AçÃo integralista brasileira: a educaçÃo do corpo por meio dos ritos e dos símbolos



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Página da Blusa-Verde, destacando o que deve orientar o integralista em sua causa maior.

Os documentos integralistas tinham por fim codificar os dispositivos gerais e mais importantes regulamentos do movimento e estabelecer normas, “fórmulas” e usos que regulassem os atos públicos e as cerimônias integralistas, fixando honras, regalias, direitos e deveres relativos a todas as autoridades do Sigma. No caso de dúvidas, deveriam estar à mão para consultas, servindo de guias aos integralistas que desejassem cumprir e fazer cumprir todas as “ordens” do Chefe Nacional nos seus pormenores.
As sedes e as reuniões

A padronização dos uniformes, jornais, gestos, saudações, distintivos repetiu-se também na estrutura física dos núcleos.

As sedes eram organizadas de modo a impor um conjunto de normas “corporais” ao militante, sendo estruturadas similarmente umas às outras, devendo até mesmo os núcleos estrangeiros obedecer aos mesmos princípios de ordenação dos estabelecidos no Brasil. Nas cidades, vilas, distritos, fazendas, fábricas, escolas, quartéis, navios onde o integralismo se instalou, as sedes do interior repetiam as sedes das grandes cidades, e
[...] olhar uma [era] olhar todas: as mesmas bandeiras, o retrato do Chefe Nacional, os mesmos dísticos, o mesmo mappa do Brasil com o Sigma, as mesmas reuniões doutrinárias, as mesmas “phisionomias expressivas do mesmo mysticismo da idéa, as mesmas milícias de ‘camisas-verdes’; os mesmos ‘anauês’ de braço alto, como fazia o índio brasileiro.27
O modo de proceder na organização das sedes indica a rigidez da estrutura integralista. A similaridade entre as sedes permitia que os rituais fossem realizados do mesmo modo nos diversos núcleos espalhados pelo país, inclusive nos rurais.

Os objetos empregados de acordo com os protocolos ordenavam as ações do integralista antes mesmo que dentro do recinto estivesse. As bandeiras Nacional e integralista28 na parte externa da sede, o símbolo do Sigma, assim como o cartaz com os dizeres “Antes de transpores esta porta, consulta o teu coração: és capaz de renunciar prazeres, ambições, interesses, a própria vida pela grande Pátria? Se elle te disser ‘sim’, então entra e encontrarás aqui teus irmãos e tua Glória”, já indicavam ao integralista o que dele seria exigido quando decidisse se tornar um soldado do Sigma.




Núcleo Integralista de Blumenau/SC. Acervo do Arquivo Municipal de Rio Claro/SP.

Na sede, o integralista deveria permanecer de maneira “impecável”, comportando-se exemplarmente, segundo as exigências disciplinares do movimento.

A obediência aos superiores hierárquicos e aos rituais, responsáveis pela manutenção da ordem, deveria ser de “espontaneidade” do integralista conhecedor do ideário da AIB e apaixonado por sua Pátria.

A subordinação aos superiores hierárquicos, exigida de todos os membros das fileiras integralistas, justificava-se, aponta Salgado, na medida em que se afirmava que “[...] quem não sabe obedecer jamais saberá comandar”. Fundamental era, segundo ele, que o integralista soubesse obedecer, já que o integralismo era, também, uma “escola de comandantes”.29

Ao integralista não competia discutir as ordens de seus superiores hierárquicos, mesmo que absurdas, porque isso geraria desordem e anarquia:
O integralista nunca deixará de cumprir uma ordem de seus superiores, ainda quando a julgue errada, porque uma ordem certa e discutida torna-se mais perniciosa do que uma errada e cumprida, porque esta, pelo menos, prestigia o princípio de autoridade e revela em quem obedece, um trunfo moral sobre si próprio.30
A obediência e a submissão dos seus quadros eram buscadas pela AIB como uma exigência moral, e asseguradas, inclusive, por meio de seus Estatutos. Nesse sentido, os arts. 7º, 8º e 9º do título II – Capítulo I, da Chefia Nacional, dos Estatutos da AIB são bastante esclarecedores:

Artigo 7 – É proibido, sob pena de exclusão automática, a qualquer integralista, comentar os atos do Chefe Nacional;

Artigo 8 – É vetado aos integralistas interpelar o Chefe Nacional sobre qualquer assunto relativo ao exercício de sua função, assim como dar opiniões sem haver para isso a necessária solicitação;

Artigo 9 – Para os integralistas a pessoa do Chefe é intangível;

Com a finalidade de “orientar” e “disciplinar a liberdade”, para educar vigiando, a obediência e a submissão, a subserviência e a “fidelidade aos superiores” eram exigidas, desde muito cedo, por meio da “Cartilha do Pliniano”, na qual se encontram estabelecidos os deveres do jovem integralista. Observa-se, nesse documento, que morrer pela pátria e pelo Chefe Nacional deveria ser a maior ambição do jovem integralista, tornando-se ele herói caso tal fato lhe acometesse: “Morrem camisas-verdes na Bahia e no ES fecundando com o seu sangue o solo sagrado da Pátria. Que os brasileiros comprehendam o significado desse heroísmo”.31

Mas não bastava obedecer por determinação de um superior; o integralista precisava fazer transparecer satisfação e entusiasmo por estar obedecendo e servindo à causa integralista.

Ao integralista que adentrasse a sede era exigido que demonstrasse uma “[...] alegria sã, comunicativa, pois todos ali são companheiros, ricos e pobres, poderosos e humildes, e ali estão reunidos pelo bem do Brasil”.32

Em defesa da ordem e disciplina da sede, que deveria estar aberta o maior tempo possível durante o dia, um serviço de vigilância permanente deveria funcionar. Esse serviço de vigilância era a garantia de que todos os rituais seriam seguidos nas reuniões e em horários em que elas não estivessem acontecendo. Garantia ainda que nenhum comportamento inadequado fosse assumido pelos “camisas-verdes” ou que qualquer ato de vandalismo fosse cometido pelos inimigos do Sigma. Nas reuniões Publicas, a vigilância era reforçada pelo grupo denominado de “polícia interna”.

Na sala principal da sede, uma mesa longa voltada de frente para as cadeiras onde sentariam os militantes, com o retrato do Chefe Nacional ao fundo colocado entre as bandeiras Nacional e integralista cruzadas, um relógio de parede com dizeres indicando que a hora do integralismo chegaria, o mapa do Brasil com o símbolo do Sigma em preto, as faixas com dizeres evocatórios, o livro de assinaturas de visitas ilustres, o quadro negro com ordens do Chefe Nacional e os avisos necessários, eram objetos que impunham um modo de se comportar nas instalações dos núcleos.

O retrato de Plínio Salgado o representava em sua ausência, e todos os juramentos, saudações e honrarias a ele seriam direcionados. Os protocolos admitiam ainda que fosse colocada na sede a imagem do Cristo crucificado, “como símbolo do sacrifício por um ideal devendo essa colocação ser feita sem nenhum cerimonial”.33

Nas sessões solenes – “[...] quando se [realizassem] para o culto da Pátria ou do Sigma, empossamento ou homenagem a autoridades, culto cívico de datas, acontecimentos importantes e reverência à memória de companheiros e de brasileiros illustres” ou ainda quando estivesse presente o Chefe Nacional – as mesas deveriam ser ornamentadas com flores, serviço esse a cargo da Secretaria de Arregimentação Feminina, e com as bandeiras Nacional e integralista.34

As posições na mesa deveriam ser organizadas hierarquicamente, ocupando a presidência a autoridade de maior graduação, tendo a sua direita a autoridade que lhe era imediatamente inferior na Província em que fosse realizada a sessão. A sua esquerda, ficaria o chefe do núcleo. Nas sessões presididas pelo Chefe Nacional ou pelo Chefe Provincial, formar-se-ia ao fundo uma ala de honra de “camisas-verdes” que serviria de escolta.35

Os lugares na mesa seriam ocupados à medida que as autoridades fossem anunciadas e os “Anauês!” que lhes coubessem fossem dados. O Chefe Nacional entraria na sala só depois que a mesa estivesse constituída.36 Em reuniões realizadas fora das sedes, o Chefe Nacional seria recebido à porta do estabelecimento pelo Chefe Provincial ou Municipal.

Ao entrar na sala, para tomar assento à mesa o Chefe Nacional, todos os integralistas, com exceção dos impossibilitados por deficiência, se ergueriam com “altivez” e fariam a saudação.37 Era inadmissível que o Chefe Nacional fosse recebido por integralistas sentados, curvados, agachados, apoiados. Exigia-se que todos estivessem de pé, em posição ereta, com os braços em posição de saudação, com semblante respeitoso e sério.

Nenhuma autoridade, de qualquer nível hierárquico, poderia sentar à mesa de qualquer reunião integralista sem estar vestido com a camisa/blusa verde e com as insígnias do seu cargo, o que demonstra que, independentemente do grau hierárquico, o integralista deveria obedecer às normas estabelecidas pelos protocolos da AIB. Os militantes que ocupassem cargos mais elevados serviriam de modelo para os demais, cumprindo com seus deveres e sendo fiel a Plínio Salgado e aos preceitos do movimento.

Os oradores designados para falar na sessão pronunciariam o seu discurso de pé, na extremidade da mesa. Quando um membro da mesa tivesse que falar, só poderia fazê-lo também de pé. Para se pronunciar, o orador ficaria de pé, levantaria “imediatamente” o braço direito e, dirigindo-se ao Chefe Nacional, quando presente, ou ao retrato, quando ausente, diria: “Chefe...”. Voltando-se depois para a sala, diria: “integralistas!...”. Em resposta, os integralistas responderiam: “Pronto!”. Arriando o braço, poderia o orador discursar. 38

O orador jamais poderia ser interrompido pelo integralista que estivesse participando de alguma das reuniões, o que constituía uma posição de completo desrespeito. Os militantes presentes só poderiam se pronunciar quando fossem convocados, restringindo-se, na maioria das vezes, tal participação às saudações e ao juramento.

A participação nos rituais e cerimônias, assim como nas reuniões nas sedes, mesmo que só como ouvintes, conferia ao integralista a ilusão de atuação política dentro do partido, o que não condizia com o caráter vertical hierárquico da organização. Como mera ilusão, o que ocorria era a exclusão do escalão inferior, a maioria dos militantes, das tomadas de decisões.

Ao integralista cabia vigiar seu corpo e sua voz, levantando, sentando, erguendo o braço, baixando-o, seguindo o que lhe foi prescrito e que, como integralista “exemplar”, deveria ele saber.

De outro modo, ao Chefe Nacional eram concedidos plenos poderes nas reuniões e solenidades, podendo se pronunciar quando desejasse. No mais, caso considerasse o discurso pronunciado por outro um desvirtuamento da doutrina, poderia cassar a palavra a qualquer momento.39

Para evitar possíveis constrangimentos por inconveniência de algum discurso – compreenda-se que inconvenientes eram os discursos que não se baseavam nos preceitos e doutrina do movimento –, um corpo de oradores deveria ser organizado com a responsabilidade da pregação doutrinária e do pensamento do Chefe Nacional.

Ao findar de cada reunião, os integralistas deveriam cantar o Hino Nacional e realizar o juramento de fidelidade a Plínio Salgado. O juramento seria realizado, obrigatoriamente, com todos de pé, e a autoridade de maior graduação diria: “Companheiros!... Pelo Bem do Brasil!... Pelo Estado Integral!... Em fidelidade ao Chefe Nacional Plínio Salgado, diante da vida e da morte!... Três Anauês!...”. Os presentes responderiam: “Anauê! Anauê! Anauê!”.40

Depois do juramento, ninguém mais poderia se pronunciar ou mesmo sair de seus lugares até que todas as autoridades tivessem deixado a mesa da presidência. Encerrada a sessão, quando presente o Chefe Nacional, todas as autoridades deveriam levá-lo à porta, e uma última saudação seria feita por todos os integralistas que deveriam se conservar de pé e com o braço erguido até seu desaparecimento.

Esses rituais deveriam obrigatoriamente ser seguidos pelos militantes, tendo que responder às autoridades e ao Chefe Nacional quem deles se recusasse a participar, podendo até mesmo resultar a recusa em exclusão do movimento.

O juramento de ingresso no movimento também seria realizado na sala de sessões, na sede em que se inscrevesse o candidato, em frente ao retrato do Chefe Nacional e na presença de pelo menos 10 integralistas. Os escritos de Salgado alegam que o integralista deveria jurar por Deus e por sua honra trabalhar para a AIB, executando o comando do Chefe e de seus superiores hierárquicos, cumprindo todos os seus compromissos a fim de manter-se como membro do movimento. Implícita nos juramentos, estava a ameaça constante de penalidade e de exclusão caso o “camisa-verde” não seguisse as regras estipuladas pelo movimento.

Estariam dispensados do juramento de ingresso os militares, por entender o Chefe Nacional que “a nacionalidade estaria falida no dia em que um militar precisasse repetir um juramento que já fez de servir à Pátria”.41

As sedes, além das reuniões e da realização dos rituais integralistas, deveriam organizar e prestar serviços de assistência à comunidade. Contudo, as sedes Municipais e Distritais deveriam instalar, antes de qualquer outra organização de assistência social, uma escola de alfabetização e um posto médico, destinado a todos os brasileiros.42
A Educação do corpo e os rituais nas solenidades públicas

Todos os militantes convocados eram obrigados a comparecer pontualmente na hora marcada e com o uniforme completo, às concentrações de “camisas-verdes”, apresentando-se nos lugares designados previamente pelo Conselho Technico integralista. Contrariando essa ordem, sem motivo de enfermidade ou de alta relevância, estaria o integralista sujeito a ter, em sua ficha, lançada uma falta grave.43

Nas solenidades, os hinos executados obrigatoriamente seriam dois: o hino oficial do integralismo intitulado “Avante!”, letra e música de Plínio Salgado, e o Hino Nacional. Todos os integralistas tinham como obrigação cantar em coro ambos os hinos, devendo apresentar “perfeito” conhecimento da música e da letra.

A letra do hino integralista “Avante!”,44 cujo conteúdo buscava transmitir valores ideológicos, foi composta em 1932. Impregnada de patriotismo, proclamava a crença no futuro da Pátria e lançava um apelo à juventude do Brasil: “[...] Avante! Avante! Pelo Brasil, toca a marchar! Avante! Avante! Nosso Brasil vae despertar! Avante! Avante! Olha a pátria que desperta, Mocidade Varonil! Marcha! – Marcha e brada, alerta: - Anauê, pelo Brasil!”.45

O Hino Nacional “sendo uma composição em louvor da Pátria”, era considerado acima do hino integralista. Jamais poderia, contudo, ser cantado na íntegra por qualquer membro da AIB, pois um integralista não admitiria a ideia de que o Brasil estivesse “[...] deitado eternamente em berço esplendido” (grifo meu).46 A defesa era por uma Nação ativa, por um Brasil que não espera, que segue “Avante!”. Imbuído de intenções, o discurso integralista tinha o intuito de convencer o “camisa-verde” a participar dinamicamente da construção da “Pátria Integral”.

Em vários números de A offensiva, onde solenidades integralistas são retratadas, o fato de o Hino Nacional não ter sido cantado por inteiro é frisado, como se quisessem reforçar esse ato. Em solenidades não integralistas, o recomendado era que o militante se mantivesse em silêncio quando fosse cantada a segunda parte do Hino.

As organizações esportivas, universitárias, femininas, plinianas, proletárias e camponesas, no âmbito nacional, poderiam adotar, com aprovação do Chefe Nacional, hinos, marchas ou canções próprios de caráter nacional.47 Dos hinos, marchas ou canções criados, deveria ser enviada uma cópia de música e letra, com o nome do autor e dados bibliográficos, ao Chefe Provincial, e outra ao Chefe Nacional para “competente” aprovação e para figurar no “Hinário” organizado anualmente.48

Nas grandes solenidades, todos os “camisas-verdes” e plinianos (vanguardeiros de 10 a 12 anos e pioneiros de 13 a 15 anos) prestariam o juramento à bandeira, como demonstração de amor a Pátria e total abnegação em sua defesa:


Bandeira da minha Pátria: prometto servir ao Brasil – na hora da alegria e na hora do soffrimento, – no dia da gloria – e no dia do sacrifício. Prometto respeitar – a liberdade – a justiça – e a lei. – Prometto defender a sua pureza – o legado moral – e na sua integridade, – o patrimônio territorial – que recebi dos meus antepassados. – Salve Bandeira do Brasil!49
O juramento seria realizado, obrigatoriamente, por todos os integralistas de pé, voltados para a bandeira, ao comando de uma autoridade presente. A atitude corporal exigida perante o “símbolo da Pátria” era de respeito, devendo o integralista manter-se “firme”.

Os rituais ocupavam um papel central na socialização ideológica dos militantes e tinham início já na cerimônia do batismo cristão. Nas cerimônias de batizado,50 os pais, padrinhos e convidados deveriam comparecer vestindo a camisa/blusa verde. Nos casamentos, a mesma exigência se dava, os noivos, convidados e padrinhos deveriam estar usando o uniforme integralista. A noiva, no ato civil, deveria apresentar-se de blusa-verde e, no ato religioso, se desejasse, conforme a tradição, com o vestido branco, véu e grinalda.

Em ambos os atos, deveria estar presente a bandeira do Sigma, a ser enrolada na criança ao fim do batismo, ou a ser colocada, em local de destaque, ao lado da Bandeira Nacional na sala de realização do casamento.51 Após as cerimônias, os noivos e a criança receberiam dos “camisas-verdes” a saudação integralista acompanhada pelo gesto de erguer o braço.

No funeral integralista, por sua vez, o caixão seria coberto pela bandeira do Sigma e pela Bandeira Nacional.52 Os integralistas acompanhariam o enterro vestindo a camisa/blusa verde e, quando entrassem na sala do velório, deveriam perfilar-se e erguer o braço por dez segundos. Ao falecido, três “Anauês!” eram direcionados ao comando da autoridade que estivesse presidindo a sessão.53 O “companheiro” falecido seria transferido, segundo o Protocolo, para a “Milícia do Além”. 54



Em A Offensiva do dia 21 de abril de 1937, p. 3, é noticiado o sepultamento do integralista Francisco Cardoso Coelho no Rio de Janeiro. Na cerimônia está presente o Chefe Nacional, que aparece logo à frente, na foto, auxiliando a carregar o corpo. Em volta, os militantes realizam o gesto integralista.

Foto 42 – Sepultamento integralista. A Offensiva, 21 abr. 1937, p. 3.

Os protocolos instituem também rituais especiais para certas datas históricas do movimento: “A vigília da Nação”; “A noite dos Tambores silenciosos”; e “As matinas de abril”. A vigília da Nação era realizada em comemoração ao Primeiro Congresso Integralista, em 28 de fevereiro. A noite dos tambores silenciosos comemorava a proclamação do Manifesto Integralista, em 7 de outubro de 1932, e, ao mesmo tempo, era uma forma simbólica de os integralistas manifestarem seu desacordo pela extinção da Milícia por determinação do governo. “As matinas de abril” eram realizadas em comemoração à primeira marcha integralista, reunindo-se todos os militantes antes do sol nascer em um local predefinido.

Nesses rituais, a ordenação do corpo integralista estabelece cada comportamento exigido do “camisa-verde”. O erguer dos braços, a posição ereta do corpo, a manutenção do silêncio, o verbalizar em alto tom os juramentos e hinos, além de demonstrarem uma ordenação ideológica, delimitam um modo de ser integralista, corporalmente, nos eventos promovidos pela AIB. O corpo educado reflete as intenções do movimento de se fazer parecer uno e harmônico em suas atitudes.


Considerações finais

O movimento integralista, a fim de fazer cumprir os seus intentos, investiu expressivamente na organização e doutrinamento de seus quadros. Manter a força da ideologia, do norte ao sul do país, foi uma tarefa árdua para os dirigentes do partido, portanto se fez necessário tecer uma teia de ligações que uniformizassem os membros, gerando, assim, uma coesão ideológica.

A AIB fez amplo uso da ritualização e simbologia, buscando garantir a adesão aos ideais do Integralismo e a incorporação dos seus valores. Por meio dos rituais e símbolos, transmitia conceitos e estilos de pensamento compatíveis com o seu ideário. Ao mesmo tempo que disciplinava as massas, a organização e a simbologia serviam como intrumentos para e socialização politico‑ideológica dos militantes.

Com o intuito de propagar a imagem de um movimento harmônico, coeso, uno em sua forma de ser e de agir, o integralismo investiu na uniformização, disciplinarização e treinamento de seus quadros, educando os militantes inscritos em suas fileiras “intelectual, moral e fisicamente”.

Também as solenidades públicas e as reuniões representavam o esforço de socialização ideológica, onde o conteúdo transmia certos temas e valores como a exaltação da juventude, a virilidade, o nacionalismo, o apelo a um passado glorioso, a convocação a um futuro promissor, etc.

Por meio dos ritos e dos símbolos, o integralismo disseminava, a seu modo, o comportamento a ser assumido pelos integralistas e, consequentemente, a quem mais se predispusesse a ler seus jornais. Através das práticas ritualistas e simbólicas, a AIB impunha ao corpo um modo muito próprio e uno de ser integralista.




1 Monitor Integralista, ano V, n. 22, p. 4, 7 out. 1937.

2 Não há documentações de cunho historiográfico em relação ao número de filiados na AIB, dessa forma, segue-se a contabilidade oficial do movimento, divulgada no Monitor integralista, mesmo sabendo da dificuldade historiográfica em ter como base analítica o discurso oficial de uma doutrina política.

3 Ver SIMÕES, 2009.

4 FREITAS, Madeira de. Crer, obedecer e perseverar. A Offensiva, Rio de Janeiro, ano III, n. 460, p. 2, 11 abr. 1937.

5 SIMÕES, 2006.

6 Para a mulher, o integralismo indicava o uso da “blusa-verde”, ou seja, de uma camisa de meia manga, com modelagem semelhante, exceto pela manga, à camisa dos homens. Por conta do uso da camisa/blusa verde, o militante homem ficou conhecido como “camisa-verde” e a mulher como “blusa-verde”. Na maior parte do texto, refiro-me ao militante de ambos os sexos, tratando-o simplesmente como “camisa-verde”.

7 BERTONHA, 1992.

8 Art. 32, Cap. IV, Protocollos e Rituais: da Camisa Verde. Monitor Integralista, ano V, n.18, p. 12, 1937.

9 Ibidem.

10 Art. 26, § 1º. Cap. IV, Protocollos e Rituais: da Camisa Verde. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 11, 1937.

11 Art. 27, Cap. IV, Protocollos e Rituais: da Camisa Verde. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 12, 1937.

12 Compreende-se que o “mau” exemplo seria aquele dado por quem não obedeça às regras e normas integralistas.

13 BULHÕES, 2007.

14 Ibidem.

15 Protocollos e Rituaes, Art. 12º, p. 7-8, 1937.

16 Art. 52, Cap. VII, Protocollos e Rituais: Saudações e Signaes de respeito - O gesto integralista. Monitor Integralista, ano V, n.18, p. 17, 1937.

17 Art. 53, Cap. VII, Protocollos e Rituais: saudações e signaes de respeito - O gesto integralista. Monitor Integralista, ano V, n.18, p. 18, 1937.

18 Art. 54, Cap. VII, Protocollos e Rituais: saudações e signaes de respeito - O gesto integralista. Monitor Integralista, ano V, n.18, p. 18, 1937.

19 Art. 55, Cap. VII, Protocollos e Rituais: Anauê. Monitor Integralista, ano V, n.18, p. 18, 1937.

20 Art. 73, Cap. VII, Protocollos e Rituais: as saudações. Monitor Integralista, ano V, n.18, p. 21, abr. 1937.

21 Art. 74 e 75, Cap. VII, Protocollos e Rituais: As saudações. Monitor Integralista, ano V, n.18, p. 22, abr. 1937.

22 Art. 63 e 64, Cap. VII, Protocollos e Rituais: As saudações. Monitor Integralista, ano V, n.18, p. 20, abr. 1937.

23 Art. 69, Cap. VII, Protocollos e Rituais: as saudações. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 21, abr. 1937.

24 Art. 70 e 71, Cap. VII, Protocollos e Rituais: as saudações. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 21, abr. 1937.

25 Art. 76, Cap. VII, Protocollos e Rituais: as saudações. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 22, abr. 1937.

26 Art. 86, Cap. VIII, Protocollos e Rituais: das Sedes Integralistas. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 24, abr. 1937.

27 A Offensiva, Rio de Janeiro, ano II, n. 38, p. 1, 31 jan. 1935.

28 A bandeira do integralismo é azul e branca. Em campo azul Real, destaca-se uma esfera branca na qual, ao centro, um Sigma maiúsculo em cor preta aparece. Em lugares públicos essa bandeira só poderia ser hasteada, por ordem do Chefe, ao lado da Bandeira Nacional. O azul da bandeira, segundo Salgado, simboliza a atitude do pensamento integralista. Evoca distâncias, mostrando que o Integralismo não se submete aos limites políticos que nos têm amesquinhado, mas tem um grande ideal que é a integridade do Brasil e a projeção de sua grandeza entre os povos do Universo. A esfera branca mostra a pureza de sentimentos e a sinceridade dos propósitos integralistas. A cor branca é ainda a resultante da mistura de todas as cores, e o Sigma nela inscrito significa, como está dito acima, é a integralização de todas as Forças Sociais na suprema expressão da Nacionalidade (Art. 13-18, Cap. III, Protocollos e Rituais: dos Symbolos. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 8-9, abr. 1937).

29 SALGADO, Plínio. Discursos. Obras Completas. São Paulo: Editora das Américas, 1955. v. X. p. 29.

30 Ibidem.

31 A Offensiva, Rio de Janeiro, ano III, n. 284, p. 9, 13 set. 1936.

32 Art. 97, Cap. VIII, Protocollos e Rituais: das Sedes Integralistas. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 30, abr. 1937.

33 Art. 88, Cap. VIII, Protocollos e Rituais: das sedes Integralistas. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 28, abr. 1937.

34 Art. 106, Cap. IX, Protocollos e Rituais: das sessões e reuniões. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 32, abr. 1937.

35 Art. 107 (1-5), Cap. IX, Protocollos e Rituais: das sessões e reuniões. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 32, abr. 1937.

36 Art. 109 (4) e 112, Cap. IX, Protocollos e Rituais: das sessões e reuniões. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 34, abr. 1937.

37 Art. 116, Cap. IX, Protocollos e Rituais: das sessões e reuniões. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 34-35, abr. 1937.

38 Art. 118, 119 e 120, Cap. IX, Protocollos e Rituais: das sessões e reuniões. Monitor Integralista, ano v, n. 18, p. 35, abr. 1937.

39 Art. 122, Cap. IX, Protocollos e Rituais: das Sessões e reuniões. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 35-36, abr. 1937.

40 Art. 127, Cap. IX, Protocollos e Rituais: das Sessões e reuniões. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 36, abr. 1937.

41 Art. 147, Cap. X, Protocollos e Rituais: ritos e cerimônias especiais - Juramento. Monitor Integralista, ano v, n. 18, p. 42, abr. 1937.

42 Art. 89, Cap. VIII, Protocollos e Rituais: das sedes integralistas. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 28, abr. 1937.

43 Art. 131, 132 e 134, Cap. IX, Protocollos e Rituais: das sessões e reuniões - Concentração de “Camisas-verdes”. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 38, abril de 1937.

44 Música no CD em anexo, na contracapa.

45 Art. 53, Cap. VI, Protocollos e Rituais: o gesto integralista. Monitor Integralista, ano v, n. 18, p. 18, abr. 1937.

46 Art. 48, Cap. VII, Protocollos e Rituais: dos hymnos e canções. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 15, abr. 1937.

47 Art. 45, Cap. VI, Protocollos e Rituais: dos hymnos e canções. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 15, abr. 1937.

48 Art. 47, Cap. VI, Protocollos e Rituais: dos hymnos e canções. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 15, abr. 1937.

49 Art. 149, Cap. X, Protocollos e Rituais: juramento à Bandeira. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 15, abr. 1937.

50 Art. 155, Cap. X, Protocollos e Rituais: ritos e cerimônias especiais – Baptisados. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 45, abr. 1937.

51 Art. 156, Cap. X, Protocollos e Rituais: ritos e cerimônias especiais – Casamentos. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 46, abr. de 1937.

52 Art. 157, Cap. X, Protocollos e Rituais: ritos e cerimônias especiais – Fallecimentos/ Honras Funebres. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 47, abr. 1937.

53 Art. 158, Cap. X, Protocollos e Rituais: ritos e cerimônias especiais – Fallecimentos/ Honras Funebres. Monitor Integralista, ano V, n. 18, p. 48, abr. 1937.

54 Art. 159, Cap. X, Protocollos e Rituais: ritos e cerimônias especiais – Fallecimentos/ Honras Funebres. Monitor Integralista, ano V, n.18, p. 48, abr. 1937.
REFERÊNCIAS

BERTONHA, João Fábio. A máquina simbólica do integralismo: controle e propaganda política no Brasil dos anos 30. História & Perspectiva. Uberlândia: UFU, v.7, jul./dez. 1992. p. 87-110.

BULHÕES, Tatiana da Silva. Evidências esmagadoras de seus atos: fotografias e imprensa na construção da imagem pública da Ação Integralista Brasileira (1932 – 1937). 176 f. Dissertação de Mestrado (Mestrado em História) – Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, 2007.

SIMÕES, Renata Duarte. A Educação do Corpo no Jornal A Offensiva (1932 – 1938). 205 f. Tese de Doutorado (Doutorado em História da Educação e Historiografia) – Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.



______. Integralismo e Ação Católica: sistematizando as propostas políticas e educacionais de Plínio Salgado, Jackson de Figueiredo e Alceu Amoroso Lima no período de 1921 a 1945. 161 f. Dissertação (Mestrado em Educação: História, Política e Sociedade). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2006.



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