Alma sobrevivente



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2. Martin Luther King Jr.

A LONGA JORNADA NOTURNA RUMO AO DIA


No dia em que me formei no segundo grau, come­cei a trabalhar num emprego de verão8 que consistia em ca­var valas. Fiz aquilo apenas para economizar algum di­nheiro para a faculdade. Nossa equipe de trabalho era composta por quatro homens negros bastan­te musculosos e um garoto branco magricela: eu. O capataz, branco, deixava-nos perto do local do tra­balho, estacionava o caminhão à sombra de uma árvore próxima, acendia um cigarro e começava a ler a página de esportes. Embora começássemos a tra­balhar logo depois do nascer do Sol, o ar já era abafado e úmido. Eu cavava com prazer, colocando ritmicamente minha pá no chão, apertando com o pé a parte metálica com certa pressão que fazia a terra se desprender. Então, jogava a terra em um mon­te que ficava próximo. Os quatro homens negros olhavam aquele movimento agitado com surpresa, como se eu tivesse inventado al­gum esporte exótico. Finalmente, um deles veio a mim e disse: "Fi­lho, você vai se matar trabalhando deste jeito. Não vai durar nem até a hora do café. Olhe como eu faço". Ele empurrou a lâmina da pá terra adentro, pisou nela, então fez uma pausa, deu uma tragada no cigarro, apoiando a mão no cabo da pá. Um minuto ou dois depois, com total indiferença, ele jogou a terra na pilha que havia feito, colocou a pá para baixo e deu mais umas duas ou três tragadas. Os outros três homens fizeram o mesmo.

Ansioso por impressionar o capataz logo no primeiro dia, decidi trabalhar de um jeito que estava no meio do caminho entre a técnica desses homens e a minha. Na hora da parada para o café, pude con­cluir sem sombra de dúvidas que meu mentor estava certo. Minha camiseta estava ensopada de suor e toda manchada pelo barro da Geórgia. As articulações de meus pés doíam. Sentia como se diversos lutadores de boxe tivessem pulado em cima de meus braços. Minhas costas estavam arcadas como as de um homem velho, e fui andando assim, corcunda, para o caminhão, em busca de água.

Fizemos fila atrás do caminhão, alternando-nos para beber a água que estava em um recipiente metálico que havia ficado sob o sol a ma­nhã inteira, deixando a temperatura mais alta que a do ambiente. Só havia um copo, amarrado ao balde por uma corrente metálica, e todo mundo bebia nele. De repente, de dentro da cabina do caminhão, o capataz olhou para mim pelo retrovisor e disse: "Garoto, o que você está fazendo? Venha aqui". Obediente, dirigi-me à cabina. "Entre", disse ele, com certo nojo. "Você não deve beber aquela coisa. Aquilo é água de negro! Aqui, comprei uma para nós." Ele abriu a tampa de uma garrafa térmica e colocou água gelada num copo de papel.

Nasci em Atlanta, Geórgia, em 1949, cinco anos antes de a Supre­ma Corte decidir a favor de escolas integradas, 15 anos antes de uma lei de direitos civis forçar os restaurantes e motéis a atender pessoas de todas as raças e 16 anos antes de o Congresso americano garantir às minorias o direito ao voto. Os postos de gasolina daquela época tinham três placas indicativas: "homens brancos", "mulheres brancas" e "ne­gros". As lojas tinham dois bebedouros, um para brancos e outro para negros. Muitos museus tinham um dia reservado à visitação dos negros; fora desse dia, eles eram barrados na porta. Quando andava de ônibus, via trabalhadores e empregadas domésticas sentarem-se obedientemente nos últimos assentos. Pela lei, deveriam ceder seus lugares se algum pas­sageiro branco quisesse sentar. No Estado vizinho, Alabama, os negros tinham de entrar pela porta da frente, pagar ao motorista e, então, des­cer e entrar novamente no ônibus pela porta de trás. Alguns motoristas malvados às vezes fechavam a porta de trás e partiam, deixando para trás passageiros negros que já haviam pagado a passagem.

Meu avô contava-nos histórias do passado, quando o avô dele pos­suía uma fazenda cheia de escravos, muitos dos quais adicionaram o nome "Yancey" depois de sua emancipação. Já tentamos encontrar al­guns dos Yancey negros e saber seus nomes por intermédio da lista tele­fônica. Quando adolescente, ele viu vários corpos negros balançando em postes de iluminação durante os tumultos raciais de 1906, época em que brancos ávidos por vingança lincharam quase 50 homens negros depois de rumores de insultos sexuais. Ele costumava levar meu pai e meus tios para visitar o Lar dos Veteranos Confederados, onde podia ouvir homens lamentando a "agressão bélica do norte", termo que usa­vam para se referir à Guerra Civil. Um desses meus tios mudou-se para a Austrália depois que os tribunais forçaram as escolas a integrar todas as raças. Na época do Natal, enquanto estávamos todos sentados à mesa da casa de nossa avó sulista, comendo vegetais, purê de batatas, biscoi­tos, presunto e peru, os empregados negros que trabalhavam carregando e descarregando caminhões costumavam ir até a porta dos fundos, bater e esperar, envergonhados, até que meu avô lhes desse alguns dólares de prata como gratificação de Natal.

Vivíamos em um regime de segregação racial. Embora Atlanta tives­se um número semelhante de habitantes negros e brancos, comíamos em restaurantes diferentes, brincávamos em parques separados e fre­qüentávamos escolas e igrejas distintas. Às vezes, via placas que diziam: "Proibida a entrada de cães e negros". Pela lei, os negros não podiam fazer parte de júris, mandar os filhos para escolas de brancos, usar ba­nheiros reservados a brancos, dormir em motéis de brancos, sentar nos melhores lugares de um cinema, nadar numa piscina de brancos. Pelo fato de os hotéis de veraneio do Alabama não aceitarem negros, Martin Luther King Jr. passou sua lua-de-mel na coisa que mais se aproximava de uma acomodação pública: uma sala de velórios que pertencia a ami­gos da família. O governador do Estado pediu que o Georgia Tech, um time de futebol americano, deixasse de participar de um jogo no estádio Sugar Bowl em 1955 porque descobriu que o time adversário, de Pittsburgh, tinha um jogador negro na reserva. Quando um professor universitário negro fez sua entrevista para entrar na Universidade do Mississippi e, assim, tornar-se o primeiro de sua raça a conseguir esse feito, as autoridades o entregaram a uma instituição de doentes men­tais, alegando que somente um negro insano poderia querer lecionar na chamada "Ole Miss".

Por ser criança, nunca questionei o sistema no qual vivíamos por­que ninguém ao meu redor o questionava. A pessoa mais famosa de nossa igreja, além de tudo, era um visitante ocasional chamado Lester Maddox, que às vezes falava na reunião da sociedade de homens. Com segundo grau incompleto, Maddox era o dono do Pickrick, um restau­rante especializado em frango. Colocava anúncios nos jornais de Atlanta todas as semanas, denunciando uma tentativa do Governo Federal de tomar-lhe os direitos àquela propriedade. Quando o Governo insistiu que ele deveria servir refeições a negros e um grupo apareceu por lá para conferir, seus clientes afugentaram o grupo usando cabos de machados, enquanto Maddox brandia um revólver calibre 32. Em protesto, Maddox fechou o restaurante, publicou anúncios ainda mais contundentes e inaugurou um memorial à morte da livre iniciativa, o qual cheguei a visitar. Música fúnebre tocava ao fundo, enquanto os visitantes passavam diante de um caixão forrado de preto no qual re­pousava uma cópia da Declaração de Direitos dos Estados Unidos.

O museu de Maddox vendia lembranças em forma de cabos de picaretas, lembrando aqueles usados pelos policiais para acalmar os defensores dos Direitos Civis. Eram oferecidos em três tamanhos: "Pa­pai", "Mamãe" e "Júnior". Comprei o tamanho Júnior com o dinheiro que ganhei fazendo entrega de jornais de porta em porta. Parecia-se com um cassetete de policial, e guardei-o em meu armário. Maddox, um herói popular dos brancos do Sul, foi adiante e tentou tornar-se governador do Estado da Geórgia, em 1967. Como não conseguiu, em 1972 concorreu à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Ameri­cano Independente, usando o escritório de assistente do governador como base.

As pessoas negras permitiram que nós tivéssemos alguém para des­prezar, alguém de quem poderíamos zombar e nos sentir superiores. Minha família mudava-se de casa a cada ano ou dois, quando o aluguel ficava muito alto, e vivíamos em projetos habitacionais do governo ou áreas de trailers. Sociologicamente, poderíamos ser considerados como "pobre lixo branco". Mas, pelo menos, éramos brancos.

Hoje em dia, quando os historiadores olham para as décadas de 1950 e 1960 no Sul dos Estados Unidos, declaram que aquele foi um tempo que estava maduro para mudanças sociais. Isto depende de sua perspectiva. Para minha família, amigos, vizinhos e membros de nossa igreja, a época ainda estava muito verde. Víamos a nós mesmos como presos em um cerco, com nossa maneira de viver sendo constan­temente ameaçada por agitadores externos.

Quando o diretor da escola anunciou que o presidente John F. Kennedy levara um tiro, alguns alunos de minha escola levantaram-se e comemoraram. Como o presidente que havia proposto a legislação sobre direitos civis e que a confirmou, enviando tropas federais para fazer a Universidade do Mississippi aceitar James Meredith, seu primeiro aluno negro, Kennedy representava uma intolerável ameaça a nosso confor­tável enclave de racismo. Até aquele momento, republicanos como Eisenhower e Nixon tinham sido inimigos dos direitos civis; os membros do Partido Democrata eram dependentes dos chamados dixiecratas9 , que controlavam 75% das cadeiras do Congresso e dominavam o Senado por meio de obstruções aos trabalhos legislativos. Kennedy, portanto, era um inimigo do Sul que vivia na Casa Branca.

Minha escola tinha o nome de um general confederado, John B. Gordon. Em 1966, ano em que me formei no segundo grau, nenhum aluno negro havia colocado os pés naquele campus. Famílias negras ha­viam se mudado para a vizinhança, e os brancos estavam fugindo para a região de Stone Mountain e para o Leste, mas nenhuma família negra ousava matricular os filhos em nossa escola. Todos acreditávamos (e não tenho razões para descrer hoje) que Malcolm, um garoto com cabelo cortado como os recrutas, que usava plaquetas de metal em seus sapatos e adorava uma briga, era quem mantinha os negros a distância. Acredi­tava-se que ele era sobrinho do Grande Dragão da Ku Klux Klan.10 Malcolm proclamava que o primeiro negro daquela escola voltaria para casa em um carro funerário.

A Ku Klux Klan exercia uma influência quase mística em nossas men­tes. Fiz trabalhos escolares sobre isto. Ouvíamos que ela era um exército invisível, a última linha de defesa a preservar a pureza cristã do Sul.

Lembro-me de uma vez, ainda criança, em que vi um cortejo fúnebre de um Dragão ou Mago ou qualquer grandão da KKK. Tivemos de esperar toda a carreata passar para que pudéssemos virar à esquerda numa rua. Dúzias, dezenas, centenas de carros passaram diante de nós, cada um sendo dirigido por uma pessoa vestindo túnicas brancas ou verme­lhas e um gorro pontudo com pequenas aberturas para os olhos. Era um dia quente, e os cotovelos dos motoristas destacavam-se para fora das janelas dos carros, formando ângulos agudos. Quem seriam eles, aqueles . druidas reencarnados? Eles podiam ser qualquer pessoa: o frentista do posto de gasolina, um diácono da igreja, meu tio. Ninguém sabia com certeza. No dia seguinte, o Atlanta Journal publicou que a carreata es­tendeu-se por mais de sete quilômetros.

Também me lembro de um 4 de julho, Dia da Independência dos Estados Unidos, quando houve uma reunião na área de um autódromo. Os patrocinadores trouxeram luminares como George Wallace 11 e um alto funcionário da ultraconservadora Sociedade John Birch, assim como o filho da terra, Lester Maddox. Agitávamos pequenas bandeiras, sau­dando os oradores todas as vezes que diziam que Washington estava esmagando os direitos do Estado. Um grupo de 20 homens negros, mos­trando coragem como nunca vira antes, compareceu àquela reunião, formando uma notória mancha escura no meio daquela arquibancada alva, sem participar, apenas observavam.

Não vi ninguém dar algum sinal, mas logo depois de uma entusias­mada execução do Dixie, homens encapuzados da Klan levantaram-se do meio da multidão e deram início a uma horrenda caminhada em direção àqueles homens negros, cercando-os. Os negros se levantaram e ficaram juntos, olhando desesperadamente ao redor, mas não havia por onde escapar. Por fim, desesperados, alguns começaram a escalar uma cerca de arame de quase dez metros de altura que estava ali para prote­ger os espectadores dos carros, com os homens da Klan atrás deles. O sistema de som ficou mudo e todos nós nos voltamos para ver os ho­mens da Klan tirando os corpos que pendiam da cerca, como quem tira a presa de uma armadilha. Começaram a bater neles com os punhos e com cabos de enxadas semelhantes aos que Lester Maddox vendia.

Depois de um tempo, alguns poucos policiais da Patrulha Estadual da Geórgia vagarosamente entraram no autódromo e fizeram os ho­mens da Klan parar. Quarenta anos se passaram, e ainda posso ouvir os gritos rebeldes, os apelos das vítimas e o soar dos punhos desnudos dos homens da Klan atingindo a carne daqueles homens. E, com muita vergonha, ainda me lembro da vibração adolescente que senti - minha primeira experiência diante do impulso da multidão -, misturada com horror, enquanto aquela cena se desenrolava diante de meus olhos.

Atualmente sinto vergonha, remorso e também arrependimento. Anos se passaram até que Deus quebrasse a fortaleza do racismo des­carado que havia dentro de mim - fico pensando se todos nós nos livramos de suas formas mais sutis -, e hoje vejo aquele pecado como um dos mais nocivos, provavelmente com os mais tóxicos efeitos na sociedade. Quando os especialistas discutem a questão dos excluídos nas cidades da América, costumam colocar a culpa nas drogas, na mu­dança de valores, na pobreza provocada pelo sistema e na ruptura da família nuclear. Às vezes fico pensando se todos esses problemas não são conseqüências de uma causa muito mais profunda e fundamental: o pecado de séculos de racismo.

Essas lembranças do racismo de minha juventude vieram a minha mente há pouco tempo, enquanto lia algumas biografias de Martin Luther King Jr., o cidadão de Atlanta que foi rotulado por Lester Maddox como "inimigo de nosso país". Nos anos que se seguiram, dois longos trabalhos sobre a vida de King ganharam Prêmios Pulitzer: Bearing the Cross (Suportando a cruz), de David Garrow, de 1987, e Parting the Waters (Divisor de águas), de Taylor Branch, de 1989. As horas que passei diante deles provocaram em mim um estranho sentimento, semelhante, mas não igual, a um déjà vu.

Embora eu estivesse viajando por lugares familiares, como Selma, Montgomery, Albany, Atlanta, Birmingham, St. Augustine e Jackson, toda a paisagem havia mudado. Os historiadores registram estas cida­des como sendo campos de batalha de uma corajosa luta moral, com o que concordo hoje. Contudo, durante minha fase de crescimento, na década de 1960, aquela região geográfica mais parecia uma área de cerco. Encrenqueiros do Norte, estudantes interessados em aventuras políticas, rabinos e pastores protegidos por agentes federais, todos in­vadindo nosso território. E a pessoa que liderava as marchas em cada uma dessas cidades era o nosso inimigo público número 1: um nativo de minha Atlanta, a quem o Atlanta Journal constantemente acusava de "incitar a baderna em nome da justiça". As pessoas de minha igreja cunharam um nome para ele: "Martin Lúcifer Negão".

A apropriação que Martin Luther King Jr. fizera do evangelho cris­tão era o que mais perturbava a todos nós. Afinal, ele era um pastor ordenado, e até mesmo minha igreja fundamentalista reconhecia a inte­gridade de seu pai, Daddy King, respeitado pastor da Igreja Batista Ebenézer. É claro que tínhamos nosso modo de resolver essa dissonância de comportamento. Dizíamos que o jovem King era comunista de carteirinha, um agente marxista que posava de ministro cristão. Afinal, Krushev não havia decorado os Evangelhos quando era jovem? Stalin não havia freqüentado um seminário? George Wallace citou fontes do FBI para acusar King de pertencer a mais organizações comunistas do que qualquer outro homem nos Estados Unidos.

Dizíamos que Daddy King havia criado Martin de maneira ade­quada, mas que o Seminário Crozer, situado no norte do país e muito liberal, havia poluído sua mente. Ele seguia o Evangelho social, se é que seguia algum evangelho (nunca nos perguntamos quantos outros seminários conservadores haviam aceitado Martin como aluno). Quan­do surgiram os rumores de uma conduta sexual inadequada, para nós o caso estava encerrado. Martin Luther King Jr. era uma fraude, uma imitação, jamais um cristão verdadeiro.

Biografias recentes de King tratam dessas acusações de maneira detalhada. A maioria dos rumores está ligada a agentes do FBI, pois J. Edgar Hoover 12 tinha uma vendeta pessoal contra King e, com autori­zação de Robert Kennedy, colocou escutas nos telefones de King e seus colegas. O presidente John Kennedy pediu pessoalmente a King que não fizesse contato com seus conselheiros mais próximos por causa dos alegados laços com o comunismo. King jamais teve qualquer sim­patia pelo comunismo, embora às vezes se cansasse das injustiças pra­ticadas debaixo do capitalismo democrático. A verdade é que alguns de seus conselheiros de confiança realmente haviam participado do Partido Comunista anos antes, mas King tinha amigos por todo o es­pectro político. Sua tendência era a de julgar as pessoas com base no compromisso que elas tinham com os direitos civis, e, a partir desta medida, os esquerdistas tinham muito mais a oferecer do que os, diga­mos, "clérigos" sulistas.

Durante a época de King, o FBI olhava com suspeita para todos os brancos que se misturavam facilmente com amigos de diferentes raças e grupos econômicos. Eles eram comunistas em potencial. Se apenas os cristãos, e não os comunistas, se encaixavam no perfil do FBI, hoje lamento muito. O que víamos era a imprensa comunista de além-mar trombetear a história de segregação racial na "América cristã".

Para piorar as coisas, as acusações de imoralidade sexual de King refletiam fatos reais, não rumores. O FBI gravou inúmeros episódios nos quartos de hotel em que King se hospedara e, graças à Lei de Liber­dade de Informação, os historiadores podem analisar as transcrições verdadeiras. Ralph Abernathy revelou que King manteve casos extraconjugais até a véspera de sua morte. Um agente do FBI (William Sullivan, que terminou chegando à posição de diretor assistente) en­viou a King algumas de suas gravações com um bilhete pedindo que ele cometesse suicídio. "Você está perdido. Não há outra saída para você. É melhor você dar um fim nisso antes que sua figura fraudulen­ta, suja e anormal seja revelada à nação."

Além da permissividade sexual, King também foi acusado de plágio. Ele inseriu em sua tese, com seus discursos e falas, material de outras fontes sem citar os créditos. Sou franco em dizer que acho mais fácil compreender as falhas na conduta sexual de King, um pecado que ele não cometeu sozinho, do que o problema com o plágio. Por que ele, um cativante mestre da prosa, teria necessidade de roubar o material de outra pessoa?

Incansáveis pressões atacavam King de todos os lados. Ele enfren­tou ameaças de morte tanto de segregacionistas quanto do FBI. Uma bomba explodiu em sua casa. Igrejas de negros eram incendiadas to­das as semanas nos Estados do Sul. Seus voluntários eram ameaçados, espancados e presos, e alguns deles estavam morrendo. Era comum a Conferência de Liderança Cristã do Sul deixar de pagar seu salário, e um de seus mais eficientes levantadores de fundos era um dos conse­lheiros que o presidente Kennedy fora obrigado a demitir. Edições do Atlanta Journal e do New York Times condenavam seus atos. A NAACP 13 criticava-o por ser tão radical, enquanto o SNCC 14 considerava seu programa tímido demais. Dezenas de manifestações estudantis em gran­des cidades pediam que ele os acompanhasse à cadeia. Voluntários do Mississippi imploravam que ele arriscasse sua vida com eles. Em que ele deveria se concentrar: no direito ao voto ou em restaurantes segregacionistas? Que leis injustas deveriam ser violadas? E quanto a desafiar ordens judiciais? Ele deveria se ater aos direitos civis ou expandir sua atuação para a pobreza? O que dizer da Guerra do Vietnã?

Hoje sou capaz de entender melhor as pressões que King enfrentou em toda sua vida adulta, pressões que certamente contribuíram para seus erros. As fraquezas morais de King forneciam uma desculpa bas­tante conveniente para aqueles que queriam evitar sua mensagem e, por causa dessas fraquezas, alguns cristãos ainda fazem restrições à genuinidade de sua fé. Estes cristãos deveriam rever a lista das excepcio­nais pessoas de fé de Hebreus 11, uma lista que inclui desviados morais como Noé, Abraão, Jacó, Raabe, Sansão e Davi. Já o desprezei pelo me­nos uma vez, mas hoje não consigo ler uma única página de sua história ou um parágrafo de seus discursos sem sentir a centralidade de sua con­vicção cristã. Possuo uma coleção de fitas com seus sermões, e todas as vezes que as ouço sou tocado pelo poder arrebatador de sua mensagem calcada no evangelho, transmitida com uma eloqüência jamais igualada.

David Garrow constrói seu livro em volta da chamada sobrenatural de King, no início de sua carreira. "Foi a noite mais importante de sua vida", escreve Garrow, "aquela à qual ele retornaria nos anos futuros todas as vezes que as pressões também parecessem ser grandes demais". King fora levado à liderança da luta pelos direitos civis na cidade de Montgomery, Alabama, depois que Rosa Parks tomou a corajosa deci­são de não ir para o fundo do ônibus. A comunidade negra formou uma nova organização para liderar o boicote aos ônibus e, à revelia, escolheu como candidato a essa liderança o novo ministro da cidade, King, que, aos 26 anos, "parecia mais um garoto do que um homem". Tendo cres­cido num ambiente de classe média, herdando a religião de seu pai pre­gador, King não se sentia qualificado para liderar uma grande cruzada pela moralidade.

Tão logo King foi proclamado líder do movimento, começaram as ameaças da Ku Klux Klan. Elas não vieram apenas da KKK: em poucos dias, King foi preso e colocado na cadeia de Montgomery por dirigir a 48 km por hora, numa área cuja velocidade máxima permitida era 40 km. Na noite seguinte, em sua casa, abalado por sua primeira expe­riência na cadeia, King sentou-se em sua cozinha, pensando se poderia suportar aquilo tudo. Deveria desistir? Era quase meia-noite. Ele se sentia agitado e muito temeroso. Poucos minutos atrás, o telefone ha­via tocado. "Negro, estamos cheios de você e da bagunça que você está fazendo. Se você não sair da cidade em três dias, vamos estourar seus miolos e acabar com sua casa." King sentou-se, olhando fixamente para uma xícara de café na qual não tocara, pensando numa saída, uma maneira de desistir da liderança e reassumir a vida tranqüila de aca­dêmico que havia planejado. Na sala ao lado estava sua esposa Coretta, dormindo, com sua filha recém-nascida, Yolanda. Veja como King relatou esse momento em um sermão que pregou:



E sentei-me à mesa, pensando naquela menina e no fato de que ela poderia ser tirada de mim a qualquer momento. Comecei a pensar na esposa dedicada, devotada e leal que estava ali, dormindo... E concluí que não poderia suportar mais aquilo. Eu era fraco... Percebi então que a religião precisava tornar-se algo real para mim e que eu precisava conhecer Deus por mim mesmo. Curvei-me em oração diante daquela xícara de café. Nun­ca vou me esquecer... Fiz uma oração e orei em voz alta aquela noite. Eu disse: "Senhor, estou aqui tentando fazer o que é certo. Penso que estou certo. Penso que a causa que representamos é certa. Mas, Senhor, preciso confessar que me sinto fraco agora. Estou vacilando. Estou perdendo a coragem". (...) E pareceu-me que, naquele momento, pude ouvir uma voz dentro de mim, dizendo: "Martin Luther, levante-se em nome da retidão. Levante-se pela justiça. Levante-se pela verdade. Saiba que estarei com você até o fim do mundo". Ouvi a voz de Jesus dizendo calmamente que eu deveria continuar lutando. Ele prometeu que jamais me deixaria, nunca me abandonaria. Eu nunca estaria só. Nunca estaria sozinho. Ele prometeu nunca deixar-me, nunca deixar-me sozinho.

Três noites depois, conforme prometido, uma bomba explodiu na va­randa de sua casa, enchendo-a de fumaça, quebrando os vidros, mas não ferindo ninguém. King recebeu isso com tranqüilidade: "Minha expe­riência religiosa de algumas noites atrás me deu a força para enfrentar esta situação".

Garrow tece sua narrativa ao redor da visitação ocorrida na cozinha, voltando a ela diversas vezes, pois King buscava forças nessa lembrança a cada situação crítica de sua vida. Para ele, aquilo se tornou o funda­mento da fé pessoal, uma unção de Deus para uma tarefa particular.Quando leio relatos sobre a vida de King e as muitas referências que ele faz àquela noite, sempre sou impactado pela simplicidade da mensa­gem que ele recebeu: "Estou contigo". Aquelas palavras contêm um tema marcante da Bíblia: o Emanuel (Deus conosco), a presença de Deus. Nos 13 anos seguintes de sua carreira, King teve outras experiências religio­sas e muitos momentos de crise, mas nada comparável àquela noite, à mesa da cozinha. Aquela palavra foi suficiente.

Enquanto isso, o extremo sul do país via Martin Luther King Jr. por uma ótica religiosa diferente. Freqüentei duas igrejas durante mi­nha adolescência. A primeira, uma igreja batista com mais de mil mem­bros, orgulhava-se de sua identidade de "uma igreja que ama a Bíblia e onde as pessoas são amáveis", bem como do sustento de 105 missio­nários em outros países, cujos cartões de oração eram afixados num enor­me mapa que ficava na parte posterior do santuário. Essa igreja era uma das principais referências de famosos oradores evangélicos. Conhe­ci a Bíblia ali. Ela não possuía um laço muito forte com a Convenção Batista do Sul, uma denominação formada em 1845, quando os abolicionistas do Norte decidiram que os donos de escravos não se en­caixavam no perfil de um missionário, o que fez com que os sulistas se separassem em protesto. Até mesmo os batistas do Sul eram por demais liberais para nós, sendo esta a razão de mantermos laços não muito estreitos com eles. Alguns deles fumavam e, a muito custo, a Convenção endossou a legislação de direitos civis.

Na década de 1960, em função do desejo de estudantes negros se filiarem às igrejas de Atlanta, nosso corpo diaconal mobilizou esqua­drões de observação que se revezavam em turnos para patrulhar as entradas com o propósito de não permitir que nenhum "arruaceiro" negro aparecesse. Possuo ainda hoje um dos cartões que os diáconos imprimiram para dar a qualquer defensor dos direitos humanos que aparecesse:

Crendo que os motivos ocultos de seu grupo sejam estranhos aos ensina­mentos da Palavra de Deus, não podemos dar-lhes boas-vindas, e respeitosamente pedimos que vocês deixem o recinto em silêncio. As Escri­turas NÃO ensinam "a irmandade de todos os homens e a paternidade de Deus". Ele é Criador de todas as coisas, mas é Pai apenas daqueles que foram regenerados. Se algum de vocês está aqui com o sincero desejo de conhecer a Jesus Cristo como Salvador e Senhor, teremos um enorme prazer em conversar individualmente sobre a Palavra de Deus.

(Declaração unânime do pastor e dos diáconos, agosto de 1960)

Depois do caso "Brown versus Board of Education" 15, nossa igreja fun­dou uma escola particular que era um refúgio para os brancos, pois ela bania expressamente todos os alunos negros. Alguns membros saíram da igreja em protesto quando o jardim de infância se recusou a admitir a filha de um professor negro da Escola Dominical, mas a maioria apro­vou a decisão. Um ano depois, a igreja rejeitou a carta de transferência de um aluno do Instituto Bíblico Carver (seu nome era Tony Evans, e ele se tornou um destacado pregador e orador da cidade de Dallas, no Estado do Texas).

A outra igreja que freqüentei era menor, mais fundamentalista e mais abertamente racista (aquela a cujo sepultamento eu havia assisti­do). Ali pude aprender a base teológica do racismo. O pastor ensinava que a palavra hebraica cam significa "queimado", "preto", fazendo do filho de Noé o pai de todas as raças negras. Numa maldição imprecada por Noé, Cam deveria ser o mais baixo dos servos (veja Gn 9:18-27). Era isso o que eu ouvia quando meu pastor explicava por que os ne­gros eram bons garçons e as negras, boas empregadas domésticas. Ele imitava seus movimentos na plataforma, mexendo os quadris como se estivesse evitando uma mesa, fingindo agitar uma bandeja com comi­da acima de sua cabeça, e todos nós ríamos de suas brincadeiras. "Os garçons negros são bons nesta profissão porque este é o trabalho que lhes foi destinado por Deus por meio da maldição de Cam", dizia ele. Ninguém se preocupava em destacar que a maldição fora pronuncia­da, na verdade, contra o neto de Noé, Canaã, e não contra Cam.

Na mesma época, o Baptist Record, uma publicação do Estado do Mississippi, publicou um artigo que defendia a idéia de que Deus queria os brancos governando sobre os negros porque "uma raça cuja inteligên­cia média beira à estupidez" está obviamente "privada de qualquer bênção divina". Se alguém questionasse essa doutrina claramente ra­cista, os pastores saíam com o expediente infalível da miscigenação (mistura de raças), que alguns especulavam ser o pecado que havia levado Deus a destruir o mundo nos dias de Noé. A simples pergunta "você quer que sua filha traga para casa um namorado negro?" silencia­va todos os argumentos raciais.

Você pode ver distorções teológicas como estas em sites da internet patrocinados por defensores da supremacia branca. Poucas pessoas, porém, aceitam tais argumentos hoje, e uma das principais razões (para mim, especialmente) é o papel profético de Martin Luther King Jr. Foi preciso um homem com sua força moral para despertar igrejas daquilo que Reinhold Niebuhr chamou "o pecado da trivialidade" para, então, enfrentar os clamores maiores do evangelho.

A palavra "profeta" me vem à mente porque King, como os profetas do Antigo Testamento, esforçou-se para mudar uma nação inteira por meio de um apelo moral direto. A paixão e a intensidade dos profetas bíblicos há muito me fascina, pois a maioria deles enfrentou platéias inflexíveis, preconceituosas e intratáveis, como eu era durante os anos de minha adolescência. Com tal alavanca moral, será alguém capaz de mover uma nação inteira? Estudando os profetas, pude perceber que virtualmente todos eles apresentaram uma abordagem dividida em duas partes.

Primeiramente, eles apresentaram uma visão imediata daquilo que Deus requeria deles naquele momento. No Antigo Testamento, isto nor­malmente consistia de uma exortação em direção a atos de fidelidade. "Reconstruam o Templo"; "Purifiquem seus casamentos"; "Ajudem os pobres"; "Destruam os ídolos e coloquem Deus em primeiro lugar". Os profetas, contudo, nunca paravam aí. Eles também apresentavam uma visão de mais longo prazo para responder às perguntas mais profundas das pessoas. Como podemos acreditar que Deus nos ama diante de tão grande sofrimento? Como podemos acreditar num Deus justo quando o mundo parece ser governado por uma conspiração maligna? Os profetas responderam a estas questões lembrando a seus ouvintes quem era Deus e pintando um maravilhoso quadro do futuro Reino de justiça e retidão.

De acordo com uma autêntica tradição profética, Martin Luther King Jr. usava essa abordagem dupla. Para ele, essa visão mais concen­trada apelava para uma coisa acima de qualquer outra: não-violência. King matriculou-se no seminário no ano em que Mahatma Gandhi mor­reu, e dele (não de cristãos americanos) recebeu uma visão de como mudar uma nação. King dizia que Gandhi foi "a primeira pessoa na história a viver a ética do amor de Jesus acima da simples interação entre indivíduos". De algum modo, Gandhi havia encontrado uma ma­neira de mobilizar um movimento em torno dos elevados princípios de Jesus quanto à esperança, ao amor e à não-violência.

Do mesmo modo que Gandhi, King via o Sermão do Monte como um livro-texto do ativismo:

Quando fui para Montgomery como pastor, não tinha a menor idéia de que um dia estaria envolvido numa crise na qual a resistência baseada na não-violência seria aplicável. Eu nem começava nem sugeria os protestos. Simplesmente respondia aos apelos de uma multidão perante seu porta-voz. Quando os protestos começaram, conscientemente ou não, minha men­te voltou-se para o Sermão do Monte, com seus sublimes ensinamentos sobre o amor, e para o método de resistência sem violência de Gandhi.

(Extraído do livro Stride Toward Freedom)16

King viajou para a Índia com sua esposa em 1959, para observar in loco o impacto da revolução sem violência. "Deixei a Índia", disse ele, "ainda mais convencido de que a resistência sem violência é a mais potente arma à disposição do povo oprimido em sua luta pela liberda­de". Em busca de outros modelos, King seguiu o exemplo de Daniel e seus três amigos, os quais desobedeceram às leis de Nabucodonosor, e dos cristãos da Igreja primitiva, que enfrentaram leões famintos em vez de se submeter às injustas leis do império romano. Como ele mais tarde escreveu: "Alguém que quebra uma lei injusta deve fazê-lo de maneira aberta, amorosa e com disposição para aceitar as conseqüências".

O movimento dos direitos civis deu a King muitas oportunidades de testar sua filosofia de não-violência. Uma mulher mentalmente per­turbada atirou nele em Nova York, e a bala se alojou a poucos centí­metros de sua aorta. Um homem branco da cidade de Birmingham correu para a plataforma onde ele estava e o esmurrou. "Não toquem nele!", gritou King a seus companheiros, que cercaram o homem. "Te­mos de orar por ele." Xerifes do Sul se deliciavam em tratar mal seu famoso adversário, enquanto o levavam algemado em camburões. Ba­tiam nos manifestantes com cassetetes, instigavam cães sobre eles, joga­vam fortes jatos de água que quebravam costelas e deixavam corpos estendidos pelas ruas.Depois de quase meio século, é muito fácil perdermos a noção de quão enormes foram as dificuldades enfrentadas por King para man­ter sua posição a favor da não-violência. Depois de ter apanhado na cabeça com um cassetete pela 12a vez, de receber outro golpe de aguilhão de gado e de não ver progresso algum apesar de todo seu sofrimento, você começa a questionar a eficácia do método de meiga submissão. Muitos negros abandonaram King neste aspecto. Os estudantes, em especial, os intrépidos heróis das Caminhadas pela Liberdade através do Alabama e do Mississippi, se desviaram na direção da retórica do black power depois que seus colegas continuaram sendo assassinados. A SNCC, uma organização que continha não-violência em seu nome, encaminhou-se para a revolta armada, zombando de King. Em Chica­go, os seguidores do black power tiraram King do palco com suas vaias durante uma manifestação.

Quando os distúrbios começaram a acontecer em cidades como Los Angeles, Chicago e em bairros como o Harlem, King viajou de cidade em cidade, procurando acalmar os ânimos e lembrando os manifestantes de que a mudança moral não pode ser alcançada por meios imorais. Ele havia aprendido esse princípio no Sermão do Monte, e quase todos os seus discursos reiteravam essa mensagem. "O cristianismo", dizia ele, "tem sempre insistido que a cruz que carregamos precede a coroa que usaremos. Para ser cristão, alguém precisa tomar sua cruz, com todas as dificuldades, agonias e tensões que ela contém, e carregá-la até que dei­xe sua marca em nós e nos redima, levando-nos por um caminho ainda mais excelente que só se encontra por meio do sofrimento".

King se apegou à não-violência porque acreditava profundamente que somente um movimento baseado no amor poderia impedir que o oprimido se transformasse no espelho de seus opressores. Ele queria mudar os corações dos brancos, sim, mas de uma maneira que, em momento algum, pudesse endurecer o coração dos negros que ele estava conduzindo à liberdade. Ele acreditava que a não-violência poderia "impedir que o negro procurasse substituir um tirano por outro".

Quando aceitou o Prêmio Nobel da Paz de 1964, King referiu-se mais uma vez aos princípios que havia aprendido no Sermão do Monte. "Quando os anos se passarem e quando a fulgurante luz da verdade concentrar-se sobre esta maravilhosa era na qual vivemos, homens e mulheres saberão, e as crianças aprenderão, que temos uma terra melhor, pessoas melhores e uma civilização mais nobre, pois estes humildes filhos de Deus estavam dispostos a 'sofrer em nome da justiça'."

Os historiadores relatam o tenso encontro de King com o valente prefeito de Chicago, Richard J. Daley. Os defensores do movimento sentiam-se traídos, acreditando que haviam chegado a um entendimento com Daley que permitiria que eles marchassem por Chicago sob prote­ção policial em troca da revogação de um boicote. Mas Daley os traiu, obtendo um mandado judicial que proibia outras marchas. Como era de seu feitio, King ficou em silêncio na maior parte da agitada reunião, deixando que os outros fizessem suas colocações. O clima era hostil, e parecia que a reunião acabaria em meio a amarguras. Finalmente, King falou, de uma maneira que foi registrada por um dos espectadores como sendo "de uma eloqüência grandiosa, cuidadosa e calma":

Permitam-me dizer que, se vocês estão cansados de protestos, eu estou cansa­do de protestar. Estou cansado da ameaça de morte. Quero viver. Não quero ser um mártir. E há momentos em que penso se vou conseguir escapar. Estou cansado de apanhar, cansado de receber golpes, cansado de ir para a cadeia. Mas o importante não é quanto eu estou cansado; a coisa mais importante é nos livrarmos da condição que nos leva a marchar.

Senhores, vocês sabem que não temos muita coisa. Não temos dinheiro suficiente. Realmente não temos muito estudo e não temos poder político. Temos apenas nossos corpos, e vocês estão pedindo que abdiquemos da única coisa que possuímos quando dizem: "Não marchem".

(Extraído de Bearing the Cross)

O discurso de King mudou o clima da reunião e terminou levando a um novo acordo com o prefeito Daley.

"Temos apenas nossos corpos", disse King - e, no fim de tudo, foi isso que levou o movimento dos direitos civis à vitória que era buscada havia tanto tempo. Na época em que eu fazia o segundo grau, os mesmos alunos que aplaudiram a morte do presidente Kennedy saudaram os encontros televisionados de King e os xerifes do Sul, nos quais havia cães e jatos de água. Mal tínhamos idéia de que, fazendo isto, estávamos exatamente na estratégia de King. Ele procurava deliberadamente pessoas como o xerife Bull Connor17e armava cenas de confrontação, aceitando prisões, espancamentos e outras brutalidades porque acreditava que uma nação complacente se uniria em torno de sua causa somente quando vissem o mal do racismo manifestado em sua mais horrenda expressão.

King teve um sucesso espetacular nessa estratégia. Um juiz do con­dado de De Kalb, onde eu vivia, exigiu que King usasse não apenas algemas, mas também correntes nos braços e nas pernas na sala do tribunal, quando foi sentenciado a quatro meses de trabalhos forçados na construção de uma estrada estadual por dirigir um carro registrado no Alabama, e não na Geórgia. Um júri de Houston sentenciou um voluntário da SNCC a 30 anos de prisão por dar um cigarro de maco­nha a um policial disfarçado. Os tribunais do Mississippi cancelaram títulos eleitorais dos voluntários por "incitação à desordem" quando suas casas e suas igrejas foram alvo de tiros e bombas jogadas pela Ku Klux Klan. Uma bomba matou quatro meninas pequenas durante a Escola Dominical numa igreja de Birmingham.

"Preciso fazer isto - expor a mim mesmo - para que este ódio seja conhecido de todos", explicou King, depois de ter sido nocauteado por uma pedra que atingiu sua têmpora direita. Até mesmo sua família ques­tionava sua sabedoria em alguns momentos. "Bom, você não herdou essa coisa de não-violência de mim", disse Daddy King diante de mais uma prisão de seu filho em Birmingham. "Deve ter puxado à sua mãe."

Ao expor o mal de maneira clara, King estava tentando provocar uma resposta nacional de indignação moral, um conceito que eu e meus amigos não éramos capazes de entender. Muitos historiadores apontam para um momento no qual o movimento finalmente conquistou uma massa expressiva de apoio à causa dos direitos civis. Isto aconteceu numa ponte perto da cidade de Selma, Alabama, quando o xerife Jim Clark18 permitiu que seus homens, armados, avançassem sobre manifestantes negros desarmados. As tropas da cavalaria jogaram os animais a galope sobre a multidão dos manifestantes, açoitando as pessoas com seus cassetetes, rompendo cabeças e jogando pessoas no chão. Enquanto bran­cos gritavam em aprovação, as tropas jogaram bombas de gás lacrimo­gêneo sobre a multidão em pânico.

A maioria dos americanos teve a primeira visão dessa cena quando a rede de televisão ABC interrompeu seu filme de domingo, Julgamento em Nuremberg, para mostrar a cobertura do fato. O que os telespectadores viram sendo transmitido do Alabama guardava uma horrível semelhan­ça com aquilo que estavam assistindo sobre a Alemanha nazista. Oito dias depois, o presidente Lyndon Johnson submeteu o projeto de Direito ao Voto de 1965 ao Congresso americano.

"Temos apenas nossos corpos", disse King. Nem uma vez sequer algum oficial de Selma, Jackson, Albany ou Cícero respondeu às suas súplicas, dizendo: "Sabe, doutor King, o senhor está certo. Nós somos racistas, e estas leis discriminatórias são injustas, inconstitucionais, não bíblicas e simplesmente erradas. Sentimos muito. Nós vamos nos arre­pender e começar tudo do zero". Nenhuma vez. Foi preciso muito mais do que as palavras proféticas de King para extirpar os calos morais de intolerantes como eu. Foi preciso haver corpos de manifestantes em Sel­ma e em todos os outros lugares. Foi preciso ver o corpo do próprio King em Memphis. Martin Luther King Jr. fez muitas coisas erradas, mas uma coisa ele fez certa: contra todas as adversidades, todo instinto de autopreservação, ele manteve firme a sua visão. Ele não voltou atrás. Quando os outros clamavam por vingança, ele apelava pelo amor e pelo perdão.

King registrou sua batalha com o perdão em Letter from Birmingham City Jail, um maravilhoso documento rabiscado nas margens de jornais ou de folhas de papel higiênico, e depois retirado de sua cela às escondi­das por amigos. Fora da cadeia, pastores do Sul denunciavam King como sendo comunista, grupos gritavam "enforquem o negro!" e os policiais ameaçavam os manifestantes desarmados. Em tais circunstâncias, King precisava jejuar por vários dias para alcançar a condição espiritual ne­cessária para que perdoasse seus inimigos. Como ele mesmo explicou, "amamos os homens não porque gostamos deles, nem porque seus mo­dos nos atraem, nem mesmo porque eles possuem algum tipo de fagulha divina. Amamos todos os homens porque Deus os ama".

Aqueles que defendiam os direitos humanos, porém, precisavam mais do que admoestações breves sobre o amor e a não-violência. Eles precisavam da visão ampla de fé de que o abuso que estavam sofrendo contribuiria para um triunfo definitivo. Já convencidos da justiça de sua causa, eles queriam alguém que pudesse erguer-lhes os olhos para além da longa seqüência de fracassos desalentadores. Hoje, podemos olhar para trás e ver o movimento pelos direitos civis como uma poderosa onda em direção à vitória. Naquele tempo, enfrentando confronta­ções diárias com a estrutura de poder e sob constante intimidação dos policiais, dos juizes e até mesmo do FBI, os defensores dos direitos civis não tinham certeza alguma de vitória. Esquecemo-nos de tantas noites passadas nas cadeias do Sul. Na maior parte do tempo, o pre­sente parecia desalentador e o futuro, ainda mais obscuro.

A tropas tão desmoralizadas, King ofereceu a visão de um mundo colocado nas mãos de um Deus justo. Em 1961, ele exercia o mesmo papel que o dos profetas do Antigo Testamento, 500 anos antes de Cristo: estava levantando os olhos do povo de Deus na direção de coisas permanentes. Àquela época, os estudantes estavam ficando impacien­tes. Veja o que King disse a eles:

Há uma coisa neste movimento estudantil que nos diz que venceremos. Antes de a vitória ser alcançada, alguns precisarão sofrer, mas vencere­mos. Antes de a vitória da irmandade ser alcançada, alguns precisarão passar pela morte física, mas nós venceremos. Antes da chegada da vitó­ria, alguns perderão seus empregos, outros serão chamados "comunistas" e "vermelhos" simplesmente porque acreditam na união dos homens. Al­guns serão considerados incitadores e, agitadores simplesmente porque se levantam para defender aquilo que é justo, mas nós venceremos. Esta é a base deste movimento, e, como gosto de dizer, há alguma coisa neste universo que faz com que Carlyle diga que nenhuma mentira dura para sempre. Vamos vencer porque há alguma coisa neste universo que justifi­ca o que diz William Cullen Bryant: "A verdade que cai na terra germi­nará outra vez". Vamos vencer porque há algo no universo que apóia o que diz James Russell Lowell: "A verdade sempre está na forca, e o erro sempre se assenta no trono". Esta forca balança no futuro, e atrás do futuro obscuro, Deus levanta-se por trás da sombra, observando tudo o que lhe pertence.

(Extraído de The New Yorker, 6 de abril de 1987)

Para King, a visão ampla significava lembrar-se de que, independen­temente da aparência das coisas em determinado momento, Deus reina. Mais tarde, quando a famosa marcha de Selma finalmente che­gou ao edifício-sede do Estado, o prédio que um dia serviu como a capi­tal da Confederação e onde as bandeiras rebeldes ainda tremulavam,

King dirigiu-se àqueles assustados e fatigados manifestantes a partir da escadaria:

Sei o que vocês estão perguntando: "Quanto tempo mais isso durará?" Venho a vocês hoje para dizer que, sejam quais forem as dificuldades do momento, por mais frustrantes que sejam estas horas, não demorará muito, pois a verdade que foi jogada sobre a terra germinará novamente.

Quanto tempo? Não muito, porque mentira alguma dura para sempre. Quanto tempo? Não muito, porque ainda se colhe o que se planta. Quanto tempo? Não muito, porque o braço da moral universal é longo, mas se dobra em direção à justiça. Quanto tempo? Não muito, porque meus olhos viram a glória do Senhor que virá, pisoteando as vinhas onde estão plantadas as uvas da ira. Ele já enviou o fatídico raio de sua espada cortante. Sua verdade já está marchando. Ele já deu ordem às trombetas que soem, as quais nunca chamarão as tropas para recuar. Ele está levantando os corações dos homens diante de seu trono. Ó, minha alma, seja rápida em responder-lhes. Ale­grem-se, meus pés. Nosso Deus está marchando.

(Extraído de The New Yorker, 6 de abril de 1987)

Discursos como este enchiam o movimento de esperança quando havia pouca coisa em que segurar. Foram eles que inspiraram uma voluntá­ria de 72 anos a dizer, com voz fatigada: "Meus pés estão cansados, mas minha alma está em paz".

Um profeta convoca-nos diariamente a executar atos de obe­diência, independentemente do custo pessoal, independentemente de sermos bem-sucedidos ou recompensados. Um profeta também nos lembra que nenhum fracasso, nenhum sofrimento, nenhum de­salento é definitivo para o Deus que se levanta nas sombras, olhando por aqueles que são seus. Um profeta capaz de reunir essas mensa­gens pode simplesmente mudar o mundo. Enquanto Martin Luther King Jr. viveu neste mundo, eu, seu vizinho, não lhe dei ouvidos. Sem­pre fui rápido em apontar suas falhas e lento em reconhecer meu próprio pecado. Mas ele se tornou um profeta para mim, o mais im­provável de seus seguidores, porque se manteve fiel numa visão focada, oferecendo seu corpo como alvo, nunca como arma, e na visão mais ampla, apresentando-nos seu sonho, um sonho de um novo Reino de paz, justiça e amor.Em 1974, dez anos depois da Declaração de Direitos Civis que pro­vocou tais conflitos, fiz minha primeira visita ao Mississippi, o co­ração da resistência sulista. Eu havia mudado do Sul, e queria deixar o passado para trás. Vivendo em Chicago, trabalhava como editor da re­vista Campus Life, dedicada a pessoas jovens, que havia assumido uma postura progressista nas questões sociais. Graças a pessoas como o dou­tor King, pude ver que a igreja branca do Sul, a minha igreja, havia obstinadamente defendido o mal, e não o bem. Por algum tempo, culpei Deus, e não a igreja, mas minha leitura dos profetas do Antigo Testa­mento e de Jesus finalmente me convenceram de que Deus sempre se colocou ao lado do oprimido e da justiça. Como escritor, fiz um voto de tentar e fazer correções.

Ouvi dizer que a ferida entre as raças estava sendo curada, especial­mente em minha cidade natal, Atlanta, mas fiquei pensando quanto realmente havia mudado desde minha infância. Para descobrir isto, aceitei o convite de John Perkins para visitar a pequena cidade de Mendenhall (três mil habitantes), 51 quilômetros ao sul de Jackson. Perkins, um pastor negro, vivera os piores pesadelos do movimento dos direitos civis. Ele conhecia as pessoas mais importantes do episódio no Mississippi: Robert Moses, um estudante de Filosofia de fala mansa, da Universida­de de Harvard, um dos primeiros voluntários a se alinhar com King, que liderou a marcha dos eleitores no Mississippi, alcançando uma posição quase legendária por sua calma persistência diante de espancamentos, das prisões e dos ataques com dinamite e rifles; Fannie Lou Hamer, "a dama que sabia cantar", filha de um catador de algodão analfabeto, que apoiou a inclusão dos eleitores negros no condado de Sunflower, Mississippi, e que, por seus esforços, foi cruelmente espancada por xerifes locais, os quais causaram-lhe ferimentos que a levaram à morte, não antes de ela liderar uma delegação alternativa do Mississippi à Conven­ção Democrática de 1964; Medgar Evers, secretário da NAACP que foi o primeiro a convidar King para visitar o Mississippi e que foi assassina­do a tiros na rua de sua casa, no exato momento em que sua esposa e suas filhas corriam para abraçá-lo.

Ouvi estas e muitas outras histórias de John Perkins durante a se­mana que passei no Mississippi. Dormi num sofá-cama na sala de estar de sua casa, o que significa dizer que dormi muito pouco, pois Perkins deitava-se tarde e levantava antes do nascer do Sol para ler a Bíblia e os jornais que se empilhavam na mesa de sua cozinha. Mas isto também significava que tínhamos muito tempo para conversar à mesa do café, em seu carro, enquanto passávamos pelos campos de algodão, e em seu escritório. Ele contou-me sobre sua infância, sobre a noite em que seu irmão mais velho foi assassinado por um policial por estar fazendo mui­to barulho enquanto esperava na fila dos negros para entrar no cinema, sobre sua luta para estudar, suas tarefas no Exército e sua promessa de nunca mais voltar ao Mississippi.

Perkins manteve aquele voto por algum tempo, trabalhando como sindicalista na grande Los Angeles. Sua inesperada conversão ao cris­tianismo, que ele considerava "religião dos brancos", pôs fim àquela carreira. Incapaz de tirar de sua mente os vizinhos desafortunados que deixara para trás no Mississippi, foi gradualmente entendendo o chamado de Deus para retornar, o que aconteceu em junho de 1960.

Naquela época, a maioria dos ministros locais da denominação de Perkins estava concentrada em pregar o evangelho, deixando as neces­sidades humanas nas mãos dos assistentes sociais e das agências gover­namentais. Perkins fundou uma igreja e iniciou estudos bíblicos, além de lançar um programa de rádio chamado "Voz do Calvário". Mas ele também aceitou a missão mais abrangente proclamada por Jesus:

Evangelizar os pobres Proclamar libertação aos cativos Restauração da vista aos cegos Pôr em liberdade os oprimidos, Apregoar o ano aceitável do Senhor

Adotando tal visão, Perkins deu início a uma clínica de saúde rural, uma cooperativa, um centro de treinamento vocacional, um centro de re­creação para os jovens de Mendenhall, uma escola e um programa de casas populares. Não demorou muito e um espaço cheio de ruas não pavimentadas numa região pobre transformou-se num agitado centro de serviços às famílias pobres do Condado de Simpson. Perkins não se cansava de viajar pelo país, buscando apoio financeiro de evangélicos brancos - "Devo ter sido a primeira pessoa a integrar várias centenas de lares nos quais pousei", dizia ele - e pedindo ajuda a enfermeiras, médi­cos e professores que fizessem um trabalho temporário em Mendenhall.Com sua inspiradora vida pessoal, sua maneira sincera de falar e seu compromisso com a justiça, Perkins capturava a atenção de evangéli­cos por toda a nação. Ele também chamou a atenção das autoridades locais.

Os brancos do Mississippi não se importavam com os serviços so­ciais, mas eles representavam um significativo fluxo de imigrantes do Norte, especialmente quando Perkins começou a liderar uma campanha para o registro de eleitores. Naquela época, apenas 50 eleitores negros estavam registrados no condado de Simpson, apesar de os negros re­presentarem 40% da população. Esta proporção era típica: somente sete mil dos 450 mil negros do Mississippi foram registrados, especialmente devido a diversas barreiras legais. Os eleitores precisavam pagar uma taxa eleitoral, muito além das possibilidades da maioria dos negros. Pre­cisavam interpretar enigmáticas passagens da constituição do Estado do Mississippi para satisfazer os oficiais de registro, todos brancos.

À medida que as cortes federais começaram a desmantelar tais barreiras, o Estado levantava outras: a exigência de que os nomes e endereços dos candidatos fossem impressos em jornais locais (uma con­veniência para as atividades da KKK, dos empregadores e dos vizi­nhos brancos) e uma permissão dada a qualquer eleitor registrado no condado para argüir qualquer candidato quanto a seu caráter.

Perkins e seus voluntários deram prosseguimento ao trabalho, che­gando a registrar 2.300 eleitores em seu condado. Contudo, quando ele liderou um boicote ao centro da cidade de Mendenhall em protesto pela brutalidade da polícia, Perkins passou dos limites. Depois de um protes­to na rua, em 1970, um branco, membro do staff, chamado Doug Huemmer e 19 estudantes negros do Colégio Tougaloo foram parados pela Polícia Rodoviária do Mississippi e levados à cadeia de Brandon, nas proximidades, o domínio de um notório xerife. Huemmer chamou Perkins, que foi imediatamente para Brandon, caindo na armadilha.

Uma dúzia de policiais rodoviários e locais estavam determinados a ensinar uma lição a Perkins e a Huemmer. "Vocês não são mais cidadãos do condado de Simpson", gritava um deles. "Vocês estão no condado de Rankin, onde sabemos como tratar negros espertos." Começaram a chu­tar Perkins e socá-lo na cabeça, nos rins, na virilha, e a pisar em suas pernas. Ele ficou inconsciente e, quando estava banhado em sangue, derramaram uísque falsificado sobre as feridas de sua cabeça, voltando a golpeá-lo. Fizeram-no limpar seu próprio sangue. Colocaram um gar­fo em seu nariz e cutucaram até que saísse sangue, fazendo depois o mesmo em sua garganta. Então o indiciaram por contribuir com a de­linqüência de menores. Enquanto estava coletando suas digitais, um dos oficiais colocou uma arma na cabeça de Perkins e puxou o gatilho. O tambor vazio fez o barulho característico, e todos riram daquela atitude cruel. Voltaram a bater nele logo depois.

Perkins sobreviveu àquela noite, apesar de os médicos precisarem retirar, mais tarde, dois terços de seu estômago em função dos ferimentos. Nos 18 meses de recuperação que se seguiram, Perkins reconsiderou o chamado de Deus para voltar ao Mississippi. Estava ele realmente levando boas novas ao povo de Mendenhall? Os habitantes negros tinham agora mais oportunidades, é verdade, mas seus esforços ha­viam endurecido as atitudes dos brancos. A reconciliação parecia mais remota que nunca. Enquanto se recuperava, Perkins lia livros de Malcolm X, Rap Brown e Eldridge Cleaver, autores que haviam aban­donado o evangelho e sua mensagem de reconciliação. Mas ele mesmo não podia negar que seu ministério havia atraído alguns compassivos voluntários brancos: Doug Huemmer, que sofrera o mesmo tratamen­to na prisão de Brandon; Al Oethinger, que viera da Alemanha para ajudar, depois de ler livros de Martin Luther King; Vera Schwartz, uma enfermeira missionária que ficara no centro de saúde, em vez de retornar para a África.

"Aquele tempo foi, sem dúvida, minha crise de fé mais profunda", disse-me Perkins, enquanto passávamos pelas estradas vicinais dos con­dados de Simpson e Rankin e pela infame cadeia e o tribunal, quatro anos depois do incidente. "Era hora de eu decidir se realmente acredita­va naquilo que eu tanto professava: que somente o amor de Cristo, não o poder da violência, era a esperança para mim ou para o mundo. Co­mecei a ver como o ódio poderia me destruir. No fim, tive de concordar com o doutor King: Deus queria que pagássemos o mal com o bem. 'Amai vossos inimigos', disse Jesus. E eu estava determinado a fazê-lo. O con­ceito de Jesus de que o amor é muito superior ao ódio é uma verdade misteriosa e profunda. Pode ser que eu não consiga vê-lo em muitos momentos de minha vida, mas sei que é verdadeiro. Por causa daquela cama, na qual fiquei cheio de hematomas e pontos, Deus fez com que isso se tornasse verdade em mim. Recebi uma transfusão de esperança.Não podia desistir. Estávamos apenas no meio do caminho ali em Mendenhall."

Naquele momento de crise, Perkins veio a crer, com King, que "o ódio e a amargura jamais poderão curar a doença do medo; só o amor pode fazer isto. O ódio paralisa a vida; o amor a liberta. O ódio confunde a vida; o amor a harmoniza. O ódio escurece a vida; o amor a ilumina".

Nos anos seguintes, Perkins mudou-se para Los Angeles, onde fun­dou uma organização nacional para o desenvolvimento comunitário, baseada naquilo que ele aprendera em Mendenhall, voltando ao Mississippi para lançar um movimento de reconciliação racial. Às ve­zes, ele aparece junto a Thomas Tarrants, um militante da KKK que cumpriu pena por assassinato, converteu-se na prisão e hoje pastoreia uma igreja multirracial em Washington.

Quando visitei Mendenhall, em 1974, uma placa deu-me as boas-vindas na entrada da cidade: "Brancos unidos, derrotem os judeus e comunistas miscigenadores". Pedi a John Perkins que me mostrasse um exemplo de racismo em ação. "Quando eu escrever sua história, as pessoas vão me dizer que tudo é diferente", disse eu. "A Declaração de Direitos Civis aconteceu há dez anos. Ainda existe discriminação aberta?"

Perkins pensou por um minuto e, de repente, seu rosto brilhou. "Já sei. Vamos comer no Restaurante Revolving Table", disse ele.

Fomos a um restaurante elegante, famoso por um dispositivo cha­mado "Susan preguiçosa", que girava vagarosamente sobre uma enor­me mesa, sob o qual havia ervilhas, vegetais, repolho, batata-doce, frango e bolinhos de vários tipos, além de outras comidas típicas do sul dos Estados Unidos. Quando nos sentamos, todos os fregueses bran­cos nos olharam, e então, como se houvesse um sinal pré-combinado, todos se levantaram e foram para mesas menores. A exceção de Perkins e eu, ninguém no restaurante falou uma palavra durante a hora que lá estivemos. Comi preocupado, olhando por cima de meus ombros e es­perando ver um cassetete. Quando paguei e comentei com a atendente sobre a deliciosa comida, ela simplesmente pegou meu dinheiro sem responder nem mesmo olhar para mim. Tive uma pequena visão da hostilidade que Perkins vivera por toda sua vida.

Dois meses depois, quando publiquei meu artigo sobre John Perkins, a filial do Mississippi da organização cristã na qual trabalhava exigiu que eu fosse despedido por trazer à tona lembranças ruins. "As coisas mudaram", disseram eles. "Por que ficar remoendo o passado?" Real­mente, por que fazer isto?

Mais de três décadas se passaram desde a visita ao Mississippi, e as grandes vitórias dos direitos civis estão quase alcançando meio sé­culo de existência. Vivemos em outro país atualmente, em um novo milênio, e realmente muita coisa mudou. Nos dias atuais, fregueses negros podem comer onde quiserem, beber água em qualquer be­bedouro, dormir em qualquer hotel. As vitórias pelas quais lutaram pessoas como Martin Luther King Jr., Medgar Evers, Bob Evans, John Perkins e tantas outras foram ganhas - ao menos legalmente - apesar de terem esperado praticamente um século desde a abolição da escra­vatura. Sulistas progressistas dos Estados de Geórgia, Arkansas e Texas já ocuparam o cargo de presidente do país. Visitantes negros podem participar de igrejas brancas sem qualquer problema, muito embora raramente o queiram. Todos esses sonhos pareciam coisas inatingíveis para Martin Luther King Jr. há apenas quatro décadas. Como sinal das enormes mudanças realizadas, hoje a nação reserva um dia do ano para homenagear o próprio King, objeto de tanta controvérsia em seus dias, por meio de um feriado nacional. Ele é o único afro-americano, o único pastor e, na verdade, o único indivíduo americano a receber tal honraria.

As vitórias não chegaram facilmente, e a maioria delas não acon­teceu durante sua vida. Roy Wilkins, da NAACP, um incansável adver­sário do doutor King, caçoou dele em 1963, dizendo que seus métodos não haviam conseguido a integração de Albany e Birmingham em momento algum. "Martin", disse ele, "se você conseguiu dessegregar alguma coisa com seus esforços, por favor, diga-me o que foi".

King respondeu: "Bem, acho que a única coisa que consegui dessegre­gar até aqui foi alguns corações humanos". Ele sabia que a vitória derra­deira seria conseguida ali. As leis podiam evitar que brancos linchassem negros, mas nenhuma lei poderia exigir que as raças se perdoassem e se amassem mutuamente. O coração humano, não as salas dos tribunais, eram seu supremo campo de batalha. Sendo um desses corações trans­formados, sinto-me na obrigação de concordar com tal afirmação.King desenvolveu uma sofisticada estratégia de guerra, travada não com armas, mas com graça. Ele atacou a violência com a não-violência e o ódio com o amor. Um colega de King, de nome Andrew Young, lembra-se daqueles anos turbulentos como um tempo em que eles buscavam "salvar corpos negros e almas brancas". King dizia que seu verdadeiro objetivo não era derrotar os brancos, mas "despertar um senso de ver­gonha dentro do opressor e desafiar seu falso senso de superioridade (...) O fim disso tudo é a reconciliação; o fim é a redenção; o fim é a criação de uma comunidade amorosa". E foi isto o que Martin Luther King Jr. finalmente fez, mesmo em corações racistas como o meu.

Apesar de todo o tumulto social gerado pelo racismo, de alguma maneira a nação permaneceu unida. Pessoas de todas as raças termi­naram se aliando ao processo democrático nos Estados Unidos, até mesmo no Sul. Já faz alguns anos que os moradores de Atlanta elegem prefeitos afro-americanos, entre eles o líder em direitos civis Andrew Young. Até mesmo a cidade de Selma, no Alabama, tem um prefeito negro que, em 2000, derrotou o prefeito que ocupava o cargo na época da famosa marcha. O autor da infame frase "segregação para sempre", George Wallace, compareceu em sua cadeira de rodas diante da lideran­ça negra do Alabama para apresentar seu pedido de desculpas por seu comportamento, ato que ele repetiu numa rede de televisão estadual. Quando Wallace foi à igreja batista em Montgomery, na qual King lançara o movimento, entre os líderes que vieram lhe oferecer perdão estava Coretta Scott King, Jesse Jackson e o irmão de Medgar Evans, assassi­nado durante o movimento.

Em 1995, quase 150 anos depois de ter apoiado a escravidão, a Con­venção Batista do Sul arrependeu-se formalmente de sua política de lon­go prazo de apoio ao racismo. Um pastor da Igreja Batista Abissínia disse: "Finalmente, respondemos à carta de Martin Luther King Jr., enviada da prisão de Birmingham em 1963. Infelizmente, apenas 30 anos depois".

Até mesmo a grande igreja batista que freqüentei durante minha infância aprendeu a se arrepender. Quando fui a um culto, alguns anos atrás, fiquei chocado em ver apenas umas poucas centenas de adoradores espalhados pelo enorme santuário que, em minha infância, costumava abrigar mais de 1.500 pessoas. A igreja parecia amaldiçoada. Finalmen­te, um pastor que fora meu amigo de classe durante a infância tomou a iniciativa incomum de promover um culto de arrependimento. Antes da realização do culto, ele escreveu para Tony Evans e para o professor da Escola Dominical que fora afastado, pedindo seu perdão. Então, publica­mente, de maneira dolorosa, com a presença de líderes afro-americanos, ele recontou o pecado do racismo da maneira como era praticado por aquela igreja no passado. Ele se arrependeu e recebeu perdão. Apesar de ter-se a nítida sensação de que um fardo fora tirado da congregação naquele dia, isto não foi suficiente para salvar a igreja. Poucos anos depois, a congregação branca mudou-se para a periferia, e hoje, uma congregação afro-americana chamada Asas da Fé ocupa o prédio e faz tremer as janelas mais uma vez.

Analistas do Sul se referem a tudo isso como sendo um período em que as pessoas foram "assombradas por Cristo". Talvez devessem dizer "assombradas pelo racismo". Todos nós, brancos ou negros que cresce­ram naqueles dias, temos nossas cicatrizes. Alguns negros, como John Perkins e Bob Moses, possuem cicatrizes físicas. Nós, brancos, temos cicatrizes espirituais. Embora eu não tenha vivido no Sul por 30 anos, vivo com minhas lembranças, tal qual os assassinos medievais que eram obrigados a levar nas costas, amarrados a si, os corpos das pessoas que haviam assassinado. A nação inteira possui cicatrizes. Quem poderia dizer que havíamos alcançado qualquer coisa semelhante à "comunida­de amorosa" com a qual sonhava King?

Visitei a antiga igreja de King em Atlanta, a Igreja Batista Ebenézer, e chorei muito enquanto via com novos olhos o cerne da moral da comunidade negra que havia lhes dado força para lutar contra intole­rantes como eu. Naqueles dias, eu estava do lado de fora, contando piadas, espalhando rumores, ajudando a sustentar aquele sistema maligno. Dentro da igreja - e, durante um tempo, apenas dentro dela -, a comunidade negra permaneceu em pé. Cegados pela intolerância, meus olhos não conseguiam ver o Reino de Deus trabalhando.

Poucos anos antes de sua morte, King foi confrontado sobre os erros que havia cometido. Ele respondeu da seguinte maneira: "Bem, o pior erro que cometi foi acreditar que, porque nossa causa era justa, poderíamos ter certeza de que os pastores brancos do Sul se levanta­riam a nosso favor, uma vez que suas consciências cristãs haviam sido desafiadas. Pensei que os ministros brancos levariam nossas causas às estruturas de poder controladas por outros brancos. Terminei desilu­dido e machucado, é claro. Conforme nosso movimento avançava e apelos diretos eram feitos aos pastores brancos, a maioria deles fechou suas mãos, e alguns até as usaram contra nós".

Certa vez, escrevi um tributo a Martin Luther King Jr. na revista Christianity Today. Falei dele como sendo um profeta, usando algumas das palavras que usei neste texto. Recebi opiniões de vários leitores, alguns apoiando, outros irados. Algumas das cartas mais ponderadas vieram de ex-reitores de universidades, do reitor da Wheaton College, que freqüentei, e de um dos diretores do seminário onde estudei. Ambos perguntavam: "Como você pode chamar o Dr. King de 'profeta'?" Um grande líder moral, sim; um importante agente de mudança social, cer­tamente; mas como um plagista e mulherengo poderia ser um profeta cristão? Eles reclamaram muito da aplicação de tal rótulo a um homem com falhas tão evidentes.

Escrevi respostas detalhadas a ambos, mencionei alguns dos líde­res problemáticos que Deus claramente usara nos tempos bíblicos. Salomão nos dá um bom exemplo. Honramos seus provérbios, mas não seu estilo de vida. Estaríamos certamente em perigo se o mensageiro indigno invalidasse toda a mensagem. Também citei sermões maravi­lhosos do Dr. King e mencionei que King exigia que seus voluntários assinassem um termo de compromisso de meditar diariamente nos ensinos de Jesus, de orar com regularidade e andar e falar em amor. Então, veio a ironia: meu artigo havia recebido o nome "Confissões de um racista", mas quase todas as cartas que recebi concentravam-se nos erros de King, e não nos meus próprios erros. Como é que eles poderiam questionar o direito de King de falar em nome de Deus, e não o meu, dado meu passado manchado?

Muitos dos cristãos que ainda rejeitam a idéia de ver Martin Luther King Jr. como instrumento de Deus não têm problemas em freqüentar igrejas que o viam como inimigo, que se opunham a suas idéias e que, direta ou indiretamente, perpetraram o pecado do racismo contra o qual ele se opôs com seu próprio corpo. Vemos o argueiro em seus olhos, mas não percebemos a trave em nossos próprios olhos.

Só existe uma coisa que me perturba mais do que os pecados do passado: o pecado que não enxergo hoje. Foi preciso que houvesse a grandeza de um Martin Luther King Jr. para despertar a consciência de uma nação no século passado. O que nos impede, neste novo século, de criar a comunidade amorosa de justiça, paz e amor pela qual King lutou e morreu? Em quais questões atuais a Igreja teima em estar do lado errado? Como King costumava dizer, a presença de injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar.

Houve um momento em que a graça e o poder desceram sobre grandes e imperfeitos líderes para que eles nos convencessem e lide­rassem. No fim das contas, não foi o humanitarismo de King que me alcançou, nem seu exemplo de não-violência baseado em Gandhi, nem seus sacrifícios, por mais inspiradores que possam ser. Foi sua firmeza no evangelho de Cristo que finalmente deu-me consciência da trave que havia no meu olho e que me levou a atender à mensagem que ele estava proclamando. Terminei dando ouvidos a ele porque sempre ci­tava Jesus. Nem sempre a Igreja entende - e pode levar séculos ou milênios para que seus olhos sejam abertos. Porém, quando isto acon­tece, o amor e o perdão do próprio Deus fluem como um rio de águas vivas. Que triste foi perceber que, quando provei deste rio, King já estava morto.



Como qualquer pessoa, desejo uma vida longa. A longevidade tem seu lugar. Mas não estou preocupado com isto agora. Quero apenas fazer a vontade de Deus. E ele me permitiu que eu subisse ao monte. Olhei lá de cima e pude contemplar a Terra Prometida. Pode ser que eu não entre lá com você, mas quero que você saiba esta noite que, como povo, nós entra­remos na Terra Prometida. E por isso que estou feliz esta noite. Não estou preocupado com nada. Não temo homem algum. Meus olhos viram a glória do Senhor que vem.

(Extraído da última fala de King, na cidade de Memphis, na noite anterior a seu assassinato)

MARTIN LUTHER KING JR. PARA INICIANTES


Como introdução à vida de King, recomendo The autobiography of Martin Luther King, Jr., um audiolivro produzido pela Time Warner. Montado a partir de textos de King e lido por LeVar Burton, a biografia é incomple­ta e subjetiva, mas as fitas trazem também sermões e discursos feitos pelo próprio King em seu empolgante e inimitável estilo, com trechos de legítima música gospel americana. A Testament of Hope: The Essential Writings and Speechcs of Martin Luther King, Jr. reúne todos os famosos discursos, com excertos da maioria dos escritos de King. Bearing the Cross, de David Garrow, é a melhor biografia de King em um único volume. O completo Parting the Waters, além de Pillar of Fire, ambos de Taylor Branch, expan­dem a cobertura para incluir outros eventos paralelos do movimento pelos direitos civis. Estes livros podem ser adquiridos pela internet.


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