Albert de Rochas a levitação



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A levitação
por Carl du Prel


Sendo dado um fenômeno à primeira vista inexplicável, o sábio o encarará de um modo diferente, segundo a opinião elevada que forma de si ou da natureza. Um rejeitará tudo o que não puder entrar no seu sistema e, se esbarrar com um desses fatos, além de fazer todo o possível para evitar corrigir seu sistema, tratará o fato com soberano desprezo; outro admiti-lo-á como um intruso que o importuna, mas sem ousar afastá-lo; só o verdadeiro investigador se esforçará por obter fenômenos que possam fornecer-lhe a ocasião de reformar o seu sistema. Para pôr em relevo essas diferentes disposições de espírito, eis algumas passagens de autores diversos.

A Academia de Medicina de Paris:

“Desprezemos os fatos que são raros, insólitos e maravilhosos, como a renovação dos movimentos convulsivos pela direção do dedo ou de um condutor através de uma porta, um muro...

Acreditamos não dever fixar a nossa atenção sobre casos raros, insólitos e extraordinários, que parecem contrariar todas as leis da física.” 53

Wirchow:

“Ninguém se alegra com a aparição de um novo fenômeno; pelo contrário, a sua constatação é, muitas vezes, penosa.” 54

Herschel:

“Seus olhos (os do observador) devem sempre estar abertos para não deixar escapar qualquer fenômeno que contrarie as teorias reinantes; porque todo fenômeno desse gênero marca o começo de uma nova teoria.” 55

Os casos de levitação multiplicam-se cada vez mais nestes últimos tempos; apesar disso, sua realidade não é aceita por causa dessa disposição de espírito, de todas a mais freqüente e prejudicial a qualquer progresso, e tão perfeitamente caracterizada no trecho acima citado do Relatório da Academia de Paris. Não os examinam: rejeitam-nos como impossíveis.

Entretanto, se, para se entregarem ao exame que se impõe, tomarem por ponto de partida o único verdadeiro, a gravitação, verificarão logo que a levitação, isto é, a suspensão do peso de um corpo terreno, se produzirá necessariamente no caso de se poder suprimir a Terra, ou por outra, subtrair o corpo ao seu centro de atração. Não sendo isso realizável, é preciso, para explicar a levitação, procurar ver se existe alguma força oposta à gravitação e capaz de vencê-la. A questão assim apresentada tem a sua resposta clara e evidente. A própria natureza nos oferece exemplos de forças desse gênero. O calor dilata os corpos, isto é, sob a influência do calor a coesão ou força de atração que se exerce entre os átomos é diminuída ou abolida. O exemplo do ímã é ainda mais frisante; o ímã que suporta um pedaço de ferro triunfa do peso deste. Se, entre dois poderosos ímãs, colocarmos um tubo de vidro, no qual se introduza uma bola de ferro, esta fica livremente em suspensão no tubo. O magnetismo, neste fenômeno de atração, como nos fenômenos de repulsão que ele produz, é pois um antagonista do peso.

Ora, há cem anos Mesmer descobriu uma nova força, cuja fonte se acha no organismo humano e a que ele chamou “magnetismo animal”, por causa das analogias que encontrou entre ela e o magnetismo mineral, por exemplo: nos fenômenos de atração e da ação produzida pelos passes diretos e inversos. Essas analogias permitem supor que o magnetismo animal é suscetível, por seu lado, de contrariar a ação do peso, isto é, de produzir a levitação. Entendamo-nos bem: há levitação não somente no caso em que um corpo se levanta verticalmente, em sentido contrário ao peso, mas ainda naqueles em que os movimentos se operam em um sentido qualquer, contanto que previamente a ação do peso seja vencida; não é mesmo necessário que haja movimento, como prova um fato narrado por Ginelin: a moeda que, apesar da lei de gravitação, ficou aderente à fronte de um indivíduo que sofria de dores na cabeça.56

Há cem anos, Petetin fez experiências em catalépticos. Quando ele colocava a sua mão por cima da dos cataleptizados, na distância de uma polegada, a mão destes se erguia e todo o braço seguia o movimento lento de recuo do operador.57 Foi, porém, Reichenbach quem criou a física do magnetismo e o primeiro que fez experiências seguidas.

“Encontra-se – diz ele – no estudo dos eflúvios ódicos, modos particulares de atração e repulsão, que se traduzem pela reunião e separação dos seus pólos. Se fizermos que um sensitivo estenda a sua mão esquerda horizontalmente, tendo a palma virada para baixo, e apresentarmos a esta as pontas dos dedos da mão direita, de baixo para cima, a mão estendida parece tornar-se pesada, com tendência a abaixar-se, como se fosse atraída para o solo. Se, ao contrário, apresentarmos à palma as pontas dos dedos da nossa mão esquerda, as sensações do sensitivo serão inversas: sua mão parece ficar mais leve, com uma tendência para elevar-se, como se fosse atraída para cima.

Esse fenômeno é delicado e pouco acentuado, mas suficientemente claro e se verifica em todos os sensitivos, contanto que a sua sensibilidade não seja muito fraca. Se, em vez de operar-se sobre a mão esquerda do sensitivo, operar-se sobre a direita, as sensações serão as mesmas, mas em sentido oposto...

Os membros do mesmo nome (isonômios) se repelem fracamente, os de nomes contrários (heteronômios) se atraem da mesma maneira; em um dos casos, o peso natural da mão parece aumentado, no outro parece diminuído.” 58

Reichenbach mostrou que essa atração e essa repulsão podem ser obtidas por meio de pólos ódicos inanimados; assim, os pólos dos cristais e dos ímãs produzem os mesmos efeitos que as pontas dos dedos.59 Ele empreendeu experiências análogas com outras fontes od, a luz solar, as plantas e os corpos amorfos.60 O que há de mais notável é o antagonismo que se manifestou nas experiências de Reichenbach, entre o magnetismo animal e o magnetismo mineral:

“Dei ao Sr. Leopolder, professor de mecânica em Viena, atualmente na Universidade de Lemberg, uma pequena barra imantada, que ele conservou em equilíbrio na ponta do seu indicador direito; essa barra tinha cinco polegadas de comprimento e 1/16 de polegada quadrada de seção; ela movia-se também para dentro (isto é, a sua extremidade mais próxima do meio do corpo se dirigia para este), seja sobre o dedo da mão esquerda, seja sobre o da direita. Aqui se apresenta um interesse ainda maior para a indagação que fazemos. A barra imantada operava, em toda circunstância, a uma rotação para dentro, qualquer que fosse a posição do operador em relação ao horizonte. Assentamo-lo com a face voltada para o Sul, tendo em equilíbrio, sobre o indicador direito, a barra conservada no plano do paralelo terreno, com o pólo norte do ímã dirigido para o Ocidente; nessa posição, o pólo norte negativo deve tender para o Norte, a força magnética atraindo-o necessariamente para o pólo norte terreno, desde que ela tenha uma intensidade suficiente para vencer o atrito da barra sobre o seu ponto de apoio, isto é, sobre a ponta do dedo. Produzindo-se então o fato, a força de rotação (ódica) pondo em movimento a barra pela sua preponderância sobre a resistência do atrito, seu pólo norte deveria, segundo o raciocínio supra, girar para o pólo norte da Terra.

É o que ele não faz; ao contrário, gira para o Sul, em oposição direta à atração polar natural; quanto ao seu pólo sul, ele se dirige, agitado, para o corpo do seu suporte vivo, isto é, para o pólo norte da Terra.

Portanto, o ímã estava longe de obedecer à atração magnética, vencido pela força de rotação (atração ou repulsão ódicas) e, apesar da sua natureza íntima, era violentamente constrangido a mover-se no sentido inverso da sua polarização. A força que estudávamos aí é, portanto, tão considerável, tão característica e independente, a força (ódica) de rotação naquelas circunstâncias é tão superior à força (magnética) de rotação, que não hesitamos em aceitar a luta com o magnetismo, que se lhe opõe diretamente e é vencido na luta por ela... O resultado foi idêntico em todas as orientações, e o foi ainda todas as vezes que repetimos a experiência com muitos outros sensitivos e outras barras.” 61

Portanto, houve identidade de resultados numa série de experiências muito variadas. Os sensitivos fracos não conseguiam provocar os movimentos. Mais de um tinha seus dias, e mesmo horas, em que periodicamente obtinham essas rotações.62 Eis como Reichenbach resume:

“Descobrimos uma força desconhecida que se revela nos sensitivos, mas somente neles, parecendo completamente inexistente nos que não o são... Ela cresce pela reunião de muitos sensitivos e emana mais abundante nos que são dotados de maior sensibilidade. Pode-se, por meio de obstáculos ódicos, aumentar-lhe a importância a ponto de produzir mal-estar, desfalecimentos e convulsões. Suas manifestações exteriores são enfraquecidas por tudo o que restringe a expansão do od, como, por exemplo, pela oposição de pólos heteronômios... Esses efeitos (de inibição) não são contínuos, mas compõem-se de uma sucessão de botes.” 63

Como as experiências feitas em objetos inanimados apresentam uma força mais demonstrativa para nós, compreendidos mesmo os doutores, vou passar a ensaios cuja narração me forçará a tocar no domínio do Espiritismo. Não se assuste o leitor, não lhe falarei dos Espíritos, mas de uma força emanada do médium e, portanto, de um assunto que a antropologia tem desprezado. No fenômeno das mesas girantes todos os assistentes contribuem para a produção dessa força.

Esse fenômeno, observado na câmara escura de Reichenbach, é acompanhado da produção de luz.64 A parte superior da mesa torna-se luminosa e desde então esta começa a oscilar, a deslocar-se e a elevar-se; aqui igualmente o magnetismo animal aparece como uma força motora, oposta ao peso. Examinemos de mais perto algumas das manifestações dessa força. No decurso de certa sessão, colocaram numa balança uma grande mesa de sala de jantar, pesando 121 libras… Ao simples desejo expresso, esse peso descia a 100, depois a 80 e 60 libras, ou se elevava a 130, e mesmo a 144 libras. A mudança de peso se operava no intervalo de 3 a 8 segundos.65 O Professor Boutlerow experimentou igualmente essa força, que ora se combina com o peso e ora lhe resiste. Repele a expressão “mudança de peso” por lhe parecer inexata:

“Nenhum de nós, diz ele, jamais pensou em verdadeira mudança de peso. Para nós não se tratava ali de outra coisa a não ser de uma mudança nas indicações da balança, determinada por uma força agindo em concorrência com o peso. Essa força age: ora no mesmo sentido que o peso e a ele se junta, e ora em sentido contrário; e então o marcador da balança indica uma diminuição aparente de peso.”

Quanto à origem dessa força, Boutlerow admite, com Crookes, que ela é fornecida pela matéria ponderável do corpo do médium, não havendo mais que o transporte da força vital de um corpo material para outro. Os movimentos aparentemente espontâneos dos corpos se explicariam do mesmo modo; o contato do médium com os objetos não seria sempre necessário. Eis o que diz Boutlerow a propósito de uma experiência com Home:

“Momentos depois, Home tomou uma campainha posta sobre a mesa e conservou-a a certa distância da beira desse móvel, um pouco mais baixo que o plano superior. A campainha e a mão de Home estavam bem iluminadas pela luz de uma vela. No fim de alguns segundos, Home deixou a campainha e esta se conservou livremente suspensa no ar.” 66

Boutlerow observou fatos análogos na presença de outras pessoas do seu conhecimento, que não eram médiuns de profissão.

Se agora notarmos que o peso aparente de um corpo pode achar-se modificado sem adição nem subtração de matéria, resulta, uma vez ainda, que o peso de um corpo não depende da quantidade de matéria que ele contém, mas do seu conteúdo de od e que, de conformidade com a sua polaridade, o peso aparente se acha modificado pela subtração ou adição de od. Aqui surge uma questão embaraçante, cujo exame abandono aos físicos. O modo pelo qual se comportam as caudas dos cometas pareceu impor-nos a obrigação de identificar a gravitação com a atração elétrica e a levitação com a repulsão elétrica. No movimento das mesas e outros fatos dessa espécie vemos os mesmos resultados produzirem-se pela influência do od, agindo como força motora. Ora, Reichenbach mostrou que na natureza o od e a eletricidade oferecem entre si relações estreitas, apesar da independência da sua atividade.67 Restaria saber de qual dessas duas forças dependem os fenômenos, mas hoje o problema apenas pode ser formulado. A única coisa provada é que, pela subtração ou adição de od, o peso dos corpos se acha modificado, como se a quantidade de matéria neles contida se achasse diminuída ou aumentada; que, além disso, a força que rege essas modificações deve ser polarizada, pois ela é suscetível de produzir um e outro fenômeno. Não se pode tratar aqui senão de uma modificação da polaridade ódica. Seja como for, essa força é suscetível de produzir efeitos consideráveis. Wallace diz:

“Vi, na presença do célebre médium Daniel Home, variar de 30 a 40 libras o peso de uma grande mesa, peso que previamente se havia determinado em pleno dia, para afastar qualquer causa de erro.” 68

Será bom citar também as experiências de Crookes, feitas com grande precisão, porque as modificações se produziam ante um simples desejo do operador.



1ª experiência: “Torna-se leve”. A mesa se levantou e a balança não acusou mais que um peso de meia libra, se tanto.

2ª experiência: “Torna-se pesada”. Foi preciso uma força de 20 libras para erguer a mesa por um dos seus lados, achando-se todas as mãos colocadas à beira da mesa, com os polegares visíveis.

3ª experiência: Pergunto se a força que reage é capaz de levantar a mesa bem horizontalmente, quando eu busque atraí-la por meio do cordão da balança. Desde logo a mesa deixou totalmente o solo, ficando perfeitamente horizontal, e a balança acusou uma força de 24 libras. Durante essa experiência as mãos de Home estavam colocadas sobre a mesa, ao passo que as dos assistentes se achavam à beira da mesma, como na experiência precedente.

4ª experiência: “Torna-se pesada”. Todas as mãos estão à beira da mesa; desta vez foi preciso empregar uma força de 43 libras para destacar a mesa do solo.

5ª experiência: “Torna-se pesada”. Desta vez, o Sr. B... tomou uma luz e iluminou a parte interior da mesa para certificar-se de que o aumento do peso não era produzido pelos pés dos assistentes ou por algum artifício. Durante esse tempo, examinei a balança e verifiquei que era preciso um peso de 27 libras para erguer a mesa. Home, A. R. Wallace e as duas damas tinham as mãos colocadas à beira da mesa e B... afirmou que ninguém tocava o móvel de modo que o seu peso fosse aumentado...

Perguntei então se me era permitido pesar a mesa, sem Home nela tocar. “Sim!”, foi a resposta.



1ª experiência: Prendi à mesa a balança de mola e pedi que ela se tornasse pesada; tentei então levantá-la e, para consegui-lo, foi preciso uma força de 25 libras. Durante esse tempo, Home esteve sentado em sua cadeira, recostado no espaldar, com as mãos longe da mesa e com os pés tocando os das pessoas próximas.

2ª experiência: “Torna-se pesada”. Sr. H... tomou então uma luz, clareou a parte inferior da mesa para se certificar de que ninguém a tocava, enquanto eu fazia a mesma verificação na parte superior. As mãos e os pés de Home conservavam-se na mesma posição que na experiência precedente. O indicador da balança acusou um peso de 25 libras.69

Assim, do mesmo modo que um ímã pode tornar magnético um pedaço de ferro (produzindo a chamada indução magnética), e que o corpo carregado de eletricidade pode influenciar outro, existe também no corpo humano uma força capaz de transportar-se para objetos variados. O número de corpos que podem sofrer a ação do magnetismo animal parece mesmo ser muito considerável. Slade tocou com a extremidade do dedo o espaldar de uma cadeira e ela, levantando-se a uma altura de três pés, ficou flutuando durante alguns segundos e depois caiu.70 Zöllner e Wilhelm Weber viram a agulha imantada desviar-se pelos eflúvios das mãos de Slade. Zöllner propôs tentar a imantação de uma agulha não magnética. Escolheram uma agulha de fazer ponto de malha e verificaram, por meio da bússola, que ela não estava imantada, pois atraía igualmente os dois pólos da agulha magnética. Slade colocou essa agulha sobre um prato que deixou em baixo da mesa, como fazia habitualmente com a lousa para obter a escrita direta; no fim de quatro minutos, colocou o prato com a agulha sobre a mesa e verificou que essa agulha estava imantada apenas numa das suas extremidades, mas tão poderosamente que atraía e prendia a limagem de ferro e pequenas agulhas de coser e que, por ela, se podia facilmente fazer a agulha da bússola efetuar rotações completas. O pólo obtido era o austral; ela repelia o pólo austral da bússola e atraía o boreal.71 Verificaram também que, por influência do médium, as correntes moleculares podiam ser desviadas, fenômeno sobre o qual repousa precisamente a magnetização dos corpos segundo a teoria de Weber e de Ampère. Muitas vezes notou-se que as tesouras e as agulhas de que se serviam as sonâmbulas para os seus trabalhos de costura, etc., eram magnéticas e é provavelmente à mesma influência que se deve atribuir o fato de os relógios de algibeira de certas pessoas nunca marcharem com regularidade, apesar de todos os consertos que sofram. Foi provavelmente também uma ação magnética que exerceu o profeta Eliseu, no seguinte fato contado na Bíblia: O profeta tinha ido com seus companheiros às praias do Jordão para cortar a madeira destinada à construção de uma choupana; um deles deixou cair na água o seu machado e amargamente se lamentava por essa perda. Eliseu fez que lhe indicasse o lugar onde o machado havia caído; em seguida, mergulhando na água um toro de pau, que cortou, este voltou à superfície trazendo o machado.72

Nas sessões espíritas se verifica que a força de levitação, como força motora, emana do médium 73 e também dos assistentes. De um modo geral, o médium não se distingue das outras pessoas senão pela maior facilidade de escoamento dos eflúvios ódicos que ele possui. Nessas sessões faz-se muita questão para que a cadeia formada pelas mãos não se rompa, pois do contrário haveria a interrupção do fenômeno e, portanto, sério perigo, se nesse momento se estivesse produzindo uma levitação. Assim, por exemplo, se objetos flutuarem no ar, eles cairão, desde que a cadeia se rompa; e isso bem prova que a força da levitação é tirada dos assistentes. No decurso de uma sessão às escuras, em Viena, eu ouvia – pois que não podia ver – como subia e flutuava no ar uma pesada caixa de música, que eu só podia carregar servindo-me dos meus dois braços; se tivéssemos rompido a cadeia, sem dúvida alguma ela teria caído, como sucedeu com uma guitarra em certa sessão em Auteuil, que, passeando acima do círculo, caiu sobre a cabeça de um dos assistentes, arranhando-lhe a testa, quando este, querendo segurá-la, largou a mão do seu vizinho.74 Em sessões desse gênero têm-se visto muitas vezes objetos inanimados, mesas, cadeiras, etc., aproximarem-se em linha reta do médium, e outras vezes também se afastarem dele. Quando na Mística Cristã se conta que imagens, contempladas piedosamente por certos fiéis, se aproximavam deles, talvez haja razão para crer-se na realidade do fenômeno; aí os contempladores eram agentes mediúnicos inconscientes.

Nessa ordem de fenômenos trata-se, antes de tudo, de uma força contida no médium, suscetível de exteriorizar-se e de agir como força motora. Reichenbach já havia demonstrado que os eflúvios ódicos constituem uma força motora,75 e de Rochas consagrou a esse problema um livro,76 onde prova que os eflúvios ódicos dos médiuns devem ser considerados como o substrato de uma força motora. O magnetismo animal age a distância, como o magnetismo mineral; é, como este, polarizado e pode igualmente reforçar ou contrariar a ação do peso. É ainda uma analogia entre essas duas espécies de magnetismo. A ação a distância, como qualquer outro fenômeno de magia, não procede, pois, do homem material, mas do homem ódico, e como não é possível figurar este último senão segundo o esquema do primeiro, podemos dizer que a ação a distância procede do corpo astral. Vendo-se a mesma força exercer nas sessões espíritas, trata-se pois de saber se podemos explicar os fenômenos pela simples ação do médium, ou se é preciso recorrer a inteligências estranhas – a Espíritos – ou, afinal, se forças idênticas dessa dupla origem se combinam para a produção dos fenômenos.

Antecipando investigações ulteriores, podemos dizer que o corpo astral exteriorizado não constitui somente o suporte de uma força motora, porém que é também o portador da força vital, da força formativa, da sensibilidade e da consciência. Ele pode existir independentemente do corpo material e estar dele separado, o que equivale a afirmar a sua imortalidade, como ficará provado experimentalmente nas investigações encetadas pelo Sr. de Rochas. Portanto, as ações produzidas pelo corpo astral durante a vida terrestre do homem, nos sonâmbulos e médiuns, devem ser idênticas às do corpo astral definitivamente exteriorizado pela morte. Os fenômenos observados nas sessões espíritas podem apresentar uma dupla origem: os médiuns e os Espíritos, e inúmeras observações têm provado que os Espíritos operam por meio de forças que se fundem com as do médium num todo bem homogêneo. O mesmo processo se aplica ao fenômeno da levitação.

Portanto, temos as melhores razões, quando se trata de fatos dependentes do od, para instruir-nos com aqueles que têm consciência de se achar em relação com ele. Em primeiro lugar, devemos dirigir-nos aos sonâmbulos; os médiuns nos serão de menor utilidade, porque, por ocasião da produção dos fenômenos, ou eles se acham em transe e, portanto, sem consciência, ou acordados, mas sem a consciência ódica. Limitemo-nos, pois, aos sonâmbulos. Um dos mais notáveis, e que era ao mesmo tempo médium, a vidente de Prévorst, apresentou, acerca do fenômeno de levitação, considerações dignas de estudo. Ela designa a força ódica ou magnética sob o nome de espírito nervoso e diz ser este uma energia muito mais imponderável e poderosa que a eletricidade, o galvanismo e o magnetismo mineral. Ela atribuiu, antes de Reichenbach e Rochas, ao espírito nervoso a faculdade de suprimir o peso dos corpos. Nos homens mergulhados em um estado magnético profundo, esse espírito nervoso facilmente se destacaria dos nervos e da alma, podendo por seu intermédio agir a distância e manifestar-se, por pancadas.77

O Dr. Klein fala de uma sonâmbula que lhe pedia o seu relógio e o colocava sobre a fronte, onde ele ficava aderente apesar dos mais variados movimentos que ela fazia com a cabeça.78 Jacolliot viu um faquir que, servindo-se de uma pena de pavão como condutor, abaixava a concha de uma balança, quando na outra concha existia um peso de 80 quilos. O faquir tocava com a ponta dos dedos a borda de um vaso cheio de água e esse vaso podia-se mover em todos os sentidos, sem que a água se movesse. Muitas vezes o vaso se elevou a sete ou oito polegadas acima do solo. O mesmo hindu pediu um lápis, que colocou sobre a água e, estendendo a mão por cima, o lápis se deslocava em todas as direções. Ele tocou delicadamente no lápis, que flutuava na água, e este mergulhou até ao fundo do vaso. Sobre uma pequena mesa que Jacolliot podia levantar com dois dedos, o faquir colocou a sua mão durante um quarto de hora; após isso, Jacolliot não pôde levantá-la e, como ele empregasse toda a sua força, a tábua superior se desprendeu. Alguns minutos depois, a força comunicada à mesa se dissipava e ele readquiriu a sua mobilidade. Quando ia partir, o faquir notou um molho de penas dos mais notáveis pássaros da Índia: tomou uma porção dessas penas e atirou-as ao ar o mais alto que pôde. Elas caíram lentamente, mas, ao chegarem à proximidade da mão do faquir, colocada por baixo, tornaram a elevar-se até ao toldo do terraço e ali ficaram pregadas. Depois da partida do faquir elas desceram.79 Crookes imaginou aparelhos permitindo suprimir toda a comunicação mecânica direta, da força emitida pelo médium Home ao instrumento registrador das variações de peso.80 Ele viu uma cadeira elevar-se, com uma senhora, muitas polegadas acima do soalho, ficar assim suspensa durante cerca de dez segundos e depois descer lentamente.81

Todas essas faculdades, aumento de peso e levitação, não podem ser próprias do corpo material do médium, mas sim do seu corpo astral que, de natureza ódica e polarizada como é, pode agir sobre o conteúdo ódico íntimo dos objetos. Como, depois da morte, o corpo astral subsiste, é claro que os Espíritos devem ser dotados das mesmas faculdades. A esse respeito é bom notar que a vidente de Prévorst atribuía a faculdade de suprimir o peso, não somente ao seu espírito nervoso, mas também aos Espíritos. Ela afirmou muitas vezes que os Espíritos têm o poder de subtrair o peso aos objetos,82 e esse fato me parece experimentalmente provado por todos os fenômenos espíritas, nos quais o peso se acha aumentado ou diminuído segundo o desejo expresso do operador, como nas supracitadas experiências de Crookes.



Numa experiência do Dr. Hallole com o médium Home, havia sobre a mesa um copo com água, duas velas, um lápis e algumas folhas de papel. Tendo-se a mesa elevado com uma inclinação de 30 graus, todos os objetos que se achavam sobre ela conservaram as suas posições, como se estivessem aí colados. Pediram depois aos Espíritos que levantassem a mesa com a mesma inclinação e destacassem dela o lápis, conservando-se o resto em posição fixa. O lápis caiu no chão e os outros objetos conservaram sua fixidez. Tornaram a colocar o lápis sobre a mesa e pediram a mesma experiência, mas desta vez para se conservar tudo, exceto o copo; o copo escorregou e foi recebido à beira da mesa por um dos assistentes. Em outra sessão, a mesa ergueu-se sob um ângulo de 42 graus; sobre ela achavam-se um jarro de flores, livros e pequenos objetos de ornamento. Tudo se conservou imóvel como se os objetos estivessem presos aos seus lugares.83 Numa experiência feita pelo príncipe Luís Napoleão com o médium Home, um candelabro guarnecido de velas acesas passou da posição vertical à horizontal, onde ficou flutuando livremente, continuando as chamas a brilhar em sentido horizontal.84 A teoria espírita se impõe ainda mais no fenômeno de transportes, quando objetos colocados a uma grande distância são trazidos a pedido, como por exemplo na sessão em casa de Napoleão, onde objetos, que se achavam no quinto ou sexto salão, foram trazidos ao primeiro. Os fatos desse gênero são inumeráveis; e se, nessas experiências, empregassem aparelhos registradores, verificariam que o fenômeno de transporte repousa na levitação. É o que se observa nas numerosas histórias das casas mal-assombradas, onde os objetos mais estranhos servem de projéteis. Em todas essas histórias afirmam-se que não ficaram feridas as pessoas atingidas por esses projéteis. Glanvil relata a história de uma casa mal-assombrada, na cidade de Londres, onde uma pessoa foi atingida na cabeça por um sapato que lhe jogaram, mas tão docemente que ela nada sofreu.85 Em outra casa, em Mulldorf, uma pessoa foi atingida por um martelo, outra por uma telha, mas todos os projéteis eram tão leves que não ocasionavam mal algum e, ao caírem, pareciam privados de peso.86 Em Munchof, os objetos mais variados, tudo o que podia servir de projéteis, foram lançados contra as janelas; porém os mais pesados, apesar da velocidade de que vinham animados, ficaram fixos às vidraças e outros, apenas as tocaram, caíram ao chão. Pessoas atingidas por grandes pedras não sofreram, com grande espanto seu, senão ligeiros choques, apesar da enorme velocidade com que as pedras eram lançadas; e, apenas produzido o contato, os projéteis recaíam verticalmente. Sendo um homem atingido por uma colher pesando três quartos de libra, apenas experimentou um leve toque.87 O advogado Joller conta que, muitas vezes, pedras eram atiradas à sua casa e iam de encontro a um ou outro dos seus filhos, que somente sentiam um leve choque.88 No convento endemoniado de Maulbronn, os objetos mais diversos eram arremessados; mas, logo que transpunham a janela, em vez de caírem de pronto, desciam lentamente ao solo, como que flutuando. Em outra casa, eram atiradas pedras que faziam tanto dano como se fossem simples esponjas.89 Daumer teve a singular idéia de atribuir, em tal caso, a preservação à ação de misteriosos Espíritos protetores; mas essa asserção não combina com a confissão por ele mesmo feita de se darem, às vezes, ferimentos,90 e convém buscar substituí-la por uma explicação científica, aliás fácil de adivinhar-se, visto tratar-se de uma força polarizada. Sabemos que a eletricidade neutra de um corpo, decomposta por influência, pode ser polarizada de tal modo que a eletricidade positiva se escoe e a negativa fique no corpo, ou reciprocamente. Se tocarmos em um condutor, enquanto ele está submetido à influência, determinamos um escoamento de eletricidade, tornada livre, sempre do mesmo nome que a carga do corpo influenciante, ao passo que a de nome contrário fica no condutor.

Em uma comunicação ao Congresso Internacional das Ciências Psíquicas em Chicago, 1893, o Professor Coues apresentou, como possíveis, três hipóteses para explicar o movimento das mesas e outros fenômenos análogos:

1ª) a teoria mecânica, conhecida sob o nome de teoria das ações musculares inconscientes, da qual diz: “Ela é o refúgio natural de todos os físicos e fisiologistas que foram forçados a admitir o fato da mesa girante, porém que, pouco ou nada conhecendo do psiquismo, acham-se logo sem recursos, visto não terem outro meio de esconder a sua ignorância”;91

2ª) a teoria telecinética, segundo a qual objetos inanimados são movidos, em direção contrária ao efeito habitual do peso, por uma força comunicada a esses objetos, a distância, por pessoas vivas;

3ª) a teoria espírita, aquela que admite que inteligências desencarnadas imprimem aos objetos o mesmo movimento que nós mesmos lhe poderíamos comunicar.

Nada tenho a dizer sobre a primeira hipótese, que disseca o problema para facilitar-se a explicação. Ora, tem-se verificado mil vezes que alguns objetos se movem sem contato; logo, essa hipótese, mesmo que fosse exata, não explicaria senão uma pequena parte dos fenômenos. Desde o momento que se faz da ciência um leito de Procusto, sobre o qual colocam o problema, a explicação torna-se fácil. Quanto às duas outras teorias, o professor Coues errou em separá-las. Quando os Espíritos movem objetos, o processo não é idêntico ao que empregamos. Seria necessário um corpo com a mesma densidade (materialidade) que o nosso, e isso só é possível nas materializações completas; os Espíritos operam necessariamente de modo totalmente diverso e a única hipótese que pode ser aplicada ao caso é a segunda, a telecinética. A telecinesia, ou ação motora a distância, não pode emanar do corpo material dos vivos, mas somente do seu corpo astral. Ora, o nosso corpo sobrevive à morte terrestre com todas as suas faculdades; os Espíritos são providos desse corpo astral, logo o modo operatório é o telecinético, tanto entre os encarnados dotados dessas faculdades extraordinárias, como entre os Espíritos. Seria fácil provar, de cem maneiras diferentes, que as forças chamadas anormais, que o homem pode desenvolver, graças ao seu corpo astral, são as forças normais dos Espíritos.

Uma mão invisível ou fluídica não pode imprimir mecanicamente um movimento a qualquer objeto e, acontecendo mesmo que essa mão fluídica segure o objeto, isso não será mais que o efeito de uma associação de idéias, de uma reminiscência humana provocada pela materialização, ou ainda porque esse contato facilita a levitação. A única classificação exata dos diferentes modos de movimento, abstração feita do movimento mecânico produzido pelo homem normal, é, pois, a seguinte:

1º) a movimento produzido pelas contrações musculares inconscientes; mas não é precisamente por este modo que se produzem os movimentos da mesa, que são devidos ao od agindo como força motora, como provam os fenômenos luminosos ligados à sua produção;

2º) a telecinesia, fenômeno devido ao corpo astral e que se efetua sem contato; é de natureza anímica, quando emana dos vivos; de natureza espírita, quando emana de desencarnados.

A constatação do fenômeno da levitação não data de ontem; já de há muitas dezenas de anos tem ela sido objeto de experiências, às vezes muito rigorosas. Nossos adversários não têm senão um argumento a opor-nos: a levitação é impossível, por ser contrária à lei da gravitação. Essa resposta prova desde logo a ignorância de fatos realmente verificados. Além disso, é tão pouco o que sabemos da natureza da gravitação, que já é um motivo para não devermos servir-nos dela com o intuito de combater a levitação. Não é exato que os corpos sejam pesados. Só o fato de a gravitação diminuir na razão inversa do quadrado das distâncias deverá impedir-nos de fazer do peso um dos atributos da matéria. Os corpos não são pesados senão relativamente aos centros de atração que se podem apresentar e estes existem em grande número no Universo, para que erremos em crer que a gravitação deva entrar na concepção da matéria. Vemos que a eletricidade e o od podem contrariar a gravitação; e sendo ambos forças dotadas de dualidade (polaridade), não é absurdo considerar a gravitação como a expressão unilateral de uma força polarizada, como da atração elétrica ou ódica, suscetível, todavia, de transformar-se em repulsão, em levitação, se a carga do corpo influenciado mudar de sinal (tal é o caso das caudas dos cometas) ou se a eletricidade neutra desse corpo for decomposta. Logo, a gravitação e a levitação não se contradizem uma à outra mais que os dois pólos de um ímã.

Carl du Prel



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