Alma sobrevivente



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9. John Donne

No Leito de Morte


No fim da déca­da de 1980, enquanto a epidemia de Aids estava dizi­mando a comunidade gay, e o chefe do Departamento de Saúde dos Estados Unidos, C. Everett Koop, estava atraindo crí­ticas a sua atitude compassiva, um amigo meu contraiu a doença. Co­nheci David por intermédio da mú­sica clássica. Membro da diretoria da Orquestra Sinfônica de Chica­go, ele me convidava para assistir a vários concertos, e apresentou-me a diversos músicos da orquestra.

Conforme fomos nos conhe­cendo, David contou acerca de sua peregrinação. Cres­cera num lar cristão e freqüentara uma universidade cristã bastante conservadora. Foi ali, na verdade, que teve seus primeiros relacionamentos ho­mossexuais. Mais tarde, ele saiu do armário e escolheu um parceiro para a vida toda. "Ainda me consi­dero um cristão evangélico", disse ele. "Creio em tudo que está na Bí­blia... Bem, quase tudo. Aqueles dois ou três versículos sobre con­tato com pessoas do mesmo sexo, bem, não sei o que fazer com eles. Talvez eu esteja pecando em meu estilo de vida. Talvez aqueles versículos estejam falando de outra coisa. Não sei como juntar todas essas coisas. Mas eu realmente amo a Jesus e quero servi-lo."

Eu também não sabia como juntar essas coisas. David testemu­nhava de sua fé a outras pessoas e dava grandes somas de dinheiro a causas cristãs, incluindo os programas de impacto urbano de nossa igreja, a qual ele costumava freqüentar. Mais recentemente, ele freqüen­tava a Moody Memorial Church, mantendo uma atitude discreta e estremecendo todas as vezes que o pastor condenava a homossexuali­dade do púlpito. Mas ele gostava de música, e de todas as igrejas que havia freqüentado, a Moody refletia mais de perto sua própria teolo­gia. "A maioria dos gays cristãos é bastante conservadora em termos teológicos", explicou. "Sofremos tanto abuso na igreja que só vamos porque achamos que aquilo é realmente verdade."

Janet e eu tentávamos ser amigos fiéis de David, independente­mente de nossas diferenças. A doença cobrou um longo e terrível preço de seu corpo. Ele passou suas últimas semanas no hospital, e nós o visitávamos sempre que podíamos. Às vezes, o encontrávamos lúcido e pensativo. Em outros momentos, em meio a alucinações, ele nos via como seus pais ou como alguém do passado. Já próximo do fim, seu corpo ficou coberto de feridas purulentas, sua língua, inchada e sua boca, cheia de aftas, o que o impedia de falar.

Quando David morreu, seu parceiro, perturbado, pediu-me que fa­lasse em seu enterro. "Você pode dizer o que quiser", disse-me ele. "Mas tenho um pedido: não pregue fazendo julgamento. A maioria das pes­soas que virão ao funeral não entra numa igreja há muito tempo. A única coisa que ouviram da igreja foi uma palavra de julgamento. Elas precisam ouvir sobre um Deus de graça e misericórdia - o Deus que David adorava. Elas precisam de esperança."

Nos dias que se seguiram, não consegui trabalhar muito. Escrevi e rasguei diversos rascunhos sobre o que eu diria. No dia anterior ao en­terro, num momento repentino de inspiração, fui até a estante de livros e retirei um volume pequeno que não lia havia muito tempo. Devotions Upon Emergent Occasions, de John Donne. As páginas estavam todas dobradas e sublinhadas, com diversas notas nas margens, e quando co­mecei a folheá-lo, percebi que não podia ter achado uma mensagem mais moderna e apropriada do que aquela escrita por um poeta elizabetano, quase quatro séculos atrás.

Olhei para a platéia ao me levantar no púlpito, na noite do enterro de David. Era um grupo sofisticado e divertido, e muitos haviam se reunido ali para honrar sua vida. Alguns músicos da Sinfônica de Chi­cago deixaram o concerto da noite e correram para a igreja para exe­cutar uma peça musical em tributo ao amigo. Fiquei olhando enquanto cantávamos alguns hinos, e percebi que muitos se sentiam bastante desconfortáveis segurando um hinário, e mais ainda cantando. A ver­dade é que aquele não era um povo de igreja. Era uma multidão que chorava: pareciam pássaros pequenos e desamparados, famintos por palavras de conforto e esperança. A maioria deles já havia perdido amigos próximos para a Aids nos anos anteriores. Sentiam-se confusos e culpados, assim como tristes. A tristeza abateu-se sobre nós como um nevoeiro descendo naquele santuário.

Comecei a lhes contar a história de John Donne (1573-1631), um homem acostumado à tristeza. Durante o período em que foi deão da Catedral de São Paulo, a maior igreja de Londres, três ondas da Grande Peste varreram a cidade, sendo que a última epidemia sozinha matou 40 mil pessoas. Ao todo, um terço dos habitantes de Londres morreu e outro terço fugiu para o interior do país, transfor­mando bairros inteiros em cidades-fantasma. O mato cresceu entre as pedras do calçamento das ruas. Profetas sarnentos e quase loucos espreitavam as ruas desertas, lamentando o julgamento. Na verdade, praticamente todo mundo acreditava que Deus mandara as pragas como flagelo pelos pecados dos londrinos. Nesse momento de crise, os moradores da cidade se dirigiam em bandos ao deão Donne, pedin­do uma explicação ou, pelo menos, uma palavra de conforto. Então, os primeiros sinais da doença começaram a aparecer no próprio cor­po de Donne.

Era a peste, disseram os médicos. Ele tinha pouco tempo de vida. Por seis semanas, ele esteve à beira da morte. Os tratamentos prescri­tos eram quase tão violentos quanto a própria doença: sangramentos, cataplasmas tóxicos, aplicação de víboras e pombos para remover os "vapores maléficos". Durante esse período obscuro, Donne foi proibi­do de ler e estudar, mas permitiam que ele escrevesse. Foi então que escreveu Meditações. Enquanto esteve no leito, convencido de que iria morrer, travou uma luta feroz com o Deus Todo-Poderoso e a registrou para a posteridade.Esse livro antigo tem servido como um guia indispensável, quando se trata de dor. Vou a esse livro todas as vezes que um amigo morre ou quando me sinto sufocado pelo sofrimento. John Donne é incisivo sem ser blasfemo, profundo sem ser abstrato ou impessoal. Ele mudou para sempre a maneira pela qual penso na dor e na morte, e como minha fé se manifesta nessas crises inevitáveis.

De que maneira chegarão a ti, se tu os pregaste a seus leitos?

Não importa onde eu comece, sempre termino escrevendo sobre a dor. Meus amigos já sugeriram diversas razões para essa propensão: uma profunda ferida da infância ou talvez uma overdose bioquímica de me­lancolia. Eu realmente não sei. Tudo o que sei é que me assento para escrever sobre algo adorável, como as asas diáfanas de uma borboleta, e, não demora muito, vejo-me de volta às sombras, escrevendo sobre a breve e trágica vida de uma borboleta.

"Como posso escrever sobre outra coisa?" É a melhor explicação que me vem. Existe algum fato mais fundamental da existência humana? Eu nasci em dor, apertado por entre tecidos dilacerados e sangrentos, e, como primeira evidência de vida, ofereci meu choro. Possivelmente mor­rerei em meio à dor também. É entre estes dois eventos de dor que vivo meus dias, claudicando entre um e outro. Como disse o contemporâneo de Donne, George Herbert: "Chorei quando nasci, e todos os dias me mostram por quê".

A doença de John Donne foi apenas o último encontro de uma vida marcada pelo sofrimento. Seu pai morrera quando ele tinha ape­nas quatro anos. A fé católica de sua família gerava uma profunda incapacidade naqueles dias de perseguição protestante: um católico não podia ter uma oficina, era multado por assistir à missa, e muitos eram torturados por suas crenças (a palavra "opressão" deriva de uma técnica popular de tortura: católicos não arrependidos eram postos sob uma tábua na qual pesadas pedras eram colocadas para literal­mente pressionar a vida para fora do corpo dos mártires). Depois de ter cursado com brilhantismo as universidades de Oxford e Cambridge, foi-lhe negado o diploma por causa de sua filiação religiosa. Seu ir­mão morreu na prisão, cumprindo pena por ter oferecido abrigo a um padre.

No começo, Donne reagiu a essas dificuldades rebelando-se contra sua fé. Notório don Juan, celebrou suas façanhas sexuais em um dos poemas mais abertamente eróticos de toda a literatura inglesa. Final­mente, consumido pela culpa, renunciou a seus modos promíscuos em favor do casamento. Ele caiu diante do fascínio de uma bela jovem de 17 anos tão viva e brilhante que lhe lembrava a luz do sol.

Numa amarga ironia, exatamente quando Donne decidira estabele­cer-se, sua vida teve uma mudança calamitosa. O pai de Anne More estava determinado a punir seu novo genro, a quem considerava uma pessoa inconveniente. Fez com que Donne fosse despedido de seu empre­go de secretário de um nobre e, com o ministro que realizou a cerimônia de seu casamento, jogou-o na prisão. Desconsolado, Donne escreveu seu poema mais expressivo: "John Donne, Anne Donne, Undone".

Depois de ser libertado, Donne, agora um excluído, não conseguia mais encontrar emprego. Perdera qualquer chance de realizar sua ambi­ção de servir na corte do rei Tiago.61 Por quase uma década, ele e sua esposa viveram na pobreza, numa casa apertada que recebia um novo herdeiro à velocidade de um por ano. Anne sofria de depressão periodica­mente, e mais de uma vez quase morreu no parto. John, provavelmente por má nutrição, sofria de constantes dores de cabeça, cólicas intesti­nais e gota. Seu mais longo trabalho nesse período foi um extenso estu­do sobre as vantagens do suicídio.

Em algum momento daquela década melancólica, John Donne se converteu à Igreja da Inglaterra. Com sua carreira bloqueada a cada movimento, ele decidiu, aos 42 anos de idade, buscar a ordenação como sacerdote anglicano. Seus contemporâneos faziam fofocas sobre sua "con­versão por conveniência" e zombavam do fato de que ele realmente queria "ser embaixador em Veneza, não um embaixador de Deus". Mas Donne considerava que sua chamada era verdadeira. Recebeu o grau de dou­tor em Divindade da Universidade de Cambridge, prometeu colocar de lado sua poesia em favor de seu sacerdócio e dedicou-se exclusivamente ao trabalho na paróquia.

Um ano depois de ter assumido sua primeira igreja, Anne morreu. Ela deu à luz 12 filhos, cinco dos quais morreram na infância. John fez o sermão do enterro de sua esposa, escolhendo como texto palavras profundamente autobiográficas do Livro de Lamentações: "Eu sou o homem que viu a aflição". Fez um voto solene de não se casar novamente, a fim de que uma madrasta não trouxesse mais dor aos filhos, o que por conseguinte significava assumir muitas das tarefas do lar e usar precio­sos fundos como ajuda externa.

Esse foi, então, o sacerdote apontado para a Catedral de São Paulo em 1621: uma pessoa melancólica em toda a sua vida, atormentado pelos pecados de sua juventude, fracassado em todas as suas ambições (exceto na poesia, que ele havia renegado), maculado por acusações de falta de sinceridade. Ele não parecia nem de longe um candidato a levan­tar o espírito da nação na época das pestes. Contudo, Donne se aplicou à sua nova tarefa com vigor. Recusou-se a se juntar aos muitos que deixa­vam Londres e permaneceu com seus assustados paroquianos. Levanta­va-se todos os dias às quatro horas e estudava até as dez horas. Na era da Bíblia King James e de William Shakespeare, os londrinos letrados honravam a eloqüência e a oratória, e, neste quesito, John Donne não tinha concorrentes. Ele fazia sermões tão poderosos que logo, em detri­mento da declinante população de Londres, a enorme catedral estava sempre cheia de adoradores. Então veio a doença e a sentença de morte.

Alguns escritores relatam que a consciência da morte iminente pro­duz um estado de elevada concentração, algo como ataque epiléptico. Talvez Donne tenha sentido algo semelhante quando trabalhava no diário de sua doença. Os textos perdem seu usual controle rígido; as frases, densas, ligadas umas às outras numa associação livre, sobre­postas a conceitos, espelham o fervilhante estado da mente de Donne. Ele escrevia como se tivesse de derramar em cada palavra todo pensa­mento e emoção significante que lhe ocorresse.

"Variável e, portanto, miserável condição do homem! Neste minu­to, estava bem, e agora estou doente", é a frase inicial do livro. Qualquer pessoa que já tenha ficado confinada numa cama por mais de alguns dias consegue identificar-se com essas circunstâncias, tão triviais quan­to fortíssimas, que Donne prossegue em descrever: noites sem dormir, fastio, médicos cochichando durante as consultas, a falsa esperança de remissão seguida da apavorante realidade da recaída.

O clima da narrativa muda rápida e violentamente conforme a doença progride. Medo, culpa e a tristeza de um coração partido reve­zam-se na caça incessante da paz interior. Donne se preocupa com seu passado: será que Deus o "pregara" em seu leito como uma puni­ção zombadora por seus pecados sexuais do passado? Em suas orações, ele tenta juntar louvor ou, pelo menos, gratidão, mas normalmente não consegue. Sua meditação, por exemplo, começa destemidamente quan­do Donne apodera-se da idéia de que, por intermédio do sono, Deus nos dá uma maneira de nos acostumarmos com a noção de morte. Perdemos a consciência, mas acordamos na manhã seguinte revigorados e restabe­lecidos. Não é este um quadro daquilo que acontecerá conosco depois da morte? Então ele percebe, num ímpeto, que a doença tem tirado dele até mesmo a idéia de esperança: "Não consigo dormir nem de dia, nem de noite (...) Por que o peso do meu coração não se transfere para mi­nhas pálpebras?" A insônia legou-lhe um período ininterrupto de tempo para se preocupar com a morte, sem ter descanso para renová-lo em relação a esta preocupação.

Donne define-se como um marinheiro arremessado de um lado para outro pelas gigantescas vagas de um oceano turbulento: às vezes, ele tem o vislumbre de uma terra distante; logo em seguida, a perde de vista diante de mais uma enorme onda. Outros escritores já descreveram as vicissitudes da enfermidade com força similar. O que destaca o trabalho de Donne é o público a quem ele se destina: o próprio Deus. Seguindo a tradição de Jó, Jeremias e os salmistas, Donne usa a arena de suas difi­culdades pessoais com uma plataforma para sua grande luta com o Todo-Poderoso. Depois de passar a vida inteira perambulando confuso, ele finalmente chegou a um lugar onde pode oferecer algum serviço a Deus, e agora, neste preciso momento, ele é atingido por uma doença mortal. Não parece haver nada no horizonte que não seja febre, dor e morte. O que fazer?

Em Meditações, John Donne censura Deus: "Não tenho a retidão de Jó, mas tenho o desejo de Jó: de falar com o Todo-Poderoso e de arrazoar com Deus". Há momentos em que ele insulta a Deus, outros em que rasteja e implora perdão, ainda outros em que argumenta ferozmente. Em vários momentos, porém, Donne deixa Deus de fora do processo. O invisível diretor de cena aparece como uma sombra por trás de cada pensamento, de cada sentença.

Dá-me, ó Senhor, um temor do qual eu não tenha medo.

Conversei com muitas pessoas cujas vidas são definidas pelo sofrimento. Em cada caso, elas me apresentam uma crise de temor, uma crise de propósito e uma crise de morte. A principal razão pela qual retorno às Meditações de Donne, como ocorreu na noite do enterro de David, é que o livro conta cada uma dessas crises em detalhes, e continua a trazer novos insights sobre essas confrontações fundamentais que temos com o mistério do sofrimento.

Mesmo sendo uma visita, tenho medo todas as vezes que abro a porta e sinto aquele cheiro característico de hospital. Meu amigo David me disse como era ficar o dia inteiro num quarto particular, o dia inteiro com nada em que fixar o olhar, senão na miséria. Ele recordou tudo o que perderia quando morresse e tudo o que deixou de fazer enquanto viveu. Lá fora, no corredor, ele ouvia os médicos e enfermeiras discuti­rem seu caso a meia-voz. Eles o espetavam e perfuravam todos os dias, realizando testes em seu corpo que ele mal podia entender.

De maneira semelhante, John Donne descreve a sensação descone­xa que se instala no enfermo quando os médicos rodeiam um paciente. Quando ele sente medo no médico, seus próprios medos afloram: "Eu o ultrapasso e o suplanto em seu medo". Como paciente, ele se sentia como um objeto, como um mapa aberto sobre uma mesa, sobre o qual os cosmógrafos matutam. Ele imaginava-se separado de seu corpo e flu­tuando sobre ele, e a partir desta visão privilegiada, podia observar a figura que se desintegrava sobre o leito. Com o avanço da doença, via-se como uma estátua de barro, com os membros e a carne se desmanchan­do e esmigalhando-se num punhado de areia. Em breve, nada haveria além de uma pilha de ossos.

Na maior parte do tempo, Donne teve de lutar com esses medos sozinho, pois naqueles dias os médicos colocavam em quarentena os portadores de doenças contagiosas, afixando um aviso na porta de suas casas (alguns estavam exigindo este mesmo tipo de tratamento para doentes de Aids como David). Enquanto estava acamado, Donne pen­sava se o próprio Deus não estava participando daquela quarentena. Ele clamava, mas não obtinha resposta alguma. Será que as promessas de Deus estavam presentes? Seu conforto? Em cada uma das 23 medi­tações, Donne volta à questão principal por trás de seu sofrimento. Seu verdadeiro temor não era o tênue clamor das células de seu corpo; ele temia a Deus.

Donne fazia a pergunta que todos os que sofrem fazem: "Por que eu?" O calvinismo ainda era recente naquele tempo, com sua ênfase na soberania de Deus, e Donne considerava as pragas e guerras como "os anjos de Deus". Logo recuou: "Certamente elas não são a tua mão. A espada devoradora, o fogo consumidor, os ventos do ermo, as doenças do corpo, tudo aquilo que afligiu Jó veio das mãos de Satanás, não das tuas". Mas ele nunca sentiu certeza disto, e a falta de entendimento provocava enorme tormento interior. A culpa por seu passado manchado espreitava como um demônio, olhando de soslaio. Talvez ele realmente estivesse sofrendo como resultado de seu pecado. Se fosse assim, o que seria melhor: ser marcado por Deus ou não receber nenhuma visita sua? Como poderia adorar e, ainda mais, amar um Deus assim?

Citei algumas dessas passagens no enterro de David porque, naque­la época, os doentes de Aids ouviam um enorme corolário de julgamen­tos vindo da Igreja. Como Donne, encontrei conforto no fato de Jesus jamais ter se dirigido a um sofredor com uma acusação do tipo "você merecia". Em vez disso, ele ofereceu perdão e cura.

O livro de Donne nunca resolve o dilema do "por que eu?" Depois de anos investigando o problema da dor, estou convencido de que ne­nhum de nós pode resolver essa questão. É certo que a Bíblia não apre­senta nenhuma resposta clara. Estudei cuidadosamente cada passagem que trata do sofrimento, e até mesmo no discurso final de Deus a Jó, no momento em que ele implorava por uma resposta, Deus não a deu. Jesus contradisse as sufocantes teorias dos fariseus de que o sofrimento vem para aqueles que o merecem, mas evitou responder diretamente à per­gunta sobre a causa. A resolução da pergunta "por quê?" está além do alcance da humanidade - não foi esta a mensagem principal de Deus para Jó?

Apesar de Meditações não responder às questões filosóficas, o livro registra a resolução emocional de Donne, um movimento gradual em direção à paz. Em um primeiro momento - confinado numa cama, reci­tando orações sem obter resposta, contemplando a morte, regurgitando culpa -, ele não encontra qualquer alívio para seu temor. Obcecado, revisa todas as passagens bíblicas em que aparece a palavra "medo". Ao fazer isto, aflora nele a idéia de que a vida sempre terá situações que incitarão o medo: se não for a doença, serão dificuldades financeiras; se não for a pobreza, será a rejeição; se não for a solidão, será o fracasso. Num mundo assim, Donne tem uma opção: temer a Deus ou temer tudo mais.Em uma passagem que nos remete ao fim da litania de Paulo em Romanos 8 ("Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida (...) poderá separar-nos do amor de Deus"), Donne despacha seus temores potenciais. Os inimigos pessoais não representam a derradeira ameaça, pois Deus pode derrotar qualquer inimigo. Fome? Não, Deus pode suprir. Morte? Até mesmo este, o maior inimigo humano, não ofe­rece uma barreira final contra o amor de Deus. Donne conclui que a melhor coisa é cultivar um temor adequado de Deus, temor este que pode suplantar todos os outros: "Assim como me deste um arrepen­dimento, do qual não devo me arrepender, ó Senhor, dá-me um temor do qual não tenha medo". Aprendi com Donne que, quando estou diante de dúvidas, devo rever minhas alternativas. Se por qualquer razão recusar-me a confiar em Deus, em quem, então, poderei confiar?

Em sua contenda com Deus, Donne mudou as perguntas. Ele come­çou com uma pergunta sobre a causa ("quem causou esta doença, esta peste? E por quê?"), para a qual não encontrou resposta. As meditações vão gradualmente se movendo na direção da reação, a pergunta marcante que confronta toda pessoa que sofre. Confiarei em Deus no meio da minha crise e diante do medo que ela provoca? Ou me afastarei de Deus em amargura e raiva? Donne decidiu que, no sentido mais importante, não importava se sua doença era uma punição ou simplesmente uma ocorrência natural. Em ambos os casos, ele confiaria em Deus, pois, no fim das contas, confiança representa o adequado temor a Deus.

Donne comparou o processo com a mudança de atitude em relação aos médicos. No início, quando eles analisavam seu corpo em busca de novos sintomas e discutiam suas descobertas em um tom de voz baixo, fora de seu quarto, ele não podia evitar ficar com medo. Com o passar do tempo, porém, sentindo sua preocupação compassiva, convenceu-se de que eles mereciam sua confiança. O mesmo padrão aplica-se a Deus. Com freqüência, não entendemos os métodos de Deus ou as razões por trás deles. A pergunta mais importante, porém, é se Deus é um médico confiável. Donne concluiu que sim.

Muitas pessoas, como aquelas a quem me dirigi no enterro de David, não enxergam Deus como digno de confiança. Da Igreja, o que ouvem é condenação. Seguindo os passos de Donne, é por isso que mudo a pers­pectiva para a razão principal de se confiar em Deus: seu Filho Jesus. Como Deus se sente em relação àqueles que morrem, mesmo quando isto ocorre como resultado de suas próprias transgressões? Será que Deus está fazendo carranca, como faziam os profetas de rua dos tempos de John Donne e alguns de hoje ainda insistem? Será que Deus até mesmo se preocupa com a perda, a raiva e o medo que sentimos? Não precisa­mos ficar imaginando como Deus se sente, pois em Jesus ele nos mostra.

Para aprender como Deus vê o sofrimento neste planeta, precisa­mos apenas olhar para a face de Jesus nos momentos em que ele se move entre os paralíticos, as viúvas e os leprosos. Ao contrário de muitos de sua época, Jesus mostrava uma ternura incomum para com aqueles que tinham um histórico de pecados sexuais - veja como ele age com a mu­lher samaritana no poço, ou com aquela de má reputação que lavou seus pés com seus cabelos, ou com a mulher flagrada em adultério. Em Jesus, disse Donne, temos um grande Médico que "conhece nossas en­fermidades naturais, pois ele as teve, e sabe o peso de nossos pecados, pois ele pagou um alto preço por eles".

Como podemos nos aproximar de um Deus a quem tememos? Como resposta, Donne nos dá uma frase da história contada por Mateus das mulheres que viram a tumba vazia depois da ressurreição de Jesus. Elas fugiram correndo da cena "tomadas de medo e grande alegria", e Donne viu nessas "duas pernas, uma de medo, outra de alegria", um padrão para si mesmo. Aquelas mulheres viram com seus próprios olhos a imensa distância entre o Deus imortal e o homem mortal, mas, de repente, aquela se tornou uma distância que inspira­va alegria. Deus usara seu grande poder para conquistar o derradeiro inimigo. Por esta razão, as mulheres sentiram tanto medo quanto ale­gria. Por esta razão, John Donne descobriu ao menos um temor do qual não precisava ter medo.



Faze desta (...) melancolia e debilidade de coração um poderoso estimulante.

Viktor Frankl, sobrevivente de um campo de concentração nazista, expressou muito bem a segunda grande crise vivida pelas pessoas que sofrem: a crise de propósito. "O desespero", disse, "é o sofrimento sem propósito". Ele observara que colegas de dor eram capazes de passar por grande sofrimento apenas por ter alguma esperança em seu valor redentivo. Em uma sociedade tão diferente quanto a nossa, saturada de conforto, que propósito poderíamos dar à grande intrusa, a dor?Qual é o propósito de uma doença como a Aids? David e eu explora­mos exatamente este ponto. Naquela época, um forte debate público estava sendo travado: sua própria igreja havia virado as costas para crianças com Aids que freqüentavam a Escola Dominical. David admi­tia abertamente que sua doença era resultado das escolhas compor­tamentais que fizera e das quais se arrependera, mas o que dizer das crianças que nasceram com Aids, ou dos hemofílicos que a contraíram em transfusões de sangue? Que escolha eles tiveram?

Nos dias de John Donne, parecia que a terrível ira do Senhor estava sendo derramada sobre o planeta inteiro. Dois cometas brilhantes apa­receram no céu na mesma noite - sinal claro, para alguns, de que a mão de Deus estava por trás da peste. Profetas vagueavam pelas ruas, al­guns ecoando as palavras de Jonas: "Mais 40 dias, e Londres será destruída!" Temos nossa versão moderna desses profetas, rápidos em interpretar pragas e desastres como sinais específicos do julgamento de Deus. O passado deveria nos ensinar uma lição de cautela: os teólogos da Europa debateram por quatro séculos qual era a mensagem de Deus na Grande Peste, mas, no fim, um pouco de veneno de rato silenciou todas as suas especulações.

O que dizer da progéria, uma trágica anormalidade que acelera o processo de envelhecimento e faz com que uma criança de seis anos de idade se pareça com uma pessoa de 80? Ou qual é o propósito da pa­ralisia cerebral, ou da fibrose cística? Qual é o propósito de um terre­moto na Índia ou de um maremoto que mata 100 mil pessoas em Bangladesh? Por acaso, Deus retém as chuvas na África como sinal de seu desgosto?

A maioria de nós só consegue enxergar um significado negativo para o sofrimento, como uma interrupção da saúde, uma indesejável inter­rupção em nossa luta pela vida, pela liberdade e pela felicidade. Qual­quer loja de cartões transmite esta mensagem de maneira muito clara. Para as pessoas que sofrem, a única coisa que conseguimos dizer é: "Estimo sua melhora". Como me disse uma mulher portadora de cân­cer terminal: "Nenhum desses cartões se aplica às pessoas internadas aqui. Nenhum de nós vai melhorar. Mais cedo ou mais tarde, todos nós vamos morrer. Para o resto do mundo, isto nos torna inválidos. Pense no significado desta palavra: não válidos".

Qual é o propósito de um câncer terminal?

John Donne, pensando nele mesmo como um doente terminal, fez tais perguntas, e seu livro sugere a possibilidade de uma resposta. As primeiras pistas vieram a ele por intermédio da janela aberta de seu quarto, de onde ouvia os sinos da igreja badalando uma lúgubre declara­ção de morte. Por um instante, Donne ficava pensando se seus amigos, cientes de que sua condição era mais grave do que aquilo que eles di­ziam, haviam ordenado que os sinos tocassem por sua própria morte. Ele logo percebeu que os sinos estavam marcando a morte de mais uma vítima da peste.

Pouco tempo depois, os sons dos serviços funerários passaram a fazer parte dos sons das ruas. Donne sussurrava um tênue acompa­nhamento para o canto congregacional dos salmos, e depois escreveu a Meditação XVII sobre o significado dos sinos da igreja - o trecho mais famoso das Meditações e uma das mais celebradas passagens da literatura inglesa ("Nenhum homem é uma ilha"). Numa linguagem forte e pictó­rica, esta meditação define a perda que sentimos diante de cada morte: "Se um punhado de terra é levado pelo mar, a Europa fica menor (...) A morte de qualquer homem rebaixa-me, pois estou envolvido com a raça humana, e, portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti". Choramos a morte de uma pessoa qualquer porque nós mesmos somos diminuídos. No mesmo evento, sentimos uma pro­funda união com outros, e também nos colocamos em seu lugar.

O sofrimento tem a singular capacidade de romper as defesas nor­mais e interromper a rotina cotidiana, assim como de nos lembrar de nossa mortalidade. Por algum tempo, acompanhei um amigo a um gru­po de apoio a pacientes de doenças crônicas que se reunia mensalmente na sala de espera de um hospital. Não posso dizer que gostava daquelas reuniões, mas, todas as vezes que saía dali e ia para casa, tinha a sensa­ção de que aquela noite fora uma das mais significativas de minha vida. Deixávamos as trivialidades de lado e encarávamos as questões mais urgentes de cada pessoa naquela sala - morte e vida -, e qual a melhor maneira de aproveitar o tempo que restava.

Como Donne disse: "Careço de teu trovão, ó meu Deus; tua música não mais te suprirá". O badalar dos sinos era, para ele, um eco antecipa­do de sua própria morte. Para o homem morto, era um período, o fim da vida; para Donne, apegando-se ainda à vida, era um penetrante ponto de interrogação. Iria ele realmente encontrar-se com Deus?Quando as pessoas perguntaram o que Jesus achava de uma tragé­dia daquele tempo, sua resposta foi:



Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem padecido estas coisas? Não eram, eu vo-lo afirmo; se, porém, não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis. Ou cuidais que aqueles dezoito sobre os quais desabou a torre de Siloé e os matou eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? Não eram, eu vo-lo afirmo; mas, se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis.

(Lc 13:2-5)

Jesus reforçou aqueles comentários com uma parábola sobre a miseri­córdia de Deus. Ele parece deduzir que nós, espectadores de uma ca­tástrofe, temos tanto a aprender com o evento quanto aqueles que foram vítimas. O que uma peste ou um desastre contemporâneo me ensina? Humildade, de um lado, e gratidão pela vida da qual ainda desfruto. Além disso, compaixão, aquela que Jesus demonstrava a todo aquele que sofria e pranteava. Por fim, a catástrofe reúne a vítima e o espectador num chamado ao arrependimento, relembrando abrupta­mente sobre a brevidade da vida.

O badalar daquele sino operou uma curiosa mudança no pensa­mento de Donne. Até aquele ponto, estivera pensando sobre o propósi­to da doença e quais lições deveria aprender dela. Agora, começava a contemplar o significado da saúde. O sino trazia à tona a questão sobre como ele havia passado sua vida inteira. Teria ele santificado o dom da saúde, servindo a Deus e aos outros? Teria ele visto a vida como uma preparação, um campo de treinamento para uma vida mais longa e im­portante por vir ou como um fim em si?

Conforme Donne começou a reexaminar sua vida, as surpresas vie­ram à luz. "Eu sou o homem que viu a aflição", disse Donne à congrega­ção no enterro de sua esposa. Agora parecia claro, contudo, que aqueles tempos de aflição, as circunstâncias das quais ele mais se ressentiu àquela época, eram oportunidades de crescimento espiritual. As provações haviam expurgado o pecado e desenvolvido o caráter; a pobreza lhe ensinou sobre a dependência de Deus e o limpou da ganância; o fracas­so e a desgraça pública ajudaram-no a se curar do orgulho e da ambição.

Será possível que a própria mão de Deus tenha bloqueado sua carreira - um devastador desapontamento, àquela época - com o objetivo de prepará-lo para o ministério? Um padrão definitivo emergiu: a dor po­deria ser transformada, até mesmo redimida, e o mal aparente às vezes resulta num bem verdadeiro. O sofrimento não removido pode servir como uma ferramenta de Deus.

A revisão sistemática de Donne o preparou para sua situação atual. Seria possível esta dor ser redimida? Sua doença o limitava, é claro, mas a incapacidade física certamente não inibia todo o crescimento espiri­tual. Ele tinha muito tempo disponível para a oração; o sino o lembrava de seu irmão menos afortunado e dos muitos aflitos de Londres. Ele podia aprender humildade, confiança, gratidão e fé. Donne fez uma espécie de jogo com tudo isso: ele imaginava sua alma crescendo forte, levantando-se da cama e caminhando pela sala, mesmo com seu corpo estirado na cama.

Expressando-se em apenas uma palavra, Donne percebeu que não era um "inválido". Direcionou suas energias na direção das disciplinas espirituais: oração, confissão de pecados, manutenção de um diário (que se transformou nas Meditações). Tirou de si o foco de sua mente e o dire­cionou às pessoas. Portanto, as Meditações registram uma mudança crucial nas atitudes de Donne em relação à dor. Ele começou fazendo orações para que a dor fosse removida; terminou com orações para que a dor fosse redimida, que ele fosse "catequizado pela aflição". Tal redenção poderia tomar a forma de uma cura milagrosa - ele ainda esperava por isto -, mas, mesmo que não fosse, Deus poderia tomar uma massa dis­forme e, por intermédio do fogo refinador do sofrimento, transformá-la em ouro puro.

Embora tão desobediente servo seja eu a ponto de temer a morte,

Há um Senhor misericordioso de quem não receio aproximar-me.

As duas grandes crises que se abateram sobre a vida de Donne, a crise do medo e a crise do propósito, terminam por convergir numa terceira e derradeira crise: a morte. O poeta verdadeiramente acreditava que morreria daquela doença, e esta nuvem escura paira sobre todas as páginas das Meditações. "Afino meu instrumento aqui, à porta", escre­ve ele. À porta da morte.Nós, pessoas modernas, aperfeiçoamos as técnicas para lidar com a crise - técnicas que, sem dúvida, causariam muita confusão a John Donne. A maioria de nós constrói elaboradas formas de se evitar a mor­te. As academias de ginástica são uma indústria emergente, assim como as casas que vendem artigos relacionados à nutrição e à saúde. Trata­mos da saúde física como se ela fosse uma religião, derrubando todos os lembretes objetivos que a morte nos apresenta - necrotérios, unidades de terapia intensiva, cemitérios. Vivendo num período assolado pela peste, Donne não dispunha do luxo da negação. Todas as noites, o som das carroças puxadas por cavalos ecoava pelas ruas, recolhendo os cor­pos das vítimas daquele dia. Seus nomes - mais de mil por dia, no auge da peste - apareciam em longas colunas nos jornais do dia seguinte. Ninguém podia viver como se a morte não existisse. Como outras pes­soas de seu tempo, Donne mantinha um crânio em sua escrivaninha, como um lembrete.

De outro lado, alguns funcionários da área de saúde da atualidade têm assumido uma linha diferente, recomendando a aceitação - e não a negação - como a atitude correta em relação à morte. Depois que Elisabeth Kübler-Ross rotulou a aceitação como a etapa final do processo de luto, a quantidade de grupos de auto-ajuda que visam a ajudar os pacientes terminais a chegarem a este estágio cresceu bas­tante. Não é preciso ler muito da obra de John Donne para perceber quão estranho era este conceito a ele. Algumas pessoas acusaram-no de ter uma obsessão pela morte (32 de seus 54 cânticos e sonetos con­centram-se nesse tema), mas, para Donne, a morte pairava como o grande inimigo a quem devemos resistir, não um amigo a quem damos boas-vindas como uma coisa natural do ciclo de vida. A partir da vivência que precisei presenciar semana após semana, um amigo ou uma pessoa querida se deteriorando, também aprendi que a morte é um inimigo.

As Meditações registram a grande luta de Donne contra a aceitação da morte. Apesar de seus maiores esforços, ele não conseguia realmente imaginar uma vida após a morte. Todos os prazeres que ele conhecia tão bem, os quais preenchiam seus escritos, dependiam de um corpo físico e de sua capacidade de ouvir, ver, sentir, tocar e provar.

Donne encontrou algum conforto no exemplo de Jesus, "meu mes­tre na arte da morte", pois o relato do Jardim do Getsêmani também não apresenta uma cena de calma aceitação. Ali, Jesus suou gotas de sangue e implorou ao Pai uma saída. Ele também sentiu a solidão e o medo que agora assombravam o leito de Donne. E por que ele escolheu a morte? O propósito da morte de Cristo, pelo menos, trouxe algum conforto a Donne: ele morreu para promover uma cura.

A mudança na vida de Donne aconteceu quando ele começou a ver a morte não como uma doença que permanentemente assola a vida, mas como a única cura para a doença da vida, o estágio final da jornada que nos leva a Deus. O mal infecta a vida de todo este planeta caído, e somente por intermédio da morte - a morte de Cristo e a nossa própria - podemos atingir um estado de cura. Donne explorou este pensamento na obra Um hino a Deus, o Pai, o único material conhecido que sobrevi­veu de seu período de doença além das Meditações.



Tu perdoas o pecado inicial de onde eu vim,

Pecado que foi meu e dos meus ancestrais?

Tu perdoas o pecado que é parte de mim,

E, enquanto vou pecando, eu deploro ainda mais?

Ao chegares ao fim, tu não terás o fim,

Pois inda tenho mais.

Tu perdoas o pecado em que eu intervim

E fiz outros pecar - meus pecados portais?

Tu perdoas o pecado evitado por mim

Por um ano ou por dois, mas curtido bem mais?

Ao chegares ao fim, tu não terás o fim,

Pois inda tenho mais.

Eu pequei por temer que ao chegar ao meu fim

Na última remada eu vá morrer no cais.

Mas jura-me por ti que teu Filho então sim

Brilhará como agora e sempre muito mais.

E ao chegares ao fim, então terás o fim,

Pois já não temo mais.

O jogo de palavras no original ("então terás o fim" foi a tradução esco­lhida para "thou hast done") trabalha com o nome do autor (Donne),e revela, pelo menos, um tipo de aceitação: não a da morte como um fim natural, mas uma disposição de confiar a Deus o futuro, independen­temente das circunstâncias. "Aquela voz, a que diz que devo morrer agora, não é a voz de um juiz que fala de condenação, mas de um médico que apresenta a saúde."

Para surpresa de todos, o fato é que John Donne não morreu por causa daquele mal, flagelo, em 1623. Sua doença, mal diagnosticada, era, na verdade, uma espécie de febre como o tifo, e não peste bubôni­ca. Ele sobreviveu aos bizarros tratamentos médicos a que foi subme­tido, recuperou-se e viveu mais oito anos como deão da Catedral de São Paulo.

Os sermões e os escritos posteriores de Donne com freqüência vol­tavam aos temas abordados em Meditações, especialmente o tema da morte, sem, contudo, expressar o mesmo tipo de turbulência interior. Em sua crise, Donne conseguiu alcançar uma "santa indiferença" a respeito da morte, não por meio de um desconto em relação a ela, mas por uma confiança renovada na ressurreição. A morte, que parece interpor-se à vida, na verdade abre uma porta para uma nova vida. "Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?" (1 Co 15:55).

Se, de alguma maneira, Donne pudesse viajar no tempo até nossos dias, certamente ficaria horrorizado com a pouca atenção que damos à vida após a morte. Hoje em dia, as pessoas ficam envergonhadas de falar sobre esta crença. Tememos o céu como nossos ancestrais temiam o inferno. Esta idéia parece algo singular, uma fuga covarde dos proble­mas deste mundo. Que inversão de valores, penso eu, nos levou a elogiar um sentimento de aniquilação como algo digno e a desprezar tão covar­demente a esperança por uma eternidade tão bem-aventurada? Os céus guardam a esperança da promessa de um tempo muito mais longo e mais substancioso, de plenitude, justiça, prazer e paz, do que este que temos aqui na Terra. Se não acreditamos nisto, então, como argüiu o apóstolo Paulo em 1 Coríntios 15, há pouca razão para sermos cristãos em primeiro lugar. Se realmente cremos, isto deveria mudar nossas vi­das, assim como mudou a de John Donne.

Deus conhece todo o peso, o fardo e a aflição deste mundo, disse Donne em um de seus sermões: "E se não houvesse um peso da glória futura para se contrapor, todos nós afundaríamos no meio do nada".



Morte, não te orgulhes, ainda que alguns a tenham chamado

Poderosa e terrível, pois tu não o és...

...Um pequeno sono apenas e acordamos eternamente,

e não haverá mais morte, pois tu, ó morte, morrerás.

Sete anos depois da doença que inspirou Meditações, Donne ficou en­fermo mais uma vez, o que viria testar seriamente tudo aquilo que ele havia aprendido sobre a dor. Ele passou a maior parte do inverno de 1630 fora do púlpito, confinado numa casa em Essex. Mas quando a época da Páscoa se aproximava no calendário eclesiástico, Donne in­sistiu em viajar para Londres para proferir um sermão na primeira sexta-feira da quaresma. Os amigos que o receberam ali viram um ho­mem enfraquecido, aparentando muito mais idade do que 58 anos. Uma vida inteira de sofrimento havia cobrado seu preço. Apesar da insistên­cia dos amigos em cancelar o sermão já agendado, ele se recusou.

O primeiro biógrafo de Donne, seu contemporâneo Izaac Walton, descreve a cena no Palácio Whitehall no dia do último sermão de Donne:

Sem dúvida, muitas pessoas faziam secretamente a pergunta de Ezequiel: "Poderão reviver estes ossos?" Ou será esta alma capaz de articular as palavras? (...) Certamente que não. Mesmo assim, depois de pequenas pausas em sua zelosa oração, seu forte desejo permitiu que seu corpo débil derramasse aquilo que se lembrava das meditações preconcebidas, as quais versavam sobre o tema da morte. O texto foi: "Com Deus, o Senhor, está a fuga da morte". Muitos dos que viram suas lágrimas e ouviram sua voz débil e tênue confessaram que o texto parecia ter caráter profético, e que o Dr. Donne havia pregado seu próprio sermão fúnebre.

(Extraído de The Life of John Donne)

Donne já havia expressado o desejo de morrer no púlpito, e foi quase isto que aconteceu. O impacto daquele sermão, "O duelo da morte", um dos melhores de Donne, demorou a desaparecer das mentes daqueles que o ouviram. Para John Donne, a morte era um inimigo contra o qual ele lutaria enquanto existissem forças em seus ossos. Ele lutou com a fé confiante de que o inimigo seria finalmente derrotado.

Levado para casa, Donne passou as cinco semanas que se segui­ram preparando-se para morrer. Ditou cartas a amigos, compôs alguns poemas e escreveu seu próprio epitáfio. Alguns amigos passaram por ali, e ele se lembrava deles: "Não posso alegar inocência em relação à vida, especialmente nos anos de minha juventude", disse ele a um amigo, "mas serei julgado por um Deus misericordioso, que não está ansioso para ver o que fiz de errado. Embora eu não tenha nada a apresentar de mim mesmo senão pecado e miséria, sei que ele olha para mim não como eu mesmo sou, mas como sou em meu Salvador (...) Fico, portanto, repleto de indescritível alegria e morrerei em paz".

Izaac Walton contrastou a imagem de John Donne em seus últi­mos dias - com o corpo alquebrado, mas com paz de espírito - com um retrato de Donne aos 18 anos, como um vistoso cavaleiro, paramentado com roupas finas, brandindo uma espada. Sua inscrição, conforme co­mentou Walton, provou-se ironicamente profética em relação à vida difícil de Donne: "Quanto serei mudado antes que mude!"

Um escultor foi à sua casa naquelas últimas semanas, por ordem da igreja, visando a construção de um monumento. Donne posou para ele na postura da morte, com uma fina mortalha em volta de seu corpo, suas mãos dobradas sobre seu estômago, com olhos fechados. A efígie foi esculpida numa única peça de mármore branco, e, depois da morte de Donne, artesãos montaram-na sobre sua urna funerária na Catedral de São Paulo.

O monumento a John Donne ainda permanece ali. Eu o vi. Na verdade, foi o único objeto da catedral que sobreviveu ao grande in­cêndio de 1666, e que pode ser visto na galeria reconstruída por Christopher Wren, atrás dos assentos do coro, um monumento cor de marfim colocado em um nicho numa antiga pedra escura. Os guias turísticos apontam para uma pequena marca de fogo na urna, datada da época do incêndio. A face de Donne apresenta uma expressão de serenidade, como se tivesse alcançado, na morte, a paz que tanto pro­curara na vida.



Nosso último dia é nosso primeiro dia; nosso sábado é nosso domingo; nossa véspera é nosso dia santo; nosso pôr-do-sol é nossa manhã; o dia de nossa morte é o primeiro dia de nossa vida eterna. O dia seguinte a isso (...) é aquele em que me mostrarei a mim mesmo. Aqui sempre me vejo envolto em disfarces; lá, então, verei a mim mesmo, mas também verei a Deus (...) Aqui tenho algumas faculdades aguçadas e outras deixadas nas

trevas; minha compreensão às vezes é clareada, ao mesmo tempo em que minha vontade é pervertida. Ali serei apenas luz, sem sombras sobre mim; minha alma envolta na luz da alegria e meu corpo, na luz da glória.

(Extraído de Sermons)

Outro monumento está presente nos escritos de Donne. Li muitas pa­lavras sobre a questão da dor, e eu mesmo escrevi algumas. Contudo, em nenhum outro lugar encontrei meditações tão concentradas e sá­bias sobre a condição humana como no diário que Donne manteve durante as semanas de sua doença, enquanto se preparava para mor­rer. Tendo se proposto a lutar com Deus, ele se viu nos braços de um Médico misericordioso, que com ternura o guiou através da crise de modo que pudesse emergir para dar conforto e esperança a outros.

No enterro de David, um corretor da bolsa de Chicago veio a mim e perguntou se poderia ver o livro que eu havia citado. Ele folheou aquela minha cópia, já tão usada, e disse: "Não tinha idéia de que existissem cristãos como este".

JOHN DONNE PARA INICIANTES


Meditações (Devotions) permanece nos catálogos das editoras por mais de quatro séculos, o que é uma indicação de sua posição como um clássico. Usuários da internet poderão obter o texto completo em www.ccel.org/d/donne/devotions . Os poemas e textos de Donne podem ser adquiridos em acervos de boas livrarias norte-americanas. Infelizmente, a coleção de seus sermões, assim como as mais confiáveis biografias de Donne, saíram de catálogo, e podem ser encontradas apenas em bibliotecas e sebos. A peça Wit, de Margaret Edson, ganhadora do Prêmio Pulitzer, retrata os dias finais de uma aluna de Donne morrendo de câncer no ovário. O canal de televisão HBO também produziu uma versão, estre­lada por Emma Thompson.

Não posso deixar de contar minha primeira incursão no mundo dos livros. Em 1973, quando eu era editor da revista Campus Life, ten­tei fazer uma paráfrase de Meditações. Dei o livro a alguns amigos, mas eles acharam os textos bíblicos da versão King James um tanto difíceis. Assim como várias pessoas estavam parafraseando a Bíblia compilada naquela época, decidi que faria minha própria paráfrase sobre esta obra clássica sobre o sofrimento, um John Donne refeito, se você prefe­rir. Parafraseei seis das 23 seções e as enviei a uma editora com uma proposta. Algumas semanas depois, recebi uma carta com uma res­posta de três parágrafos. O primeiro - provavelmente, uma resposta padronizada - dizia que, embora tivessem adorado meu trabalho, in­felizmente o departamento de marketing determinara que a projeção de vendas não justificaria sua publicação. O segundo parágrafo dizia: "Por favor, faça isso parecer triste e pessoal, pois esta é uma revista importante". O terceiro parágrafo pedia que eu não me esquecesse da revista em meus futuros projetos. Li o segundo parágrafo diversas ve­zes, tentando entender o sentido daquilo, até que percebi que o editor havia ditado aquela frase à secretária para que ela elaborasse um tex­to que mostrasse tristeza, e que não fosse impessoal, mas ela escreveu as palavras do editor literalmente! Dez anos depois, mostrei a carta ao editor que a havia ditado. Acho que ele perdeu muitas noites de sono, pensando o que mais ele havia anotado nas margens de cartas que inadvertidamente foram parar em cartas para escritores.




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