AçÃo integralista brasileira: a educaçÃo do corpo por meio dos ritos e dos símbolos



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A EDUCAÇÃO DO CORPO POR MEIO DOS RITOS E DOS SÍMBOLOS NA AÇÃO INTEGRALISTA BRASILEIRA

Dr.ª Renata Duarte Simões

Universidade de São Paulo – USP

renasimoes@hotmail.com

Palavras-Chave: Ação Integralista Brasileira; educação do corpo; ritos e símbolos.
A Ação Integralista Brasileira (AIB), movimento social de grande repercussão política que emerge no Brasil em vias de modernização, foi fundada no dia 7 de outubro de 1932, sob forte sentimento nacionalista, com leitura do “Manifesto Integralista” em reunião solene no Teatro Municipal de São Paulo.

Organizada por Plínio Salgado, eleito Chefe Nacional perpétuo e supremo, a AIB tornou-se, em curto período de tempo, o primeiro partido de massa do País. Possuía Núcleos organizados em todo território nacional, contando, em 1937, segundo informações presentes no jornal Monitor Integralista,1 com mais de um milhão de adeptos.2

Para ordenar a ação do militante, a AIB estruturou um conjunto de dispositivos ditando regras, normas e rituais a serem seguidos “fielmente” por seus membros. Essa ordenação instituía moral e corporalmente o integralista no movimento e na sociedade, e a ela os integralistas estavam submetidos e deviam obediência incontestável.

Diante dos inúmeros investimentos que AIB realizou para ordenar a ação de seus militantes, a pesquisa, concluída em 2009,3 selecionou como objeto de estudo a “educação do corpo” elaborada e difundida pelo integralismo com a finalidade de disciplinar e preparar seus membros, tornando-os “soldados obstinados a defender a Nação”. Contudo, por ora, o recorte temático privilegia a análise unicamente dos dispositivos ritualísticos e simbólicos empregados pelo movimento para educar corporalmente homens e mulheres inscritos em suas fileiras.

Delimita-se o período a ser estudado entre 1932 e 1938, tendo como justificativa, para a data inicial, ser ela o ano de fundação da Ação Integralista Brasileira. Como justificativa para a data final, aponta a extinção da Associação Brasileira da Cultura (ABC), antiga AIB. Ao início do Governo ditatorial de Getúlio Vargas, em 1937, todos os partidos políticos são suprimidos, juntamente com eles, a Ação Integralista Brasileira que havia obtido o registro de partido político junto ao Superior Tribunal de Justiça Eleitoral. Em função da dissolução dos partidos políticos, a AIB, adaptando-se aos novos tempos, transformou-se novamente em sociedade civil com a denominação de Associação Brasileira da Cultura (ABC), funcionando assim até 1938, quando foi completamente extinta e seus líderes foram enviados para o exílio.

O Estudo realiza um diálogo com os “Protocollos” publicados em O Monitor Integralista, jornal fundamentalmente doutrinário e prescritivo do movimento que se encontra no Acervo Plínio Salgado do Arquivo Público e Histórico do Município de Rio Claro-SP, ou seja, com as diretrizes que orientavam os rituais e usos dos símbolos no integralismo. A proposta é que se observem, nos “Protocollos”, elaborados pelo mais alto grau hierárquico do integralismo, ou seja, por Plínio Salgado, as prescrições aos militantes do movimento. Os protocolos da AIB impunham que os “camisas-verdes” obedecessem sem discutir às ordens superiores, cometendo falta gravíssima quem a elas transgredisse. As ordens e ações de Salgado – Chefe com plenos poderes deliberativos, a quem todos responderiam – eram inquestionáveis, sofrendo pena de exclusão automática os “camisas-verdes” que as comentassem.

Obedecendo sempre, a vida do integralista deveria servir de modelo aos demais. Deveria ser ele franco, esforçado, pontual, disciplinado, corajoso e despido de vaidade, praticando “[...] todas as virtudes que dignificam o homem e [abstendo-se] de tudo que o possa comprometter perante o Sigma e a sociedade”.4

Para propagar a doutrina da obediência, a AIB não poupou esforços na redação e na publicação de diversos documentos, orientando os integralistas no modo de ser e estar no movimento, entre os quais os “Doze princípios da doutrina integralista”, as “Diretrizes integralistas”, os “Protocollos e Rituais”.5 Nesses textos disciplinadores e divulgadores da doutrina, ficam estabelecidos os princípios pelos quais, supostamente, a AIB orientaria a sua causa.

Esses documentos tratam do uso do uniforme, dos distintivos e insígnias, das cerimônias e solenidades, das reuniões, dos hinos, bandeiras, dos cumprimentos, juramentos e de vários outros dispositivos que foram marcantes na disciplinarização de seus quadros. Esses documentos foram publicados nos jornais, de modo fragmentado por vezes, a fim de popularizar e fazer conhecer as normas e usos integralistas.
O uniforme e as saudações: os símbolos e rituais que “educam”/disciplinam o corpo

O uso da camisa/blusa verde6 foi amplamente adotado nos anos de funcionamento da AIB. Um dos mais importantes símbolos do integralismo aparece – em jornais, revistas, documentos – vestindo os integralistas de diferentes classes, raças e gêneros, nos eventos de maior e menor porte promovidos pelo movimento.

Conferindo identidade ao usuário, o uniforme tornava-o parte da AIB, fazia dele a representação de um nacionalista, apaixonado por sua Pátria. A camisa/blusa verde fazia reconhecer o militante corajoso e destemido, pronto para lutar por seu País, para arriscar tudo pela sua Nação e pelos ideais integralistas. A roupa tinha a função primordial de dar corpo ao movimento de Plínio Salgado. O uniforme causava um efeito “integralizante” e gerava uma estética particular à doutrina partidária, constituindo-se importante fator na expressão e afirmação do movimento integralista.7

O uniforme era de uso obrigatório para todos os integralistas que ocupassem cargos no movimento, quando no exercício de suas funções ou em reuniões e solenidades oficiais da AIB. Aos demais integralistas só era exigido o uso da camisa/blusa verde nas concentrações e desfiles em que tomavam parte, ou quando era determinado por algum superior hierárquico.

Contudo, apesar da desobrigação do uso do uniforme em solenidades distintas das concentrações e desfiles integralistas, segundo o parágrafo único do Art. 31 dos “Protocollos e Rituais”, membros da AIB aparecem nas fotografias utilizando a camisa/blusa verde em diversas ocasiões, como casamentos, batismos, aniversários, etc.

Compreende-se que o integralista deveria fazer uso do uniforme o maior tempo que lhe fosse possível e sempre que necessário, independentemente de sua obrigatoriedade. O militante deveria demonstrar altivez e brio ao vestir seu uniforme. Tal afirmativa fundamenta-se nas orientações do regulamento “Protocollos e Rituaes”, publicado no Monitor Integralista n.18:

Art. 32 – Todo integralista é obrigado a ter sempre prompta, pra ser vestida a qualquer momento a sua camisa verde. Sendo ella um symbolo de seu idealismo, todo o integralista deve ter orgulho de envergal-a. Mesmo viajando em caracter particular, deve conduzir na mala a sua camisa verde.8

Para fins administrativos, o uniforme realizava a função de organizar as fileiras, de possibilitar a visibilidade de uma estrutura hierárquica e de identificar os membros da AIB e suas respectivas funções, facilitando a ação de uma rede de controle. O uso do uniforme impunha ao próprio usuário uma gama de regras e comportamentos a serem seguidos com intuito de disciplinar e de demonstrar disciplina:


Art. 33 – Quando o integralista enverga a camisa verde [...] fica expressamente prohibido de:

a) tomar bebida alcoólica em lugares públicos;

b) dansar, a não ser em casas particulares ou em festas constituídas exclusivamente de integralistas e pessoas que tiverem ingresso entre os integralistas;

c) jogar jogos de azar ou assistir a esses jogos;

d) frequentar cassinos ou lugares duvidosos.9

Era preciso que dissessem que o integralista jamais frequenta casas de jogos ou de tolerância, que não se embriaga ou que não tem qualquer vício, que, sendo casado, não “deixa de cumprir os deveres de esposo e de pae”, que não seja “um ridículo conquistador ou condescendente para com incorreções familiares”, que não se “imiscua em desordens”, que não compareça em rodinhas de politiqueiros ou ande em companhias reprováveis, que não seja incorreto em seus negócios particulares ou comerciais.10

Em hipótese alguma a camisa/blusa verde poderia ser utilizada no carnaval ou quando houvesse ordem superior contrária. Independentemente do clima, ao uniforme veste alguma poderia ser sobreposta, inclusive paletós e casacos. Em sinal de respeito, a camisa/blusa verde não poderia ser utilizada com as mangas arregaçadas ou por fora da calça. Deveria, ainda, ser confeccionada de preferência com tecido de brim ou de algodão de fabricação nacional.11

E


Miguel Reale, secretário nacional de doutrina e estudos. Acervo do Arquivo Municipal de Rio Claro/SP.
m caso de prisão, pela prática de crime comum, o integralista deveria pedir permissão para retirar a camisa verde antes de adentrar delegacias. Quando a prisão fosse motivada por perseguição política, o integralista poderia permanecer no cárcere com o uniforme desde que isso fosse permitido pela autoridade responsável.

Essas orientações para o uso da camisa/blusa verde demonstram uma preocupação em evitar que o comportamento de um integralista “indisciplinado”, “desordeiro”, prestasse como argumento para análise e crítica de todo o movimento.

A camisa/blusa verde determinava e ordenava um comportamento, um modo de ser e estar na sociedade. O uniforme era elemento de um conjunto de dispositivos que instituía o “ser integralista”. Nesse sentido, além de evitar que o todo fosse tomado pela parte indisciplinada, a preocupação era de que o “mau” exemplo12 fosse seguido pelos demais.

Aprovado pelo Ministério da Guerra em junho de 1934, o uniforme integralista era composto de camisa na cor verde “inglez”, de mangas compridas, com colarinho pregado e preso por botões nas pontas; passadeiras com 6 cm na base e 5 cm nas pontas no formato de semicírculo, terminando a 1 cm do colarinho; dois bolsos à altura do peito; no terço médio do braço esquerdo, um circulo branco com 9,5 cm de diâmetro circuncidado por um circulo preto e sobre o campo branco um Sigma preto. Sobre a camisa, uma gravata de tecido liso preto deveria ser utilizada e na cabeça um gorro verde da cor da camisa, com um distintivo semelhante ao do braço, colocado do lado direito. Calças pretas ou brancas deveriam vestir os homens.




“Blusas-verdes”. Acervo do Arquivo Municipal de Rio Claro/SP.

Para as mulheres, seria adotada a camisa no mesmo modelo que a dos homens ou a blusa de meia manga com a gola aberta, ambas em combinação com a saia preta ou branca. Na cabeça, deveria a “blusa-verde” usar um chapéu branco com fita de gorgorão preto.

Buscava-se demonstrar, nas imagens, homogeneidade. Para que os “camisas-verdes” parecessem um só –



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