Aguerra e o nazifascismo promovendo um encontro entre o real e o ficcional



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ENCONTRO ENTRE O REAL E O FICCIONAL NO RÁDIO DOS ANOS 40: A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E O NAZI-FASCISMO


Lia Calabre1

Resumo


Como o rádio brasileiro se relacionou com a Segunda Guerra Mundial? Ela esteve presente somente nos noticiários? A idéia central do trabalho é a de resgatar parte das visões que os contemporâneos tinham do conflito, a partir do tratamento dado à questão pelos novelistas. Vão surgir nas tramas os desejos de participação na guerra e as impressões correntes sobre a personalidade, as formas de ação e os desejos dos grupos nazistas e fascistas. Faremos uma incursão no mundo das radiodramatizações transmitidas pela Rádio Nacional, no período entre 1941 e 1946. Serão analisados alguns trechos selecionados de diversas radionovelas em que as temáticas da guerra e do nazi-fascismo se encontram presentes.
Palavras- chave: Radionovela, rádio, Segunda Guerra Mundial, nazi-fascismo, Rádio Nacional.

Na década de 1940, no Brasil, o rádio deixava de ocupar a posição de maravilhosa novidade, tornava-se o “companheiro diário” de um grande número de pessoas. Podemos dizer, que este meio de comunicação chegara mesmo a integrar a lista dos objetos de primeira necessidade.1

Em 1939, tinha início a Segunda Guerra Mundial. No mesmo ano era criado no Brasil o Departamento de Imprensa e Propaganda, órgão encarregado da censura, principalmente nos meios de comunicação. O Brasil vivia o tempo do Estado Novo, a ditadura de Getúlio Vargas. Em várias oportunidades o Presidente deixava transparecer sua simpatia pelos alemães, ao mesmo tempo em que negociava formas de apoio ao desenvolvimento industrial do país com o governo norte-americano.

A função do rádio brasileiro era divertir e informar. Através dele as notícias ganharam velocidade – litoral e sertão inteiravam-se das novidades concomitantemente. Com o inicio dos conflitos na Europa cresceu a atenção sobre o media. Os noticiários ganharam um lugar de destaque nas programações. As agências de notícias internacionais repassavam as informações rapidamente para as emissoras brasileiras, permitindo uma agilidade na divulgação das mesmas – fazendo com que os jornais radiofônicos se antecipassem aos escritos.

Com o ataque alemão a base militar americana de Pearl Harbor, em 1941, os Estados Unidos entravam na guerra e o Brasil declarava solidariedade ao país vizinho. Em janeiro de 1942, o governo Vargas rompeu relações com a Alemanha e com a Itália. Ocorreram em vários pontos do país manifestações antifascistas.

Em 1944, o governo criou o primeiro escalão da Força Expedicionária Brasileira (FEB) para combater na Segunda Guerra ao lado das tropas Aliadas. Apoiado numa forte propaganda nacionalista o Brasil passou a participar mais diretamente do conflito, aumentando a atenção dispensada pela população aos acontecimentos da guerra. Nesse contexto, o rádio se tornou fundamental. Além de produzir noticiários nacionais, algumas emissoras de rádio criaram programas dirigidos aos soldados que lutavam na Europa – estes eram irradiados em ondas curtas.

No segundo semestre de 1944, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro passou a transmitir dois programas, em ondas curtas, contendo mensagens para os soldados: Programa para a FEB e o Mensagens aos Expedicionários, ambos de transmissão diárias às 11h e 15h, respectivamente. Além de atrações musicais, nesses programas eram lidas cartas dedicadas aos soldados, mensagens familiares e depoimentos de incentivo aos que se encontravam na guerra.

As questões ligadas à guerra passam a povoar o cotidiano, são inúmeros os relatos das famílias que adquiriram um aparelho de rádio ou se reuniam especialmente para ouvir as notícias do conflito, como relembra, Walter Clark:



Meu melhor companheiro de maratonas radiofônicas era meu avô Juca, pai de meu pai, a pessoa que mais amei na infância. Ele morava em São Paulo e antes de eu vir para o Rio nós ouvíamos tudo o que o rádio oferecia, principalmente os boletins da agência Reuteurs sobre a guerra e as novelas de aventura da Rádio São Paulo.2

A temática da guerra invade a produção cultural do período estando presente nas músicas, no cinema, nos programas humorísticos e nas radionovelas. Foi exatamente na primeira metade dos anos 40 que as radionovelas surgiram no Brasil e rapidamente se tornaram populares. Em 1941, a fórmula de contar histórias em capítulos, através das ondas do rádio, chegava ao país. Eram dramas, aventuras, mistérios e romances de amor, sempre repletos de elementos do mundo imaginário aos quais somavam-se acontecimentos presentes no dia-a-dia. A questão central dos folhetins é sempre um romance, as histórias giram em torno de um casal, que depois de muitos encontros e desencontros viverão um desenlace, na maioria das vezes feliz.

A relação estabelecida entre a sociedade, representada pelo público-ouvinte e o meio de comunicação, neste caso o rádio, é de mão dupla – o produto que o rádio oferece tem que ser aceito pelo ouvinte-consumidor. Índices satisfatórios de audiência correspondem a uma capacidade de produzir um bom grau de identificação com o público. No caso das produções ficcionais o estudioso Edgar Morin afirma que é necessário que haja condições de verossimilhança e de veridicidade que assegurem a comunicação com a realidade vivida, que as personagens participem por algum lado da humanidade quotidiana.3 Porém, ainda segundo o estudioso, isso só não é o suficiente, é preciso também que o imaginário se eleve alguns degraus acima da vida quotidiana, que as personagens vivam com mais intensidade, mais amor, mais riqueza afetiva do que os comuns dos mortais, é o mundo ficcional combatendo as injustiças e realizando os ideais de felicidade plena.

É exatamente trabalhando com a verossimilhança e a veridicidade que as radionovelas transmitidas pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro conseguiam se colocar entre os programas que alcançavam os maiores índices de audiência em todo o país.4 Diariamente, um grande número de pessoas se organizava para, nas horas livres, ouvir seus programas prediletos.

No mundo dos acontecimentos reais a guerra e o nazi-fascismo eram questões que mobilizavam todo o País, logo não poderiam estar ausentes das radionovelas. Na pesquisa realizada com textos irradiados pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro, entre os anos de 1941 a 1946, a guerra e o nazi-fascismo aparecem em diversas tramas. 5 É interessante ressaltar que as temáticas aparecem sempre de maneira indireta, como uma questão de apoio ou complementação de diálogos que fazem referência ao momento vivido, ou como algo que de alguma maneira interfere na vida dos protagonistas. Não localizamos nenhuma novela que tivesse a guerra como tema central. É interessante ressaltar o fato de que as novelas eram escritas para serem irradiadas imediatamente. Elas começavam a ser criadas e iam para o ar.

A idéia central deste trabalho é a de resgatar parte das visões que os contemporâneos tinham do conflito a partir do tratamento dado a questão pelos novelistas. Vão surgir nas tramas os desejos de participação na guerra e as impressões correntes sobre a personalidade, as formas de ação e as pretensões dos grupos nazistas e fascistas.

A trama de Raymundo Lopes, Uma canção e três destinos, foi ao ar em 1945. A radionovela era ambientada em 1939, tendo como foco central uma família que vivia no interior do país: o pai músico, a mãe dona de casa e três filhos, dois homens e uma mulher. O maior desejo dos filhos é o de ir para cidade grande, como o ideal de felicidade. No final da trama todos retornam para o interior, pois só lá conseguem paz e felicidade.

Um dos filhos do casal que se encontrava nos Estados Unidos, foi um dos “primeiros brasileiros” a se alistar, assim que o conflito tem inicio. O ideal que move o personagem tem como base o perigo da dominação nazista no mundo, a tarefa de “salvar a humanidade”, que segundo ele é dever de qualquer cidadão, independente de sua nacionalidade.


Augusto – (aproximando-se com entusiasmo) – Vocês sabem a novidade?! Os Estados Unidos acabam de entrar na guerra! Os japoneses atacam Pearl Harbor a traição!... Agora teremos que lutar!... Teremos de esmagar os traidores!...

Roberto – (grave) – Mas você não é americano, Augusto!

Augusto - Não faz mal! Esta não é uma guerra só dos Estados Unidos! É uma guerra do mundo inteiro! Depois, o meu país tem um pacto de colaboração em caso de ataque!... Os brasileiros também vão lutar!

Roberto – A guerra é dos europeus, asiáticos e americanos do norte.

Augusto – (num protesto) Não é verdade! Esta é uma guerra da humanidade inteira! É a luta pela conservação da liberdade universal! E aquele que fugir a luta, não é digno de partilhar do mundo melhor que surgirá amanhã! É uma luta de vida ou morte, mas nos dois no caso uma luta pela liberdade, uma luta contra a tirania dos ditadores ambiciosos, que querem privar a humanidade do direito de ser livre.

Roberto – (sorrindo) Você fala como um senador!...

Augusto – Eu falo como um homem livre, Roberto!...

(enquanto isso, no Brasil, os pais de Augusto comentam o fato)

Jerônimo – Todos nós sentimos muito, Rosa... Mas que fazer? A guerra é assim. Esses moços que hoje sacrificam a sua vida, serão lembrados com carinho pelas gerações futuras, que lhes deverão a sua liberdade e o seu bem-estar.



Rosa – É, meu filho também está nessa guerra.

Jerônimo – O que é uma honra para nós! O Brasil ainda não entrou na guerra, e o nosso filho já o está representando nessa tremenda luta, que é a luta da humanidade inteira!6
A convocação para a participação patriótica, a importância de colocar-se a serviço da nação para participar do conflito apresentado no texto retratam bem o clima vivido no momento. Apesar de não ter entrado logo na guerra, o Brasil se preparava para ela. Já em 1939, os reservistas eram convocados e colocavam-se à disposição do serviço militar. O cartaz de convocação alertava “Si não és reservista, ainda não és brasileiro”.7 As manifestações pela entrada do País na guerra não podiam ser desprezadas pelos escritores. A ida para guerra é retratada com orgulho nas radionovelas, pois aqueles que lutam defendem a liberdade, cumprem sua obrigação de cidadãos. A novela terminou de ser escrita em janeiro de 1945, quando a FEB estava ainda lutando na Itália. Como se trata de um texto ficcional, o autor pode utilizar-se do recurso de recuar ou avançar no tempo, colocando em um texto de 1945 os ideais de 1939 e 1940 e a certeza da entrada no conflito lutando ao lado das forças aliadas. O discurso contra a tirania dos ditadores pode ser interpretado também como uma manifestação discreta contra a própria ditadura estadonovista vivida pelo Brasil.

Vejamos outra trama, onde o conflito também é considerado como a luta da humanidade pela democracia, empreendida por personagens de diversas nacionalidades.


Ronald – A estas horas ele já deve estar sobrevoando a capital do crime e da degradação... a capital do nazismo... meu filho Robert já deve ter dado a ordem para sua esquadrilha deixar cair as bombas, com que serão vingadas as dores e os sofrimentos da humanidade, vilipendiada por Hitler. (Efeito de explosões e piques de aviões ainda em cortina). Dos escombros fumegantes da antes orgulhosa capital nazista nasce uma certeza esplendorosa, iluminada pelo clarão dos incêndios, para toda a humanidade sofredora... a certeza de que estão próximos os dias em que surgirá magnífica em toda face da terra a auréola da liberdade e da justiça, para os oprimidos de todo o mundo. Sim Margaret... sinto-me feliz Margaret. As bombas que meu filho Robert despeja sobre Berlim, é a vingança contra os crimes que eles cometeram...8
Nesse caso, os personagens são ingleses, o pai lutou na Primeira Guerra, saiu ferido e o filho o representa no conflito seguinte derrotando o inimigo. É interessante notar que a problemática central de A Conquista do Sertão, de Rui do Amaral, é a dos problemas vividos por um engenheiro-chefe para fazer uma estrada de ferro atravessar uma vila no sertão brasileiro. O maior obstáculo está na resistência de um fazendeiro conservador. A reflexão acima apresentada é feita por um dos engenheiros-auxiliares, no último capitulo da novela, sem que o autor tenha se preocupado em criar uma ligação maior entre a história pessoal do personagem e de suas recordações com o conjunto da trama. Em geral os últimos capítulos das radionovelas (e das telenovelas) são os de maior audiência o que aumenta a importância do diálogo sobre a guerra. A trama foi irradiada de junho a agosto de 1944, exatamente no momento do desembarque das forças aliadas na Normandia – ”O Dia D” – e da retomada de Paris. O diálogo anunciava o inicio da derrota alemã, transpondo para a narrativa ficcional os sentimentos vivenciados com os acontecimentos contemporâneos.

Mas, os combatentes e os vilões nazi-fascistas do mundo ficcional não se encontravam apenas na frente de batalha.


Pasqual – Portanto, Walter... eu tenho o dever de lhe contar minha vida... sei que até hoje sou mistério para você... Nunca me perguntou nada sobre o meu passado... Agora eu estou disposto a lhe revelar tudo, Walter... quando você me salvou, fazia um ano que eu estava aqui, foragido da Itália... Sabe o que eu era na Itália, Walter?

Walter – Nunca me disse professor...

Pasqual – Eu era um dos chefes do movimento antifascista da Sociedade dos Libertadores...



Walter – Ah.

Pasqual – A sociedade organizou-se logo depois da marcha sobre Roma. Queríamos derrubar o governo daquele palhaço, que conseguiu a Itália, um país miserável, uma nação infeliz...

Walter – Mas o tal palhaço professor, já está se aproximando do seu último castigo...

Pasqual – Graças a Deus! Deus protege a Itália... Pois como ia falando Walter, eu era um dos chefes da Sociedade dos Libertadores.9
Na trama Um fantasma de mulher um dos vilões é um traidor da Sociedade dos Libertadores, que após denunciar seus membros para a polícia, na Itália fascista de Mussolini, foge para os Estados Unidos e, em seguida, se refugia no Brasil e será reconhecido por Walter. A perseguição aos inimigos da democracia, segundo o texto, é implacável, eles não escaparão. Como nos casos anteriores, o tema central da trama não está ligado aos problemas da guerra. O vilão principal não tem relação alguma com os problemas europeus, tanto o fascista quanto o antifascista são personagens de apoio próximos aos protagonistas. A caracterização dos seguidores do nazismo e do fascismo nos textos radiofônicos é a de vilões da humanidade, inimigos que tem que ser perseguidos. Os adjetivos dispensados ao conde fascista são: ardiloso, um vilão inteligente, um miserável espião e o diabo em figura de gente.

Ao recordar o acontecido o personagem anti-fascista, afirma que os inimigos da democracia estão condenados e que serão perseguidos por todo o mundo.


Pasqual – Era um capitão fascista. Nós não desconfiávamos... Foi ele quem nos denunciou... Por sua culpa a nossa revolução foi sufocada, e muitos companheiros nossos, centenas de homens e mulheres foram fuzilados, pelos camisas negra...

Walter – Que canalha...

Pasqual – Entretanto, a sociedade não morreu... aumentou, até... espalhou-se por toda a Itália, por toda a Europa, pela América, combatendo o fascismo... E nos nossos estatutos – o primeiro artigo – era sobre os traidores... Eles eram condenados à morte, estivessem onde estivessem....10
Cumprindo a função de ser o lugar onde as injustiças e os crimes são punidos, a novela termina com o Conde fascista morto, ele é assassinado pelos membros da Sociedade dos Libertadores.

Os personagens que apóiam os alemães, também são apresentados como vilões que desprezam a democracia. Na novela Revelação a temática central é a de uma usina, onde são cometidas várias injustiças contra os trabalhadores. Entre os engenheiros há os que apóiam a necessidade de excelentes condições de trabalho e os que somente visam o lucro. Oswaldo, um engenheiro desonesto elogia a inteligência alemã. Rubens, o operário vilão faz análises sobre a conjuntura:

Rubens – Se tivéssemos perdido, os alemães teriam vencido... e as coisas não estariam tão pretas!

Lucia – Rubens!... Não diga tolices!... Você sabe muito bem que a vitória dos alemães seria a escravização do resto do mundo!...

Rubens – Balelas! História que os ingleses e os americanos inventaram para justificar essa guerra estúpida.11
Todos os alemães em território inimigo são suspeitos de serem traidores. No mundo ficcional, eles estão sempre prontos a roubar planos, contrabandear mercadorias e mesmo os que não queriam colaborar acabavam sendo pressionados a fazê-lo. Como é o caso de alguns personagens de Ressureição.
Walter – Felizmente cá estamos nós de posse do precioso invento que o nosso governo tanto cobiçava.

Fritz – Afinal, eu não compreendo senhor Walter o interesse tão grande por estas armas se estamos em tempo de paz?

Walter – Você nunca ouviu dizer que um homem prevenido vale por dois?

Fritz – Já.

Walter – Pois então fique sabendo que uma nação armada vale por mil. E pergunte pouco rapaz. Nossos agentes só devem ser curiosos das coisas que lhes compete vigiar.

(...) [Levy lembrando como entrou para o bando].

Walter – Senhor Levy, o senhor não pode ficar indiferente de sua Pátria e precisa filiar-se a nosso grupo. Mesmo porque todo alemão que se negar trabalhar pelo Reich será marcado por nós, ao passo que, trabalhando para nós, terá uma porção de vantagens. Pense bem. Eu voltarei outro dia para saber a sua resposta.



Levy – E voltou uma porção de vezes. Perseguindo-me com ameaças. Tentou-me com mil promessas sedutoras até que não resisti mais e eu, que era um cidadão pacato, me transformei, de um dia para o outro, num escravo, num espião do Reich...12

Ressureição foi irradiada em agosto de 1944, era composta por 32 capítulos. Quando a trama é iniciada, ficcionalmente, a guerra ainda não havia começado, ela só é desencadeada no capítulo 24. O protagonista é um cientista, um químico, que faz experiências com torpedos. Os espiões nazistas roubam os planos, no capítulo 7, mas não conseguem utilizar as fórmulas. O autor indica que mesmo antes do início da guerra os alemães se preparavam para iniciar um processo de dominação mundial e que para isso deveriam roubar as invenções que vinham sendo desenvolvidas nas mais diversas partes do mundo.

A tragédia da guerra também vitima alguns protagonistas. Os torpedeamentos de navios se encontravam presentes no universo ficcional. Em Revelação, de Lúcio Ricardo, o navio que vinha dos Estados Unidos com a protagonista e seu filho foi afundado, mas os dois sobrevivem. Já, uma das protagonistas de Um pedacinho do céu,13 de Raymundo Lopes, ao retornar da Europa com se filho não consegue se salvar, somente o filho escapa. Em nenhum dos textos pesquisados foram localizadas manifestações pró-fascistas. A posição é sempre a de apoio aos ideais de democracia em bases ideológicas norte-americanas e de combate aos governos ditatoriais. A posição nazi-fascista é sempre associada ao que pode haver de pior na humanidade.



O mundo ficcional apresentado a partir das radionovelas está repleto das características do seu próprio tempo. Na maioria das vezes, os textos vêm reforçar a ideologia dominante, mas nem por isso devem ser consideradas imagens absolutas desta. O que está expresso nos textos é a decodificação de um tempo através do olhar de um produtor cultural, que, como tal, assume uma serie de responsabilidades diretas e indiretas. Segundo Mário Brassini. “a responsabilidade de quem produz é muito grande em relação àquilo que o mesmo pode incutir na cabeça do ouvinte ou do telespectador”.14 Os autores de rádio não se pretendiam doutrinadores, mas mantinham em seus discursos a preocupação com a moral vigente na época. Buscavam transmitir através dos textos o máximo possível do senso comum. Transferem-se para o universo ficcional manifestações de aprovação ou de repudio a determinados comportamentos. O vilão rico é punido. A justiça não falha. Os romances têm finais felizes, como se os problemas cotidianos pudessem ser resolvidos no espaço ficcional e a realidade nele se espelhasse, ou que este pudesse alterar os problemas diários. Vejamos um artigo da revista Diretrizes, assinado por Gomes Filho:
Sempre com maior franqueza temos combatido a “epidemia” das novelas radiofônicas. Em câmbio, temos tido também a honestidade de louvar os raros e bons programas do gênero. (...) Queremos falar de “Três Vidas”, original de Amaral Gurgel. (...) Em uma dessas últimas noites, o autor nos colocou em pleno “Tribunal do Júri”, para assistir o julgamento de uma pobre senhora acusada injustamente de ter assassinado o seu marido. Fixou bem ali o novelista, a brutalidade das acusações oficiais, a palavra sempre desumana dos “promotores públicos”, representantes da força, industriais da culpa a qualquer preço! E depois colocou na Tribuna o “advogado da defesa”, que teve em Saint Clair Lopes um grande interprete. O público rádio-ouvinte devia ter sentido então, quanto vale a palavra franca, leal e sincera que procura encontrar a justiça, desfazendo um erro. Nesses tempos dolorosos, em que o “fascismo”, alastrado em todas as latitudes, procura amordaçar os homens, não os deixando nem política, nem socialmente – com o “direito de opinião”, deve ter feito bem a muita gente que estava ouvindo a novela Três Vidas, o sentido humaníssimo daquele debate em prol da liberdade.15.
O autor do artigo aproveita o conteúdo ficcional para questionar a conjuntura em que se encontrava, denunciando a arbitrariedade da justiça em meio à ditadura estadonovista, quando classifica de “brutas” as acusações oficiais e de “desumanas” as palavras dos promotores públicos. O cronista alerta ao leitor-ouvinte contra as malignas influências fascistas que grassavam por todo o mundo. A crônica-declaração do cronista-ouvinte acima destacada é uma interpretação pessoal, entre as muitas que o episódio da radionovela de Amaral Gurgel pode ter suscitado junto ao público. A forte censura política exercida pelo DIP fazia com que as críticas ao governo tivessem que ser feitas de maneira sutil, inteligente e indireta.

As ficções radiofônicas, que embalaram os sonhos de praticamente duas gerações, também contribuíram para que algumas questões morais, de comportamento social e até mesmo políticas, passassem a ser discutidas por um número muito mais amplo de pessoas. Construíram o retrato de uma sociedade sobre os pilares das questões contemporâneas, o que nos permite entender parte das normas formais e informais de comportamento vigentes na época.

O trabalho com textos ficcionais é rico em surpresas e em complexidades. Como qualquer documento, os textos de ficção devem ser analisados com cautela, buscando nas presenças e ausências de alguns temas ou questões os elementos reveladores do cotidiano. O que apresentamos aqui é uma pequena amostra das diversas possibilidades de exploração que oferece o universo radiofônico, pretendendo que esta sirva de estimulo para que novos exploradores aventurem-se por este universo pouco conhecido.
Referências Bibliográficas:

AZEVEDO, Lia Calabre. Na sintonia do tempo: uma leitura do cotidiano através da produção ficcional radiofônica (1940-1946). 1996. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal Fluminense, 1996.

CHARTIER, Roger. Cultura popular: revisando um conceito historiográfico. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v.8, n.186, 1995.

CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante e Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Geração Editorial/Edusp. 2000

GOMES FILHO, Novelas, fascismo e liberdade. Diretrizes, Rio de Janeiro, p.23, 2 dez. 1943.

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: O breve século XX - 1914-1991. São Paulo: Cia das Letras, 1995.

MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1981. V.1: O espírito do tempo, p.83.

NOSSO Século-Brasil 1930-45 (II). São Paulo: Abril Cultural, 1985.





1 Pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa, Doutora em História Social.


1 Fato que hoje ocorre com a televisão. Em pesquisas recentes feitas pelo IBGE, ficou comprovado que as famílias brasileiras possuem um número muito superior de aparelhos de televisão quando comparado ao de geladeiras, chegando mesmo a encontrar muitas residências sem nenhuma geladeira mas com televisão.

2 Clark, Walter. O campeão de audiência. São Paulo, Ed. Nova Cultural, 1991. P. 20

3 MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1981. V.1: O espírito do tempo, p.83

4 As radionovelas e os programas musicais ocupavam os primeiros lugares na preferência nacional dos ouvintes.

5 Foram localizados e consultados 34 textos completos de radionovelas irradiados pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro no período de 1941 a 1946. Ver: Azevedo,Lia Calabre Na sintonia do tempo: uma leitura do cotidiano através da produção ficcional radiofônica (1940-1946). 1996. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal Fluminense, 1996 .

6 Uma canção e três destinos de Raymundo Lopes. Jan./1945. Ref.28/80. Arq. Rádio Nacional.

7 Extraído de uma fotografia de propaganda militar de 1939. Nosso Século – Brasil 1930-45 (11) SP, Abril Cultural, 1985. p.81.

8 A conquista do sertão de Rui do Amaral. Junho/1944. Ref.50/80. Arq. Rádio Nacional.

9 Um fantasma de mulher de Pedro Anísio. julho/1944. Ref.39/80. Arq.Rádio Nacional.

10 Um fantasma de mulher, de Pedro Anísio. julho/1944. Ref. 39/80. Arq. Rádio Nacional.

11 Revelação de Lucio Ricardo, jan/1945. Ref.02/80. Arq. Rádio Nacional.

12 Ressurreição, de Jesy Barbosa, agosto/1944. Ref.25/80. Arq.Rádio Nacional.

13 Um pedacinho do céu, julho/1945. Ref. 59/80 . Arq.Rádio Nacional

14 Depoimento de Mário Brassini. MIS-RJ, junho/93.

15 GOMES FILHO, Novelas, fascismo e liberdade. Diretrizes, Rio de Janeiro, p.23, 2 dez. 1943






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