“Algumas considerações sobre as concepções de natureza e a prática científica de K



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“Algumas considerações sobre as concepções de natureza e a prática científica de K. F. Ph. von Martius”.

Kaori Kodama*

Este artigo busca tratar de algumas questões concernentes ao tema da minha dissertação de mestrado sobre o botânico Martius e suas relações com o IHGB. O recorte para o presente trabalho procura perceber as possíveis filiações científicas e a presença de certos valores em von Martius, estabelecendo, de certa forma, um “lugar” para a sua reflexão acerca da natureza, a partir de seu papel como botânico e naturalista-viajante.

Ainda que sejam dados relativamente conhecidos sobre Martius, recordo aqui que este cientista, escritor de obras não só de botânica como de ensaios etnográficos, foi um viajante naturalista que juntamente com o zoólogo Spix, participou da expedição científica bávara no Brasil entre os anos de 1817-1820, que acompanhou a vinda da princesa Leopoldina. Martius entretanto, ficou mais conhecido do que Spix, após a publicação dos relatos de viagens, pois este último morreu alguns anos após retornar, enquanto que o primeiro pôde durante sua vida bastante longeva dedicar-se aos estudos sobre o Brasil, divulgando suas obras sobre a flora e etnografia brasileira no meios acadêmicos.

O período de formação científica do botânico bávaro dá-se durante as primeiras décadas do século XIX, período de extrema fertilidade no meio científico europeu. É este aspecto que nos chama primeiramente a atenção, e que nos dá ensejo para refletir sobre as filiações, concepções e práticas científicas do naturalista bávaro. Diversos autores que têm escrito sobre a história da ciência dos séculos XVIII e XIX vêem mudanças nos quadros da história natural ocorridas entre o século XVIII e o século seguinte. Tais mudanças, entretanto, são observadas por interpretações distintas em cada autor, a partir dos mais variados aspectos.

Pode-se afirmar de modo mais geral, como o fez uma autora, que a mudança se afirma pelo direcionamento da expansão do saber através dos sistemas de classificação de espécies de plantas e animais para a atenção cada vez mais voltada para os funcionamentos internos e os sistemas fisiológicos.1 Ou ainda, uma atenção voltada para o organismo e ao mesmo tempo, uma inflexão que outros autores concluem como sendo o deslocamento da História Natural para a história da natureza, em que se verifica uma inserção da esteira temporal nos processos que se referem às criações naturais, que em particular tornar-se-ia contundente com Darwin.

O período entre a segunda metade do século XVIII e a primeira do XIX é tido também como o momento de maior especialização e de profissionalização entre os praticantes da História Natural. Como veremos, todos esses aspectos tornam-se cruciais para a compreensão do papel atribuído aos homens de ciência de inícios do século XIX, tratando-se aqui particularmente de Martius. Tal papel cobre também as distinções que se pode fazer entre os homens de saber da História Natural: a do viajante-naturalista e do naturalista de gabinete.

Um elemento-chave para considerarmos esta distinção parte de uma citação por nós tomada de Dorinda Outram de Cuvier, na qual este comenta as diferenças do trabalho de um naturalista de campo (naturaliste-voyageur) e dos naturalistas sedentários, de gabinete:

O naturalista de campo perpassa, com mais ou menos vagar por um grande número de áreas distintas, e é surpreendido sucessivamente por um grande número de objetos e de formas vivas interessantes. Ele os observa em seu meio natural, em relação com o seu ambiente em pleno vigor de sua vida e atividade. Mas ele só pode dedicar um instante de atenção a cada uma dessas formas e objetos. O naturalista sedentário, é verdade, só conhece os seres vivos de terras distantes através dos relatos, sujeitos a erros em maior ou menor grau, com amostras sujeitas a danificações mariores ou menores. Ele não pode ver o grande cenário da natureza.

Não obstante:



Se o naturalista sedentário não vê a natureza em ação, ele pode entretanto pesquisar todos os seus produtos expostos à sua frente. Pode comparar os dados uns com os outros, tantas vezes quanto for necessário para obter conclusões confiáveis. Ele escolhe e define seus próprios problemas; ele pode examiná-los em seu lazer. Ele ainda pode trazer os fatos relevantes de qualquer lugar que sinta necessidade.

Enquanto isso, o viajante pode seguir apenas uma única rota; é somente no gabinete que se pode vagar verdadeiramente pelo universo, e para isso, é requisitado um tipo de coragem diferente, coragem que vem de uma ilimitada devoção para com a verdade, coragem que não permite que seu possessor deixe o objeto até que, através da observação, e através de um vasto conhecimento e pensamento coerente, ele o tenha iluminado com cada raio de luz a seu alcance, em um dado estado do conhecimento.2

Esta distinção exposta por Cuvier é essencial para entendermos o viajante-naturalista Martius e também o botânico Martius, cujo estudo de gabinete seria por ele exercido enquanto foi, até se aposentar, diretor do Jardim Botânico de Munique. São tipos diferentes de questões, métodos e olhares sobre a natureza que são apresentados e em Martius sobrepostos. Cuvier, ele próprio que foi um naturalista de gabinete, deixa claro no texto mencionado não só os aspectos que separam uma e outra atividade, como também sua posição e sua concepção frente ao estudo dos elementos da natureza. Um dos maiores zoólogos e anatomistas de seu tempo, Cuvier comunica aqui sua dileção pelo trabalho daquele tipo de pesquisador que pode olhar distanciadamente o objeto a ser investigado. São partes de seu método a dissecação, a classificação e atenção aos órgãos e suas funções nos seres vivos.

Se o trabalho de gabinete exerce o distanciamento como um modo de investigação, o trabalho de campo necessita da imersão absoluta nos elementos da natureza. É preciso a observação do todo, ou, pela perspectiva de Goethe, intuir a natureza. Este modo de investigação se estabelece com maior acuidade principalmente a partir de Humboldt e de sua viagem pela América hispânica. A visão humboldtiana seria uma referência clara na viagem empreendida por Spix e por Martius. Embora esta inspiração não fosse uma exceção, uma vez que grande número de viajantes de início do século XIX tomaria Humboldt como figura paradigmática, é preciso destacar a presença de uma visão de natureza, tanto de Spix quanto de Martius, formada nas academias alemães. Desta forma, Martius valorizaria o saber do viajante, um saber do todo, que ao mesmo tempo que repercurtida pelo seu ambiente intelectual alemão, se afastaria conformemente da ciência detalhista de Cuvier.

Clara está, portanto, a presença da concepção que vem do ambiente germânico em que Martius foi formado, como podemos observar em seu trabalho científco de maior envergadura, a Flora brasiliensis, considerada até hoje como a maior obra sobre a flora do Brasil. Lá está presente a inspiração das Idéias sobre a geografia das plantas de Humboldt. Já em Munique, muito longe das matas brasileiras, Martius trabalharia sobre sua flora, como que pertencendo aos quadros que visitou. Como fizera Humboldt, ao percorrer as regiões mais remotas da América hispânica, Martius valorizaria a experiência estética presente no ato de conhecer a natureza local, convidando o ”leitor benévolo” a percorrer pelos mesmos caminhos do viajante, através das gravuras de Thomas Ender, que acompanhou parte da expedição, sem que ele precisasse se afligir “com o calor insuportável (…), com as freqüentes ferroadas dos mosquitos ou com a ponta aguçada dos espinhos”3. O conhecimento através da sensibilidade do todo harmônico da natureza é assim condição de fundamento em sua obra.

Nestas páginas da Flora, Martius destacaria a região como elemento de onde se parte o conhecimento da vegetação. O primeiro volume da Flora brasiliensis começa introduzindo as diversas regiões sobre as quais se circunscrevem as variadas vegetações, através de seus “quadros fisionômicos”..4

Seguindo exatamente as idéias presentes no Idéias sobre uma geografia das plantas de Humboldt, o texto de Martius destaca a necessidade de se compreender em primeiro plano as plantas em seu contexto de origem, em relação com outras plantas e o solo, com os seres vivos das quais elas são cercadas. Desta maneira, mais do que a classificação e descrição das plantas, ao modo de Lineu, o conhecimento delas teria de partir do fenômeno da vegetação, no pulsar vivo do quadro, no “teatro da natureza”, como se refere Martius, que pode observar o viajante. Ao invés do conhecimento das plantas realizado fora de seu ambiente, como no gabinete de Cuvier, Martius valorizaria a apreciação das plantas in loco. A atenção para com os elementos da natureza na plena pulsação da vida representa igualmente a importância atribuída por Martius pelo conhecimento dos objetos em vida, em contraste com o estudo pela dissecação, e a partir de materiais mortos. Esta discussão marcaria também uma posição frente aos métodos de estudo.

Uma afinidade que podemos traçar seria com Goethe, que através do estudo sobre a metamorfose das plantas traria para o seio dos debates sua visão sobre a morfologia das plantas que se afastaria da ciência de Cuvier, inclinado sobre a classificação das espécies a partir da análise das funções de seus órgãos. Segundo Gusdorf, esta visão de Goethe teria parte de seus fundamentos na Naturphilosophie alemã; sua preocupação com uma forma originária das plantas, a idéia de uma Urpflanze, que estaria presente em seus estudos morfológicos, não teria equivalentes no mundo francês, do qual Cuvier seria um representante. Goehte daria em seus estudos morfológicos relevância ao conhecimento dos elementos da natureza enquanto vivos, criticando os métodos da História Natural baseados no conhecimento dos seres vivos através da dissecação, como eram feitos a maior parte dos estudos de gabinete. Seu olhar estaria voltado para a transformação, recusando a fixação estática dos seres vivos para o conhecimento destes. O sentido de ação retirado da idéia de “teatro da natureza” com a qual o viajante se depara parece assim bastante próximo do ideal de conhecimento da natureza goetheana. Tanto esta idéia como a fitogeografia humboldtiana concorreriam para o saber de Martius formado principalmente enquanto viajante. Estes aspectos não excluem, todavia, a classificação das milhares de espécies de plantas encontradas por Martius e outros tantos colaboradores. Esta parte da pesquisa, incluída nos volumes seguintes da Flora, atesta em contrapartida a especialização do trabalho do botânico, marcando seu “lugar” entre o viajante-naturalista e o naturalista de gabinete.

A especificidade do viajante-naturalista em relação ao pesquisador de gabinete pode ser retirada dos objetivos da viagem que os autores relatam no primeiro livro de Viagem pelo Brasil. No começo do relato, algumas das incumbências dadas pela Real Academia de Ciências de Munique são mencionadas. A Academia que encarrega as obrigações dos naturalistas estabelece que estes deveriam tratar “de problemas científicos, tanto dentro de nossas especialidades principais como em tudo aquilo que estivesse ao alcance das nossas observações e pesquisas”5. Mesmo que os dois assuntos principais fossem a zoologia e a botânica, as áreas respecitvas de especialização de Spix e de Martius—dando também um papel destacado a dois campos de saber bastante hegemônicos dentro das Academias européias—estes deveriam ser dotados de um saber abrangente.

Este saber abrangente, de uma maneira geral, era sempre citado entre as observações e recomendações das instruções de viagens, escritos correntes a partir da metade do século XVIII. O próprio capítulo introdutório de Viagem pelo Brasil parece refletir certas diretrizes traçadas por essas instruções.6 Prendemos nossa atenção sobre este aspecto. As instruções trazem elementos essenciais para perscrutarmos sobre os valores e as diretrizes que orientavam a tarefa do viajante-naturalista. As instruções de viagem, textos que se tornariam um gênero literário a partir da segunda metade do século XVIII, tratavam-se de escritos para servir e atender a uma coletividade—seja o público leitor ou o meio científico—, que se beneficiaria das experiências de viagem.7 Atendiam, por esta forma de saber, a valorização de uma cultura universal, voltada também para um caráter filantrópico. A filantropia, que se tornaria cara ao século das Luzes, constituía-se em um dos valores centrais deste gênero de escritos, podendo aí ser incluídas as viagens científicas.

Não se deve esquecer contudo, que ao lado do saber do viajante, haveria etapas subseqüentes cuja especialização se faria necessária, o que traz à baila ainda fins mais direcionados da viagem. Os naturalistas deveriam remeter à Academia pesquisas que fossem concernentes às mais diversas áreas: a mineralogia, a geologia, a física, a química, a filologia, a história. Os viajantes deveriam ainda “completar, quanto possível, com remessas de exemplares dos produtos naturais de todos os reinos, as coleções da Academia, como melhor prova das observações feitas.”8 Ao lado da incursão nos quadros da natureza, a coleção, catalogação e descoberta de novas espécies que enriquecessem os fundos da Academia fazia parte dos objetivos da expedição. A coleção dos elementos da natureza desconhecidos aos europeus representa uma prática de conhecimento do mundo natural, a partir da disposição dos elementos em um continuum. A continuidade dos elementos naturais estaria contida na frase famosa de Lineu de que a natureza não dá saltos. Além da descoberta de novas espécies, a viagem de Spix e Martius deveria atentar para “as matérias vegetais, cuja utilidade para as artes e indústrias se comprovasse”9. O aspecto utilitário, por fim, não estaria ausente dos fins da expedição.

Mas é também no decurso das mudanças no campo da história natural que se pode notar, nas diretrizes da expedição de Spix e Martius, a inclusão do estudo sobre a história da terra, as sucessivas mudanças geológicas, preocupações que estavam presentes em Humboldt. Este ponto é importante para que seja notada a atenção voltada para a temporalização que se insere nos estudos sobre a natureza neste período. E neste sentido, concorriam juntamente com a observação das plantas e animais locais, a “história do solo e do cultivo”, “a observação de vestígios encontrados de vegetação anterior, agora desaparecida”, para a obtenção de conceitos geológicos. A história da terra e a história dos seres vivos concorre para o campo das investigações lado a lado com a antiga descrição e catalogação dos elementos da natureza. Percebemos que na viagem de Martius ambos os aspectos estão presentes.

Se é a partir das formas diferenciadas de trabalho do naturalista que podemos entender um “lugar” do botânico Martius, as reflexões sobre a natureza que podemos alhures destacar devem ser assim observadas nesta inserção. Pelas palavras de Cuvier, percebemos a distinção nítida entre o trabalho de campo e o trabalho no gabinete; marca-se com isso uma especialização maior do pesquisador de gabinete. O viajante inclina-se sobre uma série de deveres e de técnicas de observação, memorização, anotação, que devem englobar muito mais do que o campo de sua especialidade. Ele deveria ser acima de tudo um homem de vasta cultura, capaz de falar a língua local, dominar a arte do desenho, conhecer as ciências, como aconselham as instruções de viagens iluministas.

O viajante ainda era visto como um verdadeiro herói ao regressar à sua pátria. Desbravando lugares desconhecidos para a grande maioria dos seres viventes na Europa, enfrentando os mais variados e incógnitos perigos, vindos de selvagens, animais ferozes, doenças e acidentes—e podemos ainda acrescentar, as constantes ferroadas de mosquitos, os espinhos e o calor, a que se refere Martius—, suas viagens eram tomadas como atos de bravura que deveriam tornar-se públicos. E tornada ela pública, o “leitor benévolo” poderia acompanhar seus descobrimentos, sem os eventuais riscos; o ato de Martius constituir-se-ia também em um ato filantrópico. Diferentemente do pesquisador de gabinete, cuja enunciação da produção de suas pesquisas voltava-se cada vez mais às Academias, o viajante tornava-se uma figura pública e afamada.

Cuvier dava ao trabalho do naturalista de gabinete o peso maior, e com isso, defendia seu próprio ofício. Estabelecia também através dele uma visão específica sobre a investigação dos objetos científicos—os seres da natureza já retirados e dispostos no seu gabinete. Martius valorizaria tanto o conhecimento no contexto, pela prática de seu saber, como o saber específico sobre as espécies coletadas e enviadas para Munique.



Nota-se portanto, que para considerarmos certas concepções de natureza de Martius é preciso averiguar em particular suas atividades, que incluem dois tipos de trabalho aqui mencionados, a do naturalista de gabinete—mais inclinado sobre sua área de especialização, e a do naturalista viajante— necessariamente versado nas diferentes áreas de saber, cujo olhar deveria abarcar, utilizando a expressão de Humboldt, os “quadros da natureza” como um todo. São esses aspectos que moldam o perfil de um botânico que vive um momento de inflexão nas ciências da natureza no século XIX.

* Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da Cultura da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

1 Dorinda Outram, “New spaces in natural history”, in: Jardine, Secord & Spary (eds.) Cultures of Natural History, Cambridge, 1996.

2 Apud Dorinda Outram,op. cit., pp. 259-261.

3 Martius, A Viagem de von Martius, Flora Brasiliensis - vol I, p.39.

4 É desta forma que justifica o primeiro volume da Flora: Nosso propósito é descrever as riquezas da flora brasileira, não nos prendendo ao mero aspecto sistemático de ordens, gêneros e espécies, mas apresentar ao leitor também as razões pelas quais os bariegados gêneros das plantas se propagaram pelas diversas regiões do Brasil e explicar o modo pelo qual os solos produzem uma cobertura orgânica que respira e, em razão da diversidade de lugares, espalha por toda parte diferentes formas de vida. Para realizar isto de maneira correta e mais fácil, pareceu-nos necessário não apenas descrever com palavras as principais variedades de plantas mas ainda ilustrar com desenhos as suas principais características. Assim, pois, pelo estudo os leitores serão levados a conhecer cada uma das plantas brasileiras como se estivessem lá mesmo, em meio ao teatro da própria flora. Idem, ibidem, p.23.

5 Spix e Martius, Viagem pelo Brasil, vol. 1, p.26.

6 Cf. Elisabeth Chevalier, “Une méthode universelle pour voyager avec profit par le comte Léopold Berchtold”, in: Dix-Huitième Siècle, 22(1990) e Lorelai Kury, “Les instructions de voyage dans les éxpeditions scientifiques (1750-1830)”, in: Revue d’Histoire des Sciences, 51(1), 1997, passim.

7 Lorelai Kury, ibidem, p.3.

8 Spix e Martius, op. cit., p. 26.

9 Spix e Martius, op. cit., p. 26.




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