Adrian Mole: Na idade do Capuccino Sue Townsend



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Adrian Mole: Na idade do Capuccino
Sue Townsend
Nota da contra-capa:

Sue Townsend vive em Leicester. Conhecida autora de vários livros e peças teatrais, é mãe de quatro filhos, assistente social e bolseira da cadeia de televisão « Thames TV». Quando, aos 36 anos, escreveu o Diario Secreto de Adrian Mole aos 13 anos e 3/4, jamais imaginou o sucesso que este livro viria a alcançar, não só em Inglaterra como em quase todos os países da Europa e até no Japão. O mesmo sucedeu, aliás, com os três livros seguintes sobre a mesma personagem.

É também autora dos livros A Rainha e Eu, A Nova Coventry e Crianças Fantasma, todas estas obras publicadas em Portugal pela Difel.
ADRIAN MOLE:

Na idade do Cappuccino


Outros Volumes Publicados:

Allende, Isabel

A Casa dos Espíritos

De Amor e de Sombra

Eva Luna

Contos de Eva Luna

O Plano Infinito

Paula

Filha da Fortuna

Bradley, Marion Zimmer

As Brumas de Avalon I, II, III, IV

Presságio de Fogo

A Casa da Floresta

Salto Mortal

As Mulheres da Casa do Tigre

O Poder Supremo

I -O Círculo de Blackburn

II - As Forças do Oculto

III- A Fonte da Possessão

IV-O Coração de Avalon

A Herdeira

Duras, Marguerite

O Amante

A Dor

Outside

O Vice-Cônsul

Olhos Azuis Cabelo Preto

A Vida Material

Dez Horas e Meia numa Noite de Verão

Uma Barragem Contra o Pacífico

A Ausência de Lol V. Stein

Vida Tranquila

Escrever

Os Insolentes
Yourcenar, Marguerite

Como a Água que Corre

O Tempo, Esse Grande Escultor

Alexis, ou o Tratado do Vão Combate

A Beneficio de Inventário

O Labirinto do Mundo

Memórias (Souvenirs Pieux)

Arquivos do Norte

O Quê? A Eternidade Fogos
Eco, Umberto O Nome da Rosa

O Pêndulo de Foucault

A Ilha do Dia Antes

] Joyce, James Ulisses Retrato do Artista Quando Jovem

McCullough, Colleen

Uma Obsessão Indecente

Tim

Pássaros Feridos

O Terceiro Milénio

O Primeiro Homem de Roma (em cinco volumes)

A Canção de Tróia
SUE TOWNSEND
ADRIAN MOLE: Na idade do Cappuccino

Tradução


de
RUTE ROSA DA SILVA
2.” Edição DIFEL

Difusão Editorial, S. A.


Título original: Adrian Mole: The cappuccino years

© 1999, Sue Townsend

Todos os direitos de publicação desta obra em língua portuguesa, excepto Brasil,

reservados por:

DIFEL

Difusão Editorial, S. A.

Denominação Social Sede Social

Capital Social Contribuinte nº

Matrícula nº8680

- DIFEL 82 - Difusão Editorial, S .A.

- Avenida das Túlipas, n.° 40-C

- Miraflores

- 1495-159

Algés - Portugal

- Telefs.: 214120848 - 214120849

- Fax: 214120850


- E-mail: Difel.SA@mail.telepac.pt
- Conservatória do Registo Comercial de Oeiras
Capa: Fernando Felgueiras
Revisão Tipográfica: Amélia Moreno
Composição: Estúdios Difel
Impressão e acabamento: Tipografia Guerra - Viseu

Depósito Legal nº 153 094/2000

ISBN 972-29-0507-4 /Julho de 2000

Proibida a reprodução total ou parcial sem a prévia autorização do Editor


Para Louise
A criança grande que ali vêem ainda não largou as fraldas.

Shakespeare, Hamlet
É verdade, podíamos nunca ter aqui chegado, mas a verdade é que chegámos. Se as pessoas pensassem um pouco mais nisso, veriam que a vida não merece tanta preocupação.

Lermontov, Um Herói do Nosso Tempo


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Lista das Principais Personagens
ABBO ALAN: Representantes da filial de Ashby-de-la-Zouch da Fundação Terrence Higgins, seleccionados para participar no cortejo fúnebre de Diana.

ANDREW: O gato de Archie Tait.

ANNETTE: Vendedora do Jornal Standard no Strand e que está envolvida numa relação carnal com Malcom, o copeiro do Hoi Polloi, o restaurante onde Adrian trabalha.

Nota: Hoi Polloi: Ralé. (Nota da Tradutora)


ASHBY: O bebé de plástico da Rosie Mole.

ATKINS, JEFFREY: O dentista que deu a Adrian uma segunda opinião. Um homem meigo com sobrancelhas ruivas.

AZIZ: Ajudante de cozinheiro no Hoi Polloi.

BANKS, LÊS: Empreiteiro azarado contratado por Adrian para fazer obras na casa de Archie Taite.

BAXTER, BERT: Um conhecido de Adrian, já falecido, reformado Comunista e o homem mais idoso e mais detestável de todo o Leicester. Morreu um dia antes de fazer 106 anos.

BELINDA: A assistente de produção do Zippo Montefiori.

BOTT, GLENN: Filho de Sharon Bott. Tanto pode ser filho de Barry Kent como de Adrian Mole. Na opinião de Rosie Mole é um psicopata, mas tem o nariz igual ao de Adrian.

BOTT, SHARON: Antiga namorada de Adrian. Mãe de Glenn Bott. Também mãe de Kent, Bradford e Caister.

BRAITHWAITE, IVAN: Pai da Pandora. Supostamente consultor independente da indústria de lacticínios e um livre-pensador.

BRAITHWAITE, DR.” PANDORA: Aspirante a Deputada Trabalhista por Ashby-de-la-Zouch. Auto-denominada «Estrela Mais Brilhante do Firmamento Blair e «A Pan do Povo». O primeiro amor de Adrian Mole, que em 1981 foi a primeira pessoa


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a inserir a mão (esquerda) por baixo do seu soutien

desportivo de algodão branco. BRAITHWAITE, TÂNIA: Mãe de Pandora. Ensina Estudos Sobre

as Mulheres na Universidade De Montfort. BROADWAY, BILL: O subempreiteiro de Lês Banks. CAINE, ALFIE: Falso cockney e apresentador de Frituras, uma

produção da Pie Crust.

CATH: Assistente de produção de Offally Good!, outra das produções da Pie Crust.

CAVENDISH, JACK: O amante de meia-idade e companheiro de

Pandora. Alcoólico e Professor de Línguas em Oxford.

CHANG, MR.: Dentista que já não trabalha para os pobres que,

segundo ele, «auto-provocam a cárie.»

CLEVER CLIVE: Um marginal, conhecido de Adrian, que

consegue arranjar licenças de estacionamento no Centro de

Londres.

CLOUGH, MS: Apoiante do Partido Trabalhista e mãe solteira

de três filhos.

DALE, LILLIAN: Candidata do Partido Ecologista pelo círculo de

Ashby-de-la-Zouch.

D’ARCY, MABEL: Reformada e apoiante do Sir Arnold Tufton.

O Trisavô foi um dos oficiais sobreviventes do Titanic.

DOUGGIE: Amante e companheiro de Sharon Bott.

DOVECOTE, CHARLIE: Advogado de Pauline Mole.

EAGLEBURGER, BRICK: Agente literário de Barry Kent.

EDDIE STOBART: Uma empresa de camionagem. Alguns dos

seus motoristas acenam e outros não.

ELF, MISS: A tímida mas eticamente íntegra professora de Arte

Dramática de Adrian e de Pandora na Escola Secundária Neil

Armstrong.

FLOOD, ELEANOR: Professora das aulas de apoio extraordinário

de leitura na Escola Secundária Neil Armstrong. Tem pulsos

frágeis.

FONG, DR.: Médico na Leicester Royal Infirmary que examinou

o William Mole.

FOX, LEN: Criminoso. Magnata dos telemóveis e amigo de Sir

Arnold Tufton.

GIPTON, FRED: Actor com conhecimentos privilegiados relativamente aos resultados eleitorais.


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GOLDMAN, posteriormente GOLDPERSON, BOSTON: Assistente pessoal do Brick Eagleburger.

GRIMBOLD, MÁRCIA: Candidata do Movimento Devolvam-nos

os Impostos Prediais.

HETERINGHTON, GLORIA: Mulher de Godfrey. Actriz ideal

para a interpretar: Pauline Quirke.

HETERINGHTON, GODFREY: Herói da Carrinha Branca, a hilariante comédia sobre assassínios em série da autoria de Adrian

Mole. Contabilista durante o dia e assassino em série durante a

noite. Idealmente seria interpretado por Harry Enfíeld. HUMFRI: O gato adoptado pelo Malcom. É muitíssimo parecido

com Humphrey, o gato do número 10 de Downing Street.

JIMMY O GREGO: Proprietário de uma taberna grega ao lado do



Hoi Polloi.

JUSTINE: Bailarina erótica no clube Secrets.

KENNETH: Empregado de mesa no Hoi Polloi.

KENT, BARRY: Antigo skinhead e patife local, transformado em

novelista e poeta vencedor de prémios. Autor do poema «Nu»

e do clássico moderno, O Diário de Dork.

KENT, EDNA: A mãe de Barry Kent. Empregada de limpeza

de sanitários, posteriormente diplomada duas vezes e secretária de Pandora na Câmara dos Comuns.

KEVIN: Vendedor pouco atencioso no Hamleys.

GRANDALHÃO, ALAN: Proprietário do Secrets, bem como do

165, um novo bar da moda.

LEAF, SANDRA: Segurança da empresa Citadel Security Ltd,

de maxilares quadrados, que provoca a ira e ameaças de processos judiciais por parte de Pauline Mole ao seleccioná-la

aleatoriamente para uma revista corporal na noite das eleições. Vede! As Colinas Planas da Minha Terra Natal: o romance da autoria de Adrian, mais tarde rebaptizado Observação de Pássaros e

para o qual ele continua, incrivelmente, à procura de editor.

LUCY: Enfermeira na Royal Infirmary do Leicester e mãe solteira.

LUIGI: Chefe de mesas no Hoi Polloi. Um Comunista Italiano que

vota Liberal Democrata e vive em Croydon.

LUPIN, SKY: O conselheiro anú-stress de Adrian.

MALCOM: Copeiro no Hoi Polloi. Continua indeciso relativamente

ao voto.

MARILYN: Uma funcionária bancária kamikaze.


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MICHELWAITE, AARON: Jovem detestável mas bem falante cuja

companhia agrada a Rosie Mole.

MOLE, GEORGE: O pai de Adrian. Desempregado e padecendo

de impotência sexual.

MOLE, JO JO: A mulher de Adrian, de quem este está separado.

Voltou para a Nigéria. Mãe de William. É bela, inteligente, tem

dinheiro e talento e, francamente, não pertence ao mesmo

campeonato de Adrian, para além de ser dez centímetros mais alta

do que ele.

MOLE, PAULINE: A mãe de Adrian. Admiradora da Germaine

Greer, insatisfeita e frustrada.

MOLE, ROSIE: Irmã de Adrian. Tem quinze anos e é vaidosa e

malcriada.

MOLE, SUSAN: Tia de Adrian e Guarda Prisional do Ano em

1997. É «casada» com Amanda.

MOLE, WILLIAM: O filho pequeno de Adrian. Está fascinado

pelos Teletubbies e pelos vídeos do Jeremy Clarkson.

MONTEFIORI, ZIPPO: Director executivo da Pie Crust, produtora

do Offaly Good! e do Frituras.

MUTTON, KEITH: Candidato pelo Partido Monster Raving Loony.



Nota: Partido político de tendência anarquista. (Nota da Tradutora)
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PURBRIGHT, LENNIE: O agente eleitoral de Pandora.

Cokney e, anteriormente, proprietário de uma banca de venda de búzios.

RAJIT: Empregado da loja da BP.

ROD: Proprietário da loja Hot Rods no Soho, em frente ao Hoi Polloi.

SASHA: Ajudante de cozinheiro no Hoi Polloi.

SAVAGE, PETER: Proprietário aristocrata e malcriado do Hoi

Polloi. Acredita num «Menu Único Tradicional Inglês.» Sofre

de incontinência provocada pelo stress. Odeia o Tony Blair e

o Novo Trabalhismo.

SAVAGE, KIM: Ex-mulher de Savage e ex-florista da sociedade.

SEAN: Empregado de mesa no Hoi Polloi, SCRUTON, MR.: Também conhecido por Scruton-dos-Olhos

-Esbugalhados. Antigo director de Escola Secundária Neil

Armstrong e fanático seguidor da Mrs. Thatcher.

SINGH, DEV: Adorável co-apresentador double-entendre do



Offally Good!.

SPICER-WOODS, CHRISTINE: Candidata do Partido das Lésbicas Socialistas Contra a Globalização.

STOAT, ARTHUR: Editor e director executivo da Stoat Books

Ltd, que quer editar o Offaly Good! - O Livro.

SURINDER, DR.: Médica da Leicester Royal Infirmary que examina o William.

SWAYWARD, JUSTIN: Empregado e representante em tribunal

da Shoe Mania!

TAIT, ARCHIE: Reformado e votante do Partido Trabalhista Socialista.

TRELLIS, MISS: A professora de matemática de Glenn Bott.

TUFTON, SIR ARNOLD: Deputado conservador por Ashby-de-la

-Zouch e adversário de Pandora nas eleições gerais.

TWYSTLETON-FIFE, JULIAN: O ex-marido homossexual de

Pandora.

VALENTINE DUFF, RON: Candidato do Partido Repatriem os

Estrangeiros.

WELLINGBOROUGH, MRS.: A recepcionista do Mr. Chang.

WONKY, DAVE: DJ da rádio Zouch FM.

WORTHINGTHON, HARRY: Reformado e apoiante do Partido

Trabalhista.

ZO: Cabeleireira e maquilhadora da Pie Crust Productions.


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Para Louise
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Dean Street, Soho
Quarta-feira, 30 de Abril de 1997
Pego mais uma vez na caneta para registar um momento importantíssimo para os homens (e, graças a Deus, como este é um diário secreto, não tenho de acrescentar «e para as mulheres».)

Depois de amanhã, dia dois de Maio, ao romper da aurora, prevejo que o Partido Trabalhista ganhará à justa e formará o próximo Governo. Os rumores de um terramoto eleitoral não passam de disparates histéricos alimentados pelos media.

As minhas previsões baseiam-se em fontes «privilegiadas». A fonte privilegiada é um actor chamado Fred Gipton que entrou na peça An Inspector Calls com o Tony Booth, o sogro do nosso futuro Primeiro Ministro. Gipton deu com a língua nos dentes no Hoi Polloi, o restaurante onde eu trabalho, depois de ter bebido duas garrafas de Jacob’s Creek, um Pernod e um vodka. Depois de me implorar que não dissesse nada a ninguém, contou-me que tinha sabido, através da sua complexa rede de conhecimentos, que o Mr. Blair deveria ganhar por uma margem estreita de deputados. Falou em três. Também me contou que o Mr. Blair usa capachinho, mas eu gravei em vídeo o Jornal das Dez onde se vê o Mr. Blair a sair de um helicóptero, num campo de jogos de uma escola, e estou convencido de que nenhuma peruca aguentaria a turbulência atmosférica provocada pelas pás do helicóptero. O cabelo do Tony é mesmo dele, é um facto.

Por isso, todos os votos são importantes e essa é a razão porque parto esta noite para Ashby-de-la-Zouch depois de ter acabado o meu turno no restaurante. Quando disse ao Savage que precisava de um dia de folga para ir votar, ele lançou-se numa tirada acerca da idiotice de dar o direito a voto à «ralé». «Se eu mandasse na m...


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do país», disse ele, (não consigo obrigar-me a escrever a palavra m...) «restringia o direito a voto aos homens com mais de quarenta e cinco anos e só aos que tivessem um rendimento superior a setecentas mil libras por ano».

«Não daria o direito de voto às mulheres?» perguntei.

«Não, podes crer que não», respondeu ele, irado. «São todas umas malucas de m... Quando não estão com SPM, estão com TCH ou com CCV.»

Nota:


SPM - Síntrome pré-menstrual.

Tch - Tratamento de compensação hormonal, (Nota da tradutora).


Chamei-lhe a atenção para o facto de CCV querer dizer cós das cuecas visível mas ele, como habitualmente, não deu ouvidos à razão. Quando começou a contar-me os crimes e pecadilhos da mulher, a Kim, de quem estava separado, fui para a cozinha fazer o molho de cebola para a empada de salsicha.

Depois de ele já estar um pouco mais calmo, abordei-o novamente. «Mr. Savage», disse eu, «não tive uma única folga nas últimas seis semanas».

«Em quem é que vais votar?» perguntou ele em tom de desafio.

Fiquei ofendido com a pergunta, mas respondi, «Nos Trabalhistas».

«Então nem penses, meu», gritou ele pondo um copo alto por baixo da garrafa de rum e encostando-o ao gargalo até estar meio cheio (ou meio vazio, dependendo da personalidade de cada um). Deu uma grande golada como se estivesse a beber gasosa.

«Porque é que eu havia de dispensar um empregado valioso num dos dias mais concorridos do ano, ainda por cima para ajudar esse mariconso do Blair a ser eleito?» Tossiu e acendeu um dos seus cigarros franceses nojentos. Fiz-lhe notar que o Mr. Blair está muito longe de ser maricas e que, na verdade, é pai de três crianças. Savage soltou uma horrenda gargalhada arquejante enquanto cruzava as pernas (ele sofre de incontinência). Levou-me até à porta do restaurante e apontou para a loja Hot Rods que ficava do outro lado da rua. O próprio Rod estava junto à montra a pôr em exposição, em cima de uns expositores um tanto estafados, umas cuecas de cabedal com embutidos em metal. «Aquela é uma loja de maricas, não é verdade, Mole?» disse ele atingindo-me com o hálito a rum.

«A loja especializa-se em roupas e acessórios para homens gay», concedi.
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«E será que nenhum dos clientes do Rod é bem-casadol?» perguntou ele baixando a voz dramaticamente.

Respondi, com uma ironia pesada, «Quer dizer então que o casamento do Mr. Blair é uma farsa e que os filhos dele não pássam de cifras concebidas na cama do cinismo para que, um dia, ele possa enganar o povo Britânico e levá-lo a votar nele, pensando que vota num socialista heterossexual enquanto que, na verdade...»

«Ouve o que te digo, Mole, o Blair é um amigo do Rod, do mais amigo que há e também não é socialista porra nenhuma.»

Comecei a cozer as couves para o jantar. O Savage queria que elas cozessem durante pelo menos meia hora. O meu trabalho de cozinheiro tornara-se uma monotonia desde que o Savage instituíra o Menu Único Tradicional Inglês. A refeição desta noite é a seguinte:

Sopa de tomate Heinz (com pão torrado)

Costeletas de Borrego

Couves cozidas com batatas Dan Quayle

Molho de Cebola

Pão-de-Ló com Passas à la Clinton Doce de creme (Crosta mais 6 Libras)

Queijo Cheddar, Bolachas

Nescafé Chocolate After Eight

Existem dois tipos de Vinho - branco 46 Libras, tinto 46 Libras.
O serviço não está incluído. Deve fumar entre os pratos. Os cachimbos e os charutos são particularmente bem-vindos.
O restaurante está completamente reservado com seis semanas de antecedência. Ontem à noite o Savage mandou embora a Princesa Michael de Kent. Ela ficou muito perturbada.
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O crítico gastronómico A. A. Gill disse, na sua coluna do Sunday Times, que o Hoi Polloi serve uma execrável comida de infantário. «A salsicha que me puseram no prato podia muito bem ser uma caganita: parecia uma caganita e sabia a caganita, cheirava a caganita e tinha a textura de uma caganita. Na verdade, agora que penso nisso, provavelmente era uma caganita».

O Savage mandou ampliar a crítica de Gill na Loja de Fotocópias e pregou-a na montra, atraindo multidões admiradoras.

Cerca da meia-noite perguntei aos meus companheiros de trabalho, àqueles que falavam inglês, se tencionavam ir votar. Luigi, o maitre, na Itália é Comunista, mas em Croydon, onde vive, vai votar Liberal Democrata. Malcom, o copeiro, disse-me que estava a pensar votar nos Conservadores, «porque eles ajudam quem trabalha por conta própria». Chamei a atenção do Malcom para o facto de ele só trabalhar por conta própria por o Savage se recusar a pagar-lhe a Segurança Social e os impostos, mas o Malcom continuou a dizer que gostava do John Major porque tinha sido criado (ele, Malcom) por um casal que vivia em Huntington, o círculo eleitoral de Major. Enquanto o Malcom se debatia com a forma do Pão-de-Ló no lava-loiça, perguntei-lhe quais eram os compromissos eleitorais dos Conservadores.

«Prometeram que não aumentam os impostos», disse ele, na sua voz de cana rachada.

Eu disse, «Malcom, tu não pagas impostos, estás recordado? Tu recebes o dinheiro na mão. Não entras na folha de pagamento, o que te permite teres todos os benefícios da Segurança Social. Tens dentista à borla, transporte para o hospital à borla, tudo à borla».

Malcom respondeu, «Por outro lado, sou capaz de votar nos Trabalhistas».


Quinta-feira, 1 de Maio
De Dean Street, no Soho, em Londres, para Wisteria Walk, Ashby-de-la-Zouch, no Leicestershire, em três horas. Nada mau, tendo em conta que respeitei sempre o limite de velocidade. No caminho ouvi a candidata do Partido Trabalhista por Leicester Central, a Dr.” Pandora Braithwaite, falar na Talk Radio sobre a
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importância dos valores familiares. Senti-me tão indignado que quase me engasguei com um rebuçado Opal Fruit e desviei-me para a faixa de rodagem mais rápida. Mas que hipocrisia!

A Pandora sempre demonstrou um enorme desprezo pela vida em família. O primeiro marido dela, o Julian, era assumidamente, diria mesmo, despudoradamente, gay. E o homem com quem vivia, o Jack Cavendish, já foi casado três vezes e reconheceu dez filhos, três dos quais estão em centros de recuperação para toxicodependentes espalhados pelo país. O mais velho continua a apodrecer na prisão, na Turquia. A maior parte dos outros parece ser atraída por estranhas seitas religiosas. tom, o mais novo, é vigário em Hull.

Como é que a Pandora conseguiu ser escolhida pelo comité de selecção do Partido Trabalhista é, para mim, um mistério. Fuma pelo menos quarenta cigarros por dia. O entrevistador da rádio fez-lhe perguntas acerca do companheiro.

«É professor de línguas em Oxford», respondeu ela na sua voz rouca. «E dá-me imenso apoio. Mas eu» acrescentou «também o apoio muito».

«Grande verdade», gritei eu para o rádio do carro. «Ele precisa do teu apoio porque é um alcoólico crónico e não consegue manter-se de pé sozinho depois das oito horas da noite».

Na saída dezoito fiquei sem Opal Fruits, por isso entrei numa estação de serviço e comprei três pacotes. Será que os fabricantes põem uma substância qualquer nos rebuçados? Qualquer coisa viciante? Parece-me que ultimamente tenho andado a comer muitos rebuçados destes. Uma destas noites acordei às três da madrugada e fiquei desesperado ao descobrir que não tinha um único Opal Fruit em casa. Vagueei pelas ruas do Soho à procura dos rebuçados. Passados não mais de dois minutos depois de ter saído de casa, ofereceram-me sexo lésbico, heroína e um relógio Rolex, mas levei mais de meia hora para conseguir encontrar um inocente pacote de Opal Fruits. É esta a imagem do mundo em que vivemos?

Um Governo Trabalhista fará com que tudo isso mude. O Mr. Blair é um cristão empenhado e prevejo que uma onda de revivalismo religioso percorrerá o país. Anseio pelo dia em que acordarei de manhã e me aperceberei de que, aleluia! também eu acredito em Deus!

Enquanto abria o pacote de rebuçados, dirigindo-me ao carro,


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um homem alto com um fato-macaco de condutor de camiões aproximou-se de mim. Percebi que estava aborrecido com qualquer coisa pela forma como me obrigou a parar com o braço musculoso.

«És tu o tarado que vinha no Montego?» perguntou ele. «O tipo que vinha a empatar na faixa do meio a noventa à hora?» Não gostei do tom agressivo. Disse-lhe que o piso estava húmido e que, em minha opinião, noventa à hora era velocidade suficiente.

«Vinhas com uma porcaria de um camião atrás de ti desde Watford», respondeu ele. «Não viste a porra dos sinais de luzes?»

Ripostei, «Sim, pensei que estavas a ser amigável».

«E porque é que eu haveria de querer ser amigável com um tarado como tu?» disse ele.

Entrei no carro e vi-o saltar para a cabina do camião. Fiquei aliviado ao perceber que ele não era um dos motorista do Eddie Sobart, que usam camisa e gravata por baixo do fato-macaco e cujos camiões são mantidos perfeitamente imaculados. Aquele idiota conduzia um camião carregado de água mineral que vinha da Cornualha e ia para Derbyshire. Porquê? O Derbyshire é constituído por água mineral. Uma pessoa não pode dar um passo sem cair num riacho, num lago ou num rio espumoso.

Fiquei sentado no carro durante alguns minutos para permitir ao camionista distanciar-se de mim uns quilómetros e depois voltei a entrar na auto-estrada e, recordado dos contratempos mais recentes, pus o pé no acelerador e atingi os cem quilómetros por hora.

Imediatamente após ter saído da auto-estrada fui confrontado pelo adorável rosto da Pandora a olhar para mim de um cartaz eleitoral pregado num castanheiro de um dos lados da estrada. Parei o carro e saí para dar uma olhadela mais de perto. Era uma foto espampanante, reminescente dos anos 40 em Hollywood. O cabelo loiro-escuro, retocado, da Pandora, caía em ondas largas, até aos ombros. Os lábios brilhantes estavam entreabertos e mostravam os seus dentes brancos de Harpia. Os seus olhos diziam cama! Trazia um casaco preto vestido, por baixo vislumbravam-se rendas brancas e, mais abaixo ainda, a sugestão de um colo voluptuoso. Percebi que todos os homens de Ashby-de-la-Zouch se arrastariam, nem que fosse de joelhos, para votar nela.

E pensar que eu, Adrian Mole, fui o primeiro a beijar aqueles lábios divinos e o primeiro a enfiar a minha mão (esquerda) por
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baixo do soutien desportivo de algodão branco. Para além disso, a 10 de Junho de 1981, a Pandora declarou o seu amor por mim.

O facto de ela já ter sido casada uma vez não tem qualquer importância. Eu sei que sou o seu único e verdadeiro amor e que ela é minha. Somos Artur e Guinevra, Romeu e Julieta, Carlos e Camila.

Quando eu me casei com a Jo Jo, a Pandora foi ao meu casamento e vi-a limpar as lágrimas dos olhos antes de dizer à minha esposa acabada de casar, «Os meus pêsames». Apressou-se a desculpar-se pelo faux pas e disse, «Queria dizer, como é evidente, os meus parabéns». Mas eu sabia que aquele engano deixara transparecer a sua grande dor por não ser ela a Mrs. Adrian Albert Mole.

Disse, «Amo-te minha querida», para a Pandora pendurada na árvore e entrei novamente no carro para continuar a minha viagem para Ashby-de-la-Zouch. O rosto de Pandora sorria-me de janelas e postes ao longo da estrada. VOTE BRAITHWAITE - TRABALHISTA, diziam os cartazes.

Ocasionalmente, as feições porcinas e ridículas do seu rival conservador, o Sir Arnold Tufton, eram visíveis nos cartazes colados nas janelas das casas maiores. Se ele entrasse no Concurso do Melhor Porco na Feira Agrícola do Leicester, teria boas hipóteses de ganhar um prémio. Contra a juventude, esplendor e brilho intelectual da Dr.” Pandora Braithwaite ele não tem qualquer hipótese - para além disso, o Tufton viu-se envolvido numa confusão por causa da sua intimidade com Len Fox, o magnata dos telemóveis (uma coisa qualquer por causa de um envelope almofadado em Marbelha), o que torna as suas possibilidades ainda mais reduzidas.

A população de Ashby-de-la-Zouch não é conhecida pelo seu temperamento tempestuoso, portanto era difícil perceber se estava ou não inclinada para a revolução. Até mesmo os cães e os gatos pareciam bastante calmos ao sol da manhã.

Havia um cartaz do Partido Trabalhista na sala de estar dos meus pais em Wisteria Walk e um cartaz das Spice Girls no vidro da janela do quarto da minha irmã Rosie. Por trás dos cartazes as cortinas estavam corridas. Foram precisos cinco minutos de pancadas na porta até que esta se abrisse. A minha mãe estava perante mim envolta num roupão de turco branco e com umas meias de homem de lã cinzenta. Entre os seus dedos ardia um Silk Cut Ultra Low.
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O verniz roxo das unhas estava lascado. A maquilhagem da noite anterior estava esborratada em torno dos olhos. Alguém, provávelmente um cabeleireiro, fizera-lhe algo de tremendo ao cabelo. Trazia dois pares de óculos pendurados ao pescoço por correntes de ouro. Agarrou num dos pares e pô-lo na cara. «Oh, és tu», disse ela. «Tive esperança de que fosse o carteiro, encomendei à Next um fato de calças e casaco vermelho e devia chegar hoje». Tirou da cara os óculos e substituiu-os pelo outro par. Espreitou para a avenida, suspirou, beijou-me e depois atravessou o átrio à minha frente e foi para a cozinha.

O meu filho William estava sentado à mesa da cozinha a comer cereais achocolatados com uma colher de sopa. Quando me viu saltou da cadeira e lançou-se na direcção dos meus genitais. Salvei-me de uma dor considerável ao agarrá-lo e atirá-lo ao ar.

Tinham-se passado três semanas desde a última vez que tinha visto o meu filho, mas a sua destreza verbal melhorara consideravelmente (tenho de parar de usar a palavra consideravelmente

- a culpa é do John Major). Ele só tem dois anos e três quartos mas já está, para meu grande alarme, enfeitiçado pelo imbecil motorizado da televisão, Jeremy Clarkson. A minha mãe mima a criança de uma forma horrível ao gravar os programas cheios de testosterona de Clark e ao permitir que William os veja continuamente. Não sei onde é que ele foi buscar este interesse obsessivo por automóveis. Não foi ao nosso lado da família, isso é certo. A avó nigeriana dele foi, a dada altura, directora executiva de um importador de pneus para camiões em Ibadan. A ligação pode ser ténue, mas os genes são uma coisa estranha. Nunca ninguém foi capaz de explicar a origem do meu talento para a escrita criativa e para a cozinha. A família da minha mãe (Korfolk) é praticamente analfabeta e parecia sobreviver à custa de batatas cozidas e molho HP e a família do meu pai (Leicester) encarava os livros com profunda suspeita, a não ser que tivessem imagens a «dividir as páginas».

A minha avó paterna, May Mole, era uma cozinheira vulgar, que encarava o acto de comer como um prazer grosseiro. Graças a Deus por ela ter morrido antes de eu me ter tornado cozinheiro profissional. Ela orgulhava-se de poder dizer que nunca tinha comido num restaurante a sério em toda a sua vida. Falava dos restaurantes no mesmo tom que outros usam para se referir aos postos de venda de crack.
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Devo registar aqui o facto de o meu filho ser um rapaz bonito. Tem a pele macia da cor de um cappuccino escuro. Os seus olhos são exactamente do mesmo tom do «carvalho escuro» no catálogo de madeiras da Cuprinol. Fisicamente, o seu sangue nigeriano predomina, mas acho que consigo detectar nele umas certas características inglesas. Por exemplo, é bastante desajeitado e, quando está a ver o Clarkson (por exemplo) na televisão, fica de boca aberta e parece um tanto imbecil.

«Tens tido notícias da Jo Jo?» perguntou a minha mãe enquanto dava um pontapé ao Cão Novo para o fazer parar de lamber os testículos proeminentes.

«Não», disse eu. «E tu?» Ela abriu uma gaveta e tirou de lá de dentro um envelope de correio aéreo coberto por selos nigerianos.

«Lê isso enquanto eu o levo lá para cima para o vestir», disse ela.

Senti um sobressalto quando vi a caligrafia extraordinariamente bela da Jo Jo. As curvas e inclinações das letras negras recordavam-me o seu corpo e a sua voz. O meu pénis estremeceu ligeiramente como se estivesse a demonstrar o seu interesse pelo que a minha mulher tinha para dizer.

Minha querida Pauline,

Lamento ter de te dizer que eu e o Adrian vamos divorciar-nos.

Sei que estas notícias não te vão surpreender, especialmente depois do que aconteceu durante a minha última visita quando ele se perdeu a caminho das Alton Towers, disse que a culpa era minha e rasgou o mapa ao meio.

Lamento muito que tu e o George (e especialmente o William) tivessem tido de testemunhar uma cena daquelas. A verdade, Pauline, é que foram vários os infelizes incidentes como esse e sinto que é melhor acabar com o nosso casamento agora. Sinto-me doente de saudades quando penso no William. Ele fala em mim? Por favor manda-me uma fotografia recente dele.

Agradeço-te, Pauline, por cuidares do William na ausência dos seus pais. Um dia, quando a situação política aqui tiver melhorado, mando-o buscar.

Beijos para ti e para a família, da Jo Jo.



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