Albert de Rochas a levitação



Baixar 0,58 Mb.
Página6/8
Encontro10.10.2018
Tamanho0,58 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8

A Física da magia
por Albert de Rochas


Comunicação feita ao Congresso Internacional
da História das Ciências, em 1900.

Senhores:

O assunto que tenho a honra de abordar diante de vós já foi tratado várias vezes perante assembléias de sábios.

Foi primeiramente discutido, há dois mil anos, nos cursos da célebre escola de Alexandria, então centro intelectual do mundo inteiro.

Os gregos que acompanharam Alexandre, o Grande, ao Egito, fizeram-se aí iniciar vantajosamente nas ciências secretas, então mais de trinta vezes seculares; empregaram seu grande gênio em explicar, por leis naturais, os prodígios que os padres operavam nos seus templos para chocar o espírito das massas, e cujo conhecimento, vindo do Oriente, constituía a ciência dos magos, ou a magia.

Ora eram estátuas ou pedestais que pareciam caminhar sozinhos, graças a rodas ocultas postas em movimento, quer pelo escoamento convenientemente calculado duma certa quantidade de areia caindo dum recipiente superior num recipiente inferior, quer pela ação duma mola.

Ora eram portas que se abriam espontaneamente, imagens de deuses, de deusas, de animais que davam gritos ou espalhavam libações, sob a ação de líquidos deslocados por meio de sifões ou de ar comprimido.

O engenheiro Héron reuniu suas instruções numa série de pequenos tratados, dos quais dois somente – os Autômatos e os Pneumatômatos – chegaram até nós.37

Um outro sábio alexandrino, o célebre Euclides, também nos deixou tratados de óptica e de catóptrica; porém, discípulo do divino Platão que não queria que a Ciência se abaixasse às aplicações usuais, ele limitou-se a expor as propriedades geométricas dos raios luminosos e a dar as leis da perspectiva, da refração e da reflexão.

Quinze séculos mais tarde, a tomada de Constantinopla por Maomet II fez afluir à terra hospitaleira da Itália os restos da civilização grega que tinham escapado ao ferro e ao fogo dos turcos. Muitos refugiados bizantinos acharam meios de vida na cópia e venda dos manuscritos que trouxeram consigo e que até então eram quase desconhecidos no Ocidente. Viu-se quase logo em todas as cidades, na França, na Itália, na Alemanha, os sábios rivalizarem em esforços para associar seu nome ao de um antigo, traduzindo suas obras em latim, língua universal das escolas nessa época.

Desse número foi Jean de Gène que, muito jovem ainda (ele não tinha 30 anos), ocupava a cadeira de matemática no Colégio de França, recentemente criado; esse curso, que foi interrompido no fim de dois anos pela sua morte, tratava exclusivamente da óptica e da catóptrica de Euclides, e o discurso de abertura, pronunciado em 1556, foi consagrado a mostrar como essas ciências podiam servir para explicar fatos reputados prodigiosos.38 Eis uma citação consagrada aos fantasmas:

“Não quero negar a presença e a evocação dos gênios, dos manes, das sombras, pois que as histórias profanas e as sagradas escrituras nos oferecem numerosos exemplos.

Sabemos pelos historiadores que um psicagogo evocou a sombra de Pausânias, ao qual os lacedemônicos tinham deixado morrer de fome no templo de Minerva, e que os convidou a apaziguarem os manes. Sabemos também, por Lucano, que Erictone, pitonisa tessaliana, evocou uma sombra, à qual encarregara de anunciar a derrota de Farsália a Sexto Pompeu. O historiador Pausânias, nas suas Beóticas, relata ter visto em Pioneu, na Mísia, perto do rio Caïcus, a sombra de Pion, fundador da cidade, sair do seu túmulo no momento em que lhe ofereciam um sacrifício. A história sagrada nos diz que os manes de Samuel deixaram o túmulo ante a voz da pitonisa, a fim de que para o futuro não se pudesse duvidar da possibilidade de evocar as sombras.39

Admitindo como incontestável que os manes e os gênios têm sido evocados por pitonisas e forçados a aparecer, digo ao mesmo tempo que, graças à ciência extraordinária de certas pessoas muito hábeis, tem havido grande número de aparições que os ignorantes atribuem exclusivamente a demônios. As pessoas esclarecidas somente as atribuem a homens versados na óptica e não se deixam seduzir pelas promessas dos mágicos que se prontificam a fazer aparecer a sombra dum morto.

Para operarem esse prodígio, estes se servem dum espelho consagrado por certas fórmulas, com as quais pretendem evocar os manes. Tudo isso me é suspeito, e creio bem que no fundo deve aí haver algum artifício.

A parte da óptica denominada catóptrica nos ensina que se fazem espelhos que, em vez de reterem na sua superfície a imagem que lhes é apresentada, a reenviam à atmosfera.

Vitelion deu a composição desses espalhos e, se aprouver a Deus, falaremos a esse respeito quando tratarmos da catóptrica. Que importa que certos exploradores abusem, com esse espelho, da boa-fé das pessoas, a ponto de crer-se que se vêem as almas dos mortos evocados do túmulo, no entanto que apenas se vê no ar a imagem duma criança ou duma estátua que se tem o cuidado de conservar oculta? É certo (embora pareça inacreditável) que, se colocardes um espelho de forma cilíndrica numa câmara fechada por todos os lados, e que se tiverdes fora dessa câmara um manequim, uma estátua ou qualquer outro objeto disposto de tal maneira que alguns dos raios por ele projetados possam passar através de uma ligeira brecha na janela ou na porta da câmara e ir tocar no espelho, a imagem desse objeto, que está fora da câmara, é vista dentro da própria câmara, suspensa no ar. Por pouco que a imagem refletida pelo espelho seja deformada, ela aparecerá terrível, excitando o assombro e o horror!

O espelho é suspenso por um fio muito fino. Os mágicos impõem um jejum como preparo às cerimônias que convêm a essas espécies de mistérios; o ignorante timorato, que os consulta e que está longe de duvidar da impostura sacrílega, obedece docilmente.

Quando o momento é chegado, os pretendidos mágicos procedem aos seus exorcismos e às suas conjurações de modo a darem à cerimônia, graças a esses acessórios, um caráter mais assombroso e divino. A pessoa que consulta está colocada no lugar onde chega o raio refletido, e ela vê, não dentro do espelho, mas no ar, o espectro ligeiramente agitado, pois o espelho que está suspenso é ele próprio agitado. Cheia de horror, vê no ar uma imagem vaporosa e lívida, que parece caminhar para ela. Tomada de terror, não cuida em descobrir o artifício, mas antes em fugir, e a pitonisa a deixa partir. Então, como se houvesse sido arrancada ao abismo do inferno, essa pessoa diz a todo mundo que viu os manes e as almas virem do inferno.

Quem não seria enganado pela ilusão que produz todo esse aparato?

Quem resistiria a esses artifícios? Ninguém certamente escapa ao prestígio das pitonisas, desde que não conheça a óptica, pois que ela, elucidando bastante a esse respeito, demonstra que a maior parte dos manes não tem nenhuma causa física, visto ser puro artifício imaginado pela impostura. A óptica ensina a tirar isso a limpo, a desmascarar, a deixar de lado os terrores fúteis. Com efeito, que pode temer aquele a quem a óptica ensina que é fácil construir um espelho por meio do qual se vêem imagens dançantes; que compreende que se pode colocar o espelho de tal maneira que se observe o que se passa na rua ou na casa dos vizinhos; que sabe que se colocando dum certo modo e olhando um espelho côncavo, apenas se vêem os olhos; que sabe igualmente que se pode, com espelhos planos, construir um espelho tal que, ao lançar-se a vista nesse espelho, vê-se a imagem voar? Na verdade, aquele a quem se tiver ensinado tudo isso não reconhecerá facilmente a causa dos prestígios das feiticeiras da Tessália! Não saberá distinguir a verdadeira física entre a falsidade e a impostura?”

No século XVII, as descobertas a respeito do magnetismo e da eletricidade provocaram tentativas análogas, porém sob outra forma: em vez de procurar-se explicar os prodígios antigos, buscava-se produzir novos milagres. Numerosas sociedades se constituíram para atenderem às despesas das experiências e da construção dos aparelhos; a mais antiga tinha o nome de Academia dos Segredos e foi fundada em Nápoles, no ano 1600, sob os auspícios do Cardeal d’Este, protetor de Porta, cujo primeiro livro sobre a Magia Natural teve tal êxito que as primitivas edições, usadas pelos dedos dos leitores, não mais podem ser encontradas. Foi nessa época que também se começou a utilizar o vapor d’água.

Vê-se que as investigações dos sábios penderam primeiro sobre duas forças – a força e a elasticidade – que se acham por toda parte na Natureza e que se pôde utilizar da maneira mais simples; depois abordaram a luz, cujos efeitos já são mais sutis; e, somente muito mais tarde é que se fixaram sobre o calor e a eletricidade, cuja produção necessita intervenção da indústria humana.

Foi somente no meado do século XVIII que Mesmer chamou a atenção das academias para uma força, cujas leis ainda muito mais dificilmente podiam ser determinadas, pois que ela se manifesta dum modo suficientemente aparente, e apenas em certos organismos humanos é suscetível de ser influenciada pela vontade.

Mesmer, que era médico e conhecia, pelas tradições de certas sociedades secretas, o poder dos seus efeitos tanto para o bem como para o mal, impôs aos seus adeptos o juramento seguinte:

“Convencido da existência dum princípio incriado, Deus, e de que o homem, dotado duma alma imortal, tem o poder de agir sobre o seu semelhante em virtude das leis prescritas por esse Ser todo-poderoso, prometo e garanto, sob minha palavra de honra, que somente empregarei o poder e os meios de exercer o magnetismo animal que me vão ser confiados com o único fim de ser útil e aliviar a humanidade sofredora. Repelindo para longe de mim qualquer interesse de amor-próprio e curiosidade banal, prometo somente me deixar levar pelo desejo de fazer bem ao indivíduo que me conceda a sua confiança, e ser para sempre fiel ao sigilo imposto, assim como unido pelo coração e pela vontade à sociedade benfeitora que me recebe no seu seio.”

Durante muito tempo, os magnetizadores fiéis ao seu juramento, só tiveram em vista as curas e ocuparam-se pouco das teorias; entretanto, acumulando-se as observações na presença duma multidão de fenômenos, de que era impossível não reconhecer a semelhança com os milagres dos santos e os prestígios atribuídos ao demônio, desde então experimentou-se e foi-se conduzido a admitir a hipótese, já formulada por Mesmer segundo os ocultistas do período medieval, dum agente especial, que se chamou sucessivamente: espírito universal, fluido magnético ou força psíquica.

É esse agente que hoje se procura definir no estudo das ações recíprocas que se exercem entre ele e as forças naturais já conhecidas. Desde então algumas das suas propriedades perfeitamente estabelecidas permitiram fazer passar um certo número de fenômenos, do domínio da magia ao da ciência positiva.

É assim que se explica a fascinação pela ação da força psíquica sobre os nervos especiais dos nossos sentidos, que ela faz vibrar de modo a dar, sob a influência do pensamento, a ilusão da realidade; a base da bruxaria repousa sobre o armazenamento, em certas substâncias, daquela força, ou antes duma matéria extremamente sutil que lhe é ligada; a condensação dessa matéria dá lugar às aparições. Os movimentos a distância, observados nas casas mal-assombradas, são quase sempre devidos a uma reprodução anormal dessa força psíquica em algumas pessoas denominadas médiuns.

Enfim, os raios Rœntgen e a telegrafia sem fios não mais permitem negar a priori a vista das sonâmbulas através dos corpos opacos e a telepatia.

Quando, há alguns meses, o vosso Comitê de organização se dignou, a pedido meu, inscrever no seu programa esta questão: “Quais são entre as descobertas modernas as que podem explicar certos fatos reputados prodígios na antigüidade?”, eu esperava vê-la tratada por um filósofo muito conhecido na Alemanha, o Barão Carl du Prel. Sua morte inesperada privou-nos dessa colaboração, mas a sua última obra intitulada Die Magie als Naturwissenschaft e publicada em Iena, no ano de 1899, deixou-nos um estudo magistral sobre o assunto.

Aí envio o leitor que se interessar por essas questões e me limitarei a assinalar aqui uma idéia ousada sobre a qual o Sr. du Prel não deixa de insistir nos dois volumes de suas sábias investigações, a fim de salientar-lhe o lado prático.

Partindo desta observação de que os mecanismos artificiais são quase sempre imitações inconscientes de organismos naturais e que, por exemplo, a câmara escura é apenas a cópia dos olhos, ele pensa que as concordâncias já assinaladas não passam de casos particulares duma regra geral, aplicando-se também aos processos psíquicos, e salienta o mútuo auxílio que podem prestar: o psiquista, que põe em evidência e analisa as faculdades da alma, mais ou menos veladas na maior parte dos homens; o fisiologista, que descreve os nossos diversos órgãos corporais; e o tecnicista, que se propõe a preencher uns e outros por instrumentos.

Se, duma parte, o tecnicista tivesse atendido à constituição de sistema nervoso que faz comunicar o cérebro com a periferia do nosso corpo, e à relação exclusiva que se estabelece entre o magnetizador com o magnetizado, ele teria podido conceber mais cedo a idéia dos fios telegráficos, dos ressonadores e das comunicações múltiplas. Doutra parte, o tecnicista, pela invenção dos electroscópios e dos espectroscópios, permite ao psiquista conceber que nossa alma, por um aperfeiçoamento progressivo das suas faculdades, chegará a perceber vibrações às quais é atualmente insensível, e pode guiar no caminho a seguir para atingir-se esse desiderato.

Dum modo geral, é lógico e conforme à experiência supor-se que tudo o que se produz sob uma forma sensível num indivíduo produz-se ou pode produzir-se sob uma forma atenuada em todos os indivíduos semelhantes – que o que se produz naturalmente num indivíduo pode ser produzido também em todos os indivíduos semelhantes 40 – e, enfim, que psiquistas, fisiologistas e tecnicistas poderão encontrar nos trabalhos dos outros analogias diretas para os seus próprios trabalhos.

“Suponhamos – diz o Sr. du Prel – que um tecnicista seja versado na magia, na feitiçaria e na história dos santos, que tenha observado os sonâmbulos de todas as espécies, naturais e artificiais, experimentado com os médiuns, e que tenha a convicção de que todos os fenômenos mágicos são fatos incontestáveis, graças à convicção não menos forte de que toda a magia não passa de ciência natural desconhecida, e ele se achará diante de uma abundância inesgotável de problemas. Suponhamos, por exemplo, que a levitação ou erguimento acima do solo contra as leis de gravidade produz-se pelos faquires indianos – que ela está provada com documentos, por José de Cupertino e uma multidão de outros santos – e que ela foi freqüente nos possessos da época medieval. Suponhamos, enfim, que ele próprio tenha testemunhado o que foi visto por cerca de doze sábios ingleses: o médium Home erguido ao ar na mesma sala, saindo por uma janela e entrando por outra, depois de ter flutuado cerca de vinte e quatro pés por cima da calçada da rua.

Esse tecnicista não estaria mais próximo que Newton da solução do problema da gravitação? Ele saberia o que Newton desconhecia, isto é, que o peso é uma propriedade variável das coisas. Mas, conhecer essa variabilidade não é fazê-la nascer; ela existiu antes e depois dessa descoberta, cujo resultado é explicar o passado e guiar no futuro.”

Num congresso que tem por objeto a história das ciências, eu não poderia terminar melhor esta comunicação, certamente muito superficial, senão citando as reflexões profundamente justas, inspiradas ao meu ilustre amigo pelo próprio assunto que acabo de abordar.

Diz, ainda, o Sr. du Prel:

“O lado brilhante da história da civilização é a história das ciências. Quando se reflete nas operações, muitas vezes maravilhosas, do pensamento produtor das descobertas que têm mudado a face do mundo, quando se considera a soma de saber condensado e classificado nos livros de estudo, fica-se induzido a ter uma elevada idéia da humanidade.

Mas a história das ciências tem também um lado muito triste. Mostra-nos que o número dos espíritos verdadeiramente superiores tem sido sempre muito restrito, que eles tiveram sempre de lutar com grandes dificuldades para fazer aceitar as suas descobertas e, enfim, que os representantes científicos das idéias então reinantes jamais deixaram de denunciar, como afastando-se da Ciência, tudo o que não estava de acordo com eles. Eis uma história que ainda não foi escrita e que contribuiria bastante para aniquilar o orgulho dos homens.

A história das ciências não deve apenas registrar o triunfo das idéias novas: deve também expor as lutas que lhes precederam e as resistências dos representantes das novas idéias... Descobre-se uma verdade nova? Ela sai, semelhante a uma revelação, do cérebro dum homem; porém, ele tem diante de si milhões de contemporâneos, com os seus prejuízos. O poder da verdade é indubitavelmente grande; porém, quanto mais se afasta das idéias reinantes, menos a humanidade está preparada para recebê-la e mais difícil é abrir-se-lhe o caminho.

Assim sucederá enquanto a história das ciências não nos tiver ensinado que as verdades novas, por isso mesmo que têm uma importância capital, não podem ser plausíveis e sim paradoxais; que a generalidade duma opinião não é de modo algum a prova da sua verdade; enfim, que o progresso implica uma mudança nas opiniões, mudança preparada por indivíduos isolados, e que pouco a pouco se estende graças às minorias.

Nunca devemos esquecer que todas as maiorias procedem das minorias iniciais e que, por conseguinte, nenhuma opinião deve ser rejeitada somente por causa do fraco número dos seus representantes; mas, ao contrário, deve ser examinada sem preconceito algum, pois o paradoxo é precursor de todas as verdades novas. Por outro lado, o desenvolvimento regular das ciências somente se faz com a condição de deixar aí um elemento conservador. Cumpre, portanto, que as verdades novas sejam a princípio consideradas somente como simples hipóteses; quanto mais importantes forem, tanto mais longo será o seu tempo de provas, que ninguém pode impedir. Aqueles que as descobrem são apenas os campeões, aos quais os adeptos sucedem pouco a pouco, pois claro é que aquele que se adiantou cem anos aos seus contemporâneos deverá esperar cem anos para ser compreendido por todos.”

Albert de Rochas

Gravitação e levitação 41
por Carl du Prel


O enigma da gravitação

A linguagem humana não é o resultado do raciocínio científico, mas nasceu antes de qualquer ciência. É essa a causa dos termos pelos quais são designados os fenômenos naturais: não se conformarem com a doutrina científica, mas sim com a idéia que deles fazia o homem pré-histórico. Este apreciava sempre as coisas da Natureza a seu modo e supunha sempre a vida onde via movimento. Graças à associação dessas duas idéias, formaram-se os verbos reflexíveis. Ainda hoje, o movimento e a vida estão associados na linguagem; assim, quando o vento agita as folhas de uma árvore, dizemos que elas se movem. O naturalista deveria, em rigor, protestar contra semelhantes expressões, que realmente designam o fenômeno como nós o vemos, mas não como o compreendemos. A Ciência é, pois, constantemente obrigada a servir-se da linguagem da ignorância, filha das concepções pré-histórias do Universo. O que prova de um modo muito natural que essas concepções ainda têm em nós profundas raízes é o prazer que nos causa a poesia. O poeta lírico, que dá vida à natureza inanimada, lisonjeia essas concepções primitivas, que dormitam no fundo do nosso ser e foram recebidas pela hereditariedade. Essas concepções têm o cunho da subjetividade; ora, o poeta não fala a linguagem da ciência, não precisa a marcha objetiva dos fenômenos, mas exprime-os como nós os sentimos; por isso, e em virtude do princípio da menor ação, aceitamos plenamente e com vivo prazer as descrições poéticas. É pelo grato sentimento que em nós desperta, que se baseia o nosso gosto pela poesia.

Nossa linguagem encerra ainda grande número desses elementos paleontológicos, muitos traços dessa interpretação subjetiva dos fenômenos naturais, e isso se dá, não só no nosso senso íntimo, como em todos os nossos sentidos. Daí resulta uma grande confusão nas discussões científicas. Quando apanhamos uma pedra, parece-nos que uma espécie de atividade emana dessa pedra, que ela exerce um esforço para se aproximar do sol, pesando sobre a nossa mão. É esse sentimento que exprimimos quando dizemos que a pedra é pesada, julgando assim designar a própria natureza da pedra. Esse sentimento tem-se generalizado a tal ponto, que cada um de nós se crê razoavelmente autorizado a dizer: “Todos os corpos são pesados.” Eis ainda aí uma expressão contra a qual o naturalista deveria protestar; porque, considerado em si mesmo, um corpo não é pesado senão quando se acha na vizinhança de outro corpo que o atrai. A nossa linguagem, porém, transforma o fato da atração passiva em uma propriedade da pedra, coloca na própria pedra a causa do peso que reside fora dela. Atraindo a Terra a pedra que temos na mão, abstraímo-nos da atração que a pedra também exerce sobre a Terra para maior simplicidade, enfim a pedra parece ser pesada.

Isso, porém, é uma simples aparência, que facilmente seria demonstrada se pudéssemos suprimir a Terra. Então, somente a verdadeira natureza da pedra apareceria e esta se apresentaria sem peso. Se recolocássemos a Terra na proximidade da pedra, seu estado natural se modificaria de novo e teríamos o que chamamos peso. Em resumo, a palavra peso indica uma relação entre dois corpos e não a natureza de um deles; é a constatação de uma ação exercida sobre a pedra, mas não o enunciado de uma causa residindo nela. Não é na pedra que devemos buscar a causa do peso, mas fora dela; e se essa causa vier a ser suprimida, a pedra deixa de ser pesada. É servindo-se dessa mesma linguagem da ignorância que os astrônomos dizem que a Terra pesa milhões de quilos. Se pudéssemos suprimir o Sol (e todas as estrelas fixas), o peso da Terra seria nulo. Se fizermos desaparecer o corpo atraente, o outro naturalmente não é mais atraído; porque é unicamente na atração que consiste o peso. Em uma palavra, a gravitação não caracteriza de modo algum o estado efetivo e invariável dos corpos.

Mas, dirão, essas considerações são bastante estéreis, pois, em razão da impossibilidade em que estamos de subtrair-nos à atração terrena, não podemos encontrar corpos sem peso, para sujeitá-los a exame. Não é justa essa reflexão. Certamente, não podemos suprimir a Terra, mas talvez a sua força de atração possa ser anulada pelo concurso de forças capazes de transformar, em dadas condições, a gravitação em levitação. Conhecemos uma força desse gênero oposta à gravitação: é o magnetismo mineral. Muitas observações, feitas no domínio do ocultismo, referem-se precisamente à levitação, fenômeno que deve seu nome ao fato de ver-se diminuído ou abolido o peso natural dos corpos. Milhares de testemunhas asseveram ter visto mesas ficarem suspensas no ar, tendo-se apenas as mãos aplicadas sobre elas, ou mesmo conservadas a certa distância. Há cinqüenta anos os espíritas afirmam o fato; e seus adversários, em vez de o examinarem, respondem simplesmente que a levitação é impossível, porque é contrária à lei da gravitação. É a repetição contínua da cena caracterizada por uma antiga resposta de oráculo: “Entraram um sábio e um louco; o sábio examinou antes de julgar, o louco julgou antes de examinar.”

A alusão ao ímã basta para provar que, em certas circunstâncias, a levitação é possível; resta saber se ela não se pode apresentar ainda em outras condições. Desde que é constatada uma exceção à lei da gravitação, outras aparecem como possíveis. Podem existir na natureza outras forças capazes de vencer a da atração terrena. Uma primeira razão para não se opor a essa suposição o propósito de não recebê-la, é que nós mesmos não sabemos em que consiste a gravitação. Verificamos os efeitos, mas o modo da ação física nos escapa. Todos os físicos sabem que o processo da atração é ainda um enigma. As teorias mais variadas foram imaginadas para dar-se a explicação física da gravitação,42 e como o problema fica sempre sem solução, a Ciência terá maior motivo para examinar os fenômenos de levitação; é evidente, com efeito, que o conhecimento das condições sob as quais a gravitação se acha anulada não pode deixar de esclarecer o próprio fenômeno da gravitação. Não menos evidente é, segundo o que precede, que a levitação não pode ser compreendida senão à luz de nossas noções sobre a gravitação; é, pois, pelo estudo desta, que devemos começar. Newton, o primeiro, deu a demonstração rigorosa da gravitação, já suspeitada na antigüidade. Eis o enunciado da lei por ele estabelecida:

“Todos os corpos se atraem na razão direta do produto de suas massas e na inversa do quadrado de suas distâncias.”

Foi esta a primeira lei terrena a que se atribuiu um valor universal; ela é real, tanto para a pedra lançada pelo garoto, como para o cometa que chega das profundezas do espaço. Tal é o fundamento sobre o qual se pôde estabelecer a ciência moderna da astrofísica, ciência que parte deste princípio: todas as leis terrenas, a lei do calor, da luz, da eletricidade, etc., têm um valor universal. Newton bem sabia que só descobrira a lei da gravitação e não a sua causa. Ele próprio confessou desconhecer a natureza da gravitação e disse:

“Não consegui ainda deduzir dos fenômenos observados a razão dessa propriedade da gravitação; não estabeleço hipóteses.” (Hypotheses non fingo).43

Em uma carta a Bentley, diz ele:

“A gravitação deve ser ocasionada por algum impulso, agindo de um modo contínuo e de acordo com certas leis; meus leitores que julguem se se trata de um impulso material ou imaterial.”

O problema a resolver não se apresenta sob o nome de gravitação, e sim sob o de atração. Eis o que diz Newton em sua carta a Bentley:

“É inconcebível que a matéria bruta e inanimada possa agir sobre a matéria a distância, sem um intermediário material.”

Para explicar essa ação a distância, podemos, segundo as regras da lógica, enunciar, sob duas formas diferentes a proposição de Newton, e dizer:

“É concebível que a matéria animada possa agir a distância.”, ou então:

“É concebível que a matéria inanimada possa agir a distância por um intermediário.”

A primeira fórmula renuncia a uma solução científica e supõe a matéria animada como fez primeiro Maupertuis e recentemente Zöllner. A segunda fórmula fica no quadro das ciências naturais e implica uma concepção que já se encontra em Newton. Este supunha o espaço por toda parte ocupado por uma matéria: o éter, veículo dos fenômenos, como o calor, a luz, a gravitação, a eletricidade, etc. Antes mesmo da publicação da sua obra, ele escrevia a Boyle:

“É no éter que busco a causa da gravitação.”

Assim como a lei da gravitação não pôde ser descoberta senão pela generalização de uma lei terrena, assim também só podemos descobrir a causa da gravitação dando valor cósmico a uma força terrena agindo a distância. A Ciência astronômica somente se torna uma possibilidade humana, pressupondo a universalidade das leis terrenas, porque somente elas são acessíveis a uma verificação experimental.

Existe uma força terrena agindo a distância, que nos parece apropriada à explicação da gravitação: é a eletricidade. Em uma memória “sobre as forças que regem a constituição íntima dos corpos”, publicada em 1836 e reproduzida por Zöllner,44 Mossoti já declara que a gravitação pode ser considerada como uma conseqüência dos princípios que regem as leis da força elétrica. Faraday queria determinar experimentalmente as relações que podiam existir entre a gravitação e a eletricidade. Ele partia da premissa seguinte: se essas relações existem, a gravitação deve encerrar alguma coisa que corresponda à natureza dual ou antitética das forças eletromagnéticas. Ele bem havia reconhecido que, no caso de existir semelhante qualidade, “não haveria expressões bastante fortes para traduzir a importância dessas relações”.45 Com efeito, seria esse um fato de extraordinária importância, porque então o peso ou a gravitação se nos apresentaria como uma força modificável em certas condições e sua demonstração teria para a Ciência um valor maior que qualquer outra descoberta. As experiências de Faraday não deram, é certo, resultado positivo, mas esse físico não conservou, por isso, menos firme a sua convicção da existência dessa relação. Foi pena que ele não tivesse procurado descobrir essas relações onde elas realmente existem, isto é, nos fenômenos de levitação do ocultismo. Em 1872 Tisserand, por seu lado, fez à Academia das Ciências uma comunicação “sobre o movimento dos planetas ao redor do Sol, segundo a lei eletrodinâmica de Weber”.46 Ele provou que os movimentos dos planetas se explicam tanto pela lei de Weber, como pela de Newton, e que esta última não é mais que um caso particular da procedente. Recentemente ainda, Zöllner voltou a essa idéia: “A lei de Weber – disse ele – tende a apresentar-se ao espírito humano como uma lei geral da natureza, regendo tanto os movimentos dos astros como os dos elementos materiais. Os movimentos dos corpos celestes se explicam, nos limites da nossa observação, tanto pela lei estabelecida por Weber para a eletricidade, como pela de Newton. Como, porém, esta não é mais que um caso particular da lei de Weber, seria preciso, conforme as regras de uma indução racional, substituir esta última à lei de Newton para o estudo das ações recíprocas entre partículas materiais em repouso ou em movimento.” 47

Portanto, se o peso ou a gravitação é um fenômeno elétrico, deve ser modificável e polarizável pelas influências magnéticas elétricas. É o que demonstra o ímã agindo em sentido inverso do peso. Este depende da densidade, da coesão das partículas, não sendo a coesão mais que eletricidade presa.

A hipótese que faz da atração do Sol sobre os planetas um fenômeno elétrico ganharia em verossimilhança se a atração que Newton atribui à Lua, e cujo efeito se manifesta nas marés, pudesse ser imitada eletricamente; ora, se aproximarmos de um líquido um pau de âmbar tornado elétrico pelo atrito, vemos formar-se na superfície desse líquido uma intumescência. Essa hipótese ganharia ainda mais verossimilhança se se pudesse pôr em evidência, no nosso sistema solar, o fato da repulsão elétrica; é precisamente o caso da causa dos cometas. O núcleo dos cometas, em sua qualidade de massa fluida semeada de pequenas gotas, é submetido à ação da gravitação e obedece à lei de Kepler. A cauda, isto é, os vapores formados à custa do núcleo, age de um modo diferente. Esses vapores não são atraídos pelo Sol, mas repelidos por ele segundo o prolongamento da linha reta que liga o Sol ao núcleo e que se chama raio vector. Todo líquido em via de pulverização se eletriza, como é sabido; portanto, estamos autorizados a supor que os vapores desenvolvidos à custa do núcleo cometário, sob a influência do calor solar, são igualmente eletrizados. Como as eletricidades do mesmo nome se repelem, poder-se-ia pensar que a causa dos cometas sofre a sua repulsão simplesmente pelo fato de estar carregada de uma eletricidade da mesma natureza que a do Sol. Mas, quando os cometas se aproximam do sol, na época do periélio, o processo de ebulição que começou na superfície do cometa deve cada vez mais avançar em profundidade, e pode acontecer que novas substâncias químicas tomem parte nela e que o sinal da eletricidade, de que os vapores são carregados, venha a mudar, isto é, que os vapores adquiram uma eletricidade de natureza contrária à do Sol. Nessas condições, e em razão da universalidade suposta das leis da natureza, pode-se formar uma cauda de cometa dirigida para o Sol, isto é, atraída por ele como o próprio núcleo. É por esse raciocínio que Zöllner explicava a aparência do cometa em 1823, que apresentava duas caudas: uma dirigida para o Sol e a outra em sentido oposto, formando entre si um ângulo de 160º.48

O exame desse fenômeno cósmico nos permite supor que a gravitação é idêntica à atração elétrica, mas que, pela mudança de sinal da eletricidade, a gravitação pode ser mudada em levitação e reciprocamente. Resulta daí, para a ciência, a possibilidade de modificar ou abolir o peso em condições submetidas a leis. Se a Ciência conseguisse determinar essas condições e fazer delas uma aplicação técnica aos mistérios da natureza, a vida humana se acharia mais profundamente modificada do que foi por todas as descobertas efetuadas até hoje. Se a hipótese de Faraday, atribuindo à gravitação o caráter antitético da eletricidade, for verificada e nós a aplicarmos, os fenômenos de levitação, tão numerosos ao ocultismo, perderão a sua aparência paradoxal.

O levantamento, pelo ímã, de um pedaço de ferro colocado sobre uma mesa, sua subtração à ação do peso, é um fenômeno natural e não pode ser compreendido senão admitindo-se que a gravitação possua uma natureza antitética. As caudas dos cometas, que se dirigem ora para o Sol e ora em sentido oposto, fornecem a prova de que a gravitação pode, em condições dadas, de conformidade com leis universais, transformar-se em levitação e reciprocamente.

A ciência da natureza, utilizando-se do princípio da evolução que tomou emprestado à filosofia, comete sempre o erro de desconhecer seu próprio poder evolutivo. Desde que surge uma nova idéia, apressam-se em considerá-la como definitiva, criando assim um obstáculo a todo progresso ulterior. Hoje, apoiando-se na lei da gravitação é que se nega e declara impossíveis os fenômenos ocultistas de levitação, sem refletir que, se existem impossibilidades matemáticas e lógicas, tudo na física repousa sobre a observação e a experimentação. Neste último domínio só teria o direito de formular a priori a palavra “impossível” aquele que possuísse a ciência absoluta. Não foi esse o procedimento de Newton. Jamais foi feita uma descoberta aplicando-se uma porção tão enorme de Universo, como a da gravitação universal, de Newton. Uma lei em ação, mesmo sobre os mais ínfimos globos do espaço, foi transportada à Via-láctea e às mais longínquas nebulosas, cuja luz gasta milhões de anos para chegar até nós. É que Newton nunca teve a idéia de impor à potência evolutiva da Ciência esses limites que as mais das vezes não passam de manifestações do orgulho do sábio que fez uma descoberta e não admite que se vá além. Em seu leito de morte, ele dizia:

“Não sei o que de mim pensará a posteridade; comparo-me mesmo a uma criança que, brincando numa praia, achou, para sua grande alegria, um seixo mais polido ou uma concha mais elegante que as outras, enquanto diante dela se estende, a perder de vista e ainda inexplorado, o oceano imenso da verdade.” 49

Esse oceano imenso e inexplorado ainda se estende diante de nós, e as grandes descobertas dos séculos futuros somente serão possíveis se tivermos a modéstia de considerarmos as maiores descobertas do passado e do presente como seixos polidos ou belas conchas.

Enquanto a ciência da natureza ficar fiel ao prejuízo, que ela cultiva com tanto cuidado, de ver no peso uma força invariável, não poderá mesmo conceber a simples idéia de investigar as leis cuja ação possa contrariar a gravitação, e continuará a afirmar a impossibilidade da levitação. Mas, no dia em que ela se firmar na idéia de que, apesar de conhecermos a lei da gravitação, a causa desta é ainda um grande enigma, se libertará desse prejuízo e desaparecerá esse grande obstáculo ao progresso. Se a Ciência não se deixasse cegar e não permanecesse sistematicamente afastada do domínio onde poderia explorar à vontade os tão numerosos fenômenos da levitação, teria dado grande passo para a solução de um dos problemas de maior importância para a Humanidade.

Babinet disse:

“Aquele que, contra toda possibilidade, conseguisse elevar ao ar e aí conservar, em suspensão, uma mesa ou qualquer outro corpo em repouso, poderia lisonjear-se de te feito a mais importante de todas as descobertas do século. Newton tornou-se imortal pela sua descoberta da gravitação universal; aquele que soubesse subtrair um corpo à gravitação, sem meio mecânico, teria ainda feito mais.” 50

Babinet tinha razão para atribuir grande valor a tal descoberta; mas errou acrescentando que o fato era impossível. Ele também confunde a lei e a causa da gravitação. Mesmo que não tivéssemos a menor idéia dessa causa, seria eminentemente ilógico afirmar a impossibilidade da levitação. Mas, se a gravitação entra nas leis fundamentais da eletricidade, a levitação se torna logo uma das suas mais positivas possibilidades.

As leis são imutáveis, mas as causas podem variar e sua variabilidade fica estabelecida com a descoberta das forças que permitem modificá-las. O que faz que um sábio, como Babinet, tenha essa idéia tão fixa sobre o peso, é ele, sem muito refletir, considerá-lo como um atributo inseparável da matéria. Entretanto há duzentos anos já que Huyghens nos punha em guarda contra semelhantes erros. Dizia ele:

“A Natureza envolveu em um véu e em trevas tão espessas as vias e os meios de que se serve para imprimir a todos os corpos sua tendência a cair sobre a Terra, que, apesar de todo esforço e sagacidade, não se pôde ainda descobrir o menor traço. Foi isso que levou os filósofos a buscarem a causa desse fenômeno maravilhoso nos próprios corpos, numa propriedade que lhes seria essencial, em virtude da qual eles tenderiam para o centro da Terra, como se sentissem a necessidade imperiosa de, como uma parte, unir-se ao todo. Isso não se chama descobrir causas, mas criá-las pouco claras e incompreensíveis a qualquer pessoal.” 51

“Os corpos são pesados”, tal é a fórmula enunciada na linguagem da ignorância, que se prende ao fato mais imediato, à sensação do peso que nos fazem experimentar os corpos. Colocamos nos corpos uma atividade, ainda que, em sua tendência a cair, eles não obedeçam senão passivamente à atração terrena. Se o peso fosse inseparável da matéria, seria invariável, o que não se dá; porque, se o homem for transportado para a Lua, não possuirá mais que o sexto do seu peso,52 se o for para o Sol, terá um peso enorme. O peso, de causa exterior e variável, não é, pois, inseparável da concepção da matéria. Desde então, cai toda objeção contra a possibilidade da levitação e cada dia poderá fazer conhecer um novo processo a empregar-se para subtrair um corpo material à atração terrena, pela ação de uma força agindo em sentido contrário.

Ora, a levitação não é somente possível: ela é uma realidade. Milhares de pessoas verificam-na e entre elas se acham investigadores sérios que a submeteram à investigação científica. Portanto, a Ciência tem o dever de explorar o domínio do ocultismo que apresenta essa força em atividade, de estudá-la em suas manifestações e, variando as condições experimentais, procurar estabelecer a lei do fenômeno.

Sou partidário de uma estreita aliança entre a física e o ocultismo, e isso no interesse de ambos. Se todos os ocultistas fossem excelentes físicos, não veríamos acumular-se há tantas dezenas de anos fatos e materiais relativos à levitação, sem alguma tentativa séria de explicação. Eu não teria necessidade, ainda que tendo estudado a física, de deter-me nisto, abandonando o resto aos físicos. Se, pelo contrário, todos os físicos fossem excelentes ocultistas, em vez das discussões estéreis onde uns afirmam os fatos e outros lhe negam a possibilidade, veríamos surgir discussões fecundas sobre as causas dos fenômenos. Os físicos não tardariam então a reconhecer que o ocultismo é suscetível de fornecer-lhes nova orientação e que em particular o estudo da levitação fornece a solução de um problema que excede em importância a todos os outros.

Carl du Prel



1   2   3   4   5   6   7   8


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal