Adélia maria woellner: memória e vivência recordaçÕES



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ADÉLIA MARIA WOELLNER: MEMÓRIA E VIVÊNCIA - RECORDAÇÕES


Lucas Schenoveber dos Santos Junior*

Martha Ribeiro Parahyba**


Introdução


Adélia Maria Woellner é poeta paranaense de grande importância no panorama literário do Paraná, e com grande reconhecimento no exterior. Em sua poesia Adélia Maria nos permite transitar por suas recordações nos envolvendo de tal forma, que conseguimos vivenciar sua história, construímos cenas imaginárias, viajamos para cidades do Paraná, sentimos o cheiro do “pão quentinho”, todas essas experiências são possíveis ao lermos suas obras.

Ao longo deste trabalho pretendemos estudar e discorrer sobre como a poetisa nos expõe seu infinito avesso, e como estão presentes em sua lírica a memória e as vivências, que revelam, assim, sua “Identidade”:



Ao diluir

Meus próprios limites,

Descobri que sou,

Também,


O infinito.

(WOELLNER, Sons do Silêncio, 2004, p.31)




2. Adélia Maria Woellner


Adélia Maria Woellner, filha do casal Oswaldo Woellner e Yolanda Joslin, nasceu em Curtiba – Paraná no dia 20 de junho de 1940. Sua trajetória de vida está lírica e poeticamente contada no livro: “Luzes no Espelho: Memória do Corpo e da Emoção” (2002) de onde serão retirados os fragmentos sobre sua história.

Adélia nos conta que desde menina auxiliou seu pai com o trabalho na padaria da família, a “Marumby” (p.35), o trabalho era árduo e exigia muita responsabilidade para entregar os sacos de pães na casa dos clientes da padaria, “Tudo precisa ser feito rapidamente e corretamente...” (p.34).

Ao freqüentar a escola Adélia já demonstrava sua relação íntima com a poesia, ao relatar que se sentiu “absorvida pela beleza” (p.58) da poesia lida por uma colega. Assim Adélia Maria nos conta que apaixonou-se pela poesia, desde então, sua “companheira, alma gêmea”. (p.60)

Casou-se e aos dezesseis anos esperava o nascimento de sua filha Alélia, nesta etapa de sua vida, Adélia relata os momentos difíceis que viveu na companhia de seu marido.

Por volta dos vinte e três anos a poetisa já havia escrito poemas sobre “imagens do coração” (p.60), nesta etapa, nos relata o auxilio que recebeu dos companheiros de trabalho e conta que embora tenha sido criticada pelo pai, a Adélia Maria guerreira, “Fênix”, publica seu primeiro livro: “Balada do Amor que se foi”, (1963).

Em 1968, ingressou no curso de Direito da Universidade Federal do Paraná, Adélia já estava trabalhando para a Ferrovia, RFFSA (Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima). na chefia de Secretaria. A poetisa conta a emoção de ter sido aprovada no vestibular, começaram as aulas, sempre dedicada, conciliou estudo e trabalho, obteve sucesso. Formou-se, foi premiada com medalhas e foi professora de Direito Penal de 1973 a 1985, na Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Na ferrovia, recebeu cargos importantes e após trinta anos de trabalho, aposentou-se.

Atualmente Adélia Maria reside na cidade de Piraquara – Paraná, é membro da Academia Paranaense de Letras (cadeira nº15); pertence à Academia Feminina de Letras do Paraná (cadeira nº18) como Consultora Jurídica; à Academia de Letras José Alencar (cadeira nº8); pertence ao Centro Paranaense Feminino de Cultura, à União Brasileira de Trovadores, à Sala do Poeta do Paraná, além de outras identidades culturais do Brasil.

3. Poesia – Tempo e Memória.


“Antes mesmo de nascer,

eu pedi para ser esteta...

Ah! Como eu pedi a Deus!...

Pedi tanto, tanto,

que Deus me fez poeta.”

(WOELLNER, Infinito Em Mim, 2000, P.8)

Sua poesia é permeada por suas vivências, experiências e pelas reflexões sobre o universo, e os sentimentos humanos. Em sue livro Luzes no Espelho: Memória do Corpo e da Emoção, a poetisa nos diz: “O sentimento que deixo fluir é reflexo e resultado daquilo que existe em mim.” (WOELLNER, p.21), assim, os sentimentos incluem as alegrias das conquistas dos objetivos conquistados e dos bons momentos da vida, mas também revela a dor sentida na caminhada para o amadurecimento.

A obra de Woellner, de acordo com Helena Kolody, é “plena de sugestões plásticas e musicais”, em seus poemas “A vida palpita nas metáforas”, enfim, “Tudo é vida, em seu livro”. (Kolody in: Woellner, 1990, p.3)

Ao analisar os poemas de Woellner, logo podemos perceber a presença dos temas tempo e memória, dos sentimentos, do universo. Começamos nossa caminhada com o poema “Indagação” retirado do livro “Avesso Meu”, (1990):

INDAGAÇÃO

Vida:

jogo de xadrez.



Deverei aceitar,

resignada

o limite espaço

que me foi reservado

nesse tabuleiro?

Podemos perceber que ao utilizar a metáfora do jogo e do tabuleiro de xadrez, a voz lírica questiona a aceitação dos limites que são impostos pela vida, e a pergunta que fica é profunda e pertinente a todo ser humano: aceitar os limites, ou diferentemente das regras do jogo de xadrez, no qual todas as peças estão condicionadas a uma série de limitações distintas, deveremos nos libertar das limitações e superá-las.

De seu livro: “Infinito em Mim”, (2.ed, 2000) o poema “Infinito em mim” traduz com fidelidade a busca interior do ser, busca pela identidade, pela história, pela vida e também a relação ser- universo. Vamos observar três poemas:


INFINITO EM MIM

Em tudo


na semente,

a expressão do todo.

No poema,

resulto ser

criador e criado,

quando me permito

fundir-me com o universo

e perceber

o infinito em mim...


ESBOÇO

Às vezes,

me sinto

o esboço


de uma história

que começa

a ser escrita.


VIAGEM MAIOR

Mergulhei

no infinito

de mim mesma,

para encontrar

minha verdadeira

identidade...


Ao analisarmos os três poemas, podemos notar a busca pela identidade, o anseio de saber quem se realmente é em relação ao infinito do universo. Em “Infinito em mim”, a voz lírica ao falar da semente referencia o início de tudo, e então, parte para a relação com o universo e a sensação de imensidão – universo. Já no poema “Esboço” a voz lírica concebe a vida como uma história, há momentos em que o sentimento é de início, ou seja, de história “que começa a ser escrita”. Por fim no poema “Viagem Maior” a voz lírica mergulha no infinito, o infinito do ser que busca saber quem é e o que é em relação ao universo ao escrever sua história.

Como é possível perceber, a obra “Infinito em mim” evidencia a trajetória da poetisa retomando as indagações feitas em “Avesso Meu”, criando assim, uma sequência de pensamento linear, ou seja, primeiro se pensa sobre a vida e então, sobre a história a ser construída ao longo desta vida.

Em seu livro “Sons do Silêncio” a poetisa descreve-se no poema “Tecelã”:

TECELÃ


Costurei palavras,

Retalhos colhidos

No baú dos devaneios

Fiz, do manto-poema,

Agasalho

Das esperanças.

Neste poema percebermos a relação da poetisa com a poesia, ao dizer “Fiz,do manto-poema agasalho das esperanças”(WOELLNER, p.50), retomamos o momento em que afirmou que a poesia é sua companheira.

Encontramos também em “Sons do Silêncio” um poema singelo dedicado à despedida da amiga também poetisa paranaense Helena Kolody:

DESPEDIDA DE HELENA KOLODY

(Curitiba, 15.02.2004)

Choveu demais,

ontem.


Era o mundo

que chorava

a tua despedida.

4. Poesia de Adélia Maria Woellner e o Jogo Educativo


A partir da pesquisa realizada sobre a biografia da poeta Adélia Maria Woellner, e também da análise de seus poemas surgiu a etapa seguinte voltada ao ensino da lírica de Adélia Maria na escola.

Ao se pensar no ensino da literatura na escola sentiu-se a necessidade de buscar uma nova forma para abordar o conteúdo, algo que fosse lúdico e educativo ao mesmo tempo. Considerando que a “poiesis é uma função lúdica” (Huizinga, 2001, p.133) e que a linguagem poética joga com as palavras, visa-se oportunizar o aprendizado dos mecanismos lingüísticos utilizados na poesia por meio da ponte entre a função lúdica da mesma e a experiência lúdica do jogo.

O jogo pedagógico, mais especificamente a atividade de jogar permite conduzir o aprendizado para além dos limites da sala de aula e do conteúdo trabalhado, o objetivo é permitir que os alunos percebam e utilizem o conteúdo trabalhado para desenvolver as atividades propostas no jogo, pois o mesmo tem como função propiciar uma revisão geral de todo o conteúdo discutido em sala.

Considerações Finais


Pudemos constatar na obra da poetisa Adélia Maria Woellner, a referência tempo e memória – recordações. Ao pesquisar sobre sua biografia, e ler seu livro “Luzes no Espelho: Memória do Corpo e da Emoção”, no qual Adélia nos conta sua vida utilizando-se da prosa e da poesia, fica claro a presença marcante das suas memórias em seus poemas.

Sua paixão pela poesia fica explicita em poemas nos quais a voz lírica trata do ser, poetisa que “costura palavras” e tece seu “Nhanduti”1. A vida permeada por lutas e vitórias é contada sobre a forma lírica de seus poemas, os sentimentos, os questionamentos feitos acerca de si própria, são traduzidos em lírica.

Adélia Maria Woellner tem o dom de envolver o leitor, ao passo que nos aproximamos de suas recordações somos preenchidos com uma necessidade de também refletir sobre a nossa história, sobre o “esboço” que cada um de nós vem escrevendo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


HUIZINGA, J. Homo Ludens. 5.ed. SP: Perspectiva: 2001.

NEUKIRCHEN, Clarice Braatz Schmidt. Tempo e Memória na Lírica de Adélia Maria Woellner. 2006. 223f. dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Cascavel: 2006.

WOELLNER, A.M. Avesso Meu. Joinville: Ipê, 1990.

______________. Infinito em Mim. Curitiba: 2.ed. 2000.

______________. Luzes no Espelho: memória do corpo e da emoção. Curitiba: Instituto Memória, 2008.

______________. Para onde vão as andorinhas. Curitiba: Edição da Autora, 2002.



______________. Sons do silêncio. Curitiba: Torre de Papel, 2004.

* Lucas Schenoveber dos Santos Junior, Discente Letras – Unioeste – Foz do Iguaçu. E-mail: lucas.s.jr@hotmail.com


** Profa. Dra. Martha Ribeiro Parahyba, Docente Letras; (Orientadora do trabalho) – Unioeste Foz do Iguaçu.

1 De acordo com Adélia Maria Woellner, Nhanduti é uma renda paraguaia confeccionada segundo a inspiração do momento sem desenho prévio, o que representa a poesia identificada como livre.




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