Albert de Rochas a levitação



Baixar 0,58 Mb.
Página2/8
Encontro10.10.2018
Tamanho0,58 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8

Prefácio do tradutor


Entre os homens eminentes que buscam, pelo método experimental, aprofundar o estudo das causas dos fenômenos psíquicos, encontra-se o ilustre Rochas d’Aiglun (Eugène-Auguste-Albert, Conde de), pertencente a uma antiga família que possuiu o feudo d’Aiglun, perto de Digne, desde o meado do século XV até a época da Revolução em 1789.

Depois de ter feito brilhantes estudos literários no Liceu de Grenoble, começou a estudar Direito para entrar na magistratura, como seu pai e seu avô; porém, não sendo o estudo das leis suficiente para a sua atividade intelectual, ele passou a estudar outras ciências. Em 1836 obteve o prêmio de honra de matemáticas especiais e no ano seguinte foi recebido na Escola Politécnica de Paris. Em 1861 entrou para o Exército na qualidade de tenente de engenheiros, promovido a capitão por merecimento em 1864, tomou parte na guerra de 1870-71 e foi nomeado comandante de batalhão em 1880. A fim de entregar-se com maior liberdade aos trabalhos científicos a que era afeiçoado, deixou prematuramente em 1889 o serviço militar ativo e entrou para a Escola Politécnica na qualidade de diretor civil,1 passando para a reserva com o posto de tenente-coronel.

Os trabalhos militares e científicos do Coronel de Rochas são consideráveis; conhecendo a fundo tudo o que tem sido escrito sobre as ciências psíquicas, experimentador consumado, contribuiu em larga escala para fazer classificar o magnetismo entre as ciências puramente físicas. Estudou a polaridade, contribuiu para a classificação atual das fases do sonambulismo, observou metodicamente os fenômenos espíritas, descobriu a exteriorização da sensibilidade, que não era suspeitada, e mostrou o mecanismo do desdobramento físico.2

Membro de várias sociedades sábias, oficial da Legião de Honra, da Instrução Pública, de São Salvador (Grécia) e das Ordens de São Maurício e São Lázaro (Itália); comendador das Ordens da Sant’Ana (Rússia), do Mérito Militar (Espanha), de Medjidié (Turquia), de Nicham (Túnis), do Dragão Verde (Anam), o Coronel de Rochas é um dos sábios a quem o Espiritualismo e o Magnetismo contemporâneo mais devem.

O presente volume, conquanto se subordine ao título geral de sua obra A Levitação, compreende não só alguns outros pequenos trabalhos do mesmo autor (Os Limites da Física, A Física da Magia e a parte da sua introdução ao livro Os Eflúvios Ódicos), mas ainda o trabalho do Sr. Dr. Carl du Prel sobre Gravitação e Levitação, tendo o Sr. de Rochas permitido e recomendado especialmente essa compilação, em carta que se dignou dirigir-nos.

A levitação é o erguimento espontâneo dum corpo no espaço. De todos os fenômenos psíquicos não há certamente nenhum que pareça mais em contradição com o que se chama leis da Natureza e, entretanto, nenhum outro se presta menos à fraude. Desde tempos imemoriais têm-se constatado fenômenos de levitação em todos os países; as histórias religiosas de todos os países assinalam numerosos casos de levitação de seus santos e hoje as pessoas que gozam dessa faculdade chamam-se médiuns.

Em apoio dessas linhas mencionaremos o que nos diz Apollonius de Tyana: “Vi esses brâmanes da Índia que habitam sobre a terra e que aqui não habitam, que têm uma cidadela sem muralhas e que nada possuem, e entretanto possuem tudo.” Deve-se compreender por essas palavras “que habitam sobre a terra e que aqui não habitam” o fenômeno de levitação. A ciência dos brâmanes lhe foi perfeitamente ministrada logo que estes conheceram o fim da sua visita. Assim que ele chegou à sua presença, o chefe lhe disse: “Os outros homens necessitam perguntar aos estranhos quem eles são, donde vêm e o que desejam. Nós, pelo contrário, como primeira prova da nossa ciência, já sabemos tudo isso; julgai-o por vós mesmo.” O clarividente contou então a Apollonius os principais acontecimentos da sua vida, falou-lhe da sua família, de seu pai, de sua mãe, do que ele tinha feito, etc.. Apollonius, cheio de admiração, suplicou então aos brâmanes que o iniciassem nessa ciência tão profunda, tão sobre-humana, o que lhe foi concedido. Depois de ter completado seus anos de provas, voltou à Europa, onde sua clarividência e as curas que fez maravilharam a todo o mundo.

Eis agora uma tentativa de explicação dos fenômenos de levitação, segundo o Sr. Ernest Bosc, autor de diversas obras de ciência oculta:

“Sabe-se que a Terra é um imenso ímã; diversos sábios o têm dito, entre outros, Paracelso. A Terra está, portanto, carregada duma eletricidade que denominaremos eletricidade positiva, gerada incessantemente no seu interior ou centro, que é um centro de movimento. Tudo o que vive sobre a superfície da Terra, animais, plantas, minerais, enfim, todos os corpos orgânicos, estão saturados de eletricidade negativa, isto é, eles se carregam espontaneamente, constantemente e duma maneira automática, por assim dizer, de eletricidade negativa, isto é, da qualidade contrária à da Terra. O peso ou a força de gravidade não é mais que o resultado da atração terrestre; sem esta não haveria peso e o peso é proporcional à atração, isto é, se esta for duas, três ou quatro vezes mais forte, o peso da Terra será duas, três ou quatro vezes maior.

Portanto, se o homem chegasse a vencer essa força atrativa não haveria razão que o obstasse a se elevar ao ar, como o peixe o faz na água.

Por outro lado, sabemos que o nosso organismo físico pode ser vivamente influenciado pela ação de uma vontade enérgica; esta ação da vontade pode, pois, transformar o estado de eletricidade negativa do homem em eletricidade positiva; então, sendo a Terra e o homem de eletricidade isônomas, se repelem; desaparecendo a lei de gravidade é fácil ao homem elevar-se no ar enquanto durar a força repulsiva.3 O grau de levitação varia, pois, de acordo com a intensidade, a capacidade e a carga elétrica positiva que ele pode condensar no seu corpo. Desde que um homem pode à vontade armazenar no seu corpo uma certa porção de eletricidade positiva, fácil lhe é mudar de peso; executa esse ato tão naturalmente quanto o da respiração.”

Ainda que essa explicação dada pelo Sr. Ernest Bosc possa também aplicar-se à levitação de objetos e móveis, pois que neste caso é igualmente necessário o concurso de um médium ou pessoa que forneça a necessária eletricidade positiva, parece-nos, entretanto, que ela poderá ficar mais completa e satisfatória se dissermos que na maioria dos casos é indispensável a ação de Espíritos ou almas que saibam inverter a polaridade do corpo humano. Compreende-se que uma simples prece, certo estado d’alma, uma mudança de atmosfera ou de meio, a expectativa duma sessão ou um desejo manifestado por tais ou tais vibrações no ambiente fluídico ou astral, tenham em alguns médiuns a propriedade de inverter a polaridade de seu perispírito ou corpo fluídico, de modo que o corpo físico sofra igual ação. É mesmo natural que isto se opere automaticamente, sem o médium saber como, não obstante haver aí somente uma ação sua, mas cujas conseqüências sobre o mecanismo da Natureza ele não apreende completamente.

Agora, já que nos referimos ao astral, permita-nos o leitor que entremos a esse respeito em algumas explicações, visto que não as dá aqui o Sr. de Rochas e elas são necessárias para a boa compreensão dos fenômenos por ele relatados.4

“O astral é, segundo Stanislas de Guaíta, o suporte hiperfísico do mundo sensível; o virtual indefinido de que os seres corporais são, no plano inferior, as manifestações objetivas. Não nos devemos surpreender se se chamar alma cósmica essa luz secreta que banha todos os mundos. Pode-se ainda legitimamente chamar esperma expansivo da vida e receptáculo imantado da morte: pois tudo nasce dessa luz (pela materialização ou passagem de potência em ato) e tudo deve ser nela reintegrado (pelo movimento inverso, ou retorno do objetivo concreto ao subjetivo potencial).

Como a eletricidade, o calor, a claridade, o som, etc. (seus diversos modos de atividade fluídica), ela é ao mesmo tempo substância e força. Os que só vêem nela o movimento, laboram em grave erro: como imaginar um movimento efetivo, na falta de alguma coisa que seja movida? O nada não vibra. Conceber uma agitação qualquer ou alguma outra qualidade no vácuo absoluto é manifestamente absurdo. E reduzir a luz astral ao abstrato do movimento é fazer dela um ser de razão, o que é o mesmo que negar sua existência, embora latente. Deve-se, portanto, defini-la: uma substância que manifesta uma força ou, se se prefere, uma força que aciona uma substância – as duas são inseparáveis. Como substância, nós o dissemos, a luz astral deve ser considerada o substrato de toda a matéria; o potencial de toda realização física; a homogeneidade, raiz de toda diferenciação. É a expressão temporal de Adamah, esse elemento primordial donde, segundo Moisés, foi tirado o ser do universal Adão; ou, para nos servirmos da linguagem esotérica, essa terra de que o Altíssimo fez o primeiro homem. Como força, o Astral nos aparecerá como evirtuado pelo influxo e refluxo dessa essência viva a que chamaremos, de acordo com Moisés, Nepheseh-ha-chaiah, o sopro da vida. Para motivar esse fluxo e refluxo da alma vivente, basta pintá-la puxada, por assim dizer, entre dois ímãs: em cima, Roûach Elohim, sopro vivificador da substância coletiva, homogênea, edenal; embaixo, Nahash, agente suscitador das existências individuais, particulares, materializadas. É o princípio da divisibilidade em face do princípio da integração; é o parcelamento do Eu nascente ou a nascer, que se opõe à unidade do Seu eterno.

Dessa oposição resulta um duplo dinamismo de forças hostis, que convém ser ambas estudadas na sua própria natureza e na lei do seu mútuo mecanismo. Voltando então a Nahash, compreenderemos mais facilmente o mistério do fluido luminoso de mesmo nome, com o contraste das suas correntes opostas e seu ponto central de equilíbrio.

A luz astral é, enfim, a substância universal animada, movida em dois sentidos inversos e complementares, pelo efeito duma polaridade dupla, do pólo integração ao pólo dissolução, e vice-versa. Ela sofre, com efeito, duas ações contrárias: o poder de expansão fecundo, a luminosa Jônah, efetiva das gerações e dispensadora da vida, por um lado; e pelo outro, o poder de constrição destruidor das formas, o tenebroso Hereb, agente principal da morte, e por isso da reintegração (retorno dos indivíduos à coletividade; da matéria diferençada e transitória à substância una permanente e não diferençada).”

Segundo outros autores, podemos também dizer que o astral é o laço físico, embora parcialmente imaterial, que liga o mundo material ou físico ao mundo invisível ou espiritual.

O fluido astral, condensado em corpo astral, é uma das grandes forças da Natureza. É muito abundante, e de todos os corpos emana esse fluido sob a forma de aura ou eflúvios ódicos. É o fluido astral que permite a materialização dos corpos de seres mortos ou vivos; produz então o duplo humano. A força que o põe em movimento e que lhe é inerente chama-se magnetismo; Allan Kardec chamou a isso princípio vital. No infinito, essa substância única é o éter.5 Nos astros que ele imanta, torna-se luz astral. Nos seres organizados, luz ou fluido magnético. No homem, forma o corpo astral ou mediador plástico. A vontade dos seres inteligentes atua diretamente sobre esse fluido e, por seu intermédio, sobre toda a natureza submetida às modificações da inteligência. Esse fluido luminoso é o espelho comum de todos os pensamentos e de todas as formas; conserva as imagens de tudo o que existiu; os reflexos dos mundos passados e, por analogia, os esboços dos mundos futuros.

Mesmer viu nessa matéria elementar uma substância indiferente ao movimento como ao repouso. Submetida ao movimento, ela é volátil; caída no repouso é fixa; mas ele não compreendeu que o movimento é inerente à substância primordial; que esse movimento resulta não da sua indiferença, mas da sua aptidão combinada a um movimento e a um repouso equilibrados um pelo outro; que o repouso absoluto não está em parte alguma da matéria universalmente viva, mas que o fixo atrai o volátil para fixá-lo, no entanto que o volátil atua sobre o fixo para volatilizá-lo. Que o pretendido repouso das partículas aparentemente fixadas não é mais que uma luta formidável e uma tensão maior das suas forças fluídicas que se imobilizam, neutralizando-se. É assim que, segundo Hermes, o que está em cima é análogo ao que está embaixo, a mesma força que dilata o vapor, condensa e endurece o gelo; tudo obedece às leis da vida inerente à substância primitiva; esta substância atrai, repele, coagula-se e dissolve-se com uma constante harmonia; é dupla ou andrógina; abraça-se e fecunda-se; luta, triunfa, destrói, renova-se, mas nunca se abandona à inércia, porque a inércia seria a sua morte.

Essa matéria universal é chamada ao movimento pela sua dupla imantação e procura fatalmente o equilíbrio. A regularidade e a variedade do seu movimento resultam das combinações diversas do equilíbrio. Um ponto equilibrado de todos os lados fica imóvel porque é dotado de movimento. O fluido é uma matéria em grande movimento e sempre agitada pela variação dos equilíbrios. O sólido é a mesma matéria em pequeno movimento ou em repouso aparente, porque é mais ou menos solidamente equilibrada. Não há corpo sólido que não possa imediatamente ser pulverizado, esvair-se em fumo e tornar-se invisível, se o equilíbrio das moléculas cessar de repente. Não há corpo fluido que não possa no mesmo instante tornar-se mais duro que o diamante, se se puderem equilibrar imediatamente suas moléculas constitutivas. Dirigir os ímãs é, portanto, destruir ou criar as formas, é produzir em aparência ou aniquilar os corpos, é exercer a onipotência da Natureza.

Nosso mediador plástico (perispírito ou corpo astral) é um ímã que atrai ou repele a luz astral sob a pressão da vontade. É um corpo luminoso que reproduz com a maior facilidade as formas correspondentes às idéias; é o espelho da imaginação.

Este corpo nutre-se da luz astral, exatamente como o corpo orgânico se nutre dos produtos da terra. Durante o sono absorve a luz astral por imersão e durante a vigília por uma espécie de respiração mais ou menos lenta.

Para resumir, diremos que o corpo astral é o duplo perfeito do nosso corpo físico; contribui para moldar este no ato do nascimento e é amoldado conforme o progresso que o Espírito tiver operado na vida. Após a morte, subsiste ainda, possuindo mesmo todas as sensações, todos os apetites do corpo físico, de acordo com a depuração do Espírito.

O corpo astral durante a vida do homem está nele e fora dele; esta faculdade é que fez dizer que o corpo astral era dotado da quarta dimensão.6

É por uma forte concentração da vontade que o homem pode projetar fora de si o seu corpo astral, pelo menos em parte, pois que, se o projetasse inteiramente, seria isso a morte.

O homem pode, portanto, aparecer fluidicamente (em corpo astral) a uma grande distância do seu corpo físico. Pode mesmo materializar-se, isto é, aparecer com o corpo físico e, nestas condições, ele possui até certo ponto todas as propriedades do corpo terrestre.

Muitas pessoas que em vida nunca projetaram seu corpo astral projetam-no dum modo inconsciente no ato da morte; daí as aparições de finados aos seus parentes ou amigos, aparições freqüentemente relatadas nas obras espíritas.

Um bom magnetizador tem o poder de exteriorizar o corpo astral do seu sonâmbulo. O hipnotizado torna-se desde então uma coisa do magnetizador, que o faz agir à vontade; pode mesmo, traçando um círculo no chão, encerrar aí o corpo astral do sonâmbulo. Enfim, picando esse corpo com um alfinete, maltratando-o, etc., pode fazer experimentar ao sonâmbulo as mesmas sensações, as mesmas dores, em uma palavra, os mesmos efeitos, como se tivesse operado diretamente no sonâmbulo.

O corpo astral é a própria vida do homem; é ele que serve de bálsamo às nossas feridas, às nossas cicatrizes, a toda espécie de feridas que o homem possa ter. É o melhor reconstituinte das nossas forças físicas; reconstitui e refaz qualquer parte do nosso organismo prejudicada por uma moléstia qualquer.

Toda ação boa ou má fica inscrita no astral; mas o corpo astral serve igualmente de receptáculo aos micróbios morais, os quais se propagam por seu intermédio, e, sendo igualmente o registrador do bem, ele nota todas as idéias sãs que produzem o bem da Humanidade. Por aí se vê quanto progrediria a Humanidade, se todos os seres dum ciclo, sendo profundamente morais, só fizessem boas ações.

Enfim, apresentando ao nosso público a narração de variados fenômenos que se operaram com o concurso desse mediador plástico, estimaremos que ela possa induzir a proveitosos estudos de psicologia.

Pitris

Prefácio do autor


O fenômeno da ascensão dos corpos humanos, ou da levitação, para empregarmos o termo hoje consagrado, parece um dos mais extraordinários entre os que são devidos à força psíquica que a nossa geração procura definir. Poucos todavia há cuja realidade tenha sido demonstrada por um número mais imponente de testemunhos.

Esses testemunhos grupei-os aqui, em quatro capítulos diferentes, para não ferir muito as suscetibilidades que se manifestaram há alguns anos, quando tratei deste assunto num artigo da Revue Scientifique, cingindo-me à reprodução dos fatos por ordem de datas.

De um lado, censuraram-me pela falta de respeito à religião, visto confundir os milagres dos santos com as narrativas mais ou menos falsas da história profana. Do outro, argüiram-me por ter tomado a sério os absurdos relatados pelos hagiógrafos.

Não me é possível discutir o valor das obras onde colhi esses fatos, pelo menos quanto aos que são antigos. Cada qual lhes atribuirá o valor que quiser.

Este livro é uma simples compilação destinada a fornecer, àqueles a quem o assunto interessar, uma coleção de documentos que, apesar de incompleta, evitará investigações longas e fastidiosas.

Albert de Rochas


Capítulo I

Casos passados no Oriente


Filóstrato,7 falando dos sábios da Índia, diz:

“Damis viu-os elevarem-se ao ar, na altura de dois côvados, não para causarem admiração (pois que eles se abstêm dessa pretensão), mas porque, em sua opinião, tudo o que fazem em honra do Sol, a alguma distância da Terra, é mais digno desse Deus.”

A propriedade de ficar-se suspenso no ar era um dos caracteres distintivos dos deuses e dos heróis ascetas. Na encantadora História de Nala, traduzida por Emílio Burnouf, a bela Damayanti, pretendida em casamento por três deuses ao mesmo tempo que pelo rei Nala, acha-se subitamente em presença de quatro Nalas indiscerníveis. Muito embaraçada, ela conjura os deuses a que tomem outra vez a sua forma divina, e é então que Damayanti os vê com os seus atributos e sem tocarem no solo.

Na introdução à História do Budismo Indiano 8 encontra-se a seguinte narrativa:

“Então Bhagavat entrou em tal meditação que, apenas o seu espírito se entregou a isso, ele desapareceu do lugar onde estava sentado e, arremessando-se ao ar do lado do Ocidente, aí apareceu em quatro atitudes, isto é, andou, ficou em pé, sentou-se e deitou-se. Alcançou depois a região da luz... O que ele fizera no Ocidente operou igualmente no Seil. Repetiu-o em seguida nos quatro pontos do espaço e quando, com estes quatro milagres, fez testemunhar o seu poder sobrenatural, voltou a sentar-se no seu lugar.”

As anedotas deste gênero são assaz numerosas nos livros sagrados da Índia, mas apresentam-se geralmente sob uma forma mística, que daria origem a equívocos sobre o verdadeiro caráter do fenômeno, se fatos contemporâneos não viessem determinar-lhe com precisão a natureza.

O Sr. Luís Jacolliot refere o seguinte, de que foi testemunha:9 O protagonista era um faquir chamado Covindassamy, que vinha de Frivanderam, perto do Cabo Comarim, no extremo sul do Indostão, e estava somente de passagem em Benarés. Fora encarregado de trazer para ali os restos fúnebres de um rico malabar, e habitava provisoriamente à margem do Ganges, em lugar pouco distante da casa alugada pelo Sr. Jacolliot. Havia vinte dias que se entregava ao jejum e à oração, quando se produziram, entre outras cenas prodigiosas, as duas seguintes, que copio textualmente da obra do magistrado francês:

“Tendo ele pegado numa bengala de pau-ferro que eu trouxera de Ceilão, apoiou a mão no castão e, com os olhos fixos no solo, pôs-se a pronunciar conjurações mágicas e outras momices com que se esquecera de mimosear-me nos dias precedentes.

Com uma das mãos apoiada na bengala, o faquir elevou-se gradualmente cerca de dois pés acima do solo, com as pernas cruzadas à moda oriental, e ficou numa posição assaz semelhante à desses budas de bronze que todos os excursionistas trazem do Extremo Oriente.

Procurei, durante mais de vinte minutos, compreender como podia Covindassamy derrogar assim as leis ordinárias do equilíbrio... Não o pude conseguir; apenas a palma da sua mão direita estava em contato com a bengala. Nenhum outro apoio aparente havia para o seu corpo.” 10

Cumpre notar que a cena se passava no terraço superior da casa do Sr. Jacolliot e que o faquir estava quase inteiramente nu. Da mesma maneira sucedeu com este outro fenômeno:

“No momento em que ele me deixava para ir almoçar e dormir a sesta durante algumas horas, o que era para ele da mais urgente necessidade, pois havia vinte e quatro horas que nada comera nem descanso algum tivera, o faquir parou no vão da porta que dava do terraço para a escada de saída e, cruzando os braços no peito, elevou-se ou pareceu elevar-se pouco a pouco, sem apoio aparente, a uma altura de cerca de vinte e cinco ou trinta centímetros. Um ponto que, durante a rápida produção do fenômeno, eu marcara com segurança, fez que eu fixasse a distância exata. Por detrás do faquir achava-se uma tapeçaria de seda que servia de reposteiro, com as cores vermelha, ouro e branca, em tiras iguais. Notei que os pés do faquir estavam na altura da sexta tira. Ao ver começar a ascensão, eu pegara no meu cronômetro. A produção completa do fenômeno, desde o momento em que o encantador começou a elevar-se até a ocasião em que de novo tocou no solo, não durou mais de oito a dez minutos. Ficou cinco minutos pouco mais ou menos imóvel na sua elevação.

Hoje, que reflito nesta cena estranha, não posso explicá-la de um modo diverso daquele pelo qual tenho interpretado todos os fenômenos que a minha razão já se recusava a admitir, isto é, por qualquer outra causa que não seja um sono magnético, sono que me deixava lúcido, permitindo-me ao mesmo tempo ver pelo pensamento do faquir tudo quanto lhe aprouvesse.

No momento em que Covindassamy me dava a saudação da partida, perguntei-lhe se lhe seria possível reproduzir à vontade este último fenômeno.

– O faquir – respondeu-me ele em tom enfático – poderia elevar-se até às nuvens.

– Como obtém ele esse poder? – perguntei eu.

– É necessário que esteja em constante oração contemplativa e que um Espírito superior desça do céu – foi a sua resposta.”

Eis agora dois fatos igualmente contemporâneos, referidos por indígenas. Foram publicados, em 1880, no Theosophy, revista filosófica que se edita em Madras. O primeiro é narrado por José Ootamram Doolabhram, diretor da Escola de Astronomia de Baroda:

“No ano de Samrut 1912 (1856) – diz o sábio hindu – eu estava ocupado em fazer investigações sobre a antiga química e andava à procura de um mestre competente que pudesse fornecer-me as informações de que eu precisava. Depois de muitas indagações, achei num templo de Mahader, na cidade de Brooch, situada nas margens do rio Narboda, um sangasi (asceta) que praticava a ioga (êxtase), e fiquei sendo um dos seus discípulos. Era um homem de cerca de trinta e cinco anos, estatura um pouco acima da mediana, exterior muito belo, com uma expressão inteligente e faces de uma tez rósea particular, que nunca vi em rosto algum. Tinha a cabeça rapada e usava o vestuário cor de açafrão dos sangasis. Nascera no Pendjah. Era conhecido pelo nome de Narazananaud. Como todos os homens da sua casta, ele era de difícil acesso e não quis aceitar-me como discípulo nem permitiu que eu entrasse em relações familiares com ele sem se ter certificado, por um interrogatório minucioso, da sinceridade das minhas intenções e da minha capacidade para o estudo da ioga. Omito particularidades e me contentarei em dizer que acabei por alcançar o que desejava. Narazananaud aceitou-me como discípulo. Recebi a sua bênção e servi-o por dois anos.

Durante esse tempo, aprendi praticamente muitas coisas que só conhecia em teoria pela leitura dos nossos shastras (tratados de Teologia) sagrados. Iniciei-me em muitos segredos da Natureza e pude convencer-me, com provas numerosas, do poder que o homem tem de dominar-lhe as forças, pois o meu mestre praticava, entre outras coisas, o pranayama ou suspensão do fôlego.11

Não pretendo explicar, na linguagem da ciência ocidental, os efeitos produzidos no corpo humano por esse ramo do yog vidia (união mística da alma com Deus); mas, o que posso dizer é que, enquanto o sangasi estava absorvido e em contemplação, cumprindo o seu pranayama, sentado na postura prescrita do padmazan,12 o seu corpo foi elevado acima do solo a uma altura de quatro pés e ficou suspenso no ar durante quatro ou cinco minutos, ao mesmo tempo em que eu podia passar a mão por baixo dele, certificando-me assim de que a levitação era um fato bem real.”

A segunda narrativa faz parte de um artigo assinado Bubu Khrisna:

“Há cerca de trinta anos, quando eu era um rapazinho de dez anos, em Benarés, vi um parente meu, chamado Amarchand Maitreyer, que era conhecido na cidade pela prática do Yoga dharma (lei de união em Deus). Esse venerável velho podia elevar o corpo à altura de um pé e meio acima do solo e ficar suspenso assim mais de um quarto de hora. Os seus dois netos e eu, que tínhamos quase a mesma idade, perguntamos-lhe, com infantil curiosidade, o segredo desse fenômeno. Recordo-me muito bem de que ele nos disse que, pelo kumbha yoga,13 o corpo humano se torna mais leve que o ar ambiente e pode flutuar acima do solo. Esta explicação pareceu-nos suficiente.” 14

Comunicaram-me a narrativa seguinte, assinada Bavadjée D. Natts, e datada de novembro de 1885:

“Há dez anos viajava eu com um biragi (asceta), quando chegamos perto do ashrma (loja) de uma confrariazinha de místicos no sul da Índia. Pedi ao meu companheiro que me esperasse na aldeia próxima, acrescentando que tinha alguma coisa para fazer na loja, porém ele fez questão de acompanhar-me a fim de tomar conhecimento com os ocultistas. A loja é cercada por duas colinas. No fundo do vale há um bosquezinho e mais além um rio. Pelo outro lado há um subterrâneo que conduz a um templo muito conhecido sob o nome de Hanman e situado no alto da colina. Eu não sabia o que fazer do meu companheiro. Passamos a noite no bosquezinho, decididos a entrarmos no dia seguinte no vale. Logo que nos estendemos para dormir, cerca das 8 horas da noite, o meu companheiro recebeu psiquicamente um aviso para que deixasse desde logo o lugar. Ele acreditou que isso fosse um efeito da sua imaginação e, como tinha vontade forte, resolveu ficar, acontecesse o que acontecesse. No fim de alguns minutos sentiu-se agarrado por enorme e vigorosa mão. Em meio minuto foi transportado para fora do bosque, até à margem oposta do rio, e atirado, sem sentidos, no chão. Atravessei o rio e, depois de o ter magnetizado por algum tempo, ele voltou a si. Não sofria; sentia-se, porém, muito fraco. Disse-me que só perdera os sentidos no momento em que foi atirado ao chão e que sentira perfeitamente a mão enorme do elemental.15 Quis então tentar a entrada no vale pelo outro lado. Dirigimo-nos para a colina onde estava edificado o templo. Aí, deparou-se-nos a entrada do subterrâneo que conduzia à loja. Então ouvimos uma voz forte e clara que induzia o meu companheiro a não persistir no seu projeto. Dizia-lhe que as duas primeiras tentativas seriam perdoadas, porém que uma terceira poderia custar-lhe a razão. Entretanto, como homem resoluto, não deu atenção à voz do Asarivi vak (voz do mundo sem forma). Mal tinha formulado essa resolução em seu espírito, tornou-se inconsciente e foi transportado a alguma distância para baixo até um lugar de descanso, onde tínhamos parado ao subirmos. Uma vez ali, voltou a si.

As pessoas que estavam nesse lugar não podiam compreender como ele para ali voltara tão depressa. No momento em que fora arrebatado, pus-me a descer a colina e gastei uma hora para ir ter com ele.

Quando cheguei, os assistentes afirmaram que o meu amigo estava ali havia uma hora e lamentavam sua sorte. Ele compreendeu então o seu erro e consentiu em esperar por mim. Sem entrar em outras minúcias, direi que durante todo o tempo essa loja foi guardada por dois poderosos elementais, que vedavam a passagem a quem desejasse aí penetrar sem o seu consentimento.

Algum tempo depois dessa aventura, eu e um amigo (graduado na Universidade) relacionamo-nos com um iogue. Passávamos quase todo o nosso tempo em aprendizagem junto dele. O iogue tinha o costume de levantar-se às três horas da manhã e dirigir-se para o rio que ficava próximo de sua casa, voltando somente à tarde. O meu amigo, impulsionado por viva curiosidade, propôs um dia que nos levantássemos antes do iogue e fôssemos esperá-lo nas proximidades do rio para vermos o que ele fazia. Cedi, não sem alguma repugnância. Nessa tarde, quando fomos a sua casa, o iogue sorriu e disse-nos: – Quereis saber o que eu faço próximo do rio. Pois bem! Não precisais de vos tornardes espiões. Irei buscar-vos de manhã cedo e iremos juntos.

Assim o fez. Todos os três, trepados em pedras que estavam no rio, lavamos as nossas roupas, segundo a moda hindu, antes de nos banharmos. Depois de o meu amigo e eu nos termos banhado e feito o nosso sandhzavandana (cerimônia), procuramos com a vista o iogue. Foi impossível encontrá-lo. Eram perto de quatro horas da manhã e a Lua brilhava ainda. Chamamo-lo, porém isso foi igualmente em vão.

Acreditamos então que ele houvesse sido arrastado pela corrente e se afogado, quando vimos aparecer, na superfície da água, a sombra da bela forma do místico com os seus trajes amarelos. Levantamos os olhos e avistamo-lo em pessoa deitado a todo o comprimento como se dormisse numa cama de ar a 30 pés por cima das nossas cabeças. Ao romper do dia, vimo-lo descer com lentidão, até cair suavemente na água. Banhou-se então e voltou para casa conosco.

Desde esse dia, vimos o iogue todas as manhãs, suspenso e flutuando na água durante quase duas horas e meia. Esta experiência se repetiu durante um mês. O iogue chamava-se Ramagiri Swamy.”

Eis como o mesmo autor explica o fenômeno da levitação:

“A levitação no ar, postergando a lei da gravitação afirmada pela ciência moderna, é unicamente explicável pela teoria da atração e da repulsão universal. Se os médiuns são levantados, é porque, temporariamente, são tornados positivos em relação ao magnetismo da Terra, a que se convencionou chamar positivo. Em cada organismo humano há, como no resto da Natureza, os dois magnetismos, o positivo e o negativo. O que chamamos vida não é mais que o resultado da ação e da reação constante dessas forças positivas e negativas. A cessação ou o equilíbrio dessas forças é a morte. Esta observação, todavia, não se aplica aos iogues. Os ocultistas podem à vontade produzir esse equilíbrio em sua natureza física sem morrerem, fato este que se dá com os faquires da Índia, pois podem ficar enterrados durante quarenta dias.

Se fôssemos de natureza inteiramente negativa, estaríamos enraizados como árvores. Se fôssemos completamente positivos, não poderíamos estacionar um só momento no chão e seríamos sempre repelidos da sua superfície, porque as forças positivas se repelem. Quando por nossa vontade saltamos momentaneamente, tornamo-nos positivos; quando ficamos ou nos sentamos no chão, tornamo-nos inteiramente negativos em relação à Terra. Como a nossa força de vontade não é desenvolvida e, por conseguinte, não é tão forte como a de um ocultista, não podemos ser levantados; e se nos conservamos em pé ou ficamos demasiado tempo sentados, sobrevém o cansaço e somos obrigados a mudar de posição.”




1   2   3   4   5   6   7   8


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal