Alma sobrevivente



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10. Annie Dillard

O Esplendor das Coisas Simples


A imagem que eu tinha de Annie Dillard mudou para sempre depois de nosso primeiro en­contro, em 1977.

Conhecendo-a apenas por inter­médio de suas obras, esperava uma poetisa excêntrica e neurótica como Emily Dickinson, ou uma mística sombria como Simone Weil. Combinamos de nos encon­trar em seu escritório, que eu ima­ginava ser uma cabana com um único cômodo, enfiada no meio de um bosque de pinheiros.

O escritório revelou-se um lu­minoso conjunto de um prédio de poucos andares, com decoração moderna nas paredes, sendo uma delas pintada de laranja e a outra, de azul. A própria Dillard, com, no máximo, 30 anos de idade, usava calça jeans e uma blusa bordada. Ela era engraçada, e usava muitas gírias ao falar. Fu­mava um cigarro atrás do outro. Amava pingue-pongue, rafting 62 e dança. Gostava de uma boa pia­da. Nem dickinsoniana nem professoral, ela era o tipo de pes­soa que você incluiria em sua lista de convidados para animar uma festa.

Dillard também tinha suas expectativas. "Que bom que é você", disse ela quando entrei em seu escritório. "Não sabia o que esperar de uma revista chamada Christíanity Today. Quando vi um senhor careca de 60 anos de idade caminhando pelo campus, pensei: 'Puxa, onde é que eu me meti'?" Naquela época, eu tinha a metade da idade do homem careca e minha vasta cabeleira lembrava a juba de um leão; mas Dillard concordou sim, com a longa entrevista.

Eu havia acabado de estudar John Donne, lançara Deus sabe que sofremos e começava a escrever com o Dr. Brand. Tinha um bloco de notas cheio de perguntas a fazer a ela: sobre o problema da dor, a natureza, os argumentos teológicos do design inteligente63, a vida de escritora. Conversamos muito além do tempo que havíamos combina­do, e, no fim, ela soltou um longo suspiro, dizendo: "Que gostoso falar sobre idéias, especialmente com alguém que atua no mesmo campo. A maioria dos repórteres quer saber sobre minha conta bancária e mi­nha vida sexual". É claro que isto abriu uma linha de questionamentos completamente nova.

No cargo de repórter de uma revista, naquele tempo, eu via a ques­tão de escrever tanto como uma carreira quanto como um hobby, algo que você faz quando tem tempo, entre os prazos apertados. Dillard considerava isto um chamado santo, como pode ser visto nesta passa­gem de seu livro Holy the Firm:



Perguntei às pessoas da minha classe quantas delas queriam dar suas vidas para serem escritoras. Eu estava tremendo, não sei se pela falta de um café, de cigarro ou de medo diante das faces que me cercavam (...) Todas as mãos se levantaram em resposta à minha pergunta. Então, tentei explicar-lhes o que significava aquela escolha: "Você não pode ser outra coisa. Você precisa se devotar a isto" (...) Eles não tinham a menor idéia do que eu estava falando (...) "Faço isto à noite, depois de esquiar, ou no caminho do banco para casa, depois que as crianças vão dormir" (...) Eles acharam que eu estava devaneando outra vez.

Mesmo tendo apenas um encontro, Dillard e eu trocávamos correspon­dência ocasionalmente, e eu seguia seu trabalho de perto. Ou melhor, fazia um acompanhamento frenético. Ela é um farol para os escritores que ainda se preocupam com as palavras, frases, parágrafos e idéias, um guia para escritores de fé. Depois daquela conversa, nunca mais vi a composição literária como um hobby. Ela me ensinou a ver a arte e, na verdade, o mundo, com outros olhos.

A autobiografia de Dillard, intitulada An American Childhood, esboça .. alguns detalhes de sua vida. Ela foi criada num lar de classe média-alta de Pittsburgh, Pensilvânia, no qual seus pais amorosos lhe pro­porcionaram uma vida confortável, freqüentando escolas particulares para moças e o clube de campo. Eles trocavam idéias à mesa do jantar, levavam-na a uma igreja presbiteriana de grã-finos e permitiam que sua curiosidade intelectual corresse solta. Annie teve uma adolescên­cia turbulenta no início da década de 1960. Foi expulsa da escola por fumar e foi parar no hospital depois de um acidente durante um racha de automóveis. Mostrava uma inclinação pela natureza, sim, mas tam­bém pelo beisebol e pelas guerras francesas e indígenas. "Ela se preocupa apenas com o que lhe interessa", reclamou um de seus professores do segundo grau. Quando seus pais a enviaram para a Faculdade Hollins, na Virgínia, ela se casou com o professor de Escrita Criativa, ainda no primeiro ano.

Até hoje, Dillard é capaz de recitar o primeiro poema que escreveu, um produto daquela tórrida adolescência, na qual ela se encantou pelo discurso do poeta simbolista francês Arthur Rimbaud:



Certa vez, se bem me lembro, confinada

No inferno a minha carne foi largada,

Em cela de prisão úmida e fria

Onde nenhuma chama ou luz ardia.

A mão caiu, o corpo foi ao chão

Imóvel na sujeira e solidão.

Não havia qualquer indicação neste poema, ou na vida de Dillard, que dissesse que ela ganharia um Prêmio Pulitzer antes dos 30 anos e que se tornaria uma das maiores escritoras dos tempos modernos. Mas ela real­mente credita à sua adolescência o despertar de sua espiritualidade e o aguçamento de seu apetite pelos temas abstratos que permeariam seus trabalhos futuros. Sua autobiografia começa com esta citação do salmo 26: "Eu amo, Senhor, a habitação de tua casa e o lugar onde tua glória assiste".

A igreja proporcionava, basicamente, um cenário social no qual famílias bem-vestidas "acumulavam dignidade de serem vistas" todos os domingos. Nos verões, porém, Annie corria com sua irmã para um acampamento religioso nas montanhas. "Se nossos pais soubessem quão cheio de regras aquele acampamento era, eles nos arrancariam de lá", lembra-se ela. "Memorizávamos capítulos inteiros da Bíblia, cantáva­mos hinos alegres o tempo todo, tínhamos estudos à noite, momentos de oração extemporâneos e íamos duas vezes aos cultos de domingo vestidas com bermudas brancas. A teologia cheia de fé que existia ali estava a apenas meio passo de nossas tendas: dava para sentir o cheiro da serragem."

Ao compararmos nossa formação, percebi quão diferente é entrar numa subcultura por um verão e o sentimento de estar preso a uma tenda, com o ar sempre cheirando a serragem. Meus verões num acam­pamento cheio de regras serviram para me causar mais repulsa àquele tipo de doutrinamento. De outro lado, Dillard sentiu-se atraída pelas idéias religiosas, o que a fez considerar as outras idéias como de menor importância. A memorização de longas passagens bíblicas numa versão com texto clássico fez com que ela escrevesse poemas que deliberada-mente imitavam seu ritmo. De volta para casa, na serena igreja de Pittsburgh, ela ocasionalmente sentia, "apesar de mim mesma, um tê­nue e fino sopro espiritual passando por entre os bancos".

Annie, na verdade, tinha uma pequena revolta contra Deus, disse-me ela mais tarde. Depois de quatro verões consecutivos no acampa­mento, ela se cansou da hipocrisia das pessoas que iam à igreja para exibir suas roupas. Desejosa de tomar uma decisão mais profunda, re­solveu confrontar os pastores. O pastor principal ("Ele era a cara de James Mason no filme Nasce uma estrela, e sua idéia de sermão era a de uma resenha de um livro") a amedrontava, por isso ela foi ao gabinete do pastor auxiliar e despejou seu discurso sobre hipocrisia.

Como homem sábio, numa tacada só ele conseguiu incutir nela o que em mim demorou muitos anos: ele separou a Igreja de Deus, fazen­do isto de uma maneira que dignificou aquela crítica adolescente, em vez de diminuí-la. "Ele era um homem maduro e calmo, vestindo um terno completo. Usava bigode e óculos. Eu era uma pequena criança do segundo grau que pensava ser a única pessoa no mundo com reclama­ções contra a Igreja. Ele me ouviu e depois disse: 'Você está certa, meu amor, existe muita hipocrisia." Annie sentiu seus argumentos se dissol­verem. Então, o pastor continuou, entregando a ela uma série de livros de C. S. Lewis, sugerindo que eles seriam úteis para a elaboração de um trabalho na escola. "Acho que é um pouco cedo para você deixar a igre­ja", comentou ele, enquanto apertava sua mão em despedida. "Acho que você voltará em breve."

Para consternação de Annie, ele estava certo. Depois de escavar quatro volumes de C. S. Lewis, ela caiu novamente nos braços do cris­tianismo. Sua rebelião durou apenas um mês.

Hoje em dia, existem 12 livros assinados por Annie Dillard, em estilos como poesia, ensaios, uma autobiografia, relatos jornalísticos de sua visita à China, ficção histórica e críticas literárias. Algumas for­mas foram mais bem-sucedidas do que outras, mas todas possuem sua marca: um olhar penetrante, frases maravilhosas, intensidade mística e o senso de que escrever é um chamado.

Independentemente do que ela venha a conseguir, sem dúvida vive­rá para sempre com o rótulo de "nature writer".64 Pilgrim at Tinker Creek atingiu o público leitor em 1974 com o impacto de um meteoro: um novo gênero, forjado em algum lugar do espaço exterior, lançando frag­mentos de si mesmo por toda a atmosfera. Em uma rápida seqüência de premiações, recebeu o título de Livro do Ano, um Prêmio Pulitzer, eleito o melhor livro estrangeiro na França e prosseguiu, transforman­do-se num inesperado best seller (quase 500 mil cópias vendidas). Dillard se tornara a nova dama da literatura. Os críticos comparavam seu tra­balho aos de Virgínia Woolf, Gerard Manley Hopkins, William Blake e Henry David Thoreau. Jovem, magra, com ralos cabelos loiros, olhos azuis e uma predileção por chapéus de feltro, ela se encaixa visualmente no papel.

Pilgrim começa com o sentido da visão. Em outra obra, Dillard relembra a história de Noah Very, um eremita septuagenário que vive num chalé nos Apalaches. "Certa vez, quando meus filhos eram jovens", disse-lhe Noah,

... e nós morávamos todos onde moramos agora, eu olhei pela janela e vi a criançada brincando junto ao rio. Havia ali na margem um banco de areia.

As crianças eram todas muito novas, muito pequenas, e brincavam com baldes, derramando água, amontoando areia uma sobre os pés da ou­tra... Eu disse a mim mesmo: "Noah, lembre-se bem desta visão, as crianças tão pequenas e brincando à beira do rio nesta exata manhã. Lembre-se disso". E eu me lembro como se tudo tivesse acontecido hoje de manhã. Deve ter sido no verão. Há mais de vinte anos de permeio dos quais não lembro nada.

(Extraído de Teaching a Stone to Talk)

A escritora Dillard adota o ato de lembrar como um tipo de missão sagrada. "Annie, lembre-se desta cena", pode alguém imaginá-la dizen­do a si mesma, repetidas vezes. Você vai lembrar dela e escrevê-la para ou­tros, como se ela tivesse acontecido esta manhã. Ela, de fato, se lembra com tal nível de detalhe que nos ensina a ver. Os leitores voltam às suas obras porque ela descreve aquilo que ninguém mais notou com praticamente a mesma acuidade: a queda-livre de um pássaro a partir de um prédio de quatro andares; o mergulho de um albatroz a partir do ninho no penhasco; a textura da sombra que se lança durante um eclipse; uma luminosa "árvore com luzes dentro". Dillard nos transmite calma, faz-nos olhar mais de perto e respirar mais fundo, enquanto caminhamos pelo mundo natural. Tais experiências, diz ela, podem ser "menos relacio­nadas a ver do que a ser, pois aquilo que se vê pela primeira vez nos atinge com impacto poderoso e empolgante".

Emily Dickinson escreveu, certa vez, a um amigo, dizendo que "olhai os lírios do campo" era o único mandamento que ela nunca havia que­brado. Precisei ler Annie Dillard para aprender como cumprir esse man­damento. Li Pilgrim at Tinker Creek pela primeira vez quando morava num trailer de alumínio na periferia abandonada de Chicago. Recém-casado e saldando as dívidas da escola, estava começando a encami­nhar minha carreira de jornalista. Sentia falta do viço do Sul: altos pinheiros, pés de madressilva, arbustos de diferentes tipos nos bos­ques. Em Illinois, eu não fazia questão de sair, pois o que havia lá fora para ver? Milharais? Marcas de pneu na neve suja? Enquanto lia aqueles relatos da natureza, mais empolgantes que um romance de aventura, percebi que tudo o que ela descrevia estava ao lado de um córrego lamacento, num lugar qualquer da Virgínia. "Tudo é uma questão de manter meus olhos abertos", disse ela. "A beleza e a graça existem, quer as percebamos ou não. O mínimo que podemos fazer é tentar estar ali (...) de modo que a natureza não tenha de apresentar seu espetáculo para uma platéia vazia."

Depois de ler o livro, propus-me a uma caminhada de meia hora todos os dias pelo Parque Prairie, por uma estreita trilha cascalhada que seguia um antigo leito da estrada de ferro através da campina e do charco próximo de casa. Nos primeiros dias, não via nada de especial. Nos seguintes, a paisagem árida pela qual sempre passei com pressa começou a ganhar vida. Nos dias frios, o mato era coberto com uma fina camada de gelo que refletia o sol como diamante, e a neve transformava árvores comuns em obras de arte abstrata. Na primavera, milhares de pequenas aranhas corriam apressadas pelo tapete de vegetação prensa­da pelo inverno. No verão, o charco se enchia de vida com o som dos pássaros e insetos, e comecei a descobrir os limites dos territórios pa­trulhados pelos melros de asas vermelhas. No outono, grandes árvores plantadas junto a poços fétidos transformavam-se em verdadeiras laba­redas de fogo, uma "árvore com luzes dentro". Interessei-me pela foto­grafia para registrar tudo aquilo que eu passava a enxergar.

Annie Dillard vai até a natureza não apenas para observar, mas também para aprender, para extrair significado de um texto que obsti­nadamente resiste a todas as tentativas. Como guia cuidadosa, ela me levou pela mão a uma trilha familiar que eu já percorrera com outros, como Paul Brand e G. K. Chesterton, e até mesmo com John Dorme (que chamava a natureza "um João Batista submisso a Cristo"). Do mesmo modo, Dillard reconhece o mundo como obra do Criador, e então considera as conseqüências. "Que piada este Criador está nos contan­do?", pergunta ela. A mamãe-polvo que coloca um milhão de ovos para produzir um único sobrevivente; baleias assassinas que se lançam sobre bandos de leões marinhos; a fêmea do louva-deus consumindo o macho que, sem cabeça, continua a copular com ela - que lições podemos tirar de obras como essas?

O problema, como sempre, é que a natureza nos dá sinais mistura­dos. Tal qual uma criança desobediente, o mundo natural tanto nos revela quanto nos esconde Deus; a natureza "geme", para usar um ter­mo paulino. Dillard não tem o otimismo de um Chesterton, que vê o sorriso de Deus até mesmo nas trevas, ou de um Donne, que anseia por um novo lar no porvir. Ela diz: "Eu me alterno entre pensar no planeta como um lar - a casinha com lareira e jardim - ou como uma terrível terra de exílio, na qual somos todos peregrinos". Deus deve preferir trabalhar com uma das mãos atada às costas, conclui ela.

Enquanto escrevia Pilgrim, Dillard perdeu um cunhado, que mor­reu de leucemia. Os testes positivos foram revelados um dia antes de seu casamento, e ele demorou mais três anos para morrer. Diante des­ta situação, Dillard diz: "Não podia escrever este pequeno livro sobre a natureza, nem uma nova versão da teoria do design inteligente. Ti­nha de escrevê-lo para pessoas que estavam morrendo e chorando - o que quer dizer todo mundo. As imagens de minha irmã e seu marido estavam ali, na mesma sala onde eu escrevia o livro. Como poderia falar de Deus à minha irmã, se ela não acreditava nele?"

Por isso, as cenas alegres de Pilgrim são entremeadas e, em alguns momentos, sufocadas por cenas de violência. Ela olha para um pequeno sapo verde flutuando na superfície da água até que, de repente, ele se transfigura diante dela, com seu crânio afundando em seu corpo "como uma tenda que é derrubada, com seu corpo encolhendo diante de meus olhos como uma bola de futebol que murcha". O vilão que ela vê é um enorme besouro que perfurou, envenenou e sugou o interior do sapo. Conforme ela percorre a trilha desgastada de Tinker Creek, pensamen­tos de seu cunhado se esvaindo em função da leucemia estão sempre próximos.

Depois de Pilgrim at Tinker Creek veio Holy the Firm. Dillard deu início ao projeto quando vivia numa ilha em Puget Sound, próximo de Seattle, trabalhando num quarto mobiliado com "uma enorme janela, um gato, uma aranha e uma pessoa". As pressões que se seguiram depois do enor­me sucesso de Pilgrim estavam todas guardadas naquele cômodo solitá­rio. "Eu estava horrivelmente constrangida", lembra-se ela. "Trabalhei 16 meses em tempo integral, oito horas por dia. Todas as vezes que ficava com medo de me aproximar daquela pilha de papéis, eu costuma­va ler as últimas páginas daquilo que havia escrito e nem eu conseguia entender o que estava ali. Lia umas 800 vezes, até entender aquilo sufi­cientemente para poder extrair algumas palavras mais. No fim desse tempo, tinha 43 páginas. Estava ficando como Beckett: cada vez menos palavras, cada vez mais silêncio."



Holy the Firm registra a rotina diária de Dillard - ensinar, refletir, caminhar até a loja para comprar o vinho da Ceia - entremeada com especulação metafósica. Ela havia optado por escrever sobre aquilo que acontecesse em sua vida nos três dias seguintes. Qual seria a marca par­ticular de santidade que cada dia trazia? Qual é o relacionamento entre tempo e eternidade, entre Deus e os eventos do dia-a-dia? No segundo dia, porém, um avião caiu, e Annie Dillard viu-se obrigada a trilhar o mesmo caminho por onde havia seguido em Pilgrim. "Quando o avião caiu, pensei: Oh, não, Deus está me fazendo escrever sobre esta droga de problema da dor outra vez! Achava que era muito jovem, que não sabia a resposta e não queria fazer aquilo. Porém, mais uma vez, tinha de fazê-lo."

Em uma cabana emprestada, sem eletricidade, aquecida pela ma­deira que cortara naquela manhã, ela escreveu sobre dor, a encarnação de Cristo, a natureza sacramental da existência, os supremos mistérios do universo. Como podemos, como ousamos amar um Deus que permite que uma criança morra grotescamente num acidente aéreo? Dillard es­creveu em Pilgrim: "No Corão, Alá pergunta: 'O céu, a terra e tudo o que há neles acham que eu os criei por brincadeira?' É uma boa pergunta".

Quando conversei pessoalmente com Dillard sobre esses assuntos, discutimos a noção de C. S. Lewis de que não devemos ir à natureza para construir teologia, pois ela nos frustrará a todo instante. Devemos, sim, ir a ela quando já tivermos nossa teologia, para que a natureza possa preencher as palavras - admiração, glória, beleza, terror - com significado. "Gosto disto", disse ela. "Mas, como você sabe, sou uma crítica literária treinada, e trato o caos completo da natureza como se ela fosse o Livro de Deus. Para muitos de meus leitores, este é o único Livro de Deus que eles lerão. Devo começar ali."

Minha primeira atração pelos textos de Dillard deu-se porque, nos tempos modernos, a natureza e o sobrenatural têm sido separados, e a autora busca, de alguma forma, costurá-los novamente. De maneira geral, a Igreja tem abandonado a natureza nas mãos dos físicos, geólogos e biólogos. Autores que falam sobre fé andam na ponta dos pés ao redor da Criação de Deus, desprezando-a como se fosse simples maté­ria, indigna da atenção dispensada à mente e ao espírito. Ao fazer isto, perdemos um dos textos principais de Deus. "Entre na matéria", disse Teillard de Chardin.65 "Por meio de todas as coisas criadas, sem exce­ção, o divino nos vitupera, nos alcança e nos molda. Imaginamo-lo como distante e inacessível, ao passo que, na verdade, vivemos imersos em suas camadas mais ardentes."

Dillard reabre o texto como um manuscrito do espírito. Ela escreve sobre a natureza como sendo uma obra de Deus, enquanto admite que a natureza nos dá sugestões confusas. "Encaminho minha canoa para longe da borda do mistério, onde as palavras e a razão falham", diz ela. Sua visão traz à mente, mais uma vez, a própria abordagem de Deus no Livro de Jó. A um homem sofredor, carregado de perguntas existenciais urgentes, Deus responde com um atordoante discurso sobre o mundo natural. "Considere o avestruz", disse ele a Jó, "as cabras monteses dan­do à luz, o boi selvagem, os cavalos, os sublimes falcões, o hipopótamo e o crocodilo". Olhe para o texto; o que ele lhe diz? Assim como o sentido contido nele, requer fé: você precisa ter olhos para ver e ouvidos para ouvir. Nem mesmo Deus reduziu a mensagem da Criação. Ele simples­mente apontou para ela como um item de seu currículo.

Annie Dillard começa com as más notícias sobre o mundo porque naquele dia, diz ela, quando você for dar as boas notícias, elas terão um impacto mais convincente. O leitor precisa confiar que o es­critor sabe até onde o leitor pode se irritar, mas, ainda assim, acreditar no que está escrito. Seu mais recente livro, For the Time Being (Para o tempo presente), chuta o balde mais uma vez. Ele relata quantos suicídios acontecem por dia e qual porcentagem da população é mentalmente retardada. Descreve defeitos de nascimento em minúcias clínicas e de­talha técnicas de assassinato praticadas por tiranos por toda a História. Nota que existem nove galáxias para cada pessoa viva na terra. Dá qua­se a mesma atenção aos segredos do pó, às ondas do mar e à vida do paleontólogo e teólogo católico Teillard de Chardin.

Viajando por um território desconhecido, localizado entre o ceticis­mo e a crença, Dillard volta constantemente à linguagem comum da natureza. Aponta de volta para a prática hassídica 66 de um observador que "reverencia" a Criação ao reconhecer nela as "fagulhas divinas". Como uma artista, ela imagina um mundo que contenha muito mais do que se pode ver, um mundo sacramentai. Enquanto teólogos deba­tem os milagres e o sobrenatural, ela se rende ao esplendor das coisas comuns.

"Não tenho problemas com milagres", diz Dillard. "Estou bem lon­ge do agnosticismo, nem lembro mais onde foi parar uma série de coisas que costumavam ser um problema para mim. Mas esta não é a questão com a qual luto. Para mim, a verdadeira pergunta é: como podemos nos lembrar de Deus? Gosto daquela parte da Bíblia que traz os nomes dos reis como sendo bons ou maus. De repente, aparece um como o rei Josias, que manda limpar o Templo e, sem querer, descobre a Lei. Isto acontece depois de muitas gerações de governantes e do tempo em que os israelitas seguiam a Deus durante o Êxodo. De alguma maneira, eles haviam se esquecido da coisa toda, peça por peça. Uma nação inteira simplesmen­te esqueceu-se de Deus. A oração que diz 'no decorrer deste dia, não me esquecerei de ti; não te esqueças tu de mim' é, às vezes, vista como uma espécie de piada cristã sem importância. Não creio que ela seja assim tão pouco importante. Acho que ela é muito profunda." Como membro da academia pós-moderna, ela percebe que, com a visão mundial que temos hoje, anos-luz à frente da dos hasidim, uma civilização inteira corre o risco de se esquecer de Deus.

Parte do apelo de Dillard reside em sua capacidade de enriquecer a fé de cristãos devotados, enquanto se mantém crível para os cultos que desprezam a religião. Nos Estados Unidos, os cristãos tendem a criar subculturas, lendo seus próprios livros, ouvindo sua própria música e educando seus filhos em suas próprias escolas. Pouca fertilização mútua ocorre entre a subcultura cristã e a cultura maior e secular. Por meio da combinação de uma dúvida teimosa com uma igualmente teimosa insistência na fé, Dillard serve como uma ponte entre dois mundos: o ambiente literário e os cristãos conservadores.

Ler alguns livros religiosos às vezes me lembra uma viagem através de um longo túnel sob uma montanha. Dentro do túnel, os faróis do carro provêem uma iluminação importantíssima. Sem eles, eu poderia bater nas paredes do túnel. Mas próximo à saída do túnel, um conjunto de luzes brilhantes parece engolfar as luzes dos meus faróis e os torna completamente desnecessários, de modo que, quando saio do túnel, uma placa dizendo "verifique seus faróis" me avisa que é hora de desligá-los. Em comparação com a luz do dia, eles são tão fracos que perco a noção de sua existência. Os livros cristãos geralmente são escritos a partir da perspectiva da luz do dia, exterior ao túnel. Cercado de luz, o autor se esquece da profunda escuridão do interior do túnel por onde muitos leitores caminham. Annie Dillard se lembra, e direciona seus faróis de maneira correta.Ela escreve tendo em mente um agnóstico intelectual, esperando levá-lo a considerar "que os cristãos não são apenas pessoas estúpidas". Ela entende que uma de suas tarefas é "tentar mediar um pouco cris­tãos e humanistas - especialmente cristãos evangélicos e meus colegas da academia e os humanistas que acham que um cristão é um louco com um papel e uma arma na mão". De maneira quase singular, ela trata os evangélicos, até os fundamentalistas, com respeito e bondade. Enquanto lecionava na Faculdade Hollins, em Virgínia, no começo de sua carreira, ela passou bastante tempo lendo para os cegos da Faculdade Bíblica Shenandoah, onde aprendeu o lado mais compassivo do fundamentalismo. Atualmente ela é voluntária em um programa de ali­mentação de pessoas carentes.

"Sei o suficiente sobre Deus para querer adorá-lo a todo instante", escreveu Dillard em Holy the Firm. Ela nunca deixa de identificar-se aber­tamente como sendo cristã, apesar de confessar que as experiências com manifestações divinas sejam mais raras hoje em dia. Há poucos anos, ela tomou o passo público de se converter ao catolicismo romano. Como ela explicou ao New York Times, "o que gosto nos católicos é o jeito de­sarrumado deles. Você vai a uma igreja episcopal, e as pessoas são muito parecidas. Vai a uma igreja católica, e há pessoas de todas as cores e idades, bebês chorando. É uma vitrina de gente. E você diz: 'Olha eu aqui. Sou uma das pessoas que amam a Deus'".

Assim como a natureza tanto revela quanto esconde Deus, assim é a Igreja, e Dillard escreve cada vez mais diretamente sobre sua comu­nidade de fé. Ela comentou, numa reunião de artistas cristãos: "Sinto que fui colocada aqui na Terra para descrever os cultos das igrejas, e há alguma coisa intrinsecamente hilariante sobre eles. É comum eu quase morrer sufocada dentro de uma igreja, segurando o riso. Escrevi sobre isto em Uma expedição ao pólo. O que há de tão engraçado nisto? É a distância entre o que estamos fazendo e o que estamos procurando fazer. O relacionamento entre a incongruência de quem somos e quem estamos tentando mover em nossas orações. Parece um quadro da dan­ça do urso".

O ensaio a que ela se refere contém o seguinte lamento:

Tenho freqüentado a missa católica por quase um ano. Antes disso, a igreja mais à mão era a congregacional (...) Semana após semana, fui tocada pelo

estado lastimável da sacristia com piso de linóleo que nenhuma flor era ca­paz de saudar ou amenizar, pelo terrível canto que eu tanto amava, pelas entediantes leituras bíblicas, pela diluição vazia e demorada da liturgia, pela terrível falta de conteúdo do sermão e pela névoa da lúgubre insensatez que a tudo permeava, que existia ao lado e, provavelmente, causava a mara­vilha do fato de que nós vínhamos; nós voltávamos; aparecíamos semana após semana, passando por ali.

(Extraído de Teaching a Stone to Talk)

Em Puget Sound, freqüentava uma pequena igreja na qual ela normal­mente era a única pessoa com menos de 60 anos, sentindo-se como numa viagem arqueológica pelo sul da Rússia Soviética. A Igreja católica mos­trou-se mais inovadora. Em certa ocasião, os paroquianos participaram da missa ao som de músicas do filme A noviça rebelde ao piano. Dillard suspira, dizendo: 'Acho que preferiria submeter-me à famosa noite es­cura da alma a encontrar a noviça rebelde na igreja". Ela completa: "Dois mil anos se passaram, e ainda não resolvemos isto. Semana após semana, testemunhamos o mesmo milagre: Deus é tão poderoso que pode reprimir seu sorriso".

Alguns cristãos realmente não sabem o que fazer com Annie Dillard. . Escrevendo livros de arte, e não de Teologia, ela usa linguagem indireta e dissimulação. "Se eu quisesse fazer uma afirmação teológica ou uma declaração daquilo que penso, teria contratado um skywriter" 67 diz ela. "Em vez disto, tento tirar de mim mesma arte - não que seja tão boa, mas porque, por sua própria natureza, ela não reduz tudo a um sistema fechado. Ela não é tão sufocante. As pessoas podem me perguntar o que acho sobre isto, e eu direi: 'Não sei; aqui estão 271 páginas, e você vai ter de ler todas elas'."

Soren Kierkegaard descrevia-se como um espião, um homem ímpio que fica de olho em vários personagens suspeitos, inclusive ele mesmo. A polícia, dizia ele, faz um bom uso de pessoas astutas que podem desco­brir qualquer coisa, seguir uma pista e revelar segredos. Em certo senti­do, todo escritor trabalha na espionagem, tomando notas, observando particularidades que todo mundo despreza, escarafunchando o mundo em busca de pistas. Para um escritor de assuntos de fé, trabalhar numa cultura secular complica muito esta tarefa. Escrever livros que apa­recem em livrarias cristãs para serem lidos apenas por membros de igrejas exige pouca astúcia; escrever livros de fé para leitores que pos­suem apenas vestígios de órgãos sensoriais, isto sim, requer um tipo particular de perspicácia.

Annie Dillard nunca nega sua identidade, mas também não con­ta a história inteira. Ela conhece seu público e a si mesma. Lembrei-me da analogia que Kierkegaard fez de um espião não muito tempo atrás, quando encontrei um artigo que Dillard escreveu para o The Yale Review, nos idos de 1985. "Cantando com os fundamentalistas" recorda o tempo quando ela lecionou na universidade em Bellingham, Washington. Bem cedo, certa manhã, ela ouviu um canto e olhou por sua janela, vendo um grupo de alunos reunidos em volta de uma fonte.

Sei quem são esses alunos: são os fundamentalistas. Este campus tem uma porção deles. De manhã, eles cantam na praça, e esta é sua única atividade perceptível. O que eles estão cantando? Seja o que for, quero me juntar a eles, pois adoro cantar. Não importa o assunto, pois quero estar ao lado deles, pois sou atraída pelo próprio absurdo de vê-los não se importando com o que as pessoas pensam. Meus colegas e alunos daqui, além de amigos de todo lugar, não gostam dos cristãos fundamentalistas e até os temem. E possível que você nunca se encontre com algum deles, mas certamente já ouviu falar sobre o que eles fazem. Guardam dinhei­ro, votam em bloco e elegem aqueles direitistas malucos. Fazem censura a livros, carregam armas. São contra o flúor na água potável e a Teoria da Evolução nas escolas. É bem possível que eles linchassem pessoas, se pudessem ficar impunes diante deste ato. Não estou certa de que meus amigos ajam corretamente. Deixo minha caneta de lado e uno-me aos meus colegas na praça.

No resto do artigo, Dillard relata o que aprendeu cantando com os fundamentalistas às 8h45 durante todas as manhãs da primavera. Ela estuda as revistas que esses alunos lêem - Christianity Today, Campus Life, Eternity - e descreve aqueles que conhece. São alunos brilhantes, longe de serem ignorantes. Lêem a Bíblia, assim como livros sobre teo­rias da Literatura. Alguns apóiam os democratas modernos; outros, os republicanos modelados. No meio do artigo, Dillard reproduz a letra das músicas que eles cantam, entre elas:



Dai louvores ao Rei

Cantando aleluia

Ele é o Rei dos reis

E

Ele é a minha paz,



Aquele que derrubou todos os muros (...)

Lance sobre ele seus cuidados,

Pois ele cuida de você-ê-ê-ê

E

Seja glorificado, Senhor



Em minha vida, em minha vida hoje

E

Fartar-me-ei da abundância de tua casa



Descansarei ao lado dos ribeiros da justiça

Tu és o meu Rei

Entrai por suas portas com ações de graças

e nos seus átrios, com hinos de louvor

Ele é o Rei do reis

Tu és o Senhor

Dillard revela por que gosta de cantar com os fundamentalistas por toda a primavera: "Eles vêm praticamente pela mesma razão que eu: cada um tem uma relação particular com o Senhor, e, por causa disto, é capaz de suportar um monte de coisas".

Mesmo para um espião, é uma enorme proeza trabalhar a letra de oito diferentes canções de louvor num jornal intelectual publicado pela Univer­sidade Yale. "Quase desmaiei quando eles viram o trabalho", disse-me Dillard, mais tarde. "Na verdade, a cada dia estou me revelando um pouco mais."A partir das cartas que recebo e dos comentários que ouço em festas e lançamentos de livros, chego à conclusão de que as pessoas têm uma visão romântica da vida de um escritor. Essas pessoas nunca esti­veram ao lado de um escritor que fica parado 15 minutos diante de um dicionário de sinônimos em busca de uma única palavra. Devido ao pró­prio trabalho, os escritores levam uma vida solitária. Trabalhamos sozi­nhos, fugindo de qualquer distração, e criamos nossa própria realidade particular, explorando-a e domesticando-a até que chega o momento quando o editor começa a instigar outras pessoas a trabalhar conosco -momento em que, naturalmente, estamos felizes, construindo outra realidade falsa. Na maior parte das vezes, o mundo que criamos é muito mais interessante do que aquela triste realidade na qual vivemos.

Às vezes, tenho a impressão de que minha vida de escritor se sobres­sai à minha vida real. Fico pensando: Se eu não escrevesse, será que eu chega­ria mesmo a existir? Como posso saber o que penso ou sinto sem abrir meu computador e começar a escrever sobre aquilo? Lembro-me de um dia em que trabalhava em uma pequena história numa manhã bem cedo. Por três horas, esforcei-me para desenvolver personagens tridimensionais, tirando todos os clichês de seus diálogos. Iniciante na ficção, estava ficando com uma terrível dor de cabeça por causa do esforço. Natural­mente, usava isto como desculpa para parar de escrever, atravessar a rua e tomar um café. Imagine minha surpresa ao descobrir que todas as pessoas da cafeteria eram personagens bidimensionais, que falavam usando clichês! Nenhuma daquelas pessoas parecia-me tão interes­sante quanto as pessoas que povoavam minha história. Corri de volta para a segurança de minha falsa realidade que me esperava (e so­mente a mim) no meu escritório no porão.

Annie Dillard conhece esta síndrome muito bem. Ela prefere traba­lhar em escritórios com paredes de concreto sem janelas - ambientes inertes a tal ponto que, como diz ela, mudar a cor da caneta torna-se uma experiência empolgante.

Ninguém deveria se surpreender ao saber que a vida de um escritor - como é — é incolor a ponto da privação sensorial. Muitos escritores fazem pouco mais do que apenas sentar-se em pequenas salas, lembrando-se do mundo real. Isto explica por que tantos livros descrevem a infância do autor. Para mui­tos escritores, a infância pode muito bem ter sido a ocasião de suas únicas experiências inéditas. Os escritores lêem biografias literárias e se cercam de outros escritores, deliberadamente forçando-se a aceitar a noção burlesca de que a opção racional de ocupar-se neste planeta até que o curso de sua vida chegue à totalidade é sentar-se numa sala pequena durante todo este tempo, na companhia de pedaços de papel.

(Extraído de The Writing Life)

Dillard entende que aqueles de nós que escrevem sobre a vida ficam praticamente sem energia para viver a vida real. A verdade é que a maio­ria de nós não está bem equipada para viver, e genuinamente prefere sentar-se em salas pequenas na companhia de pedaços de papel. Porém, nos primeiros anos de sua vida, ela repentinamente emergiu de sua sala para se ver diante de gravadores que começavam a funcionar tão logo ela abria sua boca, além de leitores do mundo inteiro pedindo seus con­selhos. Para Dillard, ganhar o Prêmio Pulitzer mudou tudo da noite para o dia. "Eu estava na casa dos 20 anos e ganhei um Pulitzer. Isso não estava nos planos; eu não estava buscando algo assim, foi um acidente, uma dessas coisas que caem na sua cabeça. Fiquei terrivelmente sem graça, e me escondia o quanto possível." Enquanto ela procurava ser uma peregrina, o mundo continuava tentando transformá-la numa santa.

Toda aquela atenção era terrivelmente confusa para ela, no início. Recebia ofertas para dar seu aval a livros e produtos, escrever roteiros para Hollywood, criar balés e canções. Convites para falar e dar aulas entupiam sua caixa de correio. Durante algum tempo, ela conseguiu fu­gir, atravessando o país, quando se mudou da Virgínia para Puget Sound. Fez um voto que honra até hoje: fazer apenas duas palestras por ano. "Será que Cristo teria ido à televisão?", perguntou Dillard, certa vez. Preteriu uma aparição no programa Today, mas concedeu uma entrevis­ta aos jornalistas da imprensa escrita.

Entrevistas a angustiam, especialmente aquelas que tratam de sua vida pessoal. Quando um repórter do New York Times passou um fim de semana inteiro com Dillard em Connecticut, Annie ficou acordada meta­de da noite, chorando incontrolavelmente, perturbada com as perguntas que o entrevistador fizera sobre sua fé. Ainda assim, ela cooperou, como uma espécie de peregrina se submetendo a um martírio emocional.

É certo que os anos sob os holofotes cobraram um preço pessoal. Ela já se casou três vezes. Sua voz revela as várias décadas de fumante.Sua figura demonstra uma estranha fragilidade, sendo que sua fina so­brancelha, os cabelos ralos e sua pele muito clara apenas corroboram essa imagem. Dillard tem deixado transparecer suas lutas pessoais: com a fama, com as terríveis exigências da vida de escritora, com suas dúvi­das e sua fé. Diante da incansável máquina de fazer celebridades dos Estados Unidos, um escritor sério tem poucas opções: pode se render, como Truman Capote, Norman Mailer e Gore Vidal, ou simplesmente desaparecer, como J. D. Salinger e Thomas Pynchon. Dillard optou por algo no meio do caminho. A palavra "peregrina", extraída do título de sua obra principal, nos dá uma pista de como ela se vê.

Meu último encontro com Dillard ocorreu numa conferência em Kansas, onde ela recebeu do Milton Center um prêmio de dez mil dó­lares pela qualidade na literatura cristã. Ela contou piadas, fez uma engenhosa brincadeira com a platéia e cativou sua atenção como se fosse uma humorista. Seus fãs, a maioria escritores iniciantes, beberam de todas as suas palavras. Hoje, na faixa dos 50 anos, com um corpo de obras bastante maduro em seu currículo, Dillard se tornou parte do grupo literário que um dia deu-lhe as boas-vindas como uma novata deslumbrante. Em alguns aspectos, ela cumpriu o prometido; em outros, como dizem os críticos, não. O que fazer para repetir o sucesso de um livro que alcança sucesso mundial?

Milhares de leitores escrevem para Dillard. Além do mais, Pilgrim at Tinker Crcek surgiu numa época em que a espiritualidade não tinha espaço no campo literário e, neste deserto, Pilgrim destacava-se como um oásis para a alma. Ele fez para alguns leitores o que a literatura fantástica faz para outros: apresentou um mundo futuro de maneira convincente. Ainda que involuntariamente, Annie Dillard se tornou uma santa moderna, um ícone.

Uma universitária escreveu, perguntando: "O que é transcendência e como posso ter mais disto em meus textos?" Um sacerdote enviou a ela um envelope que, colocado contra a luz, revelava a silhueta de uma cruz. Quando abriu o envelope, "em vez de uma cruz, um Cristo agoni­zante caiu na palma de minha mão. Pulei para trás. Ele deve ter caído dessa cruz no correio". Freiras enviaram medalhas e pedaços do tecido do véu de Verônica.68 Uma mulher, sentada ao lado do leito de morte de seu neto, pedia que Dillard respondesse: os Estados Unidos agiram certo ou errado quando lançaram a bomba atômica sobre Hiroshima?

Um famoso artista perguntou: "Não quero atrapalhá-la, mas você poderia me dizer se Deus está olhando para sua Criação, decidindo quem vive e quem morre, ou já foi embora?" O filho do artista havia morrido enquanto velejava num pequeno barco.

Há alguma surpresa em vê-la se mudando para um lugar a quase cinco mil quilômetros de distância? Ela se mudou para o Estado de Washington sem conhecer ninguém ali, e custou a acostumar-se. "As mulheres de lá tinham uma cultura com a qual não me acostumei. Usavam correntes, comiam coisas enlatadas e davam o peito a seus filhos. Eu achava que era uma espécie de hippie, até que saí. Lá fora, transformei-me, de repente, numa especialista em Literatura."

Ela sentiu muito mais do que uma ponta de culpa sobre o tipo de texto que produzia, o que, admitia ela, é "espantosamente isolado de questões políticas, sociais e econômicas". Quando uma pessoa escreve sobre fé religiosa, em especial, as complicações aparecem, pois escrever exige uma autoconsciência que destrói a sublime rendição de si mesmo que todo peregrino busca. Todo escritor que aborda a espiritualidade pode se identificar com a preocupação de Thomas Merton de que seus livros expressassem a vida espiritual de um modo tão confiante e firme quando, na verdade, ele era assolado por inseguranças, dúvidas e até mesmo terrores. Há lugar para um peregrino - simplesmente isto, um peregrino, não um especialista ou um santo?

Em Holy the Firm, Dillard até mesmo insere uma retratação: "Não vivo bem. Apenas aponto para a visão". Certa vez, ela me explicou que "pessoas santas me pedem para falar em seus mosteiros e respondo que não, pedindo que elas mantenham sua visão. Em O mágico de Oz, existe uma enorme máquina, e, por trás da cortina, um homem baixinho gira uma manivela e aperta botões. Quando o cachorro puxa a cortina e expõe o pequeno homem, a máquina diz: 'Não preste atenção no ho­mem por trás da cortina! Olhe para o show de luzes!' Por isso, peço aos monges que mantenham sua visão de poder, santidade e pureza. Todos nós temos vislumbres dessa visão, mas a verdade é que ninguém jamais a viveu".

Há cerca de 20 anos, disse que oraria por ela uma vez por semana porque imaginava o tipo de pressão que ela enfrentaria. "Ninguém jamais disse que oraria por mim", disse-me ela, recentemente. "Por conseguinte, senti-me obrigada a ser digna de suas orações por mim, para continuar sendo uma escritora cristã, fazendo isto da melhor maneira que eu pudesse."

Quando um escritor alcançava sucesso inesperado e escrevia para Dillard pedindo conselhos, sua resposta era: "Tenho uma mensagem urgente para você: todo mundo se sente como se fosse uma fraude (...) Separe você de seu trabalho. Um livro que você escreve não é você, assim como uma cadeira que você constrói ou uma sopa que prepara também não é você. É apenas uma coisa que você fez em determinado momento. Se quiser fazer outra coisa, ela será apenas mais um fato, mais uma oferta da viúva, outra pequena dádiva que Deus vê como o melhor que nós, humanos, podemos fazer - e pela qual somos anteci­padamente perdoados".

A própria obra de Dillard contém seu conselho. Na alquimia das palavras escritas, as lutas de uma peregrina fiel têm se transformado numa fonte de conforto para outras pessoas, e suas dúvidas fortalecem a fé de outros. Como escritor, também consciente de meus próprios fra­cassos na vida, essa misteriosa alquimia oferece-me esperança. "O que é um poeta?", perguntou Kierkegaard. "Um poeta é um ser infeliz cujo coração está partido por sofrimentos secretos, mas cujos lábios foram tão estranhamente formados que, quando um suspiro ou um lamento escapa deles, soam como uma bela música."

ANNIE DILLARD PARA INICIANTES


Pilgrim at Tinker Creek, um dos livros mais recentes de Annie Dillard, ainda oferece a melhor apresentação de seu estilo e pensamento. Como escritora, ela está disposta a experimentar praticamente tudo. The Writing Life e Living by Fiction oferecem um rico material para aqueles que estão interessados na confecção de textos. An American Childhood satisfaz os leitores interessados na vida da própria Annie Dillard. Ela também publicou um longo romance intitulado The Living, que rece­beu críticas diferenciadas, além de vários volumes de poesia. The Annie Dillard Reader reúne excertos de várias obras - uma amostragem esco­lhida pela própria autora, na qual leitores dedicados poderão beber em suas fontes originais.



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