Além das palavras: o discurso conservador das elites agrárias mineiras a partir do jornal de viçosa na década de 1920



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ALÉM DAS PALAVRAS:O DISCURSO CONSERVADOR DAS ELITES AGRÁRIAS MINEIRAS A PARTIR DO JORNAL DE VIÇOSA NA DÉCADA DE 1920


Daniela Corrêa e Castro de Carvalho

Universidade Federal de Viçosa




1.INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho foi verificar como as elites, através dos jornais, tentavam construir e/ou exercer um poder sobre a sociedade de seu tempo, elaborando um discurso sobre a realidade. Em particular será analisado o Jornal de Viçosa, publicado na cidade de Viçosa, Minas Gerais. A época escolhida foi a década de 20, de 1923 a 1928, período em que há arquivo de praticamente todos os exemplares publicados.

O estudo é feito partindo do pressuposto de que:

Não existe imprensa sem inserção política. A política não é a única instância de ação da imprensa. Ela desempenha igualmente funções econômicas, especialmente comerciais, quando estimula, por meio dos seus anúncios, o consumo de bens. Da mesma forma, ela tem um papel cultural na medida em que veicula e consolida hábitos, costumes, gostos. Possui ainda, um papel jurídico-institucional, como legitimadora de regras éticas e morais socialmente aceitas” (MOTTA, 2002. p.15)

Serão analisadas as matérias publicadas principalmente na primeira página e em outras, que mostrem a sociedade da época, na visão do jornal. O que é publicado conserva momentos de sua época, mas com o posicionamento defendido por quem escreve a matéria ou pelo dono do jornal, na intenção de manter o poder das classes ou valores que representa.

A análise dos dados levantados é fundamentada nos conceitos de Michel Foucault sobre discurso, verdade e poder, de tal forma que o discurso publicado no jornal pretende mostrar a verdade como se essa fosse a única e correta, para assim manter o poder da elite, da qual o proprietário do jornal faz parte.

Para Foucault (2001), a compreensão de poder não é como um fenômeno de dominação maciço e homogêneo de um indivíduo, grupo ou classe sobre outros, mas como algo que circula e só funciona em cadeia, exercendo-se em rede. Não é algo unitário e global, e sim formas heterogêneas, em constante transformação, que não é uma coisa em si, mas sim um conjunto de práticas sociais que pressupõe relações em diversos pontos e lugares da rede social. No caso da pesquisa, o poder se exerce em uma rede formada pelo jornal, como um meio de comunicação da elite e seu público.

O poder se exerce independente de sua vinculação com o Estado, e sua dinâmica está ancorada em “efeitos de verdade” que ele procura produzir no interior dos discursos. A verdade é um conjunto de regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder, sendo um combate em torno do estatuto da verdade e do papel econômico-político que ela desempenha. Esse efeito de verdade é procurado em todas as matérias publicadas pelo jornal, através de um discurso que convença o leitor de que aquilo é a verdade. Para Foucault (In: FAIRCLOUGH, 2001, p.74) a “verdade deve ser compreendida como um sistema de procedimentos ordenados para a produção, regulamentação, distribuição, circulação e operação de enunciados”.

O poder deve ser procurado em todas as relações vivenciadas pelos indivíduos nos diversos contextos sociais, como a publicação ou leitura de um jornal, pois o poder não pertence a um indivíduo, ele está implícito nas práticas sociais cotidianas. É exercido de acordo com o lugar onde há um feixe de relações e de acordo com o papel que cada um ocupa neste lugar.

Mas para o poder ser tolerável, ele deve mascarar a maior parte de si. “Seu sucesso é proporcional à sua habilidade para esconder seus próprios mecanismos” (FOUCAULT in: FAIRCLOUGH, 2001, p. 75) e também não funciona se for através de uma dominação forçada. Com isso, o jornal busca ser bem sucedido no seu discurso tentando convencer o leitor.

A princípio o trabalho buscava resgatar o que o Jornal de Viçosa publicava sobre o presidente da República, Arthur Bernardes, mas durante o processo de levantamento de fontes, constatou-se que o jornal não fazia alusão ao presidente a não ser em datas comemorativas, como o aniversário de Arthur Bernardes e em outros momentos para defende-lo, mas não houve um acompanhamento dos atos políticos.

Com a falta de material necessário para uma pesquisa aprofundada, optou-se por verificar como a época em que o jornal foi publicado era abordada nas suas páginas, principalmente porque foi uma década conturbada na história brasileira e que teve como uma das personagens principais um político viçosense, então presidente da República. Apesar de não haver material suficiente para abordar somente Bernardes, o seu envolvimento com a cidade e sua participação no cenário nacional possibilitou dedicar-se um capítulo para ele e sua relação com a imprensa.

O proprietário do jornal analisado no trabalho era Sylvio Loureiro, major e de família tradicionalmente envolvida na política. Seu tio era o Coronel Carlos Vaz de Mello, senador e que exercia grande influência na política local. Além disso, o irmão de Sylvio, Oscar Loureiro, era deputado federal, sendo que todos eles defendiam Arthur Bernardes.

A realização desse projeto foi importante tanto para um resgate dos jornais do início do século XX, utilizando-os como fonte histórica, quanto para a conservação da memória de uma época através de notícias impressas no jornal. É um aprofundamento de uma pesquisa que realizei sobre a história da imprensa de Viçosa, cidade que sempre teve um jornalismo atuante por sua participação política e importância na cafeicultura nacional, fazendo parte dos maiores produtores de café no inicio do século XX.

Outra constatação importante que se pode fazer é o descaso com fontes históricas importantes para pesquisas, como os jornais. Os exemplares analisados estão deteriorados pelo tempo, páginas foram destruídas pelas traças, e não há na cidade um local para a conservação adequada destes exemplares. Isso é outra justificativa para a realização da pesquisa, pois conserva em parte a história relatada pelos jornais.

Além disso, nenhum jornal de Viçosa foi objeto de pesquisas até hoje. Os jornais eram o meio de comunicação da época, quando houve uma grande proliferação na década de 20. Nesse período há a expansão urbana, com o crescimento das cidades, principalmente de importantes capitais como Rio de Janeiro e São Paulo e o jornal era a principal fonte de informação, pois o rádio estava em desenvolvimento e a televisão ainda não era uma realidade.

Com o estudo de um jornal da década de 20 busca-se a interdisciplinaridade entre a história e o jornalismo, sendo que temos, segundo Alice Koshujama (2000), na relação entre os campos da história e da comunicação, várias perspectivas interdisciplinares de estudos. Além de ser necessário uma interface entre o jornalismo e o poder, que marca essencialmente as sociedades modernas. Nas últimas décadas o campo da pesquisa histórica tem passado por remodelações que apontam para crescente pluralidade de abordagens e temas. Neste movimento a imprensa tem sido tomada como fonte e também como objeto de estudos. Como fonte documental, integra-se a outros materiais que dão suporte a pesquisas e reflexões em áreas diferentes; como objeto, transforma-se ela mesma no foco dos trabalhos. (MOREL, BARROS, 2003).



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