AçÃo integralista brasileira: a educaçÃo do corpo por meio dos ritos e dos símbolos



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aprimoramento físico, a militarização do corpo, defendido pelos intelectuais integralistas, é flagrante nas fotos de homens e mulheres membros da AIB. A postura ereta, rígida, e o semblante sério em quase todas as fotografias apontam para a figura da mulher e do homem “soldado integralista”,14 representante de um grupo coeso e “uno” em sua forma de ser e estar na sociedade.

Nas imagens e fotografias de crianças e adolescentes, a postura disciplinada e obediente também é vista, o que indica a intenção de retratar, desde muito cedo, o soldado integralista que se objetivava formar.

Com a pretensão de formar esse soldado integralista, no futuro um “camisa-verde” ordeiro e disciplinado, as crianças são postas a repetir, desde os primeiros anos de vida, as atitudes, os comportamentos dos adultos.

Reforçavam essa identidade “una” integralista os símbolos e objetos como as bandeiras, as insígnias, a foto do Chefe Nacional, as placas colocadas nas sedes, o Sigma.


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Distintivo utilizado pelos homens. Acervo do Arquivo Municipal de Rio Claro/SP



Distintivo utilizado pelas mulheres. Acervo do Arquivo Municipal de Rio Claro/SP.


distintivo usado por jovens e adultos, homens e mulheres, foi um dos objetos com os quais a AIB buscou criar e manter a coesão dos militantes. O distintivo no uniforme das mulheres, diferente do encontrado no dos homens, deveria ser utilizado por todas elas – “senhoras e senhoritas”. Para os homens, ele era composto por um Sigma maiúsculo preto sobre o mapa do Brasil, em azul real, dentro de um círculo de prata; para as mulheres, as bandeiras nacional e integralista estavam cruzadas e enlaçadas, em panóplia, tendo ao centro um Sigma preto de orlas prateadas sobre uma esfera branca, também de orla prateada.

Além dos distintivos, todas as autoridades integralistas usariam, ainda, as insígnias (nas passadeiras), relativas a seus cargos, sendo obrigatórias em serviços ou em quaisquer atos oficiais. Os membros do Supremo Conselho Integralista, da Câmara dos Quarenta, da Câmara dos Quatrocentos, do Conselho Jurídico e de outros órgãos coletivos, seriam obrigados a apresentar-se em reuniões e nas solenidades e atos oficiais com as respectivas insígnias. As senhoras fariam uso das mesmas insígnias utilizadas pelos homens e correspondentes a seus cargos. O integralista que exercesse dois ou mais cargos distintos utilizaria, obrigatoriamente, as insígnias do cargo mais elevado.



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Foto 35 – Passadeiras para os cargos da AIB. Monitor integralista, 5 dez. 1937, p. 9.

Panfleto de divulgação da AIB. Acervo do Arquivo de Rio Claro /SP.
insígnia que distinguia o Chefe Nacional dos demais membros do movimento era composta pelo símbolo do Sigma. Somente o Chefe poderia fazer uso do Sigma nas ombreiras e da esfera armilar de ouro no peito. Esse uso permitia que o integralista reconhecesse o Chefe Nacional em qualquer ocasião, mesmo sem jamais tê-lo visto pessoalmente.

O Sigma era o sinal simbólico do integralismo. A letra grega corresponde ao “S” e indica o Somatório das Matemáticas. Com ela, os primeiros cristãos da Grécia indicavam a palavra “Deus”, base do trinômio-lema e pressuposto fundamental do imaginário integralista. Justificava-se, ainda, o seu uso por ser assim nomeada a Estrela Polar do Hemisfério Sul, o que expressa mais um apelo de natividade do movimento.”15

Baseado em Leibniz, que a escolheu para indicar a soma dos números infinitamente pequenos, Salgado empregou-a, em analogia aos membros da AIB, em camisas, bandeiras, faixas e outros aparatos propagandísticos e ritualistas. Por meio do emprego do Sigma, o Chefe Nacional lembrava que o movimento era no sentido de integrar todas as forças sociais do país na “suprema expressão da nacionalidade”.

Em seu aparato de propaganda discursiva e visual, o grupo também investiu em um lema construído sobre três eixos fundamentais: “Deus, Pátria e Família". Os integralistas justificavam tal uso argumentando que eles se encaixavam adequadamente nos princípios norteadores da Doutrina do Sigma: “Deus (que dirige o destino dos Povos), Pátria (Nosso lar) e Família (Início e fim de tudo)”.



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Gustavo Barroso, Plínio Salgado, Raymundo Lima, Joaquim e Manoel F. Hasslocher em saudação integralista. Acervo do Arquivo de Rio Claro/SP.

lém do uniforme, a saudação faria reconhecer o militante da AIB quando fosse encontrado. Como realizado nos fascismos europeus, o gesto de soerguimento brusco do braço direito, distendido pela frente, até a posição vertical, com a palma da mão voltada para a frente e os dedos unidos, exprimia, segundo os “Protocollos e Rituais”, o ideal integralista e representava um sinal de respeito dos “camisas-verdes” aos companheiros, ao movimento e às autoridades.16 Devendo ser praticado em pé, com exceção de quem impossibilitado estivesse, poderia ser feito com a pessoa parada ou em movimento, sendo realizado individual ou coletivamente.17

O gesto integralista funcionava como saudação, reverência e continência, expressando a “alegria” de quem serve a Pátria e os ideais integralistas. Acrescido ao gesto, estaria o vocábulo “Anauê”, que em Tupy quer dizer “você é meu parente”. Esse termo foi escolhido, por ser a AIB a “[...] Grande Família dos Camisas-Verdes e um movimento Nacionalista, de sentido heróico”. “[...] Anauê, foi a palavra consagrada em louvor do Sigma”.18

Deveria ser pronunciado esse vocábulo em voz “natural”, quando a saudação fosse individual, e com “[...] voz forte, clara e decidida, quando [fosse] coletiva”.19 Coletivamente, em lugares públicos, só poderia ser pronunciado quando reunidas mais de trinta pessoas, “provocado” pela autoridade de maior graduação presente. Considerando-se uma saudação ao chefe Nacional, a maior autoridade levantaria o braço direito e diria em voz “forte e clara”: “Companheiros! Ao Chefe Nacional, três Anauês!”. Os integralistas presentes levantariam também o braço direito e responderiam: “Anauê! Anauê! Anauê!”. Somente ao Chefe, ou a seu representante, seriam direcionados três “Anauês”; às demais autoridades, dois ou um “Anauê”.20

O Chefe Nacional poderia dar, ou permitir que fossem dados, até 3 “Anauês!”, a qualquer pessoa que ele julgasse merecedora dessa honra, e nenhuma autoridade teria direito à saudação em local onde já estivesse presente outra autoridade de categoria mais elevada.21

As saudações integralistas deveriam ser prestadas às autoridades, à Bandeira Nacional, ao Hino Nacional, à bandeira integralista, ao hino integralista, às instituições da AIB, às tropas da Nação, aos “camisas-verdes” em marcha, aos integralistas falecidos e entre integralistas em geral. Quando os integralistas se vissem, deveriam fazer a saudação erguendo imediatamente o braço e exclamando “Anauê”, partindo a saudação do subordinado para o superior.

Ao Chefe todo o respeito, ordem e disciplina deveriam ser demonstrados em sua passagem. O integralista mostraria tais atributos verbal e corporalmente, assumindo a posição ereta de sentido e aguardando a passagem da “Autoridade Suprema”, saudando-o ao ser por ele defrontado. Na saudação individual, qualquer que fosse a autoridade, ainda que o Chefe Nacional, só um “Anauê!” seria dado.22

Ao passarem pela Bandeira Nacional hasteada, deveriam os “camisas-verdes” saudá-la com o gesto integralista, demonstrando toda a admiração pelo “sagrado” símbolo da Pátria. A ela jamais poderia se “[...] abater em saudação o integralista que ama a sua Nação”.23

Durante o tempo em que fosse cantado o Hino Nacional, ou a marcha “Avante!”, todos os integralistas o fariam perfilados, com o gesto integralista, de cabeça a descoberto, quando à paisana, ou apenas de camisa/blusa verde. Mesmo quando o hino fosse tocado em lugares públicos e ou em qualquer solenidade, ainda que fora do movimento, era de obrigação do integralista permanecer em saudação, sem pronunciar o “Anauê!”, durante o tempo de sua execução. 24

Nas solenidades de grande importância, Deus – “o creador do universo” – seria saudado com quatro “Anauês!”, somente pelo Chefe Nacional ou pelo seu representante.25

Pela complexidade das normas no que diz respeito às saudações, gestos, rituais e todas as demais obrigações do integralista para com o movimento e sua Pátria, era dever das sedes possuir uma biblioteca com todos os livros indicados na Bibliografia Integralista e os documentos normatizadores do movimento: o Manifesto de Outubro, “documento base da AIB”; Estatuto da Acção Integralista Brasileira; Directrizes Integralistas, “documento de orientação doutrinaria”; Manifesto Programma do Chefe Nacional; Regulamento das Secretarias Nacionaes; Regulamento do Conselho Technico Nacional; Regulamento dos Protocollos e Rituaes. Em complemento a esses textos, eram, ainda, obrigatórios a Constituição Federal em vigor; o Código eleitoral da República; Partitura do hino integralista e uma assinatura do Monitor Integralista.26

A chefia nacional ainda recomendava aos chefes Provinciais, Municipais e Distritais a aquisição de A Offensiva e das revistas Panorama e Anauê!, publicações oficiais da AIB no âmbito nacional.

Além disso, os jornais integralistas, vez ou outra, divulgavam trechos desses documentos ou algum escritor os comentava com intuito de fazer chegar a todos os integralistas os preceitos norteadores do movimento. Em A Offensiva n. 69, de 7 de setembro de 1935, p. 1, o texto “O uso da ‘camisa-verde’” discute como deve agir quem faz uso desse uniforme. Na edição n. 647, de 18 de novembro de 1937, a doutrina do integralismo é discutida, na p.1, abordando os preceitos que guiam o modo de ser integralista, e na de n. 573, de 11 de julho de 1937, p. 14, Edith Monteiro discute “A doutrina integralista”, na



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