimi­nuiu minhas notas com o claro pro­pósito de me ensinar humildade. "A maior barreira ao Espírito Santo é a sofisticação", costumava dizer ele a seus alunos.Contudo, foi nesse mesmo seminário que tive contato com os textos de C. S. Lewis e G. K. Chesterton. Apesar de estarem separados de mim por uma imensidão de mar e cultura, eles reacenderam em meu coração a esperança de que, em algum lugar, havia cristãos que desatavam suas mentes em vez de contê-las, que combinavam um sabor de sofisticação com a humildade que eles não exigiam de outros e, acima de tudo, que haviam experimentado a vida com Deus como uma fonte de alegria, não de repressão.

Por meio de cópias caindo aos pedaços, disponíveis em livrarias da Inglaterra, pude devorar todo o material que encontrava desses dois homens - um deles, um acadêmico de Oxford, e o outro, um jornalista da Fleet Street. Como o próprio Lewis escreveu depois de descobrir Chesterton, enquanto se recuperava num hospital durante a Segunda Guerra Mundial, "um jovem que deseja permanecer como ateu convicto não pode ser muito cuidadoso com sua leitura".

Suas palavras me sustentaram, foram um salva-vidas da fé num mar de desordem e dúvida. Tornei-me escritor, como já disse, em grande parte pelo fato de ter percebido o poder das palavras em minha própria vida, palavras que podiam navegar pelo tempo e pelo oceano e promo­ver uma transformação calma e suave, que traziam cura e esperança. Ainda se passaria muito tempo até que eu voltasse à fé, mas pelo menos eu já tinha modelos de qual era a aparência de uma fé capaz de mudar a vida. Martin Luther King Jr. havia tocado um acorde moral de fé em mim; estes dois tocaram um acorde mais estético.

Na história do filho pródigo, Jesus não aborda em detalhes os moti­vos da volta do pródigo. O filho mais jovem não sentiu remorso repenti­no algum, nem uma explosão de amor pelo pai que insultara. Em vez disso, o que vemos é que ele se cansa de uma vida de miséria e volta sem as motivações egoístas. Aparentemente, Deus não se importa se nos ache-gamos a ele por causa do desespero ou do mais profundo anelo. "Por que voltei?" é uma pergunta que faço a mim mesmo.

Meu irmão mais velho, que havia representado o papel de filho pródigo de maneira mais dramática, demonstrou o que poderia acon­tecer se eu optasse por deixar tudo para trás. Em uma tentativa de quebrar as cadeias de uma criação extremamente castradora, ele saiu numa grande busca pela liberdade, experimentando novidades como quem troca de roupa: pentecostalismo, existencialismo ateísta, budismo, espiritualismo da Nova Era, racionalismo tomíslico. Uniu-se aos hippies da década de 1960, usando cabelos longos e óculos de lentes redondas, vivendo em comunidade, praticando sexo e experimentando drogas. Durante algum tempo, enviou-me relatórios exuberantes sobre sua nova vida. No fim, porém, um lado escuro começou a se revelar.

Precisei pagar fiança para tirá-lo da cadeia depois que uma viagem com LSD não saiu como ele esperava. Ele rompeu relações com qual­quer outra pessoa da família e passou por diversos casamentos. Atendi a ligações no meio da noite, nas quais ele se dizia prestes a se suicidar. Olhando meu irmão, pude perceber que a liberdade aparente pode, na verdade, estar mascarando uma enorme escravidão, um clamor do co­ração pelas necessidades não atendidas. A pessoa mais musical que eu já conhecera acabou afinando pianos, em vez de tocá-los numa sala de concertos. Vi muito de perto o poder destrutivo de se lançar fora a fé sem ter o que colocar em seu lugar.

No mesmo período, mas de modo mais positivo, minha carreira jornalística deu-me a oportunidade de analisar pessoas, como as que reuni neste livro, as quais demonstram que uma conexão com Deus pode alargar a vida, em vez de fazê-la encolher. Dei início ao longo processo de separar Deus da Igreja. Embora eu tenha saído das igrejas de minha infância bem machucado, quando iniciei o processo de observar Jesus através dos olhos críticos de um jornalista, vi que o Salvador havia lutado contras as coisas que mais me perturbavam - legalismo, auto-justificação, racismo, provincialismo, hipocrisia -, e que essas foram as cau­sas mais prováveis de ele ter sido levado à crucificação. Quando conheci o Deus revelado em Jesus, reconheci que precisava mudar em muitos aspectos - sim, até mesmo me arrepender, pois percebi que havia absor­vido a hipocrisia, o racismo e a auto-justificação de minha criação, e eu mesmo havia contribuído com um número enorme de pecados por mi­nha conta. Comecei a ver Deus mais como um médico que prescreve mudanças de atitude para o bem de minha saúde do que como um juiz austero, que balança seu dedo diante da minha teimosia.

Sou o homem que, com a grande ousadia, descobriu o que já havia sido descoberto antes", declarou G. K. Chesterton, de ma­neira triunfante. "Tentei montar, sozinho, uma heresia. Quando estava prestes a dar os retoques finais, descobri que ela era a ortodoxia." Guia­do parcialmente por Chesterton, aterrissei num terreno similar depois de uma jornada tortuosa. Quando lhe foi perguntado qual livro gosta­ria de ter consigo, se estivesse em uma ilha deserta, Chesterton parou por um breve instante antes de responder e disse: "Ora, o Guia prático de construção de navios, é claro". Se eu também fosse parar numa ilha deserta e pudesse escolher outro livro que não a Bíblia, escolheria Or­todoxia19, a autobiografia espiritual de Chesterton. Fico realmente des­concertado em imaginar por que alguém escolheria um livro com este título, mas um dia eu mesmo fiz isto e minha fé nunca mais foi a mesma. Ortodoxia trouxe frescor e um novo espírito de aventura à mi­nha fé, à medida que fui encontrando estranhos paralelos entre minha própria odisséia e aquela realizada pelo autor, um desmiolado jorna­lista vitoriano de 150 quilos.

Chesterton é com freqüência chamado "o mestre que não deixou nenhuma obra-prima", talvez devido à sua profissão. Durante a maior parte de sua vida (1874-1936), ele trabalhou como editor de um sema­nário de idéias, escrevendo, nesse período, cerca de quatro mil estudos sobre assuntos tanto triviais quanto importantes. Ele atravessou a pas­sagem do século xix para o xx, quando movimentos como o modernismo, o comunismo, o fascismo, o pacifismo, o determinismo, o darwinismo e a eugenia ganharam espaço. Depois de sobreviver a todos, Chesterton sen­tia-se cada vez mais pressionado em direção ao cristianismo, que era visto por ele como o único reduto contra tais forças. Terminou aceitan­do a vida cristã não somente como um bastião de civilização, mas como uma expressão das mais profundas verdades sobre o mundo. Ele deu o ousado passo de ser batizado na Igreja Católica Romana num país de maioria protestante.

Como pensador, Chesterton começou bem devagar. Aos nove anos, mal podia ler, e seus pais o levaram a um neurologista para saber sobre sua capacidade mental. Ele saiu da escola de artes e desistiu da uni­versidade. Apesar disso, porém, tinha uma memória tão prodigiosa que era capaz de, no fim da vida, recitar o enredo de cada um dos dez mil romances que lera e revisara. Escreveu cinco romances e aproximada­mente 200 contos, inclusive uma série de histórias policiais centradas no "Padre Brown"; arriscou-se em peças, poesia e baladas; escreveu biografias literárias de personagens como Robert Browning e Charles Dickens; escreveu uma história da Inglaterra; também abordou as vidas de Francisco de Assis, Tomás de Aquino e do próprio Jesus. Escrevendo com velocidade assustadora, entendendo alguns fatos de maneira errada, não obstante, ele abordou cada um desses assuntos com tal discernimento, entusiasmo e destreza que até mesmo seus críticos mais audazes tinham de se levantar e aplaudir.

Chesterton viajava ocasionalmente pela Europa, e atravessou o Atlântico para visitar os Estados Unidos (o que o levou a escrever o livro What I Saw in América20), mas passava a maior parte do tempo em casa, lendo muito; escreveu sobre praticamente tudo que lhe vi­nha à mente. As alegres aventuras se passavam em sua cabeça gran­de e cabeluda. Não se pode, contudo, subestimar seu impacto sobre a vida de outras pessoas. Mahatma Gandhi baseou muitas de suas idéias para a independência da Índia nas idéias de Chesterton. Um de seus romances inspirou o movimento de Michael Collins pela in­dependência da Irlanda. C. S. Lewis via Chesterton como seu pai espiritual.

Chesterton já havia morrido quase trinta anos antes quando o descobri, mas ele ressuscitou minha fé moribunda. Hoje, quando olho para trás e pergunto de que maneira ele me afetou, vejo que ajudou a despertar em mim um sentimento de alegria há muito suprimido.

Albert Einstein fez, certa vez, a mais importante pergunta de todas: "O universo é um lugar amistoso?" Durante minha infância e minha adolescência, o que recebi foram mensagens bastante misturadas. Como os filhos de alcoólatras fazem - não fale, não confie e não sinta -, mi­nha resposta emocional era praticamente nula. Mesmo quando meu irmão se abriu e resolveu dar início à sua grande jornada em busca da liberdade, eu me fechei, lacrando cada uma das avenidas pelas quais as pessoas podiam chegar até mim, tanto para me manipular quanto para me causar dor. Li histórias como as de Sartre e Camus 21, cujos heróis eram capazes de ferir suas próprias mãos ou assassinar alguém na praia simplesmente pelo prazer de fazê-lo. Li especialmente Nietzsche, que descrevia um super-homem impermeável ao sofrimen­to. Aprendi a não rir, nem mesmo expressar um sorriso, assim como a não chorar. Procurei não me importar ou reagir diante de qualquer coisa: ao frio ou ao calor, aos bons aromas ou aos cheiros desagradáveis, à beleza ou à feiúra, ao amor ou ao ódio. Numa experiência pervertida, quebrei meu próprio braço contra a armação de metal de um beliche simplesmente para testar meu domínio sobre a dor.

Hoje vejo o que não pude ver então: estava erguendo uma fortaleza de pedra contra o amor, pois via a mim mesmo como inviolável. No lugar mais improvável - o seminário que eu via como um asilo -, essa fortaleza interior começou a ruir. Encontrei conforto não na religião, onde todos ao redor diziam ter encontrado, mas na música. Tarde da noite, eu costumava fugir do dormitório e caminhar até a capela, onde havia um fantástico piano de cauda Steinway. Vivendo à sombra de um irmão naturalmente capacitado para a música, nunca me apresentei em público, mas era capaz de ler razoavelmente bem peças de Mozart, Chopin, Beethoven e Schubert, passando assim várias noites, colocan­do alguma ordem em meu mundo desordenado. Eu estava criando algo e, apesar de mim mesmo, aquilo parecia belo ao ecoar pela capela escura e vazia.

Então, apaixonei-me. Janet e eu nos aproximamos pela razão errada - sentávamos juntos para reclamar da atmosfera opressiva da escola -, mas, depois, a mais poderosa força do universo, o amor, terminou ven­cendo. Encontrara alguém que apontava tudo o que era bom em mim, não apenas as coisas ruins. A esperança surgiu. Eu queria conquistar os mundos e colocá-los a seus pés. Preparei a Sonata Patética de Beethoven para tocar no seu aniversário e perguntei, tremendo, se ela gostaria de ser a primeira pessoa a ouvir-me tocar. Era uma oferta à nova vida e a ela, que a havia despertado.

"O pior momento de um ateu é quando ele está realmente grato e não tem a quem agradecer", escreveu Chesterton. Também disse que "a alegria, que era a pequena publicidade do pagão, é o gigantesco segredo do cristão". Conheço muito bem aquele pior momento e tam­bém a primeira agitação da alegria que sopra ar fresco nas fendas há tempos cerradas. A grande alegria traz dentro de si a insinuação de imortalidade. Repentinamente, eu queria viver, e viver para sempre.

Também não posso esquecer-me da natureza. Em minha infância, a natureza era meu lugar de refúgio. Morávamos num trailer retangular de alumínio de 3x9m, estacionado no terreno da igreja. Nosso lar vivia mais em torno da tensão do que da paz, mas eu sempre encontrava algum bosque por perto onde explorar as tocas dos esquilos e as colméias, os troncos secos cheios de insetos exóticos e os pântanos repletos dos sons de libélulas e pequenos sapos. Colecionava borboletas, abelhas e tartarugas, e fui trabalhar durante um verão no Centro de Doenças Contagiosas, estudando mosquitos e carrapatos.

Mesmo depois de me formar, a natureza sempre me atraiu como uma sinfonia que toca, quer eu pare ou não para ouvi-la. Se não pode­mos julgar com precisão se o universo é amigável ou não, pelo menos podemos considerá-lo uma fonte ilimitada de beleza. Suba nos montes mais altos onde moro, no Colorado, e você encontrará o solo fino acarpetado de delicadas flores silvestres, que vicejam sem a atenção de qualquer pessoa que porventura passe por ali. Mergulhe perto dos re­cifes de Great Barrier e você verá coral e peixes tropicais com cores e desenhos mais brilhantes que aqueles mostrados em qualquer museu de arte no mundo, sem mencionar o fundo do mar repleto de conchas e pérolas, jóias formadas a partir da secreção de animais primitivos.

Fiquei observando borboletas nas Cataratas do Iguaçu, no Brasil, e pude ver maravilhosas espécies tropicais, portadoras aladas de arte abs­trata, pousando em meu braço para sorver a umidade. Agachei-me ao lado de uma baía no Alasca, enquanto um cardume de baleias beluga se alimentava, observando-as enquanto faziam um contraste prateado com a água verde escura. Sentei-me sob um baobá no Quênia para ver as girafas trotarem incansáveis sob as nuvens do pôr-do-sol e um cortejo de quase meio milhão de animais que marchavam em fila indiana pela planície. Dentro do Circulo Ártico, pude ver uma manada de bois-almiscarados reunidos em círculo, como as carroças dos pioneiros, para proteger as mães e os filhotes (aqueles que nascem no inverno precisam se adaptar a uma queda brusca de temperatura para mais de 45°C ne­gativos no momento do nascimento). Também me sentei em sala de aula para ouvir professores de Teologia passarem horas a fio definindo os atributos da deidade: onisciência, onipotência, onipresença etc. Pode aquele que criou tantas maravilhas ser reduzido a tais abstrações? Não deveríamos começar com o mais óbvio fato da existência - de que, seja lá quem for o responsável, ele é um ardente e incomparável artista diante de quem qualquer feito ou criatividade humana mingua como se fosse um rabisco de criança?

Já falei anteriormente sobre um painel de que participei com três cientistas, dois dos quais eram ganhadores do Prêmio Nobel e ateus con­fessos. Víamos o mundo de maneira bem diferente, mas concordávamos que a religião, não a ciência, pelo menos propunha uma resposta a duas questões: 1) por que existe alguma coisa lá fora, além de um grande nada (ou, como disse Stephen Hawking, por que o universo "se impor­ta" em existir)? E 2) por que as coisas são tão belas e ordenadas? Não é por acaso que o Antigo Testamento foi a primeira literatura antiga a celebrar as glórias da natureza, pois seus autores reconheciam a obra do Criador.



Sim, mas ele é amistoso? Outro cientista, o naturalista Loren Eiseley, fala de um evento que ele considera a mais significativa experiência de aprendizado de sua longa vida. Surpreendido por uma tempestade repentina na praia, ele procurou abrigo sob um enorme tronco, onde encontrou um pequeno filhote de raposa, talvez com dez semanas de vida, que até então não tinha medo dos humanos. Em poucos minu­tos, ele já havia envolvido Eiseley numa brincadeira como um cabo de guerra, no qual, numa ponta, estava Eiseley, segurando um osso de galinha com a boca, e do outro lado estava a raposinha. A lição que ele aprendeu, conforme o próprio Eiseley disse, é que, no centro do uni­verso, há um sorriso na face de Deus.

Já tive meus próprios encontros com raposas, especialmente ago­ra que vivo no Colorado. Quando três filhotes nasceram numa toca próxima a um barranco, imaginei-me uma espécie de São Francisco de Assis e resolvi fazer amizade com eles. Sentava-me sobre uma almofada, colocada próxima à toca, e lá escrevia meus artigos e meus livros, até que eles se acostumaram comigo. No primeiro dia, anun­ciei minha presença com um "oi", o que os fez correr como se tives­sem ouvido um raio. Olhavam para mim com curiosidade, com os olhos dourados alertas, orelhas se movendo ao menor som, com seu pêlo avermelhado e sem marcas brilhando ao sol. Por fim, os três come­çaram a me seguir, e me senti como o personagem do conto O flautista de Hamelin, dos irmãos Grimm. Se eu parava, eles paravam também e se escondiam atrás de uma rocha ou de um arbusto. Se eu corria, eles corriam também. Se me sentasse para fazer um lanche, eles me cer­cavam e ficavam olhando.

Conforme prosseguia o verão, passei a sentar-me na calçada de mi­nha casa e assobiar. Ao meu comando, as três lindas e jovens raposas vinham saltando pela ravina. Elas espreitavam borboletas que voavam ao redor de um arbusto com flores silvestres, tentando pegá-las como um gato. Perseguiam, desajeitadas, alguns esquilos espertos. Tentavam morder a água que esguichava do regador que tínhamos no jardim. Ficavam em pé sobre as patas traseiras e bebiam a água de nosso be­bedouro de pássaros. Certa vez, pularam para trás quando o espelho d'água refletiu suas faces. Se eu jogasse uma bola de tênis, uma delas saía em disparada, com as duas outras em uma alegre perseguição.

Eu sempre tinha três acompanhantes no verão. Quando cuidava do jardim, cortava a grama ou lia a correspondência em minha rede, lá estavam elas, seguindo todos os meus movimentos. Se eu almoçasse cm nossa varanda de madeira, elas subiam os degraus para se juntar a mim. Se me sentava lá fora para escrever, elas me observavam por alguns instantes, então se enrolavam, colocando a cauda de ponta bran­ca sobre seus olhos, e dormiam. Sentia-me como se estivesse no Éden, quando o medo ainda não havia surgido entre as espécies, ou me ima­ginava no Paraíso, onde o cordeiro se assentará com o leão, e as rapo­sas se deitarão aos pés dos escritores. Tal como Eiseley, aprendi que no coração do universo pode se achar um sorriso. "A beleza do mundo", disse Simone Weil, "é o carinhoso sorriso de Cristo para nós, mostrado através da matéria". Enxergamo-lo raramente neste planeta desfigu­rado, mas esse vislumbre revela tanta realidade quanto todos os livros de Teologia juntos.

Gradualmente, a música, o amor romântico e, em especial, a natureza começaram a suavizar a incessante monotonia do desespero interior que me importunava como uma dor profunda. Passei a ver o desespero como um sintoma normal da humanidade decaída e alheia a seu Criador. Eu precisava, de alguma maneira, me reconectar.

Chesterton havia apontado para São Francisco de Assis, que desen­volvera seu modo de vida a partir do "Irmão Sol" e da "Irmã Lua", e que via uma beleza inexorável na planta mais simples, como um dente-de-leão. Numa passagem memorável, Chesterton contrasta nosso estado com o de Deus, que "é forte o suficiente para se alegrar na monotonia. É possível que Deus diga a cada manhã para o Sol: 'Faça novamente'; a cada noite, ele se volta para a Lua e diz: 'Faça outra vez". É possível que não seja uma necessidade automática que produza as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas ele nunca se cansa de fazê-las. É bem possível que ele tenha o eterno apeti­te da infância, pois nós pecamos e envelhecemos, e nosso Pai é mais jovem do que nós mesmos". Pouco a pouco, a natureza ajudou a reju­venescer em mim aquele apetite da infância.

No entanto, não sou São Francisco, e diferentemente do santo de Assis, estou sempre encontrando mensagens misturadas na natu­reza. Que vislumbre do Criador posso perceber em insetos cujos filhotes abrem caminho para sair de dentro de sua mãe literalmente comendo partes dela? Ou da mosca Xenon peckii, cega e incapaz de voar, que passa a vida inteira nas vísceras de uma vespa, alimentando-se dela? Ou do pequeno peixe amazônico candiru, sem escamas, que penetra no corpo de um banhista desavisado através da uretra e, uma vez lá dentro, esti­ca suas escamas, causando dor excruciante que só pode ser mitigada pela remoção cirúrgica? Até mesmo minhas amadas raposas: por oito vezes pude vê-las pegando um esquilo em meu quintal, um espetáculo sangrento e estrepitoso que não se tira da mente com facilidade. Ontem mesmo vi um enorme alce no cio, bufando, urinando, suando e atacan­do com os chifres abaixados todos os machos que visse pela frente, uma imagem nada encantadora de amor romântico.

Também neste aspecto, Chesterton mostra-se um guia bastante útil. Ele se opõe ao panteísmo e às modernas religiões cósmicas com a forte assertiva presente em Ortodoxia, que diz: 'A natureza não é nossa mãe; a natureza é nossa irmã". Deus criou tanto o mundo natural quanto os seres humanos como qualquer artista cria, formando alguma coisa se­parada de si e, então, deixando-a livre. "Deus havia escrito não um po­ema, mas uma peça; uma peça que ele planejara perfeita, mas que fora necessariamente deixada para os atores humanos e para os diretores de cena, os quais, desde então, deturparam-na completamente."

Chesterton via este mundo como um tipo de naufrágio cósmico. Uma pessoa em busca de sentido relembra um marinheiro que acorda de um sono profundo e descobre tesouros espalhados, relíquias de uma civili­zação da qual mal pode se lembrar. Ele começa a pegar cada uma dessas relíquias - moedas de ouro, uma bússola, roupas finas - e tenta enten­der seu significado. A humanidade decaída está neste estado. As boas coisas que existem na terra, como o mundo natural, a beleza, o amor e a alegria, ainda possuem traços de seu propósito original, mas a amnésia desfigura a imagem de Deus em nós.

Depois de Ortodoxia, li muitas outras obras de Chesterton (ele es­creveu mais de 100 livros e, como escritor, fiquei deprimido por sema­nas ao saber que ele ditou a maioria deles à sua secretária, fazendo pouquíssimas mudanças depois dos primeiros rascunhos). Eu estava escrevendo sobre a questão da dor naquela época e encontrei muitas idéias no tratamento ficcional que ele deu àquele assunto obscuro na obra O homem que foi quinta-feira 22. É surpreendente saber que, conside­rando as diferenças de estilo, esse livro foi escrito no mesmo ano de Ortodoxia. Mais tarde, ele explicou que estava lidando com o desespe­ro, o mal e o sentido da vida, e que havia chegado muito próximo de um colapso mental. Quando emergiu dessa melancolia, procurou fa­zer uma defesa do otimismo no meio da escuridão de um mundo como aquele. Ele estava estudando o livro bíblico de Jó, e assim surgiram essas duas obras: uma delas, um livro de apologética cheio de voltas e mudanças; a outra é melhor descrita como uma combinação de suspense, espionagem e pesadelo.

Em O homem que foi quinta-feira, Chesterton não despreza os incal­culáveis mistérios do sofrimento e do livre-arbítrio. Em vez disto, ele os transforma num argumento minimalista de fé. Na pior situação, nas condições em que quase não se pode encontrar bondade, quando a na­tureza revela apenas o outro lado de Deus, o universo oferece razões para crer. No próprio discurso de Deus a Jó, o Senhor destacou a feroz selvageria da natureza - o hipopótamo e o crocodilo, tempestades e nevascas, a leoa e a cabra, os animais selvagens e os avestruzes -, não o seu lado amigável. Se isto já não bastasse, a natureza revela Deus como sendo misterioso, incalculável, todo-poderoso e digno de adora­ção. Podemos ter poucas pistas sobre os segredos da realidade, mas que magníficas pistas são essas! "Até mesmo a própria existência, redu­zida a seu limite mais primário, já era suficientemente extraordinária e empolgante. Qualquer coisa é magnífica quando comparada a nada", testificou Chesterton, mais tarde. Também na vida dele, a natureza e o amor romântico soavam com altos e reverberantes acordes.

Para Chesterton, e também para mim, os enigmas de Deus pro­varam ser mais satisfatórios do que as respostas propostas sem Deus. Também passei a crer nas coisas boas deste mundo, primeiramente reveladas a mim através da música, do amor romântico e da natureza, como relíquias de um naufrágio e semelhantes a pistas muito claras da natureza de uma realidade encoberta pelas trevas. Deus respondeu à pergunta de Jó com mais perguntas, como se dissesse que a verdade da existência está muito além do alcance de nossa compreensão. Fomos deixados aqui com vestígios do plano original de Deus e com a liberda­de, sempre a liberdade, de jogarmos nossa sorte, apostando em Deus ou contra ele.

Chesterton expressou sua própria reação, um espírito de genuína gratidão, num breve poema:

Vai morrendo mais um dia

Durante o qual tive mãos, olhos, ouvidos

E o vasto mundo ao meu redor;

E amanhã é outro dia.

Por que tenho direito a dois?

Além da questão da dor, G. K. Chesterton parecia igualmente fascinado por seu oposto, o problema do prazer. Ele achava o materialismo pouco adequado para expressar o senso de maravilha e deleite que dá uma dimensão quase mágica a atos humanos básicos como o sexo, o nascimento de uma criança, um divertimento ou uma criação artística.

Por que o sexo é tão divertido? A reprodução certamente não exige prazer: alguns animais simplesmente se dividem em dois para se repro­duzir, e até os humanos usam métodos de inseminação artificial que não envolvem tipo algum de prazer. Por que comer nos dá tanto prazer? As plantas e animais menores obtêm sua quota de nutrientes sem preci­sar do luxo das células gustativas. Por que existem cores? Algumas pes­soas vivem perfeitamente bem sem a capacidade de perceber cores. Por que o restante de nós tem uma visão complexa?

Depois de ler o enésimo livro sobre o problema da dor, fiquei intriga­do por nunca, jamais ter visto um livro sobre o "problema do prazer". Também não me deparei com filósofo algum que balance sua cabeça em perplexidade diante da pergunta: por que sentimos prazer? Mas ela as­soma como uma questão importante, o equivalente filosófico para os ateus do problema da dor para os cristãos. Na questão do prazer, os cristãos conseguem respirar mais aliviados. Um Deus bom e amoroso naturalmente gostaria que suas criaturas experimentassem deleite, ale­gria e satisfação pessoal. Os cristãos partem desta premissa e depois procuram maneiras de explicar a origem do sofrimento. Mas os ateus não deveriam ter uma obrigação similar de explicar a origem do prazer num mundo de coisas feitas a esmo e sem sentido?

Depois de sua longa odisséia, Chesterton voltou à fé porque apenas o cristianismo deu as pistas para resolver o mistério do prazer. "Sentia, primeiramente em meus ossos, que este mundo não se explicava (...) Em segundo lugar, passei a sentir como se a mágica precisasse ter um signifi­cado, e o significado precisasse de alguém para expressá-lo. Havia algo de pessoal no mundo, como numa obra de arte (...) Terceiro, considera­va este propósito maravilhoso em sua forma original, a despeito de seus defeitos, como os dragões. Quarto, que a maneira adequada de agrade­cer a ele é um tipo de humildade e moderação: deveríamos agradecer a Deus a cerveja e o vinho não bebendo muito dos dois (...) E, por último, e mais estranho, tive em minha mente uma vaga e vasta impressão de que, de algum modo, todo o Bem era uma sobra a ser guardada e preser­vada, como sacra, de alguma ruína elementar. O homem salvara seus bens como Robinson Crusoé salvou seus pertences: ele os recuperou de um naufrágio."

De onde vem o prazer? Depois de buscar diversas alternativas, Chesterton fixou-se no cristianismo como a única explicação razoável para sua existência no mundo. Momentos de prazer são restos de um naufrágio jogados na praia, pedaços do Paraíso que resistiram ao tempo. Devemos nos ater a essas relíquias, sem muito apego, e usá-las com gra­tidão e prudência, nunca utilizá-las como rótulos.

Como Chesterton pensava, a promiscuidade sexual nada mais é se­não uma desvalorização do sexo, em vez de ser uma supervalorização. "Reclamar de que só posso me casar uma vez é como reclamar que só nasci uma vez. Era incompatível com a tremenda excitação de quem falava. Mostrava não uma exagerada sensibilidade ao sexo, mas uma curiosa insensibilidade a ele (...) A poligamia é a falta de realização no sexo; é como um homem que quer comer uma pêra, mas colhe cinco só para se distrair."

As igrejas que freqüentei enfatizavam os perigos do prazer tão exageradamente que perdi qualquer mensagem positiva que elas pu­dessem estar passando. Guiado por Chesterton, passei a ver o sexo, o dinheiro, o poder e os prazeres sensoriais como boas dádivas de Deus. Todos os domingos, posso ligar o rádio ou a televisão e ver pregadores censurando as drogas, a libertinagem sexual, a ganância e o crime que estão "crescendo assustadoramente". Em vez de simplesmente balan­çar nosso dedo diante de tão óbvios abusos das boas dádivas de Deus, talvez devêssemos demonstrar ao mundo de onde esses presentes real­mente vêm e por que eles são bons. O maior triunfo do mal pode ser seu sucesso em retratar a religião como uma inimiga do prazer, quan­do, na verdade, a religião aponta para sua fonte: todas as coisas boas e agradáveis são invenção do Criador, que doou liberalmente esses pre­sentes ao mundo.

É natural que, num mundo distanciado de Deus, até mesmo as coisas boas devem ser tratadas com cuidado, como se fossem explosi­vos. Perdemos a imaculada inocência do Éden, e todo o Bem represen­ta também um risco, possuindo dentro de si o potencial para o abuso. Comer se transforma em glutonaria, o amor se torna desejo e, durante o processo, perdemos de vista Aquele que nos deu o prazer. Os antigos transformavam as coisas boas em ídolos; nós, modernos, chamamo-las "vícios". Em ambos os casos, aquele que deixa de ser servo transfor­ma-se num tirano, um princípio que vi claramente em operação na vida de meu irmão e de seus amigos hippies.

"Sou ordinário no exato sentido da palavra", diz Chesterton, "o que significa aceitação de uma ordem, um Criador e uma Criação, o senso comum de gratidão pela Criação, vida e amor como dádivas permanen­temente boas, com o casamento e o cavalheirismo como leis que o con­trolam de maneira adequada". Sob sua influência, também percebi a necessidade de me tornar mais "ordinário". Havia concebido a fé como um mudo e severo exercício de disciplina espiritual, uma mistura de ascetismo e racionalismo na qual a alegria não tinha espaço. Chesterton restaurou em mim uma sede pela exuberância que flui de uma ligação com o Deus que planejou todas as coisas que me dão prazer.

"Existem vários ângulos a partir dos quais alguém pode cair, mas somente um sobre o qual a pessoa pode permanecer em pé", disse Chesterton, e ele terminou caindo pelo excesso, nunca encontran­do o equilíbrio que ele pregava de maneira tão convincente. Ele não apenas colheu cinco pêras só por distração, como também as comeu. Seu peso oscilava entre 130 e 180 quilos, o que, com uma saúde geral ruim, o desqualificara para o serviço militar. Este fato o levou a um encontro nada amigável com uma patriota durante a Primeira Guerra Mundial. "Por que você não está no front?", perguntou uma indignada senhora enquanto espiava Chesterton pelas ruas de Londres. Ele res­pondeu calmamente: "Minha senhora, se saísse um pouco mais às ruas, veria que eu estou".

Esse físico incomum fazia de Chesterton a vítima favorita dos cartunistas de Londres. Um bom desenhista precisa de apenas alguns traços para captar sua essência: de lado, ele parecia um enorme pê maiúsculo. Chesterton completava sua reputação com outras excen­tricidades, a maioria das quais se encaixava no estereótipo de profes­sor relaxado e desatento. Ele era capaz de aparecer num casamento sem usar gravata e com a etiqueta de preço nos sapatos. Usando qual­quer tipo de papel, até papel de parede, ele rabiscava notas quando as idéias lhe surgiam, às vezes em pé, totalmente absorto, no meio do trânsito, um costume muito comum. Certa vez, enviou o seguinte tele­grama à esposa: "Estou no mercado Harborough. Para onde devo ir?" Ela telegrafou de volta, dizendo: "Para casa".

Chesterton dedicava-se alegremente a debates públicos com os agnósticos e céticos da hora, especialmente com George Bernard Shaw - isto num tempo em que um debate sobre fé conseguia encher uma sala de conferências. Chesterton normalmente chegava tarde. Através de seu pincenê, olhava seus papéis sempre desordenados e ia em frente, entretendo a multidão, fazendo gestos nervosos, procurando alguma coisa nos bolsos, rindo de suas próprias piadas de maneira estridente e com voz de falsete. Normalmente, ele cativava a audiência para si e, depois, festejava, levando seu oponente ao pub5 mais próximo. "Shaw é como a Vênus de Milo: tudo nele é admirável", saudava seu amigo, de modo carinhoso.

Cosmo Hamilton, um de seus oponentes em debates, descreveu a experiência:



Ouvir o grito de alegria de Chesterton (...) Vê-lo se dobrando de tanto rir de meus insultos pessoais, ver o efeito de seu espírito esportivo sobre uma audiência impactada que ganhava com suas explosões de alegria que mais lembravam uma galinha cacarejando, era uma visão c um som dos deuses (...) E levei daquela sala um respeito e uma admiração tal por aquele moleque travesso que vivia entre dicionários, aquele Peter Pan filosófico, um doutor Johnson bem-humorado, aquele gentil e galante querubim, aquele profundo estudioso e sábio mestre que crescia cada vez mais (...) Era gi­gantesco, monstruoso, maravilhoso, fatal, delicioso. Nada como aquilo fora feito antes ou será visto, ouvido ou sentido novamente.

Nos dias de Chesterton, os sóbrios modernistas estavam procurando uma nova teoria única para explicar o passado e dar esperança ao futu­ro. Shaw, vendo a história como uma luta entre as classes, propunha o remédio da utopia socialista. H. G. Wells interpretava o passado como uma marcha evolucionária em direção ao progresso e à iluminação (uma visão que o resto do século faria tudo para refutar). Sigmund Freud sustentava uma visão da humanidade livre da repressão e do fardo do subconsciente. Ironicamente, esses três progressistas tinham em co­mum uma fisionomia bastante fechada. Com grossas sobrancelhas, olhos assombrados e óculos de armação escura, eles discutiam suas visões otimistas do futuro.

Enquanto isso, bufando através de seu impróprio bigode loiro, com uma brilhante e rosada face e um brilho penetrante nos olhos, Chesterton defendia alegremente tais conceitos reacionários como sendo o pecado original e o Julgamento Final. Chesterton parecia perceber instintiva­mente que um profeta sisudo dificilmente se destacaria numa sociedade cheia dos "cultos desdenhadores" da religião. Ele preferia assumir o pa­pel de bufão.

Chesterton pedia a todos que desconfiassem de "pessoas duras, frias e magras", e talvez seja por isso que cresci tão afeiçoado a esse divertido e gordo apologista. O que impera hoje em dia na Igreja é a falta de men­tes sóbrias. Os evangélicos são cidadãos responsáveis que a maioria das pessoas gosta de ter como vizinhos, mas com os quais não quer passar muito tempo. Teólogos de aparência séria discursam sobre "os imperati­vos da fé". Os evangelistas da televisão, com todos os fios de cabelo no lugar (às vezes, até tingidos), dão nome ao anticristo, predizem o fim do mundo e anunciam como ter uma vida próspera e sadia enquanto tudo isso não acontece. A direita religiosa clama pela regeneração moral, e os cristãos comuns destacam que a temperança, a diligência e a iniciativa são a prova de sua fé. Será possível que esses cristãos, na ânsia de mos­trar quão bons eles são, rejeitaram o fato básico de que o evangelho soa como boas novas apenas para pessoas ruins?

Preciso perdoar a Igreja da mesma maneira que o filho de uma famí­lia disfuncional perdoa a seus pais e seus irmãos pelos erros cometidos. Sendo um otimista irreprimível, G. K. Chesterton ajudou-me muito nesse processo, também. "O ideal cristão não foi tentado nem é desejado. Con­sidera-se que ele é difícil e, assim, ele permanece intocado", disse ele. A verdadeira pergunta não é: "Por que o cristianismo é tão ruim, quando ele se diz tão bom?" E sim: "Por que as coisas humanas são tão ruins, embora aleguem ser tão boas?" Chesterton prontamente admitiu que a Igreja havia enfraquecido o evangelho. Na verdade, disse ele, um dos mais fortes argumentos em favor do cristianismo é o fracasso dos cris­tãos, os quais, em última instância, provam o que a Bíblia ensina sobre a Queda e o pecado original. Enquanto o mundo caminha de modo er­rado, prova que a Igreja está certa em sua doutrina básica.

Quando o jornal London Times solicitou a diversos escritores que man­dassem ensaios sobre o assunto "O que há de errado com o mundo?", Chesterton respondeu mandando a carta mais curta e direta de todas:



Prezados Senhores

Eu.

Atenciosamente

G. K. Chesterton

Por essa razão, quando as pessoas contam-me suas horríveis histórias por terem crescido num ambiente eclesiástico repressivo, não sinto neces­sidade alguma de defender as ações da Igreja. A igreja da minha infân­cia, assim como a do presente e a do futuro, consiste de seres humanos profundamente falhos que lutam por um ideal inatingível. Admitimos que nunca alcançaremos nosso ideal nesta vida, uma característica dis­tintiva que a Igreja defende, enquanto a maioria das outras instituições humanas tenta negar. Com Chesterton, assumi meu lugar entre aqueles que reconhecem que nós somos a coisa errada no mundo. O que é o meu esnobismo em relação à igreja da minha infância, senão uma forma in­vertida do duro julgamento que ela fez de mim? Todas as vezes que usamos a fé como um título ou como um padrão de medida, estamos jogando as sortes com os fariseus, e a graça lentamente se esvai.

No fim de tudo, voltei para casa como um humilhado pródigo, para a mesma instituição de onde fugira em meio à dor e à rebelião.

O fim de toda a nossa exploração Será chegar ao ponto de partida E conhecê-lo pela vez primeira.

T. S. Elliot

Acho que hoje poderíamos usar outro Chesterton. Em um tempo em que a cultura e a fé se afastaram ainda mais, poderíamos usar seu bri­lho, seu estilo alegre e, acima de tudo, seu espírito generoso. Quando a sociedade fica polarizada, como está a nossa, é como se os dois lados se colocassem a distância e gritassem um para o outro. Eventualmente, um profeta como Martin Luther King Jr. se levanta com poder e elo­qüência suficientes para falar aos dois lados ao mesmo tempo. Chesterton usava outra abordagem: ele se dirigia ao meio de uma ponte oscilante, desafiava qualquer um dos combatentes solitários e então fazia os dois lados rirem a valer.

Por todas as suas idiossincrasias, ele conseguiu expor a fé cristã com tanta perspicácia, tanto bom humor e uma alegre força intelectual quanto ninguém o faz nos dias atuais. Com o zelo de um cavaleiro defendendo seu último reduto, ele lastimou, de maneira pessoal ou por intermédio de textos, todo aquele que ousava interpretar o mundo à parte de Deus e da Encarnação.



O próprio Chesterton disse que a era moderna é caracterizada por uma tristeza que apela para um novo tipo de profeta - não como os profetas do Antigo Testamento, que lembravam as pessoas que elas iriam morrer, mas alguém que lhes lembre que elas ainda estão vivas. O profeta de grande alegria e grande circunferência encaixava-se nesse papel de maneira esplêndida. T. S. Elliot considerava que "ele fez mais, creio, do que qualquer outro homem de sua época (...) para manter a existência de uma importante minoria no mundo moderno". Eu sei que ele fez isso por mim. Todas as vezes que sinto minha fé secando outra vez, vou a uma prateleira e apanho um livro de G. K. Chesterton. Toda a aventura começa outra vez.

G. K. CHESTERTON PARA INICIANTES


Naturalmente, sugiro que você comece com Ortodoxia. Se gostar deste livro, deve prosseguir e ler The Everlasting Man, que é o resumo que Chesterton fez da vida de Jesus, e suas biografias São Francisco de Assis e São Tomás de Aquino23: Há várias coleções impressas de seus ensaios, e, para o leitor insaciável, a Ignatius Press tem se engajado há algum tempo na enorme tarefa de publicar a obra Collected Works de Chesterton, em 45 volumes, a maioria dos quais já está disponível. E, certamente, os amantes da ficção apreciarão seu O homem que foi quinta-feira e as histó­rias do Padre Brown. Existem várias biografias de qualidade sobre a vida de Chesterton, mas nenhuma é mais interessante (ou mais loucamente seletiva) que sua própria Autobiography. Para obter uma variedade de ensaios e resenhas, tanto de autoria de Chesterton quanto sobre ele, veja também o informativo trimestral The Chesterton Review, produzido pela Seton Hall University.


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