Albert de Rochas a levitação



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Capítulo V

Teorias propostas e fenômenos análogos

A – As teorias


Vimos, nos capítulos precedentes, quão diversas eram as circunstâncias nas quais se produzia a levitação e algumas das explicações que foram dadas.

O Abade Ribet e alguns místicos são levados a atribuir a maior parte dos casos à preponderância que o espírito toma sobre o corpo.

Os ocultistas exprimem quase a mesma opinião, dizendo que o corpo astral, desprendendo-se, arrasta o corpo carnal, e fazem notar que é a esse desprendimento do corpo astral, operado em outras condições, que são devidos os sonhos tão freqüentes em que se imagina ser subtraído à ação da gravidade e ter a faculdade de se lançar através dos ares.

Home, Eusápia e a grande maioria dos católicos vêem nisso a ação de entidades inteligentes e invisíveis (elementares, anjos ou demônios).

Certos sábios orientais, finalmente, explicam o fato por correntes elétricas.

Tal é também a explicação proposta pelo Sr. Fugairon, doutor em Ciências e Medicina, que admite a realidade dos fatos, no seu livro intitulado Ensaios sobre os fenômenos elétricos dos seres vivos.

Eis o que ele diz (págs. 133 e seguintes):

“São conhecidos os movimentos devidos ao fluxo da eletricidade pelas pontas, fluxo que é posto em evidência nos cursos de Física, por meio do torniquete. Se fixarmos o instrumento sobre o condutor de uma máquina elétrica, vemo-lo girar em sentido contrário ao fluxo da eletricidade. Explica-se esse movimento pela repulsão que se exerce entre o ar eletrizado e a própria ponta, repulsão que expele o ar de uma parte, e de outra faz retrogradar a ponta. A rotação dá-se também no azeite, líquido mau condutor, mas não na água.

Por conseguinte, não seria possível que um paciente perelectrógeno, bem dotado, em pé, na ponta dos pés, sobre um soalho ou ladrilho mau condutor, e produzindo um fluxo muito intenso de fluido elétrico pelos dedos dos pés, se elevasse acima do solo? Não poderia também produzir-se o efeito se o paciente, em êxtase, deixasse escapar o seu fluido ao mesmo tempo pelos dedos dos pés e pelos joelhos dobrados?

Sabe-se que o corpo dos animais é diamagnético e que a Terra é um ímã. Ora, da mesma maneira que os corpos pesados se afastam da superfície da Terra, quando pesam menos, em volume igual, do que o meio ambiente, da mesma maneira um ímã repele o corpo que é menos magnético do que o meio no qual está mergulhado. Talvez que este princípio, devido a Becquerel, represente também um papel na levitação.” 32

Parece isso tanto mais provável quanto se viu, nas citações precedentes, produzir-se a levitação como uma espécie de prolongamento da agilidade supernatural, isto é, da diminuição de peso dos pacientes,33 e experiências feitas no fim do século XVIII pareceriam provar que a eletricidade diminuía o peso dos corpos.

Eis, com efeito, o que diz Steiglehner, professor de Física em Ingolstadt, numa memória publicada no ano de 1785, em Haia, com o título Analogia da Eletricidade e do magnetismo:

“CX – Mandei fazer dois vasos cilíndricos de latão. Dei-lhes, por meio de uma boa balança, igual peso e enchi-os com igual quantidade de água. O diâmetro de cada vaso era de 31 linhas. Tirei um dos vasos da balança e eletrizei-o com a água que continha. Pus outro à parte, mas deixei-o no mesmo quarto para não expô-lo a outra temperatura. Depois de ter eletrizado o vaso e a água que ele continha, durante uma hora, tornei a pôr os dois vasos na mesma balança, e o que fora eletrizado pesava 12 grãos menos. Houvera, pois, uma evaporação equivalente à mesma quantidade.

CXI – Coloquei um pássaro na concha de uma balança e eletrizei-o durante duas horas ou mais. Achei que diminuía cada vez mais de peso, de modo que, por último, estava alguns grãos mais leve, porém não posso ainda determinar o número exato, porque é diferente segundo o estado da máquina e do ar.

Achei, no intervalo de tempo que acabo de enunciar, algumas vezes 8 grãos, outras vezes 12. O Sr. Abade Nollet achou quase a mesma coisa. Segundo as suas experiências (Memórias da Academia Real das Ciências, em 1747, pág. 238; em 1748, pág. 178), um gato perdeu entre 66 e 70 grãos, um pombo entre 15 e 20, mas eletrizou durante 5 ou 6 horas.”

Certos magnetizadores pretendem que se pode tornar um objeto pesado ou leve, magnetizando-o.

Afirmamos, diz o Sr. de Mirville (Des Esprits, pág. 300), que, a um simples sinal que nós mesmos transmitíamos a um magnetizador, o seu sonâmbulo, carregado aos nossos próprios ombros, tornava-se à nossa vontade infinitamente mais leve ou esmagava-nos com todo o seu peso. Afirmamos ainda que, a um simples sinal nosso ao magnetizador, colocado na outra extremidade do quarto, esse sonâmbulo, cujos olhos estavam hermeticamente cerrados, deixava-se rapidamente arrastar... ou então, obedecendo à nossa nova intenção, ficava de repente tão pregado ao soalho que, curvado horizontalmente e não se sustendo já senão na extremidade da ponta dos pés, eram baldados todos os nossos esforços (e éramos quatro) para o fazermos avançar uma única linha. “Podíeis atrelar-lhe seis cavalos, dizia-nos o magnetizador, que não o fareis mover daí...”

Allan Kardec refere, em O Livro dos Médiuns, que várias vezes viu pessoas fracas e delicadas levantarem com dois dedos, sem esforço e como uma pena, um homem forte e robusto com o móvel em que ele estava sentado. Esta faculdade é, de resto, intermitente nos pacientes. Há, talvez, nisto um fenômeno de outra ordem, que se pode aproximar da experiência seguinte, referida pelo célebre físico David Brewster, membro da Sociedade Real de Londres, numa das suas Cartas a Walter Scott sobre a Magia natural:

“A pessoa mais pesada da sociedade deita-se em cima de duas cadeiras, de tal modo que a parte inferior das coxas assenta numa e os ombros na outra. Quatro pessoas, uma em cada pé e em cada ombro, procuraram levantá-la e constatam logo que a coisa é muito difícil.

Quando todas as cinco volveram às suas posições primitivas, a pessoa deitada dá dois sinais batendo duas vezes com as mãos uma na outra. Ao primeiro sinal, ela e as outras aspiram com força. Logo que os pulmões estão cheios de ar, dá o segundo sinal para a elevação, que se faz sem a menor dificuldade, como se a pessoa levantada fosse tão leve como uma pena.

Tive várias ocasiões de observar que, quando uma das pessoas que levantavam não aspirava ao mesmo tempo que as outras, a parte do corpo que ela se esforçava por levantar ficava abaixo das outras.

Muitas pessoas fizeram sucessivamente o papel de carregador ou de carregado. Todas ficaram convencidas de que, pelo processo que acabo de descrever, ou o peso do fardo diminuía ou a força dos carregadores aumentava.

Em Veneza, foi a mesma experiência repetida em condições ainda mais admiráveis. O homem mais pesado da sociedade foi elevado e carregado na extremidade dos dedos mínimos de seis pessoas. O Major H... declara que a experiência falha quando a pessoa a elevar está deitada em cima de uma tábua e o esforço das outras pessoas se exerce sobre a tábua. Considera como essencial que os carregadores achem-se em contato imediato com o corpo humano a elevar. Não tive ocasião de verificar esse fato pessoalmente.”

É muito provável que o fenômeno seja complexo 34 e nem sempre devido às mesmas causas. Por isso, não é sem interesse, numa questão ainda tão obscura, recordar aqui outros fatos que têm com ele alguma semelhança e são evidentemente causados pela eletricidade.


B – Fenômenos de repulsão
produzidos pelas correntes alternativas


Extraído da obra Physique Populaire,
Desbeaux, págs. 56 e seguintes.

O Professor Elihu Thomson, de Lynn (Estado de Massachusetts), observou em 1884, no Instituto de Washington, que um eletroímã, excitado por uma corrente alternada e periódica, repelia um magneto, um disco de cobre, um tubo, etc., convenientemente colocados no seu campo.

Essas experiências intrigaram muito os visitantes da exposição de 1889, pouco habituados, na maior parte, aos fenômenos de ação a distância, isto é, exercendo-se sem intermediário visível. O aquecimento intenso dos objetos repelidos era igualmente para eles uma causa de admiração.

O eletroímã empregado não era diferente dos que descrevemos. Estava colocado verticalmente sobre um suporte. O seu núcleo era formado por um grosso feixe de fios de ferro, isolados uns dos outros. O fio de cobre enrolado ao redor deste núcleo era muito comprido. As suas extremidades terminavam nos dois limites do suporte, ligados por outra parte às extremidades do circuito exterior que conduzia a corrente de um poderoso dínamo de efeitos alternados. Um tubo de cartão, enfiado no eletroímã, escondia-lhe o fio.

Estando assim preparadas as coisas, se se abandona a si mesmo um anel que cerca o eletroímã, ele é violentamente lançado no ar.

C – Transporte, pelo raio, de objetos inanimados


Extraído da obra Le Tonerre,
de F. Arago, págs. 124 e seguintes.

Uma propriedade do raio bem digna de ser estudada é aquela em virtude da qual o meteoro transporta algumas vezes ao longe massas de grande peso. Vou citar alguns exemplos desses transportes.

Na noite de 14 para 15 de abril de 1718, um raio fez saltar o telhado e as paredes da igreja de Gouesnon, perto de Brest, como teria feito a dinamite. Pedras foram lançadas em todas as direções, até à distância de 51 metros.

O raio que caiu no castelo de Clermont-en-Beauvaisis fez um buraco de 65 centímetros de largura por 60 de profundidade numa parede, cuja construção, segundo a tradição geral, remontava ao tempo de César, e que, em todos os casos, era tão dura que a picareta a muito custo lhe entrava. Os estilhaços, provenientes desse buraco, achavam-se espalhados em diversas direções, a mais de 16 metros de distância.

Durante a noite de 21 para 22 de junho, o raio quebrou uma árvore na floresta de Nemours. Os dois fragmentos do tronco tinham, um 5 e o outro 7 metros de comprimento. Quatro homens não teriam levantado o primeiro; entretanto, o raio atirou-o a 15 metros de distância. O segundo estava a 5 metros do primeiro lugar, mas numa direção oposta ao primeiro fragmento. O seu peso excedia o que só oito homens conseguiriam remover.

Em janeiro de 1762, um raio caiu no campanário da igreja de Breag, no Cornosilles. A pequena torre (pináculo) de alvenaria do sudoeste foi feita em cem pedaços e totalmente demolida.

Uma pedra, que pesava quintal e meio, fora atirada de cima do telhado da igreja, na direção do sul, à distância de 55 metros (sessenta jardas).

Achou-se outra pedra a 394 metros (400 jardas) da torre, mas esta para o norte. Uma terceira estava ao sudoeste.

Em Funzie, em Feltar (Escócia), pelo meado do último século, uma rocha de micaxisto, com 32m de comprimento por 3m de largura, e tendo, em algumas partes, 1,20m de espessura, foi arrancada num instante por um raio e quebrada em três grandes fragmentos, fora os pequenos. Dos fragmentos maiores, um com 7,90m de comprimento, 3m de largura e 1,20m de espessura, fora simplesmente virado. O segundo, com 8,50m de comprimento, 2,10m de largura e 1,50m de espessura, lançado por cima de um cômoro, foi cair na distância de 45 metros. Um outro fragmento, com cerca de 12m de comprimento, foi projetado na mesma direção com maior força ainda e perdeu-se no mar. (Extraído pelo Sr. Hilbert dos Manuscritos do Rev. Jorge Low, citado pelo Sr. Lyell, no 1º volume da sua obra Principes de Géologie.)

Em 6 de agosto de 1809, em Swinton, distante cerca de 8 quilômetros de Manchester, um raio produziu, numa parte da casa do Sr. Chadwick, efeitos mecânicos notáveis, que vamos descrever sem nos ocuparmos, neste momento, com a sua explicação.

Uma casinha feita de tijolos, que servia para armazenar carvão de pedra, e terminada, na parte superior, por uma cisterna, estava encostada à habitação do senhor Chadwick. As paredes tinham 0,90m de espessura e 3,30m de altura. Os seus alicerces desciam a 30 centímetros aproximadamente abaixo do solo.

Em 6 de agosto, às duas horas da tarde, em seguida a descargas repetidas de um trovão afastado e que parecia aproximar-se, ouviu-se uma explosão formidável. Foi imediatamente seguida de torrentes de chuva. Durante alguns minutos, um vapor sulfúreo rodeou a casa.

A parede exterior da casinha, com a carvoeira e a cisterna, foram arrancadas dos alicerces e levantadas em massa. A explosão levou-as verticalmente e sem derrubá-las, a alguma distância do seu primitivo lugar. Uma das suas extremidades deslocara-se 2,70m e a outra 1,20m.

A parede assim levantada e transportada compunha-se, sem contar a argamassa, de 7.000 tijolos e podia pesar 26.000 quilos aproximadamente.

Na ocasião do fenômeno, a carvoeira continha uma tonelada de carvão e a cisterna uma certa quantidade de água. (Mem. de Manchester, tomo II, 2ª série.)

O Sr. Liais relata que, durante a tempestade desabada em Cherburgo na noite de 11 para 12 de julho de 1852, um raio caiu no mastro de mezena do navio O Patriota, que se achava no porto. O mastro fulminado foi fendido num comprimento de 26 metros, entre a ponta e o cesto da gávea. Vários fragmentos foram lançados a grande distância. A força de projeção foi tal que um pedaço de 2 metros de comprimento, medindo 20 centímetros em esquadria na extremidade mais grossa, e terminando em ponta na outra extremidade, veio, a cerca de 80 metros de distância, arrombar o tabique de carvalho da serralheria, tabique de 3 centímetros de espessura. Esse estilhaço entrou pela parte mais grossa e entranhou-se quase até ao meio do tabique. Deteve-o um nó.


D – Transporte, pelo raio, de pessoas vivas


Extraído da obra do Dr. F. Sestier
La Foudre, Paris, 1866, tomo II, pág. 87.

O raio, que transmite ao longe os corpos inertes, exerce também sobre o homem e os animais os efeitos de translação.

No momento em que o navio A Felicidade foi fulminado perto de Bona, o imediato viu passar na sua frente o grumete, arrebatado com a rapidez do relâmpago, da popa à proa do navio, onde caiu.

Em 8 de julho de 1839, às três horas da manhã, um raio caiu num carvalho perto de Boiremont, nos arredores de Friel (Senna-et-Oise) e feriu dois operários cavouqueiros refugiados debaixo dessa árvore. O mais novo, Atanásio Pion, com 22 anos de idade, foi morto no mesmo lugar. Apresentava sinais de queimadura desde o ombro direito até o pé do mesmo lado; as suas vestes de algodão caíam em fios. O pai, fulminado na mesma ocasião, apresentava também sinais do raio, desde a fronte e o ombro esquerdo até o pé esquerdo, cujo sapato tinha um furo. No mesmo instante, foi levantado e transportado a 23 metros de distância, para uma moita de castanheiros, donde o retiraram semimorto. Esse infeliz operário ficou aleijado.

Algumas vezes, os fulminados são levantados perpendicularmente e caem depois no mesmo lugar. Os doutores Raymond e Fallibart citam vários exemplos. O Dr. Girault refere outro exemplo.

Um caso mais comum é aquele em que as pessoas são levantadas, lançadas ou transportadas a distâncias variáveis.

Fort-Liceti refere que, tendo caído um raio durante o ofício divino numa igreja de Carpentras, um menino foi arrebatado dos braços de sua mãe e projetado a três passos de distância.

Um fato semelhante foi relatado pelo Dr. Frencalye. Outro foi observado na igreja de São Martinho, em Dijon.

Um empregado de um posto de telegrafia elétrica recebeu tão violenta comoção que foi arrebatado da sua cadeira e lançado com força, através de uma janela, a um jardim vizinho.

Três homens achavam-se num celeiro onde penetrou um raio. Um foi impelido para frente e atirado ao chão, onde ficou como morto. Os outros dois foram lançados em direções opostas, um contra a parede, o outro contra um tabique de tábuas (Lathrop).

A distância do transporte é às vezes muito grande.35 Um lenhador, fulminado por um raio, foi lançado a uma distância de 20 pés (Cœster).

Howard, Lathrop, Buissart, Huberto, Lozeran e Beyer citam casos análogos.

O seguinte, referido por Sage, é assaz interessante.

Em 23 de junho de 1773, perto de Chantilly, o cirurgião Brillonet foi surpreendido por uma tempestade, acompanhada de saraiva e de ventos impetuosos. Desceu do cavalo e procurou abrigo debaixo de uma árvore, onde já se refugiara um cultivador. A fim de oporem maior resistência ao vento, estreitaram-se um contra o outro, abraçando a árvore; mas o raio, caindo sobre eles, separou-os. O cultivador foi atirado a 6 pés da árvore para o oriente e o cavalo para o ocidente dentro de um fosso que estava à mesma distância. Brillonet foi levantado e transportado a 25 passos na direção do fosso, descrevendo uma parábola. Barqueiros avistaram-no de longe, no ar, como um vulto negro.

Da mesma forma que não explicamos a levitação, não podemos explicar atualmente os efeitos do raio, assim como muitos outros que se aproximam dos fenômenos observados nas sessões mediúnicas, como as bolas de fogo e as projeções de caracteres ou de desenhos.

Sejam quais forem as relações que possam esses fatos ter entre si, eles devem ser estudados do mesmo modo pelos homens da Física.

Não é hoje só o ilustre William Thomson, atual Lord Kelvin, quem, como em 1871, no seu discurso de inauguração das sessões, em Edimburgo, da Associação Britânica para o Adiantamento das Ciências, pode proferir estas nobres palavras:

“A Ciência é obrigada, pela eterna lei da honra, a encarar sem temor qualquer problema que lhe puder ser francamente apresentado.”


Adendos

Os limites da Física
por Albert de Rochas


Memória apresentada em 1898 ao
Congresso Espiritualista de Londres.

“Não me é possível – disse Arago, no seu livro sobre Bailly – aprovar o mistério em que se envolvem os homens de ciência que têm assistido às experiências do sonambulismo. – A dúvida é uma prova de modéstia e raramente prejudica os progressos da Ciência. – Não podemos, porém, dizer o mesmo da incredulidade.

Somente nas matemáticas puras é permitido o emprego da palavra impossível. A prudência é um dever, principalmente quando se estuda o organismo humano.”

Apesar das sábias palavras desse homem de gênio, a maioria dos cientistas que se escondem em gaiolas de vidro, persiste em manifestar uma desdenhosa hostilidade contra tudo aquilo que, direta ou indiretamente, se refere aos fenômenos psíquicos.

Citemos, como exemplo, as seguintes linhas tiradas do jornal Le Temps, de 12 de agosto de 1893, assinadas pelo Sr. Pouchet, professor no Museu de Paris:

“Querem demonstrar que um cérebro pode, por uma espécie de gravitação, atuar, a distância, sobre outro cérebro, como um ímã, o Sol sobre os planetas e a Terra sobre os corpos que estão em sua superfície; buscam descobrir uma influência, uma vibração nervosa propagando-se sem um condutor material; e o que mais causa pasmo é ver que todos aqueles que mais ou menos acreditam nessas coisas, que escapam ao exame dos nossos sentidos, apesar de ignorantes, suspeitam da importância, do interesse e da novidade nelas contidos, e da revolução que produzirão no seio da sociedade de amanhã!

Fazei-o, boa gente! Demonstrai-nos isso, e vossos nomes serão na imortalidade colocados acima do de Newton; e eu vos garanto que os Berthelots e os Pasteurs se dobrarão submissos diante de vós.”

Certamente não aspiramos subir a tais alturas, mas estamos convencidos da importância do que investigamos; portanto, consolamo-nos dos golpes que sobre nós descarrega o Sr. Pouchet, primeiro porque temos certeza da realidade dos fatos que observamos, e em segundo lugar por vermos homens da estatura do Professor Lodge e do Dr. Ochorowicz, classificados conosco como simples ignorantes, estudando a questão e buscando resolver o problema físico-fisiológico.

Em aditamento às numerosas observações em que se basearam esses homens eminentes, eu quero chamar a vossa atenção para um caso assaz característico, provavelmente pouco conhecido na Inglaterra. É o caso de um menino de sete anos de idade, observado em 1894 pelo Dr. Quintar. Esse pequeno, em seu estado normal, responde a qualquer pergunta, resolve sem a mínima dificuldade qualquer problema, contanto que sua mãe esteja nas condições de fazê-lo. Ele lê instantaneamente os pensamentos de sua mãe, sem hesitação alguma, mesmo com os olhos cerrados ou voltados para outro ponto; basta, porém, colocar-se um simples biombo entre os dois, para que cesse a comunicação. Estamos nos limites da Medicina e a explicação desse fenômeno não é mais nem menos certa que a da telegrafia sem fios.

Não é para admirar que aqueles que consumiram sua mocidade no estudo das teorias estabelecidas por seus predecessores, e que agora buscavam a seu turno passá-las adiante, só com repugnância aceitem inovações que nos forçam a uma penosa revisão da sua educação. Sempre se deu isso; e o meu chorado amigo, Eugênio Nus, dedicou seu livro Choses de l’Autre Monde aos venerados, enobrecidos, coroados, condecorados e reputados sábios que rejeitaram a teoria da rotação da Terra, dos meteoritos, do galvanismo, da circulação do sangue, da inoculação da vacina, a teoria ondulatória da luz, o pára-raios, o daguerreótipo, o propulsor, o barco a vapor, a via férrea, o gás de iluminação, a homeopatia, o magnetismo, etc.

O mesmo dirá o futuro dos que hoje estão vivos e procedem como aqueles. Esses sábios, contudo, servem para alguma coisa; passaram à condição de pedra-milheira; representam o passado do progresso.

Se somente devêssemos aceitar os fatos conformes com as teorias hoje admitidas, teríamos de rejeitar quase todas as descobertas feitas em nossos dias no domínio da eletricidade.

“Nas ciências – diz o Prof. Hopkinson –, quanto maior for o número de fatos que conhecermos, melhor perceberemos a continuidade da cadeia que os liga, fazendo-nos ver o mesmo fenômeno manifestado de modos diferentes.” Não se dá isto com o magnetismo. Quanto maior é o número de fatos observados, maior é o das particularidades excepcionais que os distinguem e menor o das probabilidades de existir entre eles um laço que os reúna todos.

A atmosfera elétrica nos oferece constantemente fenômenos cuja chave não possuímos e que se aproximam tanto dos que observamos nas manifestações da força psíquica, que temos toda a razão de perguntar se não procedem da mesma causa.

Vós todos tendes ciência dos globos de fogo, maiores ou menores, que se têm apresentado junto aos médiuns, parecendo, às vezes, guiados por uma força inteligente. Muitos encolherão os ombros ouvindo falar disso, entretanto direi que nas obras clássicas estão relatados muitos fenômenos exatamente análogos e tão inexplicáveis como estes. Vou citar-vos alguns:

O primeiro se deu perto de Ginepreto, não longe de Pavia, em 29 de agosto de 1791, por ocasião de violento temporal. Ele foi descrito em uma carta do Abade Spallanzini Barletti (Opusc., vol. XIV, pág. 296).

Um bando de patos pousou a uns 150 passos de uma herdade; um menino de doze anos e outro menor saíram da casa correndo para fazê-los retirar, ficando no campo a vê-los um homem de cerca de cinqüenta anos e uma menina de nove ou dez anos. De repente, apareceu no campo, a três ou quatro pés distante da menina, uma bola de fogo, de tamanho equivalente a duas mãos fechadas, que, deslizando sobre o solo, veio colocar-se entre os pés descalços da criança, introduziu-se por baixo do seu saiote, transformando-o de modo a assemelhar-se a uma guarda-sol, foi até o meio de seu corpete e, sempre conservando sua forma esférica, atirou-se no ar onde detonou com estrondo. Esses detalhes não foram fornecidos pela paciente, pois esta caiu logo sem sentidos, mas pelo homem e o menino supramencionados, que, interrogados separadamente, deram idênticas respostas. Perguntei-lhes, diz Spallanzini, se naquele momento não tinham visto uma chama, uma luz brilhante descer, cair da nuvem e precipitar-se sobre a menina; e eles sempre me responderam que não, que tinham visto a bola subir e não descer.

No corpo da menina, que placidamente tornou a si, havia uma mancha muito superficial, estendendo-se do joelho direito ao meio do tórax entre os seios; sua camisa estava despedaçada nos lugares correspondentes e mostrava traços de queimadura que desapareceram com uma lavagem. Uma abertura de duas linhas de diâmetro fora encontrada no corpete de que usam as mulheres desse país. O Dr. Dagno, médico do lugar, visitando a paciente algumas horas depois do acidente, encontrou ainda a mancha mencionada, muitas marcas superficiais, enegrecidas e dispostas em ziguezagues, e indícios da divisão da corrente. O campo, no local do acidente, não apresentava vestígios da passagem de um meteorito.

O Sr. Babinet comunicou à Academia Francesa de Ciências, em 5 de julho de 1852, o caso seguinte, numa nota:

“Tem por fim esta nota apresentar à apreciação da Academia um dos casos de aparição de globos luminosos, que ela me incumbiu de colecionar, há já alguns anos. No caso a que me refiro, a bola danificou, não ao entrar, mas ao sair, se o posso dizer, uma casa situada na rua Saint-Jacques, nos arredores de Val-de-Grasse. Em resumo, conto-vos a história de um operário em cujo aposento a bola-raio desceu e depois subiu.

Pouco depois de ouvir o estrondo de um forte trovão, esse operário, alfaiate de profissão, sentado junto à sua mesa e quando justamente acabava de jantar, viu o biombo de papel, que escondia a chaminé, cair como impelido por forte sopro de vento, ao tempo em que uma bola de fogo, com as dimensões da cabeça de uma criança, saía mansamente da chaminé e percorria o aposento a pequena distância do solo ladrilhado.

Segundo o alfaiate, a bola assemelhava-se a um gato de mediana grandeza, curvado em forma de bola e movendo-se sem tocar o solo com os pés. A bola de fogo era muito brilhante e luminosa, mas não aquecia nem queimava, não experimentando o homem sensação alguma de calor. Ela se aproximou de seus pés, roçou-lhe pelas pernas, como esses animaizinhos costumam fazer, mas o homem podia mover as pernas, acautelando-se para evitar o contacto do fogo.

Depois de permanecer algum tempo junto aos pés do homem assentado, que olhava atentamente, inclinando-se para ela, fez diversas excursões em diferentes direções, sem contudo abandonar o aposento, e elevou-se verticalmente até à altura da cabeça do homem, que, para evitar que ela lhe tocasse a face e ficar em posição de melhor observar, recostou-se e fez a cadeira inclinar-se para trás. Levantando-se depois até à altura de nove decímetros do solo, ela afastou-se um pouco e dirigiu-se obliquamente para um buraco que havia na chaminé, cerca de um metro acima da mesa desta.

Esse buraco tinha sido feito para se acomodar nele um cano de estufa, de que o operário se utilizava no inverno; para nos servirmos das expressões do próprio homem, porém, o raio não podia ver esse buraco que o papel cobria.

Ela afastou o papel sem estragá-lo, entrou na chaminé e, chegando, calculando-se o tempo pela velocidade com que operava, ao topo colocado a 60 pés acima do solo, produziu uma terrível explosão que destruiu parte da estrutura da chaminé, arremessando-lhe os restos no chão. Os tetos de várias casinhas foram então derrubados, sem haver, contudo, felizmente, perda de vidas.

O domicílio do alfaiate era no terceiro andar, a menos da metade da altura do prédio.

Os outros andares não foram visitados pelo raio, cujo movimento foi sempre lento e descontínuo. Sua luz não era deslumbrante e o calor que difundia era pouco sensível.

Ela não mostrava tendência alguma para os corpos com boa condutividade, nem buscava seguir a corrente do ar.”

O Cosmos de 30 de outubro de 1897 narra um caso perfeitamente análogo:

A Sra. B..., achando-se em um lugar vizinho de Bourbon, na sala de um andar térreo, cuja porta estava aberta, viu, por ocasião de uma tempestade, uma bola de fogo entrar pela porta, correr lentamente pelo solo, aproximar-se e, rodeando como um gato que amima seu dono, segundo ela se exprime, dirigiu-se para a chaminé e por ela desapareceu.

Tudo isso se deu em pleno dia.

Será mais difícil admitir-se os golpezinhos e os movimentos de mesas que a dança do prato, de que falou o Sr. André na sessão de 2 de novembro de 1885, da Academia de Ciências?

Em 13 de junho de 1885, às 8 horas da noite, achava-se ele à mesa em uma sala que fazia parte da torre de um farol, situada a noroeste da mesma, quando viu repentinamente uma fita vaporosa, de alguns metros de comprimento, destacar-se da linha superior da parede fronteira, sombreando-a, ao mesmo tempo em que junto a seus pés se ouvia um ruído forte, sem eco ou prolongamento, mas de extrema violência. O som era semelhante ao que produziria um corpo sólido chocando a face inferior da superfície da mesa, que, com grande surpresa sua, não se moveu, bem como tudo que estava sobre ela.

Depois, o seu prato começou a girar como um pião, rodando muitas vezes sem ruído que demonstrasse haver atrito, o que prova que então o prato estava afastado da mesa, ainda que por uma distância inapreciável para nós. Depois, mesa e prato ficaram intactos.

Esses fenômenos, que ainda não foram perfeitamente explorados, são muitas vezes produzidos em uma atmosfera inteiramente calma, sem produzir ruído algum, e podendo persistir por muitos dias.

A levitação do corpo humano não é mais inexplicável que o transporte, pela eletricidade, de massas pesadas e mesmo de corpos humanos vivos, sem que recebam estes dano algum.

Em 6 de agosto de 1809, conta o Sr. Funvielle, na sua obra Éclairs et Tonnerre, as 2 horas da tarde ouviu-se uma explosão medonha na morada do Sr. Chadwick, nos subúrbios de Manchester.

A parede da frente de uma pequena olaria, cuja espessura era de 14 polegadas, 11 pés de altura e 6 polegadas de profundidade, foi arrancada e transportada do seu lugar, sem desviar-se da vertical. No exame que se procedeu, verificou-se que uma das extremidades se havia deslocado 9 pés, girando ao redor da outra, cujo deslocamento foi somente de 4 pés. A massa assim movida pesava 25 toneladas.

O Sr. Monteil, secretário da Associação Arqueológica de Morbihan, cita, entre os efeitos de uma trovoada ocorrida em Vanes a 5 de dezembro de 1876, às 10:30 da noite, o despedaçamento de um muro, a projeção a grandes distâncias de várias peças de madeira e, finalmente, o transporte de um paralítico do seu leito no solo de sua câmara a uma distância de 13 pés, apesar de estar essa câmara a 270 metros do ponto ferido pelo raio.

Daguin também fala de pessoas transportadas a distâncias de 20 a 30 metros.

O despimento de certas pessoas produzido pelo relâmpago e transporte de suas roupas a distâncias consideráveis são fatos freqüentemente observados, como o da remoção dos cabelos de todas as partes do corpo, o despedaçamento da língua ou de outros músculos.

No geral, podemos dizer que o raio parece dar preferência a certas individualidades e que as mulheres e certas árvores gozam de certa imunidade.

Há muitos que têm recuperado o uso de membros paralisados pelo choque que recebem na passagem do raio e outros que, ao contrário, têm ficado paralíticos pela mesma ação.

Muitos dos mortos pelo raio conservam as atitudes em que se achavam quando foram feridos.

Quanto aos fenômenos da projeção de sinais ou da escrita que se produzem nas sessões dos médiuns de efeitos físicos, e dos quais eu mesmo fui testemunha nas de Eusápia Paladino, não haverá inteira semelhança entre eles e os da produção, no corpo das pessoas feridas pelo raio, das imagens dos objetos que as rodeiam?

Para não ir além dos limites marcados a este trabalho, mencionarei somente os fenômenos da eletricidade animal. Nem mesmo falarei das propriedades da torpila e de outros peixes; nem das línguas de fogo e auréolas que, às vezes, têm sido vistas rodeando certos indivíduos; da atração e repulsão produzidas entre os objetos, sejam substâncias inertes, sejam corpos magnéticos. Aí chegamos pela segunda vez aos limites da Física clássica.

Que podemos dizer das plantas luminosas, das plantas que digerem, se movem e atuam sobre a agulha imantada?

São coisas de muito mais difícil explicação que a faculdade de os sonâmbulos verem através dos corpos opacos. Parecia que os raios X desarmariam os incrédulos neste ponto; não foi assim, porque a maioria daqueles que têm sido fossilizados pelas doutrinas materialistas da ciência oficial do último meio século não se contenta, como faziam seus predecessores, com a negação de certos fatos, por não se conformarem com as suas teorias; eles olham cheios de terror para tudo o que tenda a provar a existência, no homem, do elemento espiritual destinado a sobreviver ao corpo.

É essa a conclusão a que chegaram nos mais diversos países, em todos os períodos, os homens mais distintos por sua inteligência, e mesmo também por seu caráter, não se arreceando de proclamar sua crença, correndo o risco do ridículo e mesmo das perseguições.

Depois de inúteis excursões em vários sentidos, os fatos nos fizeram retroceder até encontrarmos a concepção do corpo fluídico, concepção tão velha quanto o mundo.

Peço permissão para apresentar-vos o que consta em minhas notas sobre recentes experiências feitas por individualidades que bem conheceis.

Como postulado, estabeleço que há no homem um corpo e um espírito.

“É fato de observação – diz Boirac – que cada um de nós se apresenta a si mesmo sob duplo aspecto. De um lado, se me considero pelo exterior, vejo em mim uma massa material, ocupando espaço, móbil e pesada, um objeto semelhante àqueles que me cercam, composto dos mesmos elementos e sujeito às mesmas leis químicas e físicas; de outro lado, se me considero no íntimo, permitam-me falar assim, vejo um ser que pensa e sente, uma individualidade que se conhece, conhecendo os outros, uma espécie de centro invisível e imaterial, ao redor do qual se desdobra ilimitada perspectiva do universo no espaço e no tempo; espectador e juiz de todas as coisas, que só existem para ele, achando-se nos limites de suas relações.”

Do espírito não podemos formar uma concepção; tudo o que conhecemos dele é que dele procedem os fenômenos da vontade, do pensamento e da sensação.

Quanto ao corpo, não temos necessidade de defini-lo; nele distinguimos duas coisas: a matéria animal (osso, carne, sangue, etc.) e um agente invisível que transmite ao espírito as sensações da carne, e está às ordens daquele.

Intimamente ligado ao organismo que o limita durante a vida, esse agente invisível, na maioria dos casos, se conserva nos limites da superfície do corpo e somente os transpõe pelos eflúvios, mais ou menos intensos, segundo os indivíduos, que se desprendem pelos órgãos dos sentidos e outras partes proeminentes do organismo, como as extremidades dos dedos.

Pelo menos é o que afirmam todos aqueles que, por determinados processos, se têm achado no estado de momentânea hiperestesia visual, e o que admitem os velhos magnetizadores. Contudo o ponto em que se dá cada uma dessas manifestações pode ser deslocado no corpo sob a influência da vontade, podendo a atenção aumentar a nossa sensibilidade em certas direções, quando ela mais ou menos se anula nas outras. Nós só vemos, ouvimos e sentimos quando olhamos, escutamos, cheiramos ou apalpamos.

Com certas pessoas, chamadas sensitivas, a aderência do fluido nervoso ao organismo carnal é fraca, havendo algumas em que ele pode ser deslocado com muita facilidade, produzindo os fenômenos conhecidos da hiperestesia e completa insensibilidade, ambos devidos à auto-sugestão, isto é, à ação do pensamento do sensitivo sobre o seu próprio fluido, ou à sugestão de uma pessoa estranha que pelo pensamento esteja intimamente ligada com aquele, sobre o mesmo fluido.

Alguns sensitivos, de sensibilidade ainda mais apurada, podem projetar seu fluido nervoso, em certas condições, fora do corpo, produzindo os fenômenos que temos estudado com o nome de exteriorização da sensibilidade.

Facilmente se concebe que uma ação mecânica exercida sobre esses eflúvios, fora do corpo, pode propagá-los e também fazê-los voltar ao cérebro.

A exteriorização da motricidade é mais difícil de compreender-se e eu, para satisfazer o meu desejo de vo-la explicar, só o posso fazer recorrendo a um símile.

Suponhamos que, por um meio qualquer, impedimos que o agente nervoso possa ir até à mão; esta ficará morta, como uma matéria inerte, como um objeto de madeira, e só poderá tornar à vida por um ato da nossa vontade, quando a essa matéria inerte fizermos voltar a porção de fluido necessária para animá-la.

Admitamos agora que um indivíduo possa projetar em uma peça de linho esse mesmo fluido, em quantidade suficiente para carregá-lo na mesma proporção; não será, por certo, um absurdo acreditar-se que, por um mecanismo tão desconhecido como as atrações e repulsões da eletricidade, a peça de linho venha a mostrar-se como se fosse um prolongamento do corpo do indivíduo.

Assim se poderiam explicar os movimentos das mesas colocadas sob os dedos dos que são chamados médiuns e, em geral, todos os movimentos, com contato, de objetos leves, produzidos por muitos sensitivos sem apreciável esforço muscular. Esses movimentos foram minuciosamente estudados pelo Barão de Reichenbach, que os descreveu em cinco comunicações feitas em 1856 à Academia de Ciências de Viena.

Ficamos sabendo que a produção desses movimentos exige sempre uma força superior à do médium, pelo fato de a cadeia humana aí formada pôr à disposição dele uma parte da força dos assistentes.

Deixando, porém, de parte a formação das cadeias de mãos, vamos à conclusão.

O agente nervoso se difunde ao longo dos sensórios ou nervos motores por todos os pontos do corpo, podendo nós dizer que, em seu todo, ele apresenta a mesma forma deste, ocupando a mesma porção do espaço, e deve ser chamado duplo fluídico do homem, sem sairmos do domínio da ciência positiva.

Numerosas experiências, infelizmente todas somente dependentes do testemunho dos sensitivos, fazem saber que esse duplo fluídico pode reformar-se fora do corpo, seguindo uma suficiente exteriorização do influxo nervoso, do mesmo modo que um cristal se transforma em uma solução, quando esta é suficientemente concentrada.

O duplo fluídico, assim exteriorizado, continua a ser dirigido pelo Espírito e obedece-lhe com a maior facilidade quanto menos o embarace sua aderência ao corpo; desse modo o sensitivo pode movê-lo e acumulá-lo de matéria ao ponto em que deseje torná-lo perceptível aos nossos sentidos. É assim que Eusápia forma as mãos que são vistas e tocadas pelos espectadores.

Outras experiências, menos numerosas, motivo pelo qual as aceitamos com mais alguma reserva, tendem a provar que a matéria fluídica exteriorizada pode ser modelada sob a influência da vontade, tão bem como o gesso sob a mão do escultor.

Podemos supor que Eusápia, em conseqüência de suas relações com vários médiuns espíritas, concebeu em sua imaginação uma figura de feições bem características e que dê à sua linguagem a entonação da dessa personagem, John King, como também dê a figura dele ao seu corpo fluídico, que ela nos faz sentir como dotado de uma larga mão de homem, e imprima-lhe, a distância, como no gesso, a figura de uma cabeça de homem.

Se nada, porém, nos prova que John tenha existido, também nada nos prova que ele não exista.

Além disso, não estamos seqüestrados no mundo; há pessoas a quem conheço pessoalmente e em quem deposito a maior confiança, que narram fatos que só podem ser explicados por meio de possessão temporária do corpo fluídico exteriorizado por uma entidade inteligente de origem desconhecida. Tais são as materializações de corpos humanos inteiros, observadas pelo Sr. William Crookes com a Sra. Florence Cook, pelo Sr. James Tissot com Eglinton e pelo Sr. Aksakof com a Sra. E. d’Espérance.36

Esses fenômenos extraordinários, cujo simples enunciado basta para exasperar os que se julgam cientistas por terem estudado mais ou menos rigorosamente alguns ramos da árvore da Ciência, para nós não são mais que uma ampliação dos que temos observado e a respeito dos quais hoje a dúvida não é mais possível.

De fato, obtemos um primeiro desprendimento do corpo fluídico na exteriorização da sensibilidade com a forma de camadas concêntricas ao corpo do indivíduo; a natureza material do eflúvio é demonstrada pelo fato de ele dissolver-se em certas substâncias, como a água e a gordura; mas, como acontece com o cheiro, a diminuição do peso do corpo emissor é tão pequena que os nossos instrumentos não podem apreciá-la.

O segundo grau ou fase do fenômeno se apresenta na condensação do eflúvio para formar um duplo sensitivo, mas ainda não visível aos olhos ordinários.

Na terceira, e mesmo na quarta fase, dá-se alguma coisa semelhante a um transporte galvanoplástico de matéria do corpo físico do médium para ir ocupar no duplo o lugar correspondente. Em grande número de vezes, a balança tem atestado haver o médium então perdido uma parte do seu peso, sendo este encontrado no corpo materializado.

Um caso muito singular, único até o presente, é o da Sra. E. d’Espérance, com quem o transporte foi tão intenso que uma parte de seu corpo carnal ficou invisível. Em lugar da parte desaparecida só ficou a correspondente do corpo fluídico, podendo os espectadores correr-lhe as mãos ao longo do corpo, sem que ela nessa parte sentisse a impressão do tato. Esse fenômeno, levado ao limite, nos conduzirá até o desaparecimento completo do corpo do médium e sua aparição em outro lugar, como vemos relatados tantos fatos nas vidas dos santos.

Na materialização de um corpo completo, esse corpo é quase sempre animado por uma inteligência diversa da do médium.

Qual a natureza dessas inteligências? Em que fase da materialização intervêm elas para dirigir a matéria física exteriorizada?

São questões do mais alto interesse, que ainda não puderam ser respondidas por meus colaboradores nem por mim.

O que tenho dito mostra que o estudo dos fenômenos psíquicos depende de três ciências distintas.

Aos homens da Física compete definir a natureza da força física, pelas ações mútuas que se dão entre ela e as outras simples forças da Natureza: o som, o calor, a luz e a eletricidade.

A Fisiologia tem de examinar as ações e reações dessa força nos corpos vivos.

E finalmente entramos no domínio do Espiritismo, quando buscamos conhecer como a força psíquica pode ser impelida ao trabalho por entidades inteligentes invisíveis.

Sabemos, porém, que todos os fenômenos naturais se ligam por insensíveis transições.



Natura non facit saltum (a natureza não dá saltos); por isso iremos encontrar, entre essas três grandes províncias, mal definidas fronteiras onde as causas serão complexas. É essa uma das maiores dificuldades dessa classe de estudos, mas não terá a força para deter-nos o passo; e eu não posso concluir este trabalho de um modo melhor do que citando a animadora sentença do vosso ilustre compatriota, o Professor Lodge:

“A barreira que separa o mundo espiritual e o material irá, como muitas outras, caindo gradualmente, e então chegaremos à mais alta percepção da unidade da Natureza. As possibilidades no Universo são tão infinitas como a sua extensão.

O que já sabemos é nada, comparado ao que nos resta saber. Se nos contentarmos com o meio mundo já conquistado, pisaremos as mais altas aspirações da Ciência.”

Albert de Rochas




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