Albert de Rochas a levitação



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Capítulo II

Casos tirados da história profana do Ocidente


Se do Oriente passarmos ao Ocidente, encontraremos centenas de exemplos da levitação.

As Constituições Apostólicas (1. VI), Arnóbio (Tratado contra os Gentios), 1. II) e Sulpício Severo (História Sacra, I. II), cap. XXVIII) referiram a desventura de Simão, o Mago, que, depois de se ter elevado aos ares à vista de Nero e do povo reunido, foi precipitado e quebrou a perna.

“Vi – diz noutro lugar Sulpício Severo (Dial. 3, cap. VI) – um possesso elevado ao ar, com os braços estendidos ante a aproximação das relíquias de São Martinho.”

Durante a cerimônia de iniciação de Juliano, o Apóstata, nos mistérios de Diana em Éfeso, o iniciador, o filósofo Máximo, elevou-se aos ares com o iniciado. (Lamey, Vida de Juliano, o Apóstata.)

São Paulino, na Vida de São Félix de Nola, atesta ter visto um possesso caminhar contra a abóbada de uma igreja, com a cabeça para baixo, sem que a sua roupa se desarranjasse.

Jâmblico cita, entre os prodígios operados por certos homens, o transporte para lugares inacessíveis e por cima dos rios.

“Nisto também quero indicar-te por que sinais se reconhecem aqueles que são verdadeiramente possuídos pelos deuses... Aqui tens um dos principais: Muitos deles não são queimados pelo fogo, porque o fogo não lhes pode tocar, e muitos, se os queima, não o percebem, porque então não vivem da vida animal. Outros, atravessados por pontas de ferro, não as sentem. Outros recebem machadadas nas costas ou golpeiam os braços com punhais, sem que o sintam.

Suas ações não têm caráter algum humano. O transporte divino os faz passar por lugares inacessíveis; eles se atiram ao fogo, andam no fogo, atravessam os rios, como a sacerdotisa Kastabaliana...

Há numerosas formas da possessão divina... Nesses diferentes casos, os sinais que apresentam os inspirados são diversos; algumas vezes parece que o corpo cresce, incha ou é levado a uma grande altura nos ares...” 16

Cristina de Pisan, na sua História de Carlos V, falando de Guilhermina da Rochella, diz que ela era mulher muito amiga da solidão e contemplação, pois pessoas fidedignas lhe afirmaram tê-la visto em contemplação, suspensa a mais de dois pés de altura.

Encontra-se no Místico, por Gorres:

“O bispo de Pamplona, Fr. de Sandoval, na sua História de Carlos V, conta o fato seguinte ocorrido por ocasião de um processo de feiticeiras que foi apresentado ao Conselho do Estado de Navarra. Querendo convencer-se, por seus próprios olhos, da verdade dos fatos de que eram acusadas as feiticeiras, prometeu o seu perdão a uma, se ela quisesse exercer, na sua presença, as artes mágicas. A feiticeira aceitou a proposta, e só pediu que lhe restituíssem a caixa de ungüento que lhe tinham tirado. Subiu a uma torre com o comissário e muitas outras pessoas; depois, tendo-se posto em uma janela, esfregou com o ungüento a palma da mão, os rins, as articulações dos cotovelos, o antebraço, as espáduas e o lado esquerdo. Gritou depois com voz forte: “Estás ai?” E todos os assistentes ouviram no ar uma voz que respondeu: “Sim, estou.” A feiticeira pôs-se então a descer da torre, servindo-se dos pés e das mãos como um esquilo. Quando chegou quase ao meio da torre, tomou o vôo e os assistentes seguiram-na com a vista até que ela desaparecesse no horizonte. Estavam todos estupefatos, e o comissário mandou anunciar publicamente que aquele que entregasse de novo essa mulher teria, como recompensa, uma grossa quantia. Pastores, que a encontraram, trouxeram-na passados dois dias. Perguntou-lhe o comissário por que não voara ela para mais longe, a fim de escapar aos que a buscavam. Respondeu que o seu senhor não quisera levá-la mais do que a três léguas de distância, deixando-a no campo onde a tinham encontrado os pastores.”

Calmeil (De la Folie, tomo I, pág. 244) narra a aventura do doutor Forralba, sábio afamado que, em 1519, pretendeu ter vindo da Espanha a Roma através da atmosfera, a cavalo num pau, e que, em 1525, anunciara aos habitantes de Valladolid o saque de Roma no dia seguinte àquele em que o fato se realizara, dizendo que acabava de presenciá-lo do alto dos ares.

Um respeitável missionário do fim do último século, chamado Delacour, numa carta endereçada ao Sr. Finslow, refere um fato de que foi testemunha ocular e que Calmeil cita igualmente no seu livro De la Folie (tomo II, pág. 419). Trata-se de um indígena, jovem de dezoito a dezenove anos, ao qual julgavam possesso do demônio e que lhe haviam trazido para que o curasse.

“Resolvi, num exorcismo – diz ele –, ordenar ao demônio que o transportasse ao teto da igreja com os pés para cima e a cabeça para baixo. Desde logo o seu corpo inteiriçou-se, como se todos os membros o houvessem tolhido, ele foi arrastado do meio da igreja até uma coluna, e aí, com os pés juntos, com as costas arrimadas à coluna, sem o auxílio das mãos, foi transportado, num abrir e fechar de olhos, ao teto como um peso que fosse atraído de cima com velocidade, sem parecer que da parte do mancebo houvesse ação. Suspenso do teto, com a cabeça para baixo, fiz que o demônio confessasse, como era meu propósito, a falsidade da religião pagã. Mantive-o mais de meia hora no ar e, não tendo tido perseverança bastante para mantê-lo aí por mais tempo, tal susto eu tinha do que estava vendo, ordenei-lhe que o pusesse a meus pés, sem fazer-lhe mal... Imediatamente o jovem me foi atirado como uma trouxa de roupa suja, sem que ficasse molestado.”

Outro missionário diz-nos:17

“Vi um índio, a quem fui batizar, ser subitamente transportado, do caminho que o conduzia à igreja, para outro lugar.”

Esse padre, que habitava perto de Cantão, acrescenta que “esses fatos não eram raros nos países idólatras e que ele não fora a única pessoa que os havia observado”.

Lê-se nas Mémoires, de Fléchier, sobre os grandes dias de Clermont (pág. 69), a anedota seguinte:

“Quando chegamos, encontramos no albergue o Sr. Intendente, que voltava de Aurillac e tivera muita dificuldade para se livrar da neve. Mandara prender um presidente da eleição de Brioude, acusado de vários crimes e mais particularmente de magia. Um dos seus criados afirmara que ele lhe dera sortilégios que o faziam algumas vezes levantar do chão, quando ia para a igreja, à vista de toda a gente.”

Um sábio beneditino, D. La Faste, que foi testemunha ocular dos prodígios operados pelos convulsionários de San-Médard, diz, falando da senhorita Thénevet:

“Ela se elevava de tempos a tempos a sete ou oito pés de altura, e até ao teto. Ao elevar-se, suspendia, até à altura de três pés, duas pessoas que puxavam por ela com todas as forças. Os físicos verão nisto simplesmente a Natureza?

Eis um fato ainda mais prodigioso: Enquanto a senhorita Thévenet se elevava com a cabeça para cima, as saias e a camisa dobravam-se-lhe, como por si mesmas, sobre a sua cabeça. Operou a Natureza alguma vez tais efeitos ou pode operá-los?” 18

Conheci, há alguns anos, em Ardèche, uma estigmatizada a quem ordinariamente chamavam santa Coux. Era sujeita a freqüentes arroubos, com relação aos quais a Sra. D... se dignou dar-me as particularidades seguintes:

“... Com profunda admiração, eu a vi ficar com os olhos fixos, mas animados, elevar-se pouco a pouco acima da cadeira em que estava sentada, estender os braços para diante, tendo o corpo inclinado nessa mesma direção, e permanecer assim suspensa, com a perna direita dobrada por baixo dela, tocando a outra no chão apenas com o dedo do pé. Foi nessa posição, impossível a qualquer pessoa em estado natural, que eu sempre vi a senhora Vitória, nos seus arroubos extáticos, quando eu tinha a felicidade de visitá-la muito regularmente, duas vezes por semana. Na ocasião dessas visitas, ela tinha dois ou três êxtases, que duravam de dez a vinte e cinco minutos. Eu a vi nesse estado mais de mil vezes, sobretudo durante os primeiros anos das nossas relações.” 19

O Sr. Brown-Séquard conta que em 1851 foi testemunha de um caso de êxtase numa donzela que, todos os domingos, às oito horas da manhã, subia para a beira arredondada e lisa do seu leito e aí ficava em linha vertical na ponta dos pés, até às oito horas da noite, em atitude de quem ora, com a cabeça deitada para trás.

Chardel diz 20 ter ouvido, há alguns anos, em Paris, numa reunião mística, uma sonâmbula de catorze anos declarar, no meio de um salão, que o céu estava aberto aos seus olhos, e anunciar que, chegada a Páscoa, o fervor das suas orações elevá-la-ia e sustentá-la-ia no ar, entre o soalho e o teto. “Facilmente se conjetura, acrescenta ele, que o milagre não se realizou; mas pouco faltou para que a donzela, cuja fé passava assim por uma decepção, enlouquecesse.”

O Sr. de Mirville vai mais longe e afirma 21 ter visto, num sono magnético muito profundo, os sonâmbulos voarem em volta dos lustres do salão.

Eis enfim outros fatos que encontro em diversos livros, sem indicação suficiente de origens, porém que eu cito para mostrar que o fenômeno se reproduziu nas circunstâncias mais diversas.

São Paulino atesta ter visto, com seus olhos, um possesso caminhar de cabeça para baixo contra a abóbada de uma igreja.

Moller refere que, em 1620, dois sacerdotes protestantes estavam junto de uma mulher doente deitada no seu leito, quando a viram pular, elevar-se até uma altura de 7 a 8 pés e ficar no ar até que eles a obrigaram a voltar para o leito. Horst conta um fato semelhante na sua Deuteroscopia.

O Ritual dos Exorcismos classifica também, entre os sinais que é necessário constatar para estabelecer a possessão, a suspensão aérea do corpo do possesso, durante um tempo considerável.

O Sr. Leopoldo Delisle estudou 22 recentemente um manuscrito da biblioteca do Vaticano, escrito em 1428 por um francês adido à Corte Pontifical. Esse manuscrito é uma crônica que tem por título Breviarium historiale, e que termina por algumas particularidades sobre Joana d’Arc, que então vivia e estava combatendo os ingleses.

“Se ela está – diz o cronista – isenta de superstições e de sacrilégios, é o que será fácil reconhecer por três característicos que obstam a que se confundam os milagres praticados pelos bons com os dos maus. Os primeiros operam-se em nome de Deus e têm sempre uma verdadeira utilidade, ao passo que os outros se resolvem em males ou futilidades, como quando se voa nos ares ou se provoca o entorpecimento dos membros humanos.”

No ano de 1612, em Beauvais, uma velha mendiga, Dionísia Lacaille, foi tratada como possessa e exorcizada pelo padre Pot, religioso jacobino. “De repente, ela elevou-se no ar, dando berros horríveis. Eclesiásticos e devotos, receando que a criatura agitada viesse a descobrir-se, seguravam-lhe os pés por caridade.” (Garinet, Histoire de la Magie en France, pág. 191.)

No ano de 1491, um convento inteiro de donzelas, em Cambrai, é vítima dos Espíritos malignos, que as atormentam durante quatro anos. Elas correm pelo campo, atiram-se ao ar, trepam nos telhados e nos troncos das árvores, como gatos. Algumas predisseram o futuro. (Del Rio, Disquisitiones magicæ; Delancre, Da Incredulidade e Descrença.)

Calmeil, no seu tratado De la Folie (tomo I, pág. 255), cita um convento em Uvertat, no Condado de Hoorn, onde, no meado do século XVI, depois de uma quaresma em que haviam sido submetidas a um jejum austero, as freiras caíram em crises convulsivas. Algumas, sentindo dificuldade em se equilibrarem nas articulações, caminhavam de joelhos, arrastando as pernas. Outras entretinham-se em trepar ao cimo das árvores, donde desciam com os pés para o ar e a cabeça para baixo... Por instantes, saltavam para o ar e tornavam a cair com força no chão. Sentiam-se arrastadas para fora do leito e escorregavam sobre o soalho, como se as puxassem pelas pernas. Quase todas tinham, na planta dos pés, uma sensação de queimadura ou cócegas, que muitas vezes se acha mencionada na descrição das crises análogas.

Terminarei este capítulo com uma citação da obra publicada recentemente pelo célebre naturalista Sr. Alfred Russell Wallace, intitulada Les Miracles et le Moderne Spiritualisme.

“Lord Orrery e o Sr. Valentim Greatrak informaram ambos ao Dr. Henrique More e ao Sr. Glanvil que, na casa de Lord Convay, em Sagley, Irlanda, um despenseiro deste cavalheiro, na sua presença e em pleno dia, elevou-se ao ar e flutuou na atmosfera, em todo o quarto, por cima das suas cabeças. Isto é relatado por Glanvil no seu Sadducismus Triumphatus. O Sr. Madden, na sua Biografia de Savonarola, depois de ter contado deste monge um caso semelhante, observa que tais fenômenos têm sido assinalados numerosas vezes e que a evidência, na qual se baseiam as narrativas que são feitas, merece tanto crédito quanto pode merecer um testemunho humano. Enfim, nenhum de nós ignora que se podem encontrar, em Londres, pelo menos cinqüenta pessoas de elevado caráter que certificarão ter constatado a mesma coisa a respeito do Sr. Home.” (págs. 16 e 17.)

Capítulo III

Casos tirados dos hagiógrafos


No capítulo XXXII do tomo II da Mística Divina, o abade Ribot, professor de teologia moral no grande seminário de Orleães, refere um grande número de casos de levitação atribuídos a santos. Prefiro citá-lo textualmente, limitando-me a suprimir os textos originais em latim, pelo autor, na parte inferior das páginas.23

Os seres corporais são ligados entre si, como os elos de uma longa cadeia, por ações e reações que se prolongam e se repercutem até nos últimos confins do mundo físico. Em cada ponto do espaço material inscreve-se a resultante das ações recíprocas que exercem, umas sobre as outras, as partes que o compõem.

Essa lei primordial da matéria, que põe os seus elementos constitutivos em relação de dependência, de ligação ou, como se exprimem os filósofos escolásticos, de continuidade, tem o nome de atração quando considerada sob o ponto de vista geral. Aplicada, porém, à razão, com a massa terrestre dos objetos que a cercam, é o que chamamos a gravidade. Todos os corpos estão submetidos à atração imperiosa que os impele para o centro da Terra, até que o equilíbrio se estabeleça entre a ação e a resistência. Os próprios corpos vivos a ela estão sujeitos. Todavia, a vida orgânica é uma espécie de luta e reação contra essa escravização da matéria pela matéria; e, quanto mais poderoso e livre é o princípio da vida, tanto mais o corpo que ele anima e governa parece esquivar-se às servidões exteriores. Uma alma valorosa comunica aos membros e aos órgãos alguma coisa de presteza e da agilidade do espírito.

Na vida mística, essa espiritualização é muitas vezes levada até ao milagre. Deixando de lado os fenômenos ordinários que resultam da simples influência da alma sobre o corpo, como um andar fácil, ligeiro, precipitado, movimentos vivos e rápidos, sob o impulso de um transporte interior – fatos, aliás, cujo caráter maravilhoso assinalamos, falando do êxtase e da jubilação – queremos, presentemente, mencionar apenas as derrogações da lei física de gravidade que a ação vital não basta para explicar.

Produzem-se principalmente no êxtase e em graus diversos. Poucos extáticos há que não tenham sido vistos, uma ou outra vez, em seus arroubos, elevados acima do solo, suspensos no ar sem apoio, flutuando às vezes, e balançando-se à menor aragem.

“Em arroubo – escreve de si mesma Santa Teresa –, o meu corpo tornava-se tão leve, perdendo de tal modo o peso, que algumas vezes eu deixava de sentir os pés tocarem no chão.” 24

Quando Maria de Agreda ficava em êxtase, seu corpo elevava-se igualmente, como se fora imponderável, e um sopro, mesmo de longe, o fazia oscilar e mover como uma leve pena. Poder-se-iam citar exemplos aos centos. Conta-se, em particular, que diversos santos padres, entre outros São Pedro de Alcântara, São Filipe de Néri, São Francisco Xavier, São José de Cupertino e São Paulo da Cruz, tinham no altar esses êxtases aéreos.

Às vezes não é uma simples elevação acima do solo, mas sim uma verdadeira ascensão aos ares. Domingos de Jesus-Maria, religioso carmelita, tão célebre pelos seus êxtases, elevava-se a ponto de seus irmãos mal poderem, estendendo os braços, tocar-lhe na planta dos pés. São Pedro de Alcântara chegava algumas vezes, em seus transportes, até ao teto do coro. Num dia da Ascensão, enquanto salmodiava no jardim entre duas das suas companheiras, a bem-aventurada Inês de Boêmia, em súbito arroubo, elevou-se aos ares na presença delas até que não tardaram a perdê-la de vista, e só tornou a aparecer no fim de uma hora, com o rosto radiante de graça e de alegria. Diversas vezes, durante as suas orações contemplativas, Santa Coleta desaparecia inteiramente no espaço, à vista das suas irmãs.

Certos êxtases imprimem ao corpo um movimento rápido e impetuoso que, com justeza, se qualificou de vôo. São Pedro de Alcântara, ouvindo cantar no jardim do convento, por um frade que se exercitava no ofício, as primeiras palavras do Evangelho segundo São João: In principio erat Verbum, foi subitamente arrebatado, dando ao corpo, por uma espécie de instinto irresistível, a forma de uma bola; sem tocar no chão, arrojou-se, atravessou com incrível celeridade, sem que mal algum lhe acontecesse, três portas muito baixas que conduziam à igreja e veio parar defronte do altar-mor, onde seus irmãos, que corriam ao seu encalço, o foram encontrar abismado no êxtase. Acontecia muitas vezes que ele se ajoelhasse ao pé das árvores e aí, em êxtase, se elevasse, com a ligeireza de pássaro, até aos ramos mais altos. O bem-aventurado Filipino, também da Ordem de São Francisco, permanecia suspenso nos ares, por cima dos grandes carvalhos, como uma águia que paira em liberdade.

Esses prodígios superabundam na vida do bem-aventurado José de Cupertino. Viam-no voar até às abóbadas da igreja, sobre as bordas do púlpito, ao longo das paredes donde pendia o crucifixo ou alguma imagem piedosa, em direção à estátua da Santa Virgem e dos Santos, pairar sobre o altar e por cima do tabernáculo, arremessar-se ao alto dos ares, agarrar-se e balançar-se nos menores ramos com a ligeireza de um pássaro, enfim, transpor de um pulo grandes distâncias. Uma palavra, um olhar, o menor incidente que tivesse ligação com a piedade, produziam-lhe esses transportes. Quiséramos descrever algumas dessas cenas que o mundo tacharia de estranhas e ridículas e que achamos admiráveis, visto atestarem o maravilhoso poder das almas santas sobre o corpo e a Natureza e, melhor ainda, sobre o coração de Deus, que as liberta a seu gosto das servidões vulgares; mas essas descrições prolongadas não entram no nosso programa.

A agilidade sobrenatural manifesta-se também fora do êxtase e sob as formas múltiplas que acabamos de descrever. Margarida do Santíssimo Sacramento passava quase instantaneamente de um ponto a outro. Encontravam-na no coro, na enfermaria, na sala dos exercícios, mesmo sem que as portas estivessem abertas, e várias vezes suas irmãs a viram levantada acima do solo, como se o seu corpo tivesse perdido o peso. Um dia em que ela ia colher uvas para uma doente, avistaram-na elevando-se sem esforço até à altura das uvas, despegá-las e tornar a descer. Ana-Catarina Emmerich conta de si própria que, desempenhando as funções de sacristã, trepava e demorava-se em pé nas janelas, sobre as cornijas, sobre ornatos em relevo, fazendo toda a limpeza em lugares humanamente inacessíveis, sem medo nem inquietação, acostumada como estava, desde a infância, a ser assistida pelo seu bom anjo, e sentindo-se além disso levada e sustentada no ar por uma invisível virtude.

Não somente a agilidade e a simples ascensão se encontram fora do êxtase, mas também o vôo no que ele tem de mais maravilhoso. Santa Cristina, cognominada a Admirável, oferece-nos um notável exemplo. Não temos que discutir aqui o caráter histórico das excentricidades atribuídas a essa santa, que os próprios bolandistas qualificam de paradoxal. Para nós, é suficiente que esses doutos autores tenham aceitado as narrativas que lhe dizem respeito, declarando-as, pelo menos na parte que citamos, dignas de crédito e consideração.

Omitir tais narrativas por temor do escândalo que a incredulidade pode provocar seria ceder a um respeito humano que há muito tempo nos deveria ter detido e que nos parece tão contrário à piedade como à Ciência.

Eis, em algumas palavras, o resumo dessa singular existência:

Cristina nasceu em San-Frond, na província de Liège, pelo meado do século XII. Órfã em pouco tempo, ela ficou com duas irmãs mais velhas e ocupava-se em guardar os rebanhos nos campos. Ativados, porém, pela contemplação, os ardores da sua alma tornaram-se tão intensos que o corpo não pôde resistir. Ela caiu doente e morreu. No dia seguinte, levaram os seus despojos à igreja para a cerimônia dos funerais. Na ocasião do Agnus Dei da missa que se celebrava por ela, viram-na de repente mexer-se, levantar-se no esquife e voar, como um pássaro, até à abóbada do templo. Os assistentes fugiram espantados, à exceção da irmã mais velha, que ficou imóvel, mas não sem terror, até ao fim da missa. Atendendo à ordem do sacerdote, Cristina desceu ilesa e voltou para casa, onde tomou a refeição com as suas irmãs. Contou depois aos amigos, que vieram para interrogá-la, que logo depois da sua morte os anjos a tinham sucessivamente transportado ao purgatório, ao inferno, ao paraíso. Aí, fora-lhe dada a escolha de ficar para sempre neste lugar ou de voltar à Terra para, com os seus sofrimentos, trabalhar no resgate das almas do purgatório, o que ela aceitara sem hesitação.

Pelo purgatório tinha ela que passar, pois que desde então começa para essa virgem admirável a vida mais estranha. A presença e o contacto dos homens são-lhe insuportáveis. Para evitá-los, ela foge para os desertos, voa para cima das árvores, para o alto das torres, para as empenas das igrejas, para todos os pontos elevados. Julgam-na possessa, perseguem-na, apanham-na com muita dificuldade e prendem-na com cadeias de ferro. Ela, porém, solta-se e continua as suas corridas aéreas, indo de uma para outra árvore, como faria um pássaro. A fome, todavia, aperta-a. Invoca então o Senhor e, contra todas as leis da Natureza, os seios destilam-lhe um leite abundante com que ela se alimenta durante nove semanas. Cai segunda vez nas mãos dos que a perseguiam, mas escapa-lhes novamente, e vai a Liège pedir a um sacerdote a divina Eucaristia. Munida desse alimento celeste, sai da cidade, levada pelo Espírito com a rapidez de um turbilhão, atravessa o Meusa, ligeira como um fantasma, e torna a começar a sua vida errante, longe das moradas humanas, nos cimos das árvores e das torres, muitas vezes sobre as estacas que cercavam as sebes, nos ramos mais delgados, onde pousava e se balançava como um pardal.

Envergonhados dessas aparentes extravagâncias, que o público atribuía a uma legião de demônios, as suas irmãs e os seus amigos pagaram a um malvado, homem de muita força, para que a agarrasse. Tendo-se esse homem posto ao seu encalço e não conseguindo agarrá-la, pôde contudo aproximar-se bastante para quebrar-lhe, com uma pancada de clava, o osso de uma perna, e foi nesse estado que a trouxe às irmãs.

Por compaixão, elas mandaram levá-la num carro a um médico de Liège, recomendando-lhe ao mesmo tempo que a curasse e prendesse bem. Este encerrou-a numa adega que tinha por única abertura a entrada, atou-a com segurança a uma coluna e tornou a fechar a porta, depois de ter aplicado ao membro fraturado as ligaduras convenientes. Logo que ele se retirou, Cristina atirou fora o aparelho, tendo como indigno recorrer a outro médico que não fosse o Senhor Jesus. A sua esperança não foi iludida. Uma noite, o Espírito de Deus veio derramar-se sobre ela, quebrou suas cadeias, curou-a de sua fratura e ela, livre, corria e pulava de alegria no seu cárcere, louvando e bendizendo Àquele por quem resolvera viver e morrer.

Não tardou que, sentindo-se o seu espírito angustiado entre essas paredes, ela conseguisse, com a ajuda de uma grande pedra, abrir uma saída e, veloz como uma seta, arremessando-a para fora, reconquistar a sua liberdade.

Apanhada pela terceira vez, apertaram-na de tal forma a um banco de pau, que as cadeias em breve penetraram-lhe nas carnes. Acabrunhada de sofrimentos, aos quais veio juntar-se o tormento da fome, recorreu de novo ao Senhor, e viu então correr de seus peitos, assim como já referimos, um óleo límpido com o qual molhou o pão e untou as chagas. Enternecidas com esse espetáculo, as irmãs, até então desumanas por incredulidade, tiraram-lhe as cadeias e permitiram-lhe que seguisse, em toda a liberdade, o Espírito que a animava. Continuou, com efeito, as suas santas loucuras durante longos anos, porque decorreram quarenta e dois anos entre a sua ressurreição e a sua morte, que se efetuou no ano de 1224.

Esse poder ascensional produz-se algumas vezes com tal energia que nenhum obstáculo é capaz de o conter. O que acabamos de narrar a respeito de Cristina, a Admirável, bastaria como prova, mas não é este o único exemplo. Assinalemos também S. José de Cupertino, no qual pareciam reunir-se todas as maravilhas da vida extática. Num dia da Imaculada Conceição, ele convidou o padre guardião a repetir com ele: Pulchra Maria! (Maria é bela!); e logo que repetiu estas palavras, o santo, entrando em êxtase, passa o braço em volta da cintura do seu superior e leva-o consigo para os ares, repetindo juntos: Pulchra Maria! Pulchra Maria!

Outra vez, trazem-lhe um cavalheiro, em estado de demência, para que obtenha de Deus a sua cura. O santo manda-o ajoelhar e, pondo-lhe a mão na cabeça, diz-lhe: “Sr. Baltazar, não tenha receio. Recomendo-o a Deus e à sua santíssima Mãe...” No mesmo instante, dá o grito que habitualmente anuncia o êxtase: “Ah!”, agarra o homem pelos cabelos, eleva-se com ele ao espaço, onde o conserva suspenso por algum tempo, e quando os seus pés de novo pousaram no chão o doente estava curado.

A ascensão aérea não é a única forma da agilidade sobrenatural; produz-se também no andar sobre as águas. Os primeiros exemplos são oferecidos pelo Evangelho. Sabe-se que o Salvador caminhou sobre as ondas como na terra firme e permitiu ao príncipe dos apóstolos que avançasse para ele sobre as vagas agitadas. O prodígio reproduziu-se mais de mil vezes no mar, nos lagos, nos rios e nos ribeiros, para atestar que Deus compraz-se em libertar os seus santos da escravidão natural.

O Breviário romano assinala, entre os mais brilhantes milagres atribuídos a S. Raimundo de Penaforte, a sua travessia da ilha Maiorca a Barcelona, isto é, uma extensão de cento e sessenta milhas marítimas, que ele e o seu companheiro transpuseram em seis horas, sem outra barquinha senão a sua capa.

S. Jacinto, não encontrando barqueiro para atravessar o Vístula, armou-se com o sinal da cruz e entrou resolutamente no rio, cujas águas se formaram firmes debaixo dos seus pés. Os seus companheiros, porém, menos confiantes, não ousavam segui-lo. Volta então a eles e, estendendo a capa sobre as águas, os faz subir na mesma e os conduz assim até à outra margem, diante de numerosa multidão. A Igreja imortalizou esse milagre, consignando-o na bula de canonização e na legenda do Breviário.

Em outra conjuntura, o mesmo santo renova esse prodígio de um modo mais prodigioso ainda. Os tártaros acabavam de tomar de escalada a cidade de Kiev e entregavam já tudo à pilhagem, quando avisaram o santo, que estava no altar, de que não havia um instante a perder se quisesse salvar-se com a comunidade. Ele submeteu-se a esse aviso e, sem deixar as vestes sagradas, toma em suas mãos o santo cibório e dispõe-se a sair. Chegado quase ao meio da igreja, ouviu uma voz forte e queixosa que saía de uma estátua da Virgem, de alabastro, pesando de oitocentas a novecentas libras:

– Meu filho Jacinto, abandonar-me-ás às profanações dos tártaros? Leva-me contigo.

– Gloriosa Virgem – respondeu o devoto servo –, essa imagem é tão pesada! Como poderei carregá-la?”

– Pega nela, meu filho; torná-la-ás leve.

O santo, tendo numa das mãos a Santa Eucaristia, pega com a outra na estátua, que se tornara tão leve como uma cana; e, carregando esse duplo tesouro, passa são e salvo com os seus através dos bárbaros que já invadiam o mosteiro e chega às margens do Dnieper. Aí ele faz do capote uma barca para seus irmãos e atravessa a pé enxuto o rio em toda a sua largura, imprimindo nas águas as suas pegadas.

Teríamos muitos outros fatos semelhantes a contar, porque abundam nas vidas dos santos; mas devemos encerrar essas narrativas para procurarmos a interpretação... (Tomo II, págs. 588-600.)

A independência, em relação aos elementos exteriores, manifesta-se também pela resistência às ações que eles exercem.

É, em alguns casos, uma imobilidade que torna vãs todas as impulsões e todos os esforços. Um dia em que o bem-aventurado Gil, dos frades pregadores, permanecia suspenso no ar pelo êxtase, o seu companheiro e as pessoas da casa onde estavam tentaram fazer descer o seu corpo para o chão; porém nem mesmo conseguiram mudá-lo de posição.

Santa luzia, a mártir de Siracusa, ameaçada com os lupanares, tornou-se tão imóvel que nem os algozes que tinham ordem de a levar, nem várias juntas de bois, às quais a amarraram com cordas, puderam fazê-la mover. (Tomo II, págs. 601-602.)

S. Pascoal Bailão manifestou algumas vezes a sua presença ou, antes, a sua virtude por meio de percussões (percussiones) nas imagens que o representam; mas é principalmente nos relicários, que contêm as suas relíquias, que esses ruídos extraordinários se fazem ouvir, ora suaves e harmoniosos, ora mais acentuados, ora retumbantes como um estourar de bomba. (Tomo II, pág. 229.)

O abade Ribet diz, noutro lugar (II, 547), que Santa Ota era, duas vezes por dia, elevada e sustentada por anjos, enquanto orava.

Além dos santos mencionados por esse escritor como tendo tido levitações, os bolandistas atribuem o mesmo milagre às personagens seguintes, classificadas por ordem de data, desde o século IX até o começo do XVIII: André Salus, escravo cita (tomo VIII, pág. 16); Luca de Sotherium, monge grego (II, 85); Estêvão I, rei da Hungria (I, 541); Ladislau I, rei da Hungria (V, 318); S. Domingos (I, 405, 573); Ludgard, freira belga (III, 238); Humiliana, de Florença (IV, 396); Juta, da Prússia, eremita (VII, 606); S. Boaventura (III, 827); São Tomás de Aquino (I, 670); Ambrósio Santedônio, sacerdote italiano (III, 192, 681); Pedro Armengal, sacerdote espanhol (I, 334); Santo Alberto, sacerdote siciliano (II, 326); Margarida, princesa da Hungria (II, 904); Roberto de Solenthum, sacerdote italiano (III, 503); Inês de Montepoliciano, abadessa italiana (II, 794); Bartolo de Vado, eremita italiano (II, 1007); Isabel, princesa da Hungria (II, 126); Catarina Columbina, abadessa espanhola (VII, 532); S. Vicente-Ferrer (I, 497); Coleta de Ghont, abadessa flamenga (I, 559, 576); Jeremias de Panormo, monge siciliano (I, 297); Santo Antônio, arcebispo de Florença (I, 335); S. Francisco de Paula (I, 117); Osana de Mântua, freira italiana (III, 703, 705); Bartolomeu de Anghiera, frade italiano (II, 665); Columba de Rieti, freira italiana (V, 332, 334, 360); Santo Inácio de Loiola (VII, 432); Salvador de Horta, frade espanhol (II, 679, 680); S. Luís Bertrand, missionário espanhol (V, 407, 483); João da Cruz, sacerdote espanhol (VII, 239); J. B. Piscator, professor romano (IV, 976); Boaventura de Potenza, frade italiano (XII, 154, 157-9).

Podem-se acrescentar a esses nomes os de alguns outros santos ou bem-aventurados, tirados de biografias particulares.

André-Huberto Fournet, sacerdote francês, fundador da Ordem das Filhas da Cruz, 1752-1854 (O. R. P. Rigaud – Vida do bom padre André-Huberto Fournet, pág. 496).

Cláudio Dhière, diretor do grande seminário de Grenoble, 1757-1820 (A.-M. de Franclieu – Vida do Sr. Cláudio Dhière, págs. 293-4).

O bem-aventurado Cura d’Ars, 1786-1859 (Abade Alfredo Monnin – Vida do Sr. João-Batista-Maria Vianey, pág. 159).

Encontrar-se-ão também casos de levitações, efetuadas por religiosos ou religiosas de menor notoriedade, nas obras do Dr. Calmet e nas cartas de Nicolina.

Eis ainda alguns outros fatos:

Na segunda parte do primeiro século da nossa era, o diácono Filipe era arrebatado por um Espírito ao voltar de Gaza, onde fora batizar Candócia, rainha da Etiópia.

Amélineau (Os Monges Egípcios, publicação do Museu Guimet) conta que, tendo os pagãos de Antinoë acusado Schnoudi de haver quebrado os ídolos, este foi soerguido, pelos anjos do Senhor, até uma altura donde podia ainda fazer-se ouvir. Ficou assim suspenso por cima do tribunal do governador durante bastante tempo; depois, desceu pouco a pouco. A multidão levou-o em triunfo.

Em 1555, isto é, no reinado de Carlos V, Tomás, arcebispo de Valença, esteve suspenso no ar em êxtase, que durou doze horas. Esse fenômeno foi constatado não só pelos habitantes do seu palácio e do seu clero, mas também por grande número de cidadãos. Ao voltar a si, tinha ainda na mão o breviário que estava lendo quando o êxtase começara e contentou-se em dizer que não sabia em que ponto ficara da leitura (Bolland, V, 332, 334, 360).

O bem-aventurado Pedro Clavet, apóstolo dos negros, passou uma noite ajoelhado no ar e com um crucifixo nas mãos.

Existem vários quadros e gravuras representando casos de levitação. O mais conhecido é O Milagre de S. Diogo, por Murilo (catalogado no Museu do Louvre sob o número 550 bis). Outro quadro, que se acha numa igreja de Viterbo, mostra um sacerdote elevando-se aos ares no momento em que consagra a hóstia.




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